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Published by evertonlopes2012, 2020-04-03 15:17:03

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir

muito e me masturbava todos os dias, às vezes durante uma hora. Masturbava-me muitas vezes até ficar inundada de suor e incapaz de continuar por causa do cansaço, e readormecia... Ardia e teria aceito quem quisesse acalmar-me. Não procurava um indivíduo, e sim o homem.313 Mais precisamente, o que ocorre é que a inquietação virginal não se traduz por uma necessidade precisa: a virgem não sabe exatamente o que quer.Nela sobrevive o erotismo agressivo da infância; seus primeiros impulsos foram preênseis e ela ainda tem o desejo de abraçar, de possuir. A presa quealmeja, ela a deseja dotada de qualidades que lhe foram reveladas como valores, através do gosto, do olfato, do tato, pois a sexualidade não é umcampo isolado, prolonga os sonhos e as alegrias da sensualidade; as crianças e os adolescentes de ambos os sexos apreciam o liso, o cremoso, oacetinado, o fofo, o elástico: o que, sem desmoronar nem decompor, cede à pressão, desliza ante o olhar ou sob os dedos; como o homem, a mulher seencanta com a doçura morna das dunas de areia tantas vezes comparadas com seios, com o toque da seda, o aveludado de uma flor ou de um fruto, e ajovem, particularmen te, ama as cores pálidas, os tules e as musselinas vaporosos. Não gosta dos tecidos rugosos, das pedras, das rochas, dos saboresacres, dos odores ácidos; o que primeiro acariciou e quis foi, como seus irmãos, a carne materna; em seu narcisismo, em suas experiênciashomossexuais difusas ou precisas, ela se punha como sujeito, buscava a posse de um corpo feminino. Quando se defronta com o homem, tem na palmadas mãos, nos lábios, a vontade de acarinhar ativamente uma presa. Mas o homem, com seus músculos duros, sua pele áspera, seu cheiro forte, seustraços grosseiramente marcados, não lhe parece desejável, inspira-lhe até repulsa. É o que exprime Renée Vivien quando escreve: Sou mulher, não tenho direito à beleza ...Tinham-me condenado às feiuras masculinas Tinham-me proibido teus cabelos, tuas pupilas Porque teus cabelos são compridos e cheios de odores.314 Se a tendência preensiva, possessiva permanece a mais forte, a mulher se orientará para a homossexualidade, como Renée Vivien. Ou então se apegaráa homens aos quais pode tratar como mulheres: tal é o caso da heroína de Monsieur Vénus, de Rachilde, que compra um jovem amante e se comprazem acariciá-lo apaixonadamente, mas não se deixa deflorar por ele. Há mulheres que gostam de acariciar jovens de 13 ou 14 anos e até crianças, erecusam o homem feito. Mas já vimos que na maioria das mulheres se desenvolveu também, desde a infância, uma sexualidade passiva: a mulher gostade ser abraçada, acariciada, e, principalmente após a puberdade, almeja tornar-se carne nos braços de um homem; a este é que cabe normalmente opapel de sujeito, ela o sabe; “um homem não precisa ser bonito”, repetiram-lhe muitas vezes; ela não deve procurar nele as qualidades inertes de umobjeto e sim a potência e a força viril. Por isso, ei-la dividida em si mesma: aspira a um abraço robusto que a metamorfoseará em coisa que estremece;mas a rudeza e a força são também resistências ingratas que a magoam. Sua sensualidade localiza-se na pele e na mão ao mesmo tempo. E asexigências de uma são em parte opostas às da outra. Na medida do possível, ela escolhe um compromisso; entrega-se a um homem viril, mas bastantejovem e sedutor para ser um objeto desejável; num belo adolescente ela poderá encontrar os atrativos que deseja; no Cântico dos cânticos há simetriaentre a deleitação da esposa e a do esposo; ela encontra nele o que ele procura nela; a flora e a fauna terrestre, as pedras preciosas, os regatos, asestrelas. Mas ela não tem os meios de possuir esses tesouros: sua anatomia condena-a a permanecer inábil e impotente como um eunuco. O desejo deposse aborta na falta de um órgão em que possa ser encarnado. E o homem recusa o papel passivo. Muitas vezes, de resto, as circunstâncias levam ajovem a tornar-se presa de um homem cujas carícias a comovem, mas que ela não tem prazer em olhar nem em acariciar em troca. Não se falou obastante que, na repugnância que se mistura a seus desejos, não há apenas medo da agressividade masculina, mas também um profundo sentimento defrustração: a volúpia deverá ser conquistada contra o impulso espontâneo da sensualidade, ao passo que no homem a alegria do tato, da vista, funde-secom o prazer sexual propriamente dito.Os próprios elementos do erotismo passivo são ambíguos. Nada mais equívoco do que um contato. Muitos homens que, sem nojo algum, trituram entreas mãos qualquer matéria, detestam que ervas ou bichos os toquem; roçada pela seda, o veludo, a carne feminina ora freme agradavelmente, ora seeriça: lembro-me de uma amiga de juventude que à simples visão de um pêssego se arrepiava toda; da perturbação à cócega, da irritação ao prazer, apassagem é fácil: braços enlaçando um corpo podem ser refúgio e proteção, mas também encarceram e abafam. Na virgem essa ambiguidade perpetua-se por causa do paradoxo de sua situação: o órgão em que terminará sua metamorfose é selado. O apelo incerto e ardente de sua carne espalha-se pelocorpo inteiro, salvo no lugar em que o coito deve realizar-se. Nenhum órgão permite à virgem satisfazer seu erotismo ativo; não tem a experiênciavivida de quem a condena à passividade.Entretanto, essa passividade não é pura inércia. Para que a mulher se perturbe é preciso que se produzam fenômenos positivos em seu organismo:inervação das zonas erógenas, intumescência de certos tecidos eréteis, secreções, elevação da temperatura, aceleração do pulso e da respiração. Odesejo e a volúpia exigem dela, como do homem, um dispêndio vital; receptiva, a necessidade feminina é em certo sentido ativa, manifesta-se por umaumento do tônus nervoso e muscular. As mulheres apáticas e lânguidas são sempre frias; trata-se de saber se existe frigidez constitucional, e emrelação às capacidades eróticas da mulher os fatores psíquicos desempenham seguramente um papel preponderante; mas é certo que as insuficiênciasfisiológicas, uma vitalidade empobrecida, se exprimem também pela indiferença sexual. Inversamente, se a energia vital se despende em atividadesvoluntárias, no esporte, por exemplo, não se integra na necessidade sexual: as escandinavas são sadias, robustas e frias. As mulheres “temperamentais”são as que conciliam o langor ao “fogo”, como as italianas ou as espanholas, isto é, cuja ardente vitalidade se funde por inteira na carne. Fazer-seobjeto, fazer-se passiva não é a mesma coisa do que ser um objeto passivo: uma mulher amorosa não é nem uma dorminhoca nem uma morta; há nelaum impulso que sem cessar se abate e se renova; é o impulso abatido que cria o encantamento em que o desejo se perpetua. Mas o equilíbrio entre oardor e o abandono é fácil de ser destruído. O desejo do macho é tensão: pode invadir um corpo em que nervos e músculos se retesam; atitudes egestos que exigem do organismo uma participação voluntária não o contrariam e, muitas vezes, ao contrário, servem-no. Todo esforço voluntário,inversamente, impede a carne feminina de “se possuir”; é por isso que espontaneamente315 a mulher recusa as formas de coito que solicitam delatrabalho e tensão; mudanças muito bruscas e muito numerosas de posição, a exigência de atividades conscientemente dirigidas — gestos ou palavras —destroem o encantamento. A violência das tendências desencadeadas pode provocar crispação, contração, tensão: há mulheres que arranham, mordem,arqueiam o corpo com uma força inesperada; mas esses fenômenos só se produzem quando é atingido certo paroxismo, e este só se atinge seprimeiramente a ausência de qualquer imposição — física ou moral — permite uma concentração sexual de toda a energia viva. Isso quer dizer que nãobasta à jovem deixar fazer; dócil, lânguida, ausente, não satisfaz o parceiro nem se satisfaz. É solicitada a ela uma participação ativa numa aventuraque nem seu corpo virgem nem sua consciência repleta de tabus, proibições, preconceitos, exigências quer de maneira positiva. Nas condições que acabamos de descrever, compreende-se que a iniciação erótica da mulher não é fácil. Vimos que acontece frequentemente queincidentes verificados na infância ou na juventude engendrem nela profundas resistências; estas são por vezes insuperáveis: no mais das vezes a jovemesforça-se por desprezá-las, mas surgem nela então conflitos violentos. Uma educação severa, o medo do pecado, o sentimento de culpabilidade emrelação à mãe criam barreiras poderosas. A virgindade é tão valorizada em muitos meios que perdê-la fora do casamento legítimo parece um verdadeirodesastre. A jovem que cede por fraqueza ou surpresa pensa que se acha desonrada. A “noite de núpcias”, que entrega a virgem a um homem que emgeral ela não escolheu realmente, e que pretende resumir em algumas horas — ou instantes — toda a iniciação sexual, não é tampouco uma experiênciafácil. De uma maneira geral, toda “passagem” é angustiante por causa de seu caráter definitivo, irreversível: tornar-se mulher é romper sem apelo como passado, mas essa passagem é a mais dramática; não cria somente um hiato entre o ontem e o amanhã, mas arranca também a jovem do mundoimaginário em que se desenrolava parte importante de sua existência e a joga no mundo real. Por analogia com as corridas de touros, Michel Leiris dáao leito nupcial a denominação de “uma arena de verdade”; é para a virgem que a expressão assume seu sentido mais completo e temível. Durante operíodo do noivado, do flerte, da corte, por rudimentar que tenha sido, ela continuou a viver em seu universo habitual de cerimônia e sonho; opretendente falava uma linguagem romanesca ou pelo menos cortês: era ainda possível trapacear. E ei-la repentinamente vista por olhos verdadeiros,segura por mãos de verdade: é a implacável realidade desses olhares e desses abraços que a apavora.O destino anatômico e os costumes conferem ao homem o papel de iniciador. Provavelmente, a primeira amante é também uma iniciadora do jovemvirgem; mas ele possui uma autonomia erótica que a ereção manifesta claramente; a amante entrega-lhe apenas em sua realidade o objeto que ele jáambicionava: um corpo de mulher. A jovem tem necessidade do homem para que seu próprio corpo lhe seja revelado: sua dependência é muito maisprofunda. Desde suas primeiras experiências, há geralmente no homem atividade, decisão, ou porque pague à parceira ou porque a corteje e solicitemais ou menos sumariamente. Ao contrário, na maioria dos casos, a jovem é cortejada e solicitada. Mesmo quando é a mulher quem provoca o homemem prim eiro lugar, este é quem dirige as relações entre ambos; o homem é muitas vezes mais velho, mais sabido e admite-se que é quem tem aresponsabilidade dessa aventura nova para ela; o desejo masculino é mais agressivo, mais imperioso. Amante ou marido, é ele quem a conduz ao leitoonde só resta se entregar e obedecer. Mesmo que tenha aceitado essa autoridade em pensamento, é tomada de pânico no momento em que ele a exerceconcretamente. Tem primeiramente medo do olhar no qual se lança; seu pudor é em parte aprendido, mas tem também raízes profundas; homens emulheres conhecem todos a vergonha da carne. Em sua pura presença imóvel, em sua imanência injustificada, a carne existe ante o olhar de outremcomo a absurda contingência da facticidade, e no entanto a carne é si-mesmo: querem impedi-la de existir para outrem; querem negá-la. Há homensque dizem que não suportam ficar nus diante de uma mulher senão em estado de ereção. Pelo efeito da ereção, a carne torna-se atividade, potência, osexo não é mais objeto inerte, mas, assim como a mão ou o rosto, é expressão imperiosa de uma subjetividade. É uma das razões pelas quais o pudorparalisa muito menos os jovens do que as mulheres; pelo fato de terem um papel agressivo, são menos expostos a ser olhados e, se o são, receiam


pouco ser julgados porque não são qualidades inertes que suas amantes exigem deles: é antes para a potência amorosa e a habilidade em dar prazerque se voltarão seus complexos; podem ao menos se defender, tentar ganhar a partida. À mulher não é dado transformar a carne em vontade; desdeque não a esconde mais, ela a entrega sem defesa; mesmo se deseja carícias, revolta-se contra a ideia de ser vista e apalpada, ainda mais porque osseios e as nádegas são uma proliferação particularmente carnal; muitas mulheres adultas mal suportam serem vistas de costas, mesmo vestidas;podemos imaginar que resistências uma amorosa ingênua precisa superar para consentir em se mostrar. Provavelmente uma Frineia não teme osolhares, põe-se nua, ao contrário, com orgulho: sua beleza a veste. Ainda que igual a Frineia, uma jovem nunca sabe disso com certeza; não pode ter oorgulho arrogante de seu corpo enquanto a aprovação masculina não confirmar sua jovem vaidade. E é o que a apavora; o amante é mais temível aindado que um olhar: é um juiz, vai revelá-la a si mesma em sua verdade; mesmo apaixonada pela própria imagem, toda jovem duvida de si no momento doveredicto masculino. Eis por que reclama a escuridão, esconde-se nos lençóis. Quando se admirava ao espelho, sonhava ainda: sonhava sobre si mesmaatravés dos olhos do homem. Agora esses olhos estão presentes, é impossível trapacear, impossível lutar: é uma misteriosa liberdade que decide e adecisão é inapelável. Na prova real da experiência erótica, as obsessões da infância e da adolescência vão enfim dissipar-se ou confirmar-se parasempre; muitas moças sofrem por ter pernas robustas demais, seios demasiado discretos ou pesados, ancas magras, uma verruga; ou temem algumadeformação secreta. Toda jovem alimenta toda espécie de terrores ridículos que mal ousa confessar, diz Stekel.316 Não se pode imaginar quantas moças sofrem da obsessão de serem fisicamente anormais e se atormentam secretamente por não terem a certeza de ser normalmente constituídas. Certa jovem, por exemplo, acreditava que sua “abertura inferior” não estava no lugar. Imaginava que as relações sexuais se realizavam pelo umbigo. Sentia-se infeliz por ter o umbigo fechado e não poder nele enfiar um dedo sequer. Outra pensava ser hermafrodita. Outra acreditava-se estropiada e incapaz de manter relações sexuais. Mesmo quando não conhecem tais obsessões, elas se assustam com a ideia de que certas partes do corpo que não existiam nem para elas, nem paraninguém, que não existiam de modo algum, vão repentinamente emergir à luz. Essa figura desconhecida que a jovem deve assumir como sua iráprovocar repugnância? Indiferença? Ironia? Ela terá de passar pelo julgamento do homem: nada lhe resta a fazer. Por isso é que a atitude do homemterá repercussões tão profundas. Seu ardor, sua ternura podem dar à mulher uma confiança em si mesma que resistirá a todos os desmentidos: essamulher se acreditará uma flor até os oitenta anos, um lindo pássaro que certa noite um desejo de homem fez surgir. Ao contrário, se o amante ou omarido é inábil, fará com que se desenvolva um complexo de inferioridade em que se enxertarão, muitas vezes, neuroses duradouras; e elaexperimentará um rancor que se traduzirá por uma frigidez obstinada. Stekel nos dá, a propósito, exemplos impressionantes: Uma senhora de 36 anos sofre há 14 de dores lombares tão fortes que precisa ficar de cama durante semanas... Sentiu essa dor violenta pela primeira vez na noite de núpcias. Durante o defloramento, que fora extremamente doloroso, o marido exclamara: “Você me enganou, não é mais virgem...” A dor é a fixação dessa cena penosa. A doença é o castigo do marido que teve de gastar muito com numerosos tratamentos... Essa mulher ficou insensível durante a noite de núpcias e assim permaneceu durante todo o casamento. A noite de núpcias foi para ela um trauma que determinou toda a sua vida futura. Uma jovem mulher consulta-me acerca de perturbações nervosas e em particular de uma frigidez absoluta... Na noite de núpcias, depois de a descobrir, o marido teria exclamado: “Como suas pernas são curtas e grossas!” Em seguida, ele tentou o coito que a deixou perfeitamente insensível e só provocou dores... Ela sabia muito bem que a causa de sua frigidez estava na ofensa da noite de núpcias. Outra mulher frígida conta que “durante a noite de núpcias o marido a teria ofendido profundamente: vendo-a despir-se teria dito ‘Meu Deus, como você é magra!’ e em seguida teria resolvido acariciá-la. Para ela, esse momento tinha sido inesquecível e horrível. Que brutalidade!”. Mme Z.W. é também completamente frígida. O grande trauma da noite de núpcias está no fato de que seu marido teria lhe dito, depois do primeiro coito: “Você tem um buraco grande, você me enganou.” O olhar é perigo; as mãos são também uma ameaça. A mulher não tem geralmente acesso ao universo da violência; nunca passou pela prova que orapaz enfrentou e superou através das brigas da infância e da adolescência: ser uma coisa de carne que outro pode dominar; e agora ela é empunhada,arrastada num corpo a corpo em que o homem leva a melhor; não tem mais a liberdade de sonhar, de recuar, de manobrar: está entregue ao macho quedela dispõe. Esses abraços, análogos aos da luta, aterrorizam-na, a ela que nunca lutou. Entregava-se às carícias de um noivo, de um amigo, de umcolega, de um homem civilizado e cortês: mas ele assumiu uma atitude estranha, egoísta e obstinada; não tem recursos contra esse desconhecido. Nãoé raro que a primeira experiência da jovem seja uma verdadeira violação e que o homem se mostre odiosamente brutal; assim, no campo, onde oscostumes são rudes, acontece muitas vezes que a camponesa, em parte consentindo e em parte se revoltando, perca a virgindade à beira de uma valetaem meio à vergonha e ao terror. O que é entretanto extremamente frequente em todos os meios, em todas as classes, é que a virgem seja tratada comaspereza por um amante egoísta que procura sofregamente seu próprio prazer, ou por um marido ciente de seus direitos conjugais e a quem aresistência da esposa fere como um insulto, chegando até a enfurecer-se se o defloramento é difícil.Aliás, ainda qu e o homem seja atencioso e cortês, a primeira penetração é sempre uma violação. A jovem deseja carícias nos seios, nos lábios, talvezum gozo conhecido ou pressentido entre as coxas, e eis que um sexo macho a fere e se introduz em regiões onde não era chamado. Descreveu-se muitasvezes a penosa surpresa de uma virgem extasiada nos braços de um marido ou de um amante, que acredita alcançar enfim a realização de seus sonhosvoluptuosos e sente no fundo secreto de seu sexo uma dor imprevista; os sonhos dissipam-se, a perturbação sensual igualmente, e o amor assume oaspecto de uma operação cirúrgica.Nas confissões recolhidas pelo dr. Liepmann,317 encontro o relato seguinte, que é típico. Trata-se de uma moça pertencente a um meio modesto e muitoignorante sexualmente. “Muitas vezes eu imaginava que se podia ter um filho simplesmente com a troca de um beijo. Aos 18 anos conheci um senhor por quem, como se diz, me enamorei realmente.” Saiu com ele e, durante as conversas que tinham, ele lhe explicava que, quando uma jovem gosta de um homem, deve dar-se a ele porque os homens não podem viver sem relações sexuais, e que quando não têm uma situação que lhes permita casar, precisam ter tais relações com as moças. Ela resistia. Um dia, ele organizou uma excursão de maneira a poderem passar uma noite juntos. Ela escreveu-lhe uma carta para repetir que “seria para ela um prejuízo muito grave”. Na manhã do dia fixado, deu-lhe a carta, mas ele a pôs no bolso sem ler e levou-a para o hotel; dominava-a moralmente e ela o amava; acompanhou-o. “Estava como que hipnotizada. No trajeto supliquei-lhe que me poupasse... Como cheguei ao hotel, não sei. A única lembrança que me resta é a de que meu corpo tremia violentamente. Meu companheiro tentava me acalmar; mas só conseguiu após uma demorada resistência. Não me senti então mais dona de minha vontade e deixei-o fazer. Quando me encontrei de novo na rua, mais tarde, pareceu-me que tudo não passara de um sonho de que acabava de despertar.” Recusou-se a repetir a experiência e durante nove anos não teve mais relações com homem nenhum. Encontrou um então que a pediu em casamento e ela aceitou. Neste caso, o defloramento foi uma espécie de violação. Mas, mesmo se a jovem consente, pode ser penoso. Vimos que inquie tações perturbavam ajovem Isadora Duncan. Encontrou um ator admiravelmente belo por quem se apaixonou à primeira vista e que lhe fez uma corte fervorosa. Eu também me sentia perturbada, minha cabeça rodava e um irresistível desejo de apertá-lo mais estreitamente contra mim me invadia, até que uma noite, perdendo todo o domínio de si e como que tomado de fúria, ele me carregou para o sofá. Apavorada, extasiada e depois gritando de dor, fui iniciada no gesto de amor. Confesso que minhas primeiras impressões foram um horrível susto, uma dor atroz, como se me tivessem arrancado vários dentes ao mesmo tempo; mas a grande pena que me inspiravam os sofrimentos que ele próprio parecia sentir impediu-me de fugir do que não foi a princípio senão mutilação e tortura... (No dia seguinte) o que então era para mim apenas uma experiência dolorosa, recomeçou em meio a meus gemidos e meus gritos de martírio. Sentia-me como que estropiada.318 Devia conhecer dentro em breve, com esse amante primeiramente e com outros depois, paraísos que descreve liricamente.Entretanto, na experiência real como antes, na imaginação virginal, não é a dor que desempenha o papel principal: a penetração é mais importante. Ohomem empenha no coito unicamente um órgão exterior: a mulher é atingida até no interior de si mesma. Há provavelmente muitos rapazes que não seaventuram sem angústia nas trevas secretas da mulher; reencontram seus terrores da infância à entrada das grutas, dos sepulcros, seu pavor tambémdiante das tenazes, das foices, das armadilhas, imaginam que o pênis inchado ficará preso na bainha das mucosas. A mulher, uma vez penetrada, nãotem esse sentimento de perigo, mas em compensação sente-se carnalmente alienada. O proprietário afirma seus direitos sobre suas terras, a dona dacasa sobre sua casa, proclamando “proibida a entrada”; pelo fato de serem frustradas, as mulheres em particular defendem com ciúme sua intimidade:a cama, o armário, os cofres são sagrados. Colette conta que uma velha prostituta lhe disse um dia: “Em meu quarto, madame, nunca entrou umhomem; Paris é bastante grande para o que tenho que fazer com homens.” Não podendo defender seu corpo, tinha pelo menos uma parcela de terra adefender de outrem. A jovem, ao contrário, só possui de seu, por assim dizer, o corpo; é seu tesouro mais precioso: o homem que nele penetra toma; aexpressão popular é confirmada pela experiência vivida. Ela experimenta a humilhação que pressentia concretamente: é dominada, submetida, vencida.Como quase todas as fêmeas, fica durante o coito por baixo do homem.319 Adler insistiu muito no sentimento de inferioridade que disso resulta. Desde ainfância, as noções de superior e inferior são das mais importantes; subir nas árvores é um ato prestigioso; o céu está em cima da terra, o infernoembaixo; cair, descer, é degradar-se e subir é exaltar-se; na luta, a vitória pertence a quem faz os ombros do adversário tocarem no chão; ora, a mulher


