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Published by evertonlopes2012, 2020-04-03 15:17:03

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir

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Título original: LE DEUXIÈME SEXE Copyright © Éditions Gallimard 1949 Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada eestocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite. 2ª edição EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.Rua Bambina, 25 – Botafogo – 22251-050Rio de Janeiro – RJ – BrasilTel.: (21) 2131-1111 – Fax: (21) 2286-6755http://www.novafronteira.com.bre-mail: [email protected] Tradução do texto da página 9 de Alcida Brant. Texto revisto pelo novo Acordo Ortográfico CIP-Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ __________________________________________________________ B352s Beauvoir, Simone de, 1908-19862.ed. O segundo sexo / Simone de Beauvoir ; tradução Sérgio Milliet. - 2.ed. - Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2009. 2v. Tradução de: Le deuxième sexe Conteúdo: v.1. Fatos e mitos - v.2. A experiência vivida ISBN 978-85-209-3913-0 1. Mulheres. I. Título. CDD 305.4 CDU 316.346.2-055.2


SumárioVolume 1 Introdução primeira parte Destino1/Os dados da biologia2/O ponto de vista psicanalítico3/O ponto de vista do materialismo histórico segunda parte História12345 terceira parte Os mitos12 I/Montherlant ou o pão do nojo II/D. H. Lawrence ou o orgulho fálico III/Claudel ou a serva do Senhor IV/Breton ou a poesia V/Stendhal ou o romanesco do verdadeiro VI3Volume 2 Introdução primeira parte Formação1/Infância2/A jovem3/A iniciação sexual4/A lésbica segunda parte Situação1/A mulher casada2/A mãe3/A vida social4/Prostitutas e cortesãs5/Da maturidade à velhice6/Situação e caráter da mulher terceira parte Justificações1/A narcisista2/A apaixonada3/A mística quarta parte A caminho da libertaçãoA mulher independente ConclusãoNotas


Simone de Beauvoir, em suas memórias, nos dá a conhecer sua vida e sua obra. Quatro volumes foram publicados entre 1958 e 1972: Memórias de umamoça bem-comportada, A força da idade, A força das coisas e Balanço final. A estes, se uniu a narrativa Uma morte muito suave, de 1964. A amplidãodesse empreendimento autobiográfico encontra sua justificativa numa contradição essencial ao escritor: a impossibilidade de escolher entre a alegriade viver e a necessidade de escrever; de um lado, o esplendor do contingente, do outro, o rigor salvador. Fazer da própria existência o objeto de suaobra era, em parte, solucionar esse dilema.Simone de Beauvoir nasceu em Paris, a 9 de janeiro de 1908. Até terminar a educação básica, estudou no Curso Désir, de rigorosa orientação católica.Tendo conseguido o certificado professora de filosofia em 1929, deu aulas em Marseille, Rouen e Paris até 1943. Quando o espiritual domina, finalizadobem antes da Segunda Guerra Mundial, só veio a ser publicado em 1979. A convidada, de 1943, deve ser considerado sua estreia literária. Seguiram-seentão O sangue dos outros, de 1945, Todos os homens são mortais, de 1946, Os mandarins — romance que lhe valeu o Prêmio Goncourt em 1954 —, Asbelas imagens, de 1966, e A mulher desiludida, de 1968.Além do famoso O segundo sexo, publicado em 1949 e desde então obra de referência do movimento feminista mundial, a obra teórica de Simone deBeauvoir compreende numerosos ensaios filosóficos, e por vezes polêmicos, entre os quais se destaca A velhice, de 1970. Escreveu também para oteatro e relatou algumas de suas viagens ao exterior em dois livros.Depois da morte de Sartre, Simone de Beauvoir publicou A cerimônia do adeus, em 1981, e as Cartas a Castor, em 1983, o qual reúne uma parte daabundante correspondência que ele lhe enviou. Até o dia de sua morte, 14 de abril de 1986, colaborou ativamente para a revista fundada porambos, Les Temps modernes, e manifestou, de diferentes e incontáveis maneiras, sua solidariedade total ao feminismo.


a JACQUES BOST Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher. PITÁGORAS Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte. POULAIN DE LA BARRE


Introdução Hesitei muito tempo em escrever um livro sobre a mulher. O tema é irritante, principalmente para as mulheres. E não é novo. A querela do feminismodeu muito que falar: agora está mais ou menos encerrada. Não toquemos mais nisso... No entanto, ainda se fala dela. E não parece que as volumosastolices que foram ditas neste último século tenham realmente esclarecido a questão. Ademais, haverá realmente um problema? Em que consiste? Emverdade, haverá mulher? Sem dúvida, a teoria do eterno feminino ainda tem adeptos; cochicham: “Até na Rússia elas permanecem mulheres.” Masoutras pessoas igualmente bem informadas — e por vezes as mesmas — suspiram: “A mulher está se perdendo, a mulher está perdida.” Não sabemosmais exatamente se ainda existem mulheres, se existirão sempre, se devemos ou não desejar que existam, que lugar ocupam ou deveriam ocupar nomundo. “Onde estão as mulheres?”, indagava há pouco uma revista intermitente.1 Mas antes de mais nada: o que é uma mulher? “Tota mulier in utero:é uma matriz”, diz alguém. Entretanto, falando de certas mulheres, os conhecedores declaram: “Não são mulheres”, embora tenham um útero como asoutras. Todo mundo concorda que há fêmeas na espécie humana; constituem hoje, como outrora, mais ou menos a metade da humanidade; e contudodizem-nos que a feminilidade “corre perigo”; e exortam-nos: “Sejam mulheres, permaneçam mulheres, tornem-se mulheres.” Todo ser humano do sexofeminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade. Será estasecretada pelos ovários? Ou estará congelada no fundo de um céu platônico? E bastará uma saia fru-fru para fazê-la descer à Terra? Embora certasmulheres se esforcem por encarná-lo, o modelo nunca foi registrado. Descreveram-no de bom grado em termos vagos e mirabolantes que parecemtirados de empréstimo do vocabulário das videntes. No tempo de são Tomás, ela se apresentava como uma essência tão precisamente definida quanto avirtude dormitiva da papoula. Mas o conceitualismo perdeu terreno: as ciências biológicas e sociais não acreditam mais na existência de entidadesimutavelmente fixadas, que definiriam determinadas características como as da mulher, do judeu ou do negro; consideram o comportamento como umareação secundária a uma situação. Se hoje não há mais feminilidade, é porque nunca houve. Isso significa que a palavra “mulher” não tem nenhumconteúdo? É o que afirmam vigorosamente os partidários da filosofia das luzes, do racionalismo, do nominalismo: as mulheres, entre os seres humanos,seriam apenas os designados arbitrariamente pela palavra “mulher”. Os norte-americanos, em particular, pensam que a mulher, como mulher, nãoexiste mais; se uma retardada ainda se imagina mulher, as amigas aconselham-na a procurar um psicanalista para se livrar dessa obsessão. A propósitode uma obra, de resto assaz irritante, intitulada Modern Woman: a Lost Sex, Dorothy Parker escreveu: “Não posso ser justa em relação aos livros quetratam da mulher como mulher... Minha ideia é que todos, homens e mulheres, o que quer que sejamos, devemos ser considerados seres humanos.”Mas o nominalismo é uma doutrina um tanto limitada; e os antifeministas não têm dificuldade em demonstrar que as mulheres não são homens. Semdúvida, a mulher é, como o homem, um ser humano. Mas tal afirmação é abstrata; o fato é que todo ser humano concreto sempre se situa de um modosingular. Recusar as noções de eterno feminino, alma negra, caráter judeu, não é negar que haja hoje judeus, negros e mulheres; a negação nãorepresenta para os interessados uma libertação, e sim uma fuga inautêntica. É claro que nenhuma mulher pode pretender sem má-fé situar-se além deseu sexo. Uma escritora conhecida recusou-se a deixar que saísse seu retrato numa série de fotografias consagradas precisamente às mulheresescritoras: queria ser incluída entre os homens, mas para obter esse privilégio utilizou a influência do marido. As mulheres que afirmam serem homensnão dispensam, contudo, as delicadezas e as homenagens masculinas. Lembro-me também de uma jovem trotskista em pé num estrado, no meio de umcomício violento, que se dispunha a dar socos, apesar de sua evidente fragilidade; negava sua fraqueza feminina; mas era por amor a um militante aquem desejava ser igual. A atitude de desafio dentro da qual se crispam as norte-americanas prova que elas são dominadas pelo sentimento de suafeminilidade. E, em verdade, basta passear de olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de indivíduos, cujasroupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes, interesses, ocupações são manifestamente diferentes: talvez essas diferenças sejam superficiais, talvez sedestinem a desaparecer. O certo é que por enquanto elas existem com uma evidência total.Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, aindaque provisoriamente, que há mulheres na Terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?O próprio enunciado do problema sugere-me uma primeira resposta. É significativo que eu apresente esse problema. Um homem não teria a ideia deescrever um livro sobre a situação singular que ocupam os machos na humanidade.2 Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: “Souuma mulher.” Essa verdade constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação. Um homem não começa nunca por se apresentar comoum indivíduo de determinado sexo: que seja homem é evidente. É de maneira formal, nos registros dos cartórios ou nas declarações de identidade, queas rubricas, masculino, feminino, aparecem como simétricas. A relação dos dois sexos não é a das duas eletricidades, de dois polos. O homemrepresenta a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos “os homens” para designar os seres humanos, tendo-se assimilado ao sentido singulardo vocábulo latino vir o sentido geral do vocábulo homo. A mulher aparece como o negativo, de modo que toda determinação lhe é imputada comolimitação, sem reciprocidade. Agastou-me, por vezes, no curso de conversações abstratas, ouvir os homens dizerem a mim: “Você pensa assim porque éuma mulher.” Mas eu sabia que minha única defesa era responder: “Penso-o porque é verdadeiro”, eliminando assim minha subjetividade. Não setratava, em hipótese alguma, de replicar: “E você pensa o contrário porque é um homem”, pois está subentendido que o fato de ser um homem não éuma singularidade; um homem está em seu direito sendo homem, é a mulher que está errada. Praticamente, assim como para os antigos havia umavertical absoluta em relação à qual se definia a oblíqua, há um tipo humano absoluto que é o tipo masculino. A mulher tem ovários, um útero; eis ascondições singulares que a encerram na sua subjetividade; diz-se de bom grado que ela pensa com suas glândulas. O homem esquece soberbamenteque sua anatomia também comporta hormônios e testículos. Encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo, que acredita apreenderna sua objetividade, ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica: um obstáculo, uma prisão. “A fêmea é fêmeaem virtude de certa carência de qualidades”, diz Aristóteles. “Devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural.”E são Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um “homem incompleto”, um ser “ocasional”. É o que simboliza a história do Gênese, em que Evaaparece como extraída, segundo Bossuet, de um “osso supranumerário” de Adão. A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si,mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. “A mulher, o ser relativo...”, diz Michelet. E é por isso que Benda afirma em Rapportd’Uriel: “O corpo do homem tem um sentido em si, abstração feita do da mulher, ao passo que este parece destituído de significação se não se evoca omacho... O homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem.” Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o “sexo” para dizerque ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem, e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.3A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. Nas mais primitivas sociedades, nas mais antigas mitologias encontra-se sempre umadualidade que é a do Mesmo e do Outro. A divisão não foi estabelecida inicialmente sob o signo da divisão dos sexos, não depende de nenhum dadoempírico: é o que se conclui, entre outros, dos trabalhos de Granet sobre o pensamento chinês, de Dumézil sobre as Ín dias e Roma. Nos pares Varuna-Mitra, Urano-Zeus, Sol-Lua, Dia-Noite, nenhum elemento feminino se acha implicado a princípio; nem tampouco na oposição do Bem e Mal, dosprincípios fastos e nefastos, da direita e da esquerda, de Deus e Lúcifer; a alteridade é uma categoria fundamental do pensamento humano. Nenhumacoletividade se define nunca como Uma sem colocar imediatamente a Outra diante de si. Bastam três viajantes reunidos por acaso num mesmocompartimento para que todos os demais viajantes se tornem “os outros” vagamente hostis. Para os habitantes de uma aldeia, todas as pessoas que nãopertencem ao mesmo lugarejo são “outros” e suspeitos; para os habitantes de um país, os habitantes de outro país são considerados “estrangeiros”. Osjudeus são “outros” para o antissemita, os negros para os racistas norte-americanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dosproprietários. Ao fim de um estudo aprofundado das diversas figuras das sociedades primitivas, Lévi-Strauss pôde concluir: “A passagem do estadonatural ao estado cultural define-se pela aptidão por parte do homem em pensar as relações biológicas sob a forma de sistemas de oposições: adualidade, a alternância, a oposição e a simetria, que se apresentam sob formas definidas ou formas vagas, constituem menos fenômenos a seremexplicados que os dados fundamentais e imediatos da realidade social.”4 Tais fenômenos não se compreenderiam se a realidade humana fosseexclusivamente um mitsein baseado na solidariedade e na amizade. Esclarecem-se, ao contrário, se, segundo Hegel, descobrimos na própriaconsciência uma hostilidade fundamental em relação a qualquer outra consciência; o sujeito só se põe em se opondo: ele pretende afirmar-se comoessencial e fazer do outro o inessencial, o objeto.Só que a outra consciência lhe opõe uma pretensão recíproca: em viagem, o na tivo percebe com espanto que há, nos países vizinhos, nativos que oencaram, eles também, como estrangeiro; entre aldeias, clãs, nações, classes, há guerras, potlatchs, mercados, tratados, lutas que tiram o sentidoabsoluto da ideia do Outro e descobrem-lhe a relatividade; por bem ou por mal os indivíduos e os grupos são obrigados a reconhecer a reciprocidade desuas relações. Como se entende, então, que entre os sexos essa reciprocidade não tenha sido colocada, que um dos termos se tenha imposto como oúnico essencial, negando toda relatividade em relação a seu correlativo, definindo este como a alteridade pura? Por que as mulheres não contestam asoberania do macho? Nenhum sujeito se define imediata e espontaneamente como o inessencial; não é o Outro que se definindo como Outro define oUm; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto devista alheio. De onde vem essa submissão na mulher?Existem outros casos em que, durante um tempo mais ou menos longo, uma categoria conseguiu dominar totalmente a outra. É muitas vezes adesigualdade numérica que confere esse privilégio: a maioria impõe sua lei à minoria ou a persegue. Mas as mulheres não são, como os negros dosEstados Unidos ou os judeus, uma minoria; há tantos homens quantas mulheres na Terra. Não raro, também, os dois grupos em presença foraminicialmente independentes; ignoravam-se antes ou admitiam cada qual a autonomia do outro; e foi um acontecimento histórico que subordinou o maisfraco ao mais forte: a diáspora judaica, a introdução da escravidão na América, as conquistas coloniais são fatos precisos. Nesses casos, para osoprimidos, houve um passo à frente: têm em comum um passado, uma tradição, por vezes uma religião, uma cultura. Nesse sentido, a aproximaçãoestabelecida por Bebel entre as mulheres e o proletariado seria mais lógica: os proletários tampouco estão em estado de inferioridade e nuncaconstituíram uma coletividade separada. Entretanto, na falta de um acontecimento, é um desenvolvimento histórico que explica sua existência comoclasse e mostra a distribuição desses indivíduos dentro dessa classe. Nem sempre houve proletários, sempre houve mulheres. Elas são mulheres emvirtude de sua estrutura fisiológica; por mais longe que se remonte na história, sempre estiveram subordinadas ao homem: sua dependência não éconsequência de um evento ou de uma evolução, ela não aconteceu. É, em parte, porque escapa ao caráter acidental do fato histórico que a alteridade


aparece aqui como um absoluto. Uma situação que se criou através dos tempos pode desfazer-se num dado tempo: os negros do Haiti, entre outros, oprovaram bem. Parece, ao contrário, que uma condição natural desafia qualquer mudança. Em verdade, a natureza, como a realidade histórica, não éum dado imutável. Se a mulher se enxerga como o inessencial que nunca retorna ao essencial é porque não opera, ela própria, esse retorno. Osproletários dizem “nós”. Os negros também. Apresentando-se como sujeitos, eles transformam em “outros” os burgueses, os brancos. As mulheres —salvo em certos congressos que permanecem manifestações abstratas — não dizem “nós”. Os homens dizem “as mulheres” e elas usam essas palavraspara se designarem a si mesmas: mas não se põem autenticamente como Sujeito. Os proletários fizeram a revolução na Rússia, os negros, no Haiti, osindochineses bateram-se na Indochina: a ação das mulheres nunca passou de uma agitação simbólica; só ganharam o que os homens concordaram emlhes conceder; elas nada tomaram; elas receberam.5 Isso porque não têm os meios concretos de se reunir em uma unidade que se afirmaria em seopondo. Não têm passado, não têm história nem religião própria; não têm, como os proletários, uma solidariedade de trabalho e interesses; não hásequer entre elas essa promiscuidade espacial que faz dos negros dos EUA, dos judeus dos guetos, dos operários de Saint-Denis ou das fábricas Renaultuma comunidade. Vivem dispersas entre os homens, ligadas pelo habitat, pelo trabalho, pelos interesses econômicos, pela condição social a certoshomens — pai ou marido — mais estreitamente do que a outras mulheres. Burguesas são solidárias dos burgueses e não das mulheres proletárias;brancas, dos homens br ancos e não das mulheres negras. O proletariado poderia propor-se o trucidamento da classe dirigente; um judeu, um negrofanático poderiam sonhar com possuir o segredo da bomba atômica e constituir uma humanidade inteiramente judaica ou inteiramente negra: masmesmo em sonho a mulher não pode exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro. A divisão dos sexosé, com efeito, um dado biológico, e não um momento da história humana. É no seio de um mitsein original que sua oposição se formou e ela não adestruiu. O casal é uma unidade fundamental cujas metades se acham presas indissoluvelmente uma à outra: nenhum corte por sexos é possível nasociedade. Isso é o que caracteriza fundamentalmente a mulher: ela é o Outro dentro de uma totalidade cujos dois termos são necessários um ao outro.Poder-se-ia imaginar que essa reciprocidade teria facilitado a libertação; quando Hércules fia a lã aos pés de Ônfale, o desejo amarra-o: por que Ônfalenão conseguiu adquirir um poder durável? Para vingar-se de Jasão, Medeia mata os filhos: essa lenda selvagem sugere que, do laço que a liga à criança,a mulher teria podido tirar uma ascendência temível. Aristófanes imaginou complacentemente, em Lisístrata, uma assembleia de mulheres em queestas tentam explorar em comum, e para fins sociais, a necessidade que os homens têm delas, mas trata-se apenas de uma comédia. A lenda que afirmaque as sabinas raptadas opuseram a seus raptores uma esterilidade obstinada conta também que, fustigando-as com chicotes de couro, os homensquebraram magicamente essa resistência. A necessidade biológica — desejo sexual e desejo de posteridade — que coloca o macho sob a dependênciada fêmea não libertou socialmente a mulher. O senhor e o escravo estão unidos por uma necessidade econômica recíproca que não liberta o escravo. Éque, na relação do senhor com o escravo, o primeiro não expõe a necessidade que tem do outro; ele detém o poder de satisfazer essa necessidade e nãoa mediatiza; ao contrário, o escravo, na dependência, esperança ou medo, interioriza a necessidade que tem do senhor; a urgência da necessidade,ainda que igual em ambos, sempre favorece o opressor contra o oprimido: é o que explica que a libertação da classe proletária, por exemplo, tenha sidotão lenta. Ora, a mulher sempre foi, senão a escrava do homem, ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade decondições; e ainda hoje, embora sua condição esteja evoluindo, a mulher arca com um pesado handicap. Em quase nenhum país seu estatuto legal éidêntico ao do homem, e muitas vezes este último a prejudica consideravelmente. Mesmo quando os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, umlongo hábito impede que encontrem nos costumes sua expressão concreta. Economicamente, homens e mulheres constituem como que duas castas; emigualdade de condições, os primeiros têm situações mais vantajosas, salários mais altos, maiores possibilidades de êxito do que suas concorrentesrecém-chegadas. Ocupam, na indústria, na política etc., maior número de lugares e os postos mais importantes. Além dos poderes concretos quepossuem, revestem-se de um prestígio cuja tradição a educação da criança mantém: o presente envolve o passado e no passado toda a história foi feitapelos homens. No momento em que as mulheres começam a tomar parte na elaboração do mundo, esse mundo é ainda um mundo que pertence aoshomens. Eles bem o sabem, elas mal duvidam. Recusar ser o Outro, recusar a cumplicidade com o homem seria para elas renunciar a todas asvantagens que a aliança com a casta superior pode lhes conferir. O homem suserano protegerá materialmente a mulher vassala e se encarregará de lhejustificar a existência: com o risco econômico, ela esquiva o risco metafísico de uma liberdade que deve inventar seus fins sem auxílios. Efetivamente,ao lado da pretensão de todo indivíduo de se afirmar como sujeito, que é uma pretensão ética, há também a tentação de fugir de sua liberdade e de seconstituir em coisa. É um caminho nefasto porque passivo, alienado, perdido, e então esse indivíduo é presa de vontades estranhas, cortado de suatranscendência, frustrado de todo valor. Mas é um caminho fácil: evitam-se com ele a angústia e a tensão da existência autenticamente assumida. Ohomem que constitui a mulher como um Outro encontrará, nela, profundas cumplicidades. Assim, a mulher não se reivindica como sujeito porque nãopossui os meios concretos para tanto, porque sente o laço necessário que a prende ao homem sem reclamar a reciprocidade dele, e porque, muitasvezes, se compraz no seu papel de Outro.Mas uma questão imediatamente se apresenta: como tudo isso começou? Compreende-se que a dualidade dos sexos, como toda dualidade, tenha sidotraduzida por um conflito. Compreende-se que, se um dos dois conseguisse impor sua superioridade, esta deveria estabelecer-se como absoluta. Restaexplicar por que o homem venceu desde o início. Parece que as mulheres poderiam ter sido vitoriosas. Ou a luta poderia nunca ter tido solução. Por queeste mundo sempre pertenceu aos homens e só hoje as coisas começam a mudar? Será um bem essa mudança? Trará ou não uma partilha igual domundo entre homens e mulheres?Essas questões estão longe de ser novas; já lhes foram dadas numerosas respostas, mas o simples fato de ser a mulher o Outro contesta todas asjustificações que os homens lhe puderam dar: eram-lhes evidentemente ditadas pelo interesse. “Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheresdeve ser suspeito, porque eles são, a um tempo, juiz e parte”, escreveu, no século XVII, Poulain de la Barre, feminista pouco conhecido. Em toda parte eem qualquer época, os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação. “Bendito seja Deus nosso Senhor e o Senhor detodos os mundos por não me ter feito mulher”, dizem os judeus nas suas preces matinais, enquanto suas esposas murmuram com resignação: “Benditoseja o Senhor que me criou segundo a sua vontade.” Entre as mercês que Platão agradecia aos deuses, a maior se lhe afigurava o fato de ter sido criadolivre e não escravo e, a seguir, o de ser homem e não mulher. Mas os homens não poderiam gozar plenamente esse privilégio se não o houvessemconsiderado alicerçado no absoluto e na eternidade: de sua supremacia procuraram fazer um direito. “Os que fizeram e compilaram as leis, por seremhomens, favoreceram seu próprio sexo, e os jurisconsultos transformaram as leis em princípios”, diz ainda Poulain de la Barre. Legisladores,sacerdotes, filósofos, escritores e sábios empenharam-se em demonstrar que a condição subordinada da mulher era desejada no céu e proveitosa àTerra. As reli-giões forjadas pelos homens refletem essa vontade de domínio: buscaram argumentos nas lendas de Eva, de Pandora, puseram a filosofiae a teologia a serviço de seus desígnios, como vimos pelas frases citadas de Aristóteles e são Tomás. Desde a Antiguidade, moralistas e satíricosdeleitaram-se com pintar o quadro das fraquezas femininas. Conhecem-se os violentos requisitórios que contra elas se escreveram através de toda aliteratura francesa: Montherlant reata, com menor brilho, a tradição de Jean de Meung. Essa hostilidade parece, algumas vezes, justificável, mas namaior parte dos casos é gratuita. Na realidade, recobre uma vontade de autojustificação mais ou menos habilmente mascarada. “É mais fácil acusar umsexo do que desculpar o outro”, diz Montaigne. Em certos casos, o processo é evidente. É impressionante, por exemplo, que o código romano, a fim derestringir os direitos das mulheres, invoque “a imbecilidade, a fragilidade do sexo” no momento em que, pelo enfraquecimento da família, ela se tornaum perigo para os herdeiros masculinos. É impressionante que no século XVI, a fim de manter a mulher casada sob tutela, apele-se para a autoridadede santo Agostinho, declarando que “a mulher é um animal que não é nem firme nem estável”, enquanto à celibatária se reconhece o direito de gerirseus bens. Montaigne compreendeu muito bem a arbitrariedade e a injustiça do destino imposto à mulher: “Não carecem de razão as mulheres quandorecusam as regras que se introduziram no mundo, tanto mais quando foram os homens que as fizeram sem elas. Há, naturalmente, desentendimentos edisputas entre elas e nós”; mas ele não chega a defendê-las verdadeiramente. É somente no século XVIII que homens profundamente democratasencaram a questão com objetividade. Diderot, entre outros, esforça-se por demonstrar que a mulher é, como o homem, um ser humano. Um pouco maistarde, Stuart Mill defende-a com ardor. Mas esses filósofos são de uma imparcialidade excepcional. No século XIX, a querela do feminismo torna-senovamente uma querela de sectários; uma das consequências da revolução industrial é a participação da mulher no trabalho produtor: nesse momento,as reivindicações feministas saem do terreno teórico, encontram fundamentos econômicos; seus adversários fazem-se mais agressivos. Embora os bensde raiz se achem em parte abalados, a burguesia apega-se à velha moral que vê, na solidez da família, a garantia da propriedade privada: exige apresença da mulher no lar tanto mais vigorosamente quanto sua emancipação torna-se uma verdadeira ameaça; mesmo dentro da classe operária oshomens tentaram frear essa libertação, porque as mulheres são encaradas como perigosas concorrentes, habituadas que estavam a trabalhar porsalários mais baixos.6 A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não somente para a religião, a filosofia e a teologia, comono passado, mas ainda para a ciência: biologia, psicologia experimental etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo “a igualdade dentroda diferença”. Essa fórmula, que fez fortuna, é muito significativa: é exatamente a que utilizam em relação aos negros dos EUA as leis Jim Crow; ora,essa segregação, pretensamente igualitária, só serviu para introduzir as mais extremas discriminações. Esse encontro nada tem de ocasional: quer setrate de uma raça, de uma casta, de uma classe, de um sexo reduzidos a uma condição inferior, o processo de justificação é o mesmo. O “eternofeminino” é o homólogo da “alma negra” e do “caráter judeu”. O problema judaico é, de resto, em conjunto, muito diferente dos dois outros: o judeupara o antissemita é menos um inferior do que um inimigo e não se lhe reconhece neste mundo nenhum lugar próprio: o que se deseja é aniquilá-lo .Mas há profundas analogias entre a situação das mulheres e a dos negros: umas e outros emancipam-se hoje de um mesmo paternalismo, e a castaanteriormente dominadora quer mantê-los “em seu lugar”, isto é, no lugar que escolheu para eles; em ambos os casos, ela se expande em elogios maisou menos sinceros às virtudes do “bom negro”, de alma inconsciente, infantil e alegre, do negro resignado, da mulher “realmente mulher”, isto é,frívola, pueril, irresponsável, submetida ao homem. Em ambos os casos, tira seus argumentos do estado de fato que ela criou. Conhece-se o dito deBernard Shaw: “O americano branco relega o negro ao nível do engraxate; e conclui daí que só pode servir para engraxar sapatos.” Encontra-se essecírculo vicioso em todas as circunstâncias análogas: quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos é mantido numa situação de inferioridade, ele é defato inferior; mas é sobre o alcance da palavra ser que precisamos entender-nos; a má-fé consiste em dar-lhe um valor substancial quando tem o sentidodinâmico hegeliano: ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta. Sim, as mulheres, em seu conjunto, são hoje inferiores aos homens, istoé, sua situação oferece-lhes possibilidades menores: o problema consiste em saber se esse estado de coisas deve se perpetuar.Muitos homens o desejam: nem todos se desarmaram ainda. A burguesia conservadora continua a ver na emancipação da mulher um perigo que lheameaça a moral e os interesses. Certos homens temem a concorrência feminina. No Hebdo-Latin um estudante declarava há dias: “Toda estudante queconsegue uma posição de médico ou de advogado rouba-nos um lugar.” Esse rapaz não duvidava, um só instante, de seus próprios direitos sobre o


mundo. Não são somente os interesses econômicos que importam. Um dos benefícios que a opressão assegura aos opressores é de o mais humildedestes se sentir superior: um “pobre branco” do sul dos Estados Unidos tem o consolo de dizer a si próprio que não é “um negro imundo”, e os brancosmais ricos exploram habilmente esse org`ulho. Assim também o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres. Era muito maisfácil a Montherlant julgar-se um herói quando se confrontava com mulheres (escolhidas, de resto, a dedo) do que quando teve de desempenhar seupapel de homem entre os homens: papel que muitas mulheres desempenharam melhor do que ele. É assim que, em setembro de 1948, em um de seusartigos do Fígaro Littéraire, o sr. Claude Mauriac — cuja forte originalidade todos admiram — pôde escrever7 a respeito das mulheres: “Nós ouvimosnuma atitude (sic) de indiferença cortês... a mais brilhante dentre elas, sabendo muito bem que seu espírito reflete, de maneira mais ou menosbrilhante, ideias que vêm de nós.” Não são evidentemente as ideias do próprio sr. C. Mauriac que sua interlocutora reflete, dado que ele não temnenhuma; que ela reflita ideias que vêm dos homens é possível: entre os homens, mais de um considera suas muitas opiniões que não inventou; pode-seindagar se o sr. Claude Mauriac não teria interesse em entreter-se com um bom reflexo de Descartes, de Marx, de Gide, de preferência a entreter-seconsigo próprio. O que é notável é que mediante o equívoco do nós identifica-se ele com são Paulo, Hegel, Lenin, Nietzsche e do alto da grandeza delesconsidera com desdém o rebanho de mulheres que ousam falar-lhe em pé de igualdade. Para dizer a verdade, conheço muitas que não teriam apaciência de conceder ao sr. Mauriac “uma atitude de indiferença cortês”.Insisti nesse exemplo porque nele a ingenuidade masculina é desarmante. Há muitas outras maneira s mais sutis mediante as quais os homens tiramproveito da alteridade da mulher. Para todos os que sofrem de complexo de inferioridade, há nisso um linimento milagroso: ninguém é mais arroganteem relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de sua virilidade. Os que não se intimidam com seus semelhantesmostram-se também muito mais dispostos a reconhecer na mulher um semelhante. Mesmo a esses, entretanto, o mito da Mulher, o Outro, é caro pormuitas razões;8 não há como censurá-los por não sacrificarem de bom grado todas as vantagens que tiram disso; sabem o que perdem, renunciando àmulher tal qual a sonham, ignoram o que lhe trará a mulher tal qual ela será amanhã. É preciso muita abnegação para se recusar a apresentar-se comoo Sujeito único e absoluto. Aliás, a maioria dos homens não assume explicitamente essa pretensão. Eles não colocam a mulher como uma inferior; estãohoje demasiadamente compenetrados do ideal democrático para não reconhecer todos os seres humanos como iguais. No seio da família, a mulherapresenta-se à criança e ao jovem revestida da mesma dignidade social dos adultos masculinos; mais tarde ele sente no desejo e no amor a resistência,a independência, da mulher desejada e amada; casado, ele respeita na mulher a esposa, a mãe, e na experiência concreta da vida conjugal ela se afirmadiante dele como uma liberdade. O homem pode, pois, persuadir-se de que não existe mais hierarquia social entre os sexos e de que, grosso modo,através das diferenças, a mulher é sua igual. Como observa, entretanto, algumas inferioridades — das quais a mais importante é a incapacidadeprofissional —, ele as atribui à natureza. Quando tem para com a mulher uma atitude de colaboração e benevolência, ele tematiza o princípio daigualdade abstrata; e a desigualdade concreta que verifica, ele não a expõe. Mas, logo que entra em conflito com a mulher, a situação se inverte: eletematiza a desigualdade concreta e dela tira autoridade para negar a igualdade abstrata.9 Assim é que muitos homens afirmam quase com boa-fé que asmulheres são iguais aos homens e nada têm a reivindicar, e, ao mesmo tempo, que as mulheres nunca poderão ser iguais aos homens e que suasreivindicações são vãs. É que é difícil para o homem medir a extrema importância de discriminações sociais que parecem insignificantes de fora e cujasrepercussões morais e intelectuais são tão profundas na mulher que podem parecer ter suas raízes numa natureza original.10 Mesmo o homem maissimpático à mulher nunca lhe conhece bem a situação concreta. Por isso não há como acreditar nos homens quando se esforçam por defenderprivilégios cujo alcance não medem. Não nos deixaremos, portanto, intimidar pelo número e pela violência dos ataques dirigidos contra a mulher, nemnos impressionar com os elogios interesseiros que se fazem à “verdadeira mulher”; nem nos contaminar pelo entusiasmo que seu destino suscita entreos homens que por nada no mundo desejariam compartilhá-lo.Entretanto, não devemos ponderar com menos desconfiança os argumentos dos feministas: muitas ve zes, a preocupação polêmica tira-lhes todo valor.Se a “questão feminina” é tão absurda é porque a arrogância masculina fez dela uma “querela”, e quando as pessoas querelam não raciocinam bem. Oque se procurou infatigavelmente provar foi que a mulher é superior, inferior ou igual ao homem. Criada depois de Adão, é evidentemente um sersecundário, dizem uns; ao contrário, dizem outros, Adão era apenas um esboço e Deus alcançou a perfeição do ser humano quando criou Eva; seucérebro é o menor, mas é relativamente o maior; e se Cristo se fez homem foi possivelmente por humildade. Cada argu mento sugere imediatamenteseu contrário e não raro ambos são falhos... Se quisermos ver com clareza, devemos sair desses trilhos; precisamos recusar as noções vagas desuperioridade, inferioridade e igualdade que desvirtuaram todas as discussões e reiniciar do começo.Como poremos então a questão? E, antes de mais nada, quem somos nós para apresentá-la? Os homens são parte e juiz; as mulheres também. Ondeencontrar um anjo? Em verdade, um anjo seria mal indicado para falar, ignoraria todos os dados do problema; quanto ao hermafrodita, é um casodemasiado singular: não é homem e mulher ao mesmo tempo, mas antes nem homem nem mulher. Creio que para elucidar a situação da mulher sãoainda certas mulheres as mais indicadas. É um sofisma encerrar Epimênides no conceito de cretense e os cretenses no de mentiroso: não é umaessência misteriosa que determina a boa ou a má-fé nos homens e nas mulheres; é a situação deles que os predispõem mais ou menos à procura daverdade. Muitas mulheres de hoje, que tiveram a sorte de ver-lhes restituídos todos os privilégios do ser humano, podem dar-se ao luxo daimparcialidade; sentimos até a necessidade desse luxo. Não somos mais como nossas predecessoras: combatentes. De maneira global ganhamos apartida. Nas últimas discussões acerca do estatuto da mulher, a ONU não cessou de exigir que a igualdade dos sexos se realizasse completamente, emuitas de nós já não veem em sua feminilidade um embaraço ou um obstáculo; muitos outros problemas nos parecem mais essenciais do que os quenos dizem particularmente respeito; e esse próprio desinteresse permite-nos esperar que nossa atitude seja objetiva. Entretanto, conhecemos maisintimamente do que os homens o mundo feminino, porque nele temos nossas raízes; apreendemos mais imediatamente o que significa para um serhumano o fato de pertencer ao sexo feminino e preocupamo-nos mais com o saber. Disse que havia problemas mais essenciais, o que não impede queesse conserve a nossos olhos alguma importância: em que o fato de sermos mulheres terá afetado a nossa vida? Que possibilidades nos foramoferecidas, exatamente, e quais nos foram recusadas? Que destino podem esperar nossas irmãs mais jovens e em que sentido convém orientá-las? Éimpressionante que em seu conjunto a literatura feminina seja menos animada em nossos dias por uma vontade de reivindicação do que por um esforçode lucidez; ao sair de uma era de polêmicas desordenadas, este livro é uma tentativa, entre outras, de verificar em que pé se encontra a questão.Mas talvez seja impossível tratar qualquer problema humano sem preconceito: a própria maneira de abordar as questões, as perspectivas adotadaspressupõem uma hierarquia de interesses: toda qualidade envolve valores. Não há descrição, dita objetiva, que não se erga sobre um fundo ético. Emvez de tentar dissimular os princípios que se subentendem mais ou menos explicitamente, cumpre examiná-los. Desse modo, não somos obrigadas aprecisar em cada página que sentido se dá às palavras superior, inferior, melhor, pior, progresso, retrocesso etc. Se passamos em revista algumasdessas obras consagradas à mulher, vemos que um dos pontos de vista mais comumente adotados é o do bem público, do interesse geral; em verdade,cada um entende, com isso, o interesse da sociedade tal qual deseja manter ou estabelecer. Quanto a nós, estimamos que não há outro bem públicosenão o que assegura o bem individual dos cidadãos. É do ponto de vista das oportunidades concretas dadas aos indivíduos que julgamos asinstituições. Mas não confundimos tampouco a ideia de interesse privado com a de felicidade, ponto de vista que se encontra frequentemente. Asmulheres de harém não são mais felizes do que uma eleitora? Não é a dona de casa mais feliz do que a operária? Não se sabe muito precisamente o quesignifica a palavra felicidade, nem que valores autênticos ela envolve. Não há nenhuma possibilidade de medir a felicidade de outrem e é sempre fácildeclarar feliz a situação que se lhe quer impor. Os que condenamos à estagnação, nós os declaramos felizes sob o pretexto de que a felicidade é aimobilidade. É, portanto, uma noção a que não nos referiremos. A perspectiva que adotamos é a da moral existencialista. Todo sujeito coloca-seconcretamente através de projetos como uma transcendência; só alcança sua liberdade pela sua constante superação em vista de outras liberdades;não há outra justificação da existência presente senão sua expansão para um futuro indefinidamente aberto. Cada vez que a transcendência cai naimanência, há degradação da existência em “em si”, da liberdade em facticidade; essa queda é uma falha moral, se consentida pelo sujeito. Se lhe éinfligida, assume o aspecto de frustração ou opressão. Em ambos os casos, é um mal absoluto. Todo indivíduo que se preocupa em justificar suaexistência sente-a como uma necessidade indefinida de se transcender. Ora, o que define de maneira singular a situação da mulher é que, sendo, comotodo ser humano, uma liberdade autônoma, descobre-se e escolhe-se num mundo em que os homens lhe impõem a condição do Outro. Pretende-setorná-la objeto, votá-la à imanência, porquanto sua transcendência será perpetuamente transcendida por outra consciência essencial e soberana. Odrama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito que se põe sempre como o essencial e as exigências de uma situaçãoque a constitui como inessencial. Como pode realizar-se um ser humano dentro da condição feminina? Que caminhos lhe são abertos? Quais conduzema um beco sem saída? Como encontrar a independência no seio da dependência? Que circunstâncias restringem a liberdade da mulher, e quais pode elasuperar? São essas algumas questões fundamentais que desejaríamos elucidar. Isso quer dizer que, interessando-nos pelas oportunidades dosindivíduos, não as definiremos em termos de felicidade, e sim em termos de liberdade.É evidente que esse problema não teria nenhum sentido se supuséssemos que pesa sobre a mulher um destino fisiológico, psicológico ou econômico.Por isso, começaremos por discutir os pontos de vista da biologia, da psicanálise e do materialismo histórico acerca da mulher. Tentaremos mostrar, emseguida, positivamente, como “a realidade feminina” constituiu-se, por que a mulher foi definida como o Outro e quais foram as consequências do pontode vista masculino. Descreveremos então, do ponto de vista das mulheres, o mundo que lhes é proposto;11 e poderemos compreender contra quedificuldades se chocam no momento em que, procurando evadir-se da esfera que lhes foi assinalada até o presente, elas pretendem participar domitsein humano.


1/Os dados da biologiaA mulher? É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário; é uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la. Na bocado homem o epíteto “fêmea” soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha de sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se deledizem: “É um macho!” O termo “fêmea” é pejorativo não porque enraíza a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo. E se esse sexoparece ao homem desprezível e inimigo, mesmo nos bichos inocentes, é evidentemente por causa da inquieta hostilidade que a mulher suscita nohomem; entretanto, ele quer encontrar na biologia uma justificação desse sentimento. A palavra fêmea sugere-lhe uma chusma de imagens: um enormeóvulo redondo abocanha e castra o ágil espermatozoide; monstruosa e empanturrada, a rainha das térmitas reina sobre os machos escravizados; afêmea do louva-a-deus e a aranha, farta s de amor, matam o parceiro e o devoram; a cadela no cio erra pelas vielas, deixando atrás de si um rastro deodores perversos; a macaca exibe-se impudentemente e se recusa com faceirice hipócrita; as mais soberbas feras, a tigresa, a leoa, a pantera, deitam-se servilmente para a imperial posse do macho. Inerte, impaciente, matreira, estúpida, insensível, lúbrica, feroz, humilhada, o homem projeta namulher todas as fêmeas ao mesmo tempo. E o fato é que ela é uma fêmea. Mas s e quisermos deixar de pensar por lugares-comuns duas perguntas logose impõem: Que representa a fêmea no reino animal? E que espécie singular de fêmea se realiza na mulher? * * * Machos e fêmeas são dois tipos de indivíduos que, no interior de uma espécie, se diferenciam em vista da reprodução: só podemos defini-loscorrelativamente. Mas é preciso observar que o próprio sentido do seccionamento das espécies em dois sexos não é muito claro.Na Natureza ela não se acha universalmente realizada. Para só falar dos animais, sabe-se que entre os unicelulares — infusórios, amebas, bacilos etc. —a multiplicação é fundamentalmente distinta da sexualidade, com as células dividindo-se e subdividindo-se solitariamente. Entre alguns metazoários, areprodução opera-se por esquizogênese, isto é, fracionamento do indivíduo cuja origem é também assexuada; ou por blastogênese, isto é,fracionamento do indivíduo produzido ele próprio por um fenômeno sexual; os fenômenos de gemiparidade e de segmentação observados na hidra deágua doce, nos celenterados, nas esponjas, nos vermes, nos tunicários são exemplos conhecidos. Nos fenômenos de partenogênese, o ovo virgemdesenvolve-se em embrião sem intervenção do macho; este não desempenha papel algum ou apenas um papel secundário: os ovos de abelha nãofecundados subdividem-se e produzem zangãos; entre os pulgões não existem machos durante uma série de gerações, e os ovos não fecundados dãofêmeas. Reproduziu-se artificialmente a partenogênese no ouriço-do-mar, na estrela-do-mar, na rã. Entretanto, entre os protozoários, às vezes duascélulas femininas fusionam, formando o que se chama um zigoto; a fecundação é necessária para que os ovos da abelha gerem fêmeas e para que osdos pulgões deem machos. Certos biólogos chegaram à conclusão de que, mesmo nas espécies capazes de se perpetuarem de maneira unilateral, arenovação do germe mediante uma mistura de cromossomos estranhos seria útil ao rejuvenescimento e ao vigor da linhagem; compreenderíamos assimque, nas formas mais complexas da vida, a sexualidade é uma função indispensável. Somente os organismos elementares poderiam multiplicar-se semsexos e ainda assim esgotando sua vitalidade. Mas essa hipótese é hoje das mais controvertidas; observações provaram que a multiplicação assexuadapode verificar-se indefinidamente, sem que se perceba nenhuma degenerescência; o fato é particularmente impressionante entre os bacilos. Asexperiências de partenogênese tornaram-se cada vez mais numerosas e ousadas, e, em muitas espécies, o macho se evidencia radicalmente inútil. Mas,ainda que a utilidade de uma troca intercelular fosse demonstrada, apresentar-se-ia como um simples fato injustificado. A biologia constata a divisãodos sexos, mas embora imbuída de finalismo não consegue deduzi-la da estrutura da célula, nem das leis da multiplicação celular, nem de nenhumfenômeno elementar.A existência de gametas12 heterogêneos não basta para definir dois sexos distintos; na realidade, acontece, muitas vezes, a diferenciação das célulasgeradoras não acarretar cisão da espécie em dois tipos: ambas podem pertencer a um mesmo indivíduo. É o caso das espécies hermafroditas, tãonumerosas entre as plantas e que se encontram também em muitos animais inferiores, os anelados e os moluscos, entre outros. A reprodução efetua-seentão ou por autofecundação ou por fecundação cruzada. Neste ponto, igualmente, certos biólogos pretenderam legitimar a ordem estabelecida.Consideram o gonocorismo, isto é, o sistema em que as diferentes gonadias13 pertencem a indivíduos distintos, como um aperfeiçoamento dohermafroditismo realizado por via evolutiva; mas outros, ao contrário, julgam o gonocorismo primitivo: o hermafroditismo não passaria de umadegenerescência. Como quer que seja, essas noções de superioridade de um sistema sobre o outro implicam, no que concerne à evolução, teorias dasmais contestáveis. Tudo o que se pode afirmar com certeza é que esses dois modos de reprodução coexistem na Natureza, que realizam, um e outro, aperpetuação das espécies e que, tal qual a heterogeneidade dos gametas, a dos organismos portadores de gonadias se apresenta como acidental. Aseparação dos indivíduos em machos e fêmeas surge, pois, como um fato irredutível e contingente.A maior parte das filosofias tomou-a como admitida sem pretender explicá-la. Conhece-se o mito platônico: no princípio, havia homens, mul heres eandróginos; cada indivíduo possuía duas faces, quatro braços, quatro pernas e dois corpos, colados um ao outro; foram um dia “partidos em dois, damaneira como se partem os ovos”, e desde então cada metade procura reunir-se à sua metade complementar; os deuses decidiram, posteriormente, quepela junção das duas metades dessemelhantes novos seres humanos seriam criados. Mas é só o amor que essa história se propõe explicar: a divisão emsexos é tomada, de início, como um dado. Aristóteles não a justifica melhor, pois se a cooperação da matéria e da forma é exigida em toda ação, não énecessário que os princípios ativos e passivos se distribuam em duas categorias de indivíduos heterogêneos. Assim é que são Tomás declara que amulher é um s er “ocasional”, o que é uma maneira de afirmar — numa perspectiva masculina — o caráter acidental da sexualidade. Hegel, entretanto,teria sido infiel a seu delírio racionalista se não houvesse tentado fundamentá-la logicamente. A sexualidade representa, a seu ver, a mediação atravésda qual o sujeito se atinge concretamente como gênero. “O gênero produz-se nele como um efeito contra essa desproporção de sua realidade individual,como um desejo de reencontrar, em outro indivíduo de sua espécie, o sentimento de si mesmo unindo-se a ele, de se completar e envolver, assim, ogênero em sua natureza e trazê-lo à existência. E tem-se a união sexual” (Filosofia da Natureza, 3a parte, § 369). E mais adiante: “O processo consisteem saber o que eles são em si, isto é, um só gênero, uma só e mesma vida subjetiva, eles o põem também como tal.” E Hegel declara a seguir que, paraque se efetue o processo de aproximação, é preciso primeiramente que haja diferenciação dos dois sexos. Mas sua demonstração não é convincente:sente-se nela demasiadamente a ideia preconcebida de reencontrar em toda operação os três momentos do silogismo. A superação do indivíduo naespécie, mediante a qual indivíduo e espécie se realizam em sua verdade, poderia efetuar-se, sem terceiro termo, na simples relação do gerador com acriança: a reprodução poderia ser assexuada. Ou, ainda, a relação de um a outro poderia ser a de dois semelhantes, residindo a diferenciação nasingularidade dos indivíduos de um mesmo tipo, como acontece nas espécies hermafroditas. A descrição de Hegel realça uma significação muitoimportante da sexualidade, mas seu erro consiste em fazer sempre razão da significação. É exercendo a atividade sexual que os homens definem ossexos e suas relações, como criam o sentido e o valor de todas as funções que cumprem: mas ela não está necessariamente implicada na natureza doser humano. Na Fenomenologia da percepção, Merleau-Ponty observa que a existência humana nos obriga a rever as noções de necessidade e decontingência. “A existência, diz ele, não tem atributos fortuitos, não tem conteúdo que não contribua para dar-lhe sua forma, não admite em si mesmanenhum fato puro, pois é o movimento pelo qual os fatos são assumidos.” É verdade. Mas é também verdade que há condições sem as quais o própriofato da existência aparece como impossível. A presença no mundo implica rigorosamente a posição de um corpo que seja a um tempo uma coisa domundo e um ponto de vista sobre esse mundo: mas não se exige que esse corpo possua tal ou qual estrutura particular. Em O ser e o nada, Sartrediscute a afirmação de Heidegger, segundo a qual a realidade humana está condenada à morte pelo fato de sua finitude; Sartre estabelece que umaexistência finita e temporalmente ilimitada seria concebível; entretanto, se a vida humana não fosse habitada pela morte, a relação do homem com omundo e consigo mesmo seria tão profundamente transtornada que a definição “o homem é mortal” se apresentaria como coisa inteiramente diversa deuma verdade empírica: imortal, um ser existente não seria mais isso que chamamos um homem. Uma das características essenciais de seu destino é ofato de que o movimento de sua vida temporal cria, atrás e diante de si, a infinidade do passado e do futuro: a perpetuação da espécie surge, pois, comoo correlativo da limitação individual; pode-se, assim, considerar o fenômeno da reprodução como ontologicamente fundado. Mas é preciso parar aí; aperpetuação da espécie não acarreta a diferenciação sexual. Mesmo que esta seja assumida pelos seres existentes de tal maneira que entre nadefinição concreta da existência, nem por isso deixa de ser certo que uma consciência sem corpo, que um homem imortal são rigorosamenteinconcebíveis, ao passo que é possível imaginar uma sociedade reproduzindo-se por partenogênese ou composta de hermafroditas.Quanto ao papel respectivo dos dois sexos, trata-se de um ponto acerca do qual as opiniões variaram muito. Foram, a princípio, desprovidas defundamento científico, refletiam unicamente mitos sociais. Pensou-se durante muito tempo, pensa-se ainda em certas sociedades primitivas de filiaçãouterina, que o pai não participa de modo algum na concepção do filho: as larvas ancestrais penetrariam sob a forma de germes no ventre materno. Como advento do patriarcado, o macho reivindica acremente sua posteridade; ainda se é forçado a concordar em atribuir um papel à mulher na procriação,mas admite-se que ela não faz senão carregar e alimentar a semente viva: o pai é o único criador. Aristóteles imagina que o feto é produzido peloencontro do esperma com o mênstruo; nessa simbiose a mulher fornece apenas uma matéria passiva, sendo o princípio masculino força, atividade,movimento, vida. É essa também a doutrina de Hipócrates, que reconhece duas espécies de sêmens: um fraco ou feminino e outro forte, masculino. Ateoria aristotélica perpetuou-se através de toda a Idade Média e até à época moderna. No fim do século XVII, Harvey, sacrificando corças após o coito,encontrou, nas trompas uterinas, vesículas que imaginou serem ovos mas que, na realidade, eram embriões. O dinamarquês Stenon deu o nome deovários às glândulas genitais femininas, que se denominavam, até então, “testículos femininos”, e observou na superfície delas a existência de vesículasque, em 1677, Graaf identificou erroneamente com o ovo e a elas deu seu o nome. Continuou-se a encarar o ovário como um homólogo da glândulamasculina. Nesse mesmo ano, entretanto, descobriram-se os “animálculos espermáticos” e verificou-se que penetravam no útero feminino, maspensava-se que se restringissem a se alimentar aí, estando o indivíduo já prefigurado neles; o holandês Hartsaker desenhou, em 1694, uma imagem de