acha-se deitada na cama na posição da derrota; é pior ainda se o homem a cavalga como um animal preso às rédeas e ao freio. Em todo caso, ela sesente passiva: ela é acariciada, penetrada, suporta o coito, enquanto o homem se empenha ativamente. Por certo, o sexo do macho não é um músculoestriado que a vontade comanda; não é relha de arado nem espada, mas apenas carne; entretanto, o homem imprim e-lhe um movimento voluntário;vai, vem, para, recomeça enquanto a mulher o recebe docilmente; é o homem, principalmente quando a mulher é noviça, que escolhe as posiçõesamorosas, que decide a duração do coito e sua frequência. Ela sente-se instrumento: toda a liberdade pertence ao outro. É o que se exprimepoeticamente dizendo que a mulher é comparável a um violino e o homem, ao arco que o faz vibrar. “No amor”, diz Balzac,320 “a alma é posta de lado, amulher é como uma lira que só desvenda seu segredo a quem sabe tocar”. Ele toma seu prazer; ela dá esse prazer. As próprias palavras não implicamreciprocidade. A mulher está imbuída de representações coletivas que dão ao ato masculino um caráter glorioso e que fazem da perturbação femininauma abdicação vergonhosa: sua experiência íntima c onfirma essa assimetria. É preciso não esquecer que o adolescente e a adolescente sentem o corpode maneira diferente: o primeiro o assume tranquilamente e reivindica-lhe orgulhosamente os desejos; para a segunda, a despeito de seu narcisismo,esse corpo é um fardo estranho e inquietante. O sexo do homem é limpo e simples como um dedo; exibe-se com inocência, muitas vezes os rapazes omostram aos companheiros com orgulho, num desafio; o sexo feminino é misterioso até para a própria mulher, é escondido, atormentado, mucoso,úmido; sangra todos os meses e é por vezes maculado de humores, tem uma vida secreta e perigosa. É em grande parte porque a mulher não sereconhece nele que não reconhece como seus os desejos dele. Estes se exprimem de maneira vergonhosa. Enquanto o homem se entesa, a mulhermolha-se; há, na própria palavra, recordações infantis da cama molhada, do abandono culposo e involuntário à necessidade de urinar; o homemexperimenta o mesmo nojo diante das poluções noturnas inconscientes; projetar um líquido, urina ou esperma, não humilha: é uma operação ativa. Mashá humilhação se o líquido escapa passivamente, pois o corpo não é mais um organismo, músculos, esfíncter, nervos, comandados pelo cérebro eexprimindo o sujeito consciente, mas sim um vaso, um receptáculo feito de matéria inerte e joguete de caprichos mecânicos. Se a carne ressuma —como um muro velho ou um cadáver —, a impressão não é de que está expelindo um líquido e sim de que se está liquidificando: é um processo dedecomposição que causa horror. O cio é a mole palpitação de uma ostra; enquanto o homem tem impetuosidade, a mulher tem somente impaciência;sua espera pode tornar-se ardente sem deixar de ser passiva; o homem cai sobre a presa como uma águia ou um falcão; ela aguarda à espreita como aplanta carnívora, o pantanal em que insetos e crianças se atolam; ela é sucção, ventosa, absorção, pez e visgo, apelo imóvel, insinuante e viscoso: pelomenos é assim que surdamente se sente. Eis por que não há nela apenas resistência contra o macho que pretende submetê-la, mas também conflitointerior. Aos tabus e às inibições provenientes de sua educação e da sociedade, superpõem-se repugnâncias, recusas que têm sua fonte na própriaexperiência erótica; uns e outros se fortalecem mutuamente a tal ponto que depois do primeiro coito a mulher surge mais revoltada do que antes contraseu destino sexual.Há, enfim, outro fator que dá muitas vezes ao homem uma fisionomia hostil e transforma o ato sexual em grave perigo: a ameaça do filho. Um filho. Umfilho ilegítimo é, na maioria das civilizações, um tal handicap social e econômico para a mulher não casada que há jovens que se suicidam ao saberemque estão grávidas, e mães solteiras que esganam o recém-nascido; semelhante risco constitui um freio sexual bastante forte para que muitas jovensobservem a castidade pré-nupcial exigida pelos costumes. Quando o freio é insuficiente, a jovem, embora cedendo ao amante, apavora-se com o terrívelperigo que este esconde em seus flancos. Stekel cita, entre outros casos, o de uma jovem que durante toda a duração do coito gritava: “Contanto quenão aconteça nada!” Mesmo no casamento, a mulher muitas vezes não quer filhos, não tem bastante saúde ou o filho representaria para o jovem casalum encargo pesado demais. Amante ou marido, se não tiver em seu parceiro uma confiança absoluta, ela terá seu erotismo paralisado pela prudência.Ou controlará inquietamente a conduta do homem, ou então, terminado o coito, terá de correr ao banheiro para escorraçar do ventre o germe vivo neledepositado contra sua vontade; essa operação higiênica contradiz brutalmente a magia sensual das carícias, realiza uma separação absoluta dos corposque uma mesma alegria confundia; é então que o esperma masculino se apresenta como um germe nocivo, uma mácula; ela se limpa como se limpa umvaso sujo, enquanto o homem repousa em seu leito em soberba integridade. Uma jovem divorciada contou-me seu horror quando, após uma noitenupcial de prazer discutível, lhe foi necessário fechar-se no banheiro enquanto o esposo acendia displicenteme nte um cigarro: é de crer que a partirdesse instante a ruína do lar se achava consumada. A repugnância pela seringa de lavagem ou pelo bidê é uma das causas frequentes da frigidezfeminina. A existência de métodos anticoncepcionais mais seguros e discretos auxilia muito a libertação sexual da mulher; num país como os EstadosUnidos, onde essas práticas são comuns, o número de moças que chegam virgens ao casamento é muito inferior ao que se verifica na França; elaspermitem maior abandono durante o ato amoroso. Mas nesse caso também a jovem tem de superar repugnâncias antes de tratar o corpo como umacoisa; assim como não aceitava sem temor o fato de ser “transpassada” por um homem, não se resigna de bom grado a ser “tapada” para satisfazer osdesejos de um homem. Mesmo mandando selar o útero, ou introduzindo na vagina algum tampão mortal para os espermatozoides, uma mulherconsciente dos equívocos do corpo e do sexo se sentirá embaraçada por tão fria premeditação: há muitos homens que encaram com repugnância o usode preservativos. É o conjunto do comportamento sexual que justifica seus diversos momentos: condutas que pareceriam repugnantes à análise, seafiguram naturais quando os corpos são transfigurados pelas virtudes eróticas de que se revestem; mas, inversamente, desde que se decomponhamcorpo e condutas em elementos privados de sentido, tais elementos tornam-se sujos, obscenos. A penetração que uma mulher apaixonadaexperimentará alegremente como união, como fusão com o homem amado, readquirirá o caráter cirúrgico e sujo que assume aos olhos da criança serealizada fora da perturbação sensual, do desejo, do prazer: é o que acontece com o uso decidido por ambos dos preservativos. De qualquer modo, taisprecauções não estão ao alcance de todas as mulheres; muitas jovens não conhecem nenhuma defesa contra as ameaças da gravidez e sentem demaneira angustiada que sua sorte depende da boa vontade do homem a quem se entregam.Compreende-se que uma experiência vivida através de tantas resistências, revestida de um sentido tão pesado, crie frequentemente terríveistraumatismos. Acontece muitas vezes que uma demência precoce latente seja revelada pela primeira aventura. Stekel dá vários exemplos disso: A senhorita M.G., aos 19 anos, foi subitamente atacada de delírio agu do. Eu a vi no seu quarto, gritando e repetindo sempre: “Não quero! Não, não quero!” Arrancava as vestes e queria correr nua no corredor... Foi preciso levá-la para uma clínica psiquiátrica. Aí o delírio serenou e transformou-se em estado catatônico. Essa jovem era estenodatilógrafa e estava apaixonada pelo gerente da firma em que trabalhava. Partira para o campo com uma amiga e dois colegas. Um deles pediu-lhe para passar a noite no quarto dela dizendo que seria apenas “uma brincadeira”. Ele a teria acariciado durante três noites seguidas sem atentar contra sua virgindade... Ela teria ficado “fria como o focinho de um cão”, e teria declarado que era uma porcaria. Durante alguns minutos, teria ficado perturbada e gritado: Alfredo, Alfredo! (nome do gerente). Tivera remorsos (que diria minha mãe, se soubesse?). De volta a casa, pusera-se na cama queixando-se de enxaqueca. A senhorita L.X., muito deprimida, chorava frequentemente, não comia, não dormia; começara a ter alucinações e não reconhecera mais as pessoas que a cercavam. Saltara ao peitoril da janela para atirar-se na rua. Mandaram-na para uma casa de saúde. “Encontrei essa moça de 23 anos sentada na cama; não se deu conta de minha chegada”... O rosto exprimia angústia e terror; as mãos projetavam-se para a frente como para se defender, as pernas estavam cruzadas e remexiam-se convulsamente. Gritou: “Não, não! Bruto! Deviam prender gente assim. Dói! Ah!” Em seguida, disse palavras incompreensíveis. De repente, seu rosto mudou de expressão, os olhos brilhavam, a boca esboçou um beijo, as pernas acalmaram-se e descruzaram-se insensivelmente, pronunciou palavras que pareciam exprimir volúpia... O acesso terminou com uma crise de lágrimas silenciosas e contínuas... A doente puxava a camisa como que para se cobrir e repetia sempre: “Não!” Soube-se que um colega casado fora visitá-la muitas vezes quando estava doente, que a princípio ela se mostrara contente, mas depois tivera alucinações com tentativa de suicídio. Curou-se, mas nunca mais deixou um homem aproximar-se dela e recusou um pedido sério de casamento. Em outros casos, a doença assim iniciada é menos grave. Eis um exemplo em que a saudade da virgindade perdida desempenha o papel principal nasperturbações consecutivas ao primeiro coito: Uma jovem de 23 anos sofre de diferentes fobias. A doença começou em Franzensbad por temor de ficar grávida em virtude de um beijo ou de contágio numa latrina... Um homem talvez tivesse deixado um pouco de esperma na água após a masturbação; exigia que a banheira fosse limpa três vezes em sua presença e não ousava defecar em posição normal. Tempos depois desenvolveu uma fobia de perfuração do hímen e ela não ousava dançar, saltar ou pular uma barreira nem andar senão com passos miúdos; se divisava um poste, temia ser deflorada num movimento desastrado e dava uma grande volta, tremendo. Tinha outra fobia, a de que em um trem ou no meio da multidão um homem pudesse introduzir-lhe o membro por trás, deflorá-la e engravidá-la. Durante o último período da doença, temia encontrar na cama ou na camisa alfinetes que poderiam entrar na vagina. Todas as noites a doente ficava nua no meio do quarto enquanto sua infeliz mãe era forçada a entregar-se a um penoso exame da roupa... Ela sempre afirmava que amava o noivo. A análise descobriu que ela não era mais virgem e que adiava o casamento com receio de constatações funestas do noivo. Confessou-lhe afinal ter sido seduzida por um tenor, casou e curou-se.321 Em outro caso foi o remorso não compensado por uma satisfação voluptuosa que provocou as perturbações psíquicas: A senhorita H.B., de vinte anos, apresenta-se com grave depressão após uma viagem à Itália com uma amiga. Recusa-se a sair do quarto e não pronuncia uma só palavra. Ela é levada para uma casa de saúde, onde seu estado se agrava. Ouvia vozes que a injuriavam, todos zombavam dela etc. É conduzida de volta à casa dos pais, onde fica num canto sem se mexer. Em certa ocasião, pergunta ao médico: “Por que não vim antes que o crime fosse cometido?” Estava morta. Tudo se apagara, tudo fora destruído. Ela estava suja. Não poderia mais cantar uma só nota, estavam interrompidas todas as comunicações com o mundo... O noivo confessou tê-la encontrado em Roma, onde ela se entregara a ele após demorada resistência; teve crises de lágrimas... Ela confessou que nunca tivera prazer com o noivo. Curou-se quando achou um amante que a satisfez e com o qual casou. A “graciosa vienense” cujas confissões infantis já resumi, faz também um relato minucioso de suas primeiras experiências de adulta. Vamos ver que, apesar de ter ido muito


longe em aventuras anteriores, sua “iniciação” não deixou de apresentar um aspecto absolutamente novo. “Com 16 anos e meio fui trabalhar num escritório. Aos 17 e meio tive minhas primeiras férias; foi uma bela época para mim. Faziam-me a corte de todos os lados... Gostava de um jovem colega do escritório... Fomos a um parque. Foi a 15 de abril de 1909. Ele me fez sentar a seu lado num banco. Beijava-me suplicando: ‘Abra os lábios’, mas eu os fechava convulsamente. Em seguida ele começou a desabotoar minha blusa. Gostaria de permitir, mas lembrei-me de que não tinha seios; renunciei à sensação voluptuosa que poderia ter se ele me tocasse... No dia 7 de abril, um colega convidou-me para ir a uma exposição com ele. Bebemos vinho no jantar e perdi um pouco de minha reserva; comecei a contar algumas histórias equivocadas. Apesar de minhas súplicas ele chamou um carro, empurrou-me para dentro e, mal os cavalos principiaram a andar, me beijou. Ia se tornando cada vez mais íntimo, avançava cada vez mais a mão; eu me defendia com todas as minhas forças e não recordo se ele alcançou o fim. No dia seguinte fui para o escritório bastante perturbada. Ele mostrou-me as mãos cobertas de arranhões que eu lhe fizera... Pediu-me que fosse visitá-lo mais frequentemente... Cedi, não muito à vontade, mas cheia de curiosidade... Sempre que ele se aproximava de meu sexo eu me afastava para voltar a meu lugar, mas uma vez, mais esperto do que eu, dominou-me e provavelmente introduziu o dedo em minha vagina. Chorei de dor. Era no mês de junho de 1909 e saí de férias. Fiz uma excursão com minha amiga. Dois turistas surgiram e convidaram-nos a acompanhá-los. Meu companheiro quis beijar minha amiga, ela deu-lhe um soco. Ele veio para meu lado, pegou-me por trás, curvou-me e me beijou. Não resisti... Convidou-me a acompanhá-lo. Dei-lhe a mão e descemos para a floresta. Beijou-me, beijou meu sexo, com grande indignação minha. Dizia-lhe: ‘Como pode fazer semelhante porcaria?’ Ele colocou o membro em minha mão... eu o acariciei. Subitamente, ele arrancou minha mão e pôs um lenço em cima para me impedir de ver o que acontecia... Dois dias depois, fomos juntos a Liesing. Num prado isolado, ele tirou de repente o sobretudo para estendê-lo na relva... Jogou-me ao chão de tal maneira que uma de suas pernas se colocava entre as minhas. Eu não acreditava ainda no que estava acontecendo. Supliquei-lhe que me matasse, mas não roubasse minha ‘mais linda joia’. Ele tornou-se muito grosseiro, disse palavrões e ameaçou-me com a polícia. Tapou-me a boca com a mão e introduziu o pênis. Pensei que minha última hora tivesse chegado. Tinha a sensação de que meu estômago revirava. Quando acabou, enfim, comecei a achá-lo suportável. Ele foi obrigado a levantar-me, porque eu continuava deitada. Cobriu-me os olhos e o rosto de beijos. Eu não via nem ouvia mais nada. Se ele não me tivesse segurado eu teria caído cegamente embaixo de algum carro... Estávamos sós num compartimento de segunda classe, ele desabotoou a calça para me pegar novamente. Dei um grito e corri através do vagão até o estribo. Finalmente, ele me deixou com um riso brutal e estridente que nunca esquecerei, chamando-me de boba estúpida que não sabe o que é bom. Deixou-me voltar sozinha para Viena. Chegando a Viena fui depressa ao banheiro porque sentira uma coisa quente a escorrer pelas minhas coxas. Assustada, vi manchas de sangue. Como dissimular aquilo em casa? Deitei-me o mais cedo possível para chorar durante horas. Continuava a sentir a pressão no estômago provocada pela penetração do pênis. Minha atitude estranha e minha falta de apetite indicaram a minha mãe que tinha havido alguma coisa. Confessei-lhe tudo. Ela não achou tão terrível assim... Meu colega fazia o que podia para me consolar. Aproveitou as tardes escuras para passear comigo no parque e acariciar-me por baixo da saia. Eu deixava; só que logo que sentia minha vagina úmida, afastava-me porque tinha vergonha.” Ela vai por vezes a um hotel com o companheiro, mas sem ter relações com ele. Fica conhecendo um rapaz muito rico com quem gostaria de casar. Dorme com ele mas sem nada sentir, e com repugnância. Reata relações com o colega, mas tem saudade do outro, começa a ficar vesga, a emagrecer. Mandam-na para um sanatório onde quase chega a dormir com um jovem russo, expulsando-o da cama no último momento. Esboça aventuras com um médico e um oficial, mas sem consentir em relações sexuais completas. É então que cai doente moralmente e resolve tratar-se. Depois da cura consentiu em se entregar a um homem que a amava e que mais tarde a desposou. Com o casamento, sua frigidez desapareceu. Nestes exemplos, escolhidos entre muitos outros análogos, a brutalidade do parceiro ou a ocorrência repentina do ato são os fatores que determinamtraumatismo e nojo. O caso mais favorável a uma iniciação sexual é aquele em que, sem violência nem surpresa, sem ordem precisa nem prazo fixado, ajovem aprende lentamente a superar o pudor, a familiarizar-se com o parceiro, a gostar de suas carícias. Neste sentido, só podemos aprovar a liberdadede costumes de que gozam as jovens norte-americanas e que as francesas tendem hoje a conquistar. Elas deslizam quase sem perceber do necking e dopetting às relações sexuais completas. A iniciação é tanto mais fácil quanto menos se reveste de um caráter de tabu, sentindo-se a jovem mais livre emrelação ao parceiro, em quem o caráter dominador do macho se apaga. Se o amante é jovem também, noviço, tímido, um igual, as resistências da moçasão menos fortes; mas sua metamorfose em mulher será também menos profunda. Assim, em Blé en herbe, a Vinca, de Colette, no dia seguinte a umdefloramento assaz brutal, demonstra uma placidez que surpreende seu colega Phil: ela não se sentiu “possuída”, pôs, ao contrário, seu orgulho em selibertar da virgindade. Não experimentou um desvario transtornante e em verdade Phil não tem razão de se espantar, sua amiga não conheceu omacho. Claudine saía menos ilesa após uma dança nos braços de Renaud. Citaram-me o caso de uma estudante francesa, ainda no estágio do “frutoverde”, que, tendo passado uma noite com um colega, correra pela manhã à casa de uma amiga para anunciar: “Dormi com C.; foi muito divertido.” Umprofessor de colégio norte-americano dizia-me que suas alunas deixavam de ser virgens muito antes de se tornarem mulheres; seus parceiros asrespeitam demais para ferir-lhes o pudor; são eles próprios muito jovens ou muito pudicos para despertar nelas um demônio qualquer. Há jovens que seentregam a experiências eróticas e as multiplicam a fim de fugir à angústia sexual; esperam libertar-se assim de sua curiosidade e de suas obsessões;mas muitas vezes seus atos conservam um caráter teórico que os torna tão irreais quanto os fantasmas através dos quais outras antecipam o futuro.Entregar-se por desafio, por temor, por racionalismo puritano não é realizar uma autêntica experiência erótica: atinge-se somente um sucedâneo semperigo nem sabor; o ato sexual não se acompanha de vergonha nem de angústia porque a perturbação permaneceu superficial e o prazer não invadiu acarne. Essas virgens defloradas continuam moças e é provável que no dia em que se encontrarem em face de um homem sensual e imperioso lheoporão resistências virginais. Enquanto isso não ocorre, elas permanecem ainda numa espécie de idade ingrata; as carícias fazem cócegas, os beijospor vezes provocam risos, encaram o amor físico como um jogo e, se não se sentem dispostas a divertir-se com isso, as exigências do amante logo lhesparecem importunas e grosseiras; elas conservam repugnâncias, fobias e um pudor de adolescente. Se nunca superam esse estágio — o que é, segundodizem os homens americanos, o caso de muitas mulheres de seu país —, passarão a vida num estado de semifrigidez. Só há verdadeira maturidadesexual na mulher que consente em se fazer carne na perturbação e no prazer.Entretanto, não se deve acreditar que todas as dificuldades se atenuem nas mulheres de temperamento ardente. Ao contrário, podem se exasperar. Aperturbação feminina pode atingir uma intensidade que o homem não conhece. O desejo do homem é violento mas localizado, e o deixa — salvo talvezno instante do espasmo — consciente de si mesmo; a mulher, ao contrário, experimenta uma verdadeira alienação; para muitas, essa metamorfose é omomento mais voluptuoso e definitivo do amor, mas ela tem também um caráter mágico e assustador. Acontece de o homem se amedrontar diante damulher que tem nos braços, a tal ponto ela se apresenta ausente de si mesma e presa como que de um desvario. O transtorno que ela sente é umatransmutação bem mais radical do que o frenesi agressivo do homem. Essa febre a liberta da vergonha; mas, ao despertar, causa-lhe, por sua vez,vergonha e horror; para que ela aceite esse transtorno com felicidade — e até com orgulho —, será preciso, ao menos, que se tenha desabrochado emchamas de volúpia; ela poderá reivindicar seus desejos se os tiver gloriosamente satisfeito: caso contrário, os repudiará com raiva.Toca-se aqui no problema crucial do erotismo feminino: no início de sua vida erótica, a abdicação da mulher não é compensada por um gozo violento ecerto. Ela sacrificaria muito mais facilmente pudor e orgulho se com isso abrisse as portas de um paraíso. Mas vimos que o defloramento não é umafeliz realização do erotismo juvenil; é, ao contrário, um fenômeno insólito; o prazer vaginal não se verifica imediatamente; segundo as estatísticas deStekel — que numerosos sexólogos e psicanalistas confirmam —, somente 4% das mulheres sentem prazer desde o primeiro coito; 50% não atingem oprazer vaginal antes de semanas, meses, e até anos. Os fatores psíquicos desempenham nisso um papel essencial. O corpo da mulher é singularmente“histérico”, no sentido de que não há muitas vezes nela nenhuma distância entre os fatos conscientes e sua expressão orgânica; suas resistênciasmorais impedem o aparecimento do prazer; não sendo compensadas em nada, muitas vezes elas se perpetuam e formam uma barreira cada vez maisforte. Em muitos casos, cria-se um círculo vicioso: uma primeira inabilidade do amante, uma palavra, um gesto desastrado, um sorriso arroganterepercutirão durante toda a lua de mel e até na vida conjugal; decepcionada por não ter conhecido imediatamente o prazer, a jovem mulher guarda umrancor, que a predispõe mal a uma experiência mais feliz. É verdade que, na falta de prazer normal, o homem pode dar-lhe sempre o prazer clitoridiano,que, a despeito das lendas moralizadoras, é suscetível de dar relaxamento e serenidade. Mas muitas mulheres recusam-no porque, mais ainda do que oprazer vaginal, ele se apresenta como imposto, pois se a mulher sofre com o egoísmo dos homens que só pensam em sua própria satisfação, ela se sentetambém chocada por uma vontade demasiado explícita de dar prazer a ele. “Fazer o outro gozar, diz Stekel, quer dizer dominá-lo; dar-se a alguém éabdicar a própria vontade.” A mulher aceitará muito mais facilmente o prazer se este parecer que decorre naturalmente do que o homem sente elepróprio, como acontece num coito normal realizado com êxito. “As mulheres submetem-se com alegria, quando percebem que o parceiro não as quersubmeter”, diz ainda Stekel; mas, inversamente, se sentem essa vontade, revoltam-se; a muitas repugna deixarem-se acariciar com a mão, porque amão é um instrumento que não participa do prazer que dá, ela é atividade e não carne; e se o próprio sexo se apresenta não como uma carne penetradade desejo e sim como um utensílio habilmente utilizado, a mulher experimentará a mesma repulsa. Além disso, toda compensação lhe pareceráconfirmar sua incapacidade de conhecer as sensações de uma mulher normal. Stekel verifica, segundo numerosas observações, que todo o desejo dasmulheres ditas frígidas se orienta para a norma: “Elas querem alcançar o orgasmo como uma mulher normal, e qualquer outro procedimento não assatisfaz moralmente.”A atitude do homem tem, portanto, enorme importância. Se seu desejo é violento e brutal, sua parceira se sente transformada em simples coisa em seusbraços; mas se é demasiado senhor de si, demasiado displicente, ele não se constitui como carne; ele pede à mulher que se faça carne sem que emtroca ela tenha algum domínio sobre ele. Em ambos os casos, seu orgulho se rebela; para que ela possa conciliar sua metamorfose em objeto carnal e areivindicação de sua subjetividade, é preciso que, se tornando presa para o macho, também faça dele sua presa. Eis por que, tão frequentemente, amulher se obstina na frieza. Se o amante carece de sedução, se é frio, negligente, desajeitado, fracassa em despertar a sexualidade dela ou a deixainsatisfeita; mais viril e hábil, pode suscitar reações de recusa; a mulher teme seu domínio: algumas só podem encontrar o prazer com homens tímidos,maldotados e até semi-impotentes, que não as amedrontam. É fácil ao homem despertar com sua inabilidade azedume e rancor. O rancor é a maisfrequente causa da frigidez feminina. Na cama, mediante uma frieza insultante, a mulher faz o homem pagar todas as afrontas que imagina terrecebido: há, muitas vezes, em sua atitude um complexo de inferioridade agressivo: posto que você não me ama, posto que tenho defeitos que meimpedem de agradá-lo e que sou desprezível, não me entregarei tampouco ao amor, ao desejo, ao prazer. Assim é que ela se vinga a um tempo dele e desi mesma, se ele a humilhou com sua negligência, se excitou seu ciúme, se se declarou tarde demais, se fez dela sua amante quando ela aspirava aocasamento. O ressentimento pode aparecer repentinamente e provocar uma reação mesmo durante uma ligação cujo início foi feliz. É raro que ohomem que suscitou essa inimizade consiga ele próprio vencê-la; pode acontecer entretanto que um testemunho persuasivo de amor ou de estimamodifique essa situação. Mulheres desconfiadas e tensas são vistas nos braços do amante, a quem uma aliança no dedo transformava: felizes,lisonjeadas, com a consciência em paz, todas as resistências se dissipavam. Mas é um recém-chegado, respeitoso, amoroso, delicado, que poderátransformar a mulher despeitada em uma amante ou uma esposa feliz; se ele a libertar de seu complexo de inferioridade, ela se entregará a ele comardor.A obra de Stekel, A mulher frígida, esforça-se essencialmente por demonstrar o papel dos fatores psíquicos na frigidez feminina. Os exemplos seguintesmostram bem que esta é muitas vezes uma conduta de rancor para com o marido ou o amante.


A srta. G.S. entregara-se a um homem à espera do casamento, mas insistindo no fato de que “não fazia questão de casamento, que ela não queria ficar presa”. Representava o papel de mulher livre. Na verdade, era escrava da moral como toda a sua família. Mas o amante a acreditava livre e não falava nunca em casamento. Sua obstinação intensificava-se cada vez mais e ela acabou por tornar-se insensível. Quando ele enfim a pediu em casamento, ela se vingou confessando sua anestesia e não querendo mais ouvir falar de união. Não queria mais ser feliz. Esperara demais... Devorava-se de ciúme e aguardava ansiosamente o dia do pedido para recusá-lo orgulhosamente. Mais tarde quis suicidar-se a fim de punir o amante com requinte. Uma mulher que até então tivera prazer com o marido, mas que era muito ciumenta, imagina, durante uma doença, que o marido a engana. Voltando para casa, resolve ser fria com o marido. Nunca mais deveria ser excitada por ele, uma vez que ele não a estimava e utilizava-se dela somente em caso de necessidade. Desde a volta para casa tornara-se frígida. No princípio, valia-se de pequenos truques para não se excitar. Imaginava o marido f azendo a corte a uma amiga. Mas, dentro em breve, o orgasmo foi substituído por dores... Uma jovem de 17 anos tinha uma ligação com um homem e sentia intenso prazer. Grávida aos 19 anos, pediu ao amante que a desposasse; ele ficou indeciso e aconselhou-a a provocar o aborto, o que ela recusou. Após três semanas, ele se declarou disposto a casar e ela tornou-se sua mulher. Mas ela nunca lhe perdoou as três semanas de tormento e tornou-se frígida. Posteriormente, uma explicação com o marido venceu a frigidez. A senhora N.M. vem a saber que o marido, dois dias depois do casamento, fora ver uma antiga amante. O orgasmo que ela sentia antes desapareceu para sempre. Ficou com a ideia fixa de não mais agradar ao marido que achava ter decepcionado. Nisto está, a seu ver, a causa de sua frigidez. Mesmo quando a mulher supera essas resistências e conhece, ao fim de um tempo mais ou menos longo, o prazer vaginal, não dasaparecem ainda todasas dificuldades: porque o ritmo de sua sexualidade e da sexualidade masculina não coincidem. Ela demora muito mais a gozar do que o homem. Três quartos dos homens, talvez, conhecem o orgasmo durante os dois minutos que se seguem ao início do ato sexual, diz o relatório de Kinsey. Se tivermos em vista as numerosas mulheres d e nível superior cujo estado é tão desfavorável às situações sexuais que dez ou quinze minutos de estimulação ativa lhes são necessários para que alcancem o orgasmo, e se considerarmos o número bastante importante de mulheres que não conhecem durante toda sua vida o orgasmo, é preciso, naturalmente, que o homem tenha uma capacidade inteiramente excepcional em prolongar a atividade sexual sem ejacular para poder criar uma harmonia com sua parceira. Diz-se que na Índia o marido fuma de bom grado o cachimbo ao mesmo tempo que cumpre o dever conjugal, a fim de se distrair do próprio prazer efazer durar o da esposa; no Ocidente, é antes do número de “trepadas” que se vangloria um Casanova; e sua suprema vaidade consiste em conseguirque a parceira se esgote; segundo a tradição erótica, é uma façanha que não se repete muitas vezes. Os homens queixam-se muitas vezes das terríveisexigências da companheira: uma fêmea enraivecida, uma ogra, uma esfaimada; nunca se satisfaz. Montaigne expõe esse ponto de vista no Livro III deseus Essais (cap. V). Elas são sem comparação mais capazes e ardorosas quanto aos efeitos do amor do que nós, e assim o testemunhou esse sacerdote antigo que ora fora homem e ora fora mulher. Além disso, sabemos, pelo que eles próprios contaram, da prova que fizeram outrora há muitos séculos um imperador e uma imperatriz de Roma, peritos e famosos nessas tarefas. Ele desvirginou em uma noite dez jovens cativas sármatas, mas ela se entregou de verdade em uma noite a 25, mudando de companheiro segundo sua disposição e seu gosto,adhuc ardens rigidæ tentigine vulvæEt lassata viris, necdum satiata recessit322 e também a querela verificada na Catalunha entre uma mulher queixando-se dos esforços demasiado assíduos do marido, não a ponto de incomodá-la, a meu ver (pois em matéria de milagres só acredito nos da fé)... do que resultou esta notável decisão da rainha de Aragão pela qual, após madura deliberação do Conselho, essa grande dama... determinou como limites legítimos e necessários o número de seis coitos por dia, não levando em conta a necessidade e o desejo de seu sexo para estabelecer, dizia, uma norma comum e portanto permanente e imutável. É que, na verdade, a volúpia não tem na mulher a mesma forma que no homem. Já disse que não se sabia exatamente se o prazer vaginal chegavaalgum dia a um orgasmo definido; neste ponto, as confidências femininas são raras e, mesmo quando existem, e visam à precisão, são extremamentevagas; parece que as reações são muito diferentes segundo os indivíduos. O que é certo é que o coito tem para o homem um fim biológico preciso: aejaculação. E é seguramente através de muitas outras intenções muito complexas que esse fim é visado; mas uma vez atingido, surge como umaconsequência, e se não como a satisfação do desejo, ao menos como sua supressão. Ao contrário, na mulher, o fim é um ponto de partida incerto e denatureza mais psíquica do que fisiológica; ela quer a comoção, a volúpia em geral, mas seu corpo não projeta nenhuma conclusão nítida do atoamoroso: e é por isso que para ela o coito nunca finda inteiramente: não comporta um fim. O prazer do macho sobe como uma flecha; ao atingir umcerto ponto realiza-se e morre ab-ruptamente no orgasmo; a estrutura do ato sexual é finita e descontínua. O gozo feminino é irradiado pelo corpointeiro: nem sempre é centrado no sistema genital; e, mesmo então, as contrações vaginais, mais do que um verdadeiro orgasmo, constituem umsistema de ondulações que nascem ritmicamente, dissipam-se, reformam-se, atingem por momentos um paroxismo e em seguida se embaralham e sefundem sem nunca morrer completamente. Não lhe correspondendo nenhum termo fixo, o prazer visa ao infinito: é muitas vezes uma fadiga nervosa oucardíaca, ou uma saciedade psíquica que limita as possibilidades eróticas da mulher mais do que uma satisfação precisa; mesmo plena, mesmoesgotada, ela nunca se liberta inteiramente:Lassata necdum satiata, na expressão de Juvenal.O homem comete um grave erro quando pretende impor à companheira seu próprio ritmo e se obstina em dar a ela um orgasmo: muitas vezes com issosó consegue perturbar a forma voluptuosa que ela estava vivendo a seu próprio modo.323 É uma forma bastante plástica para dar a si mesma um termo:certos espasmos localizados na vagina ou no conjunto do sistema genital, ou emanando de todo o corpo, podem constituir uma solução. Em certasmulheres eles se produzem bastante regularmente e com suficiente violência para serem assimilados a um orgasmo; mas uma amante pode tambémencontrar no orgasmo masculino uma conclusão que a acalma e satisfaz. E pode acontecer também que de maneira contínua, sem choque, a formaerótica se dissolva tranquilamente. O êxito não exige, como acreditam muitos homens meticulosos mas simplistas, uma sincronização matemática doprazer e sim o estabelecimento de uma forma erótica complexa. Muitos imaginam que “fazer gozar” uma mulher é questão de tempo e de técnica, logouma violência; ignoram a que ponto a sexualidade da mulher é condicionada pelo conjunto da situação. A volúpia é nela, já o dissemos, uma espécie deencantamento, reclama um abandono total; se palavras ou gestos contestam a magia das carícias, o encantamento se dissipa. É uma das razões pelasquais tantas vezes a mulher fecha os olhos: fisiologicamente, há nisso um reflexo destinado a compensar a dilatação da pupila; mas mesmo na escuridãoela ainda baixa as pálpebras; quer abolir qualquer cenário, abolir a singularidade do instante, de si própria e do amante, quer perder-se no fundo deuma noite carnal tão indistinta quanto o seio materno. E, mais particularmente, ela almeja suprimir essa separação que ergue o macho à sua frente, eladeseja fundir-se com ele. Já se disse que deseja, fazendo-se objeto, permanecer sujeito. Mais profundamente alienada do que o homem, pelo fato de serdesejo e confusão em todo o corpo, só continua sujeito pela união com o parceiro; seria preciso que, para os dois, dar e receber se confundissem; se ohomem se restringe a ter sem dar ou a dar sem ter, ela se sente manobrada; desde que se realiza como Outro, ela é o outro inessencial; torna-senecessário para ela negar a alteridade. Eis por que o momento da separação dos corpos lhe é quase sempre penoso. O homem, depois do coito, sinta-setriste ou alegre, enganado pela natureza ou vencedor da mulher, sempre renega a carne, volta a ser um corpo íntegro, quer dormir, tomar um banho,fumar um cigarro, dar um passeio ao ar livre. Ela gostaria de prolongar o contato carnal até que o encantamento que a fez carne se dissipe porcompleto; a separação é um arrancamento doloroso como um novo desmame; ela tem rancor contra o amante que se afasta dela bruscamente. Mas oque mais a magoa são as palavras que contestam a fusão em que acreditara durante um momento. A “mulher de Gilles”, cuja história MadeleineBourdouxhe contou, retrai-se quando o marido lhe pergunta: “Gozaste bem?” Ela tapa-lhe a boca. Essas palavras causam horror a muitas mulheresporque reduzem o prazer a uma sensação imanente e separada. “Chega? Queres mais ainda? Foi bom?” O próprio fato de fazer as perguntas evidenciaa separação, transforma o ato amoroso numa operação mecânica cuja direção foi assumida pelo homem. E é por isso mesmo que ele as faz. Muito maisdo que a fusão e a reciprocidade, ele busca o domínio; quando a unidade do casal se desfaz, ele torna a ser o único sujeito; é preciso muito amor ougenerosidade para renunciar a esse privilégio; ele gosta que a mulher se sinta humilhada, possuída a despeito de si mesma; ele quer sempre possuí-laum pouco mais do que ela se dá. Muitas dificuldades seriam poupadas à mulher se o homem não arrastasse consigo muitos complexos que o levam aconsiderar o ato amoroso como uma luta: então ela poderia não encarar o leito como uma arena.


Entretanto, simultaneamente com o narcisismo e o orgulho, observa-se na jovem um desejo de ser dominada. O masoquismo seria, segundo certospsicanalistas, uma das características da mulher, e é graças a essa tendência que ela poderia adaptar-se a seu destino erótico. Mas a noção demasoquismo é muito confusa e exige que a consideremos de perto.Os psicanalistas distinguem, segundo Freud, três formas de masoquismo: uma consiste na ligação da dor com a volúpia, outra seria a aceitaçãofeminina da dependência erótica e a última estaria num mecanismo de autopunição. A mulher seria masoquista porque nela prazer e dor estariamligados através do defloramento e do parto, e porque ela consentiria em seu papel passivo.Cabe inicialmente observar que atribuir um valor erótico à dor não constitui absolutamente uma conduta de submissão passiva. A dor serve muitasvezes para levantar o tônus do indivíduo que a experimenta, para despertar uma sensibilidade entorpecida pela própria violência da comoção e doprazer; é uma luz aguda brilhando na noite carnal, tira o amante do limbo em que se extasiava a fim de que possa ser novamente precipitado nele. Ador faz normalmente parte do frenesi erótico; corpos que se encantam de ser corpos para sua alegria recíproca, procuram encontrar-se, unir-se,confrontar-se de todas as maneiras possíveis. Há no erotismo um arrancamento de si próprio, um transporte, um êxtase; o sofrimento também destróias fronteiras do eu, é uma superação e um paroxismo; a dor sempre desempenhou um grande papel nas orgias; e sabe-se que o delicioso e o doloroso setocam; uma carícia pode tornar-se uma tortura, um suplício dar prazer. Abraçar conduz facilmente a morder, beliscar, arranhar; essas condutas não sãogeralmente sádicas, exprimem um desejo de fusão e não de destruição; e o sujeito que as suporta não procura tampouco renegar-se e humilhar-se e simunir-se; ademais, elas não são especificamente masculinas, longe disso. Na realidade, a dor só tem significação masoquista no caso de ser apreendida equerida como manifestação de servidão. Quanto à dor do defloramento, não se acompanha precisamente de prazer; todas as mulheres temem ossofrimentos do parto e sentem-se felizes porque os métodos modernos as livraram deles. A dor não tem, em sua sexualidade, nem maior nem menorimportância do que na sexualidade do homem.A docilidade feminina é, por outro lado, uma noção muito equívoca. Vimos que na maior parte do tempo ela aceita no imaginário a dominação de umsemideus, de um herói, de um macho; mas isso ainda não passa de um jogo narcisista. Com isso, não se acha de modo algum disposta a suportar narealidade a expressão carnal dessa autoridade. Muitas vezes, ao contrário, ela recusa o homem que admira e respeita, e entrega-se a um homem semprestígio. É um erro procurar em fantasmas a chave de condutas concretas; os fantasmas são criados e acarinhados como fantasmas. A menina quesonha com violação, num misto de horror e complacência, não deseja ser violentada e o acontecimento, caso se verificasse, seria uma odiosa catástrofe.Já vimos em Marie Le Hardouin um exemplo típico dessa dissociação. Ela escreve:324 Mas no caminho da abolição restava um terreno em que eu só entrava de narinas cerradas e coração batendo. Era aquele que, para além da sensualidade amorosa, me levava à s ensualidade simplesmente... Não há uma só infâmia dissimulada que não tenha cometido em sonho. Sofria da necessidade de me afirmar de todas as maneiras possíveis. Cumpre lembrar ainda o caso de Maria Bashkirtseff. Procurei durante toda a minha vida colocar-me voluntariamente sob um domínio ilusório qualquer, mas todas as pessoas que experimentei eram tão ordinárias em relação a mim que só senti nojo. Por outro lado, é certo que o papel sexual da mulher é em grande parte passivo; mas viver imediatamente essa situação passiva não é mais masoquistado que a atividade agressiva do macho é sádica; a mulher pode transcender as carícias, a comoção, a penetração para seu próprio prazer, mantendoassim a afirmação de sua subjetividade; ela pode também procurar a união com o amante, e dar-se a ele, o que significa uma superação de si e não umaabdicação. O masoquismo aparece quando o indivíduo escolhe fazer-se constituir em pura coisa pela consciência de outrem, representar-se a si mesmocomo coisa, fingir ser uma coisa. “O masoquismo é uma tentativa, não de fascinar o outro pela minha objetividade, mas sim de me fazer fascinar a mimmesmo pela minha objetividade para outrem”.325 A Juliette, de Sade, ou a jovem virgem de Philosophie dans le boudoir, que se entregam ao macho detodos os modos possíveis, mas para seu próprio prazer, não são de modo algum masoquistas. Lady Chatterley ou Kate, no total abandono consentido,não são masoquistas. Para que se possa falar de masoquismo é preciso que o eu seja posto e que se considere esse duplo alienado como fundado pelaliberdade de outrem.Nesse sentido, se encontrará efetivamente em certas mulheres um verdadeiro masoquismo. A jovem tem disposição para isso porque é amiúdenarcisista e o narcisismo consiste em se alienar em seu ego. Se experimentasse desde o começo de sua iniciação erótica uma perturbação e um desejoviolento, ela viveria autenticamente suas experiências e deixaria de as projetar nesse polo ideal que chama de eu; mas na frigidez o eu continua a seafirmar; fazer dele a coisa de um homem parece-lhe então uma falta. Ora, o “masoquismo, como o sadismo, é aceitação de culpabilidade. Sou culpado,com efeito, pelo único fato de que sou objeto”. Esta ideia de Sartre liga-se à noção freudiana de autopunição. A jovem julga-se culpada por entregar seueu a outrem e por isso se pune dobrando-se voluntariamente a humilhação e servidão; vimos que as virgens desafiavam o futuro amante e se puniam dasubmissão futura infligindo-se diversas torturas; quando o amante é real e presente elas se obstinam nessa atitude. A própria frigidez já nos foiapresentada como um castigo que a mulher impõe tanto a si mesma quanto a seu parceiro: ferida em sua vaidade, ela tem rancor contra ele e contra siprópria e se proíbe o prazer. No masoquismo ela se fará apaixonadamente escrava do homem, dirá a ele palavras de adoração, desejará ser humilhada,batida; se alienará sempre mais profundamente por furor de ter consentido na alienação. É, bastante claramente, a atitude de Mathilde de la Mole, porexemplo. Ela se recrimina por se ter entregue a Julien; é por isso que, em certos momentos, cai a seus pés, quer submeter-se a todos os caprichos dele,sacrifica a cabeleira; mas ao mesmo tempo revolta-se contra ele tanto quanto contra si mesma. Nós a imaginamos gelada nos seus braços. O abandonosimulado da mulher masoquista cria novas barreiras que lhe interditam o prazer; e é ao mesmo tempo através dessa incapacidade de conhecer o prazerque ela se vinga de si mesma. O círculo vicioso que vai da frigidez ao masoquismo pode fechar-se para sempre, acarretando então condutas sádicas porcompensação. Pode acontecer também que a maturação erótica liberte a mulher de sua frigidez, de seu narcisismo e que, assumindo sua passividadesexual, ela a viva imediatamente, em vez de a representar. Pois o paradoxo do masoquismo está em que o sujeito se reafirma incessantemente, em seupróprio esforço por se abdicar. É no dom irrefletido, no movimento espontâneo para o outro, que ele consegue se esquecer. É portanto verdade que amulher será mais solicitada do que o homem pela tentação masoquista; sua situação erótica de objeto passivo incita-a a representar a passividade; essejogo é a autopunição a que a convidam suas revoltas narcisistas e a frigidez que é a consequência delas; o fato é que muitas mulheres, e em particularmuitas moças, são masoquistas. Colette, falando de suas primeiras experiências amorosas, confia-nos, em Mes apprentissages: A juventude e a ignorância contribuindo, eu começara pelo devaneio, um devaneio culposo, um horrível e impuro impulso de adolescência. São numerosas as jovens apenas núbeis que sonham em ser o espetáculo, o joguete, a obra-prima libertina de um homem maduro. É uma inveja feia que expiam contentando-a, uma inveja que anda de par com as neuroses da puberdade, o hábito de roer giz e carvão, beber água dentifrícia, ler livros sujos e enfiar alfinetes na palma das mãos. Não se poderia dizer mais claramente que o masoquismo faz parte das perversões juvenis, que não é uma solução autêntica do conflito criado pelodestino sexual da mulher, e sim uma maneira de fugir dele, nele chafurdando. Não representa de nenhum modo o desabrochar normal e feliz doerotismo feminino.Esse desabrochar pressupõe que — no amor, na ternura, na sensualidade — a mulher consiga superar sua passividade e estabelecer com seu parceirouma relação de reciprocidade. A assimetria do erotismo masculino e feminino cria problemas insolúveis enquanto há luta de sexos; podem facilmenteresolver-se quando a mulher sente no homem desejo e respeito a um só tempo; se a deseja em sua carne, reconhecendo sua liberdade, ela sereencontra como o essencial no momento em que se faz objeto, ela continua livre na submissão a que consente. Então os amantes podem conhecer,cada qual à sua maneira, um gozo comum; o prazer é sentido por cada um dos parceiros como sendo seu, embora tendo sua fonte no outro. As palavrasreceber e dar trocam seus sentidos, a alegria é gratidão, o prazer, ternura. Numa forma concreta e carnal realiza-se o reconhecimento recíproco do eue do outro na consciência mais aguda do outro e do eu. Certas mulheres dizem sentir nelas o sexo masculino como uma parte de seu próprio corpo;certos homens acreditam ser a mulher que penetram; essas expressões são evidentemente inexatas, a dimensão do outro permanece; mas o fato é quea alteridade não tem mais um caráter hostil; é essa consciência da união dos corpos em sua separação que dá ao ato sexual seu caráter comovente; eleé tanto mais perturbador quanto os dois seres que juntos negam e afirmam apaixonadamente seus limites, são semelhantes e no entanto diferentes.Essa diferença, que muitas vezes os isola, torna-se, quando se reúnem, a fonte de seu encantamento; a febre imóvel que a queima, a mulher contempla-lhe a imagem invertida no seu ardor viril; a potência do homem, é o poder que ela exerce sobre ele; esse sexo inflado de vida lhe pertence, como seusorriso pertence ao homem que lhe dá prazer. Todas as riquezas da virilidade e da feminilidade refletindo-se, apreendendo-se umas através das outras,compõem uma unidade móvel e estática. O que é necessário a uma tal harmonia não são requintes técnicos, mas antes, na base de uma atração eróticaimediata, uma generosidade recíproca de corpo e alma.Essa generosidade é muitas vezes freada no homem pela vaidade, e na mulher, pela timidez; enquanto ela não supera suas inibições, não pode fazê-latriunfar. É por isso que o pleno desabrochar sexual é bastante tardio na mulher; é por volta dos 35 anos que ela atinge eroticamente seu apogeu.Infelizmente, se é casada, o marido já se habituou à sua frigidez; ela ainda pode seduzir novos amantes, mas começa a fenecer; seu tempo é escasso. Éno momento em que deixam de ser desejáveis que muitas mulheres resolvem assumir, enfim, seus desejos.As condições em que se desenrola a vida sexual da mulher dependem não somente desses dados, mas ainda de todo o conjunto de sua situação social eeconômica. Seria abstrato pretender estudá-la mais a fundo sem esse contexto. Mas de nosso exame ressaltam várias conclusões geralmente válidas. Aexperiência erótica é uma das que revelam aos seres humanos, da maneira mais pungente, a ambiguidade de sua condição; nela eles se sentem como


carne e como espírito, como o outro e como sujeito. É para a mulher que esse conflito assume o caráter mais dramático, porque ela se apreendeinicialmente como objeto, porque ela não encontra de imediato uma autonomia segura no prazer; ela precisa reconquistar sua dignidade de sujeitotranscendente e livre, assumindo sua condição carnal: é um empreendimento difícil e cheio de riscos, no qual fracassa frequentemente. Mas a própriadificuldade da situação defende-a contra as mistificações em que o homem se deixa envolver; ele é amiúde enganado pelos privilégios falaciosos queimplicam seu papel agressivo e a solidão satisfeita do orgasmo; ele hesita em se reconhecer plenamente como carne. A mulher tem de si mesma umaexperiência mais autêntica.Mesmo se adaptando mais ou menos exatamente a seu papel passivo, a mulher é sempre frustrada como indivíduo ativo. Não é o órgão da posse que elainveja no homem: é a presa. É um curioso paradoxo que o homem viva em um mundo sensual de doçura, de ternura, de moleza, um mundo feminino,enquanto a mulher se move em um universo masculino que é duro e severo; suas mãos guardam o desejo de apertar a carne lisa, a polpa fundente:adolescente, mulher, flores, peles, criança; toda uma parte de si mesma permanece disponível e aspira à posse de um tesouro análogo ao que elaentrega ao macho. Com isso se explica que em muitas mulheres subsista de maneira mais ou menos larvar uma tendência para a homossexualidade. Háalgumas em quem, por um conjunto de razões complexas, essa tendência se afirma com uma autoridade particular. Nem todas as mulheres aceitam dara seus problemas sexuais a solução clássica, única oficialmente admitida pela sociedade. Temos de encarar também as que escolhem caminhosdiferentes.


4/A lésbica De bom grado imaginamos a lésbica com um chapéu de feltro, de cabelos curtos e gravata; sua virilidade seria uma anomalia traduzindo umdesequilíbrio hormonal. Nada mais errôneo do que essa confusão entre a invertida e a virago. Há muitas homossexuais entre as odaliscas, as cortesãs,entre as mulheres mais deliberadamente “femininas”; inversamente, numerosas mulheres “masculinas” são heterossexuais. Sexólogos e psiquiatrasconfirmam o que sugere a observação corrente: em sua imensa maioria, as mulheres “malditas” são constituídas exatamente como as outras mulheres.Nenhum “destino anatômico” determina sua sexualidade.Há seguramente casos em que os dados fisiológicos criam situações singulares. Não existe distinção biológica rigorosa entre os dois sexos; um corpocelular idêntico é modificado por ações hormonais cuja orientação é genotipicamente definida, mas pode ser desviada no decurso da evolução do feto;disso resulta o aparecimento de indivíduos intermediários entre os machos e as fêmeas. Alguns homens apresentam uma aparência feminina porque amaturação de seus órgãos viris é tardia: do mesmo modo veem-se moças — em particular esportistas — transformarem-se em rapazes. H. Deutschconta a história de uma moça que fez uma corte ardorosa a uma senhora casada, quis raptá-la e viver com ela: percebeu um dia que era na realidadeum homem, o que lhe permitiu casar com a bem-amada e ter filhos dela. Mas disso não se deve concluir que toda invertida é um “homem escondido”sob formas enganosas. O hermafrodita, em quem os dois sistemas genitais se acham esboçados, tem muitas vezes uma sexualidade feminina: conheciuma, exilada de Viena pelos nazistas, que se desolava por não agradar nem aos heterossexuais nem aos pederastas, quando na verdade só gostava dehomens. Sob a influência de hormônios masculinos, as mulheres “viriloides” apresentam caracteres sexuais secundários masculinos; nas mulheresinfantis os hormônios femininos são deficientes e seu desenvolvimento permanece inacabado. Essas particularidades podem motivar mais ou menosdiretamente uma vocação lésbica. Uma pessoa dotada de uma vitalidade vigorosa, agressiva, exuberante, almeja despender-se ativamente e recusaordinariamente a passividade; desgraciosa, mal constituída, uma mulher pode tentar compensar sua inferioridade adquirindo qualidades viris; se suasensibilidade erógena não está desenvolvida, ela não deseja as carícias masculinas. Mas anatomia e hormônios definem apenas uma situação e nãocolocam o objeto para o qual ela transcenderá. H. Deutsch ainda cita o caso de um legionário polonês ferido, de quem tratou durante a guerra de 1914-18, que era na realidade uma moça com caracteres viris acentuados; acompanhara o exército como enfermeira e conseguira depois envergar ouniforme. Com tudo isso se apaixonara por um soldado — que desposou mais tarde —, o que a fazia ser encarada como homossexual. Suas condutasviris não contradiziam um erotismo do tipo feminino. O próprio homem não deseja exclusivamente a mulher; o fato de que o organismo do homossexualmacho pode ser perfeitamente viril implica que a virilidade de uma mulher não a impele necessariamente para a homossexualidade.Até mesmo entre as mulheres fisiologicamente normais, pretendeu-se por vezes distinguir as clitoridianas das vaginais, estando as primeiras destinadasaos amores sáficos; mas verificou-se que, em todas, o erotismo infantil é clitoridiano; quer se fixe nesse estágio, quer se transforme, não depende denenhum dado anatômico. Não é verdade tampouco, como se sustentou muitas vezes, que a masturbação infantil explique o privilégio ulterior do sistemaclitoridiano: a sexologia reconhece hoje no onanismo da criança um fenômeno absolutamente normal e geralmente disseminado. A elaboração doerotismo feminino é — já o vimos — uma história psicológica em que os fatores fisiológicos estão envolvidos, mas que depende da atitude global dosujeito em face da existência. Marañón considera que a sexualidade tem uma “direção única” e que atinge no homem uma forma acabada, ao passo quena mulher fica “a meio caminho”; só a lésbica possuiria uma libido tão rica quanto a do homem, ela seria, pois, um tipo feminino “superior”. Narealidade, a sexualidade feminina tem uma estrutura original e a ideia de hierarquizar as libidos masculina e feminina é absurda; a escolha do objetosexual não depende absolutamente da quantidade de energia de que a mulher disporia.Os psicanalistas tiveram o grande mérito de ver na inversão um fenômeno psíquico e não orgânico; entretanto, ela se apresenta ainda para eles comodeterminada por circunstâncias exteriores. Eles, aliás, a estudaram pouco. Segundo Freud, a maturação do erotismo feminino exige a passagem doestágio clitoridiano ao estágio vaginal, passagem simétrica à que transferiu para o pai o amor que a menina a princípio sentia pela mãe. Razõesdiversas podem entravar esse desenvolvimento; a mulher não se resigna à castração, esconde de si mesma a ausência do pênis, permanece fixada àmãe, para a qual busca substitutos. Para Adler, essa parada não é um acidente suportado passivamente: é desejado pelo sujeito que, por vontade depoder, nega deliberadamente sua mutilação e procura identificar-se com o homem cujo domínio recusa. Fixação infantil ou protesto viril, ahomossexualidade se apresentaria em todo caso como um inacabamento. Em verdade, a lésbica não é nem uma mulher “falhada” nem uma mulher“superior”. A história do indivíduo não é um progresso fatal: a cada momento o passado é retomado mediante uma nova escolha e a “normalidade” daescolha não lhe confere nenhum valor privilegiado: é pela sua autenticidade que cumpre julgá-lo. A homossexualidade pode ser para a mulher umamaneira de fugir de sua condição ou uma maneira de assumi-la. O grande erro dos psicanalistas está em, por conformismo moralizador, encará-losomente como uma atitude inautêntica.A mulher é um existente a quem se pede que se faça objeto; enquanto sujeito, ela tem uma sensualidade agressiva que não se satisfaz com o corpomasculino: daí nascem os conflitos que seu erotismo deve superar. Consideram normal o sistema que, entregando-a como presa a um homem, lherestitui a soberania, colocando em seus braços um filho; mas esse “naturalismo” é comandado por um interesse social mais ou menos bemcompreendido. A própria heterossexualidade permite outras soluções. A homossexualidade da mulher é uma tentativa, entre outras, de conciliar suaautonomia com a passividade de sua carne. E se se invoca a natureza, pode-se dizer que toda mulher é homossexual. A lésbica caracteriza-se, comefeito, pela recusa do macho e seu gosto pela carne feminina; mas toda adolescente receia a penetração, o domínio masculino, experimenta em relaçãoao homem certa repulsa; em compensação, o corpo feminino é para ela, como para o homem, um objeto de desejo. Já disse: pondo-se como sujeitos, oshomens põem-se ao mesmo tempo como separados; considerar o outro como uma coisa a ser possuída é atentar nele, e solidariamente em si, contra oideal viril; ao contrário, a mulher que se reconhece como objeto vê em suas semelhantes e em si uma presa. O pederasta inspira hostilidade aosheterossexuais masculinos e femininos porque estes exigem que o homem seja um sujeito dominador;326 ao contrário, ambos os sexos consideram aslésbicas com indulgência. “Confesso, diz o conde de Tilly, que é uma rivalidade que não me aborrece em absoluto; ao contrário, isso me diverte e tenhoa imoralidade de rir da coisa.” Colette atribuiu a mesma indiferença divertida a Renaud diante do casal que Claudine constitui com Rézi.327 O homemirrita-se mais com uma heterossexual agressiva e autônoma do que com uma homossexual não agressiva; só a primeira contesta as prerrogativasmasculinas; os amores sáficos estão longe de contradizer a forma tradicional da divisão dos sexos; são em sua maioria casos de uma assumpção dafeminilidade, não sua recusa. Vimos que aparecem muitas vezes na adolescente como um ersatz das relações heterossexuais que ela não tem ainda aoportunidade ou a ousadia de viver: é uma etapa, um aprendizado, e quem a isso se entrega com mais ardor pode amanhã ser a mais ardorosa dasesposas, das amantes, das mães. O que é preciso explicar na invertida não é, portanto, o aspecto positivo de sua escolha, é sua face negativa: ela não secaracteriza por seu gosto pelas mulheres e sim pela exclusividade desse gosto.Distinguem-se frequentemente — depois de Jones e Hesnard — dois tipos de lésbicas: umas “masculinas” que “querem imitar o homem”, outras“femininas” que “têm medo do homem”. É verdade que se podem considerar, grosso modo, duas tendências na inversão; certas mulheres recusam apassividade, enquanto outras escolhem braços femininos para a eles se entregarem passivamente. Mas essas atitudes reagem uma sobre a outra; asrelações ante o objeto escolhido e ante o objeto recusado explicam-se uma pela outra. Por muitas razões, como veremos, a distinção indicada parece-nos assaz arbitrária.Definir a lésbica “viril” pela sua vontade de “imitar o homem” é votá-la à inautenticidade. Já disse a que ponto os psicanalistas criam equívocosaceitando as categorias masculina-feminina tais como a sociedade atual as define. Com efeito, o homem representa hoje o positivo e o neutro, isto é, omasculino e o ser humano, ao passo que a mulher é unicamente o negativo, a fêmea. Cada vez que ela se conduz como ser humano, declara-se que elase identifica com o macho. Suas atividades esportivas são interpretadas como um “protesto viril”; recusam-se a levar em consideração os valores paraos quais ela transcende, o que conduz evidentemente a considerar que ela faz a escolha inautêntica de uma atitude subjetiva. O grande mal-entendidoem que repousa esse sistema de interpretação está em que se admite que é natural para o ser humano feminino fazer de si uma mulher feminina: nãobasta ser uma heterossexual, nem mesmo uma mãe, para realizar esse ideal; a “verdadeira mulher” é um produto artificial que a civilização fabrica,como outrora eram fabricados castrados; seus pretensos “instintos” de coquetismo, de docilidade são nela insuflados, como ao homem o orgulho fálico.Ele nem sempre aceita sua vocação viril; ela tem boas razões para aceitar menos docilmente ainda a que lhe é designada. As noções “complexo deinferioridade”, “complexo de masculinidade” me fazem pensar na aned ota que Denis de Rougemont conta em La Part du Diable: uma senhoraimaginava que, quando passeava no campo, os pássaros a atacavam; depois de vários meses de um tratamento psicanalítico que não conseguiu curá-la