um homúnculo escondido no espermatozoide, e em 1699 outro sábio declarou ter visto o espermatozoide desfazer-se de uma espécie de carapaça sob aqual surgiu um homenzinho que ele também desenhou. A mulher limitava-se pois, nessas hipóteses, a nutrir um princípio vivo ativo e já perfeitamenteconstituído. Tais hipóteses não foram aceitas universalmente, e as discussões prosseguiram até o século XIX; foi a invenção do microscópio quepermitiu estudar o ovo animal; em 1827, Baer identificou o ovo dos mamíferos; trata-se de um elemento contido dentro da vesícula de Graaf; poucodepois pôde-se estudar-lhe a segmentação; em 1835, foram descobertos o sarcódio, isto é, o protoplasma, e, em seguida, a célula; e em 1877 realizou-seuma observação que mostrava a penetração do espermatozoide no ovo da estrela-do-mar; partindo dessa descoberta estabeleceu-se a simetria dosnúcleos dos dois gametas; os pormenores de sua fusão foram analisados pela primeira vez em 1883 por um zoólogo belga.Contudo, as ideias de Aristóteles não caíram totalmente em descrédito. Hegel estima que os dois sexos devem ser diferentes: um será ativo e o outro,passivo, e naturalmente a passividade caberá à fêmea. “O homem é assim, em consequência dessa diferenciação, o princípio ativo, enquanto a mulher éo princípio passivo porque permanece dentro da sua unidade não desenvolvida.”14 E mesmo depois que se reconheceu o óvulo como um princípio ativo,os homens ainda tentaram opor sua inércia à agilidade do espermatozoide. Hoje, esboça-se uma tendência oposta: as descobertas da partenogêneselevaram certos sábios a restringir o papel do macho ao de um simples agente físico-químico. Revelou-se que em algumas espécies a ação de um ácidoou de uma excitação mecânica bastaria para provocar a segmentação do ovo e o desenvolvimento do embrião; partindo daí, supôs-se ousadamente queo gameta masculino não seria necessário à geração, sendo, quando muito, um fermento; talvez a cooperação do homem na procriação se torne inútil umdia. E parece que é o que desejam muitas mulheres. Mas nada autoriza uma antecipação tão audaciosa porque nada permite universalizar os processosespecíficos da vida. Os fenômenos da multiplicação assexuada e da partenogênese não se evidenciam nem mais nem menos fundamentais do que os dareprodução sexuada. Dissemos que esta não é a priori privilegiada: mas nenhum fato indica que seja reduzível a um mecanismo mais elementar.Assim, recusando toda doutrina a priori, toda teoria ousada, encontramo-nos colocados diante de um fato sem fundamento ontológico nem justificaçãoempírica e cujo alcance não se pode compreender aprioristicamente. É examinando-o em sua realidade concreta que podemos esperar arrancar-lhe asignificação; talvez então o conteúdo da palavra “fêmea” se revele.Não pretendemos propor aqui uma filosofia da vida; e não queremos tomar apressadamente partido na querela que opõe o finalismo ao mecanicismo. Éentretanto digno de nota o fato de que todos os fisiólogos e biólogos empregam uma linguagem mais ou menos finalista, pelo único fato de darem umsentido aos fenômenos vitais; adotaremos seu vocabulário. Sem nada decidir quanto à relação entre a vida e a consciência, pode-se afirmar que todofato vivo indica uma transc endência, que em toda função se encaixa um projeto: nossas descrições não subentendem nada mais. * * * Na grande maioria das espécies, os organismos masculinos e femininos cooperam em vista da reprodução. São fundamentalmente definidos pelosgametas que produzem. Em algumas algas e em alguns cogumelos, as células que fusionam para produzir o ovo são idênticas; esses casos de isogamiasão significativos pelo fato de manifestarem a equivalência basal dos gametas; de maneira geral estes são diferençados, mas sua analogia permaneceimpressionante. Espermatozoides e óvulos resultam de uma evolução de células primitivamente idênticas. O desenvolvimento das células femininas emoócitos difere do dos espermatozoides por fenômenos protoplásmicos, mas os fenômenos nucleares são sensivelmente os mesmos. A ideia expressa em1903 pelo biólogo Ancel é considerada válida ainda hoje: “Uma célula progerminadora indiferençada se tornará masculina ou feminina segundo ascondições que encontra na glândula genital no momento de sua aparição, condições reguladas pela transformação de certo número de células epiteliaisem elementos nutridores, elaboradores de um material especial.” Esse parentesco originário exprime-se na estrutura dos dois gametas que, no interiorde cada espécie, comportam o mesmo número de cromossomos. No momento da fecundação, os dois núcleos confundem sua substância e em cada umdeles se opera uma redução dos cromossomos, que ficam limitados à metade de seu número primitivo. Essa redução produz-se em ambos de maneiraanáloga, redundando as duas últimas divisões do óvulo na formação dos glóbulos polares, o que equivale às duas últimas divisões do espermatozoide.Pensa-se hoje que, segundo a espécie, é o gameta masculino ou o feminino que decide da determinação do sexo. Entre os mamíferos é o espermatozoideque possui um cromossomo heterogêneo aos outros e cuja potencialidade é ora masculina, ora feminina. Quanto à transmissão dos caractereshereditários, ela se efetua segundo as leis estatísticas de Mendel tanto pelo pai como pela mãe. O que cumpre notar é que nenhum dos gametas temprivilégio nesse encontro. Ambos sacrificam sua individualidade, absorvendo o ovo a totalidade de sua substância. Há, portanto, dois preconceitosmuito comuns que — pelo menos nesse nível biológico fundamental — se evidenciam falsos: o primeiro é o da passividade da fêmea; a faísca viva não seacha encerrada em nenhum dos dois gametas: desprende-se do encontro deles. O núcleo do óvulo é um princípio vital exatamente simétrico ao doespermatozoide. O segundo preconceito contradiz o primeiro, o que não impede que muitas vezes coexistam: o de que a permanência da espécie éassegurada pela fêmea, tendo o princípio masculino uma existência explosiva e fugaz. Na realidade, o embrião perpetua o germe do pai tanto quanto oda mãe e os retransmite juntos aos descendentes, ora sob a forma masculina, ora sob a feminina. É, por assim dizer, um germe andrógino que, degeração em geração, sobrevive aos avatares individuais do soma.Dito isso, cabe acrescentar que se observam diferenças secundárias das mais interessantes entre o óvulo e o espermatozoide; a singularidade essencialdo óvulo consiste em estar carregado de materiais destinados a nutrir e proteger o embrião. Ele acumula reservas à custa das quais o feto construiráseus tecidos, reservas que não são uma substância viva, e sim uma matéria inerte; disso resulta que apresenta uma forma maciça, esférica ou elipsoidale é relativamente volumoso. Não se ignoram as dimensões que atinge o ovo do pássaro; na mulher o óvulo mede 0,13 mm de diâmetro, ao passo que noesperma humano encontram-se 60.000 espermatozoides por milímetro cúbico. A massa do espermatozoide é extremamente reduzida; ele possui umacauda filiforme, uma cabecinha alongada, nenhuma substância estranha o entorpece, todo ele é vida. Sua estrutura o destina à mobilidade; ao passoque o óvulo, em que se acha armazenado o futuro do feto, é um elemento fixo. Encerrado no organismo feminino ou suspenso em um meio exterior,aguarda passivamente a fecundação. É o gameta masculino que o procura. O espermatozoide é sempre uma célula nua; o óvulo, segundo as espécies, éprotegido ou não por uma membrana, mas, em todo caso, logo que entra em contato com ele, o espermatozoide empurra-o, fá-lo oscilar e infiltra-senele. O gameta masculino abandona a cauda, a cabeça incha e num movimento giratório alcança o núcleo. Durante esse tempo, o ovo forma, deimediato, uma membrana, protegendo-se contra os outros espermatozoides. Entre os equinoides, em que a fecundação é externa, é fácil observar, emvolta do óvulo que flutua inerte, a corrida dos espermatozoides que o cercam como uma auréola. Essa competição é também um fenômeno importante eencontrado na maioria das espécies. Muito menor do que o óvulo, o espermatozoide é geralmente emitido em quantidades muito mais consideráveis, ecada óvulo tem vários pretendentes.Assim o óvulo, ativo em seu princípio essencial, a saber, o núcleo, é superficialmente passivo; sua massa fechada sobre si mesma, encerrada em simesma, evoca a espessura noturna e o repouso do em si; é sob a forma da esfera que os Antigos representavam o mundo fechado, o átomo opaco;imóvel, o óvulo espera. Ao contrário, o espermatozoide aberto, miúdo, ágil, representa a impaciência e a inquietação da existência. Não se deve deixar-se seduzir pelo prazer das alegorias; assimilou-se, por vezes, o óvulo à imanência, o espermatozoide à transcendência. Mas é renunciando à suatranscendência, à sua mobilidade, que este penetra no elemento feminino. É sugado e castrado pela massa inerte que o absorve depois de o termutilado, arrancando-lhe a cauda. Eis uma ação mágica, inquietante como todas as ações passivas; ao passo que a atividade do gameta masculino éracional: é um movimento mensurável em termos de tempo e de espaço. Na verdade, não são isso mais do que divagações. Gametas masculinos oufemininos fundem-se no ovo. Juntos, eles se suprimem em sua totalidade. É um erro pretender que o óvulo absorve vorazmente o gameta masculino eigualmente falso dizer que este se anexa vitoriosamente às reservas da célula feminina, porquanto, no ato que os confunde, a individualidade de um ede outro desaparece. E, talvez, o movimento apresenta-se ao pensamento mecanicista como o fenômeno racional por excelência; mas para a físicamoderna não se trata de uma ideia mais clara do que a de uma ação a distância. Ignora-se, aliás, o pormenor das ações físico-químicas que redundamem encontro fecundante. É possível, entretanto, reter uma indicação válida dessa confrontação. Há, na vida, dois movimentos que se conjugam; ela sóse mantém em se superando e só se supera com a condição de se manter. Esses dois momentos realizam-se sempre juntos, pensá-los separados épensar abstratamente. Entretanto, é ora um, ora outro que domina. Em sua união, os dois gametas superam-se e perpetuam-se ao mesmo tempo, mas oóvulo, em sua estrutura, antecipa as necessidades futuras. É constituído de maneira a nutrir a vida que despertará nele. Ao contrário, o espermatozoidenão está absolutamente equipado para assegurar o desenvolvimento do germe que suscita. Em compensação, o óvulo é incapaz de provocar a mudançaque suscitará uma nova explosão de vida; ao passo que o espermatozoide se desloca. Sem a previdência ovária, sua ação seria vã; mas, sem suainiciativa, o óvulo não cumpriria suas possibilidades ativas. Logo, concluímos que, fundamentalmente, o papel dos dois gametas é idêntico: criam juntosum ser vivo em que ambos se perdem e se superam. Mas, nos fenômenos secundários e superficiais que condicionam a fecundação, é pelo elementomasculino que se opera a variação de situação necessária ao novo desabrochar da vida; é pelo elemento feminino que esse desabrochar se fixa em umorganismo estável.Seria ousado deduzir de tal verificação que o lugar da mulher é no lar: mas há pessoas ousadas. Em seu livro Le tempérament et le caractère, AlfredFouillée pretendia, outrora, definir toda mulher a partir do óvulo e o homem a partir do espermatozoide; muitas teorias, ditas profundas, assentamnesse jogo de analogias duvidosas. Não se sabe muito bem a que filosofia da Natureza esses pseudopensamentos se referem. Se se consideram as leisda hereditariedade, homens e mulheres saíram igualmente de um espermatozoide e de um óvulo. Suponho, antes, que flutuam nesses espíritosbrumosos sobrevivências da velha filosofia medieval, segundo a qual o cosmo era o exato reflexo de um microcosmo: imagina-se que o óvulo é umhomúnculo feminino e a mulher, um óvulo gigante. Esses devaneios abandonados desde a época da alquimia estabelecem um estranho contraste com aprecisão científica das descrições sobre as quais nos alicerçamos no mesmo momento: a biologia moderna acomoda-se mal ao simbolismo medieval;mas nossos sonhadores não olham de tão perto. Sendo um pouco escrupuloso, concorda-se, porém, em que do óvulo à mulher há um longo caminho. No


óvulo, a própria noção de fêmea ainda não se acha contida. Hegel observa com razão que a relação sexual não se deixa reduzir a uma relação entre osgametas. É portanto necessário estudar o organismo feminino em sua totalidade.Já se disse que, em muitos vegetais e certos animais inferiores, entre os quais os moluscos, a especificação dos gametas não acarreta a dos indivíduos,produzindo, cada um deles, óvulos e espermatozoides a um tempo. Mesmo quando os sexos se separam, não existem entre eles barreiras estanquescomo as que encerram as espécies. Assim como os gametas se definem a partir de um tecido original indiferençado, machos e fêmeas surgem antescomo variações sobre uma base comum. Entre certos animais — o caso mais típico é o da bonélia — o embrião é inicialmente assexuado e são os acasosde seu desenvolvimento que decidem ulteriormente de sua sexualidade. Admite-se hoje que na maioria das espécies a determinação do sexo depende daconstituição genotípica do ovo. O ovo virgem da abelha, reproduzindo-se por partenogênese, dá exclusivamente machos; o dos pulgões, nas mesmascondições, exclusivamente fêmeas. Quando os ovos são fecundados é interessante notar que — salvo, talvez, em certas aranhas — o número deindivíduos machos e fêmeos procriados é sensivelmente igual; a diferenciação provém da heterogeneidade de um dos dois tipos de gametas; entre osmamíferos são os espermatozoides que possuem uma potencialidade masculina ou feminina; não se sabe exatamente o que, durante a espermatogêneseou a ovogênese, decide do caráter singular dos gametas heterogêneos; em todo caso, as leis estatísticas de Mendel bastam para explicar-lhes adistribuição regular. Nos dois sexos, o processo de fecundação e o início do desenvolvimento embrionário efetuam-se de maneira idêntica; o tecidoepitelial destinado a evoluir em gonadia é, no início, indiferençado; é num certo estágio de maturação que os testículos se afirmam ou que maistardiamente se esboçam os ovários. Isso explica que entre o hermafroditismo e o gonocorismo existe uma quantidade de intermediários; muitas vezes,um dos sexos possui certos órgãos característicos do sexo complementar. O caso mais impressionante é o do sapo: encontra-se no macho um ovárioatrofiado, denominado órgão de Bidder, e que se pode artificialmente forçar a produzir ovos. Entre os mamíferos, subsistem vestígios dessabipotencialidade sexual, entre outros, a hidratila pediculada e séssil, o uterus masculinus, as glândulas mamárias no macho e, na fêmea, o canal deGartner, o clitóris. Mesmo nas espécies em que a divisão sexual é mais marcada, há indivíduos que são machos e fêmeas ao mesmo tempo. Os casos deintersexualidade são numerosos nos animais e mesmo no homem e encontram-se, nas borboletas, nos crustáceos, exemplos de ginandromorfismo emque os caracteres masculinos e femininos se justapõem numa espécie de mosaico. É que, genotipicamente definido, o feto é, entretanto, profundamenteinfluenciado pelo meio em que haure sua substância. Sabe-se que entre as formigas, as abelhas e as térmitas é o modo de nutrição que faz da larva umafêmea acabada ou freia sua maturação sexual, transformando-a em operária. A influência nesse caso age sobre o conjunto do organismo. Entre osinsetos, o soma é sexualmente definido num período muito precoce e não depende das gonadias. Entre os vertebrados, são essencialmente oshormônios provenientes das gonadias que desempenham um papel regulador. Demonstrou-se, mediante várias experiências, que fazendo variar o meioendocrínico podia-se agir sobre a determinação do sexo; outras experiências, de enxertia e de castração, realizadas em animais adultos, conduziram àteoria moderna da sexualidade. Nos machos e fêmeas dos vertebrados o soma é idêntico, podendo-se considerá-lo um elemento neutro; é a ação dagonadia que lhe dá as características sexuais. Certos hormônios secretados operam como estimulantes e outros como inibidores; o própriotractus genital é de natureza somática, e a embriologia mostra que ele se determina sob a influência dos hormônios, partindo de esboços bissexuais. Háintersexualidade quando o equilíbrio hormonal não foi satisfeito e nenhuma das duas potencialidades sexuais se realizou nitidamente.Igualmente distribuídos na espécie, evoluídos de maneira análoga a partir de raízes idênticas, os organismos masculinos e femininos, uma vezterminada sua formação, parecem profundamente simétricos. Ambos se caracterizam pela presença de glândulas produtoras de gametas, ovários outestículos, sendo os processos de espermatogênese e ovogênese, já o vimos, análogos; essas glândulas depositam sua secreção num canal mais oumenos complexo segundo a hierarquia das espécies. A fêmea deixa sair o ovo diretamente pelo oviduto ou o retém na cloaca ou em um úterodiferençado antes de expulsá-lo; o macho lança o sêmen para fora, ou é munido de um órgão copulador que lhe permite introduzi-lo na fêmea.Estaticamente, macho e fêmea aparecem, portanto, como dois tipos complementares. É preciso considerá-los de um ponto de vista funcional paraapreender-lhes a singularidade.É muito difícil dar uma descrição geralmente válida da noção de fêmea; defini-la como portadora de óvulos e o macho como portador deespermatozoides é muito insuficiente, porquanto a relação do organismo com as gonadias é extremamente variável. Inversamente, a diferenciação dosgametas não afeta diretamente o conjunto do organismo. Pretendeu-se, por vezes, que o óvulo, sendo maior, consumia mais força viva do que oespermatozoide, mas este é secretado em quantidade infinitamente mais considerável, de modo que, nos dois sexos, o desgaste se equilibra. Quiseramver na espermatogênese um exemplo de prodigalidade e na ovulação um modelo de economia, mas há também neste fenômeno uma absurda profusão:a imensa maioria dos óvulos nunca é fecundada. Como quer que seja, as gonadias e os gametas não nos oferecem um microcosmo de todo o organismo.É este que se faz necessário estudar diretamente.Um dos traços mais notáveis, quando percorremos os diversos graus da escala animal, é o fato de que de baixo para cima a vida se individualiza;embaixo, ela emprega-se unicamente na manutenção da espécie, em cima ela gasta-se através de indivíduos singulares. Nas espécies rudimentares, oorganismo como que se deixa reduzir ao aparelho reprodutor; nesse caso, há primazia do óvulo, e portanto da fêmea, posto que o óvulo estáprincipalmente votado à pura repetição da vida; mas ela não passa de um abdome e sua existência é por inteira devorada pelo trabalho de umamonstruosa ovulação. Atinge, em relação ao macho, dimensões gigantescas; muitas vezes seus membros são apenas cotos, seu corpo um saco informe,todos os órgãos degeneram em proveito dos ovos. Em verdade, embora constituindo dois organismos distintos, machos e fêmeas mal podem então serencarados como indivíduos, formam um só todo com elementos indissoluvelmente ligados: são casos intermediários entre o hermafroditismo e ogonocorismo. Assim, entre os entoniscíneos que vivem como parasitas no caranguejo, a fêmea é uma espécie de chouriço esbranquiçado, envolvido emlâminas incubadoras que encerram milhares de ovos; no meio destes encontram-se minúsculos machos e larvas destinadas a fornecer machos desubstituição. A escravização do macho anão é ainda mais total entre os edriolidíneos: acha-se ele fixado sob o opérculo da fêmea, não possui tubodigestivo pessoal e seu papel é unicamente reprodutor. Mas em todos esses casos não é a fêmea menos escravizada do que ele; ela está escravizada àespécie. Se o macho encontra-se preso à fêmea, esta também se encontra presa ou a um organismo vivo de que se nutre como parasita ou a umsubstrato mineral; consome-se na produção dos ovos que o minúsculo macho fecunda. Quando a vida assume formas mais complexas, esboça-se umaautonomia individual e o laço que une os sexos se afrouxa. Mas entre os insetos os dois sexos permanecem estreitamente subordinados aos ovos.Frequentemente, como entre os efemerópteros, macho e fêmea morrem imediatamente depois do coito e da postura; por vezes, como entre os rotíferose os mosquitos, o macho, desprovido de aparelho digestivo, sucumbe após a fecundação, enquanto a fêmea, que pode se alimentar, sobrevive; é que aformação dos ovos e a postura exigem algum tempo. A mãe expira logo que o destino da geração seguinte se acha assegurado. O privilégio da fêmea,entre grande número de insetos, provém de ser a fecundação um processo geralmente muito rápido, ao passo que a ovulação e a incubação dos ovosexigem um trabalho demorado. Entre as térmitas, a enorme rainha — empanturrada de papa, que põe um ovo por segundo até que, afinal estéril, éexterminada impiedosamente — não é menos escrava do que o macho anão, grudado ao abdome dela e que fecunda os ovos à proporção que vão sendoexpelidos. Nos matriarcados dos formigueiros e das colmeias, os machos são uns importunos exterminados em cada estação: no momento do voonupcial, todos os machos saem do formigueiro e alçam voo em busca das fêmeas; se as atingem e fecundam, morrem logo depois, esgotados; seretornam, as operárias os impedem de entrar, matam ou deixam que morram de fome. Mas a fêmea fecundada tem um triste destino: afundasolitariamente no solo e não raro perece de esgotamento, pondo os primeiros ovos. Se consegue reconstituir um formigueiro, aí passa doze anosfechada, desovando incessantemente; as operárias, fêmeas cuja sexualidade foi atrofiada, vivem quatro anos, mas uma vida inteiramente consagrada aocuidado das larvas. O mesmo ocorre entre as abelhas: o zangão que se une à rainha no voo nupcial cai ao chão mutilado; os outros zangãos sãorecolhidos à colmeia, onde levam uma existência ociosa e embaraçante. No início do inverno, são executados. Mas as fêmeas abortadas, as operárias,pagam seu direito à vida com um trabalho incessante; a rainha é, de fato, a escrava da colmeia: desova incessantemente. E, quando da morte da velharainha, várias larvas são alimentadas de maneira a poderem disputar a sucessão; a que nasce primeiro assassina imediatamente as outras. A fêmea daaranha gigante carrega os ovos numa bolsa até a maturidade; é bem maior e mais robusta do que o macho, e devora-o após o coito. Observam-se osmesmos costumes na fêmea do louva-a-deus, em torno da qual se cristalizou o mito da feminilidade devorante. O óvulo castra o espermatozoide, afêmea do louva-a-deus assassina o parceiro: tais fatos prefigurariam um sonho feminino de castração. Mas, na realidade, é principalmente em cativeiroque a fêmea do louva-a-deus manifesta tanta crueldade; em liberdade, com alimentação suficiente, é muito raro que devore o macho. Se o faz, é como aformiga solitária que não raro come alguns de seus ovos, a fim de ter forças para desovar e perpetuar a espécie. Ver nesses fatos uma prefiguração “daluta dos sexos” que opõe os indivíduos como tais é divagar. Nem entre as formigas, as abelhas e as térmitas, nem no caso da aranha ou do louva-a-deus,pode-se dizer que a fêmea escraviza e devora o macho: é a espécie que, por vias diferentes, devora a ambos. A fêmea vive mais tempo e parece maisimportante, mas não tem qualquer autonomia; a desova, a incubação, o cuidado com as larvas constituem o seu destino, sendo suas demais funçõestotal ou parcialmente atrofiadas. Ao contrário, no macho esboça-se uma existência individual. Muitas vezes, ele manifesta na fecundação mais iniciativado que a fêmea; ele é que vai à procura dela, ataca-a, apalpa-a, segura-a e impõe-lhe o coito. Por vezes tem que disputá-la com outros machos.Correlativamente, os órgãos da locomoção, do tato, da preensão são nele mais evoluídos; muitas borboletas fêmeas são ápteras enquanto os machospossuem asas; estes têm cores, élitros, patas, pinças mais desenvolvidos, e não raro essa riqueza é acompanhada de um verdadeiro luxo de coresbrilhantes. Fora do coito fugaz, a vida do macho é inútil, gratuita. Ao lado da diligência das operárias, a ociosidade dos zangãos é um privilégio notável.Mas esse privilégio é um escândalo; comumente o macho paga com a vida uma futilidade em que se esboça a independência. A espécie que mantém asfêmeas escravizadas pune o macho que pretende escapar à escravidão: suprime-o brutalmente.Nas formas mais elaboradas da vida, a reprodução torna-se produção de organismos diferençados: assume dupla face. Mantendo a espécie, criatambém novos indivíduos. Esse aspecto inovador afirma-se à proporção que a singularidade dos indivíduos se confirma. O que impressiona então é queos dois momentos da perpetuação e da criação se dividem; essa cisão, já indicada no momento da fecundação do ovo, reencontra-se no conjunto dofenômeno gerador. Não é a própria estrutura do óvulo que exige essa divisão; a fêmea possui, como o macho, certa autonomia e sua ligação com o óvuloafrouxa-se; o peixe, o batráquio e o pássaro fêmeos não são apenas um abdome; quanto menos estreita é a ligação da mãe com o ovo, menos o trabalhodo parto é absorvente, maior é a indeterminação na relação dos pais com a prole. Pode acontecer que o pai se encarregue de alimentar as vidas recém-formadas; isso é coisa frequente entre os peixes. A água é um elemento suscetível de levar os óvulos e o esperma a assegurarem sua união; afecundação no meio aquático é quase sempre externa. Os peixes não se juntam, quando muito alguns se esfregam um contra o outro, para se estimular.A mãe expulsa os óvulos; o pai expele o sêmen: idêntico é o papel de ambos. Não há razão para que a mãe, mais do que o pai, reconheça os ovos comoseus. Em certas espécies, estes são abandonados pelos pais e desenvolvem-se sem ajuda; por vezes, a mãe lhes prepara um ninho; por vezes, ainda, ela


vela-os após a fecundação; mas, frequentemente, é o pai que os toma a seu cargo: logo depois de os ter fecundado, expulsa a fêmea que os tentadevorar, e os defende ferozmente contra qualquer presença. Citam-se alguns que constituem uma espécie de ninho protetor, emitindo bolhas de arenvolvidas numa substância isolante; outros incubam os ovos na boca ou, como o cavalo-marinho, nas pregas do ventre. Observam-se fenômenosanálogos entre os batráquios: não conhecem um verdadeiro coito. O macho abraça a fêmea e assim estimula a desova, deixando escapar o sêmen namedida em que os ovos saem da cloaca. Amiúde — particularmente no sapo conhecido pelo nome de sapo-parteiro — é o pai que, enrolando rosários deovos em volta das patas, os carrega consigo e assegura-lhes o desabrochar. Entre os pássaros, a formação do ovo dentro da fêmea opera-se assazlentamente, sendo o ovo, relativamente grande, expelido com dificuldade; esse ovo tem com a mãe relações muito mais estreitas do que com o pai que ofecundou durante um coito rápido. É, em geral, a fêmea que o choca e vela pelos filhotes. Mas, muito frequentemente, o pai participa da construção doninho, da proteção e da alimentação da prole. Há casos, muito raros — como entre os pardais — em que o pai é quem choca e cria. Os pombos, machose fêmeas, secretam no papo uma espécie de leite com que alimentam os borrachos. O que é notável, em todos esses casos em que o pai desempenha umpapel nutriente, é que, durante o período em que se consagra à prole, a espermatogênese interrompe-se: ocupado em manter a vida, não sente mais oimpulso de suscitar novas formas de vida.É entre os mamíferos que a vida assume as formas mais complexas e individualiza-se mais concretamente. Então a cisão dos dois momentos vitais,manter e criar, realiza-se de maneira definitiva na separação dos sexos. É nessa divisão — considerando unicamente os vertebrados — que a mãeestabelece com sua progênie as relações mais estreitas e que o pai mais se desinteressa dela. Todo o organismo da fêmea adapta-se à servidão damaternidade e por esta é comandado, ao passo que a iniciativa sexual é apanágio do macho. A fêmea é a presa da espécie; durante uma ou duasestações, segundo os casos, toda sua vida é regulada por um ciclo sexual, o ciclo do estro, cuja duração e ritmo de sucessão variam de uma espécie aoutra. Esse ciclo decompõe-se em duas fases: durante a primeira, há maturação dos óvulos (em número variável segundo as espécies) e um processo denidificação no útero; durante a segunda fase, produz-se uma necrose graxosa que conduz à eliminação do conjunto assim elaborado sob a forma de umcorrimento esbranquiçado. O estro corresponde ao período do cio; mas o cio tem na fêmea caráter passivo; ela está preparada para receber o macho:aguarda-o. Acontece, mesmo entre os mamíferos — como também entre certos pássaros —, que ela o solicite, mas se restringe a dirigir-lhe um apelopor meio de gritos, atitudes, exibições; não lhe poderia impor o coito. No fim, a ele é que cabe decidir. Viu-se que, mesmo entre os insetos, entre osquais, pelo sacrifício total que consente em prol da espécie, a fêmea assegura-se a si mesma tão grandes privilégios, é o macho geralmente que provocaa fecundação; muitas vezes, entre os peixes, ele incita a fêmea à desova com sua presença ou com seus contatos; entre os batráquios age comoestimulador. Mas é principalmente entre os pássaros e os mamíferos que o macho se impõe à fêmea; frequentemente ela o aceita com indiferença emesmo lhe resiste. Por provocante ou tolerante que seja, é o macho, de qualquer modo, quem possui: ela é possuída; ele pega, ela é pegada e a palavratem, por vezes, um sentido muito preciso: ou porque tem órgãos adaptados, ou porque é o mais forte, o macho segura-a, imobiliza-a; efetua ativamenteos movimentos do coito. Entre muitos insetos, entre os pássaros e os mamíferos, ele a penetra. Em virtude disso, a fêmea apresenta-se com umainterioridade violentada. Não é a espécie que o macho violenta, porquanto esta só se perpetua renovando-se; pereceria se os óvulos e osespermatozoides não se encontrassem; só que a fêmea, encarregada de proteger o ovo, encerra-o dentro de si própria e seu corpo, que constitui para oóvulo um abrigo, subtrai-o também à ação fecundante do macho. Trata, portanto, de uma resistência que cumpre quebrar e, em o penetrando, o machorealiza-se como atividade. Seu domínio exprime-se pela posição do coito: entre quase todos os animais o macho coloca-se sobre a fêmea. Sem dúvida, oórgão de que ele se serve é também material, mas ele se mostra sob seu aspecto animado: é um instrumento; ao passo que, nessa operação, o órgãofeminino não passa de um receptáculo inerte. O macho nele deposita o sêmen; a fêmea recebe-o. Assim, embora desempenhando na procriação umpapel fundamentalmente ativo, ela sofre o coito que a aliena de si mesma pela penetração e pela fecundação interna; embora ela sinta a necessidadesexual como uma necessidade individual, posto que no cio acontece-lhe procurar o macho, a aventura sexual é entretanto vivida por ela, no imediato,como uma história interior e não como uma relação com o mundo e com outrem. Mas a diferença fundamental entre o macho e a fêmea dos mamíferosestá em que, no mesmo rápido instante, o espermatozoide, pelo qual a vida do macho transcende-se em um outro, desgarra-se de seu corpo e se tornaestranho a ele; assim o macho, no momento em que supera sua individualidade, nela se encerra novamente. Ao contrário, o óvulo começa a separar-seda fêmea quando, maduro, desprende-se do folículo para cair no oviduto; mas, penetrado por um gameta estranho, instala-se no útero. Inicialmenteviolentada, é a fêmea alienada em seguida; ela carrega o feto em seu ventre até um estado de maturação variável segundo as espécies: a cobaia nascequase adulta, o cão muito perto do estado fetal. Habitada por um outro que se nutre de sua substância, a fêmea é, durante todo o tempo da gestação,concomitantemente ela mesma e outra; após o parto, ela alimenta o recém-nascido com o leite de suas tetas. A tal ponto que não se sabe quando elepode se considerar autônomo: no momento da fecundação, do nascimento ou do desmame? É digno de nota o fato de que quanto mais a fêmea seafigura um indivíduo separado, mais imperiosamente a continuidade viva afirma-se para além da separação. O peixe e o pássaro, que expulsam o óvulovirgem ou o ovo fecundado, são menos presos à progenitura do que a fêmea do mamífero. Esta encontra uma autonomia após o nascimento dos filhos:estabelece-se então entre ela e eles uma distância e é a partir de uma separação que ela se devota a eles; ocupa-se deles com iniciativa e invenção, lutapara defendê-los contra os outros animais e torna-se até agressiva. Mas normalmente ela não procura afirmar sua individualidade; não se opõe aosmachos nem às outras fêmeas; quase não tem espírito combativo.15 A despeito das asserções de Darwin, hoje refutadas, ela aceita sem maior escolha omacho que se apresenta. Não que ela não possua qualidades individuais; ao contrário, nos períodos em que escapa à servidão da maternidade, pode,por vezes, igualar-se ao macho: a égua é tão rápida quanto o garanhão, a cadela de caça tem tanto faro quanto o cão, as macacas demonstram, quandosubmetidas a testes, tanta inteligência quanto os macacos. Só que essa individualidade não é reivindicada: a fêmea abdica em prol da espécie quereclama essa abdicação.O destino do macho é muito diferente; acabamos de ver que na sua própria superação ele se separa e se confirma em si mesmo. É um traço constante,do inseto aos animais superiores. Mesmo os peixes e os cetáceos que vivem em cardumes, molemente confundidos no seio da coletividade, dela seafastam no momento do cio. Isolam-se e tornam-se agressivos em relação aos outros machos. Imediata na fêmea, a sexualidade é mediatizada nomacho; há uma distância que ele preenche ativamente entre o desejo e sua satisfação; mexe-se, procura, apalpa a fêmea, acaricia-a, imobiliza-a antesde penetrá-la; os órgãos que servem às funções de relação, locomoção e preensão são, muitas vezes, mais desenvolvidos nele. É digno de nota o fato deque o impulso vivo que produz nele a multiplicação dos espermatozoides traduza-se também pelo aparecimento de uma plumagem brilhante, deescamas, cornos, juba, cantos e exuberâncias. Não se imagina mais que o “traje de núpcias” que veste no momento do cio nem que suas atitudessedutoras tenham uma finalidade seletiva; exprimem a força da vida que com um luxo gratuito e magnífico então nele desabrocha. Essa generosidadevital, a atividade ostentada em vista do coito, e no próprio coito, a afirmação dominadora de seu poder sobre a fêmea, tudo contribui para afirmar oindivíduo como tal no momento de sua superação viva. É nisso que Hegel tem razão em ver no macho o elemento subjetivo, ao passo que a fêmeapermanece envolvida na espécie. Subjetividade e separação significam, desde logo, conflito. A agressividade é uma das características do macho no cio;ela não se explica pela competição, porquanto o número de machos é mais ou menos o mesmo que o de fêmeas; é antes a competição que se explica poressa vontade combativa. Diríamos que, antes de procriar, o macho, reivindicando como propriamente seu o ato que perpetua a espécie, confirma na sualuta contra seus congêneres a verdade de sua individualidade. A espécie habita a fêmea e consome boa parte de sua vida individual; o macho, aocontrário, integra as forças vivas específicas em sua vida individual. Provavelmente, ele se sujeita também às leis que o superam, há neleespermatogênese e um cio periódico, mas esses processos interessam muito menos do que o ciclo do estro, o conjunto do organismo; a produção dosespermatozoides não constitui uma fadiga, como não a constitui a ovogênese em si: o desenvolvimento do ovo em animal é que é, para a fêmea, umtrabalho absorvente. O coito é uma operação rápida e que não diminui a vitalidade do macho. Ele não manifesta quase nenhum instinto patern al. Comfrequência abandona a fêmea depois do coito. Quando permanece ao lado dela como chefe de um grupo familiar (família monogâmica, harém ourebanho) é em relação ao conjunto da comunidade que desempenha um papel de protetor e de alimentador; é raro que se interesse diretamente pelosfilhos. Nessas espécies favoráveis ao desenvolvimento da vida individual, o esforço do macho pela autonomia — que nos animais inferiores o destrói — écoroado de êxito. Ele é geralmente maior do que a fêmea, mais robusto, mais rápido, mais aventuroso; leva uma vida mais independente e cujasatividades são mais gratuitas; é mais conquistador, mais imperioso. Nas sociedades animais é sempre ele que comanda.Nunca, na Natureza, tudo é inteiramente claro: os dois tipos, macho e fêmea, nem sempre se distinguem com nitidez; observa-se, por vezes, entre eles,um dimorfismo — cor do pelo, disposição das manchas — que parece absolutamente contingente; mas acontece, ao contrário, que não sejamdiscerníveis e que suas funções mal se diferenciem, como vimos com os peixes. Entretanto, no conjunto, e sobretudo no topo da escala animal, os doissexos representam dois aspectos diversos da vida da espécie. Sua oposição não é, como se pretendeu, a de uma atividade e de uma passividade: nãosomente o núcleo ovular é ativo, como também o desenvolvimento do embrião é um processo vivo, e não um desenrolar mecânico. Seria simples demaisdefini-la como a da mudança e a da permanência. O espermatozoide só cria porque sua vitalidade mantém-se no ovo; o óvulo só se pode mantersuperando-se, senão, retrocede e degenera. É verdade, entretanto, que nessas operações, ambas ativas, manter e criar, a síntese do devir não se realizada mesma maneira. Manter é negar a dispersão dos instantes, é afirmar a continuidade durante o seu aparecimento; criar é fazer rebentar no seio daunidade temporal um presente irredutível, separado, e é verdade, também, que, na fêmea, é a continuidade da vida que busca realizar-se, a despeito daseparação, ao passo que a separação em forças novas e individualizadas é suscitada pela iniciativa do macho. É portanto permitido ao macho afirmar-seem sua autonomia: a energia específica, ele a integra em sua própria vida. Ao contrário, a individualidade da fêmea é combatida pelo interesse daespécie. Ela aparece como possuída por forças estranhas, alienada. E é por isso que, quando mais se afirma a individualidade dos organismos, aoposição dos sexos não se atenua. Ao contrário, o macho encontra caminhos sempre mais diversos para despender as forças de que se torna senhor; afêmea sente cada vez mais sua servidão. O conflito entre seus interesses próprios e o das forças geradoras que a habitam exaspera-se. O coito dasvacas e das éguas é muito mais doloroso e perigoso do que o das camundongas e das coelhas. A mulher, que é a mais individualizada das fêmeas,aparece também como a mais frágil, a que vive mais dramaticamente seu destino e que se distingue mais profundamente do macho.Na humanidade, como na maioria das espécies, nasce mais ou menos quase o mesmo número de indivíduos dos dois sexos (100 mulheres para 104homens). A evolução dos embriões é análoga. Entretanto, o epitélio primitivo permanece neutro mais tempo no feto feminino; disso resulta ficar elemais tempo submetido ao meio hormonal e o seu desenvolvimento se inverter mais frequentemente. Os hermafroditas, em sua maioria, seriam sujeitosgenotipicamente femininos que se teriam masculinizado posteriormente. Há a impressão de que o organismo masculino se define de imediato comomacho, ao passo que o embrião feminino hesita em aceitar sua feminilidade. Mas esses primeiros balbucios da vida fetal são ainda muito poucoconhecidos para que se possa emprestar-lhes um sentido. Uma vez constituídos, os aparelhos genitais são, em ambos os sexos, simétricos. Os


hormônios de um e de outro pertencem à mesma família química, a dos esteróis, e derivam todos, em última análise, da colesterina. São eles quedeterminam as diferenciações secundárias do soma. Nem suas fórmulas nem as singularidades anatômicas definem a fêmea do homem como tal. É suaevolução funcional que a distingue do macho. Comparativamente, o desenvolvimento do homem é simples. Do nascimento à puberdade cresce mais oumenos regularmente: por volta dos quinze ou dezesseis anos começa a espermatogênese, que se efetua de maneira contínua até a velhice; seuaparecimento acompanha-se de uma produção de hormônios que determina a constituição viril do soma. A partir de então, o macho tem uma vidasexual que é normalmente integrada em sua existência individual: no desejo e no coito, sua superação na espécie confunde-se com o momento subjetivode sua transcendência: ele é seu corpo. A história da mulher é muito mais complexa. Desde a vida embrionária, a provisão de oócitos já se achaconstituída; o ovário contém cerca de cinquenta mil óvulos encerrados cada qual em um folículo, sendo que mais ou menos quatrocentos chegam àmaturação. Desde o nascimento, a espécie toma posse dela e tenta se afirmar; a mulher, vindo ao mundo, atravessa uma espécie de primeirapuberdade: os oócitos crescem subitamente, depois o ovário reduz-se a um quinto mais ou menos. Pode-se dizer que uma pausa é concedida à criança;enquanto seu organismo se desenvolve, o sistema genital permanece mais ou menos estacionário: certos folículos incham, mas sem atingir amaturidade. O crescimento da menina é análogo ao do menino; com a mesma idade ela chega a ser um pouco mais alta e mais pesada do que ele. Mas,no momento da puberdade, a espécie reafirma seus direitos. Sob a influência de secreções ovarianas, o número de folículos em via de crescimentoaumenta, o ovário congestiona-se e cresce, um dos óvulos chega à maturidade e o ciclo menstrual se inicia; o sistema genital adquire seu volume e suaforma definitiva, o soma feminiza-se, o equilíbrio endócrino estabelece-se. É digno de nota o fato de assumir esse acontecimento o aspecto de umacrise; não é sem resistência que o corpo da mulher deixa a espécie instalar-se nela e esse combate enfraquece-a e faz com que corra perigo. Antes dapuberdade morre mais ou menos o mesmo número de meninas e de meninos; de 14 a 18 anos morrem 128 meninas para cada 100 meninos e de 18 a 22anos, 105 moças para cada 100 rapazes. É nesse momento que surgem, muitas vezes, a clorose, a tuberculose, a escoliose, a osteomielite etc. Emcertos indivíduos, a puberdade é anormalmente precoce, podendo ocorrer entre quatro e cinco anos. Em outros, ao contrário, ela não ocorre: o sujeitocontinua então infantil, sofre de amenorreia ou de dismenorreia. Certas mulheres apresentam sinais de virilismo: um excesso de secreções elaboradaspelas glândulas suprarrenais dá-lhes caracteres masculinos. Tais anomalias não representam, em absoluto, vitórias do indivíduo sobre a tirania daespécie. A esta não há meio de escapar, porquanto, ao mesmo tempo em que escraviza a vida individual, ela a alimenta; essa dualidade exprime-se nonível das funções ovarianas; a vitalidade da mulher tem suas raízes no ovário, como a do homem as tem nos testículos; em ambos os casos, o indivíduocastrado não somente se torna estéril como ainda retrocede e degenera. Não “formado”, mal-formado, todo o organismo é empobrecido,desequilibrado; ele só se desenvolve com a maturação do sistema genital. E, no entanto, muitos fenômenos genitais não interessam a vida individual dosujeito e até chegam a pô-la em perigo. As glândulas mamárias que se desenvolvem no momento da puberdade nenhum papel desempenham naeconomia individual da mulher; pode-se proceder à sua ablação em qualquer momento de sua vida. Muitas secreções ovarianas têm sua finalidade noóvulo, na maturação, na adaptação do útero a suas necessidades; para o conjunto do organismo, constituem mais um fator de desequilíbrio do que deregulação; a mulher é adaptada às necessidades do óvulo mais do que a ela própria. Da puberdade à menopausa, é o núcleo de uma história que nela sedesenrola e que não lhe diz respeito pessoalmente. Os anglo-saxões chamam a menstruação the curse, “a maldição”; e, efetivamente, não há nenhumafinalidade individual no ciclo menstrual. Acreditava-se, no tempo de Aristóteles, que mensalmente escorria um pouco de sangue destinado a constituir,no caso de fecundação, a carne e o sangue da criança. O que existe de verdadeiro nessa teoria é que, incessantemente, a mulher esboça o trabalho dagestação. Nos outros mamíferos, o ciclo menstrual só se verifica durante uma estação; não se acompanha de corrimento sanguinolento; é somente nosprimatas e na mulher que ele ocorre mensalmente entre dores e sangue.16 Durante cerca de 14 dias, um dos folículos de Graaf que envolvem os óvulosaumenta de volume e amadurece, enquanto o ovário secreta o hormônio situado ao nível dos folículos e que se denomina foliculina. No décimo quartodia verifica-se a ovulação: a parede do folículo rompe-se (o que acarreta, por vezes, uma ligeira hemorragia), o ovo cai nas trompas, enquanto a cicatrizevolui de maneira a constituir o corpo amarelo. Começa então a segunda fase, ou fase luteínica, caracterizada pela secreção do hormônio chamadoprogestina e que age sobre o útero. Este modifica-se: o sistema capilar da parede congestiona-se, ela enruga-se como um coscorão, formando umaespécie de renda. Assim, forma-se na matriz um berço destinado a receber o ovo fecundado. Sendo essas transformações celulares irreversíveis, nocaso de não haver fecundação, esse edifício não se reabsorve. Possivelmente, nos demais mamíferos, os restos inúteis sejam carregados pelos vasoslinfáticos, mas na mulher, quando as rendas do endométrio se desprendem, produz-se uma esfoliação da mucosa, os tubos capilares abrem-se e umamassa sanguínea destila-se externamente. Depois, enquanto o corpo amarelo degenera, a mucosa reconstitui-se e inicia-se uma nova fase folicular. Esseprocesso complexo, e ainda bastante misterioso em seus pormenores, abala todo o organismo, porquanto é acompanhado de secreções hormonais quereagem sobre a tireoide e a hipófise, sobre o sistema nervoso central e o sistema vegetativo e, por conseguinte, sobre todas as vísceras. Quase todas asmulheres — mais de 85% — apresentam perturbações durante esse período. A tensão arterial eleva-se antes do início do corrimento sanguíneo e baixaa seguir; o pulso acelera-se, a temperatura sobe. São frequentes os casos de febre; o abdome fica dolorido; observa-se, muitas vezes, certa tendênciapara a constipação, seguida de diarreia. Muitas vezes, também há aumento do volume do fígado, retenção de ureia, albuminúria; muitas pessoasapresentam uma hiperemia da mucosa pituitária (dor de garganta); outras são vítimas de perturbações do ouvido e da vista; a secreção de suoraumenta, acompanhada, no princípio das regras, de um odor sui generis que pode ser muito forte e persistir durante toda a menstruação. Ometabolismo basal é aumentado. O número de glóbulos vermelhos diminui. Enquanto isso, o sangue veicula substâncias geralmente em reserva nostecidos, em particular sais de cálcio; esses sais reagem sobre o ovário, sobre a tireoide que se hipertrofia, sobre a hipófise que preside à metamorfoseda mucosa uterina e cuja atividade se amplia; essa instabilidade das glândulas acarreta uma grande fragilidade nervosa. O sistema central é atingido,frequentemente ocorre cefaleia e o sistema vegetativo reage exageradamente; há diminuição do controle automático pelo sistema central, o que libertareflexos, complexos convulsivos e traduz-se por uma grande instabilidade de humor. A mulher torna-se mais emotiva, mais nervosa, mais irritável quede costume e pode apresentar perturbações psíquicas graves. É nesse período que ela sente mais penosamente seu corpo como uma coisa opacaalienada; esse corpo é presa de uma vida obstinada e alheia que cada mês faz e desfaz dentro dele um berço; cada mês, uma criança prepara-se paranascer e aborta no desmantelamento das rendas vermelhas; a mulher, como o homem, é seu corpo,17 mas seu corpo não é ela, é outra coisa.A mulher conhece uma alienação mais profunda quando o ovo fecundado desce ao útero e aí se desenvolve. Sem dúvida, a gestação é um fenômenonormal que, em se produzindo em condições normais de saúde e nutrição, não é nocivo à mãe; estabelece-se mesmo, entre ela e o feto, certasinterações que lhe são favoráveis. Entretanto, contrariamente a uma teoria otimista cuja utilidade social é demasiado evidente, a gestação é umtrabalho cansativo que não traz à mulher nenhum benefício individual18 e exige, ao contrário, pesados sacrifícios. Acompanha-se, não raro, durante osprimeiros meses, de falta de apetite e de vômitos, que não se observam em nenhuma outra fêmea doméstica e que manifestam a revolta do organismocontra a espécie que dele toma posse; ele se empobrece em fósforo, em cálcio, em ferro, sendo este último déficit difícil de ser compensadoposteriormente; a superatividade do metabolismo acentua o sistema endócrino; o sistema nervoso vegetativo fica num estado de excitabilidadeintensificada; quanto ao sangue, seu peso específico diminui, torna-se anêmico, análogo ao dos “jejuadores, dos que se acham em estado de inanição,dos que sofreram sangrias repetidas, dos convalescentes”.19 Tudo o que a mulher sadia e bem alimentada pode esperar é, depois do parto, recuperarseu desgaste sem muitas dificuldades. Mas, muitas vezes, produzem-se, durante a gravidez, acidentes graves ou perigosas perturbações, e se a mulhernão for robusta, se sua higiene não for perfeita, ficará prematuramente deformada e envelhecida pelas maternidades: sabe-se a que ponto o caso éfrequente no campo. O parto em si é doloroso, é perigoso. É nessa crise que vemos com maior evidência que o corpo nem sempre satisfaz a espécie e oindivíduo ao mesmo tempo. Acontece a criança morrer e também, ao nascer, matar a mãe ou acarretar-lhe uma enfermidade crônica. O aleitamento étambém uma servidão esgotante; um conjunto de fatores — o principal dos quais é, sem dúvida, o aparecimento de um hormônio, a progestina — trazàs glândulas mamárias a secreção do leite; a ocorrência é dolorosa e é acompanhada, com frequencia, de febres, e é em detrimento de seu própriovigor que a mãe alimenta o recém-nascido. O conflito espécie-indivíduo, que no parto assume um aspecto dramático, confere ao corpo feminino umainquietante fragilidade. Diz-se constantemente que as mulheres “têm doenças no ventre” e é verdade que encerram um elemento hostil: é a espécie queas corrói. Muitas de suas doenças não resultam de uma infecção de origem externa, e sim de um desregramento interno. Assim é que as falsas metritessão produzidas por uma reação da mucosa uterina a uma excitação ovariana anormal; se persiste em lugar de ser absorvido, após a menstruação, ocorpo amarelo provoca salpingites, endometrites etc.É ainda através de uma crise difícil que a mulher escapa ao domínio da espécie; entre quarenta e cinco e cinquenta anos desenrolam-se os fenômenosda menopausa, inversos aos da puberdade. A atividade ovariana diminui e até desaparece. Esse desaparecimento acarreta um empobrecimento vital doindivíduo. Supõe-se que as glândulas catabólicas — tireoide e hipófise — esforçam-se por suprir as insuficiências do ovário; observa-se então, ao lado dadepressão da cessação do mênstruo, fenômenos intempestivos: baforadas de calor, hipertensão, nervosidade; há, por vezes, recrudescência do instintosexual. Certas mulheres acumulam, então, banha em seus tecidos; outras virilizam-se. Em muitas, um equilíbrio endócrino restabelece-se. Então, amulher acha-se libertada da servidão da fêmea; não é comparável ao eunuco, porque sua vitalidade continua intata, entretanto não mais é presa deforças que a superam: coincide consigo mesma. Já se afirmou que as mulheres idosas constituem “um terceiro sexo”, e, com efeito, não são machos enão são mais fêmeas, traduzindo-se amiúde essa autonomia fisiológica por uma saúde, equilíbrio e vigor que antes não possuíam.Às diferenciações propriamente sexuais superpõem-se na mulher singularidades que são, mais ou menos, consequências diretas delas. São açõeshormonais que determinam seu soma. Em média, ela é menor do que o homem, menos pesada e seu esqueleto mais frágil, a bacia mais larga, adaptadaàs funções da gestação e do parto; seu tecido conjuntivo fixa as gorduras e suas formas são mais arredondadas do que as do homem; a atitude geral —morfologia, pele, sistema piloso etc. — é nitidamente diferente nos dois sexos. Sua força muscular é muito menor, mais ou menos dois terços da dohomem; sua capacidade respiratória é inferior, os pulmões, a traqueia e a laringe são menores; a diferença da laringe acarreta também a da voz. O pesoespecífico do sangue é menor, pois há menor fixação de hemoglobina; as mulheres são, por conseguinte, menos robustas, mais predispostas à ane mia.Seu pulso bate mais depressa, seu sistema vascular é mais instável: coram facilmente. A instabilidade é um traço marcante de seu organismo em geral.Entre outros, há no homem estabilidade no metabolismo do cálcio, ao passo que a mulher fixa muito menos sais de cal, pois os elimina durante asregras e durante a gravidez. É de imaginar que os ovários tenham, em relação ao cálcio, uma ação catabólica; essa instabilidade acarreta desordensnos ovários e na tireoide, que é nela mais desenvolvida do que no homem, e a irregularidade das secreções endócrinas reage sobre o sistema nervosovegetativo; o controle nervoso e muscular é imperfeitamente assegurado. Essa falta de estabilidade e de controle provoca sua emotividade, diretamenteligada às variações vasculares: pulsações, rubor etc.; e elas são, assim, sujeitas a manifestações convulsivas: lágrimas, gargalhadas, ataques de nervos.Vê-se que muitos desses traços provêm ainda da subordinação da mulher à espécie. Tal é a conclusão mais notável desse exame: é ela, entre todas as


fêmeas de mamíferos, a que se acha mais profundamente alienada e a que recusa mais violentamente esta alienação; em nenhuma, a escravização doorganismo à função reprodutora é mais imperiosa nem mais dificilmente aceita: crises da puberdade e da menopausa, “maldição” mensal, gravidezprolongada e não raro difícil, parto doloroso e por vezes perigoso, doenças, acidentes são características da fêmea humana. Poderíamos dizer que seudestino se faz tanto mais pesado quanto mais ela se revolta contra ele, afirmando-se como indivíduo. Comparada ao macho, este parece infinitamenteprivilegiado: sua vida genital não contraria a existência pessoal; desenvolve-se de maneira contínua, sem crise e geralmente sem acidente. Em média,as mulheres vivem tanto quanto o homem, mas adoecem muito mais vezes e durante muitos períodos não dispõem de si mesmas.Esses dados biológicos são de extrema importância: desempenham na história da mulher um papel de primeiro plano, são um elemento essencial de suasituação. Em todas as nossas descrições ulteriores, teremos que nos referir a eles. Pois, sendo o corpo o instrumento de nosso domínio do mundo, estese apresenta de modo inteiramente diferente segundo seja apreendido de uma maneira ou de outra. Eis por que os estudamos tão demoradamente; sãochaves que permitem compreender a mulher. Mas o que recusamos é a ideia de que constituem um destino imutável para ela. Não bastam para definiruma hierarquia dos sexos; não explicam por que a mulher é o Outro; não a condenam a conservar para sempre essa condição subordinada. * * * Afirmou-se muitas vezes que somente a fisiologia permitia responder a estas perguntas: o êxito individual comporta as mesmas probabilidades nos doissexos? Qual deles desempenha o papel mais importante na espécie? Mas o primeiro desses problemas não se apresenta absolutamente da mesmamaneira para a mulher e para as outras fêmeas, pois os animais constituem espécies dadas de que é possível fornecer descrições estáticas: bastaagrupar observações para concluir se a égua é ou não tão veloz quanto o garanhão, se os chimpanzés machos respondem melhor aos testes intelectuaisdo que suas companheiras, ao passo que a humanidade está em permanente vir a ser. Houve sábios materialistas que pretenderam colocar o problemade maneira puramente estática. Imbuídos da teoria do paralelismo psicofisiológico, procuraram estabelecer comparações matemáticas entre osorganismos masculinos e femininos e imaginavam que essas medidas definiam imediatamente suas capacidades funcionais. Citarei um exemplo dasdiscussões ociosas que esse método suscitou. Como se supunha que, de algum modo misterioso, o cérebro secreta o pensamento, pareceu muitoimportante saber se o peso médio do encéfalo feminino é ou não menor do que o do masculino. Verificou-se que, em média, o primeiro pesa 1.220gramas e o segundo 1.360, variando o peso do encéfalo feminino de 1.000 a 1.500 gramas e o do homem de 1.150 a 1.700. Mas o peso absoluto não ésignificativo; foi por isso o peso relativo que se resolveu ponderar. Verificou-se que era de 1/48,4 no homem e de 1/44,2 na mulher. Logo ela levariavantagem. Não. É preciso retificar ainda: nesse tipo de comparações é o organismo menor que parece sempre privilegiado; para fazer corretamenteabstração do corpo ao comparar dois grupos de indivíduos, cumpre dividir o peso do encéfalo pela potência 0,56 do peso do corpo se pertencem àmesma espécie. Considera-se que homens e mulheres representam dois tipos diferentes. E chega-se aos resultados seguintes:


Conclui-se pela igualdade. Mas o que diminui de muito o interesse dessas discussões engenhosas é o fato de que nenhuma relação pode serestabelecida entre o peso do encéfalo e o desenvolvimento da inteligência. Não seria possível tampouco dar uma interpretação psíquica às fórmulasquímicas que definem os hormônios machos e fêmeos. Quanto a nós, rejeitamos categoricamente a ideia de um paralelismo psicofisiológico; é umadoutrina cujos fundamentos foram de há muito e definitivamente solapados. Se a assinalo é porque, embora filosófica e cientificamente destruída, elaainda preocupa muitos espíritos. Viu-se que ainda persistem em alguns sobrevivências as mais antigas. Recusamos também todo sistema de referênciasque subentende a existência de uma hierarquia natural de valores, de uma hierarquia evolutiva, por exemplo; é ocioso indagar se o corpo feminino é ounão mais infantil do que o do homem, se se aproxima mais ou menos do dos primatas superiores etc. Todas essas dissertações que misturam um vagonaturalismo a uma ética ou a uma estética ainda mais vagas são puro devaneio. É somente dentro de uma perspectiva humana que se podem compararo macho e a fêmea dentro da espécie humana. Mas a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é. Como o disse muitojustamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural: é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, e sim um vir a ser; é noseu vir a ser que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveria definir suas possibilidades. O que falseia tantas discussões é quererreduzi-la ao que ela foi, ao que é hoje, quando se aventa a questão de suas capacidades; o fato é que as capacidades só se manifestam com evidênciaquando realizadas; mas o fato é também que, quando se considera um ser que é transcendência e superação, não se pode nunca encerrar as contas.Entretanto, dirão, na perspectiva que adoto — a de Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty —, que se o corpo não é uma coisa, é uma situação: é a nossatomada de posse do mundo e o esboço de nossos projetos. A mulher é mais fraca do que o homem; ela possui menos força muscular, menos glóbulosvermelhos, menor capacidade respiratória; corre menos depressa, ergue pesos menos pesados, não há quase nenhum esporte em que possa competircom ele; não pode enfrentar o macho na luta. A essa fraqueza acrescentam-se a instabilidade, a falta de controle e a fragilidade de que falamos: sãofatos. Seu domínio sobre o mundo é portanto mais estrito; ela tem menos firmeza e menos perseverança em projetos os quais é também menos capazde executar. Isso significa que sua vida individual é menos rica do que a do homem.Em verdade, esses fatos não poderiam ser negados, mas não têm sentido em si. Desde que aceitamos uma perspectiva humana, definindo o corpo apartir da existência, a biologia torna-se uma ciência abstrata; no momento em que o dado fisiológico (inferioridade muscular) assume uma significação,esta surge desde logo como dependente de todo um contexto; a “fraqueza” só se revela como tal à luz dos fins que o homem se propõe, dosinstrumentos de que dispõe, das leis que se impõe. Se não quisesse apreender o mundo, a própria ideia de posse das coisas não teria mais sentido;quando o pleno emprego da força corporal não é exigido nessa apreensão, abaixo do mínimo utilizável, as diferenças anulam-se; onde os costumesproíbem a violência, a energia muscular não pode alicerçar um domínio: é preciso que haja referências existenciais, econômicas e morais para que anoção de fraqueza possa ser concretamente definida. Foi dito que a espécie humana era uma antiphisis. A expressão não é inteiramente exata,porquanto o homem não poderia contradizer o dado, mas é na maneira pela qual o assume que lhe constitui a verdade. A Natureza só tem realidadepara ele na medida em que é retomada em sua ação: sua própria natureza não constitui exceção. Assim como não é possível medir sua posse do mundo,não é possível medir no abstrato a carga que constitui para a mulher a função geradora: a relação da maternidade com a vida individual é naturalmenteregulada nos animais pelo ciclo do cio e das estações: ela é indefinida na mulher; só a sociedade pode decidir dela. Segundo essa sociedade exija maiorou menor número de nascimentos, segundo as condições higiênicas em que se desenvolvam a gravidez e o parto, a escravização da mulher à espéciefaz-se mais ou menos estreita. Assim, se podemos dizer que entre os animais superiores a existência individual se afirma mais imperiosamente no


macho do que na fêmea, na humanidade as “possibilidades” individuais dependem da situação econômica e social.Como quer que seja, nem sempre acontece que os privilégios individuais do macho lhe confiram a superioridade no seio da espécie; a fêmeareconquista na maternidade outro tipo de autonomia. Às vezes, ele impõe sua ascendência. É o caso, por exemplo, dos macacos estudados porZuckermann; mas não raro as duas metades do casal levam uma vida separada; o leão partilha com a leoa, em pé de igualdade, os cuidados do lar.Nisto também o caso da espécie humana não se assemelha a nenhum outro; não é como indivíduos que os homens se definem primeiramente; nuncahomens e mulheres se desafiaram em duelos singulares: o casal é um mitsein original; e ele próprio surge sempre como um elemento fixo ou transitóriode uma coletividade mais vasta. No seio dessas sociedades quem é mais necessário à espécie, o macho ou a fêmea? Ao nível dos gametas, ao nível dasfunções biológicas do coito e da gestação, o princípio macho cria para manter, o princípio fêmeo mantém para criar: que acontece com essa divisão naesfera social? Para as espécies fixas em organismos alheios ou em substrata, para aquelas a que a Natureza fornece alimentos em abundância e semnecessidade de esforço, o papel do macho restringe-se à fecundação; quando é preciso procurar, caçar, lutar para assegurar a alimentação necessáriaaos filhotes, o macho concorre frequentemente para a manutenção deles. Essa ajuda torna-se absolutamente indispensável numa espécie em que osfilhos são incapazes de cuidar de suas necessidades muito tempo depois que a mãe deixou de aleitá-los; então o trabalho do macho assume umaimportância extrema; as vidas que suscitou não subsistiriam sem ele. Basta um macho para fecundar anualmente muitas fêmeas: mas para que os filhossobrevivam, depois de nascer, para defendê-los contra os inimigos, para arrancar da Natureza tudo de que precisam, os machos são necessários. Oequilíbrio das forças produtoras e das forças reprodutoras realiza-se diferentemente nos diversos momentos econômicos da história humana econdicionam a relação do macho e da fêmea com os filhos e, por conseguinte, de um com outro. Mas saímos do campo da biologia: à luz desta,exclusivamente, não se poderia afirmar a primazia de um dos sexos quanto ao papel que desempenha na perpetuação da espécie.Finalmente, uma sociedade não é uma espécie: nela, a espécie realiza-se como existência; transcende-se para o mundo e para o futuro; seus costumesnão se deduzem da biologia; os indivíduos nunca são abandonados à sua natureza; obedecem a essa segunda natureza que é o costume e na qual serefletem os desejos e os temores que traduzem sua atitude ontológica. Não é enquanto corpo, é enquanto corpos submetidos a tabus, a leis, que osujeito toma consciência de si mesmo e se realiza: é em nome de certos valores que ele se valoriza. E, diga-se mais uma vez, não é a fisiologia que podecriar valores. Os dados biológicos revestem os que o existente lhes confere. Se o respeito ou o medo que inspiram a mulher impedem o emprego deviolência contra ela, a superioridade muscular do homem não é fonte de poder. Se os costumes exigem — como em certas tribos de índios — que asjovens escolham marido, ou se é o pai que decide os casamentos, a agressividade sexual do macho não lhe confere nenhuma iniciativa, nenhumprivilégio. A ligação íntima da mãe com o filho será para ela fonte de dignidade ou de indignidade, segundo o valor, que é muito variável, concedido àcriança; essa própria ligação, disseram-no, será reconhecida, ou não, segundo os preconceitos sociais.É, portanto, à luz de um contexto ontológico, econômico, social e psicológico que teremos de esclarecer os dados da biologia. A sujeição da mulher àespécie, os limites de suas capacidades individuais são fatos de extrema importância; o corpo da mulher é um dos elementos essenciais da situação queela ocupa neste mundo. Mas não é ele tampouco que basta para a definir. Ele só tem realidade vivida enquanto assumido pela consciência através dasações e no seio de uma sociedade; a biologia não basta para fornecer uma resposta à pergunta que nos preocupa: por que a mulher é o Outro? Trata-sede saber como a natureza foi nela revista através da história; trata-se de saber o que a humanidade fez da fêmea humana.


2/O ponto de vista psicanalíticoO imenso progresso que a psicanálise realizou na psicofisiologia foi considerar que nenhum fator intervém na vida psíquica sem ter revestido umsentido humano; não é o corpo-objeto descrito pelos cientistas que existe concretamente e sim o corpo vivido pelo sujeito. A fêmea é uma mulher namedida em que se sente como tal. Há dados biológicos essenciais e que não pertencem à situação vivida. Assim é que a estrutura do óvulo nela não sereflete; ao contrário, um órgão sem grande importância biológica, como o clitóris, nela desempenha um papel de primeiro plano. Não é a natureza quedefine a mulher: esta é que se define retomando a natureza em sua afetividade.Dentro dessa perspectiva, edificou-se todo um sistema: não pretendemos aqui criticá-lo em seu conjunto, mas tão somente examinar sua contribuiçãoao estudo da mulher. Não é empreendimento fácil discutir a psicanálise. Como todas as religiões — cristianismo, marxismo —, ela se revela, sobre umfundo de conceitos rígidos, de uma elasticidade embaraçante. Ora as palavras são tomadas em seu sentido mais restrito — o termo falo, por exemplo,designando muito precisamente a excrescência carnosa que é o sexo do macho —, ora num sentido indefinidamente ampliado e adquirindo um valorsimbólico. Então, o falo exprimiria todo um conjunto do caráter e da situação viris. Se se ataca a letra da doutrina, o psicanalista afirma que lhedesconhecemos o espírito; se se lhe aprova o espírito, ele procura de imediato restringir-nos à letra. A doutrina não tem importância, diz um: apsicanálise é um método; mas o êxito do método fortalece a fé do doutrinário. E onde encontrar, afinal, a verdadeira psicanálise senão entre ospsicanalistas? Mas entre estes, como entre os cristãos e os marxistas, existem heréticos, e mais de um psicanalista declarou que “os piores inimigos dapsicanálise são os psicanalistas”. A despeito de uma precisão escolástica, muitas vezes pedante, numerosos equívocos não foram ainda dissipados.Como o observam Sartre e Merleau-Ponty, a proposição: “A sexualidade é coextensiva à existência”, pode entender-se de duas maneiras muitodiferentes; pode-se dizer que todo avatar do existente tem uma significação sexual, ou que todo fenômeno sexual tem um sentido existencial: entreambas as afirmativas uma conciliação é possível; mas muitas vezes limitam-se a passar de uma a outra. De resto, desde que se distingue “sexual” e“genital”, a noção de sexualidade torna-se vaga. “O sexual em Freud é a aptidão intrínseca para animar o genital”, diz Dalbiez. Mas nada é mais turvodo que a ideia de “aptidão”, isto é, de possível: só a realidade fornece a prova indubitável da possibilidade. Freud recusou, não sendo filósofo, justificarfilosoficamente seu sistema; seus discípulos pretendem que dessa maneira ele elude todo ataque de ordem metafísica. Há, entretanto, por trás de todasas suas afirmações, postulados metafísicos; utilizar sua linguagem é adotar uma filosofia. São essas confusões que, tornando penosa a crítica, a exigem.Freud não se preocupou muito com o destino da mulher; é claro que calcou a descrição do destino feminino sobre o masculino, restringindo-se amodificar alguns traços. Antes de Freud, o sexólogo Marañon declarara: “Enquanto energia diferençada, a libido é, pode-se dizer, uma força de sentidoviril. Diremos o mesmo do orgasmo.” Na sua opinião, as mulheres que alcançam o orgasmo são mulheres “viriloides”; o impulso sexual tem uma “únicadireção”, e a mulher encontra-se ainda no meio do caminho.20 Freud não vai tão longe; admite que a sexualidade da mulher é tão evoluída quanto a dohomem; mas não a estuda, por assim dizer, em si mesma. Escreve: “A libido é de maneira constante e regular de essência masculina, surja ela nohomem ou na mulher.” Recusa-se a pôr a libido feminina em sua originalidade: ele a vê, por conseguinte, necessariamente como um desvio complexo dalibido humana em geral. Esta se desenvolve primeiramente, pensa ele, de maneira idêntica nos dois sexos : todas as crianças atravessam uma fase oralque as fixa ao seio materno, em seguida uma fase anal e atingem finalmente a fase genital: é então que se diferenciam. Freud pôs em foco um fato cujaimportância, antes dele, não se havia ainda reconhecido totalmente: o erotismo masculino localiza-se definitivamente no pênis, ao passo que há, namulher, dois sistemas eróticos distintos: um, clitoridiano, que se desenvolve no estágio infantil, e outro, vaginal, que surge após a puberdade. Quando ojovem atinge a fase genital, sua evolução está terminada; será necessário que passe da atitude autoerótica, em que aspira ao prazer em suasubjetividade, a uma atitude heteroerótica, que relacionará o prazer a um objeto, normalmente a mulher. Tal passagem acontecerá no momento dapuberdade, através de uma fase narcisística; mas o pênis, como na infância, permanecerá o órgão erótico privilegiado. A mulher deverá também, pelonarcisismo, objetivar, no homem, sua libido; porém o processo será muito mais complexo, pois cumpre que passe do prazer clitoridiano ao vaginal. Hásomente uma etapa genital para o homem enquanto há duas para a mulher; ela se arrisca bem mais do que ele a não atingir o termo de sua evoluçãosexual, a permanecer no estágio infantil e, consequentemente, a desenvolver neuroses.Já no estágio autoerótico, a criança liga-se mais ou menos fortemente a um objeto; o menino fixa-se na mãe e quer identificar-se com o pai; apavora-secom essa pretensão e teme que, para puni-lo, o pai o mutile; do “complexo de Édipo” nasce o “complexo de castração”; desenvolve, então, sentimentosde agressividade em relação ao pai, mas interioriza, ao mesmo tempo, sua autoridade. Assim se constitui o superego, que censura as tendênciasincestuosas; essas tendências são recalcadas, o complexo desaparece e o filho liberta-se do pai que, de fato, instalou em si mesmo, sob forma de regrasmorais. O superego é tanto mais forte quanto mais o complexo de Édipo for definido e mais rigorosamente combatido. Freud descreveu inicialmente, demaneira inteiramente simétrica, a história da menina; em seguida, atribuiu à forma feminina do complexo infantil o nome de complexo de Electra. Masé claro que o definiu menos em si mesmo do que a partir da forma masculina; admite, entretanto, que há entre os dois importante diferença: a meninapossui, inicialmente, uma fixação materna, enquanto o menino nunca é atraído sexualmente pelo pai. Essa fixação é uma sobrevivência da fase oral; amenina identifica-se, então, com o pai, mas por volta dos cinco anos descobre a diferença anatômica dos sexos e reage à ausência do pênis por umcomplexo de castração. Imagina ela ter sido mutilada e sofre por isso. Deve, assim, renunciar às suas pretensões viris, identifica-se com a mãe eprocura seduzir o pai. Complexo de castração e complexo de Electra fortalecem-se mutuamente; o sentimento de frustração da menina é tanto maisdoloroso quanto, amando o pai, gostaria de assemelhar-se a ele; e, inversamente, essa tristeza de não poder fortalece seu amor; é pela ternura queinspira ao pai que ela pode compensar sua inferioridade. A menina sente em relação à mãe um sentimento de rivalidade, de hostilidade. Depois, nelatambém o superego se constitui, as tendências incestuosas são recalcadas, mas o superego é mais frágil: o complexo de Electra é menos nítido do que ode Édipo, pelo fato de a primeira fixação ter sido materna. E, como o pai era, ele próprio, o objeto desse amor que ele condenava, suas proibiçõestinham menos força do que no caso do filho rival. Assim como sua evolução genital, vê-se que o conjunto do drama sexual é mais complexo na meninado que em seus irmãos; ela pode ser tentada a reagir ao complexo de castração, recusando sua feminilidade, obstinando-se em cobiçar um pênis e emidentificar-se com o pai; essa atitude irá conduzi-la a permanecer no estágio clitoridiano, a tornar-se frígida ou a voltar-se para a homossexualidade. As duas críticas essenciais que podem ser feitas a essa descrição provêm do fato de Freud tê-la calcado sobre um modelo masculino. Ele supõe que amulher se sente um homem mutilado. Porém, a ideia de mutilação implica uma comparação e uma valorização; muitos psicanalistas admitem hoje que amenina lamenta não ter pênis mas sem supor, entretanto, que o tiraram dela; e nem isso é tão generalizado; não poderia tal sentimento nascer desimples confrontação anatômica; muitas meninas só tardiamente descobrem a constituição masculina e, se a descobrem, é apenas pela vista. Já omenino tem de seu pênis uma experiência viva que lhe permite orgulhar-se dele, mas esse orgulho não tem um correlativo imediato na humilhação desuas irmãs, porque estas só conhecem o órgão masculino na sua exterioridade. Essa excrescência, esse frágil caule de carne só lhe pode inspirarindiferença e até repugnância; a inveja da menina resulta de uma valorização prévia da virilidade. Freud a encara como existente quando seria precisoexplicá-la.21 Por outro lado, por não se inspirar numa descrição original da libido feminina, a noção de complexo de Electra permanece muito vaga.Mesmo entre os meninos, a presença de um complexo de Édipo de ordem propriamente genital está longe de ser geral; mas, salvo raríssimas exceções,não há como admitir que o pai seja, para a filha, uma fonte de excitação genital; um dos grandes problemas do erotismo feminino está em que o prazerclitoridiano se isola. É somente no momento da puberdade, em ligação com o erotismo vaginal, que se desenvolvem no corpo da mulher várias zonaserógenas. Dizer que na criança de dez anos os beijos e as carícias do pai têm “uma aptidão intrínseca” para despertar o prazer clitoridiano é umaasserção que na maioria dos casos não tem qualquer sentido. Se admitimos que o complexo de Electra tem apenas um caráter afetivo muito difuso,coloca-se, então, todo o problema da afetividade, para cuja definição, desde que a separemos da sexualidade, o freudismo não nos fornece os meios.Seja como for, não é a libido feminina que diviniza o pai; a mãe não é divinizada pelo desejo que inspira ao filho. O fato de o desejo feminino voltar-separa um ser soberano dá-lhe um caráter original, mas a menina não é constitutiva de seu objeto, ela o sofre. A soberania do pai é um fato de ordemsocial e Freud malogra em explicá-lo; ele próprio confessa que é impossível saber que autoridade decidiu, em um momento da história, que o paisuperaria a mãe; essa decisão representa, a seu ver, um progresso, mas cujas causas são ignoradas. “Não pode tratar-se aqui da autoridade paterna,porquanto essa autoridade só foi conferida ao pai pelo progresso”, escreve em seu último livro.22Foi por ter compreendido a insuficiência de um sistema que assenta unicamente na sexualidade o desenvolvimento da vida humana que Adler seseparou de Freud; ele pretende reintegrá-la na personalidade total; enquanto, em Freud, todas as condutas surgem como provocadas pelo desejo, istoé, pela procura do prazer; em Adler, o homem se apresenta visando a certos fins: ao móvel; Adler substitui motivos, finalidade, planos; ele dá àinteligência um lugar tão grande que muitas vezes o sexual adquire, a seus olhos, um valor tão somente simbólico. Segundo suas teorias, o dramahumano decompõe-se em três momentos: há em todo indivíduo uma vontade de poder que se acompanha de um complexo de inferioridade; esse conflitoo conduz a utilizar mil subterfúgios para evitar a prova do real que ele receia não poder vencer. O sujeito estabelece uma distância entre ele e asociedade que teme; daí provêm as neuroses, que são uma perturbação do sentido social. No que concerne à mulher, seu complexo de inferioridadeassume a forma de uma recusa envergonhada da feminilidade. Não é a ausência do pênis que provoca o complexo, e sim o conjunto da situação; amenina não inveja o falo a não ser como símbolo dos privilégios concedidos aos meninos; o lugar que o pai ocupa na família, a preponderância universaldos machos, a educação, tudo confirma a ideia da superioridade masculina. Mais tarde, em suas relações sexuais, a própria posição do coito, que colocaa mulher embaixo do homem, é uma nova humilhação. Ela reage por meio de um “protesto viril”: ou procura masculinizar-se, ou luta contra o homemcom armas femininas. É pela maternidade que ela pode encontrar na criança um equivalente do pênis. Mas isso supõe que começa a aceitar-seintegralmente como mulher e, portanto, que aceita sua inferioridade. Ela é dividida contra si mesma muito mais profundamente do que o homem.Não cabe insistir aqui nas diferenças teóricas que separam Adler de Freud e nas possibilidades de uma reconciliação: nem a explicação pelo móvel nema explicação pelo motivo são suficientes. Todo móvel apresenta um motivo, mas o motivo nunca é apreendido senão através de um móvel; uma síntesedo adlerismo e do freudismo parece pois realizável. Na realidade, fazendo intervir noções de objetivo e de finalidade, Adler conserva integralmente aideia de uma causalidade psíquica; ele está um pouco em relação a Freud como o energetismo ao mecanicismo: quer se trate de choque ou de força deatração, o físico admite sempre o determinismo. É o postulado comum a todos os psicanalistas. A história humana explica-se, segundo eles, por um jogode elementos determinados. Todos atribuem à mulher o mesmo destino. O drama desta reduz-se ao conflito entre suas tendências “viriloides” e


“femininas”; as primeiras realizam-se no sistema cl itoridiano; as segundas, no erotismo vaginal; infantilmente, ela se identifica com o pai, depoisexperimenta um sentimento de inferioridade em relação ao homem e é colocada na alternativa de manter sua autonomia, de se virilizar — o que sobre ofundo de um complexo de inferioridade provoca uma tensão suscetível de acarretar neuroses — ou de encontrar, na submissão amorosa, uma felizrealização de si mesma, solução que lhe é facilitada pelo amor que devotava ao pai soberano. É ele que ela busca no amante ou no marido, e o amorsexual acompanha-se nela do desejo de ser dominada. Será recompensada pela maternidade, que lhe restitui uma espécie de autonomia. Esse dramaapresenta-se dotado de um dinamismo próprio; procura desenrolar-se através de todos os acidentes que o desfiguram, e cada mulher aceita-opassivamente.Não é difícil aos psicanalistas encontrar confirmações empíricas para suas teorias. Sabe-se que complicando muito sutilmente o sistema de Ptolomeupôde-se, durante muito tempo, sustentar que explicava exatamente a posição dos planetas; superpondo ao Édipo um Édipo invertido, mostrando emtoda angústia um desejo, conseguimos integrar no freudismo os próprios fatos que o contradizem. Só se pode apreender uma forma a partir de umfundo e a maneira pela qual a forma é apreendida recorta por trás dela esse fundo em traços positivos; assim, se nos obstinarmos em descrever umahistória singular dentro de uma perspectiva freudiana, encontramos por trás o esquema freudiano; só que quando uma doutrina obriga a multiplicar asexplicações secundárias de uma maneira indefinida e arbitrária, quando a observação descobre tantas anomalias quantos casos normais, é preferívelabandonar os antigos quadros. Por isso mesmo, hoje todos os psicanalistas esforçam-se por ab randar, à sua maneira, os conceitos freudianos; tentamconciliações. Um psicanalista contemporâneo escreve, por exemplo: “Desde que há complexo, há, por definição, vários componentes... o complexoconsiste no agrupamento desses elementos díspares e não na representação de um deles pelos outros.”23 Mas a ideia de um simples agrupamento deelementos é inaceitável; a vida psíquica não é um mosaico; toda ela existe em cada um de seus momentos e cumpre respeitar essa unidade. Isso só épossível reencontrando, através dos fatos díspares, a intencionalidade original da existência. Em não remontando a essa fonte, o homem se apresentacomo um campo de batalha entre impulsos e proibições igualmente destituídos de sentido e contingentes. Há, em todos os psicanalistas, uma recusasistemática da ideia de escolha e da noção de valor que lhe é correlativa; é o que constitui a fraqueza intrínseca do sistema. Tendo desligado impulsos eproibições da escolha existencial, Freud malogra em explicar-lhes a origem: toma-os por dados. Tenta substituir a noção de valor pela de autoridade;mas, em Moisés, seu povo e a religião monoteísta, ele convém em que não há meio de explicar essa autoridade. O incesto, por exemplo, é proibidoporque o pai o proibiu: mas por que essa proibição? Mistério. O superego interioriza ordens e proibições emanando de uma tirania arbitrária; astendências instintivas existem não se sabe por quê; as duas realidades são heterogêneas porque se considerou a moral alheia à sexualidade; a unidadehumana apresenta-se quebrada, não há passagem do indivíduo à sociedade; Freud é obrigado a inventar estranhos romances para reuni-los.24 Adlerpercebeu muito bem que o complexo de castração só se poderia explicar num contexto social; abordou o problema da valorização, mas não remontou àfonte ontológica dos valores reconhecidos pela sociedade e não compreendeu que, na sexualidade propriamente dita, se empenham valores, o que olevou a menosprezar-lhes a importância.Seguramente a sexualidade desempenha na vida humana um papel considerável: pode-se dizer que ela a penetra por inteira. A fisiologia já nos mostrouque a vida dos testículos e a dos ovários confundem-se com a do soma. O existente é um corpo sexuado; nas suas relações com os outros existentes, quesão também corpos sexuados, a sexualidade está, portanto, sempre empenhada; mas, se corpo e sexualidade são expressões concretas da existência, étambém a partir desta que se pode descobrir-lhes as significações: sem essa perspectiva, a psicanálise toma, por verdadeiros, fatos inexplicados.Dizem-nos, por exemplo, que a menina tem vergonha de urinar de cócoras com as nádegas à mostra: mas o que é a vergonha? Assim também, antes deindagar se o macho se orgulha de ter um pênis ou se seu orgulho se exprime pelo pênis, cumpre saber o que é o orgulho e como a pretensão do sujeitopode encarnar-se em um objeto. Não se deve encarar a sexualidade como um dado irredutível; há, no existente, uma “procura do ser” mais original; asexualidade é apenas um de seus aspectos. É o que mostra Sartre em O ser e o nada; é o que diz também Bachelard em suas obras sobre a Terra, o Ar,a Água: os psicanalistas consideram que a verdade primeira do homem é uma relação com seu próprio corpo e com o corpo de seus semelhantes no seioda sociedade. Mas o homem vota um interesse primordial à substância do mundo natural que o cerca e que procura descobrir no trabalho, no jogo, emtodas as experiências da “imaginação dinâmica”. O homem pretende alcançar concretamente a existência através do mundo inteiro, apreendido detodas as maneiras possíveis. Amassar o barro, cavar um buraco são atividades tão originais como o amplexo, o coito: enganam-se os que veem nelassímbolos sexuais tão somente; o buraco, o visgo, o entalhe, a dureza, a integridade são realidades primeiras; o interesse que o homem lhes vota não éditado pela libido, mas esta é que é colorida pela maneira pela qual elas foram descobertas por ele. Não é porque simboliza a virgindade feminina que aintegridade fascina o homem: é seu amor à integridade que torna preciosa a virgindade. O trabalho, a guerra, o jogo, a arte definem maneiras de ser nomundo que não se deixam reduzir a nenhuma outra; elas descobrem qualidades que interferem com as que revela a sexualidade; é, ao mesmo tempo,através delas e através das experiências eróticas que o indivíduo se escolhe. Mas só um ponto de vista ontológico permite restituir a unidade dessaescolha.É essa noção de escolha que o psicanalista rechaça mais violentamente em nome do determinismo e do “inconsciente coletivo”; este forneceria aohomem imagens feitas e um simbolismo universal; ele é que explicaria as analogias dos sonhos, dos atos falhos, dos delírios, das alegorias e dosdestinos humanos; falar de liberdade seria recusar a possibilidade de explicar tão perturbadoras concordâncias. Mas a ideia de liberdade não éincompatível com a existência de certas constantes. Se o método psicanalítico é muitas vezes fecundo, apesar dos erros da teoria, é porque há em todahistória singular dados cuja generalidade ninguém nega: as situações e as condutas repetem-se; é no seio da generalidade e da repetição que surge omomento da decisão. “A anatomia é o destino”, dizia Freud; essa expressão encontra eco em Merleau-Ponty: “O corpo é a generalidade.” A existência éuma através da separação dos existentes; ela manifesta-se em organismos análogos; haverá, portanto, constantes na ligação do ontológico ao sexual.Em dada época, as técnicas, a estrutura econômica e social de uma coletividade descobrem, a todos os seus membros, um mundo idêntico; haverátambém uma relação constante da sexualidade com as formas sociais; indivíduos análogos, colocados em condições análogas, perceberão no dadosignificações análogas; essa analogia não cria uma universalidade rigorosa, mas permite encontrar tipos gerais nas histórias individuais. O símbolo nãose apresenta a nós como uma alegoria elaborada por um inconsciente misterioso: é a apreensão de uma significação através de um analogon do objetosignificante. Do fato da identidade da situação existencial através de todos os existentes e da identidade da facticidade que lhes cumpre enfrentar, assignificações se revelam, da mesma maneira, a muitos indivíduos. O simbolismo não caiu do céu nem jorrou das profundezas subterrâneas: foielaborado, assim como a linguagem, pela realidade humana que é mitsein ao mesmo tempo que separação, e isso explica que a invenção singular neletenha seu lugar. Praticamente o método psicanalítico é forçado a admiti-lo, autorize-o ou não a doutrina. Essa perspectiva permite-nos, por exemplo,compreender o valor geralmente dado ao pênis.25 É impossível explicá-lo sem partir de um fato existencial: a tendência do sujeito para a alienação. Aangústia de sua liberdade conduz o sujeito a procurar-se nas coisas, o que é uma maneira de fugir de si mesmo; é uma tendência tão fundamental quelogo após a desmama, quando se acha separado do Todo, a criança esforça-se por apreender nos espelhos, no olhar dos pais, sua existência alienada. Osprimitivos alienam-se no mana, no totem; os civilizados em sua alma individual, em seu eu, em seu nome, em sua propriedade, em sua obra: é aprimeira tentação da inautenticidade. O pênis é singularmente indicado a desempenhar, para o menino, o papel de “duplo”: é para ele um objetoestranho e, ao mesmo tempo, ele próprio; é um brinquedo, uma boneca e é sua própria carne; pais e amas tratam-no como um pequeno personagem.Concebe-se então que se torne para a criança “um alter ego em geral mais malandro, mais inteligente e mais hábil do que o indivíduo”;26 do fato de quea função urinária e mais tarde a ereção se encontram a meio caminho entre os processos voluntários e os processos espontâneos; do fato de que é umafonte caprichosa, quase alheia, de um prazer subjetivamente sentido, o pênis é posto pelo sujeito como si mesmo e outro que não si mesmo; atranscendência específica encarna-se nele de maneira apreensível e ele é fonte de orgulho; é porque o falo é separado que o homem pode integrar nasua individualidade a vida que o ultrapassa. Concebe-se então que o comprimento do pênis, a força do jato de urina, da ereção, da ejaculação tornem-se, para o sujeito, a medida de seu próprio valor.27 Por isso é constante que o falo encarne carnalmente a transcendência. Como é igualmente constanteque a criança sinta-se transcendida, isto é, frustrada de sua transcendência pelo pai, encontraremos portanto a ideia freudiana de “complexo decastração”. Privada desse alter ego, a menina não se aliena numa coisa apreensível, não se recupera; em consequência, ela é levada a fazer-se porinteira objeto, a pôr-se como o Outro; a questão de saber se se comparou ou não aos meninos é secundária; o importante é que, mesmo não conhecidapor ela, a ausência do pênis a impede de se tornar presente a si própria enquanto sexo; disso resultarão muitas consequências. Mas essas constantesque assinalamos não definem entretanto um destino: o falo assume tão grande valor porque simboliza uma soberania que se realiza em outros campos.Se a mulher conseguisse afirmar-se como sujeito, inventaria equivalentes para o falo: a posse de uma boneca, em quem se encarna a promessa do filho,pode se tornar mais preciosa do que a do pênis.28 Há sociedades de filiação uterina em que as mulheres detêm as máscaras em que a coletividade sealiena. O pênis perde então muito de seu prestígio. É só no seio da situação apreendida em sua totalidade que o privilégio anatômico cria umverdadeiro privilégio humano. A psicanálise só conseguiria encontrar sua verdade no contexto histórico.Assim como não basta dizer que a mulher é uma fêmea, não se pode defini-la pela consciência que tem de sua feminilidade; toma consciência desta noseio da sociedade de que é membro. Interiorizando o inconsciente e toda a vida psíquica, a própria linguagem da psicanálise sugere que o drama doindivíduo desenrola-se nele: as palavras “complexo”, “tendência” etc. implicam-no. Mas uma vida é uma relação com o mundo; é escolhendo-se atravésdo mundo que o indivíduo se define; é para o mundo que nos devemos voltar a fim de responder às questões que nos preocupam. Em particular, apsicanálise malogra em explicar por que a mulher é o Outro, pois o próprio Freud admite que o prestígio do pênis explica-se pela soberania do pai econfessa que ignora a origem da supremacia do macho.Sem rejeitar em bloco as contribuições da psicanálise, algumas das quais são fecundas, recusaremos contudo seu método. Primeiramente, não nosrestringiremos a considerar a sexualidade um dado: que essa atitude seja limitada é o que demonstra a pobreza das descrições relativas à libidofeminina. Já dissemos que jamais os psicanalistas a estudaram de frente, mas tão somente a partir da libido masculina; parecem ignorar a atraçãofundamental que o macho exerce sobre a fêmea. Freudianos e adlerianos explicam a angústia experimentada pela mulher ante o sexo masculino como ainversão de um desejo frustrado. Stekel viu melhor que há uma reação original, mas ele a explica de maneira superficial: a mulher teria medo dodefloramento, da penetração, da gravidez, da dor, e esse medo lhe frearia o desejo. A explicação é por demais racional. Ao invés de admitir que o desejose disfarça em angústia ou é combatido pelo temor, seria preciso encarar como um dado original essa espécie de apelo a um tempo urge nte eamedrontado que é o desejo da fêmea; é a síntese indissolúvel da atração e da repulsa que o caracteriza. É notável que muitas fêmeas animais fogemdo coito no próprio momento em que o solicitam: tacham-nas de faceiras, de hipócritas, mas é absurdo pretender explicar comportamentos primitivosassimilando-os a condutas complexas. São eles, ao contrário, que se encontram na base das atitudes do que se denomina na mulher faceirice,


hipocrisia. A ideia de uma “libido passiva” desnorteia porque se definiu a libido a partir do macho como impulso, energia; mas não se conceberiatampouco a priori que uma luz pudesse ser a um tempo amarela e azul: é preciso ter a intuição do verde. Limitaríamos ainda mais a realidade se, emlugar de definir a libido em termos vagos de energia, confundíssemos a significação da sexualidade com outras atitudes humanas: pegar, captar, comer,fazer, suportar etc.; porque ela é um dos modos singulares de apreender um objeto; seria preciso estudar também as qualidades do objeto erótico talqual se apresenta não apenas no ato sexual, mas ainda na percepção em ger al. Esse exame sai do quadro da psicanálise, que apresenta o erotismocomo irredutível.Por outro lado, situaremos de maneira inteiramente diferente o problema do destino feminino: colocaremos a mulher num mundo de valores eatribuiremos a suas condutas uma dimensão de liberdade. Pensamos que ela tem de escolher entre a afirmação de sua transcendência e sua alienaçãocomo objeto; ela não é o joguete de impulsos contraditórios, ela inventa soluções entre as quais existe uma hierarquia ética. Substituindo ao valor aautoridade, à escolha o impulso, a psicanálise propõe um ersatz da moral: é a ideia de normalidade. Essa ideia é por certo muito útil em terapêutica,mas adquiriu, na psicanálise em ge ral, uma inquietante extensão. O esquema descritivo propõe-se como uma lei, e seguramente uma psicologiamecanicista não poderia aceitar a noção de invenção moral: pode, quando muito, explicar o menos, nunca o mais. A rigor, admite fracassos, nuncacriações. Se um sujeito não reproduz em sua totalidade a evolução considerada normal, diremos que a evolução se deteve no caminho, interpretaremosessa parada como uma falha, uma negação, nunca como uma decisão positiva. É o que torna, entre outras coisas, tão chocante a psicanálise dosgrandes homens. Dizem-nos que tal transferência, tal sublimação, não conseguiu efetuar-se neles. Não se supõe que talvez o tenham recusado e quetalvez tivessem boas razões para tanto; não se quer considerar que suas condutas possam ter sido motivadas por objetivos livremente postos; é sempreem sua ligação com o passado, e não em função de um futuro para o qual se projeta, que o indivíduo é explicado. Por isso mesmo, só temos dele umaimagem inautêntica e na inautenticidade não se poderia encontrar outro critério que não o da normalidade. A descrição do destino feminino é, desseponto de vista, impressionante. No senti do em que os psicanalistas o entendem, “identificar-se” à mãe ou ao pai é alienar-se em um modelo, é preferirao movimento espontâneo de sua própria existência uma imagem alheia, é fingir ser. Mostram-nos a mulher solicitada por dois modos de alienação; éevidente que fingir ser homem seria para ela fonte de malogro, mas fingir ser mulher é também ilusão. Ser mulher seria ser o objeto, o Outro, e o Outropermanece sujeito no seio de sua demissão. O verdadeiro problema para a mulher está, em recusando essas fugas, realizar-se como transcendência;trata-se de ver, então, que possibilidades lhe abrem o que se chama atitude viril e atitude feminina; quando uma criança segue o caminho indicado portal ou qual de seus pais, é talvez porque retoma livremente os projetos deles. Sua conduta pode ser o resultado de uma escolha motivada por certosfins. Mesmo em Adler, a vontade de potência não passa de uma espécie de energia absurda; ele denomina “protesto viril” todo projeto em que seencarna a transcendência. Quando uma menina sobe uma árvore é, a seu ver, para igualar-se aos meninos: não imagina que subir numa árvore lheagrade; para a mãe, a criança é algo diferente do “equivalente do pênis”; pintar, escrever, fazer política não são apenas “boas sublimações”. Há, nessasatividades, fins que são desejados em si: negá-lo é falsear toda a história humana. Pode-se observar certo paralelismo entre nossas descrições e as dospsicanalistas. É porque do ponto de vista dos homens — e é o que adotam os psicanalistas de ambos os sexos — consideram-se femininas as condutasde alienação, e viris aquelas em que o sujeito afirma sua transcendência. Um historiador da mulher, Donaldson, observava que as definições “O homemé um ser humano macho, a mulher é um ser humano fêmeo” foram assimetricamente mutiladas; é particularmente entre os psicanalistas que o homemé definido como ser humano e a mulher como fêmea: todas as vezes que ela se conduz como ser humano, afirma-se que ela imita o macho. Opsicanalista descreve-nos a criança e a moça solicitadas a identificar-se com o pai ou a mãe, hesitantes entre as tendências “viriloides” e “femininas”;ao passo que nós concebemos a mulher hesitando entre o papel de objeto, de Outro que lhe é proposto, e a reivindicação de sua liberdade. Assim,concordaremos a respeito de certo número de fatos, em particular quando consideramos os caminhos de fuga inautêntica que se oferecem à mulher,mas não lhes emprestaremos, em absoluto, a mesma significação que o freudiano ou o adleriano. Para nós, a mulher define-se como ser humano embusca de valores no seio de um mundo de valores, mundo cuja estrutura econômica e social é indispensável conhecer; nós a estudaremos numaperspectiva existencial através de sua situação total.


3/O ponto de vista do materialismo históricoA teoria do materialismo histórico pôs em evidência muitas verdades importantes. A humanidade não é uma espécie animal: é uma realidade histórica.A sociedade humana é uma antiphisis: ela não sofre passivamente a presença da Natureza, ela a retoma em suas mãos. Essa retomada de posse não éuma operação interior e subjetiva; efetua-se objetivamente na práxis. Assim, a mulher não poderia ser considerada apenas um organismo sexuado:entre os dados biológicos, só têm importância os que assumem, na ação, um valor concreto; a consciência que a mulher adquire de si mesma não édefinida unicamente pela sexualidade. Ela reflete uma situação que depende da estrutura econômica da sociedade, estrutura que traduz o grau deevolução técnica a que chegou a humanidade. Viu-se que, biologicamente, os dois traços que caracterizam a mulher são os seguintes: seu domíniosobre o mundo é menos extenso que o do homem; ela é mais estreitamente submetida à espécie. Mas esses fatos assumem um valor inteiramentediferente segundo o seu contexto econômico e social. Na história humana, o domínio do mundo não se define nunca pelo corpo nu: a mão com seupolegar preensivo já se supera em direção ao instrumento que lhe multiplica o poder; desde os mais antigos documentos de pré-história o homem surgesempre armado. No tempo em que se tratava de brandir pesadas maças, de enfrentar animais selvagens, a fraqueza física da mulher constituía umainferioridade flagrante; basta que o instrumento exija uma força ligeiramente superior à de que dispõe a mulher para que ela se apresente comoradicalmente impotente. Mas pode acontecer, ao contrário, que a técnica anule a diferença muscular que separa o homem da mulher: a abundância sócria superioridade na perspectiva de uma necessidade; não é melhor ter demais do que não ter bastante. Assim, o manejo de numerosas máquinasmodernas não exige mais do que uma parte dos recursos viris. Se o mínimo necessário não é superior às capacidades da mulher, ela torna-se igual aohomem no trabalho. Efetivamente, pode-se determinar hoje imensos desenvolvimentos de energia simplesmente apertando um botão. Quanto àsservidões da maternidade, elas assumem, segundo os costumes, uma importância muito variável: são esmagadoras se se impõem à mulher muitasprocriações e se ela deve alimentar e cuidar dos filhos sem mais ajuda; se procria livremente, se a sociedade a auxilia durante a gravidez e se se ocupada criança, os encargos maternais são leves e podem ser facilmente compensados no campo do trabalho.É de acordo com essa perspectiva que Engels retraça a história da mulher em A origem da família. Essa história dependeria essencialmente da históriadas técnicas. Na Idade da Pedra, quando a terra era comum a todos os membros do clã, o caráter rudimentar da pá, da enxada primitiva, limitava aspossibilidades agrícolas: as forças femininas estavam na medida do trabalho exigido pelo cultivo dos jardins. Nessa divisão primitiva do trabalho, osdois sexos já constituem, até certo ponto, duas classes; entre elas há igualdade. Enquanto o homem caça e pesca, a mulher permanece no lar. Mas astarefas domésticas comportam um trabalho produtivo: fabricação dos vasilhames, tecelagem, jardinagem, e com isso ela desempenha um papelimportante na vida econômica. Com a descoberta do cobre, do estanho, do bronze, do ferro, com o aparecimento da charrua, a agricultura estende seusdomínios. Um trabalho intensivo é exigido para desbravar florestas, tornar os campos produtivos. O homem recorre, então, ao serviço de outros homensque reduz à escravidão. A propriedade privada aparece; senhor dos escravos e da terra, o homem torna-se também proprietário da mulher. Nissoconsiste “a grande derrota histórica do sexo feminino”. Ela se explica pelo transtorno ocorrido na divisão do trabalho em consequência da invenção denovos instrumentos. “A mesma causa que assegurara à mulher sua autoridade anterior dentro da casa, seu confinamento nos trabalhos domésticos,essa mesma causa assegurava agora a preponderância do homem. O trabalho doméstico da mulher desaparecia, então, ao lado do trabalho produtivodo homem; o segundo era tudo, o primeiro um anexo insignificante.” O direito paterno substitui-se então ao direito materno; a transmissão dapropriedade faz-se de pai a filho e não mais da mulher a seu clã. É o aparecimento da família patriarcal baseada na propriedade privada. Nessa famíliaa mulher é oprimida. O homem, reinando soberanamente, permite-se, entre outros, o capricho sexual: dorme com escravas ou hetairas, é polígamo. Apartir do momento em que os costumes tornam a reciprocidade possível, a mulher vinga-se pela infidelidade: o casamento completa-se naturalmentecom o adultério. É a única defesa da mulher contra a servidão doméstica em que é mantida; a opressão social que sofre é a consequência de umaopressão econômica. A igualdade só se poderá restabelecer quando os dois sexos tiverem direitos juridicamente iguais, mas essa libertação exige aentrada de todo o sexo feminino na atividade pública. “A mulher só se emancipará quando puder participar em grande medida social na produção, e nãofor mais solicitada pelo trabalho doméstico senão numa medida insignificante. E isso só se tornou possível na grande indústria moderna, que nãosomente admite o trabalho da mulh er em grande escala como ainda o exige formalmente...”Deste modo, o destino da mulher e o socialismo estão intimamente ligados, como se vê igualmente na vasta obra consagrada por Bebel à mulher. “Amulher e o proletário”, diz ele, “são ambos oprimidos”. É o mesmo desenvolvimento da economia a partir das modificações provocadas pelomaquinismo que os deve libertar um e outro. O problema da mulher reduz-se ao de sua capacidade de trabalho. Forte na época em que as técnicas seadaptavam às suas possibilidades, destronada quando se tornou incapaz de explorá-las, ela volta a encontrar no mundo moderno sua igualdade com ohomem. São as resistências do velho paternalismo capitalista que, na maioria dos países, impedem que essa igualdade se realize; ela o será no dia emque tais resistências se quebrarem. Já o é na URSS, afirma a propaganda soviética. E quando a sociedade socialista tiver dominado o mundo inteiro,não haverá mais homens e mulheres, mas tão somente trabalhadores iguais entre si.Embora a síntese esboçada por Engels assinale um progresso sobre as que examinamos anteriormente, ela nos decepciona: os problemas maisimportantes são escamoteados. O pivô de toda a história está na passagem do regime comunitário ao da propriedade privada: não se indicaabsolutamente de que maneira pode efetuar-se; Engels confessa mesmo que “não o sabemos até o presente”;29 e não somente ele ignora o pormenorhistórico como ainda não sugere nenhuma interpretação. Nem é claro, tampouco, que a propriedade privada tenha acarretado fatalmente aescravização da mulher. O materialismo histórico considera certos e verdadeiros fatos que seria preciso explicar. Afirma, sem discuti-lo, o laço deinteresse que prende o homem à propriedade: mas onde esse interesse, mola das instituições sociais, tem, ele próprio, sua origem? A exposição deEngels permanece, portanto, superficial e as verdades que descobre parecem-nos contingentes. É que é impossível aprofundá-las sem sair fora domaterialismo histórico. Este não pode fornecer soluções para os problemas que indicamos, porque tais problemas interessam o homem na suatotalidade e não essa abstração que se denomina homo oeconomicus.É claro, por exemplo, que a própria ideia de posse singular só tem sentido possível a partir da condição original do existente. Para que apareça, épreciso que haja, primeiramente, no sujeito uma tendência a se afirmar na sua singularidade radical, uma afirmação de sua existência autônoma eseparada. Compreende-se que essa pretensão tenha permanecido subjetiva, interior, sem verdade, enquanto o indivíduo não possuía os meios práticosde satisfazê-la objetivamente: sem ferramenta adequada, não percebia, a princípio, seu poder sobre o mundo, sentia-se perdido dentro da Natureza eda coletividade, passivo, ameaçado, joguete de forças obscuras; somente identificando-se com todo o clã é que ousava pensar-se: o totem, o mana, aterra eram realidades coletivas. O que a descoberta do bronze permitiu ao homem foi, mediante a prova de um trabalho duro e produtivo, descobrir-secomo criador; dominando a Natureza, não mais a teme e, em face das resistências vencidas, tem a audácia de se encarar como atividade autônoma, dese realizar na sua singularidade.30 Mas essa realização nunca teria ocorrido se o homem não a tivesse originalmente desejado; a lição do trabalho nãose inscreveu num sujeito passivo: o sujeito forjou-se a si próprio e se conquistou, forjando seus instrumentos e conquistando a terra. Por outro lado, aafirmação do sujeito não basta para explicar a propriedade: no desafio, na luta, no duelo singular, cada consciência pode tentar alcançar a soberania.Para que o desafio tenha assumido a forma do potlatch, isto é, de uma rivalidade econômica, para que a partir daí o chefe, em primeiro lugar, e osmembros do clã, em seguida, tenham reivindicado bens particulares, é preciso que se encontre no homem outra tendência original. Já dissemos, nocapítulo precedente, que o existente só se aprende alienando-se; ele se procura através do mundo sob uma forma exterior e que faz sua. No totem, nomana, no território que ocupa é sua existência alienada que o clã encontra; quando o indivíduo se separa da comunidade, ele reclama uma encarnaçãosingular: o mana individualiza-se no chefe e, em seguida, em cada indivíduo e, ao mesmo tempo, cada um tenta apropriar-se de um pedaço de terra, deinstrumentos de trabalho, de colheitas. Nessas riquezas que são suas, é ele próprio que o homem reencontra porque nelas se perdeu; compreende-se,então, que possa atribuir-lhes uma importância tão fundamental quando à sua própria vida. Então o interesse do homem pela sua propriedade torna-seuma relação inteligível. Mas vê-se bem que não é possível explicá-la unicamente pela ferramenta: é preciso captar toda a atitude do homem armadocom a ferramenta, atitude que implica uma infraestrutura ontológica.De igual modo é impossível deduzir a opressão da mulher da propriedade privada. Ainda aqui a insuficiência do ponto de vista de Engels é manifesta.Ele compreendeu muito bem que a fraqueza muscular da mulher só se tornou uma inferioridade concreta na sua relação com a ferramenta de bronze ede ferro, mas não viu que os limites de sua capacidade de trabalho não constituíam em si mesmos uma desvantagem concreta senão dentro de dadaperspectiva. É porque o homem é transcendência e ambição que projeta novas exigências através de toda nova ferramenta. Quando inventou osinstrumentos de bronze não se contentou mais com explorar os jardins; quis arrotear e cultivar vastos campos; não foi do bronze em si que jorrou essavontade. A incapacidade da mulher acarretou-lhe a ruína porque o homem apreendeu-a através de um projeto de enriquecimento e expansão. E esseprojeto não basta ainda para explicar por que ela foi oprimida: a divisão do trabalho por sexo poderia ter sido uma associação amigável. Se a relaçãooriginal do homem com seus semelhantes fosse exclusivamente uma relação de amizade, não se explicaria nenhum tipo de escravização: esse fenômenoé consequência do imperialismo da consciência humana que procura realizar objetivamente sua soberania. Se não houvesse nela a categoria original doOutro, e uma pretensão original ao domínio sobre o Outro, a descoberta da ferramenta de bronze não poderia ter acarretado a opressão da mulher.Engels não explica tampouco o caráter singular dessa opressão. Tentou reduzir a oposição dos sexos a um conflito de classes: fê-lo, aliás, sem grandeconvicção; a tese não é sustentável. É verdade que a divisão do trabalho por sexo e a opressão que dela resulta evocam, em certos pontos, a divisão porclasses, mas não seria possível confundi-las. Não há na cisão entre as classes nenhuma base biológica. No trabalho, o escravo toma consciência de sipróprio contra o senhor, o proletariado sempre sentiu sua condição na revolta, voltando dessa maneira ao essencial, constituindo uma ameaça paraseus explora dores; e o que ele visa é o desaparecimento como classe. Dissemos, na introdução, o quanto a situação da mulher é diferente, emparticular por causa da comunidade de vida e interesses que a torna solidária do homem, e por causa da cumplicidade que ele encontra nela. Nenhumdesejo de revolução a habita, nem ela poderia suprimir-se enquanto sexo: ela pede somente que certas consequências da especificação sexual sejamabolidas. O que é mais grave ainda é que não se poderia sem má-fé considerar a mulher unicamente uma trabalhadora; tanto quanto sua capacidadeprodutora, sua função de reprodutora é importante na economia social como na vida individual; há épocas em que ela é mais útil fazendo filhos do queempurrando a charrua. Engels escamoteou o problema; limitou-se a declarar que a comunidade socialista abolirá a família; é uma solução assazabstrata; sabe-se como a URSS teve de mudar frequente e radicalmente sua política familial segundo se equilibravam diferentemente as necessidades


imediatas da produção e da repopulação; de resto, suprimir a família não é necessariamente libertar a mulher: o exemplo de Esparta e o do regimenazista provam que, embora diretamente ligada ao Estado, ela pode ser oprimida pelos machos. Uma ética verdadeiramente socialista, que procure ajustiça sem suprimir a liberdade, que imponha encargos aos indivíduos mas sem abolir a individualidade, ver-se-á muito embaraçada com os problemasque a condição da mulher suscita. É impossível assimilar muito simplesmente a gestação a um trabalho ou a um serviço, como o serviço militar. Viola-semais profundamente a vida de uma mulher exigindo-se dela filhos do que regulamentando as ocupações dos cidadãos: nenhum Estado ousou jamaisinstituir o coito obrigatório. No ato sexual, na maternidade, a mulher não empenha somente tempo e forças, mas ainda valores essenciais. Omaterialismo racionalista pretende em vão menosprezar esse caráter dramático da sexualidade: não se pode regulamentar o instinto sexual; não é certoque não carregue em si uma recusa à sua satisfação, dizia Freud. O certo é que ele não se deix a integrar no social porque há no erotismo uma revoltado instante contra o tempo, do individual contra o universal. Pretendendo canalizá-lo e explorá-lo, arrisca-se a matá-lo porque não se pode dispor daespontaneidade viva como se dispõe da matéria inerte; e não se pode tampouco forçá-la como se força uma liberdade. Não seria possível obrigardiretamente uma mulher a parir: tudo o que se pode fazer é encerrá-la dentro de situações em que a maternidade é a única saída; a lei ou os costumesimpõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto e o divórcio. São exatamente essas velhas coações do patriarcado que aURSS ressuscitou; reavivou as teorias paternalistas do casamento; e com isso foi levada a pedir novamente à mulher que se torne objeto erótico: umdiscurso recente convidava as cidadãs soviéticas a cuidarem dos vestidos, a usarem maquiagem, a se mostrarem faceiras para reter seus maridos eincentivar o desejo neles. É impossível, vê-se por esse exemplo, encarar a mulher unicamente como força produtora; ela é para o homem uma parceirasexual, uma reprodutora, um objeto erótico, um Outro através do qual ele se busca a si próprio. Os regimes totalitários ou autoritários podem, decomum acordo, proibir a psicanálise e declarar que para os cidadãos lealmente integrados na coletividade os dramas individuais não existem: oerotismo é uma experiência em que a generalidade é sempre recuperada por uma individualidade. E para um socialismo democrático em que as classesseriam abolidas mas não os indivíduos, a questão do destino individual conservaria toda a sua importância: a diferenciação sexual igualmente. A relaçãosexual que une a mulher ao homem não é a mesma que ele mantém com ela; o laço que a prende ao filho é irredutível. Ela não foi criada unicamentepela ferramenta de bronze: a máquina não basta para a abolir. Reivindicar para ela todos os direitos, todas as possibilidades do ser humano em geral,não significa que se deva deixar de enxergar sua situação singular. E para conhecê-la é preciso ir além do materialismo histórico que só vê no homem ena mulher entidades econômicas.Assim recusamos pela mesma razão o monismo sexual de Freud e o monismo econômico de Engels. Um psicanalista interpretará todas asreivindicações sociais da mulher como um fenômeno de “protesto viril”. Ao contrário, para o marxista, sua sexualidade não faz senão exprimir pordesvios mais ou menos complexos sua situação econômica; mas as categorias “clitoridiana” ou “vaginal”, tal qual as categorias “burguesa” ou“proletária”, são igualmente impotentes para encerrar uma mulher concreta. Por baixo dos dramas individuais como da história econômica dahumanidade, há uma infraestrutura existencial que permite, somente ela, compreender em sua unidade essa forma singular que é uma vida. O valor dofreudismo provém do fato de o existente ser um corpo. A maneira pela qual se sente como corpo diante de outros corpos traduz concretamente suasituação existencial. Do mesmo modo, o que é verdadeiro na tese marxista é que as pretensões ontológicas do existente assumem uma forma concretasegundo as possibilidades materiais que se lhe oferecem, e em particular as que as técnicas lhe proporcionam. Não integradas, porém, na totalidade darealidade humana, a sexualidade, a técnica não poderiam nada explicar. Eis por que em Freud as proibições impostas pelo superego e os impulsos doego se apresentam como fatos contingentes. E, na exposição de Engels sobre a história da família, os acontecimentos mais importantes parecem surgirinopinadamente segundo os caprichos de um misterioso acaso. Para descobrir a mulher não recusaremos certas contribuições da biologia, dapsicanálise, do materialismo histórico, mas consideraremos que o corpo, a vida sexual, as técnicas só existem concretamente para o homem na medidaem que os apreende dentro da perspectiva global de sua existência. O valor da força muscular, do falo, da ferramenta só se poderia definir num mundode valores: é comandado pelo projeto fundamental do existente transcendendo-se para o ser.