de sua obsessão, o médico acompanhando-a no jardim da clínica verificou que os pássaros a atacavam. A mulher sente-se diminuída porque, naverdade, as determinações da feminilidade a diminuem. Espontaneamente, ela escolhe ser um indivíduo completo, um sujeito e uma liberdade diante dequem se abrem o mundo e o futuro: se essa escolha se confunde com a da virilidade, é na medida em que a feminilidade significa hoje mutilação. Vê-seclaramente nas confissões de invertidas — platônica no primeiro caso, declarada no segundo — recolhidas por Havelock Ellis e Stekel que é aespecificação feminina que indignou os dois sujeitos. Por mais que recue no tempo, diz uma delas, nunca me encarei como uma moça e me encontrei em face de uma perturbação perpétua. Por volta dos cinco ou seis anos, disse a mim mesma que, fosse qual fosse a opinião das pessoas, se não era um menino, não era em todo caso uma menina... Olhava a conformação de meu corpo como um acidente misterioso... Quando ainda mal podia andar já me interessava por martelos e pregos, queria estar sentada no lombo dos cavalos. Pelos sete anos verifiquei que tudo o que eu apreciava era errado para uma menina. Não era absolutamente feliz e muitas vezes chorava e me encolerizava, a tal ponto ficava furiosa com as conversas acerca de meninos e meninas... Todos os domingos, saía com os meninos da escola de meus irmãos... Por volta dos 11 anos... para me punir, por ser o que era, puseram-me interna no colégio... Com cerca de 15 anos, quaisquer que fossem meus pensamentos, meu ponto de vista era sempre o de um rapaz... Sentia-me cheia de compaixão pelas mulheres... Tornei-me protetora delas... Quanto à travestida de Stekel: Até a idade de seis anos, apesar das asserções dos que a cercavam, ela se acreditava menino vestido de menina, por motivos que lhe permaneciam desconhecidos... Aos seis anos, ela se dizia: “Serei tenente, e se Deus me der tempo, marechal.” Sonhava muitas vezes que montava a cavalo e saía da cidade à frente de um exército. Muito inteligente, sentiu-se infeliz por ter sido transferida da escola normal para um liceu, tinha medo de se tornar efeminada. Essa revolta não implica absolutamente uma predestinação sáfica; em sua maioria, as meninas conhecem o mesmo escândalo, o mesmo desespero quando sabem que a conformação acidental de seu corpo condena seus gostos e suas aspirações; é com raiva que Colette Audry328 descobre aos 12anos que nunca poderia tornar-se um marinheiro. Muito naturalmente, a futura mulher se indigna com as limitações que o sexo lhe impõe. Perguntarpor que as recusa é formular mal a questão: o problema é antes compreender por que ela as aceita. Seu conformismo vem de sua docilidade, de suatimidez; mas essa resignação irá se transformar facilmente em revolta se as compensações oferecidas pela sociedade não forem julgadas suficientes. Éo que acontece no caso em que a adolescente se julga desgraciosa como mulher: é principalmente por esse lado que os dados anatômicos assumemimportância; feia, malfeita, ou acreditando sê-lo, a mulher recusa um destino feminino para o qual não se sente dotada; mas seria um erro dizer que aatitude viril é adotada para compensar uma carência de feminilidade: cumpre antes dizer que, em troca das vantagens viris que lhe pedem quesacrifique, as possibilidades concedidas à adolescente parecem-lhe muito diminutas. Todas as meninas invejam as roupas cômodas dos meninos; é suaimagem no espelho, as promessas que nela adivinham que tornam pouco a pouco preciosos seus vestidos; se o espelho reflete secamente umafisionomia cotidiana, se nada promete, rendas e fitas se constituem em libré incômoda, ridícula mesmo, a “menina masculinizada” obstina-se emcontinuar menino.Ainda que bem-feita e bonita, a mulher que se empenha em projetos singulares ou que reivindica sua liberdade, recusa-se geralmente a abdicar emproveito de outro ser humano; ela se reconhece em seus atos, mas não em sua presença imanente: o desejo masculino que a reduz aos limites de seucorpo a choca tanto quanto choca o jovem rapaz; pelas suas companheiras submissas ela sente a mesma repugnância que o homem viril pelo pederastapassivo. É em parte para repudiar toda cumplicidade com elas que adota uma atitude masculina; fantasia a roupa, muda de atitude, forma com umaamiga feminina um casal em que encarna o personagem masculino: essa comédia é, com efeito, um “protesto viril”, mas apresenta-se como umfenômeno secundário; o que é espontâneo é o escândalo do sujeito conquistador e soberano à ideia de se transformar em presa carnal. Numerosasesportistas são homossexuais; esse corpo que é músculo, movimento, distensão, impulso, elas não o apreendem como uma carne passiva; ele não atraimagicamente as carícias: é domínio sobre o mundo, não uma coisa do mundo. O fosso que existe entre o corpo para si e o corpo para outrem parece, nocaso, intransponível. Encontram-se resistências análogas na mulher de ação, a mulher de “cabeça” para a qual a renúncia, ainda que sob a formacarnal, é impossível. Se a igualdade dos sexos estivesse concretamente realizada, em grande número de casos esse obstáculo seria abolido; mas ohomem ainda está imbuído de sua superioridade e é uma convicção incômoda para a mulher se ela não a partilha. Cumpre observar, entretanto, que asmulheres mais voluntárias, mais dominadoras, não hesitam muito em enfrentar o homem: a mulher dita “viril” é muitas vezes francamenteheterossexual. Ela não quer renegar sua reivindicação de ser humano, mas não deseja tampouco mutilar-se na sua feminilidade; escolhe ascender aomundo masculino e até anexá-lo. Sua sensualidade robusta não se assusta com a aspereza do macho; para encontrar sua alegria em um corpo dehomem, ela tem menos resistências a vencer do que a virgem tímida. Uma natureza muito rude, muito animal, não sentirá a humilhação do coito; umaintelectual de espírito intrépido a contestará; segura de si, de humor briguento, a mulher se empenhará alegremente em um duelo que tem certeza deganhar. George Sand tinha predileção pelos rapazinhos, os homens “femininos”; mas Mme de Staël só tardiamente procurou mocidade e beleza em seusamantes; dominando os homens pelo vigor de seu espírito, acolhendo com orgulho a admiração deles, quase não devia sentir-se presa em seus braços.Uma soberana, como Catarina da Rússia, podia até permitir-se uma embriaguez masoquista: continuava senhora absoluta em seus jogos. IsabelEberhardt, que, vestida de homem, percorreu o Saara a cavalo, não se sentia em nada diminuída quando se entregava a algum soldado vigoroso. Amulher que não quer ser vassala do homem está longe de sempre o evitar: tenta antes fazer dele o instrumento de seu prazer. Nessas circunstânciasfavoráveis — dependendo em grande parte do parceiro — será abolida a própria ideia de competição e ela se comprazerá em viver plenamente suacondição de mulher, como o homem vive sua condição de homem.Mas essa conciliação de sua personalidade ativa com seu papel de fêmea passiva é, apesar de tudo, muito mais difícil para ela do que para o homem:muitas mulheres renunciarão a tentar esse esforço de preferência a consumir-se nele. Entre os artistas e escritores femininos, encontram-se numerosaslésbicas. Não porque sua singularidade sexual seja fonte de energia criadora ou manifeste a existência dessa energia superior; é antes porque,absorvidas por um trabalho sério, não querem perder seu tempo desempenhando um papel de mulher nem lutando contra os homens. Não admitindo asuperioridade masculina, não querem nem fingir reconhecê-la nem se cansar contestando-a; procuram na volúpia relaxamento, serenidade, diversão:acham mais cômodo desviar-se de um parceiro que se apresenta como um adversário; com isso, libertam-se dos entraves que a feminilidade implica.Bem entendido, é muitas vezes a natureza de suas experiências heterossexuais que leva a mulher “viril” a escolher assumir ou repudiar o seu sexo. Odesdém masculino confirma na mulher feia o sentimento de sua falta de graça; a arrogância de um amante fere a orgulhosa. Todos os motivos defrigidez que já consideramos: rancor, despeito, temor da gravidez, trauma provocado por um aborto etc., se encontram aqui. Assumem tanto maior pesoquanto maior for a desconfiança com que a mulher trata o homem.Entretanto, a homossexualidade, quando se trata de uma mulher dominadora, nem sempre se apresenta como uma solução inteiramente satisfatória;como procura afirmar-se, desagrada-lhe não realizar integralmente suas possibilidades femininas; as relações heterossexuais se afiguram para ela a umtempo diminuição e enriquecimento; repudiando as limitações implicadas em seu sexo, acontece que de um modo ou de outro ela se limita. Assim comoa mulher frígida almeja o prazer, embora o recusando, a lésbica gostaria muitas vezes de ser uma mulher normal e completa, embora não o querendo.Essa hesitação é manifesta no caso da travestida descrita por Stekel. Viu-se que ela só se comprazia com rapazes e não queria “efeminar-se”. Aos 16 anos travou suas primeiras relações com moças; tinha por elas um profundo desprezo, o que de imediato deu a seu erotismo um caráter sádico. A uma colega que respeitava fez uma corte ardente, mas platônica; pelas que possuía, sentia nojo. Entregou-se furiosamente a estudos difíceis. Decepcionada em seu primeiro grande amor sáfico, entregou-se com loucura a experiências puramente sensuais e pôs-se a beber. Aos 17 anos, conheceu um rapaz com quem casou, mas o considerava sua mulher: vestia-se de maneira masculina e continuava a beber e a estudar. Sofreu inicialmente de vaginismo e nunca o coito a levou ao orgasmo. Achava sua posição “humilhante” e era sempre ela quem desempenhava o papel agressivo e ativo. Abandonou o marido, embora “amando-o loucamente”, e reatou relações com mulheres. Conheceu um artista a quem se entregou, mas igualmente sem orgasmo. Sua vida dividia-se em períodos nitidamente separados: durante certo tempo escrevia, realizava um trabalho criador e sentia-se totalmente masculina: dormia então sadicamente, de maneira episódica, com mulheres. Em seguida tinha um período de feminilidade. Fez-se analisar porque desejava chegar ao orgasmo. A lésbica poderia facilmente consentir na perda de sua feminilidade se com isso adquirisse uma virilidade triunfante. Mas não. Ela permaneceevidentemente privada de órgão viril: pode deflorar a amiga com a mão ou usar um pênis artificial para imitar a posse: não deixa contudo de ser umcastrado. Pode sofrer profundamente por isso. Inacabada como mulher, impotente como homem, seu mal-estar traduz-se às vezes por psicoses. Umadoente dizia a Dalbiez:329 “Se tivesse alguma coisa para introduzir, seria melhor.” Outra gostaria que seus seios fossem rígidos. Frequentemente alésbica tentará compensar sua inferioridade viril com uma arrogância e um exibicionismo reveladores de um desequilíbrio interior. Por vezes, também,ela conseguirá criar com as outras mulheres um tipo de rel ação inteiramente análoga às que com elas mantém um homem “feminino” ou umadolescente ainda pouco seguro de sua virilidade. Um caso impressionante de um tal destino é o de “Sandor”, como relata Krafft-Ebbing. Elaconseguira desse jeito alcançar um equilíbrio perfeito que só a intervenção da sociedade veio destruir. Sarolta era originária de uma família húngara nobre, reputada pelas suas excentricidades. O pai a educara como um menino: montava a cavalo, caçava etc. Essa influência prolongou-se até a idade de 13 anos, quando a enviaram para um internato: apaixonou-se então por uma inglesinha, e raptou-a, fingindo que era um rapaz. Voltou para casa de sua mãe, mas pouco depois, com o nome de “Sandor” e vestida de homem, partiu para uma viagem com o pai; dedicava-se a esportes viris, bebia e frequentava os bordéis. Sentia-se particularmente atraída pelas atrizes ou pelas mulheres solitárias, tanto quanto possível já não na primeira mocidade; amava-as na medida em que eram


“femininas”. “Amava”, diz, “a paixão feminina manifestando-se sob um véu poético. Qualquer impudência da parte de uma mulher me inspirava repugnância... Tinha uma aversão indizível pelas roupas de mulher e em geral por tudo o que era feminino, mas tão somente em mim e sobre mim; pois, ao contrário, tinha entusiasmo pelo belo sexo”. Teve numerosas ligações com mulheres e com elas gastou muito dinheiro. Colaborava, contudo, em dois grandes jornais da capital. Viveu maritalmente durante três anos com uma mulher dez anos mais velha e teve bastante trabalho para que ela aceitasse o rompimento. Inspirava paixões violentas. Apaixonada por uma jovem professora, a ela uniu- se mediante um simulacro de casamento: a noiva e a família da noiva tomavam-na por homem: o sogro pensara ter visto um membro em ereção no futuro genro (provavelmente um pênis artificial); fingia barbear-se, mas a criada de quarto encontrara manchas de sangue menstrual na sua roupa branca e, pelo buraco da fechadura, convencera-se de que Sandor era mulher. Desmascarada, foi presa mas absolvida. Sentiu imensa tristeza por se separar de sua bem-amada Maria, a quem escrevia, da cela, as cartas mais apaixonadas. Não tinha um corpo inteiramente feminino: a bacia era muito estreita e faltava-lhe cintura. Os seios eram desenvolvidos, as partes genitais bem femininas mas imperfeitamente desenvolvidas. As regras só tinham aparecido aos 17 anos e ela sentia profundo horror pelo fenômeno menstrual. A ideia de relações sexuais com homens causava-lhe horror. Somente com as mulheres é que tinha pudor, a ponto de preferir partilhar o leito de um homem a dormir com uma mulher. Muito perturbada quando a tratavam como mulher, foi tomada de verdadeira angústia quando teve de voltar às roupas femininas. Sentia-se “atraída como por uma força magnética para as mulheres de 24 a trinta anos”. Só encontrava satisfação sexual acariciando a amiga, mas nunca se deixando acariciar. Ocasionalmente servia-se de uma meia recheada de estopa como membro. Detestava os homens. Muito sensível à estima moral de outrem, tinha muito talento literário, grande cultura e uma memória colossal. Sandor não foi psicanalisada, mas pela simples exposição dos fatos alguns pontos ressaltam. Parece que sem “protesto viril”, da maneira maisespontânea, ela sempre se tenha considerado homem graças à educação que recebeu e à constituição de seu organismo. A maneira por que seu pai aassociou às viagens, à sua vida, teve evidentemente influência decisiva; sua virilidade de tal modo se afirmara que não manifestava nenhumaambivalência em relação às mulheres: gostava delas como um homem, sem se sentir comprometida por elas, de uma maneira dominadora e ativa, semaceitar reciprocidade. É impressionante, entretanto, que “detestasse” os homens e amasse particularmente as mulheres idosas. Isso sugere que Sandortinha em relação à mãe um complexo de Édipo masculino; perpetuava a atitude infantil da menina que, formando casal com a mãe, alimenta aesperança de protegê-la e dominá-la um dia. É, muitas vezes, quando a criança se viu frustrada da ternura materna, que a necessidade dessa ternura apersegue durante toda a sua vida adulta; educada pelo pai, Sandor deve ter sonhado com uma mãe amorosa e querida, que procurou em seguida nasoutras mulheres. Isso explica seu ciúme profundo dos outros homens, ligado a seu respeito e seu amor “poético” pelas mulheres “solitárias” e idosasque apresentavam a seus olhos um caráter sagrado. Sua atitude era exatamente a de Rousseau com Mme de Warens, a do jovem Benjamin Constantcom Mme de Charrière: os adolescentes sensíveis, “femininos” voltam-se também para amantes maternais. Sob aspectos mais ou menos acentuados,encontra-se com frequência esse tipo de lésbica que nunca se identificou com a mãe — porque a admirava ou detestava demais —, mas que, recusandoser mulher, aspira à doçura de uma proteção feminina em torno de si; do seio dessa matriz protetora ela pode emergir no mundo com audáciasmasculinas; conduz-se como um homem, mas como homem tem uma fragilidade que lhe faz almejar o amor de uma amante mais velha; o casalreproduzirá, assim, o casal heterossexual clássico: matrona e adolescente.Os psicanalistas acentuaram bem a importância das relações que a homossexual teve anteriormente com a mãe. Há dois casos em que a adolescentetem dificuldade em escapar à sua influência: se foi mimada com ardor por uma mãe ansiosa; ou se foi maltratada por uma “mãe má” que lhe insuflouprofundo sentimento de culpa. No primeiro caso, tais relações beiram a homossexualidade: dormiam juntas, acariciavam-se, beijavam-se os seios. Ajovem buscará essa mesma felicidade em outros braços. No segundo caso, ela sentirá a necessidade de uma “boa mãe”, que a proteja contra a primeira,que afaste a maldição que sente pesar sobre sua cabeça. Uma das pacientes, cuja história Havelock Ellis conta, e que detestara a mãe durante toda ainfância, descreve assim o amor que sentiu aos 16 anos por uma mulher mais velha. Sentia-me como uma órfã que subitamente adquiriu uma mãe e comecei a me sentir menos hostil aos adultos, a ter respeito por eles... Meu amor por ela era inteiramente puro e pensava nisso como se fosse com uma mãe... Gostava que ela me tocasse e por vezes ela me apertava nos braços e me fazia sentar no colo... Quando eu me deitava, ela vinha dizer-me boa-noite e beijava-me na boca. Se a mais velha se presta a isso, a mais jovem se entregará com alegria a carícias mais ardentes. É comumente o papel passivo que entãodesempenhará porque deseja ser dominada, protegida, embalada e acariciada como uma criança. Tais relações, quer permaneçam platônicas, quer setornem carnais, têm muitas vezes as características de uma verdadeira paixão amorosa. Mas pelo próprio fato de que se apresentam na evolução daadolescente como uma etapa clássica, não poderiam bastar para explicar uma escolha decidida da homossexualidade. A jovem procura nela ao mesmotempo uma libertação e uma segurança que também poderá encontrar em braços masculinos. Passado o período de entusiasmo amoroso, a mais jovemexperimentará muitas vezes em relação à mais velha o sentimento ambivalente que experimentava com a mãe; sujeita-se ao seu domínio almejandocontudo libertar-se; se a outra se obstinar em retê-la, continuará durante algum tempo “prisioneira”;330 mas com cenas violentas ou amigavelmente,acabará por se evadir; tendo terminado de liquidar sua adolescência, sente-se madura para enfrentar uma vida de mulher normal. Para que sua vocaçãolésbica se afirme é preciso que — como Sandor — recuse sua feminilidade ou que sua feminilidade desabroche com maior felicidade em braçosfemininos. A fixação na mãe não basta, portanto, para explicar a inversão. E esta pode ser escolhida por motivos inteiramente diversos. A mulher podedescobrir ou pressentir por meio de experiências completas ou esboçadas que não tirará prazer das relações heterossexuais, que somente uma outramulher será capaz de satisfazê-la: e particularmente para a mulher que tem o culto de sua feminilidade é o abraço sáfico que se evidencia como o maissatisfatório.É muito importante sublinhar: nem sempre é a recusa de se fazer objeto que conduz a mulher à homossexualidade; a maioria das lésbicas procura, aocontrário, apropriar-se dos tesouros de sua feminilidade. Consentir em se metamorfosear em coisa passiva não é renunciar a toda reivindicaçãosubjetiva: a mulher espera, assim, atingir-se sob a figura do em-si; mas então procurará reassumir-se em sua alteridade. Na solidão, ela não conseguerealmente se desdobrar; pode acariciar seus seios, não sabe como se revelariam a uma mão estranha nem como nessa mão se sentiriam viver; umhomem pode descobrir-lhe a existência para si de sua carne, mas não o que ela é para outrem. É somente quando seus próprios dedos modelam o corpode uma mulher cujos dedos modelam o seu que o milagre do espelho se realiza. Entre o homem e a mulher o amor é um ato; cada um arrancado de sitorna-se outro: o que maravilha a amante é que o langor passi vo de sua carne se reflita sob a figura do ímpeto viril; mas a narcisista, nesse sexo ereto,não reconhece senão muito confusamente seus atrativos. Entre mulheres, o amor é contemplação: as carícias são menos destinadas a se apropriar dooutro do que a recriar-se lentamente através dele; a separação está abolida, não há nem luta, nem vitória, nem derrota; dentro de uma exatareciprocidade cada qual é ao mesmo tempo sujeito e objeto, a soberana e a escrava; a dualidade é cumplicidade. “A estreita semelhança, dizColette,331 dá confiança à própria volúpia. A amiga se compraz na certeza de acariciar um corpo de que conhece os segredos e cujas preferências seupróprio corpo indica.” E Renée Vivien em Sortilèges: Nosso coração é semelhante em nosso seio de mulherQuerida! Nosso corpo é igualmente feitoUm mesmo destino difícil pesou em nossa almaTraduzo teu sorriso e a sombra em teu rostoMinha doçura é igual a tua grande doçuraPor vezes parece até que somos da mesma raçaAmo em ti minha filha, minha amiga e minha irmã.332 Esse desdobramento pode assumir uma figura materna; a mãe que se reconhece e se aliena na filha tem muitas vezes por ela um apego sexual: ela temem comum com a lésbica o gosto de proteger e embalar nos braços um doce objeto de carne. Colette sublinha essa analogia quando escreve em Vrillesde la Vigne. Dar-me-ás a volúpia, debruçada sobre mim, os olhos cheios de uma ansiedade maternal, tu que procuras, através de tua amiga apaixonada, a filha que não tiveste. E Renée Vivien exprime o mesmo sentimento em L’Heure des mains jointes: Vem, eu te carregarei como uma criança doente Como uma criança queixosa e tímida e doente