1 O mundo sempre pertenceu aos machos. Nenhuma das razões que nos propuseram para explicá-lo nos pareceu suficiente. É revendo à luz da filosofiaexistencial os dados da pré-história e da etnografia que poderemos compreender como a hierarquia dos sexos se estabeleceu. Já verificamos que,quando duas categorias humanas se acham presentes, cada uma delas quer impor à outra sua soberania; quando ambas estão em estado de sustentar areivindicação, cria-se entre elas, seja na hostilidade, seja na amizade, sempre na tensão, uma relação de reciprocidade. Se uma das duas é privilegiada,ela domina a outra e tudo faz para mantê-la na opressão. Compreende-se pois que o homem tenha tido vontade de dominar a mulher. Mas que privilégiolhe permitiu satisfazer essa vontade?As informações que fornecem os etnógrafos acerca das formas primitivas da sociedade humana são terrivelmente contraditórias e tanto mais quantoeles são mais bem informados e menos sistemáticos. É singularmente difícil ter uma ideia da situação da mulher no período que precedeu o daagricultura. Não se sabe sequer se, em condições de vida tão diferentes das de hoje, a musculatura da mulher, seu aparelho respiratório, não eram tãodesenvolvidos como os do homem. Duros trabalhos eram-lhe confiados e, em particular, ela é que carregava os fardos. Entretanto, este último fato éambíguo: é possível que essa função lhe fosse determinada para que, nos comboios, o homem conservasse as mãos livres a fim de defender-se contra osagressores ocasionais, indivíduos ou animais. Seu papel era, portanto, o mais perigoso e o que exigia mais vigor. Parece, entretanto, que em muitoscasos as mulheres eram bastante robustas e resistentes para participar das expedições dos guerreiros. Segundo as narrativas de Heródoto, asdescrições relativas às amazonas do Daomé e muitos outros testemunhos antigos e modernos, aconteceu de as mulheres tomarem parte em guerras evinditas sangrentas. Mostravam nessas ocasiões a mesma coragem e a mesma crueldade que os homens. Citam-se algumas que mordiam ferozmente ofígado de seus inimigos. Apesar de tudo, é provável que, então como hoje, os homens tivessem o privilégio da força física. Na era da maça e das feras,na era em que as resistências da natureza atingiam um ponto máximo e as ferramentas eram as mais elementares, essa superioridade devia ter umaenorme importância. Em todo caso, por robustas que fossem as mulheres, na luta contra o mundo hostil as servidões da reprodução representavampara elas um terrível handicap: conta-se que as amazonas mutilavam os seios, o que significava que, pelo menos durante o período de sua vidaguerreira, recusavam a maternidade. Quanto às mulheres normais, a gravidez, o parto, a menstruação diminuíam sua capacidade de trabalho econdenavam-nas a longos períodos de impotência. Para se defender contra os inimigos, para assegurar sua manutenção e a da prole, elas necessitavamda proteção dos guerreiros e do produto da caça e da pesca a que se dedicavam os homens; como não havia evidentemente nenhum controle dosnascimentos, como a natureza não assegura à mulher períodos de esterilidade como às demais fêmeas de mamíferos, as maternidades repetidas deviamabsorver a maior parte de suas forças e de seu tempo. Não eram capazes de assegurar a vida dos filhos que pariam. E eis um primeiro fato de pesadasconsequências: os primeiros tempos da espécie humana foram difíceis. Os povos coletores, caçadores e pescadores só extraíam do solo parcas riquezase à custa de duros esforços. Nasciam crianças demais em relação aos recursos da coletividade; a fecundidade absurda da mulher impedia-a departicipar ativamente na ampliação desses recursos, ao passo que criava indefinidamente novas necessidades. Imprescindível à perpetuação daespécie, perpetuava-a de maneira exagerada: o homem é que assegurava o equilíbrio da reprodução e da produção. Assim, a mulher não tinha sequer oprivilégio de manter a vida em face do macho procriador; não desempenhava o papel do óvulo em relação ao espermatozoide, da matriz em relação aofalo; só tinha uma parte no esforço da espécie humana por perseverar em seu ser, e era graças ao homem que esse esforço se realizava concretamente.Entretanto, como o equilíbrio da produção-reprodução consegue sempre estabelecer-se, ainda que à custa de infanticídios, de sacrifícios, de guerras,homens e mulheres do ponto de vista da sobrevivência coletiva são igualmente necessários. Poderíamos mesmo supor que, em certos estágios deabundância alimentar, seu papel protetor e nutritivo tenha subordinado o macho à mulher-mãe. Há fêmeas animais que encontram na maternidade umacompleta autonomia; por que a mulher não conseguiu fazer disso um pedestal? Mesmo nos momentos em que a humanidade reclamava maisasperamente maior número de nascimentos, a necessidade de mão de obra superando a de matérias-primas a explorar, mesmo nas épocas em que amaternidade foi mais venerada, não permitiu ela que as mulheres conquistassem o primeiro lugar.31 A razão está em que a humanidade não é umasimples espécie natural: ela nã o procura manter-se enquanto espécie; seu projeto não é a estagnação: ela tende a superar-se.As hordas primitivas quase não se interessavam pela sua posteridade. Não estando fixadas em um territó rio, nada possuindo, não se encarnando emnenhuma coisa estável, não podiam ter nenhuma ideia concreta da permanência. Não tinham a preocupação de sobreviver a si mesmas e não sereconheciam na sua descendência: não temiam a morte e não reclamavam herdeiros; os filhos constituíam para elas um encargo, e não uma riqueza; aprova está em que os infanticídios foram numerosos entre os povos nômades, e muitos recém-nascidos que não eram exterminados morriam por faltade higiene em meio à indiferença geral. A mulher que engendra não conhece, pois, o orgulho da criação; sente-se o joguete passivo de forças obscuras,e o parto doloroso é um acidente inútil e até importuno. Mais tarde, deu-se maior importância ao filho. Contudo, engendrar, aleitar não são atividades,são funções naturais; nenhum projeto nelas se empenha. Eis por que nelas a mulher não encontra motivo para uma afirmação altiva de sua existência:ela suporta passivamente seu destino biológico. Os trabalhos domésticos a que está votada, porque só eles são conciliáveis com os encargos damaternidade, encerram-na na repetição e na imanência; reproduzem-se dia após dia sob uma forma idêntica que se perpetua quase sem modificaçãoatravés dos séculos: não produzem nada de novo. O caso do homem é radicalmente diferente; ele não alimenta a coletividade à maneira das abelhasoperárias mediante simples processo vital, e sim com atos que transcendem sua condição animal. O homo faber é, desde a origem dos tempos, uminventor: já o bastão e a maça com que se arma para derrubar os frutos ou derriar os animais são instrumentos com os quais ele aumenta seu domíniosobre o mundo. Não se limita a transportar para o lar peixes pegados nas águas, cumpre-lhe primeiramente assenhorear-se destas, fabricando pirogas:para apossar-se das riquezas do mundo, ele anexa o próprio mundo. Nessa ação, experimenta seu poder: estabelece objetivos, projeta caminhos emdireção a eles, realiza-se como existente. Para manter, cria; supera o presente, abre o futuro. Eis por que as expedições de caça e pesca assumem umcaráter sagrado. Acolhem-se os seus êxitos com festas e triunfos; o homem neles conhece sua humanidade. Ainda hoje manifesta esse orgulho quandoconstrói uma barragem, um arranha-céu, uma pilha atômica. Não trabalhou somente para conservar o mundo dado: dilatou-lhe as fronteiras, lançoubases de um novo futuro.Sua atividade tem outra dimensão que lhe dá sua suprema dignidade, e ela é amiúde perigosa. Se o sangue não passasse de alimento, não teria maisvalor do que o leite; mas o caçador não é um carniceiro: na luta contra os animais selvagens corre riscos. O guerreiro põe em jogo a própria vida paraaumentar o prestígio da horda e do clã a que pertence. Com isso, prova de maneira convincente que a vida não é para o homem o valor supremo, queela deve servir a fins mais importantes do que ela própria. A maior maldição que pesa sobre a mulher é estar excluída das expedições guerreiras. Não édando a vida, é arriscando-a que o homem se ergue acima do animal; eis por que, na humanidade, a superioridade é outorgada não ao sexo queengendra, e sim ao que mata.Temos aqui a chave de todo o mistério. No nível da biologia é somente criando-se inteiramente de novo que uma espécie se mantém; mas essa criaçãonão passa de uma repetição da mesma Vida sob formas diferentes. É transcendendo a Vida pela Existência que o homem assegura a repetição da Vida:com essa superação, ele cria valores que denegam qualquer valor à repetição simples. No animal, a gratuidade, a variedade das atividades do machopermanecem vãs porque nenhum projeto o habita; quando não serve à espécie, o que faz não é nada; ao passo que, servindo à espécie, o machohumano molda a face do mundo, cria instrumentos novos, inventa, forja o futuro. Pondo-se como soberano, ele encontra a cumplicidade da própriamulher, porque ela é também um existente, ela é habitada pela transcendência e seu projeto não está na repetição, mas na sua superação em vista deum futuro diferente; ela acha no fundo de seu ser a confirmação das pretensões masculinas. Associa-se aos homens nas festas que celebram os êxitos eas vitórias dos machos. Sua desgraça consiste em ter sido biologicamente votada a repetir a Vida, quando a seus próprios olhos a Vida não apresentaem si suas razões de ser e essas razões são mais importantes do que a própria vida.Certas passagens da dialética com que Hegel define a relação do senhor com o escravo se aplicariam muito melhor à relação do homem com a mulher.O privilégio do senhor, diz, vem de que afirma o Espírito contra a Vida pelo fato de arriscar sua vida; mas, na realidade, o escravo vencido conheceu omesmo risco, ao passo que a mulher é originalmente um existente que dá a Vida e não arrisca sua vida: entre ela e o macho nunca houve combate. Adefinição de Hegel aplica-se singularmente a ela. “A outra [consciência] é a consciência dependente para a qual a realidade essencial é a vida animal,isto é, o ser dado por uma entidade outra.” Mas essa relação distingue-se da relação de opressão porque a mulher visa e reconhece, ela também, osvalores que são concretamente atingidos pelo homem: ele é que abre o futuro para o qual ela transcende. Em verdade, as mulheres nunca opuseramvalores femininos aos valores masculinos; foram os homens, desejosos de manter as prerrogativas masculinas, que inventaram essa divisão:


pretenderam criar um campo de domínio feminino — reinado da vida, da imanência — tão somente para nele encerrar a mulher; mas é além de todaespecificação sexual que o existente procura sua justificação no movimento de sua transcendência: a própria submissão da mulher é a prova disso. Oque elas reivindicam hoje é serem reconhecidas como existentes ao mesmo título que os homens e não de sujeitar a existência à vida, o homem à suaanimalidade.Uma perspectiva existencial permitiu-nos, pois, compreender como a situação biológica e econômica das hordas primitivas devia acarretar asupremacia dos machos. A fêmea, mais do que o macho, é presa da espécie; a humanidade sempre procurou evadir-se de seu destino específico; pelainvenção da ferramenta, a manutenção da vida tornou-se para o homem atividade e projeto, ao passo que na maternidade a mulher continua amarradaa seu corpo, como o animal. É porque a humanidade se põe em questão em seu ser, isto é, prefere razões de viver à vida, que perante a mulher ohomem se pôs como senhor; o projeto do homem não é repetir-se no tempo, é reinar sobre o instante e construir o futuro. Foi a atividade do macho que,criando valores, constituiu a existência, ela própria, como valor: venceu as forças confusas da vida, escravizou a Natureza e a Mulher. Cabe-nos veragora como essa situação se perpetuou e evoluiu através dos séculos. Que lugar deu a humanidade a essa parte de si mesma que em seu seio se definiucomo o Outro? Que direitos lhe reconheceram? Como a definiram os homens? 2 Acabamos de ver que na horda primitiva a sorte da mulher era muito dura; entre as fêmeas animais a função reprodutora é naturalmente limitada e,quando se efetua, o indivíduo é dispensado mais ou menos completamente de outras fadigas; somente as fêmeas domésticas são por vezes exploradaspor um senhor exigente até o esgotamento de suas forças como reprodutora e de suas capacidades individuais. Foi esse, talvez, o caso da mulher numtempo em que a luta contra um mundo inimigo reclamava o pleno aproveitamento dos recursos da comunidade; às fadigas de uma reproduçãoincessante e desregrada acrescentavam-se as duras tarefas domésticas. Entretanto, certos historiadores pretendem que é nesse estágio que asuperioridade do homem é menos acentuada. O que se deveria dizer é que essa superioridade é, então, imediatamente vivida e não ainda colocada edesejada; ninguém se dispõe a compensar as desvantagens cruéis que prejudicam a mulher, mas não se procura tampouco cerceá-la como acontecerámais tarde em regime paternalista. Nenhuma instituição homologa a desigualdade dos sexos; mesmo porque não há instituições, nem propriedade, nemherança, nem direito. A religião é neutra: adora-se algum totem assexuado.É quando os nômades se fixam ao solo e se tornam agricultores que se vê surgirem as instituições e o direito. O homem não se restringe mais adebater-se contra as forças hostis; começa a exprimir-se concretamente através da forma que impõe ao mundo, a pensar esse mundo e a se pensar;nesse momento, a diferenciação sexual reflete-se na estrutura da coletividade; ela assume um caráter singular; nas comunidades agrícolas a mulheradquire muitas vezes extraordinário prestígio. Esse prestígio explica-se essencialmente pela importância recente que assume a criança numacivilização que assenta no trabalho da terra. Instalando-se num território, os homens se apropriam dele; a propriedade aparece sob forma coletiva;exige de seus proprietários uma posteridade; a maternidade torna-se uma função sagrada. Muitas tribos vivem em regime comunitário: isso nãosignifica que as mulheres pertençam a todos os homens da coletividade; não se acredita muito hoje que tenha existido o casamento por promiscuidade,mas homens e mulheres só têm existência religiosa, social e econômica como grupo; sua individualidade permanece um puro fato biológico. Ocasamento, qualquer que seja a forma, monogamia, poligamia, poliandria, não passa também de um acidente profano que não cria nenhum laço místico.Não é causa de nenhuma servidão para a esposa, ela continua integrada no seu clã. O conjunto do clã reunido sob o mesmo totem possui misticamenteum mesmo mana, materialmente o gozo em comum de um mesmo território. De acordo com o processo de alienação a que já nos referimos, o clã seapreende nesse território sob uma forma objetiva e concreta; pela permanência do solo o clã realiza-se, pois, como uma unidade cuja identidadepersiste através da dispersão do tempo. Somente essa diligência existencial permite compreender a identificação ou se prorrogar até nossos dias entreo clã, a gens, a família e a propriedade. À concepção das tribos nômades, para as quais não existe senão o instante, a comunidade agrícola substitui ade uma vida arraigada no passado e anexando-se o futuro: venera-se o antepassado totêmico que dá seu nome aos membros do clã e o clã vota uminteresse profundo a seus descendentes, pois sobreviverá através do solo que lhe lega e que eles explorarão. A comunidade pensa sua unidade e quersua existência além do presente: reconhece-se nos filhos, reconhece-os como seus, neles se realiza e se supera.Mas muitos primitivos ignoram a parte do pai na procriação dos filhos; consideram estes a reencarnação das larvas ancestrais que flutuam ao redor decertas árvores, certos rochedos, certos lugares sagrados e que descem no corpo da mulher. Considera-se, por vezes, que esta não deve ser virgem paraque a infiltração se torne possível, mas outros povos acreditam também que ela se produz pelas narinas ou pela boca; de qualquer modo, a defloraçãoparece aqui secundária e, por razões de ordem mística, é raramente o apanágio do marido. A mãe é evidentemente necessária ao nascimento do filho. Éela que conserva e nutre o germe em seu seio e é, pois, através dela que no mundo visível a vida do clã se propaga; desempenha assim papel deprimordial importância. Muitas vezes, os filhos pertencem ao clã da mãe, usam-lhe o nome, participam de seus direitos e, em particular, do gozo daterra que o clã detém. A propriedade comunitária transmite-se, então, pelas mulheres; com elas asseguram-se aos membros do clã os campos e ascolheitas e, inversamente, é por suas mães que esses são destinados a tal ou qual propriedade. Pode-se, assim, considerar que, misticamente, a terrapertence às mulheres; elas têm um domínio a um tempo religioso e legal sobre a gleba e seus frutos. O laço que os une é mais estreito ainda do queuma pertença; o regime de direito materno caracteriza-se por uma verdadeira assimilação da mulher à terra; em ambas se cumpre, através dosavatares, a permanência da vida, a vida que é essencialmente geração. Entre os nômades, a procriação parece ser apenas um acidente e as riquezas dosolo continuam desconhecidas; mas o agricultor admira o mistério da fecundidade que desabrocha nos sulcos dos arados e no ventre materno; sabe quefoi engendrado como a rês e as colheitas, deseja que seu clã engendre outros homens que o perpetuarão dando continuidade à fertilidade dos campos.A natureza na sua totalidade apresenta-se a ele como uma mãe; a terra é mulher, e a mulher é habitada pelas mesmas forças obscuras que habitam aterra.32 É, em parte, por essa razão que lhe é confiado o trabalho agrícola; capaz de atrair a seu seio as larvas ancestrais, tem ela também o poder defazer jorrar dos campos semeados os frutos e as espigas. Trata-se, em ambos os casos, não de uma operação criadora, e sim de uma conjuração mágica.Nesse estágio, o homem não se limita mais a coletar os produtos do solo, mas não conhece ainda sua força. Hesita entre as técnicas e a magia, sente-sepassivo, dependente da Natureza que distribui ao acaso a existência e a morte. Sem dúvida, reconhece mais ou menos a utilidade do ato sexual e dastécnicas que domesticam o solo. Contudo, filhos e searas se lhe afiguram dádivas sobrenaturais e são os misteriosos eflúvios emanando do corpofeminino que atraem para este mundo as riquezas enterradas nas fontes misteriosas da vida. Tais crenças são vivas ainda entre numerosas tribos deíndios, de australianos, de polinésios;33 e assumem uma importância tanto maior quanto se harmonizam com os interesses práticos da coletividade. Amaternidade destina a mulher a uma existência sedentária; é natural que ela permaneça no lar enquanto o homem caça, pesca e guerreia. Mas entre ospovos primitivos quase só se cultivam hortas de dimensões modestas e que se encerram dentro dos limites da aldeia; sua exploração é tarefa doméstica;os instrumentos da Idade da Pedra não exigem um esforço intensivo; economia e mística concordam em confiar às mulheres o trabalho agrícola. No seuinício, a indústria doméstica é também de competência delas: elas tecem tapetes e cobertas, fabricam os vasilhames. São, muitas vezes, elas quepresidem a troca de mercadorias; o comércio está nas suas mãos. É, pois, através delas que se mantém e propaga a vida do clã; de seu trabalho e desuas virtudes mágicas dependem os filhos, os rebanhos, as colheitas, os utensílios, toda prosperidade do grupo de que são a alma. Tanta força inspiraaos homens um respeito misturado de terror e que se reflete em seu culto. Nela é que se resume toda a Natureza estranha.Já dissemos que o homem só se pensa pensando o Outro: apreende o mundo sob o signo da dualidade; esta não tem, de início, um caráter sexual. Mas,naturalmente, sendo diferente do homem que se põe como o Mesmo é na categoria do Outro que a mulher é incluída; o Outro envolve a mulher; ela nãoé, a princípio, assaz importante para encarná-lo sozinha, de modo que se desenha no coração do Outro uma subdivisão; nas antigas cosmogonias, ummesmo elemento tem frequentemente uma encarnação, a um tempo, de macho e de fêmea; assim é que entre os babilônios, o Oceano e o Mar34 são adupla encarnação do caos cósmico. Quando o papel da mulher se torna mais importante, absorve ela, em quase sua totalidade, a região do Outro.Aparecem, então, as divindades femininas através das quais se adora a ideia da fecundidade. Encontrou-se, em Susa, a mais antiga imagem da GrandeDeusa, da Grande Mãe, de comprida túnica e cabeleira alta que outras estátuas mostram-nos coroada de torres; as escavações de Creta oferecem-nosvárias efígies. Ela é ora esteatopígica e acocorada, ora mais esbelta e de pé, por vezes vestida e por vezes nua, cruzando os braços sob os seiostúmidos. É a rainha do céu; uma pomba representa-a; é também imperatriz do inferno, de onde sai rastejando e uma serpente a simboliza. Manifesta-senas montanhas, nas florestas, no mar, nas fontes. Por toda parte, ela cria a vida; se mata, ressuscita. Caprichosa, luxuriante, cruel como a Natureza, aum tempo propícia e temível, reina sobre toda a Egeida, a Frígia, a Síria, a Anatólia, sobre toda a Ásia Ocidental. Chama-se Ichtar em Babilônia, Astartéentre os povos semíticos, entre os gregos Reia, Gea ou Cibele; encontramo-la no Egito sob os traços de Ísis; as divindades masculinas são-lhesubordinadas. Ídolo supremo nas regiões longínquas do céu e do inferno, a mulher acha-se, em terra, cercada de tabus como todos os seres sagrados;ela própria é tabu. Em virtude dos poderes que detém olham-na como feiticeira, como mágica; associam-na às preces, torna-se às vezes sacerdotisacomo as druidesas entre os antigos celtas; em certos casos, participa do governo da tribo, e acontece até que o exerça sozinha. Essas épocas remotasnão nos legaram nenhuma literatura. Mas as grandes épocas patriarcais conservam em sua mitologia, monumentos e tradições a lembrança de umtempo em que as mulheres ocupavam uma situação muito elevada. Do ponto de vista feminino a época bramânica é uma regressão relativamente à doRig-Veda, e esta acha-se no mesmo caso em relação ao estágio primitivo que a precedeu. As beduínas da época pré-islâmica tinham uma condição muitosuperior ao que lhes determina o Corão. As grandes figuras de Níobe, de Medeia, evocam uma era em que as mães, considerando seus filhos seus benspróprios, se orgulhavam de tê-los. E nos poemas homéricos, Andrômaca e Hécuba têm uma importância que a Grécia clássica já não outorga mais àsmulheres escondidas à sombra do gineceu.Esses fatos induzem a supor que existia nos tempos primitivos um verdadeiro reinado das mulheres; foi essa hipótese proposta por Baschoffen queEngels retomou: a passagem do matriarcado para o patriarcado parece-lhe “a grande derrota histórica do sexo feminino”. Mas, em verdade, essa idade


de ouro da mulher não passa de um mito. Dizer que a mulher era o Outro equivale a dizer que não existia entre os sexos uma relação de reciprocidade:Terra, Mãe, Deusa, não era ela para o homem um semelhante: era além do reino humano que seu domínio se afirmava: estava, portanto, fora dessereino. A sociedade sempre foi masculina; o poder político sempre esteve nas mãos dos homens. “A autoridade pública ou simplesmente social pertencesempre aos homens”, afirma Lévi-Strauss ao fim de seu estudo sobre as sociedades primitivas. O semelhante, o outro, que é também o mesmo, comquem se estabelecem relações recíprocas, é sempre para o homem um indivíduo do sexo masculino. A dualidade que se descobre sob uma forma ououtra no seio das coletividades opõe um grupo de homens a outro grupo de homens, e as mulheres fazem parte dos bens que estes possuem econstituem entre eles um instrumento de troca. O erro proveio de terem confundido dois aspectos da alteridade, que se excluem rigorosamente. Namedida em que a mulher é considerada o Outro absoluto, isto é — qualquer que seja sua magia —, o inessencial, faz-se precisamente impossível encará-la como outro sujeito. 35 As mulheres nunca, portanto, constituíram um grupo separado que se pusessem para si diante do grupo masculino; nuncativeram uma relação direta e autônoma com os homens. “O laço de reciprocidade que estabelece o casamento não se firma entre homens e mulheres esim entre homens através de mulheres que são apenas a principal oportunidade dele.”, diz Lévi-Strauss.36 A condição concreta da mulher não é afetadapelo tipo de filiação que prevalece na sociedade a que ela pertence; seja o regime patrilinear, matrilinear, bilateral ou indiferenciado (não sendo nuncarigorosa a indiferenciação), ela se encontra sempre sob a tutela dos homens; a única questão consiste em saber se após o casamento ela fica sujeita àautoridade do pai ou do irmão mais velho — autoridade que se estenderá também aos filhos — ou se ela se submete, a partir de então, à autoridade domarido. Em t odo caso: “A mulher não é nunca senão o símbolo de sua linhagem... a filiação matrilinear, é a mão do pai ou do irmão da mulher, que seestende até a aldeia do irmão.”37 Ela é apenas a mediadora do direito, não a detentora. Em verdade, são as relações dos dois grupos masculinos que sedefinem pelo regime de filiação, e não a relação dos dois sexos. Praticamente, a condição concreta da mulher não está ligada de maneira estável a talou qual tipo de direito. Acontece-lhe mesmo ocupar uma posição muito elevada em regime matrilinear; mas cumpre atentar para o fato de que apresença de uma mulher-chefe, de uma rainha à frente de uma tribo não significa, em absoluto, que as mulheres sejam nesta soberanas; o advento deCatarina da Rússia em nada melhorou a sorte das camponesas russas; e não é menos frequente que ela viva na abjeção. De resto, os casos em que amulher permanece em seu clã e o marido só tem direito de lhe fazer rápidas ou mesmo clandestinas visitas são muito raros. Quase sempre ela vairesidir com o esposo, o que basta para demonstrar a primazia do macho. “Por trás das oscilações do modo de filiação”, diz Lévi-Strauss, “a permanênciada residência patrilocal atesta a relação fundamental de assimetria entre os sexos que caracteriza a sociedade humana”. Como ela conserva os filhoscom ela, tem-se como resultado que a organização territorial da tribo não se ajusta à sua organização totêmica: esta é rigorosamente fundada, aquelacontingente; mas praticamente é a primeira que tem mais importância, pois o lugar onde as pessoas trabalham e vivem conta mais do que suadependência mística. Nos regimes de transição, que são os mais comuns, há duas espécies de direitos que se interpenetram: um religioso, outrobaseado na ocupação e no trabalho da terra. Conquanto não passe de uma instituiçã o laica, o casamento tem grande importância social e a famíliaconjugal, embora despojada de significação religiosa, existe fortemente no plano humano. Mesmo nas coletividades em que se depara com grandeliberdade sexual, convém que a mulher que põe um filho no mundo seja casada; sozinha com sua progenitura, ela não consegue constituir um grupoautônomo; não lhe bastando a proteção religiosa do irmão, a presença de um esposo é exigida. Este tem amiúde grandes responsabilidades para com osfilhos. Eles não pertencem a seu clã, mas é, entretanto, o pai que os alimenta e educa; criam-se entre o marido e a mulher, pai e filhos, laços decoabitação, de trabalho, de interesses comuns, de ternura. Entre essa família laica e o clã totêmico as relações são muito complexas, como otestemunha a diversidade de ritos do casamento. Primitivamente, o marido compra uma mulher de outro clã ou, pelo menos, há entre um clã e outrotroca de serviços, entregando o primeiro um de seus membros e cedendo o segundo animais, produtos da terra, trabalho. Mas, como o marido toma aseu cargo a mulher e os filhos dela, ocorre-lhe receber também dos irmãos da esposa uma retribuição. Entre as realidades místicas e econômicas oequilíbrio é instável. O homem tem, muitas vezes, muito mais apego a seus filhos do que aos sobrinhos; é como pai que ele procura afirmar-se quandoessa afirmação se torna possível. E é por isso que toda sociedade tende para uma forma patriarcal quando sua evolução conduz o homem a tomarconsciência de si e a impor sua vontade. Mas é importante sublinhar que, mesmo nas épocas em que ainda se sentia confundido ante os mistérios daVida, da Natureza, da Mulher, nunca abdicou de seu poder; quando, assustado ante a perigosa magia da mulher, ele a põe como o essencial, é ele quema põe e assim se realiza como o essencial nessa alienação em que consente; apesar das fecundas virtudes que a penetram, o homem permanece osenhor, como é o senhor da terra fértil; ela destina-se a ser dominada, possuída, explorada, como o é também a Natureza, cuja mágica fertilidade elaencarna. O prestígio de que goza aos olhos dos homens, é deles que o recebe; eles se ajoelham diante do Outro, adoram a Deusa-Mãe. Mas, porpoderosa que seja, é através de noções criadas pela consciência masculina que ela é apreendida. Todos os ídolos inventados pelo homem, porterrificantes que os tenha forjado, acham-se, em verdade, sob a dependência dele e eis por que lhe será possível destruí-los. Nas sociedades primitivasessa dependência não é reconhecida e posta, mas existe imediatamente, em si; e ela é facilmente mediatizada logo que o homem vem a ter mais claraconsciência de si mesmo, logo que ousa afirmar-se e opor-se. E, em verdade, mesmo quando se apreende como dado, passivo, suportando os acasos daschuvas e do sol, o homem realiza-se também como transcendência, como projeto; nele já o espírito e a vontade se afirmam contra a confusão e acontingência da vida. O antepassado totêmico de que a mulher assume as múltiplas encarnações é mais ou menos nitidamente, sob o nome de animalou árvore, um princípio masculino; a mulher perpetua-lhe a existência carnal, mas seu papel é unicamente nutriente, não criador; em nenhum domínioela cria: mantém a vida da tribo, dando-lhe filhos e pão, nada mais; permanece votada à imanência; encarna somente o aspecto estático da sociedade,fechado sobre si. Ao passo que o homem continua a apropriar-se das funções que abrem essa sociedade para a natureza e o conjunto da coletividadehumana. Os únicos trabalhos dignos dele são a guerra, a caça, a pesca; ele conquista presas estrangeiras e as anexa à tribo; guerra, caça, pescarepresentam uma expansão da existência, sua superação para o mundo; o homem permanece a única encarnação da transcendência. Não tem ainda osmeios práticos de dominar totalmente a Mulher-Terra, não ousa ainda erguer-se contra ela; mas já procura desprender-se. É, a meu ver, nessa vontadeque se deve buscar a razão profunda do famoso costume da exogamia, tão expandido nas sociedades de filiação uterina. Mesmo quando o homemignora o papel que desempenha na procriação, o casamento tem para ele grande importância. É com o casamento que conquista a dignidade de adultoe recebe em partilha uma parcela do mundo; pela mãe, ele acha-se ligado ao clã, aos antepassados e a tudo o que constitui sua própria substância.Porém em todas as funções laicas, trabalho, casamento, ele aspira a evadir-se do círculo, a afirmar sua transcendência contra a imanência, a abrir umfuturo diferente do passado em que mergulha suas raízes; segundo o tipo de dependência re conhecido nas diferentes sociedades a interdição doincesto assume formas diferentes, mas conserva, desde as épocas primitivas até os nossos dias, o mesmo sentido: o que o homem deseja possuir é o queele não é; une-se ao que se lhe afigura Outro. Não deve, portanto, a esposa participar do mana do esposo, precisa ser-lhe estranha, logo estranha aoclã. O casamento primitivo funda-se, por vezes, num rapto real ou simbólico. Isso porque a violência cometida contra outrem é a afirmação maisevidente da alteridade desse outrem. Conquistando a mulher pela força, o guerreiro prova que soube anexar-se uma riqueza alheia e derrubar asbarreiras do destino que seu nascimento lhe designara; a compra sob todas as suas formas — tributo pago, prestação de serviços — manifesta commenos evidência a mesma significação. 38 Pouco a pouco, o homem mediatizou sua experiência e, em suas representações como em sua existência prática, triunfou o princípio masculino. OEspírito superou a Vida; a transcendência, a imanência; a técnica, a magia; e a razão, a superstição. A desvalorização da mulher representa uma etapanecessária na história da humanidade, porque não era de seu valor positivo, mas de sua fraqueza que ela tirava seu prestígio; nela encarnavam-se osinquietantes mistérios natu-rais: o homem escapa de seu domínio quando se liberta da natureza. Foi a passagem da pedra ao bronze que lhe permitiurealizar, com seu trabalho, a conquista do solo e de si próprio. O agricultor está sujeito aos acasos da terra, das germinações, das estações, é passivo,conjura e espera. Eis por que os espíritos totêmicos povoavam o mundo humano; o camponês sofria os caprichos dessas potências que o assediavam. Ooperário, ao contrário, molda a ferramenta de acordo com seu objetivo, impõe-lhe com as mãos a forma de seu projeto; diante da natureza inerte, quelhe resiste, mas que ele vence, afirma-se como vontade soberana; se acelera os golpes sobre a bigorna, acelera o acabamento da ferramenta, ao passoque nada pode apressar o amadurecimento das espigas. Ele aprende sua responsabilidade com a coisa fabricada, um gesto hábil ou desastrado dá-lheforma ou a destrói. Prudente, hábil, ele a conduz ao ponto de perfeição de que se orgulha: seu êxito não depende de favores dos deuses, e sim de simesmo. Desafia seus companheiros, jacta-se de suas realizações e, se ainda se atém a alguns ritos, as técnicas precisas parecem-lhe bem maisimportantes; os valores místicos passam para o segundo plano e os práticos, para o primeiro. Não se liberta inteiramente dos deuses, mas separa-os desi separando-se deles; relega-os a seu céu olímpico e guarda para si o domínio terrestre; o grande Pã começa a estiolar-se quando ecoa a primeiramartelada, e o reinado do homem inicia-se. Ele descobre seu poder. Na relação entre o braço criador e o objeto fabricado, experimenta a causalidade: ogrão semeado germina ou não, ao passo que o metal reage sempre da mesma maneira ao fogo, à têmpera, à ação mecânica. Esse mundo de utensíliosdeixa-se encerrar em conceitos claros: o pensamento racional, a lógica e a matemática podem então aparecer. Toda a imagem do universo acha-setransformada. A religião da mulher estava ligada ao reinado da agricultura, reinado da duração irredutível, da contingência, do acaso, da espera, domistério; o do homo faber é o reinado do tempo que se pode vencer tal como o espaço, da necessidade, do projeto, da ação, da razão. Mesmo quandoenfrenta a terra, o homem a enfrenta desde então como operário; ele descobre que pode enriquecer o solo, que convém deixá-lo descansar, que tal ouqual semente deve ser tratada de tal ou qual maneira; ele é quem faz a sagra; abre canais, irriga ou seca o solo, constrói estradas, ergue templos,recria o mundo. Os povos que permaneceram sob a férula da deusa-mãe, aqueles entre os quais se perpetuou a filiação uterina, detiveram-se tambémnum estágio de civilização primitiva. Isso porque a mulher só era venerada na medida em que o homem se fazia escravo de seus próprios temores,cúmplice de sua própria impotência. Era no terror e não no amor que ele lhe rendia um culto. Só podia realizar-se começando por destroná-la.39 É oprincípio masculino de força criadora, de luz, de inteligência, de ordem que ele reconhece então como soberano. Junto da deusa-mãe surge um deus,filho ou amante, que lhe é inferior ainda, mas que se assemelha a ela, traço por traço, e lhe está associado. Ele encarna também um princípio dafecundidade; é um touro, é o Minotauro, é o Nilo fertilizando as planícies do Egito. Morre no outono e renasce na primavera depois de ter a esposa-mãeinvulnerável, mas banhada em pranto, consagrado suas forças a procurar-lhe o corpo e a reanimá-lo. Vê-se então aparecer em Creta esse casal que seencontra em todas as margens do Mediterrâneo: Ísis e Horo no Egito, Astarté e Adônis na Fenícia, Cibele e Átis na Ásia Menor e, na Grécia Helênica,Reia e Zeus. Mais tarde, a Grande-Mãe é destronada. No Egito, onde a condição da mulher permanece excepcionalmente favorável, a deusa Nut, queencarna o céu, e Ísis, a terra fecundada, esposa do Nilo, Osíris, continuam deusas de enorme importância. Mas é, entretanto, Rá, o deus-sol, luz eenergia viril, que é o rei supremo. Em Babilônia, Ichtar fica sendo apenas a esposa de Bel-Marduc; ele é quem cria as coisas e lhes assegura aharmonia. O deus dos semitas é masculino. Quando Zeus reina no céu é preciso que Gea, Reia e Cibele abdiquem: em Deméter, resta apenas umadivindade ainda imponente, mas secundária. Os deuses védicos têm esposas, mas que não são adoradas como eles. O Júpiter romano não tem rival.40Assim, o triunfo do patriarcado não foi nem um acaso nem o resultado de uma revolução violenta. Desde a origem da humanidade, o privilégio biológicopermitiu aos homens afirmarem-se sozinhos como sujeitos soberanos. Eles nunca abdicaram o privilégio; alienaram parcialmente sua existência na


Natureza e na Mulher, mas reconquistaram-na a seguir. Condenada a desempenhar o papel do Outro, a mulher estava também condenada a possuirapenas uma força precária: escrava ou ídolo, nunca é ela que escolhe seu destino. “Os homens fazem os deuses; as mulheres adoram-nos”, diz Frazer.São eles que decidem se as divindades supremas devem ser femininas ou masculinas. O lugar da mulher na sociedade sempre é estabelecido por eles.Em nenhuma época ela impôs sua própria lei.É possível, entretanto, que, se o trabalho produtor tivesse permanecido à altura de suas forças, houvesse a mulher realizado com o homem a conquistada natureza. A espécie humana teria, então, afirmado-se contra os deuses através dos indivíduos de ambos os sexos. Mas a mulher não soube tornarsuas as promessas da ferramenta. Engels só explica incompletamente essa decadência. Não basta dizer que a invenção do bronze e do ferro modificouprofundamente o equilíbrio das forças produtoras e que com isso se verificou a inferioridade da mulher; essa inferioridade não é suficiente em si paraexplicar a opressão que suportou. O que lhe foi nefasto foi o fato de que, não se tornando um companheiro de trabalho para o operário, ela se viuexcluída do mitsein humano. O fato de a mulher ser fraca e com capacidade inferior de produção não explica a exclusão. Nela o homem não reconheceuum semelhante porque ela não partilhava sua maneira de trabalhar e de pensar, porque continuava escravizada aos mistérios da vida. Desde que não aadotava, desde que a mulher conservava a seus olhos a dimensão do Outro, o homem só podia se tornar seu opressor. A vontade masculina de expansãoe domínio transformou a incapacidade feminina em maldição. O homem quis esgotar as novas possibilidades oferecidas pelas novas técnicas: a peloupara uma mão de obra servil, reduziu seu semelhante à escravidão. Sendo o trabalho dos escravos bem mais eficiente do que o da mulher, esta perdeu opapel econômico que desempenhava na tribo. E, na sua relação com o escravo, o senhor encontrou uma confirmação de sua soberania mais radical doque na autoridade mitigada que exercia sobre a mulher. Sendo venerada e temida por sua fecundidade, sendo outro que não o homem e participando docaráter inquietante do outro, a mulher mantinha, de certa maneira, o homem na dependência dela no momento mesmo em que dele dependia. Areciprocidade da relação senhor-escravo existia atualmente para ela e com isso escapava à escravidão. O escravo não é protegido por nenhum tabu, nãopassa de um homem subjugado, não diferente mas inferior; o jogo dialético de sua relação com o senhor levaria séculos para se atualizar. No seio dasociedade patriarcal organizada, o escravo não passa de um animal com figura humana: o senhor exerce sobre ele uma autoridade tirânica. Com issoexalta-se o orgulho do senhor que o projeta contra a mulher. Tudo o que ganha, ganha contra ela; quando mais poderoso se torna, mais ela decai.Particularmente, quando se torna proprietário do solo,41 é que reivindica também a propriedade da mulher. Antes ele era possuído pelo mana,pela terra: agora ele tem uma alma, terras; liberto da Mulher, quer uma mulher e uma posteridade para si próprio. Quer que o trabalho familiar queutiliza em proveito de seus campos seja totalmente seu e, para isso, é preciso que os trabalhadores lhe pertençam: escraviza a mulher e os filhos.Precisa de herdeiros através dos quais se prolongará sua vida terrestre — pelo fato de lhes legar seus bens — e que lhe renderão, além-túmulo, ashonras necessárias ao repouso de sua alma. O culto dos deuses domésticos superpõe-se à constituição da propriedade privada, e a função de herdeiro éeconômica e mística a um tempo. Assim, a partir do dia em que a agricultura deixa de ser uma operação essencialmente mágica e se torna antes demais nada um trabalho criador, o homem descobre-se como força geradora; reivindica os filhos ao mesmo tempo que as colheitas.42Não há, nos tempos primitivos, revolução ideológica mais importante do que a que substitui pela agnação a filiação uterina; a partir de então a mãe érelegada à função de ama, de serva, e a soberania do pai é exaltada: ele é que detém os direitos e os transmite. Apolo, na Eumênides de Ésquilo,proclama essas novas verdades: “Não é a mãe que engendra o que se chama filho, ela é apenas a nutriente do germe deitado em seu seio: quemengendra é o pai. A mulher, como um depositário alheio, recebe o germe e, se for a vontade dos deuses, o conserva.” É evidente que essas afirmaçõesnão resultam de uma descoberta científica: são uma profissão de fé. Provavelmente, a experiência da causalidade técnica em que o homem haure acerteza de seu poder criador conduziu-o a reconhecer que ele era tão necessário à procriação quanto a mãe. A ideia guiou a observação, mas esta serestringe a atribuir ao pai um papel igual ao da mãe: leva a supor que, no plano natural, a condição da concepção está no encontro do espermatozoidecom os mênstruos. A ideia que exprime Aristóteles: a mulher é unicamente matéria, “o princípio do movimento que é o macho em todos os seres quenascem é melhor e mais divino”, essa id eia traduz uma vontade de potência que supera qualquer conhecimento. Atribuindo a si próprio eexclusivamente sua posteridade, o homem desvencilha-se definitivamente do império da feminilidade, conquista o domínio do mundo à mulher. Votada àprocriação e às tarefas secundárias, despojada de sua importância prática e de seu prestígio místico, a mulher não passa desde então de uma serva.Os homens figuraram essa conquista como o fim de uma luta violenta. Uma das mais antigas cosmogonias, a dos assírio-babilônios, conta-nos suavitória em um texto que data do século VII a.C., mas que reproduz uma lenda muito mais antiga. O Oceano e o Mar,43 Atum e Tamiat, engendraram omundo celeste, o mundo terrestre e todos os grandes deuses; achando estes, porém, demasiado turbulentos, resolveram aniquilá-los. E foi Tamiat, amulher-mãe, que comandou a luta contra o mais forte e o mais belo de seus descendentes, Bel-Marduc. Este, tendo-a desafiado para um combate,matou-a após terrível batalha e cortou-lhe o corpo em dois; com uma metade fez a abóbada celeste e com a outra, o suporte do mundo terrestre; depoisorganizou o universo e criou a humanidade. No drama de Eumênides, que ilustra o triunfo do patriarcado sobre o direito materno, Orestes tambémassassina Clitemnestra. Com essas sangrentas vitórias, a força viril, as potências solares de ordem e de luz dominam o caos feminino. AbsolvendoOrestes, o tribunal dos deuses proclama que ele era filho de Agamenon antes de sê-lo de Clitemnestra. O velho direito materno morreu; foi a ousadarevolta do macho que o matou. Viu-se que, em verdade, a passagem para o direito paterno se realizou através de lentas transições. A conquistamasculina foi uma reconquista: o homem não fez mais do que tomar posse do que já possuía; harmonizou o direito com a realidade. Não houve luta,nem vitória, nem derrota. Entretanto, essas lendas têm um sentido profundo. No momento em que o homem se afirma como sujeito e liberdade, a ideiade Outro se mediatiza. A partir desse dia a relação com o Outro é um drama: a existência do Outro é uma ameaça, um perigo. A velha filosofia grega,que nesse ponto Platão não desmente, mostrou que a alteridade é a mesma coisa que a negação e, portanto, o Mal. Pôr o Outro é definir ummaniqueísmo. Eis por que todas as religiões e os códigos tratam a mulher com tanta hostilidade. Na época em que o gênero humano se eleva até aredação escrita de suas mitologias e de suas leis, o patriarcado se acha definitivamente estabelecido: são os homens que compõem os códigos. Énatural que deem à mulher uma situação subordinada. Mas poderíamos imaginar que a considerassem com a mesma benevolência com que encaravamas reses e as crianças. Não é o que ocorre. Organizando a opressão da mulher, os legisladores têm medo dela. Das virtudes ambivalentes de que ela serevestia retém-se principalmente o aspecto nefasto: de sagrada, ela se torna impura. Eva entregue a Adão para ser sua companheira perde o gênerohumano; quando querem vingar-se dos homens, os deuses pagãos inventam a mulher e é a primeira dessas criaturas, Pandora, que desencadeia todosos males de que sofre a humanidade. O Outro é a passividade diante da atividade, a diversidade que quebra a unidade, a matéria oposta à forma, adesordem que resiste à ordem. A mulher é, assim, votada ao Mal. “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz, o homem; e um princípio mau quecriou o caos, as trevas e a mulher”, diz Pitágoras. As leis de Manu definem-na como um ser vil que convém manter escravizado. O Levítico assimila-aaos animais de carga que o patriarca possui. As leis de Sólon não lhe conferem nenhum direito. O código romano coloca-a sob tutela e proclama-lhe a“imbecilidade”. O direito canônico considera-a a “porta do Diabo”. O Corão trata-a com o mais absoluto desprezo.E, no entanto, o Mal é necessário ao Bem, a matéria, à ideia, a noite, à luz. O homem sabe que para saciar seus desejos, para perpetuar sua existência,a mulher lhe é indispensável. É preciso integrá-la à sociedade: na medida em que ela se submete à ordem estabelecida pelos homens, ela se purifica desua mácula original. Essa ideia é fortemente expressa nas leis de Manu: “Uma mulher mediante um casamento legítimo adquire as mesmas qualidadesde seu esposo, como o rio que se perde no oceano, e é admitida depois da morte no mesmo paraíso celeste.” Assim traça a Bíblia, com elogios, o retratoda “mulher forte”. O cristianismo, apesar de seu ódio à carne, respeita a virgem consagrada e a esposa casta e dócil. Associada ao culto, pode a mulherchegar a ter um papel religioso importante: a brâmane nas Índias, a flamínia em Roma são tão santas quanto seus maridos; é o homem que domina nocasal, mas a união dos princípios masculino e feminino permanece necessária ao mecanismo da fecundidade, à vida e à ordem da sociedade.É essa ambivalência do Outro, da Mulher, que irá refletir-se na sua história; perman ecerá até os nossos dias submetida à vontade dos homens. Masessa vontade é ambígua: através de uma anexação total, a mulher seria rebaixada ao nível de uma coisa; ora, o homem pretende revestir de sua própriadignidade o que conquista e possui; o Outro conserva, a seus olhos, um pouco de sua magia primitiva; como fazer da esposa ao mesmo tempo umaserva e uma companheira, eis um dos problemas que procurará resolver; sua atitude evoluirá através dos séculos, o que acarretará também umaevolução no destino feminino.44 3 Destronada pelo advento da propriedade privada, é a ela que o destino da mulher permanece ligado durante os séculos: em grande parte, sua históriaconfunde-se com a história da herança. Compreenderemos a importância fundamental dessa instituição se lembrarmos o fato de que o proprietárioaliena sua existência na propriedade; a esta se apega mais do que à própria vida; ela ultrapassa os estreitos limites da vida temporal, subsiste além dadestruição do corpo, encarnação terrestre e sensível da alma imortal. Mas essa sobrevivência só se realiza se a propriedade continua nas mãos doproprietário: ela só pode ser sua além da morte se pertencer a indivíduos em quem se prolongue e se reconheça, que são seus. Cultivar a propriedadepaterna, render culto aos manes do pai é, para o herdeiro, uma só e mesma obrigação: ele assegura a sobrevivência dos antepassados na terra e nomundo subterrâneo. O homem não aceitará, portanto, partilhar com a mulher nem os seus bens nem os seus filhos. Não conseguirá impor totalmente, epara sempre, suas pretensões. Mas, no momento em que o patriarcado é poderoso, ele arranca da mulher todos os direitos sobre a detenção e atransmissão dos bens. Pareceria lógico, aliás, negar-lhes. Quando se admite que os filhos de uma mulher não são dela, passam eles a não ter nenhumlaço com o grupo de origem da mulher. Pelo casamento, a mulher não é mais emprestada por um clã a outro; ela é radicalmente tirada do grupo em quenasceu e anexada ao do esposo; ele compra-a como compra uma rês ou um escravo e impõe-lhe as divindades domésticas; e os filhos que ela engendrapertencem à família do esposo. Se ela fosse herdeira, transmitiria as riquezas da família paterna à do marido: excluem-na cuidadosamente da sucessão.Mas, inversamente, pelo fato de nada possuir, a mulher não é elevada à dignidade de pessoa; ela própria faz parte do patrimônio do homem,primeiramente do pai e em seguida do marido. No regime estritamente patriarcal, o pai pode condenar à morte, já ao nascerem, os filhos ou as filhas;