Nos meus braços nervosos aperto teu corpo leve Verás que sei curar e proteger E que meus braços são feitos para melhor te proteger. E ainda: Amo-te por seres fraca e calma em meus braços Assim como um berço morno em que descansarás.333 Em todo amor — amor sexual ou amor materno — há,334 ao mesmo tempo, avareza e generosidade, desejo de possuir o outro e de tudo lhe dar; mas éna medida em que ambas são narcisistas, acariciando na filha, na amante, seu prolongamento ou seu reflexo, que a mãe e a lésbica se encontramsingularmente.Entretanto, o narcisismo não conduz sempre à homossexualidade: o exemplo de Maria Bashkirtseff prova isso; não se encontra em seus escritos omenor vestígio de um sentimento afetuoso para com uma mulher; cerebral mais do que sensual, extremamente vaidosa, ela sonha desde a infância servalorizada pelo homem: nada a interessa, senão o que pode contribuir para sua glória. A mulher que se idolatra exclusivamente e que visa a um êxitoabstrato é incapaz de ardorosa cumplicidade em relação a outras mulheres; só vê nelas rivais e inimigas.Em verdade, nenhum fator é determinante, trata-se sempre de uma escolha efetuada em meio a um conjunto complexo e assentando numa livredecisão; nenhum destino sexual governa a vida do indivíduo: seu erotismo traduz, ao contrário, sua atitude global para com a existência.As circunstâncias, entretanto, têm também um lugar importante nessa escolha. Ainda hoje os dois sexos vivem em grande parte separados; nosinternatos, nas escolas de moças, passa-se facilmente da intimidade à sexualidade; encontram-se muito menos lésbicas nos meios em que acamaradagem entre rapazes e moças facilita experiências heterossexuais. Muitas mulheres que trabalham em oficinas e escritórios, entre mulheres,sem muitas oportunidades de encontrar homens, estabelecem ligações amorosas entre si: material e moralmente é cômodo para eles associar suasvidas. A ausência ou o fracasso de relações heterossexuais as entregará à inversão. É difícil traçar uma fronteira entre resignação e predileção: umamulher pode dedicar-se às mulheres porque um homem a desiludiu, mas por vezes ele a desilude porque era uma mulher que ela procurava nele. Portodas essas razões é falso estabelecer uma distinção radical entre heterossexual e homossexual. Passado o tempo indeciso da adolescência, o homemnormal não se permite mais uma extravagância pederástica; mas muitas vezes a mulher normal retorna aos amores que — platonicamente ou não — aencantaram na mocidade. Decepcionada pelo homem, procurará em braços femininos o amante que a traiu; Colette indicou em La Vagabonde essepapel consolador que desempenham muitas vezes na vida das mulheres as volúpias condenadas: acontece que algumas passam a existência inteira a seconsolar. Mesmo uma mulher satisfeita com os abraços masculinos pode não desdenhar volúpias mais calmas. Passiva e sensual, as carícias de umaamiga não a desgostarão, porquanto lhe bastará entregar-se, deixar-se satisfazer. Ativa, ardente, ela aparecerá como “andrógina”, não em virtude deuma misteriosa combinação de hormônios, mas sim pelo fato de se encararem a agressividade e o gosto da posse como qualidades viris; Claudineamando Renaud nem por isso deixa de desejar os encantos de Rézi; é plenamente mulher sem deixar de desejar ela também possuir e acariciar. Bementendido, entre as mulheres “decentes” tais desejos “perversos” são cuidadosamente recalcados: manifestam-se, entretanto, sob a forma de amizadespuras mas apaixonadas, ou sob a máscara da ternura maternal: algumas vezes revelam-se violentamente no decurso de uma psicose ou durante a criseda menopausa.Muito mais absurdo, portanto, seria pretender classificar as lésbicas em duas categorias estanques. Pelo fato de que uma comédia social se superpõemuitas vezes a suas verdadeiras relações, elas próprias sugerem a divisão em “viris” e “femininas”, comprazendo-se em imitar um casal bissexuado.Mas não se deve iludir porque uma usa um tailleur severo e outra um vestido vaporoso. Ol hando de perto, a não ser em casos-limites, verifica-se quesua sexualidade é ambígua. A mulher que se faz lésbica porque recusa o domínio do homem experimenta muitas vezes a alegria de reconhecer emoutra a mesma amazona orgulhosa; outrora muitos amores culposos floresciam entre as estudantes de Sèvres, que viviam juntas longe dos homens;tinham orgulho de pertencer a uma elite feminina e queriam permanecer sujeitos autônomos. Essa cumplicidade que as reunia contra a castaprivilegiada permitia a cada uma admirar numa amiga esse ser prestigioso que amava em si mesma; abraçando-se mutuamente, era cada uma homem emulher ao mesmo tempo e se encantava com suas virtudes andróginas. Inversamente, uma mulher que quer gozar de sua feminilidade em braçosfemininos, conhece também o orgulho de não obedecer a nenhum senhor. Renée Vivien amava ardentemente a beleza feminina e queria ser bela;enfeitava-se, orgulhava-se de seus cabelos compridos, mas agradava-lhe também sentir-se livre, intata. Em seus poemas ela exprime seu desprezo poraquelas que consentem em se tornar escravas de um homem pelo casamento. Seu pendor pelos licores fortes, sua linguagem por vezes grosseira e sujaeram manifestações de seu desejo de virilidade. Na realidade, na imensa maioria dos casais, as carícias são recíprocas. Disso decorre que os papéis sedistribuem de maneira muito incerta: a mulher mais infantil pode desempenhar o papel de um adolescente em face de uma matrona protetora, ou o daamante apoiada ao braço do amante. Elas podem amar-se em igualdade. Sendo os parceiros homólogos, todas as combinações, transposições, trocas,comédias são possíveis. As relações equilibram-se segundo as tendências psicológicas de cada uma das amigas e segundo o conjunto da situação. Se háuma que ajuda ou sustenta a outra, ela assume as funções do homem: protetor tirânico, tolo que se explora, suserano respeitado ou às vezes cafetão.Uma superioridade moral, social, intelectual outorga-lhe muitas vezes a autoridade; entretanto a mais amada gozará dos privilégios de que a reveste oapego apaixonado da mais amorosa. A associação de duas mulheres, como a de um homem com uma mulher, apresenta numerosos aspectos diferentes;assenta no sentimento, no interesse ou no hábito; é conjugal ou romanesca; dá ensejo ao sadismo, ao masoquismo, à generosidade, à fidelidade, àdevoção, ao capricho, ao egoísmo, à traição; há, entre as lésbicas, prostitutas, como também grandes amorosas.Entretanto, certas circunstâncias dão a essas ligações caracteres singulares. Elas não são consagradas por uma instituição ou pelos costumes, nemreguladas por convenções: são vividas, consequentemente, com mais sinceridade. Homem e mulher — ainda que esposos — representam mais oumenos sempre um para outro, e principalmente a mulher a quem o homem impõe sempre alguma norma de conduta: virtude exemplar, encanto,coquetismo, puerilidade ou austeridade. Ela nunca se sente ela mesma na frente do marido ou do amante. Junto de uma amiga ela não se exibe, nãoprecisa fingir, são demasiado semelhantes para não se mostrarem a descoberto. Essa similitude engendra a intimidade mais total. O erotismo muitasvezes importa muito pouco nessas uniões: a volúpia tem um caráter menos fulminante, menos vertiginoso do que entre o homem e a mulher, nãoprovoca metamorfoses tão violentas. Quando se separam carnalmente, os amantes voltam a ser estranhos; o corpo masculino chega a parecerrepugnante à mulher, e o homem experimenta por vezes um certo fastio diante do de sua companheira. Entre mulheres, a ternura carnal é mais igual,mais contínua; nunca são arrebatadas em êxtases frenéticos; mas jamais caem numa indiferença hostil; verem-se, tocarem-se constitui um prazertranquilo que prolonga, em surdina, o prazer da cama. A união de Sarah Posonby com sua bem-amada durou quase cinquenta anos sem uma nuvem:parece que souberam criar um éden sereno à margem do mundo. Mas a sinceridade também se paga. Como se mostram abertamente sem preocupaçãode se dissimularem ou se controlarem, as mulheres são levadas entre si a violências incríveis. O homem e a mulher intimidam-se pelo fato de seremdiferentes; ele sente piedade diante dela, inquietação, esforça-se por tratá-la com cortesia, indulgência, distinção; ela respeita-o e teme-o um pouco,procura dominar-se diante dele; cada qual se preocupa em poupar o outro misterioso cujos sentimentos e reações não avalia direito. Entre elas, asmulheres são implacáveis; frustram-se, provocam-se, perseguem-se, enfurecem-se e se arrastam mutuamente para o fundo da abjeção. A calmamasculina, seja indiferença ou domínio sobre si mesmo, é um dique contra o qual se quebram as cenas femininas; mas, entre duas amigas, hásobreposição de lágrimas e convulsões: sua paciência em remoer censuras e explicações é insaciável. Exigências, recriminações, ciúme, tirania, todasessas pragas da vida conjugal se desencadeiam de forma exasperada. Se tais amores são por vezes tempestuosos é também porque são geralmentemais ameaçados do que os amores heterossexuais. São condenados pela sociedade, mal conseguem integrar-se nela. A mulher que assume a atitudeviril — pelo seu caráter, sua situação, a força de sua paixão — lamentará não poder dar a sua amiga uma vida normal e respeitável, não poder desposá-la, de arrastá-la por caminhos insólitos: são os sentimentos que Radcliffe Hall atribui a sua heroína em Poço de solidão; esses remorsos traduzem-se poruma ansiedade mórbida e, principalmente por um ciúme torturante. Por seu lado, a amiga, mais passiva ou menos apaixonada, sofrerá em consequênciada censura da sociedade; se julgará degradada, pervertida, frustrada, terá rancor contra quem lhe impõe um tal destino. É possível que uma das duasmulheres deseje um filho; ou ela se resigna com tristeza à esterilidade, ou ambas adotam uma criança, ou a que deseja a maternidade pede os serviçosde um homem; a criança é por vezes um traço de união, mas também por vezes uma causa de atrito.O que dá às mulheres encerradas na homossexualidade um caráter viril não é sua vida erótica que, ao contrário, as confina num universo feminino: é oconjunto das responsabilidades que elas são obrigadas a assumir pelo fato de dispensarem homens. Sua situação é inversa à da cortesã que adquire porvezes um espírito viril à força de conviver com os homens — Ninon de Lenclos, por exemplo —, mas que depende deles. A atmosfera singular reinanteem torno das lésbicas provém do contraste entre o clima de gineceu em que se desenrola sua vida privada e a independência masculina de sua vidapública. Conduzem-se como homens em um mundo sem homem. A mulher só apresenta-se sempre como um pouco insólita; não é verdade que oshomens respeitem as mulheres: eles se respeitam mutuamente através de suas mulheres — esposas, amantes, teúdas e manteúdas; quando a proteçãomasculina não se projeta mais sobre ela, a mulher fica desarmada em face de uma casta superior que se mostra agressiva, debochada ou hostil. Como“perversão erótica”, a homossexualidade feminina mais faz sorrir do que outra coisa; mas se implica um modo de vida, suscita desprezo ou escândalo.Se há muita provocação e afetação na atitude das lésbicas, é porque elas não têm nenhum meio de viver sua situação com naturalidade: a naturalidadeimplica não refletir sobre si mesmo, agir sem representar seus atos; mas as condutas de outrem levam sem cessar a lésbica a tomar consciência de si.


1/A mulher casada O destino que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o casamento. Em sua maioria, ainda hoje, as mulheres são casadas, ou o foram, ou sepreparam para sê-lo, ou sofrem por não sê-lo. É em relação ao casamento que se define a celibatária, sinta-se ela frustrada, revoltada ou mesmoindiferente ante essa instituição. É, portanto, pela análise do casamento que nos cumpre continuar este estudo.A evolução econômica da condição feminina está modificando profundamente a instituição do casamento: este vem se tornando uma união livrementeconsentida por duas individualidades autônomas; as obrigações dos cônjuges são recíprocas e pessoais; o adultério é para as duas partes uma denúnciado contrato; o divórcio pode ser obtido por uma ou outra das partes em idênticas condições. A mulher não se acha mais confinada na sua funçãoreprodutora: esta perdeu em grande parte seu caráter de servidão natural, apresenta-se como um encargo voluntariamente assumido;338 e é assimiladoa um trabalho produtivo porquanto, em muitos casos, o tempo de descanso exigido pela gravidez deve ser pago à mãe pelo Estado ou pelo empregador.Na União Soviética, o casamento foi considerado durante alguns anos como um contrato interindividual, assentado unicamente na liberdade doscônjuges; parece que é hoje um serviço que o Estado impõe a ambos. A vitória de uma ou outra tendência dependerá da estrutura geral da sociedadeno mundo de amanhã: em todo caso, a tutela masculina vai desaparecendo. Contudo, a época em que vivemos é ainda, do pont o de vista feminista, umperíodo de transição. Uma parte somente das mulheres participa da produção, e mesmo essa parte pertence a uma sociedade em que antigasestruturas e valores sobrevivem. O casamento moderno só se compreende à luz do passado que ele perpetua.O casamento sempre se apresentou de maneira radicalmente diferente para o homem e para a mulher. Ambos os sexos são necessários um ao outro,mas essa necessidade nunca engendrou nenhuma reciprocidade; nunca as mulheres constituíram uma casta estabelecendo permutas e contratos em péde igualdade com a casta masculina. Socialmente, o homem é um indivíduo autônomo e completo; ele é encarado antes de tudo como produtor e suaexistência justifica-se pelo trabalho que fornece à coletividade. Vimos339 por que razões o papel de reprodutora e doméstica em que se confinou amulher não lhe assegurou igual dignidade. Certamente o homem precisa dela; em certos povos primitivos o celibatário, incapaz de assegurar sozinhosua subsistência, é uma espécie de pária; nas comunidades agrícolas uma colaboradora é indispensável ao camponês e para a maioria dos homens évantajoso aliviar-se de certas tarefas na companheira; o indivíduo almeja uma vida sexual estável, deseja uma posteridade e a sociedade exige dele quecontribua para perpetuá-la. Mas não é à mulher ela própria que o homem dirige um apelo: é a sociedade dos homens que permite a cada um de seusmembros realizar-se como esposo e como pai; integrada como escrava ou vassala nos grupos familiares dominados por pais e irmãos, a mulher semprefoi dada em casamento a certos homens por outros homens. Primitivamente, o clã, a gens paterna dela dispõem mais ou menos como de uma coisa: elafaz parte das prestações que dois grupos se outorgam mutuamente; sua condição não se modificou profundamente quando o casamento em suaevolução se revestiu de uma forma contratual; dotada ou recebendo parte da herança, a mulher se apresenta como uma pessoa civil: mas dote eherança escravizam-na ainda à sua família,340 durante muito tempo os contratos foram assinados entre o sogro e o genro, não entre o marido e amulher; só a viúva goza então de uma autonomia econômica.341 A liberdade de escolha da jovem sempre foi muito restrita; e o celibato — salvo emcasos excepcionais em que se reveste de caráter sagrado — a rebaixa ao nível do parasita e do pária; o casamento é seu ganha-pão e a únicajustificativa social de sua existência. É a ela imposto a duplo título: ela deve dar filhos à comunidade; mas raros são os casos em que — como emEsparta e, até certo ponto, no regime nazista — o Estado a coloca diretamente sob tutela e só lhe pede que seja mãe. Mesmo as civilizações queignoram o papel gerador do pai exigem que ela fique sob a proteção de um marido; ela tem também por função satisfazer as necessidades sexuais deum homem e tomar conta do lar. O encargo que a sociedade impõe à mulher é considerado como um serviço prestado ao esposo: em consequência, eledeve à esposa presentes ou uma herança e compromete-se a sustentá-la; é por seu intermédio que a sociedade se desobriga em relação à mulher quelhe entrega. Os direitos que a esposa adquire cumprindo seus deveres traduzem-se por obrigações a que o homem se submete. Ele não pode desfazer aseu bel-prazer o laço conjugal; só se obtêm repúdio e divórcio mediante uma decisão dos poderes públicos e às vezes o marido deve então umacompensação monetária: esse costume tornou-se mesmo abusivo no Egito de Bocchóris, como hoje nos Estados Unidos sob a forma do alimony. Apoligamia sempre foi mais ou menos abertamente tolerada: o homem pode trazer para seu leito escravas, concubinas, amantes, prostitutas; mas édeterminado a ele que respeite certos privilégios da mulher legítima. Essa, se maltratada ou lesada, tem o recurso — mais ou menos concretamentegarantido — de voltar para sua família, de obter por seu lado separação ou divórcio. Assim, para ambos os cônjuges, o casamento é a um tempo umencargo e um benefício, mas não há simetria nas situações; para as jovens, o casamento é o único meio de se integrarem na coletividade e, se ficamsolteiras, tornam-se socialmente resíduos. Eis por que as mães sempre procuraram tão avidamente casá-las. Na burguesia do século XIX mal asconsultavam. Eram oferecidas aos pretendentes eventuais em “entrevistas” combinadas de antemão. Zola descreve esse costume em Pot-Bouille. — Falhou, falhou — disse a sra. Josserand deixando-se cair na cadeira. — Ah! — disse simplesmente o sr. Josserand. — Mas vocês não estão compreendendo — continuou a sra. Josserand com uma voz aguda —, estou dizendo que é mais um casamento jogado fora, e é o quarto que falha! Estás ouvindo? — continuou a sra. Josserand caminhando para a filha. — Como fizeste para perder mais este casamento? Berthe compreendeu que sua vez tinha chegado. — Não sei, mamãe — murmurou. — Um subchefe de escritório — continuava a mãe —; não tem trinta anos e tem um futuro magnífico. Todos os meses trazendo seu dinheiro; isto é que é sólido, não há outra coisa... Fizeste de novo alguma tolice, como com os outros? — Garanto que não, mamãe. — Vocês entraram dançando na saleta? Berthe perturbou-se: — É, mamãe... E como estávamos sozinhos ele quis coisas feias, beijou-me pegando-me assim. Então tive medo, empurrei-o de encontro a um móvel. A mãe interrompeu-a enfurecida: — De encontro a um móvel! Ah! infeliz, de encontro a um móvel! — Mas, mamãe, ele me segurava. — E depois? Ele te segurava... grande coisa! E ponha-se uma tola dessas interna num colégio! O que é que lhe ensinam, hein?... Por causa de um beijo atrás da porta! E, na realidade, você devia falar disso a nós, seus pais? E ainda empurra as pessoas de encontro a um móvel, e perde todos os casamentos! Assumiu um tom doutoral e continuou: — Está acabado, eu desespero, você é estúpida, minha filha... Uma vez que não tem fortuna, compreenda que precisa pegar os homens por outra coisa. A gente tem que ser amável, olhar com ternura, esquecer a mão na mão, permitir pequenas criancices como sem o perceber; pesca-se um marido, afinal... E o que me irrita é que ela não é lá tão feia quando quer — acrescentou a sra. Josserand. — Vamos, enxugue os olhos, olhe para mim como se eu fosse um senhor cortejando você. Está vendo, vai deixar cair o leque para que ele ao erguê-lo, toque em seus dedos... E não fique dura, seja mais desembaraçada. Os homens nã o gostam de pedaços de pau. E principalmente se eles forem longe demais não se faça de ingênua. Um homem que vai longe demais já está inflamado, minha cara. Duas horas soavam na pêndula do salão; e na excitação daquela vigília prolongada, em seu desejo furioso de um casamento imediato, a mãe perdia-se a pensar em voz alta, virando e revirando a filha como uma boneca de papelão. Esta, mole, sem vontade, abandonava-se, mas tinha o coração triste, medo e vergonha punham-lhe um nó na garganta...


A jovem apresenta-se, pois, como absolutamente passiva; ela é casada, dada em casamento pelos pais. Os rapazes casam-se, resolvem casar. Buscam nocasamento uma expansão, uma confirmação de sua existência, mas não o direito mesmo de existir: é um encargo que assumem livremente. Podem,portanto, interrogar-se acerca de suas vantagens e inconvenientes como fizeram os satíricos gregos e os da Idade Média; isso é para eles um modo devida apenas, não um destino. É permitido a eles preferir a solidão do celibato, alguns casam-se tarde ou não se casam.A mulher, casando, recebe como feudo uma parcela do mundo; garantias legais a protegem contra os caprichos do homem; mas ela torna-se vassaladele. Economicamente ele é o chefe da comunidade, é portanto ele quem a encarna aos olhos da sociedade. Ela toma-lhe o nome, associa-se a seu culto,integra-se em sua classe, em seu meio; pertence à família dele, fica sendo sua “metade”. Segue para onde o trabalho dele a chama; é essencialmente deacordo com o lugar em que ele trabalha que se fixa o domicílio conjugal; mais ou menos brutalmente ela rompe com o passado, é anexada ao universodo esposo, dá a ele sua pessoa, deve a ele a virgindade e uma fidelidade rigorosa. E perde uma parte dos direitos que o código reconhece à celibatária.A legislação romana colocava a mulher nas mãos do marido loco filiae; no início do século XIX, Bonald declarava que a mulher está para o esposo comoo filho para a mãe; até a lei de 1942, o código francês reclamava dela obediência ao marido; a lei e os costumes ainda conferem a este uma grandeautoridade que sua própria situação no seio da so ciedade conjugal implica. Sendo ele o produtor, é quem supera o interesse da família em prol dasociedade e lhe abre um futuro cooperando para a edificação do futuro coletivo: ele é quem encarna a transcendência. A mulher está votada àperpetuação da espécie e à manutenção do lar, isto é, à imanência.342 Em verdade, toda existência humana é transcendência e imanência a um sótempo: para se ultrapassar é forçoso se manter, para se lançar no futuro cumpre-lhe integrar o passado e, comunicando-se com outrem, deve confirmar-se em si mesma. Estes dois momentos estão implicados em todo movimento vivo: ao homem, o casamento outorga precisamente a síntese feliz; em seuofício, em sua vida política, ele conhece o progresso, a mudança, experimenta a dispersão através do tempo e do Universo; e quando se cansa dessevagabundear, funda um lar, fixa-se, ancora no mundo; à noite, retorna ao lar, onde a mulher cuida dos móveis e dos filhos, do passado que ela armazena.Mas esta não tem outra tarefa senão a de manter e sustentar a vida em sua pura e idêntica generalidade; ela perpetua a espécie imutável, assegura oritmo igual dos dias e a permanência do lar cujas portas conserva fechadas; não lhe dão nenhuma possibilidade de influir no futuro nem no Universo;ela só se ultrapassa para a coletividade por intermédio do esposo. Hoje o casamento conserva em grande parte esse aspecto tradicional. E, antes de tudo, impõe-se muito mais imperiosamente à jovem do que ao jovem.Há ainda importantes camadas sociais em que nenhuma outra perspectiva se propõe a ela; entre os camponeses a celibatária é um pária; fica sendo aserva do pai, dos irmãos, do cunhado; o êxodo para as cidades não está a seu alcance; o casamento, escravizando-a a um homem, faz dela dona de umlar. Em certos meios burgueses ainda se deixa a moça na incapacidade de ganhar a vida; ela só pode vegetar como um parasita no lar paterno ouaceitar uma posição subalterna em algum lar estranho. Mesmo nos casos em que ela é mais emancipada, o privilégio econômico detido pelos homens aincita a preferir o casamento a um ofício: ela procurará um marido de situação superior à sua, esperando que ele “vença” mais depressa, vá mais longedo que ela seria capaz. Admite-se, como outrora, que o ato de amor é, da parte da mulher, um serviço que presta ao homem; ele toma seu prazer e deveem troca alguma compensação. O corpo da mulher é um objeto que se compra; para ela, representa um capital que ela é autorizada a explorar. Porvezes ela traz um dote ao esposo, muitas vezes compromete-se a fornecer algum trabalho doméstico: cuidará da casa, educará os filhos. Em todo casotem o direito de ser sustentada e a própria moral tradicional a exorta a isso. É natural que seja tentada por essa facilidade, ainda mais porque ostrabalhos femininos são muitas vezes ingratos e mal remunerados; o casamento é uma carreira mais vantajosa do que muitas outras. Os costumestornam ainda difícil a libertação sexual da mulher solteira; na França, o adultério da esposa constituiu até os nossos dias um delito, enquanto nenhumalei proibia o amor livre à mulher; entretanto, se quisesse ter um amante, era necessário que se casasse antes. Muitas jovens burguesas severamenteeducadas casam-se ainda hoje para “serem livres”. Numerosas norte-americanas conquistaram sua liberdade sexual, mas suas experiênciasassemelham-se às dos jovens primitivos descritos por Malinowsky, que gozam na Casa dos celibatários prazeres sem consequências; espera-se delesque se casem, e é somente então que são encarados como adultos. Uma mulher só , na América do Norte mais ainda do que na França, é um sersocialmente incompleto, ainda que ganhe sua vida; cumpre que traga uma aliança no dedo para que conquiste a dignidade integral de uma pessoa e aplenitude de seus direitos. A maternidade, em particular, só é respeitada na mulher casada; a mãe solteira permanece um objeto de escândalo e o filhoé para ela um pesado handicap. Por todas essas razões, muitas adolescentes do Velho e do Novo Mundo, interrogadas acerca de seus projetos futuros,respondem hoje como o teriam feito outrora: “Quero me casar.” Nenhum jovem, entretanto, considera o casamento seu projeto fundamental. O êxitoeconômico é que dará sua dignidade de adulto: pode implicar o casamento — em particular para o camponês —, mas pode também excluí-lo. Ascondições da vida moderna — mais instável, mais incerta do que outrora — tornam os encargos do casamento singularmente pesados ao jovem; osbenefícios, ao contrário, diminuíram, pois ele pode sustentar-se a si próprio e as satisfações sexuais lhe são em geral possíveis. Sem dúvida, ocasamento comporta comodidades materiais (“come-se melhor em casa do que no restaurante”), comodidades eróticas (“dessa maneira tem-se o bordelem casa”), liberta o indivíduo de sua solidão, fixa-o no espaço e no tempo, dando a ele um lar e filhos; é uma realização definitiva de sua existência. Issonão impede que em conjunto os pedidos masculinos sejam inferiores às ofertas femininas. O pai dá menos a filha do que dela se livra; a jovem queprocura um marido não atende a um apelo masculino: provoca-o.Os casamentos combinados pelos pais não desapareceram: há toda uma burguesia bem-pensante que os perpetua. Ao lado do túmulo de Napoleão, naOpéra, no baile, na praia, num chá, a aspirante de cabelos recém-penteados, vestida com um vestido novo, exibe timidamente suas graças físicas e suaconversação modesta; seus pais não a deixam em paz: “Já me custaste bastante caro com estas entrevistas, resolve logo. A próxima vez será a vez detua irmã.” A infeliz candidata sabe que suas possibilidades diminuem à medida que se faz mais madura; os pretendentes não são numerosos, ela nãotem muito mais liberdade de escolha do que a jovem beduína que é trocada por um rebanho de ovelhas. Como diz Colette:343 “uma jovem sem fortuna esem profissão e que vive à custa de seus irmãos tem apenas que se calar, aceitar a sorte e agradecer a Deus.”De maneira menos crua, a vida mundana permite que os jovens se encontrem sob os olhares vigilantes das mães. Um pouco mais livres, as jovensmultiplicam as saídas, frequentam as faculdades, aprendem uma profissão que lhes dá a oportunidade de conhecer homens. Uma pesquisa foi realizadaentre 1945 e 1947 no seio da burguesia belga por Mme Claire Leplae acerca do problema da escolha matrimonial.344 A autora procedeu por entrevistas;citarei algumas das perguntas que apresentou e as respostas obtidas. P.: São frequentes os casamentos combinados pelos pais? R.: Não há mais casamentos combinados (51%). São muito raros, 1% no máximo (16%). De 1 a 3% dos casamentos são combinados (28%). De 5 a 10% dos casamentos são combinados (5%). As pessoas interessadas assinalam que os casamentos combinados pelos pais, numerosos antes de 1945, quase acabaram. Entretanto, “o interesse, a ausência de relações, a timidez, a idade, o desejo de realizar uma boa união são os motivos de alguns casamentos combinados”. Tais casamentos são frequentemente arranjados por padres; por vezes também a jovem casa-se por correspondência. Fazem elas próprias seu retrato por escrito, o qual é transcrito numa folha especial com um número e que é enviada a todas as pessoas que nela se descrevem. Tal folha comporta cerca de duzentas candidatas ao casamento e um número mais ou menos igual de candidatos. Estes também fizeram seu próprio retrato. Todos podem livremente escolher um correspondente a quem escrevem por intermédio da instituição. P.: Em que circunstâncias puderam os jovens tornar-se noivos nestes últimos dez anos? R.: Em reuniões mundanas (48%). Estudos, obras realizadas em comum (22%). Reuniões íntimas, temporadas (30%). Todos concordam que “os casamentos entre amigos de infância são muito raros. O amor nasce do imprevisto”. P.: Desempenha o dinheiro papel primordial na escolha da pessoa que se desposa? R.: 30% dos casamentos não passam de um negócio (48%). 50% dos casamentos não passam de um negócio (35%). 70% dos casamentos não passam de um negócio (17%). P.: Pensam os pais avidamente em casar as filhas?