mas, no primeiro caso, a sociedade restringe, o mais das vezes, seu poder: todo recém-nascido masculino normalmente constituído tem o direito deviver, ao passo que o costume de abandonar as meninas é muito comum. Entre os árabes havia infanticídios em massa: mal nasciam, eram as meninasjogadas em fossos. Aceitar a criança do sexo feminino era um ato de livre generosidade por parte do pai; a mulher só entra nessas sociedades por umaespécie de graça que lhe é outorgada, e não por legitimidade como o homem. Em todo caso, a mácula do nascimento é considerada muito mais gravepara a mãe quando se trata de uma filha: entre os hebreus, o Levítico exige, nesses casos, uma purificação duas vezes mais demorada do que quando aparturiente dá à luz um menino. Nas coletividades em que existe o costume do “resgate pelo sangue”, só se exige uma soma reduzida quando a vítima édo sexo feminino: seu valor está em relação ao do sexo masculino como o do escravo em relação ao do homem livre. Moça, tem o pai todos os poderessobre ela; com o casamento, ele os transmite em sua totalidade ao esposo. Como é sua propriedade, como o escravo, o animal de carga, a coisa, énatural que o homem possa ter tantas mulheres quantas lhe apraza; somente razões de ordem econômica limitam a poligamia; o marido pode repudiarsuas mulheres segundo seus caprichos, a sociedade não lhes outorga quase nenhuma garantia. Em compensação, a mulher é adstrita a uma castidaderigorosa. Apesar dos tabus, as sociedades de direito materno autorizam uma grande licença de costumes; a castidade pré-nupcial é raramente exigida;e o adultério é encarado sem muita severidade. Quando, ao contrário, a mulher se torna a propriedade do homem, ele a quer virgem e dela exige, sob aameaça dos mais graves castigos, uma fidelidade total; seria o pior dos crimes dar direitos de herança a um descendente estrangeiro: eis por que aopater famílias cabe o direito de condenar à morte a esposa culpada. Enquanto dura a propriedade privada, a infidelidade conjugal da mulher éconsiderada crime de alta traição. Todos os códigos, que até os nossos dias mantiveram a desigualdade em matéria de adultério, arguem a gravidade dafalta cometida pela mulher que arrisca introduzir um bastardo na família. E se o direito de fazer justiça com as próprias mãos foi abolido desdeAugusto, o Código Napoleão acena ainda com a indulgência do júri para o marido justiceiro. Quando a mulher pertencia, ao mesmo tempo, ao clãpaterno e à família conjugal, ela conseguia conservar, entre as duas séries de laços que se emaranhavam e até se opunham, uma liberdade bastantegrande, servindo-lhe cada um dos sistemas de apoio contra o outro. Podia, por exemplo, muitas vezes, escolher o marido de acordo com seu capricho,dado que o casamento era um acontecimento laico que não afetava a estrutura profunda da sociedade. Mas, em regime patriarcal, ela é a propriedadedo pai, que a casa a seu desejo; presa ao lar do esposo, a seguir, ela se torna apenas a coisa dele e da gens em que foi introduzida.Quando a família e o patrimônio privado se apresentam sem contestação como bases da sociedade, a mulher permanece também totalmente alienada.Foi o que se verificou no mundo muçulmano. A estrutura deste é feudal, isto é, não surgiu um Estado suficientemente forte para unificar e submeter asdiferentes tribos: nenhum poder resiste ao poder patriarcal. A religião que se criou no momento em que o povo árabe era guerreiro e conquistadordemonstrou o desprezo mais completo pela mulher. “Os homens são superiores às mulheres”, diz o Corão, “por causa das qualidades que Deus lhes deue também porque dão dotes a elas”; elas nunca detiveram nem poder real nem prestígio místico. A beduína trabalha duramente, maneja a charrua ecarrega os fardos: com isso estabelece um laço de dependência recíproca com o marido; sai livremente, de rosto descoberto. A muçulmana velada eencerrada em casa é ainda hoje na maior parte das camadas da sociedade uma espécie de escrava. Lembro-me de uma caverna subterrânea numaaldeia troglodita da Tunísia, em que quatro mulheres se achavam acocoradas: a velha esposa, caolha, desdentada, com um rosto horrivelmentedesfigurado, cozinhava pastéis num fogareiro em meio a uma fumaceira acre; duas esposas um pouco mais jovens, mas quase igualmente desfiguradas,embalavam crianças nos braços: uma delas amamentava. Sentada à frente de um tear, uma jovem maravilhosamente enfeitada de seda, ouro e prata,como um ídolo, atava fios de lã. Ao deixar esse antro sombrio, reino da imanência, matriz e túmulo, cruzei no corredor que se abria para a luz com omacho vestido de branco, brilhando de limpeza, sorridente, solar. Voltava do mercado, onde estivera a conversar, com outros homens, dos negóciosdeste mundo. Passaria algumas horas naquele retiro que era seu, no coração do vasto universo a que pertencia, de que não estava separado. Para asvelhotas enrugadas, para a jovem esposa votada à mesma rápida decadência, não havia outro universo senão a caverna enfumaçada, de que só saíam ànoite, silenciosas e veladas.Os judeus da época bíblica tinham mais ou menos os mesmos costumes que os árabes. Os patriarcas são polígamos e podem repudiar suas mulheres deacordo com os próprios capri chos. Exige-se, sob penas rigorosas, que a jovem esposa seja entregue virgem ao esposo; em caso de adultério ela élapidada; vive confinada aos trabalhos domésticos, como o prova o retrato da mulher forte: “Trabalha a lã e o linho... levanta-se quando ainda é noite... Durante a noite sua lâmpada não se apaga... O pão da preguiça, ela não come.” Mesmo casta e trabalhadeira, é impura, cercam-na de tabus, seutestemunho não é aceito pela justiça. O Eclesiastes fala dela com a mais profunda repugnância: “Achei-a mais amarga do que a morte, a mulher cujocoração é uma armadilha e uma rede e cujas mãos são laços... encontrei um homem entre mil mas não encontrei uma mulher entre todas.” Por ocasiãoda morte do marido, exigia o costume, senão a lei, que a viúva desposasse um irmão do defunto.Esse sistema do levirato encontra-se em muitos povos do Oriente. Em todos os regimes em que a mulher se acha sob tutela, um dos problemas queaparecem é o da situação das viúvas. A solução mais radical consiste em sacrificá-las sobre o túmulo do marido. Mas, mesmo nas Índias, não é verdadeque se tenham algum dia imposto tais holocaustos; as leis de Manu admitiam que a esposa sobrevivesse ao esposo; os suicídios espetaculosos nuncapassaram de moda aristocrática. É muito mais frequente que a mulher seja posta à disposição dos herdeiros do esposo. O levirato assume, por vezes, aforma da poliandria; para evitar as incertezas da viuvez, dão-se como maridos a uma mulher todos os irmãos de uma família, costume que servetambém para defender a gens contra a possível impotência do marido. Parece, a julgar por um texto de César, que na Bretanha todos os homens de umafamília tenham tido em comum certo número de mulheres.O patriarcado não se estabeleceu por toda parte sob essa forma radical. Na Babilônia, as leis de Hamurábi reconheciam certos direitos à mulher: elarecebe uma parte da herança paterna e, quando se casa, o pai dá-lhe um dote. Na Pérsia, a poligamia é comum; a mulher é adstrita a uma obediênciaabsoluta ao marido que o pai lhe escolhe logo que ela se torna núbil. Porém é mais respeitada do que entre a maioria dos povos orientais; o incesto nãoé proibido e houve frequentes casamentos entre irmão e irmã. A mulher é encarregada da educação dos filhos até a idade de sete anos, quando se tratade meninos, e até o casamento em sendo meninas. A mulher pode receber uma parte da herança do marido no caso de o filho não se mostrar dignodela. Se ela é “a esposa privilegiada”, no caso de lhe morrer o marido sem deixar filho adulto, confiam-lhe a tutela dos filhos menores e a administraçãodos negócios. As regras do casamento mostram claramente a importância que tem para o chefe da família a existência de uma posteridade. Parece terhavido cinco espécies de casamento:45 10) a mulher casava-se com o consentimento dos pais; davam-lhe então o título de “esposa privilegiada”; os filhospertenciam ao marido; 20) quando a mulher era filha única, seu primeiro filho era entregue aos pais dela para substituí-la; a seguir ela tornava-se“esposa privilegiada”; 30) se um homem morria celibatário, a família dotava e casava uma mulher estrangeira: chamavam-na mulher adotada; metadedos filhos pertencia ao morto, outra metade ao marido vivo; 40) se uma viúva sem filhos tornava a casar, chamavam-na mulher serva: devia metade dosfilhos de suas segundas núpcias ao marido morto; 50) a mulher que casava sem consentimento dos pais não podia herdar deles antes que seu filhoprimogênito, ao alcançar a maioridade, a tivesse dado como “esposa privilegiada” ao seu pai: se o marido morresse antes, ela era encarada como menore colocada sob tutela. O estatuto da mulher adotada e da mulher serva estabelece o direito de todo homem de sobreviver numa descendência a que nãoo liga necessariamente um laço de sangue. Isto confirma o que dizíamos acima: esse laço foi, de certo modo, inventado pelo homem quando desejouconquistar, para além da vida finita, uma imortalidade terrestre e subterrânea.Foi no Egito que a condição da mulher foi a mais favorecida. As deusas-mães conservaram seu prestígio em se tornando esposas; a unidade religiosa esocial é constituída pelo casal; a mulher surge como aliada e complementar do homem. Sua magia é tão pouco hostil que o próprio medo do incesto évencido e que não se hesita em confundir a irmã com a esposa.46 Ela tem os mesmos direitos que o homem, a mesma força jurídica; herda e possuibens. Essa sorte singular nada tem de casual: provém do fato de que no Egito antigo o solo pertencia ao rei e às castas superiores dos sacerdotes e dosguerreiros; para os particulares, a propriedade territorial consistia apenas no usufruto; o fundo permanecia inalienável, os bens transmitidos porherança tinham pouco valor e não se via nenhum inconveniente em partilhá-los. Em virtude da ausência do patrimônio privado, a mulher conservava adignidade de uma pessoa. Casava-se livremente e, quando viúva, podia tornar a casar-se. O homem praticava a poligamia, mas, embora todos os filhosfossem legítimos, ele só tinha uma esposa verdadeira, a única associada ao culto e a ele ligada legalmente; as outras não passavam de escravasprivadas de quaisquer direitos. A esposa-chefe não mudava de estatuto ao casar-se novamente: continuava dona de seus bens e com a liberdade decontratar. Quando o Faraó Bochóris estabeleceu a propriedade privada, a mulher ocupava uma posição demasiado forte para ser desalojada; Bochórisdeu início à era dos contratos, e o casamento tornou-se contratual. Houve três tipos de contrato: um dizia respeito ao casamento servil; a mulhertornava-se a coisa do homem, mas especificava-se, por vezes, que ele não teria outra concubina; entretanto, a esposa legítima era considerada igual aohomem e todos os bens eram comuns; muitas vezes, o marido comprometia-se a pagar-lhe certa soma em caso de divórcio. Esse costume conduziupouco mais tarde a um tipo de contrato singularmente favorável à mulher: o marido entregava-lhe um documento de dívida fictício. Havia gravespenalidades contra o adultério, mas o divórcio era mais ou menos livre para os dois cônjuges. A prática dos contratos restringiu grandemente apoligamia; as mulheres apropriavam-se das fortunas e transmitiam-nas aos filhos, o que provocou o advento de uma classe plutocrática. PtolomeuFilopáter decretou que as mulheres não poderiam mais alienar seus bens sem autorização marital, fazendo delas eternas menores. Mas, mesmo notempo em que gozaram de um estatuto privilegiado, único no mundo antigo, não foram as mulheres socialmente iguais aos homens; associadas ao culto,ao governo, podiam desempenhar o papel de regente, mas o faraó era homem; os sacerdotes e os guerreiros eram homens; elas só interferiam na vidapública de modo secundário; e na vida privada exigiam dela uma fidelidade sem reciprocidade.Os costumes dos gregos aproximam-se muito dos orientais; eles não praticam entretanto a poligamia. Não se sabe exatamente por quê. Na realidade, amanutenção de um harém sempre constituiu pesado encargo: é o faustoso Salomão, são os sultões das Mil e uma noites, os reis, os chefes, os ricosproprietários que podem se dar ao luxo de um vasto serralho; o homem médio contentava-se com três ou quatro mulheres; o camponês raramentepossuía mais de duas. Por outro lado — salvo no Egito, onde não há propriedade fundiária particular — a preocupação de conservar intato o patrimôniolevava a outorgar ao primogênito direitos sobre a herança paterna; com isso se estabelecia uma hierarquia entre as mulheres, revestindo-se a mãe doherdeiro principal de uma dignidade muito superior à das outras esposas. Se a própria mulher possui bens, se é dotada, é uma pessoa para o marido:ele é ligado a ela por um laço religioso e exclusivo. Daí proveio, talvez, o costume de reconhecer somente uma esposa; em verdade, o cidadão gregopermanecia agradavelmente polígamo, porquanto podia encontrar a satisfação de seus desejos na prostituta da cidade ou na serva do gineceu. “Temosa cortesã para os prazeres do espírito”, diz Demóstenes, “a palákina para o prazer dos sentidos e a esposa para nos dar filhos”. A palákina substituía amulher no leito do senhor quando esta se achava doente, indisposta, grávida ou convalescente do parto; de maneira que, do gineceu ao harém, não vaigrande diferença. Em Atenas, a mulher era encerrada em seus aposentos, adstrita por leis a uma disciplina severa e fiscalizada por magistrados


especiais. Durante toda a sua existência, ela permanece menor; é dependente do poder de seu tutor: pai ou marido, ou herdeiro do marido, ou naausência de um desses, do Estado por intermédio de funcionários públicos; são os seus senhores e dela dispõem como de uma mercadoria, estendendo-se o poder de tutor, a um tempo, sobre a pessoa e os bens; o tutor pode transmitir seus direitos à vontade, o pai dá a filha em adoção ou em casamento;o marido pode, repudiando a esposa, entregá-la a um novo marido. A lei grega assegurava, entretanto, à mulher um dote que se destinava à suamanutenção e devia ser integralmente restituído a ela em caso de dissolução de casamento; autorizava também, em certos casos muito raros, a mulhera pedir o divórcio; mas eram as únicas garantias que a sociedade lhe outorgava. Naturalmente, toda a herança era legada aos filhos, representando odote não um bem adquirido por filiação, mas uma espécie de serviço imposto ao tutor. Entretanto, graças ao dote, a viúva não passa mais como um bemhereditário para as mãos dos herdeiros do marido: torna a submeter-se à tutela dos pais.Um dos problemas formulados nas sociedades fundadas na agnação é o destino da herança na ausência de descendentes masculinos. Os gregos tinhaminstituído o costume do epiclerado: a herdeira devia desposar na gens paterna seu parente mais idoso; desse modo, os bens que lhe legava o pai eramtransmitidos às crianças do mesmo grupo, a propriedade continuava pertencendo à gens; a epiclera não era herdeira, e sim apenas uma máquina deprocriar herdeiros; esse costume colocava-a inteiramente à mercê do homem, posto que era automaticamente entregue ao mais idoso dos homens dafamília, que acontecia ser, na maioria das vezes, um ancião. Já que a opressão da mulher tem sua causa na vontade de perpetuar a família e manter intato o patrimônio, ela se liberta também dessa dependênciaabsoluta na medida em que escapa da família. Se a sociedade, negando a propriedade privada, recusa a família, o destino da mulher éconsideravelmente melhor. Esparta, onde prevalecia um regime comunitário, era a única cidade em que a mulher se via tratada quase em pé deigualdade com o homem. As meninas eram educadas como os meninos; a esposa não era confinada ao lar do marido; este só era autorizado a fazer-lhefurtivas visitas noturnas e a esposa lhe pertencia tão pouco que, em nome da eugenia, outro homem podia unir-se a ela: a própria noção de adultériodesaparece quando a herança deixa de existir; pertencendo todos os filhos em comum a toda a cidade, as mulheres não se veem mais ciumentamenteescravizadas a um senhor: ou, inversamente, pode-se dizer que, não possuindo nem bem próprio nem descendência singular, o cidadão não possuitampouco a mulher. As mulheres suportam as servidões da maternidade como os homens as da guerra: mas, salvo o desempenho desse dever físico,nenhum constrangimento lhes limita a liberdade.Ao lado das mulheres livres de que acabamos de falar e das escravas que vivem no interior da gens — e que são propriedade absoluta do chefe defamília — encontravam-se prostitutas na Grécia. Os povos primitivos conheciam a prostituição hospitaleira, cessão da mulher aos hóspedes depassagem, que tinha sem dúvida razões místicas, e a prostituição sagrada, destinada a libertar as misteriosas forças da fecundação em benefício dacoletividade. Esses costumes existiam na Antiguidade clássica. Heródoto conta que, no século V a.C., toda mulher de Babilônia devia, uma vez na vida,entregar-se a um estranho no templo de Milita em troca de uma moeda que ela oferecia ao tesouro do templo; em seguida retornava ao lar para vivercastamente. A prostituição religiosa perpetuou-se até hoje entre as almeias do Egito e as bailadeiras das Índias, que constituem castas respeitadas de músicas e dançarinas. Mas, o mais das vezes, no Egito, na Índia, na Ásia Ocidental houve passagem da prostituição sagrada para a prostituição legal,encontrando a classe sacerdotal nesse comércio um meio de se enriquecer. Entre os próprios hebreus havia prostitutas venais. Na Grécia eraprincipalmente à beira-mar, nas ilhas, nas cidades a que acorriam muitos estrangeiros, que existiam templos em que se encontravam “jovenshospitaleiras aos estrangeiros”, como as denomina Píndaro: o dinheiro que recebem destina-se ao culto, isto é, aos sacerdotes e, indiretamente, àmanutenção deles. Na verdade, sob uma forma hipócrita, exploram-se — em Corinto, entre outros — as necessidades sexuais dos marinheiros, dosviajantes; e já existe a prostituição venal. Foi Sólon que fez dela uma instituição. Comprou escravas asiáticas e encerrou-as nos dicterions situados emAtenas, perto do templo de Vênus, não longe do porto. A direção era confiada aos pornotropos encarregados de administrar financeiramente oestabelecimento; cada jovem recebia um salário e os lucros cabiam ao Estado. Mais tarde abriram-se os kapaileia, que eram estabelecimentosparticulares: um priapo vermelho servia-lhes de insígnia. Em pouco tempo, além das escravas, mulheres gregas de baixa condição fizeram-se recebercomo pensionistas. Os dicterions eram considerados tão necessários que logo foram reconhecidos como lugares de asilo invioláveis. Entretanto, ascortesãs eram tachadas de infames, não tinham nenhum direito social, os seus filhos não eram obrigados a sustentá-las; deviam usar um vestidoespecial de fazenda sarapintada e enfeitada com flores, além de tingir os cabelos com açafrão. Além das mulheres encerradas nos dicterions, haviacortesãs livres que se classificavam em três categorias: as Dicteríades, análogas às mulheres registradas na polícia, em nossos tempos; as Auletrides,que eram dançarinas e tocadoras de flauta; e as Hetairas, meretrizes que vinham geralmente de Corinto, tinham relações oficiais com os homens maisnotáveis da Grécia e desempenhavam o papel social das “mundanas” de hoje. As primeiras recrutavam-se entre as forras e as jovens gregas de baixaextração; exploradas pelos proxenetas, levavam uma existência miserável. As segundas conseguiam muitas vezes enriquecer graças a seus talentosmusicais: a mais célebre foi Lâmia, amante de Ptolomeu do Egito e, depois, do vencedor dele, o rei da Macedônia, Demétrio Poliorceta. Quanto àsúltimas, sabe-se que muitas se associaram à glória de seus amantes. Dispondo livremente de si mesmas e de sua fortuna, inteligentes, cultas, artistas,eram tratadas como pessoas pelos homens que se encantavam com seu comércio. Pelo fato de escaparem da família, situam-se à margem da sociedadee escapam também do homem: podem então apresentar-se a ele como uma semelhante e quase uma igual. Com Aspásia, Frineia, Laís, afirma-se asuperioridade da mulher liberta sobre a mãe de família.Salvo essas brilhantes exceções, a mulher grega é reduzida a uma semiescravidão; ela não tem sequer a liberdade de se indignar. Mal se ouvem algunsprotestos de Aspásia e, mais apaixonadamente, de Safo. Em Homero subsistem reminiscências da época heroica em que as mulheres tinham algumpoder: entretanto os guerreiros as rechaçam com dureza para seus cômodos. Depara-se com o mesmo desprezo em Hesíodo: “Quem se confia a umamulher confia-se a um ladrão.” Na época clássica, a mulher é resolutamente confinada ao gineceu. “A melhor mulher é aquela de quem os homensmenos falam”, dizia Péricles. Platão, que propõe aceitar um conselho de matronas na administração da república e dar às jovens uma educação livre, éuma exceção: ele provoca as zombarias de Aristófanes: em Lisístrata, a uma mulher que o interroga acerca dos negócios públicos, responde o marido:“Não é da tua conta... Cala-te ou apanharás... Tece o teu pano.” Aristóteles exprime a opinião comum ao declarar que a mulher é mulher em virtude deuma deficiência, que deve viver fechada em sua casa e subordinada ao homem. “O escravo é inteiramente desprovido da liberdade de deliberar; amulher a possui, mas fraca e ineficiente”, afirma. Segundo Xenofonte, a mulher e o marido são profundamente estranhos um ao outro: “Existempessoas com quem converses menos do que com tua mulher? — Muito poucas...” Tudo o que se exige da mulher em Econômico é que seja uma dona decasa atenta, prudente, econômica, trabalhadeira como a abelha, uma intendente modelar. A condição modesta a que a mulher é reduzida não impede osgregos de serem profundamente misógenos. Já no século VII a.C., Arquíloco escreve epigramas mordazes contra as mulheres. Lê-se em Simonide deAmorga: “As mulheres são o maior mal que Deus jamais criou: que pareçam por vezes úteis, logo se transformam em motivo de preocupação para seussenhores.” E em Hiponax: “Só há dois dias na vida em que nossa mulher nos dá prazer: no dia de núpcias e no dia do enterro dela.” São os habitantesda Jônia que, nas histórias de Mileto, manifestam maior mordacidade: conhece-se entre outros o conto da matrona de Éfeso. O que se censuraprincipalmente às mulheres nessa época é serem preguiçosas, azedas, perdulárias, isto é, precisamente a ausência das qualidades que se exigem delas.“Há muitos monstros na terra e no mar, mas o maior de todos é ainda a mulher”, escreve Menandro. “A mulher é um sofrimento que não nos larga.”Quando, pela instituição do dote, a mulher assume certa importância, deplora-se a sua arrogância; é um dos temas familiares de Aristófanes eprincipalmente de Menandro. “Desposei uma feiticeira com um dote. Aceitei-a por causa de seus campos e de sua casa e isso, ó Apolo, é o pior dosmales!...” “Maldito seja quem inventou o casamento, e em seguida o segundo, e o terceiro, e o quarto, e todos os que o imitaram.” “Se sois pobre ecasais com uma mulher rica, ficareis ao mesmo tempo escravo e pobre.” A mulher grega era controlada de demasiado perto para que lhe censurassemos costumes. E não é a carne que se vilipendia nela. São principalmente os encargos e as servidões do casamento que pesam aos homens: isso nospermite supor que, apesar do rigor de sua condição, e embora nenhum direito se lhe reconhecesse, ela devia ocupar um lugar importante no lar e gozarde certa autonomia; votada à obediência, podia desobedecer; podia atormentar o marido com cenas, lágrimas, tagarelices, injúrias; o casamentodestinado a escravizar a mulher era também uma cadeia para o marido. Na personagem de Xantipa resumem-se todos os ressentimentos do cidadãogrego contra a esposa megera e os infortúnios da vida conjugal. * * * É o conflito entre a família e o Estado que define a história da mulher romana. Os etruscos constituíam uma sociedade de filiação uterina e é provávelque, no tempo da realeza, Roma conhecesse ainda a exogamia ligada ao regime do direito materno: os reis latinos não transmitiam hereditariamente opoder. O certo é que, depois da morte de Tarquínio, o direito patriarcal se afirma: a propriedade agrícola, a propriedade privada, e, portanto, a família,são a célula da sociedade. A mulher será estreitamente escravizada ao patrimônio e, assim, ao grupo familial: as leis privam-na mesmo de todas asgarantias que eram reconhecidas às mulheres gregas; a mulher passa a existência na incapacidade e na servidão. Bem entendido, está excluída dosnegócios públicos, todo “ofício viril” lhe é rigorosamente proibido; e, em sua vida civil, é ela uma eterna menor. Não lhe recusam diretamente sua parteda herança paterna, mas mediante certos dispositivos impedem-na de dispor dela: submetem-na à autoridade de um tutor. “A tutela foi estabelecida nointeresse dos próprios tutores”, diz Gaio, “a fim de que a mulher, de que são herdeiros presuntivos, não possa arrancar-lhes a herança por testamento,nem empobrecê-los por alienações ou dívidas”. O primeiro tutor da mulher é o pai; na falta deste, os ágnatos paternos preenchem a função. Quando amulher se casa, passa “para a mão” do esposo. Há três formas de casamento: a conferratio, em que os esposos oferecem a Júpiter Capitolino um bolo deespelta em presença do flamen dialis; a coemptio, venda fictícia pela qual o pai plebeu “emancipava” a filha ao marido; e o usus, resultante de umacoabitação de um ano. Todas as três são com manu, isto é, o esposo substitui o pai ou os tutores ágnatos; a mulher é assimilada a uma de suas filhas e éele que, desde então, tem todo poder sobre a pessoa dela e os bens. Mas desde a época da Lei das Doze Tábuas, em pertencendo a romana ao mesmotempo à gens paterna e à gens conjugal, surgiam conflitos que se encontram na origem de sua emancipação legal. Com efeito, o casamento commanu despoja os tutores ágnatos. Para defender os interesses dos parentes paternos, vê-se aparecer o casamento sine manu; neste caso, os bens da


mulher permanecem na dependência dos tutores, tendo o marido apenas direitos sobre a pessoa dela; e até esse poder ele o partilha com o paterfamílias, que conserva a autoridade absoluta sobre a filha. O tribunal doméstico é encarregado de resolver as questões que possam ocorrer entre omarido e o pai: uma tal instituição permite à mulher recorrer do pai para o marido, do marido para o pai; ela não é a propriedade de um indivíduo.Aliás, embora a gens seja extremamente forte, como o prova a própria existência desse tribunal independente dos tribunais públicos, o pai de famíliaque é seu chefe é antes de tudo um cidadão. Sua autoridade é ilimitada; ele governa de maneira absoluta a mulher e os filhos; mas estes não sãopropriedade sua; ele administra suas vidas tendo em vista o bem público; a mulher, que põe no mundo os filhos e cujo trabalho doméstico englobamuitas vezes tarefas agrícolas, é muito útil ao país e profundamente respeitada. Observa-se, aqui, um fato muito importante que encontramos no cursoda história: o direito abstrato não basta para definir a situação concreta da mulher; esta depende em grande parte do papel econômico que representa.E, muitas vezes mesmo, a liberdade abstrata e os poderes concretos variam em sentido inverso. Legalmente mais escravizada do que a grega, a romanaestá muito mais profundamente integrada na sociedade; em casa, mantém-se no átrio que é o centro da residência, em vez de ser relegada ao segredodo gineceu; ela é que preside ao trabalho dos escravos; orienta a educação dos filhos e, não raro, sua influência exerce-se sobre eles até uma idadeavançada; compartilha o trabalho e as preocupações do esposo; e é considerada coproprietária de seus bens. A fórmula do casamento Ubi tu Gaius, egoGaia, não é uma fórmula vazia. À matrona chamam de domina; é senhora do lar, associada ao culto, companheira do homem e não escrava; o laço queos une é tão sagrado que em cinco séculos não encontramos um divórcio. Ela não é confinada a seus cômodos: assiste às refeições, às festas, vai aoteatro; na rua, os homens cedem-lhe o passo, os cônsules e os litores dão-lhe passagem. As lendas concedem-lhe, na história, um papel eminente:conhecem-se a das Sabinas, a de Lucrecia, a de Virgínia. Coriolano atende às súplicas de sua mãe e de sua esposa; a lei de Licínio, que consagra otriunfo da democracia romana, teria sido inspirada pela mulher; é Cornélia quem forja a alma dos Gracos. “Por toda parte os homens governam asmulheres”, dizia Catão, “e nós que governamos todos os homens somos governados pelas mulheres”.Pouco a pouco, a situação legal da romana adapta-se à sua condição prática. No tempo da oligarquia patrícia, cada pater familias é, no seio darepública, um soberano independente; mas, quando se fortalece, o poder do Estado luta contra a concentração das fortunas, contra a arrogância dasgrandes famílias. O tribunal doméstico curva-se diante da justiça pública, e a mulher conquista direitos cada vez maiores. Quatro poderes limitavamprimitivamente sua liberdade: o pai e o marido dispunham de sua pessoa, o tutor e a manus de seus bens. O Estado vale-se da oposição entre o pai e omarido para restringir-lhes os direitos: é o tribunal de Estado que julga os casos de adultério, de divórcio etc. Da mesma forma, destroem-se, uma pelaoutra, a manus e a tutela. No interesse do tutor já se havia separado a manus do casamento. A seguir a manus torna-se um expediente de que seutilizam as mulheres para libertar-se dos tutores, contratando casamentos fictícios, ou obtendo, dos pais ou do Estado, tutores complacentes. Com alegislação imperial, a tutela será inteiramente abolida. Ao mesmo tempo, a mulher obtém uma garantia positiva de sua independência: o pai é obrigadoa dar-lhe um dote; este não passa aos ágnatos após a dissolução do casamento e nunca pertence ao marido; a mulher pode, de um momento para outro,exigir sua devolução por um divórcio repentino, o que coloca o homem à sua mercê. “Aceitando o dote, ele vendia seu poder”, diz Plauto. Desde o fim daRepública à mãe fora reconhecido, como ao pai, o direito ao respeito dos filhos: cabe-lhe a guarda da progenitura em caso de tutela ou má conduta domarido. Com Adriano, um senatus-consulto confere-lhe, no caso de ter ela três filhos e o defunto não ter posteridade, um direito à sucessão abintestat de cada um deles. Com Marco Aurélio chega ao fim a evolução da família romana. A partir de 178 a mãe tem como herdeiros os filhos queassim passam à frente dos ágnatos; a família baseia-se daí por diante na conjunctio sanguinis, e a mãe surge em pé de igualdade com o pai: a filhaherda como os irmãos.Entretanto, observa-se na história do direito romano um movimento que contradiz o que acabamos de descrever: tornando a mulher independente dafamília, o poder central recoloca-a, ele próprio, sob tutela: sujeita-a a várias incapacidades legais.Com efeito, ela adquiriria uma importância inquietante se pudesse ser a um tempo rica e independente; vão, portanto, esforçar-se por tirar-lhe comuma mão o que lhe concederam com a outra. A lei Ópia que proibia o luxo às romanas foi votada no momento em que Aníbal ameaçava Roma; passado operigo, as mulheres reclamaram sua ab-rogação; Catão, num célebre discurso, pediu que fosse mantida, mas a manifestação das matronas em praçapública predominou. Diferentes leis, tanto mais severas quanto mais se relaxavam os costumes, foram em seguida propostas, mas sem grande êxito;não conseguiram senão suscitar fraudes. Só triunfou o senatus-consulto que proibia à mulher “interceder” para outrem,47 privando-a de quase todacapacidade civil. É no momento em que a mulher se acha mais emancipada, praticamente, que se proclama a inferioridade de seu sexo, o que constituium notável exemplo do processo de justificação masculina de que falei: como não limitam mais seus direitos como filha, esposa, irmã, é como sexo quelhe recusam a igualdade com o homem, pretextando, para dominá-la, “a imbecilidade, a fragilidade do sexo”.O fato é que as matronas não souberam empregar muito bem sua liberdade recente, mas é verdade também que lhes foi proibido tirar proveito dela demaneira positiva. Dessas duas correntes contrárias — uma individualista que arranca a mulher à família, outra estatal que a molesta como indivíduo —resulta uma situação sem equilíbrio. Ela é herdeira; tem direito, como o pai, ao respeito dos filhos; pode legar e escapa, graças à instituição do dote, aoconstrangimento conjugal; pode divorciar e tornar a casar como queira. Mas é somente de uma maneira negativa que se emancipa, posto que não selhe propõe nenhum emprego concreto de suas forças. A independência econômica permanece abstrata porquanto não engendra nenhuma capacidadepolítica; e assim, não podendo agir, as romanas manifestam: espalham-se em tumulto pela cidade, assediam os tribunais, fomentam conjuras, ditamprescrições, atiçam guerras civis; vão em cortejo buscar a estátua da Mãe dos Deuses e a escoltam ao longo do Tibre, introduzindo, desse modo, emRoma, as divindades orientais; em 114 rebenta o escândalo das Vestais, cujo colégio é suprimido. Permanecendo-lhes inacessíveis a vida e as virtudespúblicas, quando a dissolução da família torna inúteis e obsoletas as virtudes privadas de outrora, nenhuma moral mais se propõe às mulheres. Elaspodem escolher entre duas soluções: obstinar-se em respeitar os mesmos valores de suas avós ou não reconhecer nenhum. No fim do primeiro século eno início do segundo, veem-se numerosas mulheres continuarem companheiras e associadas de seus maridos como no tempo da República. Plotinapartilha a glória e as responsabilidades de Trajano; Sabina torna-se tão célebre por suas boas ações que, ainda em vida, estátuas a divinizam; noreinado de Tibério, Sextia recusa-se a sobreviver a Emílio Escauro, e Pascea, a Pompônio Labéu; Paulina corta as veias junto com Sêneca; Plínio, oJovem, tornou célebre o Poete, non dolet de Arria; Marcial admira em Cláudia Rufina, em Virgínia, em Sulpícia, esposas irreprocháveis e mãesdedicadas. Mas há muitas mulheres que se opõem à maternidade e multiplicam os divórcios; as leis continuam a proibir o adultério: algumas matronaschegam a inscrever-se entre as prostitutas para não serem perturbadas em suas devassidões.48 Até então a literatura latina sempre respeitara asmulheres: a partir de então os satíricos desencadeiam-se contra elas. Não se voltam, aliás, contra a mulher em geral, mas, essencialmente, contra suascontemporâneas. Juvenal censura-lhes a luxúria e a glutonaria; admoesta-as por pretenderem as ocupações dos homens: elas se interessam pelapolítica, pelos processos, discutem com os gramáticos, os retóricos, apaixonam-se pela caça, corridas de carros, esgrima e luta. Em verdade, éprincipalmente pelo seu amor aos prazeres e pelos seus vícios que elas rivalizam com os homens; para visar a metas mais elevadas carecem de umaeducação suficiente. Nenhum fim lhes é proposto, aliás; a ação permanece-lhes proibida. A romana da antiga República tem um lugar na terra, mascontinua de mãos atadas em consequência da falta de direitos abstratos e de independência econômica; a romana da decadência é o tipo da falsaemancipada que não possui, no mundo de que os homens são concretamente os donos, senão uma liberdade inócua: é livre “para nada”. 4 A evolução da condição feminina não prosseguiu de maneira contínua. Com as grandes invasões, toda a civilização foi posta em causa. O próprio direitoromano sofreu a influência de uma ideologia nova: o cristianismo. E, nos séculos que se seguem, os bárbaros fazem que suas leis triunfem. A situaçãoeconômica, social e política é transtornada: e isto repercute na situação da mulher.A ideologia cristã não contribuiu pouco para a opressão da mulher. Há, talvez, no Evangelho um sopro de caridade que se estende tanto às mulherescomo aos leprosos; são os pequenos, os escravos e as mulheres que se apegam mais apaixonadamente à nova lei. Logo no início do cristianismo, eramas mulheres, quando se submetiam ao jugo da Igreja, relativamente honradas; testemunhavam como mártires ao lado dos homens; não podiam,entretanto, tomar parte no culto senão a título secundário; as “diaconisas” só eram autorizadas a realizar tarefas laicas: cuidados aos doentes, socorrosaos indigentes. E se o casamento é encarado como uma instituição que exige fidelidade recíproca, parece evidente que a esposa deve ser totalmentesubordinada ao esposo: com são Paulo afirma-se a tradição judaica ferozmente antifeminista. São Paulo exige das mulheres discrição e modéstia;baseia, no Antigo e no Novo Testamento, o princípio da subordinação da mulher ao homem. “O homem não foi tirado da mulher, e sim a mulher dohomem; e o homem não foi criado para a mulher, e sim esta para o homem.” E ainda: “Assim como a Igreja é submetida a Cristo, em todas as coisassubmetam-se as mulheres a seus maridos.” Numa religião em que a carne é maldita, a mulher se apresenta como a mais temível tentação do demônio.Tertuliano escreve: “Mulher, és a porta do diabo. Persuadiste aquele que o diabo não ousava atacar de frente. É por tua causa que o filho de Deus tevede morrer; deverias andar sempre vestida de luto e de andrajos.” E santo Ambrósio: “Adão foi induzido ao pecado por Eva e não Eva por Adão. É justoque a mulher aceite como soberano aquele que ela conduziu ao pecado.” E são João Crisóstomo: “Em meio a todos os animais selvagens não seencontra nenhum mais nocivo do que a mulher.” Quando se constitui o direito canônico no século IV, o casamento surge como uma concessão àsfraquezas humanas, é incompatível com a perfeição cristã. “Empunhemos o machado e cortemos pelas raízes a árvore estéril do casamento”, escrevesão Jerônimo. A partir de Gregório VI, quando o celibato é imposto aos padres, o caráter perigoso da mulher é severamente sublinhado: todos os padresda Igreja lhe proclamam a abjeção. São Tomás será fiel a essa tradição ao declarar que a mulher é um ser “ocasional” e incompleto, uma espécie dehomem falhado. “O homem é a cabeça da mulher, assim como Cristo é a cabeça do homem”, escreve. “É indubitável que a mulher se destina a viver sobo domínio do homem e não tem por si mesma nenhuma autoridade.” Destarte, o direito canônico só admite como regime matrimonial o regime dotalque torna a mulher incapaz e impotente. Não somente os ofícios viris lhe são proibidos, como ainda se lhe veda depor nos tribunais e não se dá nenhumvalor a seu testemunho. Os imperadores sofrem a influência dos padres da Igreja de modo mitigado; a legislação de Justiniano honra a mulher como


esposa e mãe, mas a escraviza a essas funções; não é de seu sexo, mas de sua situação no seio da família que decorre sua incapacidade. O divórcio éproibido e exige-se que o casamento seja um acontecimento público; a mãe tem sobre os filhos uma autoridade igual à do pai, e o mesmo direito àherança. Morrendo o marido, torna-se ela a tutora legal. O senatus-consulto veleiano é modificado: doravante ela poderá interceder em benefício deterceiros; mas não pode contratar por seu marido; o dote torna-se inalienável; é o patrimônio dos filhos e ela não pode dispor dele.A essas leis justapõem-se, nos territórios ocupados pelos bárbaros, as tradições germânicas. Os costumes dos germanos eram singulares. Só admitiamchefes durante as guerras; em tempo de paz, a família era uma sociedade autônoma; parece ter sido intermediária entre os clãs fundados na filiaçãouterina e a gens patriarcal; o irmão da mãe tinha o mesmo poder que o pai e ambos, mãe e irmão, tinham sobre a filha e sobrinha uma autoridade igualà do marido. Numa sociedade em que toda capacidade encontra sua fonte na força brutal, a mulher era de fato inteiramente impotente; masreconheciam-lhe direitos que a dualida de dos poderes domésticos de que ela dependia lhe assegurava; escravizada, era contudo respeitada; o maridocomprava-a, mas o preço da compra constituía uma renda de que ela era proprietária; além disso, seu pai dotava-a; recebia sua parte da herançapaterna, e, em caso de assassínio dos pais, uma parte lhe era paga pelo assassino. A família era monógama, o adultério severamente punido e ocasamento respeitado. A mulher permanecia severamente punida e o casamento respeitado. A mulher permanecia sempre sob tutela, mas eraestreitamente associada ao esposo. “Na paz como na guerra, ela partilha a sorte dele; com ele vive, com ele morre”, escreve Tácito. Assistia aoscombates, fornecendo a comida aos guerreiros e animando-os com sua presença. Viúva, parte do poder de seu defunto marido lhe era transmitida. Porter raízes em sua fraqueza física, sua incapacidade não era encarada como exprimindo uma inferioridade moral. Havia mulheres sacerdotisas,profetisas, o que leva a supor que tinham uma instrução superior à dos homens. Nas sucessões, entre os objetos que cabiam às mulheres, contaram-semais tarde as joias e os livros.É essa tradição que se perpetua durante a Idade Média. A mulher acha-se na absoluta dependência do pai e do marido: no tempo de Clóvis omundium pesa sobre ela durante toda a vida; mas os francos renunciaram à castidade germânica; na época dos merovíngios e dos carolíngios reina apoligamia; a mulher é casada sem seu consentimento, repudiada segundo os caprichos do marido, que tem sobre ela direito de vida e de morte; tratam-na como uma serva. É protegida pelas leis, mas na qualidade de propriedade do homem e mãe de seus filhos. Tratá-la de prostituta sem o provar é umainjúria que se paga quinze vezes mais caro do que qualquer insulto a um homem; o rapto de uma mulher casada equivale ao assassínio de um homemlivre; apertar a mão ou o braço de uma mulher casada acarreta uma multa de quinze a trinta e cinco soldos; o aborto é proibido sob pena de multa decem soldos; o assassínio de uma mulher grávida custa quatro vezes o de um homem livre; uma mulher que deu provas de fecundidade vale três vezesum homem livre, mas perde seu valor quando não pode mais ser mãe; se desposa um escravo é posta fora da lei e os pais são autorizados a matá-la. Elanão tem nenhum direito como pessoa; entretanto, quando o Estado se torna poderoso, esboça-se a evolução que vimos desenrolar-se em Roma: a tutelados incapazes, crianças e mulheres deixa de ser um direito de família para se tornar um encargo público; a partir de Carlos Magno o mundium que pesasobre a mulher pertencerá ao rei; a princípio, ele só intervém nos casos em que a mulher é privada de seus tutores naturais; mais tarde, ele açambarca,pouco a pouco, os poderes familiais; mas essa mudança não acarreta a emancipação da mulher franca. O mundium torna-se uma obrigação onerosapara o tutor; e le tem o dever de proteger sua pupila e essa proteção redunda para esta na mesma escravidão de antes.Quando, ao fim das convulsões da alta Idade Média, o feudalismo se organiza, a condição da mulher apresenta-se muito incerta. O que caracteriza odireito feudal é a confusão entre o direito de soberania e o de propriedade, entre direitos públicos e direitos privados. É o que explica que a mulher seencontre ora rebaixada, ora elevada pelo regime. A princípio, vê-se desprovida de todos os direitos privados porque não tem nenhuma capacidadepolítica. Efetivamente, até o século XI, a ordem baseia-se unicamente na força, a propriedade no poder das armas. Um feudo, dizem os juristas, é “umaterra que se mantém em troca de serviço militar”. A mulher não poderia pretender um domínio feudal, uma vez que seria incapaz de defendê-lo. Suasituação muda quando os feudos se tornam hereditários e patrimoniais. Viu-se que havia no direito germânico sobrevivências do direito materno: naausência de herdeiros homens, a filha podia herdar. Daí admitir também o feudalismo, por volta do século XI, a sucessão feminina. Entretanto, o serviçomilitar é sempre exigido dos vassalos e a sorte da mulher não melhora pelo fato de se tornar herdeira; ela precisa de um tutor masculino; é o maridoque desempenha esse papel; ele é que recebe a investidura, que usa o título e tem o usufruto dos bens. Tal qual a epiclera grega, a mulher é oinstrumento através do qual a propriedade se transmite, e não sua possuidora; não se emancipa com isso, é, em suma, absorvida pelo feudo, faz partedos bens imóveis. A propriedade não é mais a coisa de família como no tempo da gens romana, pertence ao suserano, assim como a mulher. Ele é quemlhe escolhe um esposo. Quando ela tem filhos, é antes a ele do que ao marido que os dá; serão vassalos que defenderão seus bens. Ela é, portanto,escrava da propriedade e do senhor dessa propriedade através da “proteção” de um marido que lhe é imposto; há poucas épocas em que sua sortetenha sido mais dura. Uma herdeira é uma terra e um castelo: os pretendentes disputam a presa e, às vezes, a jovem não tem ainda doze anos quando opai ou o senhor a dão de presente a algum barão. Multiplicar os casamentos é para um homem multiplicar suas propriedades; por isso mesmo osrepúdios são numerosos; a Igreja autoriza-os hipocritamente; sendo proibido o casamento entre parentes até o sétimo grau, e definindo-se o parentescopelos laços espirituais como os de padrinho e madrinha tanto quanto pelos laços de sangue, encontra-se sempre algum pretexto para a anulação.Contam-se no século XI numerosas mulheres repudiadas quatro ou cinco vezes. Viúva, deve a mulher aceitar de imediato um segundo senhor. Nascanções de gesta vê-se Carlos Magno casar, novamente, em bloco, todas as viúvas de seus barões mortos na Espanha; em Girar de Vienne, a Duquesade Borgonha vem em pessoa reclamar do rei um novo esposo. “Meu marido acaba de morrer, mas para que serve o luto?... Descobri-me um marido queseja poderoso, pois dele tenho muita necessidade para defender minha terra.” Inúmeras epopeias mostram-nos o rei ou o suserano dispondotiranicamente das jovens e das viúvas. Vê-se por elas também que o esposo tratava sem nenhuma consideração a mulher que recebera de presente;maltratava-a, esbofeteava-a, arrastava-a pelos cabelos, batia-lhe; tudo o que pedia Beaumanoir aos costumes de Beauvaisis era que o marido“castigasse razoavelmente” a esposa. Essa civilização guerreira não tinha senão desprezo pela mulher. O cavaleiro não se interessa por elas; seu cavaloparece-lhe um tesouro de bem maior valor; nas canções de gesta, são sempre as jovens que procuram os jovens; casadas, exige-se delas uma fidelidadesem reciprocidade; o homem não as associa a sua vida. “Maldito seja o cavaleiro que vai pedir conselho a sua dama quando deve ir para o torneio.” E,em Renaud de Montauban, lê-se esta apóstrofe: “Retornai a vossos apartamentos pintados e dourados, sentai-vos à sombra, bebei, comei, bordai, tingi aseda, mas não vos ocupeis de nossos negócios. Nossa função é lutar com o gládio e o aço. Silêncio!” A mulher partilha, por vezes, a vida rude doshomens. Jovem, é treinada em todos os exercícios do corpo, monta a cavalo, caça com falcão; não recebe quase nenhuma instrução e é educada sempudor; ela é quem recebe os hóspedes do castelo, quem cuida de suas refeições, de seus banhos, quem os “acaricia” para ajudá-los a adormecer;embora mulher, ocorre-lhe caçar animais ferozes, realizar longas e difíceis peregrinações; quando o marido se acha ausente, ela é quem defende a terrasenhorial. Admiram-se essas castelãs que chamam “virago” porque se conduzem exatamente como homens: são cúpidas, pérfidas, cruéis, oprimem seusvassalos. A história e a lenda deixaram-nos a recordação de muitas delas: a castelã Aubie, tendo mandado construir uma torre mais alta do que todos ostorreões, ordenou logo após que se cortasse a cabeça do arquiteto a fim de que o segredo ficasse bem guardado; expulsou o marido de sua propriedade,mas ele voltou escondido e matou-a. Mabille, mulher de Rogério de Montgomerri, comprazia-se em transformar em mendigos os nobres de seu feudo:eles se vingaram, decapitando-a. Juliana, filha bastarda de Henrique I da Inglaterra, defendeu o castelo de Breteuil contra o pai e fê-lo cair numaarmadilha, pelo que ele a castigou duramente. Entretanto, tais fatos são excepcionais. Habitualmente a castelã passa os dias fiando, rezando,esperando o esposo e se aborrecendo.Pretendeu-se muitas vezes que o amor cortês que nasce no Sul mediterrânico, por volta do século XII, teria acarretado uma melhoria na sorte damulher. Acerca dessas origens, diversas teses se defrontam: segundo uns, a “cortesia” decorre das relações da suserana com seus jovens vassalos;segundo outros, ela estaria ligada às heresias cátaras e ao culto da Virgem; outros, enfim, fazem derivar o amor profano do amor a Deus em geral. Nãose tem muita certeza de que as cortes de amor tenham realmente existido. O certo é que, ante a Eva pecadora, a Igreja foi levada a exaltar a Mãe doRedentor. Seu culto tornou-se tão importante que se pode dizer que no século XIII Deus se fizera mulher; uma mística da mulher desenvolve-se,portanto, no plano religioso. Por outro lado, os lazeres da vida de castelo permitem às mulheres nobres fazer florescer em volta delas o luxo daconversação, da cortesia, da poesia; mulheres letradas, como Béatrice de Valentinois, Aliénor d’Aquitaine e sua filha Marie de France, Blanche deNavarre e muitas outras, atraem e sustentam os poetas. Observa-se no sul primeiramente e, em seguida, no norte, um amadurecimento cultural quebeneficia as mulheres e lhes dá um novo prestígio. O amor cortês foi descrito, frequentemente, como platônico; Chrestien de Troyes, talvez paraagradar sua protetora, exclui o adultério de seus romances; não pinta outros amores culposos senão os de Lancelot e de Guenièvre; mas na realidade,sendo o esposo feudal um tutor e um tirano, a mulher buscava um amante fora do casamento. O amor cortês era uma compensação à barbárie doscostumes oficiais. “O amor, no sentido moderno da palavra, só ocorre na Antiguidade fora da sociedade oficial”, observa Engels. “O ponto exato em quea Antiguidade se detém nas suas tendências para o amor sexual é aquele de que parte a Idade Média: o adultério.” E é com efeito essa forma querevestirá o amor enquanto a instituição do casamento se perpetuar.Na realidade, conquanto amenize a sorte da mulher, a cortesia não a modifica profundamente. Não são as ideologias, religião ou poesia, que conduzema uma libertação da mulher; é em virtude de causas muito outras que no fim da era feudal ela ganha um pouco de terreno. Quando a supremacia dopoder real se impõe aos feudatários, o suserano perde boa parte de seus direitos; em particular, suprimem-lhe, pouco a pouco, o de decidir docasamento de seus vassalos; ao mesmo tempo, tira-se do tutor feudal o gozo dos bens de sua pupila; as vantagens ligadas à tutela desaparecem e,quando o serviço do feudo é reduzido a uma prestação em dinheiro, a própria tutela desaparece; a mulher era incapaz de assegurar o serviço militar,mas ela pode, tanto quanto o homem, desobrigar-se de uma responsabilidade monetária. O feudo não passa, então, de simples patrimônio e não há maisrazão para que os dois sexos não sejam tratados em pé de igualdade. Na realidade, as mulheres permanecem na Alemanha, na Suíça, na Itália,submetidas a uma tutela perpétua, mas na França admite-se, segundo a expressão de Beaumanoir, que “uma mulher vale um homem”. A tradiçãogermânica dava um campeão como tutor à mulher; quando ela não precisa mais de um campeão dispensa o tutor; como sexo, ela não é mais tachada deincapaz. Celibatária ou viúva, tem todos os direitos do homem; a propriedade confere-lhe a soberania; possuindo um feudo, ela o governa, o que querdizer, distribui a justiça, assina tratados, dita leis. Vemo-la até desempenhar um papel militar, comandar exércitos, participar dos combates. Antes deJoana d’Arc existiram mulheres soldados, e se a Donzela espanta, não escandaliza.Entretanto, tantos elementos conjugam-se contra a independência da mulher que nunca se encontram abolidos ao mesmo tempo: a força física não maisimporta, mas a subordinação feminina permanece útil à sociedade no caso de ser casada. Por isso, o poder marital sobrevive ao desaparecimento doregime feudal. Vê-se afirmar-se o paradoxo que se perpetua até hoje: a mulher mais plenamente integrada na sociedade é a que possui menor número