R.: Os pais pensam avidamente em casar as filhas (58%). Os pais desejam casar as filhas (24%). Os pais gostariam de conservar as filhas consigo (18%). P.: Pensam as moças avidamente em se casar? R.: As moças pensam avidamente em se casar (36%). As moças desejam se casar (38%). As moças preferem não se casar a casar mal (26%). “As moças assaltam os rapazes. As moças casam-se com o primeiro que aparece para ter uma situação. Todas esperam casar-se e esforçam-se para o conseguir. É humilhante para uma moça não ser procurada: para escapar dessa humilhação casam-se muitas vezes com o primeiro que surge. As moças casam-se por casar. As moças casam-se para serem casadas. As moças têm pressa em arranjar marido porque o casamento lhes assegura maior liberdade.” Neste ponto quase todos os testemunhos concordam. P.: São as moças mais ativas do que os rapazes na procura do casamento? R.: As moças declaram seus sentimentos aos rapazes e pedem a eles que as desposem (43%). As moças são mais ativas que os rapazes na procura do casamento (43%). As moças são discretas (14%). Em relação a este ponto igualmente há quase unanimidade: são as moças que em geral tomam a iniciativa do casamento. “As moças dão-se conta de que não adquiriram com que se arranjar na vida; não sabendo como poderiam trabalhar para ter com que viver, procuram no casamento uma tábua de salvação. As moças fazem declarações, jogam-se em cima dos homens. São terríveis! A moça tudo faz para se casar... é a mulher que procura o homem etc.” Não existe documento semelhante no que concerne à França; mas, sendo a situação da burguesia análoga na França e na Bélgica, se chegaria semdúvida a conclusões próximas. Os casamentos “combinados” sempre foram mais numerosos na França do que em qualquer outro país, e o famoso Clubdes lisérés verts (Clube das listas verdes), cujos aderentes se encontram em festas destinadas a facilitar a aproximação entre os dois sexos, prosperaainda. Os anúncios matrimoniais ocupam compridas colunas em numerosos jornais.Na França, como na América do Norte, as mães, as irmãs mais velhas, os hebdomadários femininos ensinam com cinismo às moças a arte de “pegar”um marido como o papel de pegar moscas pega moscas; é uma “pesca”, uma “caça” que exige muito tato: não visem nem alto nem baixo demais; nãosejam romanescas e sim realistas; misturem o coquetismo com a modéstia; não peçam nem de mais nem de menos... Os jovens desconfiam dasmulheres “que querem casar”. Um jovem belga declara:345 “Não há nada mais desagradável para um homem do que se sentir perseguido, do queperceber que uma mulher procura agarrá-lo.” Eles se esforçam por não cair em armadilhas. A escolha da moça é no mais das vezes muito limitada; sóseria realmente livre se ela se julgasse igualmente livre de não se casar. Há em geral em sua decisão, cálculo, nojo, resignação mais do que entusiasmo.“Se o jovem que a pede em casamento lhe convém mais ou menos (meio social, saúde, carreira), ela o aceita sem o amar. Ela o aceita até com restriçõese conserva a cabeça fria.”Entretanto, ao mesmo tempo que o deseja, a moça teme o casamento. Este representa um benefício mais considerável para ela do que para o homem, eeis por que o deseja avidamente; mas exige também pesados sacrifícios: em particular implica uma ruptura muito mais brutal com o passado. Vimosque muitas adolescentes se sentiam angustiadas à ideia de deixar o lar paterno: quando o acontecimento se aproxima essa ansiedade exaspera-se. Énesse momento que nascem muitas neuroses; estas ocorrem também em rapazes que se assustam com as novas responsabilidades que assumem, massão mais comuns nas moças pelas razões que já analisamos e que pesam sobremodo nessa crise. Citarei apenas um exemplo que tomo de empréstimode Stekel. Teve que tratar de uma jove m de boa família que apresentava vários sintomas neuróticos. No momento em que Stekel a conhece, ela sofre de vômitos, toma morfina todas as noites, tem acessos de cólera, recusa-se a se lavar, come na cama, fica trancada no quarto. Está noiva e afirma adorar o noivo. Confessa a Stekel que se entregou a ele... Mais tarde diz que não teve nenhum prazer: que conservou mesmo dos beijos dele uma recordação repugnante e nisso se encontra a causa dos vômitos. Descobre-se que, com efeito, ela se entregou para punir a mãe porque não se sentia suficientemente querida; em criança, espiava os pais durante a noite porque tinha medo de que lhe dessem um irmão ou uma irmã; adorava a mãe. “E agora teria que casar, deixar a casa paterna, abandonar o quarto de dormir de seus pais? Era impossível.” Ela procura engordar, arranha e estraga as mãos, fica doente, tenta ofender o noivo de todos os modos. O médico a cura, mas ela suplica à mãe que renuncie à ideia de casamento: “Queria ficar em casa sempre, para continuar filha.” A mãe insistia para que se casasse. Uma semana antes do dia do casamento encontraram-na morta na cama: matara-se com um tiro de revólver. Em outros casos, a jovem obstina-se numa prolongada enfermidade: desespera-se porque seu estado não lhe permite desposar o homem “que adora”;na verdade fica doente para não o desposar e só reencontra o equilíbrio rompendo o noivado. Por vezes o medo do casamento vem do fato de a moça tertido anteriormente experiências eróticas que a marcaram; em particular pode recear que se descubra a perda da virgindade. Mas, muitas vezes, é umsentimento ardente pelo pai, pela mã e, pela irmã, ou o apego ao lar que lhe torna insuportável a ideia de se submeter a um estranho. E muitas das quese decidem — porque é preciso afinal casar, porque os outros fazem pressão, porque elas sabem que é a única solução razoável, porque querem umaexistência normal de esposa e mãe — conservam assim mesmo no fundo do coração secretas e opiniáticas resistências que tornam difíceis os primeirostempos de vida conjugal, que podem até impedi-las de jamais encontrar um equilíbrio feliz no casamento.Portanto, não é geralmente por amor que se resolvem os casamentos. “O esposo não passa nunca, por assim dizer, de um sucedâneo do homem amado,não é esse homem”, diz Freud. Uma tal dissociação nada tem de acidental. Está implicada na própria natureza da instituição. Trata-se de transcenderpara o interesse coletivo a união econômica e sexual do homem e da mulher, e não de assegurar uma felicidade individual. Nos regimes patriarcaisacontecia — acontece ainda hoje entre certos muçulmanos — que os noivos escolhidos pela autoridade dos pais não se tenham sequer visto antes do diado casamento. Não se trataria de basear a empresa de uma vida, considerada sob seu aspecto social, num capricho sentimental ou erótico. Neste discreto estado, diz Montaigne, não são tão ardorosos os apetites, antes são calmos e atenuados. O amor não quer que se leve em conta senão a si próprio nem que se acheguem a eles as ligações que se mantêm por outros motivos, como o casamento: neste a aliança e os recursos pesam tanto ou mais do que as graças e a beleza. Não se casa para si como principalmente para a posteridade, para a família (Livro III, cap. V). O homem, pelo fato de ser quem “toma” a mulher — sobretudo sendo numerosas as solicitações femininas —, tem maior possibilidade de escolha. Mascomo o ato sexual é considerado um serviço imposto à mulher e no qual se baseiam as vantagens que lhe são concedidas, é lógico que não se dêimportância a suas preferências singulares. O casamento é destinado a defendê-la contra a liberdade do homem: mas como não há nem amor nemindividualidade fora da liberdade, a fim de se assegurar para sempre a proteção de um macho, ela deve renunciar ao amor de um indivíduo singular.Ouvi uma mãe devota ensinar às filhas que “o amor é um sentimento grosseiro reservado aos homens e que as mulheres decentes não devemconhecer”. Era, numa forma ingênua, a própria doutrina que Hegel enuncia na Fenomenologia do espírito (t. II, p. 25): Mas as relações de mãe e esposa têm a singularidade, em parte como alguma coisa de natural que pertence ao prazer, em parte como alguma coisa de negativo que nelas contempla simplesmente seu próprio desaparecimento; é exatamente por isso que em parte também essa singularidade é alguma coisa de contingente que pode sempre ser substituída por outra singularidade. No fundo do reinado erótico, não se trata deste marido e sim de um marido em geral, de filhos em geral. Não é na sensibilidade mas sim no unive rsal que assentam essas relações da mulher. A distinção entre a vida ética da mulher e a vida ética do homem consiste exatamente no fato de que a mulher, em sua distinção pela singularidade e em seu prazer, permanece imediatamente universal e estranha à singularidade do desejo. Ao contrário, no homem, esses dois lados separam-se um do outro, e como o homem possui como cidadão a força consciente de si e a universalidade, adquire o direito do desejo preservando ao mesmo tempo sua liberdade em relação a esse desejo. Assim, se a essa relação da mulher se mistura a singularidade, seu caráter ético não é puro; mas na medida em que esse caráter ético assim é, a singularidade é indiferente e a mulher é privada do reconhecimento de si, como este si em um outro. Isso equivale a dizer que não se trata absolutamente para a mulher de basear em sua singularidade relações com um esposo de eleição, mas sim dejustificar em sua generalidade o exercício de suas funções femininas; ela só deve conhecer o prazer de uma forma específica e não individualizada;disso resultam duas consequências essenciais tocantes a seu destino erótico: primeiramente não tem ela direito a nenhuma atividade sexual fora docasamento; o comércio carnal tornando-se uma instituição para ambos os esposos, desejo e prazer são ultrapassados no sentido do interesse social; mas


o homem, transcendendo-se para o universal como trabalhador e cidadão, pode gozar antes das núpcias e à margem da vida conjugal prazerescontingentes: encontra, em todo caso, sua salvação por outros caminhos; ao passo que, num mundo em que a mulher é essencialmente definida comofêmea, é necessário que seja integralmente justificada enquanto fêmea. Por o utro lado, vimos que a ligação do geral e do singular é biologicamentediferente no macho e na fêmea: cumprindo sua tarefa específica de esposo e reprodutor, o primeiro encontra certamente seu prazer;346 ao contrário, hámuitas vezes na mulher dissociação entre a função genital e a volúpia. De modo que, pretendendo dar à vida erótica uma dignidade ética, o casamento,na verdade, se propõe a suprimi-la.Essa frustração sexual da mulher foi deliberadamente aceita pelos homens; vimos que eles se apoiavam num naturalismo otimista para resignar-sefacilmente aos sofrimentos dela: é seu quinhão; a maldição bíblica confirma-os nessa opinião cômoda. As dores da gravidez — esse pesado sacrifícioexigido da mulher em troca de um rápido e incerto prazer — chegaram a ser o tema de muitas piadas. “Cinco minutos de prazer, nove meses dedesgraça... Entra mais facilmente do que sai.” Esse contraste frequentemente os divertiu. Entra nessa filosofia algo de sádico: muitos homens sealegram com a miséria feminina e não aceitam a ideia de que se queira atenuá-la.347 Compreende-se, portanto, que os homens não tenham tido nenhumescrúpulo em negar a sua companheira a felicidade sexual; pareceu a eles até vantajoso recusar-lhe, com a autonomia do prazer, as tenta ções dodesejo.348É o que exprime Montaigne com um cinismo delicioso: É por isso uma espécie de incesto empregar nesse parentesco venerável e sagrado os esforços e as extravagâncias da licença amorosa; é preciso, diz Aristóteles, “tocar prudente e austeramente na mulher, de medo de que, excitando-a demasiado lascivamente, o prazer a faça perder a cabeça...” Não sei de casamentos que malogram mais depressa e se perturbem do que os que são ditados pela beleza e os desejos amorosos: exigem bases mais sólidas e constantes, e cuidados; uma brilhante alegria não dá certo... Um bom casamento, se é que os há, recusa a companhia e a condição do amor (Livro III, cap. V). E diz também (Livro I, cap. XXX): Os próprios prazeres que têm com suas mulheres são reprovados se não observam neles alguma moderação; e que há razão para cair em licença e dissolução como em coisa ilegítima. Esses entusiasmos desavergonhados que a chama primeira nos sugere nesse ato são não apenas indecentes, como também prejudic ialmente empregados com nossas mulheres. Que pelo menos aprendam a impudência de outra maneira. Para nossas necessidades já se acham bastante despertadas... O casamento é uma ligação religiosa e piedosa; eis por que o prazer que dele se tira deve ser um prazer contido, sério e acrescido de alguma austeridade; deve ser uma volúpia absolutamente prudente e conscienciosa. Efetivamente, se o marido desperta a sensualidade feminina, ele a desperta em sua generalidade, posto que não foi escolhido particularmente; elepredispõe a esposa a procurar o prazer em outros braços; acariciar bem demais uma mulher, diz ainda Montaigne, é “cagar no cesto para depoiscolocá-lo sobre a própria cabeça”. Ele reconhece de resto, com boa-fé, que a prudência masculina coloca a mulher numa situação bastante ingrata. As mulheres não estão inteiramente erradas quando recusam as regras de vida introduzidas no mundo; ainda mais porque são os homens que as fizeram sem elas. Há naturalmente dissensões e disputas entre elas e nós. Nós a tratamos inconsideradamente porque depois de sabermos que são de longe mais capazes e mais ardentes no amor do que nós... fomos dar a elas a continência como quinhão peculiar e sob penas terríveis e extremas... Nós as queremos sadias, vigorosas, bem tratadas e nutridas e castas ao mesmo tempo, isto é, quentes e frias; pois o casamento que dizemos ter por fim impedi-las de se consumirem em chamas, lhes traz bem pouco alívio, de acordo com nossos costumes. Proudhon tem menos escrúpulos: afastar o amor do casamento é, a seu ver, conforme à “justiça”: O amor deve ser afogado na justiça... toda conversação amorosa, mesmo entre noivos, ou entre esposos, é inconveniente, destruidora do respeito doméstico, do amor ao trabalho e da prática do dever social... (uma vez realizado o ato do amor) devemos afastá-lo como o pastor que, depois de ter feito coalhar o leite, retira-lhe o soro. Entretanto, durante o século XIX, as concepções da burguesia modificaram-se um pouco; ela se esforçava ardentemente por defender e sustentar ocasamento; por outro lado, os progressos do individualismo impediam que se pudesse abafar muito simplesmente as reivindicações femininas; Saint-Simon, Fourier, George Sand e todos os românticos tinham proclamado demasiado violentamente o direito ao amor. Admitiu-se o problema de integrarno casamento os sentimentos individuais que até então tinham sido tranquilamente excluídos dele. Foi quando se inventou a noção equívoca de “amorconjugal”, fruto milagroso do casamento de conveniência tradicional. Balzac exprime em todas as suas inconsequências as ideias da burguesiaconservadora. Ele reconhece que, em princípio, casamento e amor nada têm a ver um com o outro, mas repugna-lhe assimilar uma instituiçãorespeitável a um simples negócio em que a mulher é tratada como coisa; e chega, assim, às incoerências desconcertantes da Physiologie dumariage, em que lemos: O casamento pode ser considerado política, civil e moralmente como uma lei, como um contrato, como uma instituição... O casamento deve, pois, ser o objeto do respeito geral. A sociedade só pôde considerar essas sumidades que para ela dominam a questão conjugal. Em sua maioria, os homens só têm em vista, no seu casamento, a reprodução, a propriedade do filho; mas nem a reprodução, nem a propriedade, nem o filho constituem a felicidade. O crescite et multiplica-mini não implica amor. Pedir a uma moça, que vimos 14 vezes em quinze dias, amor por determinação da lei, do rei e da justiça é um absurdo digno da maioria dos predestinados. Isso é tão preciso quanto a teoria hegeliana. Mas Balzac acrescenta sem nenhuma transição: O amor é a concordância da necessidade com o sentimento e a felicidade no casamento resulta de um entendimento perfeito das almas entre os esposos. Disso decorre que, para ser feliz, um homem é obrigado a se ater a certas regras de honra e de delicadeza. Depois de se ter valido do benefício da lei social que consagra a necessidade, deve obedecer às leis secretas da natureza que fazem eclodir os sentimentos. Se põe sua felicidade em ser amado, é preciso que ame sinceramente: nada resiste a uma paixão verdadeira. Mas ser apaixonado é desejar sempre. Pode-se desejar sempre a própria mulher? — Sim. Em seguida Balzac expõe a ciência do casamento. Mas percebe-se logo que não se trata para o marido de ser amado e sim de não ser enganado. Elenão hesitará em infligir à mulher um regime debilitante, vedando-lhe o acesso a qualquer cultura, embrutecendo-a com o único fim de salvaguardar suahonra. Trata-se ainda de amor? Se quisermos encontrar um sentido nessas ideias brumosas e descosidas, há de parecer que o homem tem o direito deescolher uma mulher com a qual satisfaça seus desejos em sua generalidade, generalidade que é o penhor de sua fidelidade; cabe a ele despertar aseguir o amor da mulher empregando certas receitas. Mas será ele realmente amoroso se se casa por sua propriedade, por sua posteridade? E se não oé, como sua paixão poderá ser bastante irresistível para acarretar uma paixão recíproca? E ignorará Balzac realmente que um amor não compartilhado,longe de seduzir inelutavelmente, ao contrário, importuna e repugna? Percebe-se claramente toda a sua má-fé em Mémoires de deux jeunesMariées, romance de tese e por cartas. Louise de Chaulieu pretende alicerçar o casamento no amor: por excesso de paixão mata seu primeiro marido;morre mais tarde em consequência da exaltação ciumenta que experimenta pelo segundo. Renée de l’Estorade sacrificou seus sentimentos à razão, masas alegrias da maternidade a recompensam suficientemente e ela constrói uma felicidade estável. Indagamos primeiramente que maldição — se não umdecreto do próprio autor — proíbe à apaixonada Louise a maternidade que almeja: o amor nunca impediu a concepção; e pensamos, por outro lado, quepara aceitar alegremente os carinhos do esposo foi necessário que Renée tenha tido essa “hipocrisia” que Stendhal detestava nas “mulheres decentes”.Balzac descreve a noite de núpcias nestes termos: O animal que chamamos marido, segundo tua expressão, desapareceu, escreve Renée a sua amiga. Vi, não sei em que noite tão agradável, um amante cujas palavras me penetravam a alma e nos braços de quem eu me apoiava com um prazer indizível... A curiosidade despertou em meu coração... Quero que saibas, entretanto, que nada faltou do que o amor mais delicado exige, nem esse imprevisto que é, por assim dizer, a honra desses momentos: as graças misteriosas que nossas imaginações lhe pedem, o arrebatamento que desculpa, o consentimento arrancado, as volúpias ideais de há muito entrevistas e que não subjugam a alma antes que a deixemos cair na realidade, houve todas as seduções com suas formas encantadoras.


Esse belo milagre não deve ter se repetido muitas vezes, porquanto algumas cartas adiante encontramos Renée em lágrimas: “Antes eu era um ser,agora sou uma coisa”; e ela se consola de suas noites de “amor conjugal” lendo Bonald. Mas gostaríamos de saber em virtude de que receita o maridose transformou, no momento mais difícil da iniciação feminina, em um sedutor; as razõ es que Balzac nos dá em Physiologie du mariage são sumárias:“Não inicie nunca o casamento com uma violação”, ou vagas: “Aprender com habilidade os matizes do prazer, desenvolvê-los, dar a eles um estilo novo,uma expressão original constituem o gênio do marido.” Acrescenta, aliás, de imediato que: “Entre dois seres que não se amam, esse gênio élibertinagem.” Ora, precisamente, Renée não ama Louis; e tal qual nos é descrito, de onde lhe vem esse “gênio”? Na verdade, Balzac escamoteoucinicamente o problema. Ignorou o fato de que não há sentimentos neutros e que a ausência de amor, o constrangimento, o tédio engendram menosfacilmente uma amizade terna do que o rancor, a impaciência, a hostilidade. Ele é mais sincero em Le Lys dans la vallée, e o destino da infeliz Mme deMortsauf apresenta-se como bem menos edificante.Reconciliar o casamento com o amor é uma tal façanha que se faz preciso nada menos do que uma intervenção divina para consegui-lo; é a solução aque se atém Kierkegaard através de complicados circunlóquios. Compraz-se em denunciar o paradoxo do casamento: Que estranha invenção o casamento! E o que o torna mais estranho ainda é que passa por uma gestão espontânea... E no entanto nenhuma gestão é tão decisiva... Um ato tão decisivo deveria, pois, ser executado espontaneamente.349 A dificuldade está no seguinte: o amor e a inclinação amorosa são inteiramente espontâneos, o casamento é uma decisão; entretanto, a inclinação amorosa deve ser despertada pelo casamento ou pela decisão: querer casar-se. Isso quer dizer que o que há de mais espontâneo deve ser ao mesmo tempo a decisão mais livre, e que o que, por causa da espontaneidade, é tão inexplicável, que se deve atribuir a uma divindade, deve ao mesmo tempo ocorrer em virtude de uma reflexão e de uma reflexão tão completa que dela resulta a decisão. Além disso, uma das coisas não deve seguir-se à outra, a decisão não deve chegar por trás, pé ante pé; tudo deve acontecer simultaneamente; as duas coisas devem achar-se reunidas no momento do desfecho.350 O que quer dizer que amar não é casar e que é difícil compreender como o amor pode tornar-se um dever. Mas o paradoxo não assusta Kierkegaard:todo o seu ensaio sobre o casamento é feito para elucidar esse mistério. É verdade que, concorda ele: “A reflexão é o anjo exterminador da espontaneidade... Se fosse verdade que a reflexão devesse controlar a inclinação amorosa, nunca haveria casamento.” Mas “a decisão é uma nova espontaneidade, obtida através da reflexão, sentida de maneira puramente ideal, espontaneidade que corresponde precisamente à da inclinação amorosa. A decisão é uma concepção religiosa da vida construída sobre dados éticos e deve, por assim dizer, abrir o caminho à inclinação amorosa e garanti-la contra todo perigo exterior ou interior”. Eis por que “um verdadeiro esposo é ele próprio um milagre!... Poder reter o prazer do amor enquanto a existência reúne toda a força da seriedade sobre ele e sobre a bem-amada!” Quanto à mulher, a razão não é seu quinhão, ela não tem “reflexão”; por isso passa “do imediatismo do amor ao imediatismo do religioso”. Traduzidaem linguagem clara, essa doutrina significa que um homem que ama se decide a casar por um ato de fé em Deus e que lhe deve garantir o acordo dosentimento com o compromisso; e que a mulher, desde que ama, deseja casar. Conheci uma velha senhora católica que, mais ingenuamente, acreditava“no amor sacramental à primeira vista”; afirmava que no momento em que pronunciam o “sim” definitivo diante do altar, os esposos sentem o coraçãoabrasar-se. Kierkegaard, em verdade, diz que anteriormente deve haver “inclinação”, mas que esta possa durar toda uma existência não lhe parecemenos milagroso.Entretanto, na França, romancistas e dramaturgos do fim do século XIX, menos confiantes na virtude do sacramento, procuram assegurar a felicidadeconjugal por processos mais humanos; mais audaciosamente do que Balzac, encaram a possibilidade de integrar o erotismo no amor legítimo. Porto-Riche afirma, em Amoureuse, a incompatibilidade do amor sexual com a vida do lar: o marido, farto dos ardores da mulher, busca a tranquilidade juntode uma amante mais moderada. Mas, por instigação de Paul Hervieu, inscreve-se no código que o “amor” entre esposos é um dever. Marcel Prévostaconselha o jovem esposo a tratar a mulher como uma amante e evoca em termos discretamente libidinosos as volúpias conjugais. Bernstein faz-se odramaturgo do amor legítimo: ao lado da mulher amoral, mentirosa, sensual, ladra, má, o marido surge como um ser equilibrado, generoso; e adivinha-se nele igualmente um amante potente e hábil. Como reação contra os romances de adultério aparecem numerosas apologias romanescas docasamento. A própria Colette cede ante essa onda moralizadora quando em L’Ingénue li bertine, depois de ter descrito as cínicas experiências de umarecém-casada, inabilmente deflorada, resolve fazê-la conhecer a volúpia nos braços do marido. Do mesmo modo, Martin Maurice, em um livro dealguma repercussão, traz a jovem mulher, após breve incursão no leito de um amante hábil, para junto do marido, a quem faz beneficiar-se daexperiência. Por outras razões e de outra maneira, os norte-americanos de hoje, que são a um tempo respeitosos da instituição conjugal eindividualistas, multiplicam os esforços de integração da sexualidade no casamento. Aparecem anualmente numerosas obras de iniciação na vidaconjugal e destinadas a ensinar os cônjuges a se adaptarem um ao outro e, em particular ao homem, a como criar uma harmonia feliz com a mulher.Psicanalistas e médicos desempenham o papel de “conselheiros conjugais”; admite-se que a mulher também tem direito ao prazer e que o homem deveconhecer as técnicas suscetíveis de dar esse prazer. Mas já vimos que o êxito sexual não é unicamente uma questão de técnica. Ainda que o rapaz tenhaaprendido de cor vinte manuais tais como O que todo marido deve saber, O segredo da felicidade conjugal, O amor sem medo, não é certo que saberácom isso fazer-se amar por sua jovem esposa. É ao conjunto da situação psicológica que esta reage. O casamento tradicional está longe de criar ascondições mais favoráveis ao despertar e ao desabrochar do erotismo feminino.Outrora, nas comunidades de direito materno, não se exigia a virgindade da jovem esposa; por razões místicas, devia ela até ser deflorada antes danúpcias. Em certas zonas rurais da França, observam-se ainda sobrevivências dessas antigas licenças; não se exige das moças a castidade pré-nupcial;e as jovens que “erraram” — inclusive mães solteiras — encontram às vezes marido mais facilmente do que as outras. Por outro lado, nas esferas emque a emancipação feminina é aceita, reconhece-se às moças a mesma liberdade sexual que se reconhece aos rapazes. Entretanto, a ética paternalistareclama imperiosamente que a noiva seja entregue virgem ao esposo; este quer ter certeza de que ela não traz em si um germe estranho; quer apropriedade integral e exclusiva dessa carne que torna sua;351 a virgindade adquiriu um valor moral, religioso e místico, e esse valor é aindageralmente reconhecido hoje. Na França, há regiões em que os amigos do casado ficam atrás da porta do quarto nupcial, riem e cantam até que oesposo venha triunfalmente expor aos olhos deles o lençol manchado de sangue; ou então os pais exibem-no pela manhã às pessoas davizinhança.352 Sob uma forma menos brutal, o costume da “noite de núpcias” está ainda muito espalhado. Não é por acaso que isso suscitou toda umaliteratura picante: a separação entre o social e o animal engendra necessariamente a obscenidade. Uma moral humanista exige que toda experiênciaviva tenha um sentido humano, que seja habitada por uma liberdade; numa vida erótica autenticamente moral, há livre assumpção do desejo e doprazer, ou, pelo menos, luta patética para reconquistar a liberdade no seio da sexualidade: mas isso só é possível se um reconhecimento singular dooutro se efetuou no amor ou no desejo. Quando a sexualidade não precisa mais ser salva pelo indivíduo, porque é Deus ou a sociedade que pretendemjustificá-la, a relação dos dois parceiros é apenas uma relação bestial. Compreende-se que as matronas bem-pensantes falem com repugnância dasaventuras da carne: elas as rebaixaram ao nível de funções escatológicas. É por isso também que, nos banquetes nupciais, se ouvem tantos risoslicenciosos. Há um paradoxo obsceno na superposição de uma cerimônia pomposa a uma função animal de uma realidade brutal. O casamento expõesua significação universal e abstrata: um homem e uma mulher unem-se de acordo com ritos simbólicos sob os olhares de todos; mas no segredo doleito são indivíduos concretos e singulares que se enfrentam e todos os olhares se desviam de suas carícias. Colette, assistindo, com a idade de 13 anos,a um casamento de camponeses, ficou muito confusa quando uma amiga a levou para ver o quarto nupcial: O quarto do jovem casal... Sob cortinas de algodão barato, a cama estreita e alta de colchão de plumas, cheia de travesseiros de penugem de ganso, a cama onde termina esse dia fumegante de suor, de incenso, de gado, de odores de molhos... Dentro em pouco, os jovens esposos chegarão. Eu não pensara nisso. Mergulharão nesta pluma profunda... Haverá entre eles a luta obscura acerca da qual a candura intrépida de minha mãe e a vida dos bichos ensinaram-me demais e de menos. E depois? Tenho medo deste quarto e deste leito em que não tinha pensado.353 No seu desamparo infantil, a menina sentiu o contraste entre o aparato da festa familiar e o mistério animal do grande leito fechado. O lado cômico elicencioso do casamento quase não se descobre nas civilizações que não individualizam a mulher: no Oriente, na Grécia, em Roma; a função animal aíse apresenta tão geral quanto os ritos sociais; mas em nossa época, no Ocidente, homens e mulheres são tomados como indivíduos e os convidados àsnúpcias escarnecem porque é este homem e é esta mulher que vão consumar, numa experiência bem singular, o ato que se mascara sob os ritos, osdiscursos e as flores. Há, sem dúvida, também um contraste macabro entre a pompa dos grandes enterros e a podridão do túmulo. Mas o morto nãodesperta quando o enterram, ao passo que a jovem sente uma terrível surpresa quando descobre a singularidade e a contingência da experiência realque a faixa tricolor do prefeito e os órgãos da igreja lhe prometiam. Não é somente nas comédias que se veem mulheres voltarem em lágrimas parajunto de suas mães na noite de núpcias; os livros de psiquiatria abundam em narrativas dessa espécie; contaram-me também pessoalmente várioscasos: tratava-se de moças bem-educadas demais, que não tinham recebido nenhuma educação sexual e que a brusca descoberta do erotismotranstornou. No século passado, Mme Adam imaginava que era de seu dever casar com um homem que a beijara na boca, pois pensava que era isso aforma acabada da união sexual. Mais recentemente, Stekel conta, a propósito de uma jovem mulher casada: “Quando, durante a viagem de núpcias, omarido a deflorou, ela o tomou por louco e não ousou dizer palavra pensando estar lidando com um alienado.”354 Houve mesmo uma moça tão inocente