de privilégios; na feudalidade civil, o casamento conserva o mesmo aspecto que tinha na feudalidade militar; o esposo permanece tutor da esposa.Quando a burguesia se constitui, ela observa as mesmas leis. No direito consuetudinário, como no direito feudal, só há emancipação fora do casamento;a filha e a viúva têm as mesmas capacidades que o homem, mas, ao se casar, a mulher cai sob a tutela e a main-bournie49 do marido; ele pode bater-lhe,fiscalizar-lhe a conduta, as relações, a correspondência; dispõe de sua fortuna, não em virtude de um contrato, mas pelo próprio fato do casamento.“Logo que se realiza o casamento, diz Beaumanoir, os bens de um e de outro são comuns em virtude do casamento e desde então ela está sob tutela.” Éque o interesse do patrimônio exige tanto dos nobres como dos burgueses que um só senhor o administre. Não é porque a julguem fundamentalmenteincapaz que subordinam a esposa ao esposo; quando nada se opõe, reconhecem à mulher a plenitude de suas capacidades. Desde o feudalismo até osnossos dias, a mulher casada é deliberadamente sacrificada à propriedade privada. É importante observar que essa servidão é tanto mais rigorosaquanto mais consideráveis são os bens detidos pelo marido. É nas classes dos possuidores da riqueza que a dependência da mulher é sempre maisconcreta. Ainda hoje é entre os ricos proprietários fundiários que subsiste a família patriarcal; quanto mais poderoso se sente o homem, social eecononicamente, mas se vale da autoridade do pater familias. Ao contrário, uma miséria comum faz do laço conjugal um laço recíproco. Não foram nemo feudalismo nem a Igreja que emanciparam a mulher. É antes a partir da condição de servo que se processa a passagem da família patriarcal à famíliaautenticamente conjugal. O servo e sua esposa não possuíam nada, tinham somente o gozo comum da casa, dos móveis, dos utensílios: o homem nãotinha nenhuma razão para procurar tornar-se senhor da mulher que nada possuía; pelo contrário, os laços de trabalho e de interesses que os uniamelevavam a esposa ao nível de companheira. A pobreza continua quando a servidão é abolida; é nas pequenas comunidades rurais e entre os artíficesque se veem os esposos viver em pé de igualdade. A mulher não é nem uma coisa nem uma serva: isso são luxos de ricos; o pobre sente a reciprocidadede um laço que o amarra à sua metade; no trabalho livre, a mulher conquista uma autonomia concreta porque encontra seu papel econômico e social.As farsas e os fabulários da Idade Média espelham uma sociedade de artesãos, de pequenos comerciantes, de camponeses, em que o marido só tem,sobre a mulher, o privilégio de espancá-la; mas ela opõe a esperteza à força e os esposos defrontam-se em pé de igualdade. Ao passo que a mulher ricapaga sua ociosidade com a submissão.Na Idade Média a mulher conservava ainda alguns privilégios: nas aldeias ela tomava parte nas assembleias dos habitantes, participava das reuniõesprimárias para a eleição dos deputados aos Estados Gerais e o marido só podia dispor a seu belprazer dos móveis: para alienar os bens imóveis, eranecessário o consentimento da mulher. É no século XVI que se codificam as leis que se perpetuam durante todo o Antigo Regime; nessa época oscostumes feudais já desapareceram totalmente e nada protege a mulher contra as pretensões dos homens que a querem prender ao lar doméstico. Ainfluência do direito romano, tão desprezível para a mulher, faz-se sentir então. Como no tempo dos romanos, as violentas diatribes contra a estupidez ea fragilidade do sexo não se encontram na origem do código, mas surgem como justificações; só muito depois é que os homens descobrem razões paraagir como se lhes afigura cômodo fazê-lo. “Entre as más condições que têm as mulheres”, lê-se no Songe Du Verger, “acho, em direito, que elas têmnove más condições. Primeiramente, uma mulher por sua própria natureza busca seu prejuízo... Segundamente, as mulheres são por naturezaavarentas... Terceiramente, suas vontades são caprichosas... Quartamente, elas são naturalmente más... Quintamente, são hipócritas... Emconsequência, as mulheres são reputadas falsas e portanto, segundo o direito civil, uma mulher não pode ser aceita como testemunha em testamento...Em consequência, uma mulher faz sempre o contrário do que lhe mandam fazer... Consequentemente, são matreiras e maliciosas. Monsenhor santoAgostinho dizia que ‘a mulher é um animal que não é seguro nem estável’; é odienta para tormento do marido, é cheia de maldade e é o princípio detodas as demandas e disputas, via e caminho de todas as iniquidades”. Textos análogos multiplicam-se nessa época. O interesse deste consiste em quecada acusação destina-se a justificar uma das disposições que o código estabelece contra as mulheres e a situa-ção inferior em que são mantidas.Naturalmente, todo “ofício viril” lhes é proibido; restabelece-se o senatus-consulto veleiano que as priva de toda capacidade civil; o direito deprimogenitura e o privilégio de masculinidade colocam-na em segundo lugar para receber a herança paterna. Celibatária, ela permanece sob a tutelado pai; se não se casa, ele encerra-a, em geral, num convento. Se tem filho sem ser casada, autoriza-se a investigação da paternidade, mas esta não dádireito senão às despesas de parto e alimentos para a criança; casada, submete-se à autoridade do marido: ele fixa o domicílio, dirige a vida do casal,repudia a mulher em caso de adultério, encerra-a em um convento ou posteriormente obtém uma ordem de prisão para enviá-la à Bastilha; nenhum atoé válido sem sua habilitação; todas as contribuições da mulher à comunidade são assimiladas a um dote no sentido romano da palavra; mas, sendo ocasamento indissolúvel, é necessária a morte do marido para que a disposição dos bens caiba à esposa. Daí o ditado: Uxor non est proprie sócia sedsperatur fore. Pelo fato de não administrar seu capital, ainda que conserve direitos sobre o mesmo, não tem a responsabilidade dele; esse capital nãooferece nenhum conteúdo à sua ação: ela não tem nenhuma influência concreta sobre o mundo. Até seus filhos são considerados, como no tempo dasEumênides, como pertencentes ao pai mais do que a ela; ela os “dá” ao esposo cuja autoridade é muito superior à dela e que é o verdadeiro senhor daposteridade. É mesmo um argumento de que se utilizará Napoleão, declarando que, assim como uma pereira pertence ao proprietário das peras, amulher é propriedade do homem a quem fornece os filhos. Esse é o estatuto da mulher francesa durante todo o Antigo Regime. Pouco a pouco, oveleiano será abolido pela jurisprudência, mas é preciso esperar o Código Napoleão para que desapareça definitivamente. É o marido que é responsávelpelas dívidas da esposa e por sua conduta e ela só a ele tem de prestar contas. Ela não tem quase nenhuma relação direta com os poderes públicos,nem relações autônomas com indivíduos estranhos à família. Muito mais do que associada, ela se apresenta como serva no trabalho e na maternidade:os objetos, os valores, os seres que cria não lhe pertencem, e sim à família, logo ao homem que é o chefe. Nos outros países, a situação não é muitomais liberal, ao contrário; alguns conservam a tutela; em todos, as capacidades da mulher casada são nulas e os costumes, severos. Todos os códigoseuropeus foram redigidos de acordo com o direito canônico, o direito romano e o direito germânico, todos desfavoráveis à mulher; todos os paísesconhecem a propriedade privada e a família e submetem-se às exigências dessas instituições.Em todos esses países, uma das consequências da escravização da “mulher honesta” à família é a existência da prostituição. Relegadas hipocritamenteà margem da sociedade, as prostitutas desempenham papel dos mais importantes. O cristianismo despreza-as, mas as aceita como um mal necessário.“Suprimi as prostitutas”, diz santo Agostinho, “e perturbareis a sociedade com a libertinagem”. E posteriormente são Tomás — ou o teólogo que assinoucom esse nome o livro IV do De regimine principium — declara: “Eliminai as mulheres públicas do seio da sociedade, e a devassidão a perturbará comdesordens de toda espécie. São as prostitutas, numa cidade, a mesma coisa que uma cloaca num palácio; suprimi a cloaca e o palácio se tornará umlugar sujo e infecto.” Na alta Idade Média reinava tão grande licença nos costumes que quase não havia necessidade de mulheres da vida; mas quandoa família burguesa se organizou e a monogamia tornou-se rigorosa, teve o homem de ir buscar seu prazer fora do lar.Em vão, uma capitular de Carlos Magno o proíbe com absoluto rigor; é em vão que são Luís ordena em 1254 a expulsão das prostitutas e em 1269 adestruição dos locais de prostituição: em Damiette, diz-nos Joinville, as tendas das prostitutas eram contíguas à tenda do rei. Mais tarde, os esforços deCarlos IX na França, e de Maria Teresa na Áustria no século XVIII, malograram igualmente. A organização da sociedade tornava a prostituiçãonecessária. “As prostitutas”, dirá pomposamente Schopenhauer, “são os sacrifícios humanos no altar da monogamia”. E um historiador da moraleuropeia, Lecky, formula a mesma ideia: “Tipo supremo do vício, são a guarda mais ativa da virtude.” Comparam-lhe justamente a situação com a dosjudeus a que foram muitas vezes assimiladas:50 a usura, o tráfico de dinheiro são proibidos pela Igreja exatamente como o ato sexual extraconjugal; masa sociedade não pode prescindir dos especuladores financeiros nem do amor livre; tais funções são pois atribuídas a castas malditas: juntam-nas emguetos ou em bairros fechados. Em Paris, as mulheres de petit gouvernement trabalhavam em lupanares a que chegavam pela manhã e deixavam ànoite após o toque de recolher; r esidiam em certas ruas de que não tinham o direito de se afastar. Na maioria das outras cidades, as casas detolerância situavam-se fora dos muros. Como aos judeus, obrigavam-nas a usar vestimentas e insígnias distintivas. Na França, a mais geralmenteempregada era uma agulheta de determinada cor suspensa a um dos ombros; comumente a seda, as peles, os adornos das mulheres honestas eram-lhesvedados. Elas eram legalmente tachadas de infames, não tinham nenhum recurso contra a polícia e a magistratura, bastava uma reclamação de algumvizinho para que as expulsassem de suas casas. Para a maioria delas, a vida era difícil e miserável. Algumas viviam encerradas em casas públicas. Umviajante francês, Antoine de Lalaing, deu-nos um quadro de uma dessas casas na Espanha, em Valência, no fim do século XV. O local, diz ele, “é grandecomo uma pequena cidade e cercado de muros, com uma só porta. E diante da porta ergue-se uma forca para os malfeitores que poderiam encontrar-sedentro; à porta, um homem, para isso ordenado, retém os bastões dos que querem entrar e diz-lhes que, se quiserem entregar-lhe o dinheiro quetiverem, ele o devolverá à saída honestamente e sem perigo; e se porventura o têm e não o dão, sendo roubados à noite, não é o porteiro responsável.Nesse lugar há três ou quatro ruas cheias de casinhas, cada qual com mulheres bem alegres vestidas de veludos e cetins. E há de duzentas a trezentasmulheres; têm suas casas mantidas e decoradas com bons panos. A tarifa oficial é de quatro dinheiros da moeda delas que valem um dos nossos Gross...Há ali tavernas e cabarés. Por causa do calor, melhor se pode vê-las à noite ou à tarde, porque se acham então sentadas às suas janelas, uma belalâmpada suspensa ao lado para que bem as vejam e à vontade. Dois médicos contratados pela cidade cada semana as visitam a fim de verificar se têmalguma doença, decente ou secreta, e retirá-las do local. Se alguma das doentes é da cidade, determinam os senhores desta que à sua custa sejamamparadas e às estrangeiras que sejam enviadas para onde elas quiserem”.51 O autor espanta-se, de resto, com um policiamento tão perfeito. Muitasprostitutas eram livres. Algumas ganhavam muito bem a vida. Como no tempo das hetairas, a alta galanteria oferecia maiores possibilidades aoindividualismo feminino do que a vida da “mulher honesta”.Condição singular é na França a da celibatária; a independência legal de que goza opõe-se de maneira chocante à servidão da esposa; é ela umpersonagem insólito; por isso mesmo, os costumes se apressam em retirar-lhe tudo o que lhe concedem as leis. Ela tem todas as capacidades civis, mastrata-se de direitos abstratos e vazios; ela não possui nem autonomia econômica nem dignidade social. Geralmente, a solteirona permanece à sombrada família paterna ou vai encontrar-se com suas semelhantes no fundo dos conventos: aí quase não conhece outra forma de liberdade que não sejam adesobediência e o pecado. Da mesma forma, as romanas da decadência só se libertavam pelo vício. A negatividade continua sendo o destino dasmulheres enquanto sua libertação permanece negativa.Em tais condições, vê-se como é raro que uma mulher tenha tido possibilidades de agir ou simplesmente de se manifestar: nas classes trabalhadoras, aopressão econômica anula a desigualdade dos sexos, mas aniquila todas as possibilidades do indivíduo. Entre os nobres e os burgueses a mulher écontrolada como sexo, tem apenas uma existência parasitária; é pouco instruída; são necessárias circunstâncias excepcionais para que possa concebere realizar algum projeto concreto. As rainhas e as regentes têm essa rara honra: sua soberania exalta-as acima de seu sexo. A lei sálica em Françaproíbe-lhes a sucessão ao trono, mas ao lado do esposo, quando da morte deste, desempenham, por vezes, um grande papel. Assim ocorre com santaClotilde, santa Radegunda, Branca de Castela. A vida conventual torna a mulher independente do homem: certas abadessas detêm grandes poderes.Heloísa celebrizou-se tanto como abadessa como grande amorosa. Na relação mística, e portanto autônoma, que as prende a Deus, as almas femininas


haurem a inspiração e a força de uma alma viril; e o respeito de que gozam na sociedade permite-lhes realizar difíceis empreendimentos. A aventura deJoana d’Arc participa do milagre: e não passou de uma rápida façanha. Mas a história de santa Catarina de Siena é significativa; é no seio de umaexistência inteiramente normal que ela criou em Siena grande reputação por sua caridade ativa e pelas visões que manifestam sua intensa vida interior.Ela adquire assim essa autoridade necessária ao êxito, que falta geralmente às mulheres; apela-se para sua influência a fim de exortar os condenados àmorte, trazer de volta ao bom caminho os transviados, apaziguar as querelas entre famílias e cidades. Ela é apoiada pela coletividade que nela sereconhece e é assim que pode cumprir sua missão pacificadora, pregando de cidade em cidade a submissão ao papa, mantendo vasta correspondênciacom bispos e soberanos, e sendo finalmente escolhida por Florença como embaixatriz para ir buscar o papa em Avignon. As rainhas por direito divino,as santas por suas evidentes virtudes, asseguram-se um apoio na sociedade que lhes permite igualar-se aos homens. Das outras, ao contrário, exige-seuma silenciosa modéstia. O êxito de Christine de Pisan é surpreendente: ainda assim foi preciso que fosse viúva e cheia de filhos para que se decidissea ganhar a vida com a pena.No conjunto, a opinião dos homens da Idade Média é, com efeito, pouco favorável à mulher. Sem dúvida, os poetas corteses exaltaram o amor; surgemnumerosas Arts d’amour, entre as quais um poema de André de Chapelain e o célebre Roman de La Rose, em que Guillaume de Lorris incita os jovens ase devotarem às damas. Mas a essa literatura, influenciada pela dos trovadores, opõem-se as obras de inspiração burguesa que atacam as mulherescom maldade: fabulários, farsas, laís censuram-lhes a preguiça, o coquetismo, a luxúria. Seus maiores inimigos são os clérigos. É ao casamento queatacam. A Igreja fez dele um sacramento e, no entanto, proibiu-o à elite cristã: há nisso uma contradição que é o ponto de partida da “Querela dasmulheres”. Ela é denunciada com especial rigor nas Lamentações de Matheolus, publicadas quinze anos depois da primeira parte do Roman de la Rose,traduzidas em francês cem anos depois e que foram célebres no tempo. Mathieu perdeu sua “clerezia” em se casando, amaldiçoa o seu casamento, asmulheres e o casamento em geral. Por que Deus criou a mulher, se há incompatibilidade entre o casamento e a clerezia? Não pode haver paz nocasamento: ele é, portanto, obra do diabo, ou Deus não sabia o que fazia. Mathieu espera que a mulher não ressuscitará no dia do julgamento. MasDeus responde-lhe que o casamento é um purgatório graças ao qual se alcança o céu; e, transportado em sonho para o céu, Mathieu vê uma legião demaridos que o acolhem aos gritos de “Ei-lo, eis o verdadeiro mártir!” Encontra-se em Jean de Meung, que também é clérigo, inspiração análoga; eleincita os jovens a escapar ao jugo das mulheres. Primeiramente ataca o amor: O amor é terra odiosaO amor é ódio amoroso.52 Ataca o casamento que reduz o homem à escravidão, que o destina a ser enganado; e dirige violenta diatribe contra a mulher. Os defensores da mulheresforçam-se, em resposta, por demonstrar sua superioridade. Eis alguns dos argumentos em que se apoiarão, até o século XVII, os apologistas do sexofrágil: “Mulier perfetur viro scilicet Materia: Quia Adam factus est de limo terrae, Eva de costa Adae. Loco: Quia Adam factus est extra paradisum, Eva inparadiso. In conceptione: Quia mulier concepit Deum, quid homo nom potuit. Apparicione: Quia Christus apparuit mulieri post mortemressurrectionem, scilicet Magdalene. Exaltatione: Quia mulier exaltata est super chorus angelorum, scilicet beata Maria...”.53Ao que replicam os adversários que se Cristo apareceu primeiramente às mulheres é porque as sabia bisbilhoteiras e tinha pressa em tornar conhecidasua ressurreição.A querela prossegue durante o século XV. O autor de Quinze joyes du mariage descreve com complacência os infortúnios dos pobres maridos. EustacheDeschamps escreve sobre o mesmo tema um interminável poema. É nessa época que se inicia a Querelle du roman de la Rose. Pela p rimeira vez, vê-seuma mulher pegar da pena para defender o seu sexo; Christine de Pisan ataca vivamente os clérigos em L’Épitre au Dieu d’amour. Alguns clérigos,imediatamente, se levantam para defender Jean de Meung; mas Gerson, guarda-selos da universidade de Paris, apoia Christine; redige, em francês, seutratado a fim de alcançar um público mais amplo. Martin le Franc joga no campo de batalha seu indigesto Chaperon des dames, que ainda é lidoduzentos anos depois. E Christine intervém de novo. Reclama principalmente que se permita às mulheres instruírem-se: “Se fosse costume pôr asmeninas nas escolas e normalmente se lhes ensinassem as ciências como o fazem com os meninos, elas aprenderiam tão perfeitamente e entenderiamas sutilezas de todas as artes e ciências como eles entendem.”Essa disputa só concerne, em verdade, indiretamente às mulheres. Ninguém pensa em reclamar para elas um papel social diferente do que lhes éconcedido. Trata-se, antes, de confrontar a vida do clérigo com a instituição do casamento, isto é, de um problema masculino suscitado pela atitudeambígua da Igreja em relação ao casamento. A esse conflito é que Lutero dará solução recusando o celibato dos padres. A condição da mulher não éinfluenciada por essa guerra literária. A sátira das farsas e fabulários, conquanto escarneça da sociedade tal qual se constitui, não pretende mudá-la:zomba das mulheres mas nada trama contra elas. A poesia cortês exalta a feminilidade; mas esse culto não implica, ao contrário, a assimilação dossexos. A “querela” é um fenômeno secundário em que se reflete a atitude da sociedade, mas não a modifica. * * * Foi dito que o estatuto da mulher permanecerá mais ou menos idêntico do princípio do século XV ao século XIX; mas nas classes privilegiadas suacondição concreta evolui. O Renascimento italiano é uma época de individualismo que se mostra propício ao desabrochar de todas as fortespersonalidades sem distinção de sexo. Encontram-se, então, mulheres que são soberanas poderosas como Joana de Aragão, Joana de Nápoles, Isabeld’Este; outras foram condottiere aventureiras que pegaram em armas contra os homens. Assim é que a mulher de Girolamo Riario luta pela liberdadede Forli; Hipólita Fioramenti comanda as tropas do Duque de Milão e durante o sítio de Pavia conduz às fortificações uma companhia de grandesdamas. Para defender sua cidade contra Montluc, as sienesas constituíram três exércitos de mil mulheres cada um, comandados por mulheres. Outrasitalianas se tornaram célebres pela sua cultura e seus talentos: Isora Nogara, Verônica Gambara, Gaspara Stampara, Vitória Colona que foi amiga deMiguel Ângelo e, particularmente, Lucrecia Tornabuoni, mãe de Lourenço e Júlio de Médicis, que escreveu, entre outras coisas, hinos, uma vida de sãoJoão Batista e da Virgem. Entre essas mulheres distintas, a maioria é constituída de cortesãs; aliando às liberdades dos costumes as do espírito,assegurando-se, pelo exercício da profissão, uma autonomia econômica, muitas delas eram tratadas pelos homens com deferente admiração; elasprotegiam as artes, interessavam-se pela literatura, pela filosofia e não raro escreviam ou pintavam: Isabel de Luna, Catarina di San Celso, Impéria,que era poeta e musicista, reatam a tradição de Aspásia e de Frineia. Entretanto, para muitas, a liberdade só assume ainda a configuração de licença;as orgias e os crimes das grandes damas e das cortesãs italianas ficaram lendários.Essa licença é também a principal liberdade que se encontra nos séculos seguintes, entre as mulheres que, pelo seu lugar na sociedade ou sua fortuna,se libertam da moral comum; esta, em conjunto, permanece tão rigorosa como na Idade Média. Quanto às realizações positivas, elas ainda são somentepossíveis a um pequeno número. As rainhas são sempre privilegiadas: Catarina de Médicis, Isabel da Inglaterra, Isabel, a Católica, são grandessoberanas. Algumas grandes figuras de santas são também veneradas. O espantoso destino de santa Teresa d’Ávila explica-se, mais ou menos, damesma maneira que o de santa Catarina: ela haure em sua confiança em Deus uma sólida confiança em si mesma; elevando ao mais alto grau asvirtudes que convêm à sua situação, ela assegura o apoio de seus confessores e do mundo cristão; pode emergir além da condição comum de umareligiosa; funda mosteiros, administra-os, viaja, empreende, persevera com a coragem aventurosa de um homem; a sociedade não lhe opõe obstáculos;mesmo escrever não é uma audácia: seus confessores lho comandam. Ela demonstra, com brilho, que uma mulher pode elevar-se tão alto como umhomem quando por um espantoso acaso as possibilidades de um homem lhe são dadas.Mas, na realidade, essas possibilidades permanecem muito desiguais; no século XVI as mulheres são ainda pouco instruídas. Ana de Bretanha atraimuitas mulheres para a corte onde antes só se viam homens; esforça-se por formar um cortejo de damas de honra; preocupa-se, porém, mais com aeducação delas do que com sua cultura. Entre as mulheres que um pouco mais tarde se distinguirão pelo espírito, pela sua influência intelectual e porseus escritos, a maioria é constituída de grandes damas: a duquesa de Retz, Mme de Lignerolle, a duquesa de Rohan e sua filha Anne; as mais célebressão princesas: a rainha Margot e Margarida de Navarra. Pernette de Guillet parece ter sido uma burguesa; mas Louise Labbé foi provavelmente umacortesã: gozava, em todo caso, de grande liberdade de costumes.É essencialmente no terreno intelectual que as mulheres continuam a distinguir-se no século XVII; a vida mundana desenvolve-se e a cultura expande-se; o papel desempenhado pelas mulheres nos salões é considerável; não estando empenhadas na construção do mundo, têm lazeres para se dedicar àconversação, às artes, às letras; sua instrução não é organizada, mas através de reuniões, de leituras, do ensino de professores particulares, chegam aadquirir conhecimentos superiores aos de seus maridos: Mlle de Gournay, Mme de Rambouillet, Mlle de Scudéry, Mme de la Fayette, Mme de Sévignégozam, na França, de grande reputação; e, fora de França, igual renome liga-se aos nomes da princesa Elizabeth, da rainha Cristina, de Mlle de


Schurman que trocava correspondência com todo o mundo culto. Graças a essa cultura e ao prestígio que lhes confere, as mulheres conseguemimiscuir-se no universo masculino; da literatura, da casuística amorosa muitas ambiciosas passam às intrigas políticas. Em 1623, o núncio do papaescrevia: “Na França, todos os grandes acontecimentos, todas as intrigas importantes dependem, o mais das vezes, das mulheres.” A princesa de Condefomenta a “conspiração das mulheres”; Ana da Áustria é cercada de mulheres cujos conselhos segue de bom grado; Richelieu ouve com boa vontade aduquesa d’Aiguillon; sabe-se do papel que desempenharam, durante a Fronda, Mme de Montbazon, a duquesa de Chevreuse, Mme de Montpensier, aduquesa de Longueville, Anne de Gonzague e outras. Enfim, Mme de Maintenon deu um brilhante exemplo da influência que uma hábil conselheirapode exercer nos negócios de Estado. Animadoras, conselheiras, intrigantes, é de maneira oblíqua que avocam a si o papel mais eficiente: a princesa deUrsins governa na Espanha com grande autoridade, mas sua carreira é curta. Ao lado dessas grandes damas, algumas personalidades afirmam-se nomundo que escapa às imposições burguesas; vê-se surgir uma espécie desconhecida: a atriz. É em 1545 que se assinala, pela primeira vez, a presençade uma mulher no palco; em 1592 só se conhecia uma única ainda; no início do século XVII elas são, em sua maioria, mulheres de atores; mais tarde,conquistam sua independência, tanto em sua carreira como em sua vida privada. Quanto à cortesã, depois de ter sido Frineia, Impéria, encontra suamais perfeita encarnação em Ninon de Lenclos; explorando sua feminilidade, ela a supera; vivendo entre os homens, adquire qualidades viris; aindependência dos costumes inclina-a à independência do espírito; Ninon de Lenclos levou a liberdade ao ponto mais extremo que poderia ser entãopermitido a uma mulher.No século XVIII, a liberdade e a independência da mulher aumentam ainda. Os costumes em princípio permanecem severos: a jovem recebe apenasuma educação sumária; é casada ou encerrada num convento sem que a consultem. A burguesia, classe em ascensão e cuja existência se consolida,impõe à esposa uma moral rigorosa. Em compensação, a decomposição da nobreza outorga às mulheres as maiores licenças e a alta burguesia, por suavez, é contaminada por tais exemplos; nem os conventos nem o lar conjugal conseguem conter a mulher. Digamos mais uma vez que para a maioriadelas essa liberdade permanece negativa e abstrata: elas se restringem a procurar o prazer. Mas as que são ambiciosas e inteligentes criampossibilidades de ação para si mesmas. A vida dos salões toma novo impulso. Conhece-se bastante o papel desempenhado por Mme Geoffrin, Mme duDeffand, Mlle de Lespinasse, Mme d’Épinay, Mme de Tencin; protetoras, inspiradoras, as mulheres constituem o público predileto do escritor.Interessam-se pessoalmente pela literatura, pela filosofia, pelas ciências. Tal como Mme du Châtelet, elas têm seus laboratórios de física e de química,fazem experiências, dissecam; intervêm mais ativamente do que nunca na vida política: Luís XV é governado sucessivamente por Mme de Prie, Mme deMailly, Mme de Châteauneuf, Mme de Pompadour, Mme du Barry. Não há, por assim dizer, ministro que não tenha sua egéria, a ponto de Montesquieuconsiderar que na França tudo se faz pelas mulheres; elas constituem, diz ele, “um novo Estado dentro do Estado”; e Collé escreve às vésperas de1789: “Conseguiram tal ascendência sobre os franceses, de tal modo os subjugaram que eles só pensam e sentem de acordo com elas.” Ao lado dasmulheres da sociedade, há também as atrizes e as mulheres galantes que gozam de grande renome: Sophie Arnould, Julie Talma, Adrienne Lecouvreur.Assim, através de todo o Antigo Regime, o campo cultural é o mais acessível às mulheres que tentam afirmar-se. Nenhuma, entretanto, atingiu asalturas de um Dante, de um Shakespeare, o que se explica pela mediocridade geral de sua condição. A cultura sempre foi o apanágio de uma elitefeminina, não da massa; e da massa foi que saíram muitas vezes os gênios masculinos. As próprias privilegiadas encontravam em derredor obstáculosque lhes barravam o acesso aos altos picos. Nada detinha o arroubo de uma santa Teresa, de uma Catarina da Rússia, mas mil circunstâncias ligavam-se contra a mulher escritora. No seu livrinho A room of one’s own, Virgínia Woolf divertiu-se com inventar o destino de uma suposta irmã deShakespeare; enquanto ele aprendia no colégio um pouco de latim, de gramática, de lógica, ela teria permanecido no lar numa completa ignorância;enquanto ele caçava, corria os campos, dormia com as mulheres da vizinhança, ela teria remendado trapos sob o olhar dos pais; se ela tivesse partidocomo ele, ousadamente, à procura de melhor sorte em Londres, não conseguiria se tornar uma atriz ganhando livremente a vida: ou teria sido levada devolta à família que a casaria à força, ou seduzida, abandonada, desonrada, ter-se-ia matado de desespero. Pode-se também imaginá-la transformando-senuma alegre prostituta, uma Moll Flanders como a pintou Daniel Defoe: de jeito algum teria dirigido um elenco e escrito dramas. Na Inglaterra,observa V. Woolf, as mulheres escritoras sempre suscitaram hostilidade. O dr. Johnson comparava-as “a um cão andando sobre as patas traseiras; nãoestá certo mas é espantoso”. Os artistas preocupam-se mais do que os outros com a opinião de outrem; desta dependem as mulheres estreitamente:concebe-se que força é necessária a uma mulher artista, tão somente para não dar importância a essa opinião; muitas vezes, ela esgota-se na luta. Nofim do século XVII, Lady Winhilsea, nobre e sem filhos, tenta a aventura de escrever; certos trechos de sua obra mostram que tinha uma naturezasensível e poética; mas consumiu-se no ódio, na cólera e no medo: Ai de mim! Uma mulher que se vale da penaÉ considerada uma criatura tão presunçosaQue não tem nenhum meio de se redimir de seu crime!54 Quase toda a sua obra é consagrada a indignar-se contra a condição das mulheres. O caso da duquesa de Newcastle é análogo; grande dama, elatambém suscita escândalo porque escreve. “As mulheres vivem como baratas ou corujas, morrem como vermes”, diz colérica. Insultada, ridicularizada,teve que se encerrar em sua propriedade; e apesar de um temperamento generoso, semilouca, desde então só produziu extravagantes elucubrações. Ésomente no século XVIII que uma burguesa, Mrs. Aphra Behn, tendo ficado viúva, passa a viver da pena como um homem; outras lhe seguiram oexemplo; mas mesmo no século XIX elas eram obrigadas a se esconder; não tinham sequer “um quarto próprio”, isto é, não gozavam dessaindependência material que é uma das condições necessárias à liberdade interior.Viu-se que, em virtude do desenvolvimento da vida mundana e de sua estreita ligação com a vida intelectual, a situação das francesas foi um poucomais favorável. Entretanto, a opinião é em grande parte hostil às bas-bleus. Durante o Renascimento, as damas nobres e as mulheres de espíritosuscitam um movimento em favor de seu sexo; as doutrinas platônicas importadas da Itália espiritualizam o amor e a mulher. Bom número de letradosempenha-se em defendê-las. Aparecem La Nef des dames vertueuses, Le Chevalier des dames etc. Erasmo, em o Pequeno Senado, dá a palavra aCornélia, que expõe com cerimônia as queixas de seu sexo. “Os homens são tiranos... Tratam-nos como brinquedos... fazem de nós suas lavadeiras ecozinheiras.” Exige que se permita às mulheres instruírem-se. Cornélio Agripa, em uma obra que foi muito célebre, Declamação da nobreza e daexcelência do sexo feminino, esforça-se por mostrar a superioridade feminina. Retorna aos velhos argumentos cabalísticos. Eva quer dizer Vida; e Adão,Terra. Criada depois do homem, a mulher é mais acabada. Ela nasceu no paraíso, ele fora. Quando ela cai na água flutua, o homem afunda. É feita comuma costela de Adão, e não de terra. Seus mênstruos curam todas as doenças. Eva, ignorante, apenas errou. Adão foi quem pecou; por isso, Deus fez-sehomem; e, depois da ressurreição, foi a mulheres que apareceu. Agripa declara, em seguida, que as mulheres são mais virtuosas do que os homens.Enumera as “límpidas mulheres” de que o sexo pode orgulhar-se, o que constitui também um lugar-comum dessas apologias. Finalmente, faz umrequisitório contra a tirania masculina: “Agindo contra quaisquer direitos, violentando impunemente a igualdade natural, a tirania do homem privou amulher da liberdade que recebeu ao nascer.” No entanto, ela engendra os filhos, é tão inteligente quanto o homem e até mais sutil; é escandaloso quelhe restrinjam as atividades, “o que se faz, provavelmente, não por ordem de Deus, não por necessidade nem razão, mas pela força do costume, pelaeducação, pelo trabalho e, principalmente, pela violência e a opressão”. Não reclama, por certo, a igualdade dos sexos, mas quer que se trate a mulhercom respeito. A obra alcançou imenso êxito, como Le Fort inexpugnable, outra apologia da mulher, bem como La Parfaite amye, de Héroët, impregnadode misticismo platônico. Em um curioso livro que anuncia a doutrina de Saint-Simon, Postel proclama a vinda de uma nova Eva, mãe regeneradora daespécie humana; acredita mesmo tê-la encontrado; morreu, talvez se tenha reencarnado nele. Com mais moderação Margarida de Valois, em seu Docteet subtil discours, proclama que há na mulher algo divino. Mas a escritora que melhor serviu a causa de seu sexo foi Margarida de Navarra, propondo,contra a licença de costumes, um ideal de misticismo sentimental e de castidade sem pudicícia, tentando conciliar o casamento ao amor, para honra efelicidade das mulheres. Bem entendido, os adversários das mulheres não se entregam. Entre outros, encontram-se em La controverse des sexesmasculins et féminins, que responde a Agripa, os velhos argumentos da Idade Média. Rabelais diverte-se no Tiers livre em satirizar o casamento,reatando a tradição de Mathieu e Deschamps. Entretanto, são as mulheres que na feliz abadia de Thélème fazem a lei. O antifeminismo assume novafeição violenta em 1617 com L’alphabet de l’imperfection et malice des femmes, de Jacques Olivier; via-se, na capa, uma gravura representando umamulher com mãos de harpia, coberta com as plumas da luxúria, montada sobre patas de galinha, porque é, como a galinha, má dona de casa: sob cadauma das letras do alfabeto inscrevia-se um de seus defeitos. Era, mais uma vez, um eclesiástico que reavivava a velha querela; Mlle de Gournayretorquiu com L’égalité des hommes et des femmes. Nessas alturas, toda uma literatura libertina, Parnasses et cabinets satyriques, ataca os costumesdas mulheres, enquanto, para os desmoralizar, os devotos citam são Paulo, os padres da Igreja, o Eclesiastes. A mulher fornecia também um temainesgotável às sátiras de Mathurin Régnier e seus amigos. No outro campo, os apologistas retomam os argumentos de Agripa e os comentam, cada qualmais enfaticamente do que os outros. O padre du Boscq em L’Honnête femme exige que seja permitida a instrução às mulheres. L’Astrée e toda umaliteratura galante celebram os méritos femininos em rondós, sonetos, elegias etc.Os próprios êxitos alcançados pelas mulheres provocam novos ataques; as Preciosas irritaram a opinião; aplaudem-se as Précieuses ridicules e umpouco mais tarde as Femmes savantes. Não é que Molière seja inimigo das mulheres: ataca vivamente os casamentos impostos, reivindica para asjovens o direito à liberdade sentimental e para a esposa o respeito e a independência. Bossuet, ao contrário, não as poupa em seus sermões. A primeiramulher, prega ele, “não passava de uma parcela de Adão e de uma espécie de diminutivo. Proporcionalmente, o mesmo ocorria com o espírito dela”. Asátira de Boileau contra as mulheres é apenas um exercício de retórica, mas suscita uma série de defesas: Pradon, Regnard, Perrault respondem comexaltação. La Bruyère e Saint-Évremond mostram-se favoráveis às mulheres. O feminista mais decidido da época é Poulain de la Barre, que publica em1673 uma obra de inspiração cartesiana, De l’égalité des deux sexes. Considera que os homens, sendo os mais fortes, por toda parte favorecem opróprio sexo e que as mulheres aceitam por hábito essa dependência. Nunca tiveram suas possibilidades, nem liberdade nem instrução. Não se poderia,pois, julgá-las pelo que fizeram no passado. Nada indica que sejam inferiores ao homem. A anatomia revela diferenças, mas nenhuma constitui um


privilégio para o homem. E Poulain de la Barre conclui reclamando uma sólida instrução para as mulheres. Fontenelle escreve para elas o Traité de lapluralité des mondes. E se Fénelon, acompanhando Mme de Maintenon e o abade Fleury, mostra-se em seu programa de educação muito tímido, ouniversitário jansenista Rollin deseja, ao contrário, que as mulheres realizem estudos sérios.O século XVIII também se acha dividido. Em 1774, em Amsterdã, o autor da Controverse sur l’âme de la femme declara que “a mulher criadaunicamente para o homem deixará de existir no fim do mundo, porque deixará de ser útil ao objeto para o qual foi criado, do que se concluinaturalmente que sua alma não é imortal”. De uma maneira um pouco menos radical, Rousseau, que aqui se faz o intérprete da burguesia, destina amulher ao marido e à maternidade. “Toda a educação da mulher deve ser relativa ao homem... A mulher é feita para ceder ao homem e suportar-lhe asinjustiças”, afirma. Entretanto, o ideal democrático e individualista do século XVIII é favorável às mulheres; elas apresentam-se à maioria dos filósofoscomo seres humanos iguais aos do sexo forte. Voltaire denuncia a injustiça de sua sorte. Diderot considera que sua inferioridade foi, em grande parte,causada pela sociedade. “Mulheres, eu vos lamento!”, escreve. Considera que “em todos os costumes a crueldade das leis civis aliou-se à crueldade danatureza contra a mulher. Foram tratadas como seres imbecis”. Montesquieu estima, paradoxalmente, que as mulheres deveriam ser subordinadas aohomem na vida do lar, mas que tudo as predispõe a uma ação política. “É antirracional e antinatural que as mulheres sejam donas de casa... não o é quegovernem um império.” Helvetius mostra que é o absurdo da educação que cria a inferioridade da mulher; d’Alembert é da mesma opinião. Na obra deuma mulher, Mme de Ciray, vê-se apontar timidamente um feminismo econômico, mas é só Mercier, em seu Tableau de Paris, que se indigna contra amiséria das operárias e aventa, assim, a questão fundamental do trabalho feminino. Condorcet pretende que as mulheres tenham acesso à vida política.Ele as considera iguais aos homens e as defende contra os clássicos ataques: “Foi dito que as mulheres... não tinham propriamente o sentimento dajustiça, que obedeciam antes a seus próprios sentimentos do que à sua consciência... (Mas) não se trata de sua natureza, e sim de sua educação; é aexistência social que causa essa diferença.” E em outro trecho: “Quanto mais foram as mulheres escravizadas pela lei mais perigoso foi seu império...Ele diminuiria se as mulheres tivessem menos interesse em conservá-lo, se ele deixasse de ser, para elas, o único meio de se defender e de escapar àopressão.” 5 Poderíamos imaginar que a Revolução transformasse o destino feminino. Não foi o que aconteceu. A revolução burguesa mostrou-se respeitosa dasinstituições e dos valores burgueses; foi feita quase exclusivamente pelos homens. É importante sublinhar que durante todo o Antigo Regime foram asmulheres das classes trabalhadoras que conheceram maior independência como sexo. A mulher tinha o direito de possuir uma casa de comércio e todasas capacidades necessárias a um exercício autônomo de seu ofício. Participava da produção como fabricante de roupa branca, lavadeira, brunidora,revendedora etc.; tra balhava em domicílio ou em pequenos negócios; sua independência material permitia-lhe grande liberdade de costumes: a mulherdo povo pode sair, frequentar tavernas, dispor do corpo quase como um homem; é associada ao marido e sua igual. É no plano econômico, e não noplano sexual, que a mulher sofre a opressão. Nos campos, a camponesa participa de modo considerável do trabalho rural; é tratada como servente;frequentemente não come à mesa com o marido e os filhos, pena mais duramente do que eles, e os encargos da maternidade acrescentam-se a suasfadigas. Mas, como nas antigas sociedades agrícolas, sendo necessária ao homem, é por ele respeitada; seus bens, interesses e preocupações sãocomuns. Exerce grande autoridade em casa. São essas mulheres que, com sua vida difícil, teriam podido afirmar-se como pessoas e reclamar certosdireitos; mas uma tradição de timidez e submissão pesava sobre elas; as atas dos Estados Gerais não apresentam senão um número quase insignificantede reivindicações femininas. Restringem-se a isto: “Que os homens não possam exercer ofícios que são apanágio das mulheres.” Sem dúvida, veem-semulheres ao lado de seus homens nas manifestações e arruaças. São elas que vão buscar em Versalhes “o padeiro, a padeira e o padeirinho”. Mas nãofoi o povo que dirigiu a revolução nem quem colheu os frutos. Quanto às burguesas, algumas aderiram com ardor à causa da liberdade: Mme Roland,Lucile Desmoulins, Théroigne de Méricourt; uma delas influiu profundamente no desenrolar dos acontecimentos: Charlotte Corday, ao assassinarMarat. Houve alguns movimentos feministas. Olympe de Gouges propôs em 1789 uma “Declaração dos Direitos da Mulher”, simétrica à dos “Direitosdo Homem”, na qual pedia que todos os privilégios masculinos fossem abolidos. Em 1790, encontram-se as mesmas ideias em Motion de la pauvreJacotte e outros libelos análogos; mas, apesar do apoio de Condorcet, tais esforços abortam e Olympe morre no patíbulo. Ao lado do jornal L’Impatient,que ela fundara, aparecem outros periódicos mas de duração efêmera. Os clubes femininos, em sua maioria, fundem-se com os masculinos e são porestes absorvidos. Quando, no 28 de brumário de 1793, a atriz Rose Lacombe, presidente da Sociedade das Mulheres Republicanas e Revolucionárias,força a entrada do Conselho Geral, acompanhada de uma deputação de mulheres, o procurador Chaumette faz retinir na Assembleia palavras queparecem inspiradas em são Paulo e são Tomás: “Desde quando se permite às mulheres abjurarem o sexo, fazerem-se homens?... [A natureza] disse àmulher: sê mulher. Os cuidados da infância, as coisas do lar, as diversas preocupações da maternidade, eis as tuas tarefas.” Vedam-lhes a entrada noConselho e, logo depois, até nos clubes em que faziam seu aprendizado político. Em 1790 suprime-se o direito de primogenitura e o privilégio demasculinidade; mulheres e homens tornam-se iguais em relação à sucessão; em 1792, uma lei estabelece o divórcio e com isso atenua o rigor dos laçosmatrimoniais; mas trata-se de pequenas conquistas. As mulheres da burguesia achavam-se demasiado integradas na família para descobrir umasolidariedade concreta entre elas; não constituíam uma casta separada, suscetível de impor reivindicações. Economicamente, sua existência eraparasitária. Assim, enquanto as mulheres que, apesar do sexo, teriam podido participar dos acontecimentos, se viam impedidas de fazê-lo como classe,as da classe atuante eram condenadas a permanecer afastadas, como mulheres. Só quando o poder econômico cair nas mãos dos trabalhadores é quese tornará possível à trabalhadora conquistar capacidades que a mulher parasita, nobre ou burguesa, nunca obteve.Durante a liquidação da Revolução a mulher goza de uma liberdade anárquica. Mas, quando a sociedade se reorganiza, volta a ser duramenteescravizada. Do ponto de vista feminista, a França estava à frente dos outros países mas, para infelicidade da francesa moderna, seu estatuto foiestabelecido em momento de ditadura militar; o Código Napoleão, que fixou seu destino por um século, atrasou muito sua emancipação. Como todos osmilitares, Napoleão não quer ver na mulher senão uma mãe. Porém, herdeiro de uma revolução burguesa, não deseja demolir a estrutura da sociedadee dar à mãe a preeminência sobre a esposa: proíbe a investigação da paternidade; define com dureza a condição da mãe solteira e a do filho natural.Entretanto, a própria mulher casada não encontra refúgio em sua dignidade de mãe; o paradoxo feudal perpetua-se. Solteira e casada são privadas daqualidade de cidadã, o que lhes veda funções como as de advogado e o exercício da tutela. Mas a mulher celibatária goza da plenitude de suascapacidades civis ao passo que o casamento conserva o mundium. A mulher deve obediência a seu marido; ele pode fazer que seja condenada àreclusão em caso de adultério e conseguir o divórcio contra ela; se mata a culpada pega em flagrante delito, é desculpável aos olhos da lei; ao passoque o marido só é sujeito a uma multa se trouxer uma concubina ao domicílio conjugal, e é neste caso, somente, que a mulher pode obter o divórciocontra ele. O homem é quem fixa o domicílio conjugal. Tem sobre os filhos muito mais direitos do que a mãe e — salvo no caso em que a mulher dirigeuma empresa comercial — sua autorização é necessária para que ela possa assumir obrigações. O poder marital exerce-se rigorosamente, ao mesmotempo sobre a pessoa da esposa e sobre seus bens.Durante todo o século XIX a jurisprudência não fez senão reforçar os rigores do código, privando, entre outras coisas, a mulher do direito de alienação.Em 1826, a Restauração aboliu o divórcio; a Assembleia Constituinte de 1848 recusou-se a restabelecê-lo; ele só reaparece em 1884, mas ainda comtoda espécie de obstáculos à sua obtenção. Em verdade, a burguesia nunca foi mais poderosa, mas compreende que ameaças implica a revoluçãoindustrial; por isso, se afirma com uma autoridade inquieta. A liberdade de espírito, herdada do século XVIII, não fere a moral familiar; esta permanecetal qual a definem, no início do século XIX, os pensadores reacionários como Joseph de Maistre e Bonald. Estes assentam na vontade divina o valor daordem e reclamam uma sociedade rigorosamente hierarquizada: a família, célula social indissolúvel, será o microcosmo da sociedade. “O homem estápara a mulher como a mulher para a criança; ou o poder para o ministro como o ministro para o súdito”, escreve Bonald. Assim, o marido governa, amulher administra, os filhos obedecem. O divórcio é naturalmente proibido e a mulher é confinada ao lar. “As mulheres pertencem à família e não àsociedade política, e a natureza as fez para as tarefas domésticas e não para as funções públicas”, afirma ainda Bonald. Na família definida por Le Playem meados do século, essas hierarquias são respeitadas.De maneira um pouco diferente, Auguste Comte reclama também a hierarquia dos sexos. Há, entre eles, “diferenças radicais, concomitantementefísicas e morais que, em todas as espécies animais e principalmente na raça humana, os separam profundamente um do outro”. A feminilidade é umaespécie de “infância contínua” que afasta a mulher do “tipo ideal da raça”. Essa infantilidade biológica traduz-se por uma fraqueza intelectual; o papeldesse ser puramente afetivo é o de esposa e dona de casa; ela não poderia entrar em concorrência com o homem: “Nem a direção nem a educação lheconvêm.” Como na opinião de Bonald, a mulher é confinada à família e nessa sociedade em miniatura o pai governa porque a mulher é “incapaz dequalquer mando, mesmo doméstico”; ela administra tão somente e aconselha. Sua instrução deve ser limitada. “As mulheres e os proletários não podemnem devem tornar-se autores, como, aliás, não o desejam.” E Comte prevê que a evolução da sociedade acarretará a supressão total do trabalhofeminino fora da família. Na segunda parte de sua obra, Comte, influenciado pelo seu amor por Clotilde de Vaux, exalta a mulher até quase fazer delauma divindade, a emanação do Grande Ser; ela é que a religião positivista proporia à adoração do povo no templo da Humanidade; mas é somente pelasua moralidade que ela merece esse culto; enquanto o homem age, ela ama: ela é mais profundamente altruísta do que ele. Mas, segundo o sistemapositivista, ela nem assim permanece menos encerrada na família; o divórcio é proibido a ela e seria mesmo desejável que sua viuvez fosse eterna; elanão tem nenhum direito econômico nem político, é apenas esposa e educadora.Balzac, mais cinicamente, exprime o mesmo ideal. “O destino da mulher e sua única glória são fazer bater o coração dos homens”, escreve naPhysiologie du mariage. “A mulher é propriedade que se adquire por contrato; ela é mobiliária porque sua posse vale como título; a mulher, enfim, nãoé, propriamente falando, senão um anexo do homem.” Balzac faz-se aqui o porta-voz da burguesia cujo antifeminismo redobra de vigor contra alicenciosidade do século XVIII e contra as ideias progressistas que a ameaçam. Tendo luminosamente exposto, no início da Physiologie du mariage, que


essa instituição de que se exclui o amor conduz necessariamente a mulher ao adultério, Balzac exorta o esposo a mantê-la em total sujeição se quiserevitar o ridículo da desonra. Cumpre recusar-lhe instrução e cultura, proibir-lhe tudo o que lhe permitiria desenvolver sua individualidade, impor-lhevestimentas incômodas, encorajá-la a seguir um regime anemiante. A burguesia obedece exatamente a esse programa. As mulheres são escravizadas àcozinha, ao lar, fiscalizam-lhes ciumentamente os costumes; confinam-nas em um ritual de savoir-vivre que trava qualquer tentativa de independência.Em compensação, honram-nas e cercam-nas das mais requintadas delicadezas. “A mulher casada é uma escrava que é preciso saber colocar numtrono”, diz Balzac; está estabelecido que, em quaisquer circunstâncias insignificantes, o homem deve eclipsar-se diante delas, ceder-lhes o primeirolugar; ao invés de fazê-las carregar fardos como nas sociedades primitivas, insistem em desobrigá-las de toda tarefa penosa e de toda preocupação, oque significa livrá-las ao mesmo tempo de toda responsabilidade. Espera-se que, assim ludibriadas, seduzidas pela facilidade de sua condição, aceitem opapel de mãe e de dona de casa em que as querem confinar. E o fato é que, em sua maioria, as mulheres da burguesia capitulam. Como sua educação esua situação parasitária as colocam sob a dependência do homem, não ousam sequer apresentar reivindicações; as que possuem essa audácia nãoencontram eco. “É mais fácil sobrecarregar as pessoas de ferros do que as libertar, se os ferros dão consideração”, diz Bernard Shaw. A mulherburguesa faz questão de seus grilhões porque faz questão de seus privilégios de classe. Explicam-lhe sem cessar (e ela sabe) que a emancipação dasmulheres seria um enfraquecimento da sociedade burguesa; libertada do homem, seria condenada ao trabalho; pode lamentar não ter sobre apropriedade privada senão direitos subordinados aos do marido, porém deploraria ainda mais que essa propriedade fosse abolida; não sente nenhumasolidariedade com as mulheres da classe proletária: está muito mais próxima do marido do que das operárias da indústria têxtil. Faz seus os interessesdo marido.Entretanto, essas resistências obstinadas não podem impedir a marcha da história; o advento do maquinismo arruína a propriedade fundiária, provocaa emancipação da classe laboriosa e, correlativamente, a da mulher. Todo socialismo, arrancando a mulher à família, favorece-lhe a libertação. Platão,sonhando com um regime comunitário, prometia às mulheres uma autonomia igual à que gozavam em Esparta. Com os socialismos utópicos de saint-Simon, Fourier, Cabet, nasce a utopia da “mulher livre”. A ideia saint-simoniana de associação universal exige a supressão de toda escravidão: a dooperário e a da mulher; é porque as mulheres são seres humanos como os homens, que Saint-Simon e, depois dele, Leroux, Pecqueux, Carnot,reclamam sua libertação. Infelizmente, essa tese razoável não é a que encontra maior crédito na escola. Esta exalta a mulher em nome de suafeminilidade, o que é o meio mais seguro de desservi-la. A pretexto de que a unidade social está no casal, o padre Enfantin quer introduzir uma mulherem cada casal diretor, que chama casal-sacerdote; ele espera de uma mulher-messias o advento de um mundo melhor e os Companheiros da Mulherembarcam para o Oriente à procura desse salvador feminino. É influenciado por Fourier, que confunde a libertação da mulher com a reabilitação dacarne; Fourier reclama para todo indivíduo a liberdade de obedecer à atração passional; quer substituir o casamento pelo amor; não é em sua pessoa esim em sua função amorosa que considera a mulher. Cabet promete, por seu turno, que o comunismo icariano realizará uma completa igualdade dossexos, embora conceda à mulher apenas uma participação restrita na vida política. Na realidade, as mulheres ocupam somente um lugar secundário nomovimento saint-simoniano: só Claire Bazard, que funda e mantém durante breve período o jornal chamado La Femme nouvelle, desempenha um papelassaz importante. Muitas outras pequenas revistas aparecem a seguir, mas suas reivindicações são tímidas; elas pedem a educação da mulher mais doque sua emancipação; é em elevar a educação da mulher que se empenha Carnot e, com ele, Legouvé. A ideia da mulher associada, da mulherregeneradora mantém-se através de todo o século XIX: encontramo-la em Victor Hugo. Mas a causa da mulher é antes desacreditada por essasdoutrinas que em lugar de a assimilar ao homem a opõem a ele, reconhecendo-lhe a intuição, o sentimento, mas não a razão. É também desacreditadapela inabilidade de seus partidários. Em 1848 as mulheres fundam clubes e jornais; Eugénie Niboyer edita a Voix des femmes, jornal em que colaboraCabet. Uma delegação feminina vai à Prefeitura para reivindicar “os direitos da mulher”, mas nada obtém. Em 1849, Jeanne Decoin apresenta-se àdeputação, e faz uma campanha eleitoral que soçobra no ridículo. O ridículo mata também o movimento das “vesuvianas” e das bloomeristas, que seexibem com vestimentas extravagantes. As mulheres mais inteligentes da época permanecem afastadas desses movimentos: Mme de Staël lutara pelasua própria causa mais do que pela de suas irmãs; George Sand reclama o direito ao amor livre, mas recusa-se a colaborar na Voix des femmes; suasreivindicações são principalmente sentimentais; Flora Tristan acredita na redenção do povo pela mulher, mas se interessa mais pela emancipação daclasse operária do que pela de seu sexo. David Stern e Mme de Girardin associam-se, entretanto, ao movimento feminista.Em seu conjunto, o movimento reformista que se desenvolve no século XIX é favorável ao feminismo, pelo fato de buscar a justiça na igualdade. Há umaexceção notável: Proudhon. Talvez por causa de suas raízes camponesas reage violentamente contra o misticismo saint-simoniano; permanecepartidário da pequena propriedade e com isso limita a mulher ao lar. “Dona de casa ou cortesã”, eis o dilema em que a encerra. Até então os ataquescontra o feminismo tinham sido dirigidos pelos conservadores que combatiam também, com tenacidade, o socialismo. O Charivari, entre outros, nissoencontrava uma fonte inesgotável de facécias; é Proudhon que rompe a aliança entre o feminismo e o socialismo; protesta contra o banquete dasmulheres socialistas presidido por Leroux, fulmina Jeanne Decoin. Na obra intitulada La Justice, afirma que a mulher deve permanecer na dependênciado homem; só ele vale como indivíduo social; não há no casal uma associação, o que pressuporia a igualdade, mas uma união; a mulher é inferior aohomem, primeiramente porque sua força física atinge apenas dois terços da dele, em seguida porque é intelectual e moralmente inferior a ele namesma proporção: seu valor é no conjunto de 2x2x2 contra 3x3x3, ou seja, 8/27 da do sexo forte. Duas mulheres, Mme Adam e Mme d’Héricourt, tendo-lhe respondido, uma com firmeza, outra com uma exaltação menos feliz, Proudhon retorquiu com a Pornocratie ou la femme dans les temps modernes.Entretanto, como todos os antifeministas, dedica litanias à “verdadeira mulher”, escrava e espelho do homem; apesar dessa devoção, teve dereconhecer ele próprio que a vida que lhe impôs não tornou feliz a sua própria mulher: as cartas de Mme Proudhon são apenas uma longa lamentação.Não são esses debates teóricos que influem no desenrolar dos acontecimentos: antes os refletem com hesitação. A mulher reconquista uma importânciaeconômica que perdera desde as épocas pré-históricas, porque escapa do lar e tem, com a fábrica, nova participação na produção. É a máquina que dáazo a essa modificação violenta, porque a diferença de força física entre trabalhadores masculinos e femininos se vê, em grande número de casos,anulada. Como o súbito desenvolvimento da indústria exige uma mão de obra mais considerável do que a fornecida pelos trabalhadores masculinos, acolaboração da mulher é necessária. Essa é a grande revolução que, no século XIX, transforma o destino da mulher e abre, para ela, uma nova era.Marx e Engels medem-lhe todo o alcance e prometem às mulheres sua libertação ligada à do proletariado. Com efeito, “a mulher e o trabalhador têmambos em comum o fato de serem oprimidos”, diz Bebel. E ambos escaparão juntos da opressão graças à importância que, através da evolução técnica,alcançará seu trabalho produtor. Engels mostra que a sorte da mulher está estreitamente ligada à história da propriedade privada; uma catástrofesubstituiu pelo patriarcado o regime do direito materno e escravizou a mulher ao patrimônio; mas a revolução industrial é a contrapartida dessadecadência e resultará na emancipação feminina. Ele escreve: “A mulher só pode ser emancipada quando tomar parte em grande escala social naprodução e não for mais solicitada pelo trabalho doméstico senão em medida insignificante. E isso só se tornou possível com a grande indústriamoderna, que não somente admite em grande escala o trabalho da mulher mas ainda o exige formalmente.”No princípio do século XIX a mulher era explorada mais vergonhosamente ainda do que os trabalhadores do outro sexo. O trabalho em domicílioconstituía isso que os ingleses chamam sweating system; apesar de um trabalho contínuo, a operária não ganhava o suficiente para atender às suasnecessidades. Jules Simon em L’Ouvrière e até o conservador Leroy-Beaulieu em Le Travail des femmes au XIXe, publicado em 1873, denunciam abusosodiosos; este último declara que mais de duzentas mil operárias francesas não chegam a ganhar cinquenta cêntimos por dia. Compreende-se que setenham apressado em emigrar para as manufaturas; aliás, fora destas, em pouco tempo não lhes restarão senão os trabalhos de agulha, a lavanderia e adomesticidade, ofícios todos de escravos e pagos com salários de fome; até a renda, a roupa branca etc. são tomadas pela fábrica; em compensação háoferecimentos maciços de emprego nas indústrias do algodão, da lã e da seda; as mulheres são principalmente utilizadas na fiação e na tecelagem. Ospatrões muitas vezes as preferem aos homens. “Trabalham melhor e mais barato.” Esta fórmula cínica esclarece o drama do trabalho feminino. Porqueé pelo trabalho que a mulher conquista sua dignidade de ser humano; mas foi uma conquista singularmente árdua e lenta. Fiação e tecelagem realizam-se em condições higiênicas lamentáveis. “Em Lyon”, escreve Blanqui, “nos ateliês de passamanaria, as mulheres são obrigadas a trabalhar quasesuspensas a correias, servindo-se dos pés e das mãos ao mesmo tempo.” Em 1831, as operárias da seda trabalhavam das três horas da manhã até asonze da noite no verão, ou seja, dezessete horas por dia, “em locais amiúde malsãos e onde não penetram nunca os raios do sol. Metade dessas moçastornam-se tuberculosas antes de terminar seu aprendizado. Quando se queixam, acusam-nas de fazerem fita”, diz Norbert Truquin.55 Além disso, osempregados abusavam das jovens operárias. “Para conseguir o que queriam, valiam-se dos meios mais revoltantes, a necessidade e a fome”, diz o autoranônimo de La Vérité sur les événements de Lyon. As mulheres acumulam o trabalho agrícola com o da fábrica. Exploram-nas cinicamente. Marx contaem uma nota de O capital: “O sr. E., industrial, disse-me que só empregava mulheres nos seus teares mecânicos, que dava preferência às mulherescasadas e, entre elas, às que tinham família em casa, porque mostravam mais atenção e docilidade do que as celibatárias e trabalhavam até oesgotamento de suas forças, a fim de conseguir os meios indispensáveis à subsistência dos seus. Assim é que as qualidades inerentes à mulher sãodeturpadas em seu próprio detrimento, e todos os elementos morais e delicados de sua natureza se transformam em meios de escravizá-la e fazê-lasofrer.” Resumindo O capital e comentando Bebel, G. Derville escreve: “Animal de luxo ou animal de carga, eis o que é, hoje, quase exclusivamente amulher. Mantida pelo homem quando não trabalha é ainda mantida por ele quando se mata no trabalho.” A situação da operária era tão lamentável queSismondi e Blanqui pedem que se proíba o acesso das mulheres às fábricas. A razão disso está em parte no fato de as mulheres não terem sabido, desdeo início, organizar-se em sindicatos. As “associações” femininas datam de 1848 e, a princípio, são associações de produção. O movimento progride comextrema lentidão, como se vê pelas cifras seguintes:Em 1905 contam-se 69.405 mulheres num total de 781.392 sindicalizados;Em 1908 contam-se 88.906 mulheres num total de 957.120 sindicalizados;Em 1912 contam-se 92.336 mulheres num total de 1.064.413 sindicalizados;Em 1920 contam-se 239.016 operárias e empregadas sindicalizadas para 1.580.967 trabalhadores e, entre as trabalhadoras agrícolas, somente 36.193sindicalizadas entre 1.083.957, ou seja, ao todo 292.000 mulheres sindicalizadas num conjunto de 3.076.585 trabalhadores inscritos nos sindicatos. Éuma tradição de resignação e de submissão, uma falta de solidariedade e de consciência coletiva que as deixam assim desarmadas diante das novaspossibilidades que se abrem para elas.


Resulta dessa atitude que só lenta e tardiamente foi o trabalho feminino regulamentado. É preciso esperar até 1874 para que a lei intervenha; e, apesardas campanhas levadas a efeito durante o Império, só duas disposições referem-se às mulheres; uma delas proíbe às menores o trabalho noturno eexige que se lhes dê descanso nos domingos e feriados. Seu dia de trabalho é limitado a doze horas; quanto às mulheres de mais de vinte e um anos,restringem-se a proibir-lhes o trabalho subterrâneo nas minas e nas pedreiras. A primeira carta de trabalho feminino data de 2 de novembro de 1892;ela proíbe o trabalho noturno e limita o horário da fábrica, mas deixa a porta aberta a todas as fraudes. Em 1900, esse horário é fixado em dez horas;em 1905, o descanso hebdomadário torna-se obrigatório; em 1907, a trabalhadora obtém a livre disposição de seu ganho; em 1909, é asseguradalicença remunerada às parturientes; em 1911, os dispositivos de 1892 são revalidados imperativamente; em 1913, regulamentam-se as modalidadesconcernentes ao descanso das mulheres antes e depois do parto, e são proibidos a elas trabalhos perigosos e excessivos. Pouco a pouco, a legislaçãosocial constitui-se e o trabalho feminino cerca-se de garantias de higiene: exigem-se assentos para as vendedoras, sendo proibida a demoradapermanência diante dos mostruários exteriores etc. O BIT conseguiu realizar convenções internacionais acerca das condições sanitárias do trabalhofeminino, das férias remuneradas a serem concedidas em caso de gravidez etc.Uma segunda consequência da inércia resignada das trabalhadoras foram os salários com que tiveram de se contentar. Foram propostas váriasexplicações para o fenômeno — que depende de um conjunto de fatores — de os salários femininos terem sido fixados num nível tão baixo. Não bastadizer que as necessidades das mulheres são menores do que as dos homens; isso é apenas uma justificação posterior. O mais certo é, como se viu, queas mulheres não souberam defender-se contra seus exploradores; tinham que enfrentar a concorrência das prisões que lançavam no mercado produtosfabricados sem despesa de mão de obra. Elas se faziam mutuamente concorrência. É preciso, ademais, observar que é no seio de uma sociedade emque subsiste a comunidade conjugal que a mulher procura emancipar-se pelo trabalho; ligada ao lar do pai e do marido, contenta-se, na maioria dasvezes, com trazer para casa um auxílio; trabalha fora da família mas para esta; e como não se trata, para a operária, de atender à totalidade de suasnecessidades, ela é induzida a aceitar uma remuneração muito inferior à exigida por um homem. Contentando-se grande quantidade de mulheres comsalários inferiores, o conjunto do salário feminino alinha-se naturalmente nesse nível, que é o mais vantajoso para o empregador.Na França, segundo pesquisa realizada em 1889-1893, para um dia de trabalho igual ao de um homem, a operária só obtinha metade da remuneraçãomasculina. Segundo a pesquisa de 1908, os mais altos salários horários das operárias trabalhando em domicílio não ultrapassavam vinte cêntimos porhora e desciam, às vezes, até cinco cêntimos. Era impossível à mulher, assim explorada, viver sem esmola ou sem protetor. Na América do Norte, em1918, a mulher recebia apenas metade do salário masculino. Nessa mesma época, por igual quantidade de carvão extraído das minas alemãs, a mulherganhava 25% menos do que o homem. Entre 1911 e 1943, os salários femininos, na França, se elevaram um pouco mais rapidamente do que os doshomens, mas permaneceram nitidamente inferiores.Se os empregadores acolheram com interesse as mulheres por causa dos baixos salários que elas aceitavam, o mesmo fato provocou resistências entreos trabalhadores masculinos. Entre a causa do proletariado e a das mulheres, não houve uma solidariedade tão imediata quanto o pretendiam Bebel eEngels. O problema apresentou-se mais ou menos da mesma maneira que o da mão de obra negra nos Estados Unidos. As minorias mais oprimidas deuma sociedade são, amiúde, utilizadas pelos opressores como arma contra o conjunto da classe a que pertencem. Em consequência, elas sãoconsideradas inicialmente inimigas e é preciso uma consciência mais profunda da situação para que os interesses dos negros e dos brancos, dasoperárias e dos operários se coliguem, em vez de se oporem uns aos outros. Compreende-se que os trabalhadores masculinos tenham, primeiramente,visto nesta concorrência uma temível ameaça e se tenham mostrado hostis. Somente quando as mulheres se integraram na vida sindical é que puderamdefender seus próprios interesses e deixar de pôr em perigo os da classe operária em seu conjunto.A despeito de todas essas dificuldades, a evolução do trabalho feminino prosseguiu. Em 1900, contavam-se ainda, na França, 900.000 operáriastrabalhando em domicílio que fabricavam roupas, objetos de couro e pele, coroas mortuárias, bolsas, adornos de miçangas, bijuterias; mas esse númerodiminuiu consideravelmente. Em 1906, 42% das mulheres em idade de trabalhar (entre 18 e 60 anos) estavam empregadas na agricultura, na indústria,no comércio, nos bancos, nas companhias de seguros, nos escritórios e em profissões liberais. Esse movimento precipitou-se no mundo inteiro emvirtude da crise de mão de obra de 14-18 e da última guerra mundial. A pequena e a média burguesia decidiram segui-lo, e as mulheres invadiramtambém as profissões liberais. De acordo com um dos últimos recenseamentos de antes da última guerra, verifica-se que sobre a totalidade dasmulheres de 18 a 60 anos trabalham, na França, cerca de 42%, na Finlândia 37%, na Alemanha 34,2%, na Índia 27,7%, na Inglaterra 26,9%, naHolanda 19,2%, nos Estados Unidos 17,7%. Mas na França e na Índia é por causa do trabalho rural que as cifras são tão elevadas. Excetuando-se asmulheres que trabalham nos campos, contavam-se, na França, em 1940, cerca de 500.000 chefes de estabelecimentos, um milhão de empregadas, doismilhões de operárias e um milhão e meio de trabalhadoras isoladas ou desempregadas. Entre as operárias há 650.000 domésticas; 1.200.000 trabalhamnas indústrias de transformação, sendo 440.000 na indústria têxtil, 315.000 na confecção, 380.000 em domicílio como costureiras. No que concerne aocomércio, às profissões liberais, aos serviços públicos, França, Inglaterra e Estados Unidos encontram-se mais ou menos em pé de igualdade.Um dos problemas essenciais que se colocam a respeito da mulher é, já o vimos, a conciliação de seu papel de reprodutora com seu trabalho produtor.A razão profunda que, na origem da história, vota a mulher ao trabalho doméstico e a impede de participar da construção do mundo é sua escravizaçãoà função geradora. As fêmeas dos animais têm um ritmo do cio e das estações que assegura a economia de suas forças; ao contrário, entre a puberdadee a menopausa, a natureza não limita a capacidade de gestação da mulher. Certas civilizações proíbem as uniões precoces; citam-se tribos de índios emque se exige que se assegure à mulher um intervalo de repouso de dois anos entre cada parto; mas, no conjunto, durante séculos, não se regulamentoua fecundidade feminina. Existem, desde a Antiguidade,56 práticas anticoncepcionais, destinadas em geral à mulher: poções, supositórios, tampõesvaginais, mas que são segredos das prostitutas e dos médicos; talvez desse segredo tenham tido conhecimento as romanas da decadência, cujaesterilidade os satíricos exprobravam. Mas a Idade Média ignorou-as; até o século XVIII não se encontra vestígio disso. Para muitas mulheres, a vidaera então uma série ininterrupta de partos; mesmo as mulheres de maus costumes pagavam suas licenças amorosas com numerosas maternidades. Emcertas épocas, a humanidade sentiu muito a necessidade de reduzir a população, mas, ao mesmo tempo, as nações receavam enfraquecer-se. Nasépocas de crise e de miséria era retardando a idade de casamento para os celibatários que se realizava uma baixa do índice de nascimentos. A regracontinuava a ser: casar cedo e ter tantos filhos quanto os pudesse engendrar a mulher; somente a mortalidade infantil diminuía o número de criançasvivas. Já no século XVII, o abade de Purê57 protesta contra a “hidropisia amorosa” a que as mulheres estão condenadas; e Mme de Sévigné recomenda àfilha que evite engravidar-se com frequência. Mas é no século XVIII que a tendência malthusiana se desenvolve em França. A princípio, as classesabastadas, e depois o conjunto da população, consideram razoável restringir o número de filhos de acordo com os recurs os dos pais, e os processosanticoncepcionais principiam a introduzir-se nos costumes. Em 1778 o demógrafo Moreau escreve: “As mulheres ricas não são as únicas a encarar apropagação da espécie como uma bobagem dos velhos tempos; esses funestos segredos, desconhecidos dos demais animais, penetraram nos campos;até nas aldeias engana-se a natureza.” A prática do coitus interruptus expande-se na burguesia a princípio e em seguida nas populações rurais e entreos operários; o preservativo, que já existia como produto antivenéreo, torna-se anticoncepcional e espalha-se por toda parte após a descoberta davulcanização, por volta de 1840.58 O controle de natalidade é oficialmente autorizado nos países anglo-saxões e descobrem-se numerosos métodos dedissociar essas duas funções, antes inseparáveis: a sexual e a reprodutora. Os trabalhos da medicina vienense estabelecem com precisão o mecanismoda concepção, e as condições que lhe são favoráveis sugerem também os modos de evitá-la. Em França, a propaganda anticoncepcional e a venda depessários, tampões vaginais etc. é proibida; nem por isso o controle de natalidade se expande menos.Quanto ao aborto, em nenhum lugar é ele autorizado oficialmente pela lei. O direito romano não concedia proteção especial à vida embrionária; nãoencarava o nasciturus como um ser humano, e sim como parte do corpo materno. Partus antequam edatur milieris portio est vel viscerum.59 Na épocada decadência, o aborto apresentava-se como prática normal e, quando o legislador quis incentivar os nascimentos, não ousou proibi-lo. Se a mulherrecusava o filho contra a vontade do marido, este podia mandar puni-la; mas era a desobediência que constituía o delito. No conjunto da civilizaçãooriental e greco-romana, o aborto era permitido por lei.Foi o cristianismo que, nesse ponto, revolucionou as ideias morais, dotando o embrião de uma alma; então o aborto tornou-se um crime contra o própriofeto. “Toda mulher que age de maneira a não gerar todos os filhos que poderia torna-se culpada de um número igual de homicídios, da mesma formaque aquela que procura ferir-se depois da concepção”, diz santo Agostinho. Em Bizâncio, o aborto só acarretava uma relegação temporária; entre osbárbaros que praticavam o infanticídio não era este censurável senão quando perpetrado por violência e contra a vontade da mãe: compensavam-nopagando-o com sangue. Mas os primeiros concílios editam contra esse “homicídio” as mais severas penas, qualquer que seja a idade presumida do feto.Entretanto, uma questão se põe então, que se torna objeto de discussões infinitas: em que momento a alma penetra no corpo? São Tomás e a maioriados autores fixaram a animação no quadragésimo dia para as crianças do sexo masculino e no octagésimo para as do sexo feminino; fez-se então umadistinção entre o feto animado e o feto inanimado. Durante a Idade Média, o livro penitencial declara: “Se uma mulher grávida faz perecer seu frutoantes de quarenta e cinco dias, sofre uma penitência de um ano. Se o fizer ao fim de sessenta, de três anos. Finalmente, se a criança já estiver comalma deverá a mulher ser tratada como homicida.” Entretanto, o livro acrescenta: “Há uma grande diferença entre a mulher pobre que destrói o filhopor causa da dificuldade que tem em nutri-lo e a que não tem outro fim senão esconder o crime de fornicação.” Em 1556, Henrique II publicou um editocélebre sobre a receptação da gravidez; sendo a simples receptação punida com a pena de morte, deduziu-se que com maior razão a pena deveria seraplicada às práticas abortivas. Na realidade era o infanticídio a que o edito visava, mas ele serviu de apoio para decretar a pena de morte contra osautores e cúmplices do aborto. A distinção entre feto com alma e feto sem alma desapareceu no século XVIII. No fim deste século, Beccaria, cujainfluência foi considerável na França, fez a defesa da mulher que recusa o filho. O código de 1791 desculpa-a, mas pune seus cúmplices com “20 anosde ferros”. A ideia de que o aborto é um crime desaparece no século XIX: consideram-no antes um crime contra o Estado. A lei de 1810 proíbe-oabsolutamente sob pena de reclusão e trabalhos forçados para a abortada e seus cúmplices. Na realidade, os médicos praticam-no sempre quando setrata de salvar a vida da mãe. E, exatamente, por ser a lei severa demais, os jurados deixam de aplicá-la em fins do século. Havia, apenas, um ínfimonúmero de prisões e 4/5 das acusadas eram absolvidas. Em 1923, nova lei prevê ainda trabalhos forçados para os cúmplices e autores da intervenção,mas pune a mulher somente com prisão e com multa; em 1939, novo decreto visa especialmente aos técnicos; nenhum sursis lhes será mais concedido.Em 1941, o aborto foi decretado crime contra a segurança do Estado. Nos outros países é um delito sancionado com penas correcionais. Na Inglaterra,entretanto, é um crime de felony, punido com prisão ou trabalhos forçados. Em geral, códigos e tribunais têm muito mais indulgência para com a


abortada do que para com seus cúmplices. Entretanto, a Igreja em nada modificou seu rigor. O código de direito canônico promulgado a 27 de março de1917 declara: “Os que provocam o aborto, desde que conseguido o efeito, incorrem, sem exceção da mãe, em excomunhão latae sententiae a cargo dobispo.” Nenhum motivo pode ser alegado, nem mesmo o perigo de morte a que se exponha a mãe. Ainda há pouco, o papa declarou que entre a vida damãe e a do filho cumpre sacrificar a primeira; efetivamente, sendo a mãe batizada, pode alcançar o céu — curiosamente, o inferno nunca intervémnesses cálculos —, ao passo que o feto fica votado ao limbo para sempre.60Foi somente durante curto período que se autorizou oficialmente o aborto na Alemanha, antes do nazismo, e na União Soviética, antes de 1936. Mas,apesar da religião e das leis, ele ocupa, em todos os países, um lugar considerável. Na França, contam-se anualmente de 800 mil a um milhão —número equivalente ao dos nascimentos —, sendo que dois terços das mulheres abortadas são casadas e já com um ou dois filhos. Apesar dasresistências, dos preconceitos, das sobrevivências de uma moral obsoleta, viu-se, portanto, realizar-se a passagem de uma fecundidade livre a umafecundidade dirigida pelo Estado ou pelos indivíduos. Os progressos da obstetrícia diminuíram consideravelmente os perigos do parto; os sofrimentostendem a desaparecer; nestes últimos dias — março de 1949 —, decretou-se na Inglaterra que o emprego de certos métodos de anestesia eraobrigatório, métodos esses já aplicados em geral nos Estados Unidos e que começam a expandir-se na França. Pela inseminação artificial, termina-se aevolução que permitirá à humanidade controlar a função reprodutora. Essas modificações têm, para a mulher em particular, imensa importância;podem diminuir o número de períodos de gravidez e integrá-la racionalmente em sua vida, em vez de permanecer escrava desta. Por sua vez, a mulherdurante o século XIX liberta-se da natureza: torna-se senhora de seu corpo. Livre em grande parte das servidões da reprodução, pode desempenhar opapel econômico que se lhe propõe e lhe assegurará a conquista total de sua pessoa.É pela convergência destes dois fatores: participação na produção, libertação da escravidão da reprodução, que se explica a evolução da condição damulher. Como o previra Engels, seu estatuto social e político deveria necessariamente transformar-se. O movimento feminista esboçado na França porCondorcet, na Inglaterra por Mary Wollstonecraft em sua obra Vindication of the Rights of Women, e reiniciado no princípio do século pelos saint-simonianos, não pôde atingir um resultado enquanto careceu de bases concretas. Agora, as reivindicações da mulher vão pesar realmente na balança.Elas serão ouvidas até no seio da burguesia. Em consequência do rápido desenvolvimento da civilização industrial, a propriedade imobiliária recua antea propriedade mobiliária: o princípio da unidade do grupo familiar perde parte de sua força. A mobilidade do capital permite a seu detentor possuir edispor de sua fortuna em vez de ser por ela possuído. Através do patrimônio é que a mulher se achava substancialmente presa ao marido; abolido opatrimônio, encontram-se eles somente justapostos e os próprios filhos não constituem laço de solidez comparável à do interesse. Assim o indivíduo vaiafirmar-se contra o grupo; essa revolução é particularmente impressionante na América do Norte, onde a forma moderna do capitalismo triunfa: odivórcio aí se desenvolve e marido e mulher apresentam-se desde então como simples associados provisórios. Na França, onde a população rural éimportante, onde o Código Napoleão colocou sob tutela a mulher casada, a evolução será lenta. Em 1884, o divórcio é restabelecido e a mulher podeobtê-lo, no caso de o marido cometer adultério; entretanto, do ponto de vista penal, a diferença entre os sexos é mantida: o adultério só é um delitoquando perpetrado pela mulher. O direito de tutela outorgado com restrições em 1907 só é plenamente conquistado em 1917. Em 1912, autorizou-se apesquisa da paternidade natural. Mas foi preciso esperar até 1938 e 1942 para ver modificado o estatuto da mulher casada; revoga-se então o dever deobediência, embora o pai continue a ser chefe da família; ele fixa o domicílio, mas a mulher pode opor-se à escolha, apresentando razões válidas; suascapacidades são ampliadas, mas a fórmula é confusa: “A mulher casada tem plena capacidade de direito. Esta só é limitada pelo contrato de casamentoe a lei”, a última parte do artigo contesta a primeira. A igualdade dos esposos não está ainda realizada.Quanto aos direitos políticos, não foi sem dificuldade que foram conquistados na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos. Em 1867, Stuart Mill fazia,perante o Parlamento, a primeira defesa oficialmente pronunciada do voto feminino. Reclama va imperiosamente, em seus escritos, a igualdade damulher e do homem no seio da família e da sociedade. “Estou convencido de que as relações sociais dos dois sexos, que subordinam um sexo a outro emnome da lei, são más em si mesmas e constituem um dos principais obstáculos que se opuseram ao progresso da humanidade; estou convencido de quedevem ser substituídas por uma igualdade perfeita.” Seguindo-lhes os passos, as inglesas organizaram-se politicamente sob a direção de Mrs. Fawcett;as francesas agrupam-se em torno de Maria Deraismes, que entre 1868 e 1871 estuda, em uma série de conferências públicas, a sorte da mulher;sustenta uma viva controvérsia com Alexandre Dumas Filho, que aconselha ao marido traído por uma mulher infiel: “Mate-a.” Foi Léon Richier overdadeiro fundador do feminismo, criando em 1869 Les Droits de la femme e organizando o congresso internacional desses direitos em 1878. Aquestão do direito de voto não é ainda ventilada: as mulheres restringem-se a reclamar direitos civis; durante trinta anos o movimento permanecerámuito tímido, na França como na Inglaterra. Uma mulher, entretanto, Hu bertine Auclert, inicia uma campanha sufragista; cria o grupo Suffrage desfemmes e o jornal La Citoyenne. Numerosas sociedades constituem-se sob sua influência mas com atuação bem pouco eficiente. Essas fraquezas dofeminismo têm suas causas nas dissensões intestinas; em verdade, como já se disse, as mulheres não são solidárias enquanto sexo; acham-seprimeiramente ligadas à sua classe; os interesses das burguesas e os das mulheres proletárias não coincidem. O feminismo revolucionário reata com atradição saint-simoniana e marxista; é preciso observar, de resto, que Louise Michel se pronuncia contra o feminismo porque esse movimento não levasenão a um desvio de forças que devem ser inteiramente empregadas na luta de classe; com a abolição do capital, o destino das mulheres estaráresolvido.Em 1879, o congresso socialista proclamou a igualdade dos sexos e, desde então, a aliança feminismo-socialismo nunca mais foi denunciada, porquantoé da emancipação dos trabalhadores em geral que as mulheres esperam a liberdade, não se prendendo senão de um modo secundário à sua própriacausa. As burguesas, ao contrário, reclamam novos direitos dentro da sociedade tal qual é, negando serem revolucionárias; querem introduzir reformasvirtuosas nos costumes: supressão do alcoolismo, da literatura pornográfica, da prostituição. Em 1892, reúne-se o chamado Congresso Feminista quedeu seu nome ao movimento; dele não resulta grande coisa. Entretanto, em 1897, aprova-se uma lei que permite às mulheres serem testemunhas emprocessos, mas é negado o pedido de uma doutora em direito de exercer a profissão. Em 1898, elas obtêm o direito de voto no Tribunal do Comércio, omesmo direito e a elegibilidade no Conselho Superior do Trabalho, e o de admissão ao Conselho Superior da Assistência Pública e à Escola de BelasArtes. Em 1900, novo congresso reúne os feministas: mas não conduz a grandes resultados. Entretanto, pela primeira vez, em 1901, a questão do votofeminino é apresentada por Viviani à Câmara. Propõe ele, de resto, restringir o voto às celibatárias e às divorciadas. Nesse momento, o movimentofeminista ganha terreno. Em 1909, é fundada a União Francesa pelo Sufrágio das Mulheres, cuja animadora é Mme Brunschwig; organiza conferências,comícios, congressos, manifestações. Em 1909, a propósito de um projeto de Dussausoy, Buisson apresenta um parecer concedendo direito de voto àsmulheres para as assembleias locais. Em 1910, Thomas apresenta um projeto de lei a favor do sufrágio feminino. Renovado em 1918, triunfa em 1919na Câmara, porém malogra no Senado em 1922. A situação é bastante complexa. Ao feminismo revolucionário, ao feminismo independente de MmeBrunschwig juntou-se o feminismo cristão. Bento XV, em 1919, pronuncia-se a favor do voto feminino; Monsenhor Baudrillart e o padre Sertillangesfazem ardorosa propaganda nesse sentido; os católicos pensam, com efeito, que as mulheres representam, na França, um elemento conservador ereligioso; é, em verdade, o que temem os radicais. A verdadeira razão de sua oposição está no medo que têm de um deslocamento da votação em sedando às mulheres o direito de voto. No Senado, numerosos católicos, o grupo da União Republicana e, por outro lado, os partidos de extrema esquerdasão pelo voto das mulheres; mas a maioria da Assembleia é contra. Até 1932, ela vale-se de processos dilatórios e recusa-se a discutir os projetosconcernentes ao sufrágio feminino. Nesse ano, entretanto, tendo a Câmara aprovado por 319 votos contra um a emenda que dava às mulheres direitode votar e eleger-se, o Senado abriu um debate que durou várias sessões e a emenda foi rejeitada. A ata da última sessão, publicada pelo Officiel, é dasmais significativas; nela se encontram os argumentos que os antifeministas desenvolveram durante meio século em obras cuja enumeração seriafastidiosa. Em primeiro lugar, os argumentos galantes como: gostamos demais das mulheres para deixá-las votar; exalta-se, à maneira de Proudhon, a“verdadeira mulher” que aceita o dilema “cortesã ou dona de casa”; votando, a mulher perderia seu encanto; está num pedestal, que não desça dele;tem tudo a perder e nada a ganhar tornando-se eleitora; governa os homens sem necessidade da cédula eleitoral etc. Mais gravemente objeta-se com ointeresse da família: o lugar da mulher é em casa; as discussões políticas provocariam a discórdia no lar. Alguns confessam um antifeminismomoderado. As mulheres são diferentes do homem. Não fazem serviço militar. Deverão votar as prostitutas? Outros afirmam com arrogância suasuperioridade de machos: votar é uma obrigação, não um direito, as mulheres não são dignas desse dever. São menos inteligentes e menos instruídasdo que os homens. Se votassem, os homens se tornariam efeminados. Não têm educação política, votariam em obediência ao marido. Se querem serlivres, que se libertem antes de tudo de suas costureiras. Propõe-se este argumento de soberba ingenuidade: há mais mulheres do que homens naFrança. A despeito da pobreza de todas essas objeções, foi preciso esperar até 1945 para que a francesa conquistasse todas as suas capacidadespolíticas.A Nova Zelândia já em 1893 concedera à mulher a plenitude de seus direitos; seguiu-se a Austrália em 1908. Mas, na Inglaterra e na América do Norte,a vitória foi difícil. A Inglaterra vitoriana restringia imperiosamente a mulher ao lar; Jane Austen escondia-se para escrever. Era preciso muita corageme um destino excepcional para tornar-se George Eliot ou Emily Brontë. Em 1888, um sábio inglês escrevia: “As mulheres não somente não são a raçacomo não são sequer a metade da raça, mas sim uma subespécie destinada unicamente à reprodução.” Mrs. Fawcett funda, em fins do século, omovimento sufragista, mas trata-se, como na França, de um movimento tímido. É por volta de 1903 que as reivindicações femininas assumem umafeição particular. A família Pankhurst cria em Londres a Woman Social and Political Union, que se alia ao Partido Trabalhista e empreende uma açãoresolutamente militante. É a primeira vez na história que se vê as mulheres tentarem um esforço como mulheres; é o que empresta um interesseparticular à aventura das sufragistas da Inglaterra e da América do Norte. Durante quinze anos realizam uma política de pressão que lembra por certosaspectos a atitude de um Gandhi. Recusando a violência, inventam sucedâneos mais ou menos engenhosos. Invadem o Albert Hall durante os comíciosdo Partido Liberal, brandindo flâmulas de pano ordinário em que se inscrevem as palavras Vote for women; penetram à força no gabinete de LordeAsquith, promovem comícios em Hyde Park ou Trafalgar Square, desfilam pelas ruas com cartazes, fazem conferências; no decurso das manifestações,insultam os policiais ou atacam-nos a pedradas a fim de suscitar processos; na prisão, adotam a tática da greve da fome; angariam fundos, reúnem emtorno delas milhões de mulheres e de homens; impressionam a tal ponto a opinião que, em 1907, há duzentos membros do Parlamento que constituemuma comissão para propugnar pelo sufrágio feminino; a partir de então, todos os anos alguns deles apresentam um projeto de lei favorável ao voto dasmulheres, projeto que é sempre rejeitado com os mesmos argumentos. Foi em 1907 que a WSPU organizou a primeira marcha pelo Parlamento e daqual participam numerosas trabalhadoras de xale e algumas mulheres da aristocracia. A polícia rechaçou-as, mas no ano seguinte, tendo havido umaameaça de se proibir às mulheres casadas o trabalho em certas galerias das minas, as operárias do Lancashire foram convidadas pela WSPU para umgrande comício em Londres. Houve novas prisões a que as sufragistas responderam, em 1909, com uma prolongada greve de fome. Libertadas,


organizam novos cortejos; uma delas, montada em um cavalo lambuzado de cal, representa a rainha Isabel. A 18 de julho de 1910, dia em que a leisobre o sufrágio feminino deveria ser apresentada à Câmara, houve em Londres um desfile de nove quilômetros de extensão; rejeitada a lei,verificaram-se novos comícios e novas prisões. Em 1912, elas adotam uma tática mais violenta: incendeiam casas inabitadas, laceram quadros,espezinham canteiros, jogam pedras contra a polícia; ao mesmo tempo, enviam delegação após delegação a Lloyd George e a Sir Edmond Grey;escondem-se no Albert Hall e interrompem ruidosamente os discursos de Lloyd George. A guerra susta suas atividades. É muito difícil saber em quemedida tal ação apressou os acontecimentos. O direito de voto foi concedido às inglesas primeiramente em 1918, de maneira restrita, e em seguida em1928, sem restrições. Foram em grande parte os serviços que prestaram durante a guerra que lhes valeram o êxito.As mulheres norte-americanas encontram-se, a princípio, mais emancipadas do que as europeias. No início do século XIX, essas mulheres viram-seobrigadas a tomar parte no duro trabalho de pioneiro, executado pelos homens; lutaram ao lado deles. Eram muito menos numerosas do que eles e emconsequência valorizaram-se muitíssimo. Mas, pouco a pouco, sua condição aproximou-se da das mulheres do Velho Mundo. Conservou-se a galanteriacom que as tratavam. E elas conservaram também certos privilégios culturais e uma posição dominante dentro da família; as leis concediam-lhesbenevolamente um papel religioso e moral; mas as rédeas da sociedade continuavam, contudo, nas mãos dos homens. Algumas começaram, por volta de1830, a reivindicar direitos políticos. Empreenderam igualmente uma campanha a favor dos negros. Tendo-lhe sido vedado participar do congressoantiescravista de Londres, em 1840, a quacre Lucretia Mott fundou uma associação feminista. Numa reunião realizada em 1840 em Sêneca Falls,redigiram elas um manifesto de inspiração quacre e que deu o tom a todo o feminismo norte-americano. “O homem e a mulher foram criados iguais eprovidos pelo Criador de direitos inalienáveis... O governo é feito tão somente para salvaguardar esses direitos... O homem faz da mulher casada umamorta cívica... Usurpa as prerrogativas de Jeová que é o único a designar aos homens sua esfera de ação.” Três anos depois, Mme Beecher-Stoweescreve A cabana do pai Tomás, que subleva a opinião pública a favor dos negros. Emmerson e Lincoln apoiam o movimento feminista. Quando rebentaa Guerra da Secessão, as mulheres dela participam com ardor: mas em vão solicitam que a emenda que outorga o direito de voto aos negros assim seredija: “Nem cor nem sexo... constituem obstáculo ao direito eleitoral.” Entretanto, ante a ambiguidade de um dos artigos da emenda, Miss Anthony,grande líder feminista, vale-se do pretexto para votar em Rochester, juntamente com quatorze companheiras. Foi condenada a cem dólares de multa.Em 1869, funda ela a Associação Nacional para o Sufrágio das Mulheres e nesse mesmo ano o estado de Wyoming concede o direito de voto àsmulheres. Mas é somente em 1893 que o Colorado e, em seguida, em 1896, Idaho e Utah seguem o exemplo. A partir de então os progressos são muitolentos. Mas no terreno econômico as mulheres alcançam maior êxito do que na Europa. Há, em 1900 nos Estados Unidos, 5 milhões de mulherestrabalhando, das quais 1.300.000 na indústria, 500 mil no comércio; bom número delas encontra-se no comércio, na indústria, nos negócios e nasprofissões liberais. Há advogadas, médicas e 3.373 mulheres-pastores. A famosa Mary Baker Eddy funda a Christian Scientist Church. As mulhereshabituam-se a reunir-se em clubes, os quais, em 1900, agregam cerca de dois milhões de membros.Entretanto, somente nove Estados deram às mulheres direito de voto. Em 1913, o movimento sufragista organiza-se nos moldes do movimento militanteinglês. Dirigem-no duas mulheres: Miss Stevens e uma jovem quacre, Alice Paul. Obtêm de Wilson autorização para desfilar num grande cortejo comflâmulas e insígnias; organizam, em seguida, uma campanha de conferências, comícios, desfiles e manifestações de toda espécie. Dos nove Estados emque o voto feminino é admitido, as eleitoras dirigem-se com grande solenidade ao Capitólio, reclamando o sufrágio feminino para toda a nação. EmChicago vê-se pela primeira vez as mulheres se unirem a fim de libertar seu sexo: a assembleia transforma-se no “Partido das Mulheres”. Em 1917, assufragistas inventam uma nova tática: instalam-se de plantão às portas da Casa Branca, brandindo flâmulas e, muitas vezes, acorrentadas às gradespara que não as possam expulsar. No fim de seis meses prendem-nas e enviam-nas à penitenciária de Oxcaqua; elas fazem greve de fome e acabamsendo soltas. Novos desfiles acarretam arruaças. O governo consente, afinal, em nomear uma Comissão de sufrágio na Câmara. A Comissão Executivado Partido das Mulheres participa de uma conferência em Washington; em consequência, a emenda a favor do voto feminino é apresentada e aprovadapela Câmara a 10 de janeiro de 1918. Resta conseguir o voto do Senado. Não tendo Wilson prometido exercer uma pressão suficiente, as sufragistasrecomeçam a fazer manifestações; realizam um comício às portas da Casa Branca. O presidente resolve dirigir um apelo ao Senado, mas a emenda érejeitada por uma maioria de dois votos. É um Congresso republicano que aprova a emenda em junho de 1919. A luta pela completa igualdade dossexos prossegue, em seguida, durante dez anos. Na sétima conferência das repúblicas americanas realizada em Havana, em 1928, as mulheres obtêm acriação de uma Comissão Interamericana das Mulheres. Em 1933, os tratados de Montevidéu melhoram a condição da mulher mediante uma convençãointernacional. Dezenove repúblicas americanas assinam essa convenção, que concede às mulheres a igualdade de todos os direitos.Na Suécia existe também um movimento feminista muito importante. Em nome das velhas tradições, as suecas reivindicam o direito “à instrução, aotrabalho, à liberdade”. São principalmente as letradas que dirigem a luta e é o aspecto moral do problema que as interessa primeiramente; mais tarde,reunidas em associações poderosas, elas conquistam os liberais, mas chocam-se contra os conservadores. As norueguesas, em 1907, e as finlandesas,em 1906, obtêm o sufrágio que as suecas ainda têm de esperar durante muitos anos.Os países latinos, como os países orientais, oprimem a mulher pelo rigor dos costumes mais do que pelo rigor das leis. Na Itália, o fascismo freousistematicamente a evolução do feminismo. Procurando a aliança da Igreja, respeitando a família e prolongando uma tradição de escravidão feminina, aItália fascista escravizou duplamente a mulher: aos poderes públicos e ao marido. A situação foi muito diferente na Alemanha. Em 1790, o estudanteHippel lançara o primeiro manifesto do feminismo alemão. No início do século XIX florescera um feminismo sentimental, análogo ao de George Sand.Em 1848, a primeira feminista alemã, Louise Otto, reclamava para as mulheres o direito de ajudar a transformar o país: seu feminismo eraessencialmente nacionalista. Ela fundava em 1865 a Associação Geral das Mulheres Alemãs. Entrementes, os socialistas alemães reclamam, com Bebel,a abolição da desigualdade dos sexos. Clara Zetkin entra, em 1892, para os conselhos do Partido. Surgem associações operárias femininas e uniões demulheres socialistas agrupadas em uma Federação. As alemãs malogram em 1914 na tentativa de criar um exército nacional das mulheres, masparticipam com ardor do esforço de guerra. Depois da derrota alemã, obtêm o direito de voto e tomam parte na vida política: Rosa Luxemburgo lutadentro do grupo Spartacus ao lado de Liebknecht e morre assassinada em 1919. A maioria das alemãs pronuncia-se pelo partido da ordem; muitasdelas têm assento no Reichstag. É, portanto, a mulheres emancipadas que Hitler impõe de novo o ideal de Napoleão: Küche, Kirche, Kinder; “Apresença de uma mulher desonraria o Reichstag”, declarou ele. Como o nazismo era anticatólico e antiburguês, deu à mãe um lugar privilegiado; aproteção outorgada às mães solteiras e aos filhos naturais libertou, em grande parte, a mulher do casamento; como em Esparta, ela dependia do Estadomuito mais do que de qualquer indivíduo, o que lhe dava ao mesmo tempo maior e menor autonomia do que a uma burguesa vivendo em regimecapitalista.Foi na Rússia que o movimento feminista teve mais amplitude. Ele se esboçara em fins do século XIX, entre as estudantes da intelligentsia; estasinteressam-se menos pela sua causa pessoal do que pela ação revolucionária em geral; vão “ao povo”, lutam contra o Okrana com métodos niilistas:Vera Zassulitch liquida, em 1878, o chefe de polícia Trepov. Durante a guerra russo-japonesa, as mulheres substituem os homens em muitos ofícios;tomam consciência de si mesmas e a União Russa pelos Direitos da Mulher reivindica a igualdade política dos sexos; cria-se no seio da primeira Dumaum grupo parlamentar dos direitos da mulher, que não tem, porém, eficiência. É da revolução que virá a emancipação das trabalhadoras. Já em 1905elas tinham participado das greves políticas de massa deflagradas no país, tinham-se entrincheirado nas barricadas. Em 1917, alguns dias antes daRevolução, por ocasião do Dia Internacional das Mulheres, 8 de março, elas realizam grande manifestação nas ruas de São Petersburgo exigindo pão,paz e o retorno dos maridos. Tomam parte na insurreição de outubro; entre 1918 e 1920 desempenham grande papel econômico e até militar na luta daURSS contra os invasores. Fiel à tradição marxista, Lenin ligou a emancipação das mulheres à dos trabalhadores; deu-lhes a igualdade política e aigualdade econômica.O artigo 122 da Constituição de 1936 diz que: “Na URSS, a mulher goza dos mesmos direitos que o homem em todos os campos da vida econômica,oficial, cultural, pública e política.” E esses princípios foram especificados pela Internacional Comunista. Esta reclama: “Igualdade social da mulher edo homem perante a lei e na vida prática. Transformação radical do direito conjugal e do código da família. Reconhecimento da maternidade comofunção social. Entrega à sociedade do encargo de cuidar da educação das crianças e adolescentes. Luta civilizadora organizada contra a ideologia e astradições que fazem da mulher uma escrava.” No terreno econômico, as conquistas da mulher foram extraordinárias. Obteve a igualdade de salário comos trabalhadores masculinos e participou intensamente da produção; com isso adquiriu uma importância política e social considerável. Na brochuraeditada recentemente pela associação França-URSS, informa-se que nas eleições gerais de 1939 havia 457.000 deputados do sexo feminino nosSovietes regionais, de departamentos, de cidades e de aldeias, 1.480 nos Sovietes superiores das repúblicas socialistas, 227 com assento no SovieteSupremo e cerca de 10 milhões de membros de sindicatos. As mulheres constituíam 40% do contingente dos operários e empregados da URSS: entre osstakchanovistas contava-se grande número de operárias. Conhece-se a contribuição da mulher russa para a última guerra; realizaram enorme trabalho,inclusive nos setores de produção em que predominam as profissões masculinas: metalurgia e minas, indústria da madeira, estradas de ferro etc.Distinguiram-se também como aviadoras, paraquedistas, e organizaram exércitos guerrilheiros.Essa participação da mulher na vida pública suscitou um problema difícil: o de seu papel na vida familiar. Durante todo um período, houve tentativaspara libertá-la dos deveres domésticos: a 16 de novembro de 1924, a Assembleia Geral do Comintern proclamou que: “A revolução é impotenteenquanto subsistem a noção de família e as relações familiares.” O respeito votado à livre união, a facilidade dos divórcios, a regulamentação legal doaborto asseguravam a liberdade da mulher perante o homem: leis sociais sobre licenças à parturiente, creches, jardins de infância etc. aliviavam osencargos de maternidade. É difícil, através dos testemunhos apaixonados e contraditórios, deslindar a situação concreta da mulher; o certo é que hojeas exigências da repopulação levaram a uma política familiar diferente: a família apresenta-se como a célula social elementar, e a mulher é a um tempotrabalhadora e dona de casa.61 A moral sexual é das mais estritas; depois da lei de junho de 1936, que a de 7 de junho de 1941 reforçou, o aborto foiproibido, o divórcio quase suprimido; o adultério foi condenado pelos costumes. Estreitamente subordinada ao Estado, como todos os trabalhadores,estreitamente ligada ao lar, mas com acesso à vida política e à dignidade que confere o trabalho produtor, a mulher russa encontra-se numa condiçãosingular que seria útil estudar de muito perto em sua singularidade; infelizmente, as circunstâncias me impedem de fazê-lo.Na sessão que acaba de se realizar na ONU, a comissão para a condição da mulher sugeriu que a igualdade de direitos dos dois sexos fosse reconhecidapor todas as nações e aprovou várias moções tendentes a fazer desse estatuto legal uma realidade concreta. Parece, pois, que a partida está ganha. O