que desposou uma invertida e durante muito tempo viveu com o pseudomarido sem desconfiar de que não estava na companhia de um homem. Se no dia de suas núpcias, ao entrar em casa, você mergulhar sua mulher num poço durante a noite, ela ficará estonteada. Por mais que tenha tido uma vaga inquietude... Engraçado, dirá ela, então é isso o casamento? Eis por que se queria que a prática fosse secreta. Eu me deixei pegar nessa armadilha. Mas vexada com isso, ela não diz nada. Eis por que você poderá mergulhá-la no poço longamente e várias vezes, sem provocar nenhum escândalo na vizinhança. Este fragmento de um poema de Michaux,355 intitulado Nuits de noces, exprime com bastante exatidão a situação. Hoje, muitas jovens são mais sabidas;mas seu consentimento permanece abstrato; e seu defloramento conserva o caráter de uma violação. “Há certamente maior número de violaçõescometidas no casamento que fora do casamento”, diz Havelock Ellis. Em sua obra Monatsschrift für Geburtshilfe, t. IX, Neugebauer reuniu mais de 150casos de ferimentos infligidos a mulheres pelo pênis durante o coito; as causas eram a brutalidade, a embriaguez, uma posição errada, umadesproporção dos órgãos. Na Inglaterra, conta Havelock Ellis, uma senhora indagou a seis mulheres casadas da classe média e inteligentes qual forasua reação na noite de núpcias: para todas o coito acontecera como um choque; duas delas ignoravam tudo, as outras pensavam saber, mas nem porisso se s entiram menos magoadas psicologicamente. Adler também insiste na importância psíquica do ato de defloramento. Esse primeiro momento em que o homem adquire todos os direitos decide muitas vezes toda a vida. O marido sem experiência e superexcitado pode semear então o germe da insensibilidade feminina e, com sua inabilidade e sua brutalidade contínuas, transformá-la em anestesia permanente. Vimos no capítulo precedente muitos exemplos dessas iniciações infelizes. Eis mais um caso relatado por Stekel: Mme H.N., educada muito pudicamente, tremia à ideia da noite de núpcias. O marido despiu-a quase com violência, sem lhe permitir que se deitasse. Tirou ele próprio a roupa, pedindo que ela o olhasse nu e admirasse o pênis. Ela escondeu o rosto nas mãos. Então ele exclamou: “Por que não ficaste em tua casa, imbecil!” Em seguida, jogou-a na cama e deflorou-a brutalmente. Naturalmente, ela se tornou frígida para sempre. Examinamos, com efeito, todas as resistências que a virgem precisa vencer para realizar seu destino sexual: sua iniciação reclama todo um “trabalho”ao mesmo tempo fisiológico e psíquico. É estúpido e bárbaro querer resumi-la em uma noite; é absurdo transformar em um dever a operação tão difícildo primeiro coito. A mulher sente-se ainda mais aterrorizada porque a estranha operação a que se submete é sagrada, que sociedade, religião, família aentregaram solenemente ao esposo como a um senhor; ademais, o ato parece-lhe empenhar todo o seu futuro, tendo ainda o casamento um caráterdefinitivo. É então que ela se sente revelada no absoluto: esse homem a quem ela está para sempre votada encarna a seus olhos todo o Homem; e elerevela-se também a ela sob uma figura desconhecida, que é de terrível importância, porquanto será o companheiro para toda sua vida. Entretanto, opróprio homem sente angústia pela imposição que pesa sobre si; tem suas próprias dificuldades, seus complexos que o tornam tímido e inábil ou, aocontrário, brutal; numerosos homens mostram-se impotentes na noite de núpcias por causa da própria solenidade do casamento. Janet escreve em LesObsessions et la Psychasthénie: Quem não conhece esses recém-casados envergonhados de sua sorte, que não podem conseguir realizar o ato conjugal e são então perseguidos por uma obsessão de vergonha e desespero? Assistimos no ano passado a uma cena tragicômica assaz curiosa, quando um sogro encolerizado arrastou até a Salpetrière seu genro humilde e resignado: o sogro solicitava um atestado médico que lhe permitisse pedir o divórcio. O pobre rapaz explicava que antes fora capaz, mas que desde o casamento um sentimento de embaraço e vergonha tornara tudo impossível. Um entusiasmo exagerado assusta a virgem, um respeito excessivo a humilha; há mulheres que odeiam para sempre o homem que auferiuegoistamente seu prazer à custa do seu sofrimento; mas experimentam um rancor eterno contra quem pareceu desdenhá-las356 e muitas vezes contraquem não tentou deflorá-las durante a primeira noite de núpcias, ou foi incapaz de fazê-lo. H. Deutsch observa357 que certos maridos tímidos ou inábeispedem ao médico que deflore a mulher mediante uma operação cirúrgica, a pretexto de que ela tem uma conformação anormal; a razão alegada não égeralmente válida. As mulheres, diz ela, votam para sempre desprezo e rancor ao marido que foi incapaz de penetrá-las normalmente. Uma dasobservações de Freud358 mostra que a impotência do esposo pode engendrar um traumatismo na mulher: Uma doente tinha o hábito de correr de um quarto para outro no meio do qual se achava uma mesa. Arranjava então a toalha de certa maneira e chamava a criada, que devia aproximar-se da mesa; e a mandava embora... Quando tentou explicar essa obsessão, lembrou-se de que a toalha tinha uma mancha feia e que ela a arranjava de maneira a que a mancha saltasse aos olhos da empregada... Era a reprodução da noite de núpcias em que o marido não se mostrara viril. Acorrera várias vezes do quarto dele ao quarto dela para tentar novamente. Com vergonha da criada que devia fazer a cama, derrubara tinta vermelha no lençol para que acreditasse que havia sangue. A “noite de núpcias” transforma a experiência erótica numa prova, em que o receio de não saber vencer angustia a todos, afundados por demais emseus próprios problemas para pensar generosamente no outro; ela comporta uma solenidade que a torna temível; e não é espantoso que muitas vezesdestine a mulher à frigidez. O problema difícil que se põe ante o esposo é o seguinte: se “acaricia demasiado lascivamente a mulher”, ela podeescandalizar-se e sentir-se ultrajada; parece que um tal receio paralisa os maridos norte-americanos, entre outros, principalmente nos casais quereceberam uma educação universitária, observa o relatório de Kinsey, porque as mulheres, mais conscientes de si mesmas, são mais profundamenteinibidas. Entretanto, se o homem a “respeita”, fracassa em despertar a sensualidade dela. Esse dilema é criado pela ambiguidade da atitude feminina: ajovem quer o prazer e o recusa ao mesmo tempo; ela exige uma discrição pela qual sofre. Exceto no caso de uma felicidade excepcional, o marido seapresentará como libertino ou inábil. Não é, portanto, de espantar que os “deveres conjugais” sejam muitas vezes para a mulher um encargorepugnante. A submissão a um senhor que lhe desagrada é para ela um suplício, diz Diderot.359 Vi uma mulher honesta tremer de horror à aproximação do esposo; eu a vi entrar no banho e não se acreditar bastante lavada da mácula do dever. Essa espécie de repugnância nos é quase desconhecida. Nosso órgão é mais indulgente. Muitas mulheres morrerão sem ter experimentado a extrema volúpia. Essa sensação que eu encararia de bom grado como uma epilepsia passageira é rara para elas e a nós não deixa nunca de acontecer quando a queremos. A felicidade soberana foge entre os braços do homem que elas adoram. Nós a encontramos em qualquer mulher complacente, ainda que nos desagrade. Menos senhoras de seus sentidos do que nós, a recompensa é menos rápida e menos segura para elas. Cem vezes sua espera é vã. Muitas mulheres, com efeito, tornam-se mães e avós sem nunca ter conhecido o prazer, nem mesmo uma perturbação; tentam escapar da “mácula dodever” mediante atestados médicos ou outros pretextos. O relatório de Kinsey revela que na América do Norte muitas esposas “declaram considerarsua frequência de coito já elevada e desejariam que seus maridos não quisessem relações tão frequentes. Muito poucas mulheres desejam coitos maisfrequentes”. Vimos, entretanto, que as possibilidades eróticas da mulher são quase infinitas. Esta contradição demonstra bem que o casamento,pretendendo regular o erotismo feminino, na realidade o assassina.Em Thérèse Desqueyroux, Mauriac descreve as reações de uma jovem mulher “razoavelmente casada” em face do casamento em geral e dos deveresconjugais em particular. Talvez ela procurasse no casamento menos um domínio, uma posse do que um refúgio? Não fora um pânico que a precipitara nele? Mocinha prática, mocinha doméstica, ansiava por ocupar seu lugar definitivo; queria garantir-se contra um perigo que não conhecia bem. Nunca parecera tão sensata como na época do noivado; incrustava-se num bloco familiar, “arrumava-se”, entrava numa ordem. Salvava-se. No sufocante dia das núpcias, na estreita igreja de Saint-Clair onde o falatório das mulheres dominava a música do órgão ofegante e onde os odores triunfavam sobre o incenso, nesse dia foi que Thérèse se sentiu perdida. Entrara como uma sonâmbula na jaula e, ao ruído pesado da porta que se fechava, a pobre menina acordava. Nada mudara, mas ela tinha o sentimento de não mais poder perder-se sozinha. Ia ocultar-se no mais espesso da família como o fogo de uma brasa dormida.


...Na tarde daquele casamento meio camponês e meio burguês, alguns grupos em que brilhavam os vestidos das moças forçaram o auto dos casados a diminuir a marcha, aclamavam-nos... Thérèse, pensando na noite que veio depois, murmura: “Foi horrível. Mas corrige: “Não... nem tanto.” Durante a viagem aos lagos italianos tinha sofrido muito? Não, não, topava o jog o; não se trair... Thérèse soube dobrar o corpo a essas dissimulações e nisso experimentava um prazer amargo. Nesse mundo desconhecido de sensações em que um homem a obrigava a entrar, sua imaginação a ajudava a conceber que talvez houvesse nele, para ela também, uma possível felicidade — mas que felicidade? Como diante de uma paisagem escondida na chuva imaginamos o que seria com sol, Thérèse descobria a volúpia. Bernard, aquele rapaz de olhar vago... que homem fácil de enganar! Estava encerrado em seu prazer como os porquinhos bonitinhos que a gente acha divertido olhar através das grades quando roncam de prazer diante de uma gamela: “Eu era a gamela”, pensou Thérèse... Onde aprendera ele a classificar tudo o que dizia respeito à carne, a distinguir as carícias de homem decente das do sátiro? Nunca uma hesitação... ...Pobre Bernard, não era pior do que outros! Mas o desejo transforma o ser que se aproxima de nós em um monstro que com ele não tem semelhança. “Fazia-me de morta como se esse louco, esse epiléptico, houvesse querido estrangular-me ao menor gesto meu.” Eis um testemunho mais cru. É uma confissão recolhida por Stekel e de que cito um trecho concernente à vida conjugal. Trata-se de uma mulher de 28anos, educada em um meio requintado e culto. Eu era uma noiva feliz; enfim, tinha a sensação de estar abrigada e, de repente, me tornava alguém que atraía a atenção. Era mimada, meu noivo admirava-me, tudo era novo para mim... Os beijos (meu noivo nunca tentara outras carícias) tinham me inflamado a ponto de não poder esperar o dia do casamento... Na manhã desse dia, sentia-me de tal maneira excitada que minha camisa ficou imediatamente molhada de suor. Era apenas a ideia de que ia conhecer enfim o desconhecido que eu tanto desejara. Imaginava infantilmente que o homem devia urinar na vagina da mulher... No quarto houve logo uma pequena decepção quando meu marido me perguntou se devia afastar-se. Pedi-lhe que o fizesse, pois tinha realmente vergonha diante dele. O momento de me despir desempenhara papel importante em minha imaginação. Ele voltou meio embaraçado quando me deitei. Mais tarde confessou-me que meu aspecto o intimidara: eu era a encarnação da juventude radiosa e cheia de esperança. Mal se despiu, apagou a luz. E mal me beijou, tentou imediatamente possuir-me. Eu estava muito amedrontada, e pedi-lhe que me deixasse tranquila. Desejava estar muito longe dele. Horrorizava-me aquela tentativa sem carícias prévias. Achava-o brutal e por isso o censurei muitas vezes mais tarde; não era brutalidade, mas uma grande inabilidade e uma falta de sensibilidade. Todas as suas tentativas foram vãs durante a noite. Comecei a sentir-me muito infeliz, tinha vergonha de minha estupidez, acreditava-me culpada e malfeita... Finalmente contentei-me com seus beijos. Dez dias depois, ele conseguiu afinal deflorar-me, o coito durou apenas alguns segundos e, a não ser uma ligeira dor, nada senti. Foi uma grande decepção. Posteriormente senti alguma alegria durante o coito, mas o êxito fora assaz penoso, meu marido sofria ainda para alcançar seu objetivo... Em Praga, na garçonnière de meu cunhado, imaginava as sensações que ele teria ao saber que eu dormira em sua cama. Foi aí que tive meu primeiro orgasmo e fiquei muito feliz com isso. Meu marido fez amor comigo todos os dias durante as primeiras semanas. Eu atingia o orgasmo, mas não me sentia satisfeita porque era rápido demais e eu ficava excitada a ponto de chorar... Depois de dois partos o coito foi se tornando cada vez menos satisfatório. Provocava raramente o orgasmo, meu marido tinha-o sempre antes de mim; eu observava cada sessão ansiosamente (quanto tempo ele vai continuar?). Se satisfeito, me largava no meio, eu o odiava. Por vezes, pensava em meu primo durante o coito, ou no médico que me assistira no parto. Meu marido tentou excitar-me com o dedo... Excitava-me muito mais, mas ao mesmo tempo eu achava que esse meio era vergonhoso e anormal e não conseguia gozar... Durante todo o tempo de nosso casamento ele nunca acariciou um só pedaço de meu corpo... Certo dia, confessou-me que nada ousava fazer comigo... Nunca me viu nua porque conservávamos nossas camisas de dormir e ele só fazia amor à noite. Essa mulher, que era na verdade muito sensual, foi posteriormente muito feliz nos braços de um amante.O noivado destina-se precisamente a criar gradações na iniciação da jovem; mas muitas vezes os costumes impõem aos noivos uma exageradacastidade. No caso em que a virgem “conhece” seu futuro marido durante esse período a situação não difere muito da jovem esposa: ela só cede porqueo compromisso já lhe parece tão definitivo quanto um casamento e o primeiro coito conserva o caráter de uma prova; a partir do momento em que seentrega, ainda que não engravide — o que a amarraria ainda mais —, é raro que ouse voltar atrás.As dificuldades das primeiras experiências são facilmente superadas se o amor ou o desejo arrancam dos parceiros um consentimento total; o amorfísico tira sua força e dignidade da alegria que se dão e possuem os amantes na consciência recíproca de sua liberdade. Então nenhuma de suaspráticas é infame, porquanto não é suportada por nenhum deles e sim generosamente aceita. Mas o princípio do casamento é obsceno porquetransforma em direitos e deveres uma troca que deve basear-se num impulso espontâneo. Ele dá aos corpos, forçando-os a se apreenderem em suageneralidade, um caráter instrumental, portanto degradante. O marido congela-se, muitas vezes, à ideia de que cumpre um dever, a mulher temvergonha de se sentir entregue a alguém que exerce um direito sobre ela. Naturalmente, pode acontecer que no início da vida conjugal as relações seindividualizem; o aprendizado sexual faz-se, às vezes, por meio de lentas gradações; desde a primeira noite pode surgir entre os esposos uma felizatração física. O casamento facilita o abandono da mulher, suprimindo a noção de pecado ainda tão ligada à carne; uma coabitação regular e frequenteengendra uma intimidade carnal propícia à maturação sexual; há esposas privilegiadas durante os primeiros anos do casamento. É de notar que ficam atal ponto reconhecidas ao marido que são levadas mais tarde a perdoar-lhe todas as culpas que possa ter. “As mulheres que não podem desprender-sede um lar infeliz foram sempre satisfeitas pelo marido”, diz Stekel. Como quer que seja, a jovem corre um risco terrível ao se comprometer a dormir avida inteira com um homem que ela não conhece sexualmente, quando seu destino erótico depende essencialmente da personalidade de seu parceiro: éo paradoxo que Léon Blum denunciava com razão em sua obra: Le Mariage.Pretender que uma união baseada na conveniência tem muitas possibilidades de engendrar o amor é uma hipocrisia. Exigir de dois esposos ligados porinteresses práticos, sociais e morais que durante toda a vida dispensem a volúpia é um absurdo. Entretanto, os partidários do casamento deconveniência não têm dificuldade em mostrar que o casamento por amor não comporta tampouco muitas possibilidades de assegurar a felicidade doscônjuges. Primeiramente o amor ideal, que é muitas vezes o que a jovem conhece, nem sempre a predispõe ao amor sexual; adorações platônicas,devaneios, paixões em que ela projeta obsessões infantis ou juvenis não se destinam a suportar a prova da vida cotidiana nem a se perpetuarem. Emesmo existindo entre a jovem e o noivo uma atração erótica sincera e violenta, não há nisso uma base sólida para edificar uma vida. A volúpia ocupa no deserto ilimitado do amor um ardente e pequeno lugar, tão abrasado, entretanto, que a princípio não se vê senão ele, escreve Colette.360 Em volta desse foco inconstante é o desconhecido, o perigo. Quando tivermos despertado de uma curta relação, ou até de uma longa noite, será preciso começar a viver um perto do outro, um para o outro. Ademais, mesmo no caso em que o amor carnal existe antes do casamento, ou desperta no início das núpcias, é muito raro que dure muitos anos. Semdúvida a fidelidade é necessária ao amor sexual, pelo fato de que o desejo de dois amantes apaixonados envolve sua singularidade; eles recusam queesta seja contestada por experiências estranhas se se querem insubstituíveis um para o outro; mas essa fidelidade só tem sentido na medida em que éespontânea; e espontaneamente a magia do erotismo dissipa-se muito depressa. O milagre está em que a cada amante ele entrega no instante, em suapresença carnal, um ser cuja existência é uma transcendência indefinida: a posse desse ser é sem dúvida impossível, mas pelo menos ele é atingido demaneira privilegiada e pungente. Mas quando os indivíduos não aspiram mais a se atingir porque há entre eles hostilidade, nojo, indiferença, a atraçãoerótica desaparece; e morre de uma maneira quase tão certa na estima e na amizade, pois dois seres humanos que se unem no próprio movimento desua transcendência, através do mundo e de seus empreendimentos comuns, não precisam mais unir-se carnalmente; e por ter perdido sua significaçãoesta união inspira-lhes repugnância. A palavra incesto que Montaigne pronuncia é profunda. O erotismo é um movimento para o Outro; nisso reside seucaráter essencial. Mas no seio do casal os cônjuges tornam-se o Mesmo um para o outro; nenhuma troca é mais possível entre eles, nenhum dom,nenhuma conquista. Por isso, se continuam amantes, fazem isso o mais das vezes com vergonha: sentem que o ato sexual não é mais uma experiênciaintersubjetiva, em que cada qual se ultrapassa, e sim uma espécie de masturbação em comum. Que cada um considere o outro um utensílio necessárioà satisfação de suas necessidades é um fato que a delicadeza conjugal dissimula, mas que se evidencia fortemente desde que essa delicadeza sejarecusada, como o demonstram as observações do dr. Lagache em sua obra Nature et forme de la jalousie; a mulher encara o membro viril comodeterminada provisão de prazer que lhe pertence e de que se mostra tão avara como das conservas encerradas em seus armários: se o homem deralguma coisa dessa provisão à vizinha, não sobrará nada para ela; ela examina com desconfiança as cuecas do marido para ver se não desperdiçou oprecioso sêmen. Jouhandeau assinala em Chroniques maritales essa “censura cotidiana exercida pela mulher legítima que nos espia a camisa e o sonopara surpreender neles o sinal da ignomínia”. Por seu lado, o homem nela satisfaz seus desejos sem lhe pedir a opinião.Essa satisfação brutal da necessidade não basta, de resto, para satisfazer a sexualidade humana. Eis por que há, nas relações que se encaram como asmais legítimas, um vago sabor de vício. É frequente que a mulher apele para fantasmas eróticos. Stekel cita o caso de uma mulher de 25 anos que“pode sentir um ligeiro orgasmo com o marido, imaginando que um homem forte e mais idoso a possui sem lhe pedir e de modo que ela não podedefender-se”. Imagina que a violentam, que a batem, que o marido não é ele próprio e sim um outro. Ele acarinha o mesmo sonho: no corpo da mulher,possui as coxas de tal ou qual dançarina entrevista num music hall, os seios da pin-up cuja fotografia contemplou, uma recordação, uma imagem; ouentão imagina a mulher desejada, possuída, violentada, o que constitui uma maneira de devolver-lhe a alteridade perdida. “O casamento, diz Stekel,cria transposições grotescas e inversões, atores requintados, comédias representadas entre parceiros que ameaçam destruir toda fronteira entre aaparência e a realidade.” No extremo limite, vícios definidos aparecem: o marido faz-se voyeur: precisa ver a mulher dorm indo com um amante ousaber que o faz, para reencontrar um pouco de sua magia; ou esforça-se sadicamente para que ela se recuse de maneira a que, enfim, a consciência e aliberdade dela se afirmem e que assim possua um ser humano de verdade. Inversamente, condutas masoquistas esboçam-se na mulher que procurasuscitar, no homem, o senhor, o tirano que ele não é. Conheci uma senhora educada num convento, muito devota, autoritária e dominadora durante odia e que à noite rogava apaixonadamente ao marido que a flagelasse, do que ele se desobrigava com horror. O próprio vício assume no casamento umaspecto organizado e frio, um aspecto sério que faz dele o mais triste mal menor.A verdade é que o amor físico não pode ser tratado nem como um fim absoluto nem como um simples meio: não pode justificar uma existência, mas nãopode tampouco receber nenhuma justificação estranha. Isso equivale a dizer qu e deveria desempenhar em toda vida humana um papel episódico e