futuro não pode conduzir senão a uma assimilação sempre mais profunda da mulher à sociedade outrora masculina. * * * A partir de uma visão de conjunto dessa história, várias conclusões podem ser extraídas. E primeiramente esta: toda a história das mulheres foi feitapelos homens. Assim como na América do Norte não há um problema negro, e sim um problema branco;62 assim como “o antissemitismo não é umproblema judeu; é nosso problema”,63 o problema da mulher sempre foi um problema de homens. Viu-se por que razões tiveram eles, no ponto departida, a força física juntamente com o prestígio moral; criaram valores, costumes, religiões; nunca as mulheres lhes disputaram esse império.Algumas isoladas — Safo, Christine de Pisan, Mary Wollstonecraft, Olympe de Gouges — protestaram contra a dureza de seu destino; ocorreram, porvezes, manifestações coletivas: mas as matronas romanas, ligando-se contra a lei Ópia, ou as sufragistas anglo-saxônias, só conseguiram exercer umapressão porque os homens estavam dispostos a aceitá-la. Eles é que sempre tiveram a sorte da mulher nas mãos; e não a decidiram em função dointeresse feminino; para seus próprios projetos, seus temores, suas necessidades foi que atentaram. Se adoraram a deusa-mãe foi porque a Natureza osamedrontava; logo que o instrumento de bronze lhes permitiu enfrentá-la, instituíram o patriarcado; foi o conflito entre a família e o Estado que entãodefiniu o estatuto da mulher; foi a atitude do cristão diante de Deus, do mundo e da própria carne que se refletiu na condição que lhe determinaram; aquerela que se chamou na Idade Média “querela das mulheres” foi realizada entre clérigos e leigos a propósito do casamento e do celibato; foi o regimesocial fundado na propriedade privada que acarretou a tutela da mulher casada, e a revolução técnica realizada pelos homens que libertou as mulheresde hoje. Foi a evolução da ética masculina que trouxe a redução de numerosas famílias pelo controle de natalidade e libertou parcialmente a mulher dasservidões da maternidade. O próprio feminismo nunca foi um movimento autônomo; foi, em parte, um instrumento nas mãos dos políticos e, em parte,um epifenômeno refletindo um drama social mais profundo. Nunca as mulheres constituíram uma casta separada: em verdade nunca elas procuraramdesempenhar um papel na história enquanto sexo. As doutrinas que reclamam o advento da mulher enquanto carne, vida, imanência, enquanto Outro,são ideologias masculinas que não exprimem de modo algum as reivindicações femininas. A maioria das mulheres aceita resignadamente a sorte semtentar nenhuma ação; as que buscaram mudá-la não pretenderam encerrar-se em sua singularidade, nem fazê-la triunfar, mas sim sobrepujá-la. Quandointervieram no desenrolar dos acontecimentos, fizeram-no de acordo com os homens e dentro das perspectivas masculinas.Essa intervenção, no conjunto, foi secundária e episódica. As classes em que as mulheres gozavam de certa autonomia econômica e participavam daprodução eram as classes oprimidas e, como trabalhadoras, eram as mulheres mais escravas ainda do que os trabalhadores. Nas classes dirigentes asmulheres eram parasitas e, como tais, submetidas às leis masculinas: em ambos os casos, a ação era-lhes quase impossível. Os direitos e os costumesnem sempre coincidiam: e, entre eles, o equilíbrio se estabelecia de maneira que a mulher nunca fosse concretamente livre. Na antiga repúblicaromana as condições econômicas dão à matrona poderes concretos, mas ela não tem nenhuma independência legal. O mesmo ocorre comumente nascivilizações camponesas e na pequena burguesia comerciante: senhora e serva dentro de casa, a mulher é socialmente uma menor. Inversamente, nasépocas em que a sociedade se desagrega, a mulher se emancipa; mas, deixando de ser vassala do homem, perde seu feudo; tem uma liberdadeexclusivamente negativa que só se traduz pela licenciosidade e pela dissipação: assim é durante a decadência romana, o Renascimento, o século XVIII eo Diretório. Ou ela consegue encontrar emprego, mas é então escravizada, ou se liberta e não tem o que fazer de si mesma. É notável, ademais, que amulher casada tenha tido seu lugar na sociedade, mas sem gozar de nenhum direito, ao passo que a celibatária, honesta ou prostituta, tinha todas ascapacidades do homem. Mas até o século atual sempre se achou mais ou menos excluída da vida social. Dessa oposição dos direitos aos costumesresultou, entre outros, este curioso paradoxo: o amor livre não é proibido pela lei, enquanto o adultério é um delito; muitas vezes, entretanto, a jovemque “erra” é desonrada, ao passo que a má conduta da mulher casada é considerada como indulgência: numerosas jovens, do século XVII aos nossosdias, casavam-se para poder ter amantes livremente. Com esse engenhoso sistema, a maioria das mulheres é estreitamente controlada: são necessáriascircunstâncias excepcionais para que entre essas duas séries de limitações, abstratas ou concretas, uma personalidade feminina consiga se afirmar. Asmulheres que realizaram obras comparáveis às dos homens são as que a força das instituições sociais exaltaram além de toda diferenciação sexual.Isabel, a Católica, Isabel da Inglaterra, Catarina da Rússia não eram nem mulher nem homem: eram soberanas. É de observar que, uma vez abolidasocialmente, sua feminilidade não mais tenha constituído uma inferioridade: a proporção de rainhas que realizaram grandes governos é infinitamentesuperior à dos grandes reis. A religião opera a mesma transformação: Catarina de Siena, santa Teresa são almas santas acima de qualquer condiçãofisiológica; suas vidas seculares e suas vidas místicas, suas ações e seus escritos situam-se em um nível que poucos homens alcançaram. Tem-se odireito de pensar que, se outras mulheres malograram em marcar profundamente o mundo, foi porque se acharam confinadas em sua condição. Quaseque só puderam intervir de maneira negativa ou oblíqua. Judite, Charlotte Corday, Vera Zassulitch matam; as mulheres da Fronda conspiram. Durante aRevolução, durante a Comuna, mulheres lutam ao lado dos homens contra a ordem estabelecida; a uma liberdade sem direitos, sem poder, é permitidoretesar-se na recusa e na revolta, ao passo que lhe é proibido participar de uma construção positiva; quando muito conseguirá ela imiscuir-se poratalhos e desvios nos empreendimentos masculinos. Aspásia, Mme de Maintenon, a princesa des Ursins foram conselheiras acatadas; contudo foipreciso que consentissem em ouvi-las. Os homens exageram, de bom grado, o alcance dessas influências quando querem convencer a mulher de que lhecabe a melhor parte; na realidade, as vozes femininas calam-se no ponto em que principiam as ações concretas; foi-lhes possível suscitar guerras, masnão sugerir a tática de uma batalha; e quase que só orientaram a política na medida em que esta se reduzia à intriga: as alavancas de comando domundo nunca estiveram nas mãos das mulheres; não influíram nas técnicas nem na economia, não fizeram nem desfizeram Estados, não descobrirammundos. Por causa delas, muitos acontecimentos ocorreram, mas elas foram muito mais pretextos do que agentes. O suicídio de Lucrécia só tem valorsimbólico. O martírio é permitido ao oprimido; durante as perseguições dos cristãos, após as derrotas sociais ou nacionais, mulheres desempenharamesse papel de testemunhas; mas um mártir nunca mudou a face do mundo. As próprias manifestações e iniciativas femininas só se valorizaram quandouma decisão masculina as prolongou eficientemente. As norte-americanas reunidas em torno de Mrs. Beecher-Stowe sublevam violentamente a opiniãopública contra a escravidão, mas as verdadeiras causas da Guerra da Secessão não foram de ordem sentimental. A “Jornada das Mulheres”, de 8 demarço de 1917, talvez tenha precipitado a Revolução Russa: não passou, entretanto, de um sinal. Em sua maioria, as heroínas femininas são de umaespécie barroca: aventureiras, originais, menos notáveis pela importância de suas ações do que pela singularidade de seus destinos; assim, secompararmos Joana d’Arc, Mme Roland, Flora Tristan com Richelieu, Danton, Lenin, vemos que a grandeza delas é principalmente subjetiva: sãofiguras exemplares mais do que agentes históricos. O grande homem jorra da massa e é levado pelas circunstâncias: a massa das mulheres acha-se àmargem da história e as circunstâncias são para cada uma delas um obstáculo, e não um trampolim. Para mudar a face do mundo é preciso estarsolidamente ancorado nele; mas as mulheres solidamente arraigadas na sociedade são as que a esta se submetem. A não ser quando designadas para aação por direito divino — e nesse caso mostraram-se tão capazes quanto os homens —, a ambiciosa, a heroína são monstros estranhos. É somentedepois que as mulheres começam a sentir-se à vontade nesta terra que se vê uma Rosa Luxemburgo, uma Mme Curie. Elas demonstram brilhantementeque não foi a inferioridade feminina que determinou sua insignificância histórica: sua insignificância histórica foi que as votou à inferioridade.64O fato é flagrante no terreno em que melhor conseguiram afirmar-se, isto é, no terreno cultural. Sua sorte está profundamente ligada à das letras e dasartes; já entre os germânicos, as funções de profeta e sacerdote cabiam às mulheres. Porque estão à margem do mundo, é que os homens se voltampara elas quando se esforçam, pela cultura, por ultrapassar os limites de seu universo e ascender ao que é outro. O misticismo cortês, a curiosidadehumanista, o gosto pela beleza que desabrocha durante o Renascimento italiano, o preciosismo do século XVII, o ideal progressista do século XVIIIprovocam, sob diversas formas, uma exaltação da feminilidade. A mulher é então o principal polo da poesia, a substância da obra de arte; os lazeres deque dispõe permitem-lhe consagrar-se aos prazeres do espírito: inspiradora, juiz, público do escritor, ela torna-se seu êmulo. É ela muitas vezes que fazprevalecer um modo de sensibilidade, uma ética que alimenta os corações masculinos. E, assim, ela intervém em seu próprio destino: a instrução dasmulheres é uma conquista em grande parte feminina. Entretanto, se esse papel coletivo desempenhado pelas mulheres intelectuais é importante, suascontribuições individuais são em conjunto de menor valor. É porque não está empenhada na ação que a mulher tem um lugar privilegiado nos domíniosdo pensamento e da arte; mas a arte e o pensamento têm na ação suas fontes vivas. Achar-se situada à margem do mundo não é posição favorável paraquem quer recriá-lo. Aqui também, para emergir do “dado” é preciso antes de tudo estar nele profundamente enraizado. As realizações pessoais sãoquase impossíveis nas categorias humanas coletivamente mantidas em situação inferior. “Com saias, aonde querem que cheguemos?”, indagava MariaBashkirtseff. E Stendhal: “Todos os gênios nascidos mulher estão perdidos para a felicidade do público.” Em verdade, ninguém nasce gênio: torna-segênio; e a condição feminina impossibilitou até agora esse “tornar-se”.Os antifeministas extraem da história dois argumentos contraditórios: 1 0) as mulheres jamais criaram algo importante; 20) a situação da mulher jamaisimpediu o surgimento de grandes personalidades femininas. Tais afirmações são eivadas de má-fé; os êxitos de algumas privilegiadas não compensamnem desculpam o rebaixamento sistemático do nível coletivo; e o fato de serem esses êxitos raros e limitados prova precisamente que as circunstânciaslhes são desfavoráveis. Como o sustentaram Christine de Pisan, Poulain de la Barre, Condorcet, Stuart Mill, Stendhal, a mulher nunca teve chance emnenhum terreno. Eis por que reclamam elas hoje, em grande número, novo estatuto; e, mais uma vez, sua reivindicação não consiste em seremexaltadas em sua feminilidade: elas querem que em si próprias, como no resto da humanidade, a transcendência supere a imanência; elas querem quelhes sejam concedidos, enfim, os direitos abstratos e as possibilidades concretas, sem a conjugação dos quais a liberdade não passa de mistificação.65Essa vontade se está realizando. Mas o período que atravessamos é um período de transição; este mundo que sempre pertenceu aos homens aindacontinua nas mãos deles; as instituições e os valores da civilização patriarcal sobrevivem a si mesmos em grande parte. Os direitos abstratos aindaestão longe de ser integralmente reconhecidos em toda parte às mulheres. Na Suíça elas ainda não votam; na França, a lei de 1942 mantém, sob formaatenuada, as prerrogativas do marido. E os direitos abstratos, acabamos de dizê-lo, nunca bastaram para assegurar à mulher uma influência concretasobre o mundo; entre os dois sexos não existe, ainda hoje, v erdadeira igualdade.


Antes de tudo, os encargos do casamento permanecem muito mais pesados para a mulher do qu e para o homem. Já vimos que as servidões damaternidade foram reduzidas pelo emprego — confessado ou clandestino — do controle de natalidade; mas essa prática não é universalmentedifundida, nem rigorosamente aplicada. Sendo o aborto oficialmente proibido, muitas mulheres comprometem a saúde com medidas abortivas nãocontroladas ou sucumbem sob o número de filhos. O cuidado dos filhos e do lar é ainda quase inteiramente suportado pela mulher. Na França,particularmente, a tradição antifeminista é tão tenaz que um homem acreditaria diminuir-se se participasse de tarefas outrora reservadas às mulheres.Disso resulta que a mulher pode mais dificilmente do que o homem conciliar a vida familiar com o papel de trabalhadora. No caso em que tal esforço éexigido dela pela sociedade, sua existência faz-se muito mais penosa que a do marido.Consideremos, por exemplo, a sorte das camponesas. Na França, constituem elas a maioria das mulheres que participam do trabalho produtor e sãogeralmente casadas. A celibatária, com efeito, permanece o mais das vezes servente na casa paterna ou na casa de um irmão ou de uma irmã; só setorna dona de um lar aceitando submeter-se a um marido; os costumes e tradições determinaram-lhe papéis diversos segundo as regiões: a camponesanormanda preside as refeições, ao passo que a mulher corsa não se senta à mesa dos homens. Em todo caso, desempenhando, na economia doméstica,papel dos mais importantes, ela participa das responsabilidades do homem, está associada aos seus interesses, reparte com ele a propriedade; érespeitada e é muitas vezes quem efetivamente governa. Sua situação lembra a que tinha nas antigas comunidades agrícolas. Ela tem, frequentemente,tanto ou mais prestígio moral que o marido, mas sua condição concreta é muito mais dura. Incumbe-lhe, a ela exclusivamente, cuidar do jardim, dogalinheiro, do curral, do chiqueiro; executa trabalhos pesados: limpa os estábulos, espalha o esterco e a semeadura, ara, capina, ceifa; cava, arrancaervas daninhas, colhe, vindima e por vezes ajuda a carregar e descarregar as carroças de palha, feno, lenha, forragem etc. Ademais, prepara asrefeições, cuida da limpeza da casa: lava, costura etc., atende aos duros encargos da maternidade e dos filhos. Levanta-se de madrugada, dá comida àsaves do galinheiro e aos animais domésticos, serve a primeira refeição dos homens, cuida das crianças e vai trabalhar no campo, no bosque ou nahorta; vai buscar água na fonte, serve a segunda refeição, lava a louça, trabalha novamente no campo até a hora do jantar; depois da última refeiçãoaproveita a noite para costurar, limpar, debulhar o milho etc. Como não tem tempo para se ocupar de sua saúde, mesmo durante a gravidez, deforma-sedepressa, ficando prematuramente enrugada e gasta, corroída pelas doenças. As poucas compensações que o homem encontra de vez em quando navida social são-lhe recusadas: ele vai à cidade aos domingos e dias de feira, encontra-se com outros homens, vai ao bar, bebe, joga cartas, caça, pesca.Ela fica em casa e não conhece lazeres. Somente as camponesas abastadas, que têm criadas ou que não se veem obrigadas a trabalhar no campo, levamuma vida harmonicamente equilibrada. São socialmente respeitadas e gozam de certa autoridade no lar, sem ser esmagadas pelas tarefas necessárias.Mas, em geral, o trabalho rural reduz a mulher à qualidade de animal de carga.A comerciante, a dona de alguma pequena empresa sempre foram privilegiadas; são as únicas a quem o código, desde a Idade Média, outorgacapacidades civis. A merceeira, a leiteira, a dona de hotel, a vendedora de cigarros têm uma posição equivalente à do homem: celibatárias ou viúvas,são por si mesmas uma razão social; casadas, gozam da mesma autonomia que o marido. Têm a sorte de seu trabalho se exercer no mesmo local do lare de não ser em geral muito absorvente.Com a operária, a empregada, a secretária, a vendedora, que trabalham fora de casa, a situação é muito diferente. É muito mais difícil para elasconciliar o ofício com a vida doméstica (compras, refeições, limpeza, cuidado da roupa, coisas que lhes tomam três horas e meia de trabalho cotidiano,pelo menos, e seis horas no domingo, o que é considerável quando se acresce ao número de horas da fábrica ou do escritório). Quanto às profissõesliberais, embora advogadas, médicas, professoras consigam quem as auxilie em casa, o lar e os filhos representam para elas encargos e preocupaçõesque constituem um pesado handicap. Na América do Norte o trabalho doméstico é simplificado pelo emprego de técnicas engenhosas; mas aapresentação e a elegância que se exigem da mulher que trabalha impõem-lhe outras servidões; ela continua responsável pela casa e pelos filhos. Poroutro lado, a mulher que busca sua independência no trabalho tem muito menos possibilidades do que seus concorrentes masculinos. Em muitosofícios, seu salário é inferior aos dos homens; suas tarefas são menos especializadas e, portanto, menos bem pagas do que as de um operárioqualificado e, em igualdade de condições, ela é menos bem remunerada. Pelo fato de ser uma recém-chegada ao mundo dos homens, tem menorespossibilidades de êxito. A homens e mulheres igualmente repugna submeterem-se às ordens de uma mulher, têm mais confiança no homem; ser mulher,se não chega a constituir uma tara, é pelo menos uma singularidade. Para realizar-se, a mulher precisa assegurar-se um apoio masculino. São oshomens que ocupam os melhores lugares, que detêm os postos mais importantes. É essencial sublinhar que homens e mulheres constituemeconomicamente duas castas.66O fato que determina a condição atual da mulher é a sobrevivência obstinada, na civilização nova que se vai esboçando, das tradições mais antigas. É oque não percebem os observadores apressados que estimam ser a mulher inferior às possibilidades que lhe são oferecidas, ou que só veem nessaspossibilidades tentações perigosas. Na verdade, a situação é sem equilíbrio e é por essa razão que lhe é difícil adaptar-se a ela. Abrem-se as fábricas, osescritórios, as faculdades às mulheres, mas continua-se a considerar que o casamento é para elas uma carreira das mais honrosas e que as dispensa dequalquer outra participação na vida coletiva. Como nas civilizações primitivas, o ato amoroso constitui para ela um serviço que tem o direito de cobrarmais ou menos diretamente. A não ser na URSS,67 em toda parte se permite à mulher moderna encarar o corpo como um capital passível de exploração.A prostituição é tolerada,68 a galanteria encorajada. A mulher casada é autorizada a viver a expensas do marido; ademais, adquire uma dignidade socialmuito superior à da celibatária. Os costumes estão longe de outorgar a esta possibilidades sexuais idênticas às do homem celibatário; a maternidade,em particular, é-lhe, por assim dizer, proibida, sendo a mãe solteira objeto de escândalo. Como, portanto, não conservaria o mito de Cinderela todo oseu valor?69 Tudo encoraja ainda a jovem a esperar do “príncipe encantado” fortuna e felicidade, de preferência a tentar sozinha uma difícil e incertaconquista. E, principalmente, pode ela assim esperar ascender, graças a ele, a uma casta superior à sua própria, milagre que o trabalho de uma vidainteira não compensaria. Mas uma tal esperança é nefasta, porque divide suas forças e seus interesses;70 e essa divisão é, talvez, o maiorhandicap contra a mulher. Os pais ainda educam suas filhas antes com vista ao casamento do que favorecendo seu desenvolvimento pessoal. E elasveem nisso tantas vantagens que as próprias o desejam; e desse estado de espírito resulta serem elas o mais das vezes menos especializadas, menossolidamente formadas do que seus irmãos, e não se empenham integralmente em suas profissões; desse modo, destinam-se a permanecer inferiores e ocírculo vicioso fecha-se, pois essa inferioridade reforça nelas o desejo de encontrar um marido. Todo benefício tem, como reverso, um encargo; mas seos encargos são demasiadamente pesados, o benefício já se apresenta como uma servidão; para a maioria dos trabalhadores, o trabalho é hoje umacorveia ingrata; para a mulher, não é essa tarefa compensada por uma conquista concreta de sua dignidade social, de sua liberdade de costum es, desua autonomia econômica; é natural que numerosas operárias e empregadas só vejam no direito ao trabalho uma obrigação de que o casamento aslibertaria. Entretanto, pelo fato de ter tomado consciência de si e de poder libertar-se também do casamento pelo trabalho, a mulher não mais aceita asujeição com docilidade. O que ela desejaria é que a conciliação da vida familiar com um ofício não exigisse dela desesperantes acrobacias. Mesmoassim, enquanto subsistem as tentações da facilidade — em virtude da desigualdade econômica que favorece certos indivíduos e do direito reconhecidoà mulher de se vender a um desses privilegiados —, ela precisa de um esforço moral maior que o do homem para escolher o caminho da independência.Não se compreendeu suficientemente que a tentação é também um obstáculo, e até dos mais perigosos. E essa tentação se acompanha de umamistificação, porquanto, na realidade, só uma ganha, entre milhares, na loteria do bom casamento. A época atual convida as mulheres ao trabalho,obriga-as mesmo a isso, mas acena-lhes com paraísos de ócio e delícias e exalta as eleitas bem acima das que permanecem presas a este mundoterrestre.O privilégio econômico detido pelos homens, seu valor social, o prestígio do casamento, a utilidade de um apoio masculino, tudo impele as mulheres adesejarem ardorosamente agradar aos homens. Em conjunto, elas ainda se encontram em situação de vassalas. Disso decorre que a mulher se conhecee se escolhe, não tal como existe para si, mas tal qual o homem a define. Cumpre-nos, portanto, descrevê-la primeiramente como os homens a sonham,desde que seu ser-para-os-homens é um dos elementos essenciais de sua condição concreta.


1 A história mostrou-nos que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos; desde os primeiros tempos do patriarcado, julgaram útil manter amulher em estado de dependência; seus códigos estabeleceram-se contra ela; e assim foi que ela se constituiu concretamente como Outro. Estacondição servia os interesses dos homens, mas convinha também a suas pretensões ontológicas e morais. Desde que o sujeito busque afirmar-se, oOutro, que o limita e nega, é-lhe, entretanto, necessário: ele só se atinge através dessa realidade que ele não é. Por isso, a vida do homem nunca éplenitude e repouso, ela é carência e movimento, é luta. Diante de si, o homem encontra a Natureza; tem possibilidade de dominá-la e tent a apropriar-se dela. Mas ela não pode satisfazê-lo. Ou ela só se realiza como uma oposição puramente abstrata e é então obstáculo e permanece alheia, ou se dobrapassivamente ao desejo do homem e deixa-se assimilar por ele; ele só a possui consumindo-a, isto é, destruindo-a. Nesses dois casos, ele continua só;está só quando toca uma pedra, só quando digere um fruto. Só há presença do outro se o outro é ele próprio presente a si; isso significa que averdadeira alteridade é a de uma consciência separada da minha e idêntica a ela. É a existência dos outros homens que tira o homem de sua imanênciae lhe permite realizar a verdade de seu ser, realizar-se como transcendência, como fuga para o objeto, como projeto. Mas essa liberdade alheia, queconfirma minha liberdade, entra também em conflito com ela: é a tragédia da consciência infeliz; toda consciência aspira a colocar-se como sujeitosoberano. Toda consciência tenta realizar-se reduzindo a outra à escravidão. Mas o escravo no seu trabalho e no seu medo sente-se, ele também, comoessencial e, em virtude de uma reviravolta dialética, é o senhor que a ele se apresenta como inessencial. O drama pode ser resolvido pelo livrereconhecimento de cada indivíduo no outro, cada qual pondo, a um tempo, a si e ao outro como objeto e como sujeito em um movimento recíproco. Masa amizade e a generosidade que realizam concretamente esse reconhecimento das liberdades não são virtudes fáceis; são seguramente a mais altarealização do homem, e desse modo é que ele se encontra em sua verdade: mas essa verdade é a de uma luta incessantemente esboçada e abolida. Elaexige que o homem se supere a cada instante. Pode-se dizer também, numa outra linguagem, que o homem atinge uma atitude autenticamente moralquando renuncia a ser para assumir sua existência; com essa conversão, ele renuncia também a toda posse, porque a posse é um modo de procura doser; mas a conversão pela qual ele atinge a verdadeira sabedoria nunca se completa, é preciso fazê-la sem cessar, ela reclama uma tensão constante. Demaneira que, incapaz de se realizar na solidão, o homem em suas relações com seus semelhantes acha-se permanentemente em perigo: sua vida é umaempresa difícil cujo êxito nunca se encontra assegurado.Mas ele não aprecia a dificuldade; teme o perigo. Contradi-toriamente, aspira à vida e ao repouso, à existência e ao ser; sabe muito bem que “ainquietação do espírito” é o preço que tem de pagar pelo seu desenvolvimento, que sua distância em relação ao objeto é o que lhe custa sua presençaem si: mas ele sonha com a quietude na inquietude e com uma plenitude opaca que a consciência habitaria contudo. Esse sonho encarnado éprecisamente a mulher; ela é o intermédio desejado entre a natureza exterior ao homem e o semelhante que lhe é por demais idêntico.71 Ela não lheopõe nem o silêncio inimigo da natureza, nem a dura exigência de um reconhecimento recíproco; por um privilégio único, ela é uma consciência e noentanto parece possível possuí-la em sua carne. Graças a ela, há um meio de escapar à implacável dialética do senhor e do escravo, que tem sua basena reciprocidade das liberdades.Viu-se que não houve, a princípio, mulheres livres que os homens teriam escravizado e que nunca a divisão dos sexos criou uma divisão em castas.Assimilar a mulher ao escravo é um erro. Houve mulheres entre os escravos, mas sempre existiram mulheres livres, isto é, revestidas de dignidadereligiosa e social; elas aceitavam a soberania do homem e este não se sentia ameaçado por uma revolta que o pudesse transformar, por sua vez, emobjeto. A mulher apresentava-se assim como o inessencial que nunca retorna ao essencial, como o Outro absoluto, sem reciprocidade. Todos os mitos dacriação exprimem essa convicção preciosa do macho e, entre outras, a lenda do Gênese que, através do cristianismo, se perpetuou na civilizaçãoocidental. Eva não foi criada ao mesmo tempo que o homem; não foi fabricada com uma substância diferente, nem com o mesmo barro que serviu paramoldar Adão: ela foi tirada do flanco do primeiro macho. Seu nascimento não foi autônomo; Deus não resolveu espontaneamente criá-la com um fim emsi e para ser por ela adorado em paga: destinou-a ao homem. Foi para salvar Adão da solidão que ele lha deu, ela tem no esposo sua origem e seu fim;ela é seu complemento no modo do inessencial. E assim ela surge como uma presa privilegiada. É a natureza elevada à transparência da consciência,uma consciência naturalmente submissa. E é essa maravilhosa esperança que muitas vezes o homem pôs na mulher. Ele espera realizar-se como serpossuindo carnalmente um ser, ao mesmo tempo que consegue confirmar-se em sua liberdade através de uma liberdade dócil. Nenhum homemconsentiria em ser uma mulher, mas todos desejam que haja mulheres. “Agradeçamos a Deus por ter criado a mulher.” “A Natureza é boa demais, poisdeu a mulher aos homens.” Nessas frases, e em outras análogas, o homem afirma uma vez mais com arrogante ingenuidade que sua presença nestemundo é um fato inelutável e um direito, enquanto a da mulher é um simples acidente: um bem-aventurado acidente. Aparecendo como o Outro, amulher aparece ao mesmo tempo como uma plenitude de ser em oposição a essa existência cujo vazio o homem sente em si; o Outro, sendo posto comoobjeto aos olhos do sujeito, é posto como em si, logo como ser. Na mulher encarna-se positivamente a falta que o existente traz no coração, e éprocurando alcançar-se através dela que o homem espera realizar-se.Entretanto, ela não representou, para ele, a única encarnação do Outro, e nem sempre conservou, no decorrer dos tempos, a mesma importância.Houve momentos em que foi eclipsada por outros ídolos. Quando a Cidade, o Estado devoram o cidadão, este não tem mais a possibilidade de se ocuparde seu destino particular. Destinada ao Estado, a espartana tem uma condição superior à das outras mulheres gregas, mas não é por isso mesmotransfigurada por nenhum sonho masculino. O culto do chefe, seja ele Napoleão, Mussolini, Hitler, exclui qualquer outro culto. Nas ditaduras militares,nos regimes totalitários, a mulher não é mais um objeto privilegiado. Compreende-se que seja divinizada num país rico e cujos habitantes não sabemmuito bem que sentido dar à vida: é o que ocorre na América do Norte. Em compensação, as ideologias socialistas que exigem a assimilação de todos osseres humanos não admitem que no futuro, e mesmo desde o presente, qualquer categoria humana seja objeto ou ídolo. Na sociedade autenticamentedemocrática que profetiza Marx não há lugar para o Outro. Entretanto, poucos homens coincidem exatamente com o soldado, o militante queescolheram ser; na medida em que se conservam indivíduos, a mulher guarda a seus olhos um valor singular. Vi cartas escritas por soldados alemães aprostitutas francesas, nas quais, a despeito do nazismo, o sentimentalismo tradicional se evidenciava ingenuamente vivaz. Escritores comunistas, comoAragon na França, Vittorini na Itália, dão em suas obras um lugar de grande importância à mulher, amante ou mãe. Talvez o mito da mulher se extingaum dia: quanto mais se afirmam como seres humanos mais definha nelas a maravilhosa qualidade do Outro. Mas, atualmente, esse mito ainda existe nocoração de todos os homens.Todo mito implica um Sujeito que projeta suas esperanças e seus temores num céu transcendente. As mulheres, não se colocando como Sujeito, nãocriaram o mito viril no qual seus projetos se refletiriam; elas não possuem nem religião nem poesia que lhes pertençam exclusivamente: é ainda atravésdos sonhos dos h omens que elas sonham. São os deuses fabricados pelos homens que elas adoram. Estes forjaram para sua própria exaltação asgrandes figuras viris: Hércules, Prometeu, Parsifal; no destino desses heróis a mulher tem apenas um papel secundár io. Possivelmente, existemimagens estilizadas do homem enquanto preso a suas relações com a mulher: pai, sedutor, marido ciumento, bom filho, mau filho; mas foramigualmente os homens que as fixaram e elas não atingem a dignidade do mito: não passam, por assim dizer, de clichês. Ao passo que a mulher éexclusivamente definida em relação ao homem. A assimetria das duas categorias, masculina e feminina, manifesta-se na constituição unilateral dosmitos sexuais. Diz-se, por vezes, “o sexo” para designar a mulher; é porque ela é a carne com suas delícias e seus perigos. Quanto ao fato de, para amulher, ser o homem o sexual e o carnal, é uma verdade que nunca foi proclamada porque não houve ninguém para a proclamar. A representação domundo, como o próprio mundo, é operação dos homens; eles o descrevem do ponto de vista que lhes é peculiar e que confundem com a verdadeabsoluta.É sempre difícil descrever um mito; ele não se deixa apanhar nem cercar, habita as consciênci as sem nunca postar-se diante delas como um objetoimóvel. É por vezes tão fluido, tão contraditório que não se lhe percebe, de início, a unidade: Dalila e Judite, Aspásia e Lucrecia, Pandora e Atená, amulher é, a um tempo, Eva e a Virgem Maria. É um ídolo, uma serva, a fonte da vida, uma força das trevas; é o silêncio elementar da verdade, éartifício, tagarelice e mentira; a que cura e a que enfeitiça; é a presa do homem e sua perda, é tudo o que ele quer ter, sua negação e sua razão de ser.“Ser mulher, diz Kierkegaard,72 é algo tão estranho, tão complexo, tão complicado que nenhum predicado consegue exprimi-lo e que os múltiplospredicados que desejaríamos empregar se contradiriam de tal modo que só uma mulher o pode suportar.” Isso decorre do fato de que ela não éconsiderada positivamente, tal qual é para si, mas negativamente, tal qual se apresenta ao homem. Pois, se há outros Outros além da mulher, elacontinua contudo sempre definida como Outro. E sua ambiguidade é a da própria ideia de Outro: é a da condição humana enquanto se define na sua


relação com o Outro. Já se disse: o Outro é o Mal; mas, necessário ao Bem, retorna ao Bem. É por ele que ascendo ao Todo, mas é por ele que meseparo do Todo: é a porta do infinito e a medida de minha finidade. É por isso que a mulher não encarna nenhum conceito imoto; através dela realiza-sesem cessar a passagem da esperança ao fracasso, do ódio ao amor, do bem ao mal, do mal ao bem. Sob qualquer aspecto que se considere é essaambivalência que impressiona primeiramente.O homem procura na mulher o Outro como Natureza e como seu semelhante. Mas conhecemos os sentimentos ambivalentes que a Natureza inspira aohomem. Ele a explora, mas ela o esmaga, ele nasce dela e morre nela; é a fonte de seu ser e o reino que ele submete à sua vontade; uma ganga materialem que a alma se encontra presa, e é a realidade suprema; é a contingência e a Ideia, a finitude e a totalidade; é o que se opõe ao Espírito e o próprioespírito. Ora aliada, ora inimiga, apresenta-se como o caos tenebroso da onde brota a vida, como essa vida, e como o além para o qual tende: a mulherresume a natureza como Mãe, Esposa e Ideia. Essas figuras ora se confundem e ora se opõem, e cada uma delas tem dupla face.O homem mergulha suas raízes na Natureza: foi engendrado como os animais e as plantas, sabe que só existe enquanto vive. Mas, desde o advento dopatriarcado, a Vida revestiu a seus olhos um duplo aspecto: ela é consciência, vontade, transcendência e espírito; e é matéria, passividade, imanência ecarne. Ésquilo, Aristóte les, Hipócrates proclamaram que na Terra, como no Olimpo, é o princípio masculino que é verdadeiramente criador. Delesaíram a forma, o número, o movimento. Com Deméter multiplicam-se as espigas, mas a origem da espiga e sua verdade está em Zeus; a fecundidadeda mulher é encarada tão somente como uma virtude passiva. Ela é a terra e o homem, a semente, ela é a Água e ele, o Fogo. A criação foi amiúdeimaginada como um casamento do fogo com a água: é a unidade quente que dá nascimento aos seres vivos. O Sol é o esposo do Mar;73 Sol e fogo sãodivindades masculinas; o Mar é um dos símbolos maternos mais universais. Inerte, a água sofre a ação dos raios flamejantes que a fertilizam. Damesma forma, a gleba entalhada pelo arado recebe, imóvel, as sementes em seus sulcos. Entretanto, seu papel é necessário: é ela que alimenta ogerme, que o nutre e lhe fornece sua substância. Eis por que, mesmo depois de destronada a Grande Mãe, o homem continua a render um culto àsdeusas da fecundidade;74 ele deve a Cibele suas colheitas, seus rebanhos, sua prosperidade. Deve-lhe a própria vida. Ele exalta a água assim como ofogo. “Glória ao mar! Glória às suas vagas envoltas em fogo sagrado! Glória à onda! Glória ao fogo! Glória à estranha aventura!”, escreve Goethe noSegundo Fausto. Ele venera a terra: The Matron Clay, como a chama Blake. Um profeta indiano aconselha seus discípulos a não cavar a terra porque “éum pecado ferir ou cortar, dilacerar nossa mãe comum com trabalhos agrícolas... Irei armar-me de faca para mergulhá-la no seio de minha mãe... Ireimutilar-lhe as carnes para alcançar-lhe os ossos? Como ousaria cortar os cabelos de minha mãe?” Na Índia Central, os Baja também consideram que éum pecado “dilacerar o seio da terra-mãe com o arado”. Inversamente, Ésquilo diz de Édipo que “ousou semear o sulco sagrado em que se formara”.Sófocles fala dos “sulcos paternos” e do “lavrador, dono de um campo longínquo que só visita uma vez na época da semeadura”. A bem-amada de umacanção egípcia declara: “Eu sou a terra!” Nos textos islâmicos a mulher é chamada “campo... vinha”. São Francisco de Assis, em um de seus hinos, falade “nossa irmã, a terra, nossa mãe, que nos conserva e de nós cuida, que produz os mais variados frutos e as flores multicores e a relva”. Michelet,tomando banhos de lama em Acqui, exclama: “Querida mãe comum! Somos um. Venho de ti e a ti retorno!...” E há mesmo épocas em que se afirma umromantismo vitalista que aspira ao triunfo da Vida sobre o Espírito: então a fertilidade mágica da terra, da mulher, se apresenta como mais maravilhosado que as operações projetadas do homem; e o homem sonha então com se confundir novamente com as trevas maternas para reencontrar as fontesverdadeiras de seu ser. A mãe é a raiz plantada nas profundezas do cosmo e que suga os sucos, é a nascente de que jorra a água viva que é também umleite nutriz, uma cálida fonte, uma lama feita de terra e água, rica de forças regeneradoras.75Porém mais generalizada é no homem a revolta contra sua condição carnal; ele considera-se um deus destronado; sua maldição está em ter caído de umcéu luminoso e se ter formado nas trevas caóticas do ventre materno. A mulher mantém prisioneiro na lama da terra esse fogo, esse sopro ativo e puroem que o homem aspira a se reconhecer. Ele se desejaria necessário como uma pura Ideia, como o Um, o Todo, o Espírito Absoluto; e encontra-seencerrado em um corpo limitado, em um lugar e um tempo que não escolheu, a que não era chamado, inútil, incômodo, absurdo. A contingência carnalé a de seu próprio ser que sofre em seu desamparo, em sua injustificável gratuidade. Ela impõe-lhe igualmente a morte. Essa gelatina trêmula que seelabora na matriz (a matriz secreta e fechada como um túmulo) evoca demasiado a mole viscosidade da carniça para que dela não se afaste comarrepios. Por toda parte onde a vida se vai criando, germinação, fermentação, ela provoca repugnância porque só se faz em se desfazendo; o embriãovisguento abre o ciclo que se fecha com a podridão da morte. Por ter horror à gratuidade e à morte, o homem abomina ter sido engendrado; gostaria derenegar suas ligações animais; em consequência de seu nascimento a Natureza assassina o domina. Entre os primitivos, o parto é cercado dos maisseveros tabus; a placenta, em particula r, deve ser cuidadosamente queimada ou jogada ao mar, pois quem quer que dela se apossasse teria nas mãos odestino do recém-nascido; essa ganga em que se formou o feto é o sinal de sua dependência; aniquilando-a, dá-se ao indivíduo a possibilidade de sedesprender do magma vivo e realizar-se como ser autônomo. A mácula do nascimento recai na mãe. O Levítico e todos os códigos antigos impõem ritospurificadores à parturiente; e em muitas regiões rurais a cerimônia da purificação é conservada tradicionalmente. Conhece-se o embaraço espontâneo,embaraço que se mascara por vezes de escárnio, que sentem as crianças, as jovens, os homens diante do ventre de uma mulher grávida, dos seiosintumescidos de uma nutriz. Nos museus Dupuytren, os curiosos contemplam os embriões de cera e os fetos em conserva com um interesse tãomórbido quanto o que teriam ao violar sepulturas. A função da gestação inspira uma repulsa espontânea, apesar de todo o respeito com que asociedade a cerca. E se o menino, na sua primeira infância, continua sensualmente ligado à carne materna, quando cresce, se socializa e tomaconsciência de sua existência individual, essa carne lhe inspira medo; ele quer ignorá-la e ver na mãe tão somente uma pessoa moral; se procuraimaginá-la casta e pura é menos por ciúme amoroso do que por recusa em lhe reconhecer um corpo. Um adolescente perturba-se, enrubesce, se,passeando com seus colegas, encontra a mãe, as irmãs, mulheres de sua família; é que a presença delas impele-o para as regiões da imanência de ondedesejaria sair; elas revelam as raízes de que gostaria de se libertar. A irritação do meninote quando a mãe o acarinha e beija tem o mesmo sentido; elerenega a família, a mãe, o seio materno. Desejaria, como Atená, ter surgido no mundo adulto, armado dos pés à cabeça, invulnerável.76 Ter sidoconcebido e parido é a maldição que pesa sobre seu destino, a impureza que se cola a seu ser. E é o sinal de sua morte. O culto da germinação semprese associou ao culto dos mortos. A Terra-Mãe encerra em seu seio as ossadas de seus filhos. São as mulheres — Parcas e Moiras — que tecem o destinohumano; mas são elas igualmente que cortam os fios. Na maioria das representações populares, a morte é mulher, e é às mulheres que cabe chorar osmortos, porquanto a morte é obra sua.77Tem, assim, a Mulher-Mãe um rosto de trevas: ela é o caos de que tudo saiu e ao qual tudo deve voltar um dia; ela é o Nada. Dentro da Noiteconfundem-se os múltiplos aspectos do mundo que o dia revela: noite do espírito encerrado na generalidade e na opacidade da matéria, noite do sono edo nada. No fundo do mar impera a noite: a mulher é o Mare tenebrarum temido dos antigos navegadores; a noite impera nas entranhas da terra. Essanoite pela qual o homem receia ser tragado, e que é o inverso da fecundidade, apavora-o. Ele aspira ao céu, à luz, aos picos ensolarados, ao frio puro ecristalino do azul; e, a seus pés, há um abismo úmido e quente, obscuro, pronto para abocanhá-lo; numerosas lendas mostram-nos o herói que se perdepara sempre recaindo nas trevas maternas: caverna, abismo, inferno.Mas a ambivalência funciona novamente aqui: se a germinação sempre se associa à morte, esta também se associa à fecundidade. A morte detestadaapresenta-se como novo nascimento e ei-la bendita. O herói morto ressuscita, como Osíris, na primavera, e é regenerado por novo parto. A supremaesperança do homem, diz Jung,78 “é que as sombrias águas da morte se tornem águas de vida, que a morte e seu frio amplexo sejam o ventre materno,como o mar que, tragando o sol, o reengendra em suas profundezas”. É um tema comum a numerosas mitologias o do sepultamento do deus-sol no seiodo mar e sua deslumbrante reaparição. E o homem quer viver, mas ao mesmo tempo aspira ao repouso, ao sono, ao nada. Ele não se deseja imortal epor isso pode aprender a amar a morte. “A matéria inorgânica é o seio materno, escreve Nietzsche. Libertar-se da vida é tornar a ser verdadeiro, écompletar-se. Quem compreendesse isso consideraria uma festa retornar ao pó insensível.” Chaucer põe essa prece na boca de um velho que nãoconsegue morrer: Com meu bastão, dia e noite,bato na terra, porta de minha mãe,e digo: Ó querida mãe, deixe-me entrar. O homem quer afirmar sua existência singular e repousar orgulhosamente em sua “diferença essencial”, mas ele aspira também a demolir as barreirasdo eu, confundir-se com a água, a terra, a noite, o Nada, o Todo. A mulher que condena o homem à finidade permite-lhe igualmente ultrapassar seuspróprios limites. Daí a magia equívoca com que ela se reveste.Em todas as civilizações, e até em nossos dias, ela inspira horror ao homem: é o horror da sua própria contingência carnal que ele projeta nela. A jovemainda impúbere não encerra nenhuma ameaça, não é objeto de nenhum tabu e não possui nenhum caráter sagrado. Em muitas sociedades primitivasseu sexo é considerado inocente. Os jogos eróticos são permitidos desde a infância entre meninos e meninas. É a partir do dia em que se tornasuscetível de conceber que a mulher fica impura. Descreveram-se, muitas vezes, os severos tabus que nas sociedades primitivas cercam a jovem,quando de sua primeira menstruação; mesmo no Egito, onde era tratada com deferências especiais, a mulher permanecia isolada durante o período dasregras.79 Muitas vezes expunham-na no telhado de uma casa, relegavam-na numa cabana fora da aldeia, não se devia vê-la nem tocá-la: mais ainda, elaprópria não se devia tocar com a mão. Entre os povos que praticam habitualmente o despiolhamento dão-lhe um pauzinho para se coçar. Ela não devetocar os alimentos com os dedos. Por vezes, é radicalmente proibido que ela coma; em outros casos a mãe e a irmã são autorizadas a alimentá-la porintermédio de um instrumento. Mas todos os objetos que entram em contato com ela durante esse período devem ser queimados. Depois dessa primeiraprovação, os tabus menstruais tornam-se menos severos, mas permanecem rigorosos. Lê-se, em particular, no Levítico: “A mulher que tiver um fluxo desangue em sua carne permanecerá sete dias na sua impureza . Quem a tocar será impuro até a noite. Todo leito em que dormir... todo objeto sobre oqual se sentar será impuro. Quem tocar em seu leito lavará as roupas e a si próprio com água e será impuro até a noite.” Este texto é exatamente


simétrico ao que trata da impureza produzida no homem pela gonorreia. E o sacrifício purificador é idêntico em ambos os casos. Uma vez purificada,deve-se contar sete dias e trazer duas rolas ou dois pombos jovens ao sacrificador que os oferecerá ao Criador. É de observar que, nas sociedadesmatriarcais, as virtudes atribuídas à menstruação são ambivalentes. Por um lado, ela paralisa as atividades sociais, destrói a força vital, faz murcharemas flores, caírem os frutos; mas tem também efeitos benfazejos: os mênstruos são utilizados nos filtros de amor, nos remédios, em particular para cortese equimoses. Ainda hoje, certos índios, quando partem para combater os monstros quiméricos que frequentam seus rios, colocam à frente do barco umtampão de fibras impregnado de sangue menstrual, cujas emanações são nefastas aos inimigos sobrenaturais. As jovens de certas cidades gregasofereciam em homenagem no templo de Astarté um trapo manchado com seu primeiro sangue. Mas desde o advento do patriarcado só se atribuírampoderes nefastos ao estranho licor que escorre do sexo feminino. Plínio diz em sua História natural: “A mulher menstruada estraga as colheitas, devastaos jardins, mata os germes, faz caírem os frutos, mata as abelhas; se toca no vinho, dele faz vinagre; o leite azeda...”Um antigo poeta inglês exprime o mesmo sentimento quando escreve: Oh! Menstruating woman, thou’st a fiendFrom whom all nature should be screened!” “Ó mulher, teus mênstruos são uma pragaDe que seria preciso proteger a Natureza!” Tais crenças perpetuaram-se até nossos dias com muita força. Em 1878, um membro da Associação de Medicina Britânica fez uma comunicação aoBritish Medical Journal em que declara: “É indubitável que a carne se corrompe quando tocada pela mulher no período das regras”; e afirma saber dedois casos em que os presuntos se estragaram em tais circunstâncias. Em princípios deste século, nas refinarias do Norte, um regulamento proibia àsmulheres entrarem na fábrica quand o atingidas por isso que os anglo-saxões chamam curse, “maldição”, porque então o açúcar pretejava. E em Saigonnão se empregam mulheres em fábricas de ópio: em consequência das regras, o ópio torna-se amargo. Essas crenças sobrevivem em muitas regiõesrurais francesas. Toda cozinheira sabe que é impossível acertar uma maionese quando se acha indisposta ou simplesmente diante de uma mulherindisposta. Em Anjou, recentemente, um velho jardineiro, tendo guardado num celeiro a colheita de cidra do ano, escreveu ao patrão: “Cumpre pedir àsjovens da casa e às convidadas que não pass em pelo celeiro em certos dias do mês: impediriam a fermentação da cidra.” Posta a par da carta, acozinheira deu de ombros: “Isso nunca impediu a fermentação da cidra, é só para o toucinho que é ruim; não se pode salgá-lo diante de uma mulherindisposta; apodreceria.”80Seria muito insuficiente assimilar tais repugnâncias às que o sangue suscita em quaisquer circunstâncias. Sem dúvida, o sangue é em si um elementosagrado, penetrado mais do que qualquer outro pelo mana misterioso que é a um tempo vida e morte. Mas os poderes maléficos do sangue menstrualsão mais singulares. Ele encarna a essência da feminilidade. É por isso que põe em perigo a própria mulher cujo mana assim se materializa. Durante ainiciação dos Chago, exortam-se as mulheres a dissimularem cuidadosamente seu sangue menstrual. “Não o mostres a tua mãe, ela morreria. Não omostres às tuas companheiras, pode haver uma maldosa que se aposse do pano com que te enxugaste e teu casamento seria estéril. Não o mostres auma mulher má que pegará o pano para colocá-lo em cima de sua cabana... e não poderás mais ter filhos. Não jogues o pano no atalho nem no mato.Uma pessoa ruim pode fazer coisas feias com ele. Enterra-o no chão. Dissimula o sangue aos olhos de teu pai, de teus irmãos e de tuas irmãs. Deixá-lover é um pecado.”81 Entre os Aleutas, se o pai vê a filha quando das primeiras regras, ela pode ficar cega ou muda. Pensa-se que, durante esse período,a mulher é possuída por um espírito e carregada de forças perigosas. Certos primitivos acreditam que o fluxo é provocado pela picada de uma cobra,pois a mulher tem com a serpente e o lagarto suspeitas afinidades: o fluxo participaria do veneno do animal rastejante. O Levítico compara o fluxomenstrual à gonorreia; o sexo feminino sangrento não é apenas uma ferida, é uma chaga suspeita. E Vigny associa as noções de mácula e de doençaquando escreve: “A mulher, criança doente e doze vezes impura.” Fruto de perturbadoras alquimias interiores, a hemorragia periódica da mulheracerta-se estranhamente ao ciclo da lua: a lua tem também caprichos perigosos.82 A mulher faz parte da temível engrenagem que comanda omovimento dos planetas e do Sol, é presa das forças cósmicas que regulam o destino das estrelas, das marés e cujas irradiações inquietantes os homenstêm de suportar. Mas é principalmente impressionante que a ação do sangue menstrual esteja ligada a ideias de creme que azeda, de maionese que nãose faz consistente, de fermentação, de decomposição; diz-se também que é capaz de provocar a quebra de objetos frágeis, de rebentar as cordas dosviolinos e das harpas; mas tem sobretudo influência nas substâncias orgânicas a meio caminho entre a matéria e a vida; e isso menos por ser sangue doque por emanar dos órgãos genitais. Sem lhe conhecer sequer a função exata, sabe-se que está ligado à germinação da vida. Ignorando a existência doovário, os antigos viam mesmo nos mênstruos o complemento do esperma. Em verdade, não é esse sangue que faz da mulher uma impura; antes, elemanifesta a impureza; aparece no momento em que a mulher pode ser fecundada e quando desaparece ela se torna em geral estéril; jorra do ventre emque se elabora o feto. Através dele exprime-se o horror que o homem sente ante a fecundidade feminina.Entre os tabus que dizem respeito à mulher em estado de impureza, nenhum é tão rigoroso quanto a proibição de relações sexuais com ela. O Levíticocondena a sete dias de impureza o homem que transgredir essa regra. As leis de Manu são mais severas: “A sabedoria, a energia, a força, a vitalidadede um homem que se achega a uma mulher maculada por excreções menstruais morrem definitivamente.” Os penitentes ordenavam cinquenta dias depenitência aos homens que com elas mantivessem relações sexuais durante o período de menstruação. Como se considera que o princípio femininoatinge, então, sua força máxima, receia-se que um contato íntimo venha a triunfar sobre o princípio masculino. De maneira mais imprecisa, repugna aohomem encontrar na mulher que possui a essência temível da mãe; ele procura dissociar esses dois aspectos da feminilidade: eis por que a proibição doincesto, pela exogamia ou outras formas mais modernas, é uma lei universal; eis por que o homem se afasta sexualmente da mulher nos momentos emque ela se prende mais a seu papel reprodutor: durante as regras, durante a gravidez e quando amamenta. O complexo de Édipo — cuja descriçãocumpriria aliás rever — não contradiz essa atitude, antes a implica. O homem defende-se contra a mulher enquanto fonte confusa do mundo e turvodevir orgânico.Entretanto, é também sob esse aspecto que ela permite à sociedade que se separou do cosmo e dos deuses permanecer em comunicação com eles.Ainda hoje, entre os beduínos e os iroqueses, ela assegura a fecundidade dos campos. Na Grécia antiga, ela capta as vozes subterrâneas, a linguagemdo vento e das árvores; ela é Pítia, Sibila, profetisa; os mortos e os deuses falam pela sua boca e ela conserva os poderes divinatórios: é médium,quiromante, cartomante, vidente, inspirada; ouve v ozes e tem visões. Quando os homens sentem necessidade de mergulhar de novo no seio da vidavegetal e animal, apelam para a mulher, como Anteu que tocava a terra para refazer suas forças. Através das civilizações racionalistas da Grécia e deRoma, subsistem os cultos ctônicos. Eles se desenvolvem, em geral, à margem da vida religiosa oficial; acabam mesmo, como em Elêusis, por assumir aforma dos mistérios; seu sentido é inverso ao dos cultos solares em que o homem afirma sua vontade de separação e de espiritualidade; mas são ocomplemento destes. O homem busca arrancar-se da solidão pelo êxtase; esse é o ob jetivo dos mistérios, das orgias, das bacanais. No mundoreconquistado pelos homens é um deus masculino, Dionísio, que usurpa as virtudes mágicas e selvagens de Ichtar, de Astarté; mas são ainda asmulheres que se desencadeiam em torno de sua imagem: Menadas, Tíades, Bacantes incitam os homens à embriaguez religiosa, à loucura sagrada. Opapel da prostituição sagrada é análogo: trata-se de desencadear e canalizar, concomitantemente, as forças da fecundidade. Ainda hoje as festaspopulares caracterizam-se por explosões de erotismo; a mulher não aparece nelas simplesmente como um objeto de gozo, mas sim como um meio deatingir esse hybris em que o indivíduo se supera. “O que um ser possui no fundo de si mesmo de perdido, de trágico, a “maravilha ofuscante” só podeser encontrado numa cama”, escreve G. Bataille.No desencadeamento erótico, o homem, ao se unir à amante, procura perder-se no infinito mistério da carne. Mas vimos que, ao contrário, suasexualidade normal dissocia a mãe da esposa. Ele sente repugnância pelas misteriosas alquimias da vida, ao passo que sua própria vida se alimenta e seencanta com os frutos saborosos da terra; aspira a apossar-se deles; deseja Vênus saindo inteiramente nova das águas. É como esposa que a mulherinicialmente se descobre no patriarcado, porquanto o criador supremo é m asculino. Antes de ser a mãe do gênero humano, Eva é a companheira deAdão; foi dada ao homem para que ele a possua e fecunde como possui e fecunda o solo; e, através dela, ele faz da Natureza inteira seu reino. Não éapenas um prazer subjetivo e efêmero que o homem busca no ato sexual; quer conquistar, pegar, possuir; ter uma mulher é vencê-la; penetra nela comoo arado nos sulcos da terra; ele a faz sua como faz seu o chão que trabalha: ara, planta, semeia; estas imagens são velhas como a escrita; daAntiguidade aos nossos dias poderíamos citar mil exemplos: “A mulher é como o campo e o homem como a semente”, dizem as leis de Manu. Em umdesenho de André Masson vê-se um homem com uma pá na mão, cavando o jardim de um sexo feminino.83 A mulher é a presa do esposo, suapropriedade.A hesitação do macho entre o medo e o desejo, entre o temor de ser possuído por forças incontroláveis e a vontade de captá-las, reflete-se de maneiraimpressionante nos mitos da Virgindade. Ora temida pelo homem, ora desejada e até exigida, ela se apresenta como a forma mais acabada do mistériofeminino; é o aspecto mais inquietante deste e ao mesmo tempo o mais fascinante. Segundo se sinta esmagado pelas forças que o cercam ou se acrediteorgulhosamente capaz de anexá-las a si, o homem recusa ou reclama que a esposa lhe seja entregue virgem. Nas sociedades mais primitivas, em que opoder da mulher é exaltado, é o temor que vence; convém que a mulher tenha sido deflorada antes da noite de núpcias. Marco Polo afirmava dostibetanos que “nenhum deles desejaria ter por mulher uma jovem ainda virgem”. Explicou-se por vezes essa recusa de maneira racional: o homem nãoquer por esposa uma mulher que ainda não tenha suscitado desejos masculinos. O geógrafo árabe El Bekri, referindo-se aos eslavos, observa que “seum homem se casa e verifica que a mulher é virgem, ele lhe diz: se valesses alguma coisa, terias sido amada por homens e algum te teria tirado a