autônomo. Isso equivale a dizer que deveria ser livre. Por isso mesmo não é o amor que o otimismo burguês promete à jovem esposa: o ideal que lhe acenam é o da felicidade, isto é, o de um tranquiloequilíbrio no seio da imanência e da repetição. Em certas épocas de prosperidade e de segurança esse ideal foi o de toda a burguesia e particularmenteo dos proprietários fundiários, que não visavam à conquista do futuro e do mundo, mas sim à manutenção tranquila do passado, do status quo. Umamediocridade dourada, sem ambição nem paixão, dias que não conduzem a parte alguma e que recomeçam indefinidamente, uma vida que deslizadocemente para a morte sem procurar razões que a expliquem, eis o que preconiza, por exemplo, o autor do Sonnet du bonheur. Essa pseudo-sabedoria, ligeiramente inspirada em Epicuro e Zenon, carece hoje de crédito; conservar e repetir o mundo tal qual é não parece nem desejável nempossível. A vocação do homem é a ação; ele precisa produzir, criar, progredir, ultrapassar-se em direção à totalidade do Universo e à infinidade dofuturo; mas o casamento tradicional não convida a mulher a transcender com ele; confina-a na imanência. Ela não pode, portanto, se propor a nada, anão ser construir uma vida equilibrada, em que o presente, prolongando o passado, escape às ameaças do dia seguinte, isto é, precisamente, edificaruma felicidade. Na falta de amor, ela terá pelo marido um sentimento terno e respeitoso chamado amor conjugal; ela encerrará o mundo entre asparedes do lar que será encarregada de administrar; perpetuará a espécie humana através do futuro. Entretanto, nenhum existente jamais renuncia asua transcendência ainda que se obstine em renegá-la. O burguês de outrora pensava que, conservando a ordem estabelecida, manifestando-lhe asvirtudes pela sua prosperidade, servia a Deus, ao seu país, a um regime, a uma civilização: ser feliz era cumprir sua função de homem. Para a mulhertambém é preciso que a vida harmônica do lar seja ultrapassada em direção a dados fins: o homem é que servirá de intermediário entre aindividualidade da mulher e o Universo, ele é que revestirá de um valor humano a contingente facticidade dela. Extraindo junto da esposa a força deempreender, de agir, de lutar, é ele quem a justifica: ela lhe entrega nas mãos a existência e ele lhe dará um sentido. Isso faz supor da parte dela umahumilde renúncia; mas ela é recompensada, porque, guiada, protegida pela força do homem, escapará ao abandono original; se tornará necessária.Rainha em sua colmeia, repousando tranquilamente em si mesma no coração de seu domínio, mas levada pela mediação do homem através do Universoe do tempo ilimitado, esposa, mãe, dona de casa, a mulher encontra no casamento a força de viver e ao mesmo tempo o sentido de sua vida. Cumpre-nos ver como esse ideal se traduz na realidade. O ideal da felicidade sempre se materializou na casa, na choupana ou no castelo: encarna a permanência e a separação. É entre seus muros que afamília se constitui numa célula isolada e afirma sua identidade para além da passagem das gerações; o passado conservado sob forma de móveis eretratos de antepassados prefigura um futuro sem riscos; no jardim, as estações inscrevem em legumes comestíveis seu ciclo tranquilizador; a cada anoa mesma primavera ornada das mesmas flores promete o retorno do imutável verão, do outono com seus frutos idênticos aos de todos os outonos: nemo tempo nem o espaço escapam para o infinito, ambos giram sabiamente em círculo. Numa civilização fundada na propriedade fundiária há umaabundante literatura que canta a poesia e as virtudes da casa; no romance de Henry Bordeaux intitulado precisamente La Maison, ela resume todos osvalores burgueses: fidelidade ao passado, paciência, economia, previdência, amor à família, ao solo natal etc.; é frequente que as mulheres cantem nacasa, porque sua tarefa consiste em assegurar a felicidade do grupo familiar; seu papel, como no tempo em que a domina tinha assento no átrio, é ser“dona de casa”. Hoje a casa perdeu seu esplendor patriarcal; para a maioria dos homens ela é apenas um habitat que a memória das gerações passadasnão mais esmaga e que não aprisiona mais os séculos futuros. Mas a mulher esforça-se ainda por dar a seu “interior” o sentido e o valor que possuía averdadeira casa. Em Cannery Road, Steinbeck descreve uma vagabunda que se obstina em enfeitar com tapetes e cortinas o velho barraco abandonadoem que se aloja com o marido: em vão ele objeta que a ausência de janelas torna as cortinas inúteis.Essa preocupação é especificamente feminina. Um homem normal considera os objetos que o cercam como instrumentos; arruma-os segundo o fim aque se destinam; sua “ordem” — na qual a mulher verá muitas vezes apenas uma desordem — é ter ao alcance da mão seus cigarros, seus papéis, suasferramentas. Os artistas, entre outros, a quem é dado recriar o mundo através de uma matéria — escultores e pintores —, mostram-se inteiramenteindiferentes ao ambiente dentro do qual vivem. Rilke escreve a propósito de Rodin: A primeira vez que estive em casa de Rodin, compreendi que essa casa não passava para ele de uma pobre necessidade: um abrigo contra o frio, um teto sob o qual dormir. Ela deixava-o indiferente e não pesava em absoluto na sua solidão, no seu recolhimento. Era em si que encontrava um lar: sombra, refúgio e paz. Tornara-se seu próprio céu, sua floresta e seu largo rio que nada mais detém. Mas para encontrar um lar em si é preciso primeiramente ter se realizado em obras ou atos. O homem só se interessa mediocremente pelo seu interiorporque ascende ao Universo e pode afir mar-se em projetos. Ao passo que a mulher está encerrada na comunidade conjugal: trata-se para ela detransformar essa prisão em reino. Sua atitude em relação ao lar é comandada por essa mesma dialética que define geralmente sua condição: ela possuitornando-se uma presa, liberta-se abdicando; renunciando ao mundo ela quer conquistar um mundo.Não é sem se lamentar que ela fecha atrás de si as portas do lar; moça, tinha toda a terra por pátria, as florestas lhe pertenciam. Agora, acha-seconfinada num estreito espaço; a Natureza reduz-se às dimensões de um vaso de gerânios; muros barram o horizonte. Uma heroína de V. Woolfmurmura: Não distingo mais o inverno do verão pelo aspecto da relva ou das urzes na charneca, mas sim pela umidade ou a geada que se formam nos vidros. Eu que outrora caminhava pelos bosques de faias, admirando o tom azul da pena do gaio ao cair, eu que encontrava em meu caminho o vagabundo e o pastor... vou de quarto em quarto de espanador na mão.361 Mas ela se esforçará por negar essa limitação. Encerra entre suas paredes sob formas mais ou menos dispendiosas a fauna e a flora terrestres, ospaíses exóticos, as épocas passadas; aí encerra o marido que resume para ela a coletividade humana, e o filho que lhe dá, de um modo portátil, todo ofuturo. O lar torna-se o centro do mundo e até sua única verdade; como observa muito acertadamente Bachelard, é “uma espécie de contrauniverso ouum universo do contra”; refúgio, retiro, gruta, ventre, ele abriga contra todas as ameaças de fora: é essa confusa exterioridade que se torna irreal. Ànoite principalmente, quando estão fechadas as janelas, a mulher sente-se rainha; a luz espalhada ao meio-dia pelo sol universal a perturba; à noite elanão se sente mais despojada, porque abole o que não possui; vê brilhar sob o abajur uma luz que é sua e que ilumina exclusivamente sua casa: nadamais existe. Um texto de V. Woolf mostra-nos a realidade concentrando-se na casa, enquanto o espaço de fora se aniquila. A noite era mantida afastada pelos vidros e estes, em vez de darem uma vista exata do mundo exterior, ondulavam-no de um modo estranho, a tal ponto que a ordem, a fixidez, a terra firme pareciam ter se instalado dentro da casa; fora, ao contrário, só restava um reflexo em que as coisas tornadas fluidas tremiam e desapareciam. Graças aos veludos, às sedas, às porcelanas de que se cerca, a mulher poderá satisfazer parcialmente essa sensualidade preênsil que ordinariamentesua vida erótica não satisfaz; encontrará também nesse cenário uma expressão de sua personalidade; foi ela quem escolheu, fabricou, “descobriu”móveis e bibelôs, quem os arrumou segundo uma estética em que a preocupação da simetria ocupa em geral lugar importante; devolvem-lhe suaimagem singular, dando socialmente testemunho de seu padrão de vida. O lar é, portanto, para ela o quinhão que lhe cabe na Terra, a expressão de seuvalor social, de sua mais íntima verdade. Como ela não faz nada, ela se procura avidamente no que tem.É pelo trabalho doméstico que a mulher realiza a apropriação de seu “ninho”; eis por que, mesmo quando “se faz ajudar”, quer pôr a mão na massa;vigiando, controlando, criticando, ela se esforça por tornar seus os resultados obtidos pelos servidores. Da administração de sua residência, tira suajustificação social; sua tarefa é também atentar para a alimentação, as roupas, e de uma maneira geral para a manutenção da sociedade familiar. Assime la também se realiza como uma atividade. Mas trata-se, como vamos ver, de uma atividade que não a arranca de sua imanência, que não permite a elauma afirmação singular de si própria.Elogiou-se muito a poesia das tarefas domésticas. É verdade que colocam a mulher em contato com a matéria e que ela estabelece com os objetos umaintimidade que é revelação do ser e que, portanto, o enriquece. Em À la recherche de Marie, Madeleine Bourdhouxe descreve o prazer que sua heroínatem em passar no forno a pasta de limpeza: ela sente na ponta dos dedos a liberdade e o poder, cuja imagem brilhante a chapa de ferro bem limpa lhedevolve. Quando sobe da adega, ela gosta do peso daqueles baldes cheios, que em cada andar se tornam mais pesados. Sempre apreciou as matérias simples que têm seu cheiro próprio, sua rugosidade, sua linha. E então sabe como manuseá-las. Marie tem mãos que sem hesitação mergulham nos fornos apagados ou nas águas com sabão, que desenferrujam e engraxam o ferro, passam a encáustica, recolhem num só e grande gesto circular os restos que cobrem a mesa. Há um entendimento perfeito, uma camarada gem entre suas palmas e os objetos que toca.


Numerosos escritores de livros femininos falaram com amor da roupa recém-passada, do brilho azulado da água com sabão, dos lençóis brancos, docobre bem polido. Quando a dona de casa limpa e lustra os móveis, “sonhos de impregnação sustentam a doce paciência da mão que com a cera dábeleza à madeira”, diz Bachelard. Terminada a tarefa, a dona de casa conhece a alegria da contemplação. Mas para que as qualidades preciosas serevelem, o polimento de uma mesa, o brilho de um candelabro, a brancura engomada da roupa, é preciso primeiro que tenha sido exercida uma açãonegativa; é preciso que todo princípio mau tenha sido expulso. Esse é, diz Bachelard, o devaneio essencial a que se entrega a dona de casa: é o sonhoda limpeza ativa, isto é, da limpeza conquistada contra a sujeira. Assim a descreve: Parece, pois, que a imaginação da luta pela limpeza tenha necessidade de uma provocação. Essa imaginação deve excitar-se em meio a uma cólera maligna. Com que maldoso sorriso se espalha a pasta de polir sobre a torneira. Enchem-na com as imundícies de um polidor empastado sobre um trapo sujo e gorduroso. Amargura e hostilidade amontoam-se no coração do trabalhador. Por que tão vulgares tarefas? Mas que chegue o momento do pano seco, e surge a maldade alegre, a maldade vigorosa e falante: torneira, serás espelho; tacho, serás sol. Finalmente, quando o cobre brilha e ri com a grosseria de um rapagão, faz-se a paz. A dona de casa contempla suas vitórias rutilantes.362 Ponge evocou a luta, dentro do lixiviador, da imundície contra a pureza:363 Quem não viveu um inverno pelo menos na familiaridade de um lixiviador tudo ignora de uma certa ordem de qualidades e emoções assaz comoventes. É preciso — vacilante — tê-lo erguido num só esforço, com sua carga de tecidos imundos, para levá-lo ao forno onde cumpre arrastá-lo de certo modo, para em seguida assentá-lo bem no centro do fogo. É preciso ter atiçado as brasas até progressivamente comovê-lo; muitas vezes, tê-lo apalpado, morno ou fervendo; ter ouvido depois seu profundo murmurejo interior e, muitas vezes, então, erguido a tampa para verificar a tensão dos jatos e a regularidade da rega. É preciso, enfim, tê-lo abraçado de novo ainda escaldante para recolocá-lo no chão... O balde é de tal maneira concebido que, cheio de um amontoado de ignóbeis tecidos, a emoção interior, a fervorosa indignação que sente, canalizada para a parte superior de seu ser, recai em chuva sobre a imundície que lhe dá ânsias de vômito — e isso quase perpetuamente —, o que leva a uma purificação... Sem dúvida, essa roupa já fora grosseiramente esfregada antes de ser fervida... Não é menos certo que apesar disso ele experimenta uma sensação de sujeira difusa das coisas no interior de si mesmo, de que consegue afinal livrar-se à força de emoção, de fervuras e de esforços, de que consegue libertar os tecidos, de modo que mergulhados numa catástrofe de água fresca vão parecer de uma brancura extrema. E eis que com efeito o milagre ocorreu: Mil bandeiras brancas desfraldam-se subitamente — atestando não uma capitulação, mas uma vitória — e talvez não sejam apenas o sinal de limpeza corporal dos habitantes do lugar... Essas dialéticas podem dar ao trabalho doméstico a atração de um jogo: a menina de bom grado diverte-se com fazer brilhar a prataria, com dar lustroàs maçanetas das portas. Mas para que a mulher encontre nisso satisfações positivas, é preciso que dedique seus cuidados a um interior de que seenvaideça; sem o quê, não conhecerá nunca o prazer da contemplação, único capaz de recompensá-la do esforço. Um repórter norte-americano 364 queviveu durante vários meses entre os “pobres brancos” do sul dos Estados Unidos, descreveu o patético destino de uma dessas mulheressobrecarregadas de trabalho e que se obstinam em vão a tornar habitável um pardieiro. Vivia ela com o marido e sete filhos num barracão de madeira,de paredes cobertas de fuligem e percevejos: tentara “tornar a casa bonita”; no cômodo principal, a lareira recoberta de um pano azulado, uma mesa ealguns quadros pendurados à parede evocavam uma espécie de altar. Mas o pardieiro continuava pardieiro e Mrs. G. dizia com lágrimas nos olhos:“Detesto tanto esta casa! Parece que nada no mundo é capaz de torná-la bonita.” Legiões de mulheres não têm por quinhão senão uma fadigaindefinidamente recomeçada no decorrer de um combate que jamais comporta uma vitória. Mesmo em casos mais privilegiados, essa vitória nunca édefinitiva. Há poucas tarefas que se aparentem, mais do que as da dona de casa, ao suplício de Sísifo; dia após dia, é preciso lavar os pratos, espanar osmóveis, consertar a roupa, que no dia seguinte já estarão novamente sujos, empoeirados, rasgada. A dona de casa desgasta-se sem sair do lugar; nãofaz nada, apenas perpetua o presente; não tem a impressão de conquistar um Bem positivo e sim de lutar indefinidamente contra o Mal. É uma luta quese renova todos os dias. Conhece-se a história do criado que se recusava melancolicamente a engraxar as botas do patrão: “Para quê?”, dizia, “Serápreciso recomeçar amanhã”. Muitas moças ainda mal resignadas partilham esse desânimo. Lembro-me da dissertação de uma aluna de 16 anos, quecomeçava mais ou menos por estas palavras: “É hoje dia de limpeza geral. Ouço o ruído do aspirador que mamãe passeia através do salão. Quiserafugir. Juro a mim mesma que quando for grande não haverá nunca, em casa, dia de limpeza geral.” A criança encara o futuro como uma ascensãoindefinida para não se sabe que pico. Repentinamente, na cozinha onde a mãe lava os pratos, a filha compreende que há anos, todas as tardes, à mesmahora, aquelas mãos mergulharam na água gordurosa, enxugaram a porcelana com o pano de prato áspero. E até a morte serão elas submetidas a essesritos. Comer, dormir, limpar..., os anos não escalam mais o céu, espalham-se idênticos e cinzentos sobre uma toalha horizontal; cada novo dia imita oprecedente; é um eterno presente inútil e sem esperança. Na novela intitulada La Poussière,365 Colette Audry descreveu sutilmente a triste futilidade deuma atividade que se obstina contra o tempo: Foi no dia seguinte que, ao passar a vassoura embaixo do sofá, arrastou com ela alguma coisa que a princípio pensou ser um pedaço de algodão ou uma volumosa penugem. Mas era apenas um floco de poeira, como os que se formam nos armários altos que esquecem de limpar, ou atrás dos móveis, entre a madeira e a parede. Ficou pensativa diante daquela curiosa substância. Assim, havia oito ou dez semanas que viviam naqueles cômodos e, apesar da vigilância de Juliette, um floco de poeira tivera lazer para se formar, engordar, agachado na sombra como aqueles bichos cinzentos que lhe infundiam medo quando pequena. Uma cinza fina de poeira proclama a negligência, um começo de abandono, é o impalpável depósito do ar que se respira, das roupas que flutuam, do vento que entra pelas janelas abertas; mas aquele floco já representava um segundo estado da poeira, a poeira triunfante, um espessamento que toma forma, e de depósito passa a resíduo. Era quase bonito, transparente e leve como a crista das sarças, porém mais descorado. ...A poeira andara mais depressa do que todo o poder aspirante do mundo. Tomara conta do mundo e o aspirador já não passava de um objeto-testemunho, destinado a mostrar tudo o que a espécie humana era capaz de desperdiçar como trabalho, matéria e engenho para lutar contra a irresistível sujeira. Era o resíduo feito instrumento. ...Era a vida em comum a causa de tudo, suas pequenas refeições que deixavam restos, suas duas poeiras que se misturavam por toda parte... Cada casa secreta suas pequenas sujeiras que é preciso destruir para dar lugar a outras... Que vida se leva — e para poder sair com um peitilho limpo que atrai o olhar dos transeuntes, para que um engenheiro, que é o marido, se apresente bem na vida. Fórmulas passavam pela cabeça de Marguerite: cuidar da conservação do assoalho... para a conservação dos objetos de cobre, empregar... estava encarregada da conservação de dois seres quaisquer até o fim de seus dias. Lavar, passar, varrer, descobrir os flocos de poeira escondidos sob a noite dos armários é recusar a vida, embora detendo a morte: pois num sómovimento o tempo cria e destrói; a dona de casa só lhe apreende o aspecto negativo. Sua atitude é maniqueísta. A característica do maniqueísmo nãoé somente reconhecer dois princípios, um bom e outro mau: é afirmar que o bem se alcança pela abolição do mal e não através de um movimentopositivo; nesse sentido, o cristianismo é muito pouco maniqueísta apesar da existência do diabo, porque é dedicando-se a Deus que melhor se combateo demônio e não se ocupando deste para vencê-lo. Toda doutrina da transcendência e da liberdade subordina a derrota do mal ao progresso para o bem.Mas a mulher não é chamada a edificar um mundo melhor; a casa, o quarto, a roupa suja, o assoalho são coisas imutáveis: a única coisa que ela podefazer é expulsar indefinidamente os princípios maus que nelas se introduzem; ela ataca a poeira, as manchas, a lama, a imundície; combate o pecado,luta contra Satã. Mas é um triste destino ter de rechaçar continuamente um inimigo, ao invés de se voltar para metas positivas; com frequência, a donade casa suporta-o com ódio. Bachelard pronuncia a esse respeito a palavra “maldade”; nós a encontramos igualmente nos psicanalistas. Para eles, amania doméstica é uma forma de sadomasoquismo; é próprio das manias e dos vícios levar a liberdade a fazer o que não quer; porque detesta ter comoquinhão a negatividade, a sujeira, o mal, a dona de casa maníaca obstina-se com fúria contra a poeira, reivindicando uma sorte que a revolta. Atravésdos detritos que deixa atrás de si toda expansão viva, ela ataca a própria vida. Desde que um ser vivo entre em seu domínio, acende-se em seu olhar umbrilho mau. “Limpe os pés; não desarrume tudo, não mexa nisso.” Ela gostaria que os que a cercam não respirassem: o menor sopro é ameaça.Qualquer acontecimento implica a ameaça de um trabalho ingrato: um tombo do filho é um rasgão por consertar. Ao ver na vida só promessa dedecomposição, exigência de um esforço indefinido, ela perde toda a alegria de viver; fica com os olhos duros, um rosto preocupado, sério, sempre deatalaia; defende-se pela prudência e pela avareza. Fecha as janelas porque, com o sol, entrariam também insetos, germes e poeiras; ademais, o soldesfaz as sedas das cortinas; as poltronas antigas escondem-se sob capas, embalsamadas de naftalina: a luz as desbotaria. Ela não tem sequer prazerem exibir esses tesouros às visitas: a admiração mancha. Essa desconfiança vira azedume e suscita hostilidade em relação a tudo que vive. Falou-semuito dessas burguesas provincianas que enfiam luvas brancas para verificar se não sobrou nos móveis uma poeira invisível; foram mulheres dessaespécie que as irmãs Papin executaram há alguns anos; seu ódio da sujeira não se distinguia de seu ódio contra os criados, contra o mundo e contra sipróprias.


Há poucas mulheres que escolhem desde a mocidade tão morno vício. As que amam generosamente a vida acham-se defendidas contra isso. Colette nosdiz de Sido: Porque ela era ágil e agitada, e não uma dedicada dona de casa; limpa, imaculada, enojada, mas longe do gênio maníaco e solitário que conta os guardanapos, os pedaços de açúcar e as garrafas cheias. De flanela na mão e vigiando a criada que esfregava longamente as vidraças, rindo com o vizinho, escapavam-lhe gritos nervosos, impacientes apelos à liberdade: “Quando enxugo com cuidado e durante muito tempo minhas xícaras chinesas, sinto-me envelhecer.” Chegava lealmente ao fim de sua tarefa. Transpunha então os dois degraus de nossa porta, entrava no jardim. De imediato, desapareciam sua excitação melancólica e seu rancor. É nesse nervosismo, nesse rancor que se comprazem as mulheres frígidas, ou frustradas, as solteironas, as esposas desiludidas, as que um maridoautoritário condena a uma existência solitária e vazia. Conheci, entre outras, uma velha senhora que se levantava todas as manhãs às cinco horas parainspecionar os armários e recomeçar a pô-los em ordem; parece que aos vinte anos era alegre e coquete; encerrada numa propriedade isolada, com ummarido que a negligenciava e um só filho, pôs-se a “botar em ordem” como outros põem-se a beber. Em Elise, de Jouhandeau,366 o pendor pelostrabalhos domésticos provém do desejo exasperado de reinar sobre um universo, de uma exuberância viva e de uma vontade de domínio que, semobjeto, fica no vazio; é também um desafio lançado ao tempo, ao Universo, à vida, aos homens, a tudo o que existe. Desde as nove horas, depois do jantar, ela lava. É meia-noite. Eu cochilara, mas sua coragem, como se insultasse meu repouso dando-lhe um ar de preguiça, me ofende. ELISE: Para fazer limpeza, não ter primeiramente medo de sujar as mãos. E a casa dentro em breve estará tão limpa que ninguém ousará mais habitá-la. Há leitos de repouso, mas para que se repouse ao lado, no assoalho. As almofadas são limpas demais. A gente tem receio de as sujar ou amarrotar apoiando a cabeça ou os pés, e cada vez que piso num tapete uma mão me acompanha, armada de uma máquina qualquer ou de um pano que apaga as minhas pegadas. À noite: — Pronto. Acabou. De que se trata para ela, desde que se levanta até se deitar? De deslocar cada objeto e cada móvel e de tocar em todas as suas dimensões o assoalho, as paredes, os tetos da casa. Por enquanto é a dona de casa que nela triunfa. Quando acaba de espanar os armários por dentro, espana os gerânios das janelas. SUA MÃE: Elise está sempre tão ocupada que não percebe que existe. O trabalho doméstico permite enfim à mulher uma fuga indefinida para longe de si mesma. Chardonne diz com justeza: É uma tarefa meticulosa e desordenada, sem freio nem limite. Na casa, uma mulher certa de agradar atinge rapidamente um ponto de desgaste, um estado de distração e de vazio mental que a suprime... Essa fuga, esse sadomasoquismo em que a mulher se obstina ao mesmo tempo contra os objetos e contra si, tem muitas vezes um caráter precisamentesexual. “A casa que exige a ginástica do corpo é o bordel acessível à mulher”, diz Violette Leduc.367 É impressionante verificar que o gosto da limpezaassume uma importância suprema na Holanda, onde as mulheres são frias e nas civilizações puritanas que opõem às alegrias da carne um ideal deordem e de pureza. Se o Sul Mediterrâneo vive numa sujeira alegre, não é somente por haver aí falta de água, o amor da carne e de sua animalidadeleva a tolerar o odor humano, a sujidade e até os piolhos.O preparo das refeições é um trabalho mais positivo e muitas vezes mais alegre que o da limpeza. Implica primeiramente o momento das compras nomercado que é para muitas donas de casa o momento privilegiado do dia. A solidão do lar pesa na mulher na medida em que as tarefas rotineiras nãolhe absorvem o espírito. Ela é feliz quando, nas cidades do Sul, pode coser, lavar, limpar os legumes, sentada na soleira da porta, conversando; ir buscarágua no riacho é, para as muçulmanas semienclausuradas, uma grande aventura: vi uma pequena aldeia da Cabília onde as mulheres destruíram afonte que um administrador construíra na praça; descer todas as manhãs até o córrego que corria ao pé da colina era sua única distração. Ao mesmotempo que tratam de suas compras, as mulheres trocam, nas filas, nos armazéns, nas esquinas, considerações em que afirmam “valores domésticos”,das quais cada uma tira o sentido de sua importância; sentem-se membros de uma comunidade que — no momento — se opõe à sociedade dos homenscomo o essencial ao inessencial. Mas, principalmente, a compra constitui um profundo prazer: é uma descoberta, quase uma invenção. G ide observaem seu Journal que os muçulmanos que não conhecem o jogo a ele substituíram a descoberta dos tesouros escondidos; é a poesia e a ventura dascivilizações mercantis. A dona de casa ignora a gratuidade do jogo: mas um repolho bem-formado, um camembert bem no ponto são tesouros que ocomerciante dissimula maliciosamente e que é preciso arrancar dele; entre vendedor e compradora estabelecem-se relações de luta e de esperteza:esta se propõe a obter a melhor mercadoria pelo preço mais baixo; a extrema importância dada à mais insignificante economia não se poderia explicarunicamente pela preocupação de equilibrar um orçamento difícil: é preciso ganhar uma partida. Enquanto inspeciona com suspeita os mostruários, adona de casa é rainha; tem o mundo a seus pés, com suas riquezas e suas armadilhas, para que dele tire sua parte. Experimenta uma sensação defurtivo triunfo quando esvazia sobre a mesa a sacola de provisões. No armário, arruma as conservas, os gêneros não perecíveis que a garantem contrao futuro; e contempla com satisfação a nudez dos legumes e das carnes que vai submeter a seu poder.O gás e a eletricidade acabaram com a magia do fogo; mas nas zonas rurais muitas mulheres conhecem ainda a alegria de tirar chamas vivas da lenhainerte. Aceso o fogo, eis a mulher transformada em feiticeira. Com um simples movimento da mão — quando bate os ovos ou manuseia a massa — oupela magia do fogo, ela opera a transmutação das substâncias; a matéria torna-se alimento. Colette, ainda, descreve o encanto dessas alquimias. Tudo é mistério, magia, sortilégio, tudo o que acontece entre o momento de pôr no fogo a panela, o caldeirão e seu conteúdo e o momento cheio de doce ansiedade, de voluptuosa esperança em que se destampa à mesa o prato fumegante... Ela pinta com complacência as metamorfoses que se operam no segredo das cinzas quentes. A cinza da lenha coze saborosamente o que a ela é confiado. A maçã, a pera, alojadas em um ninho de cinzas quentes, dele saem enrugadas, moqueadas, mas moles sob a casca como um ventre de toupeira, e por mais “boazinha” que se mostre a maçã no forno da cozinha, fica longe dessa geleia encerrada em seu invólucro original, congestionada de sabor, que só exsudou — sabendo-se como tratá-la — uma única lágrima de mel... Um tacho de três pés e alto de pernas continha uma cinza peneirada que nunca via o fogo. Mas, recheado de batatas, que embora vizinhas não se tocavam, colocado sobre suas patas negras bem em cima da brasa, o tacho produzia tubérculos brancos como neve, escaldantes, escamosos. As mulheres escritoras celebraram particularmente a poesia das geleias: é um vasto empreendimento casar nos tachos de cobre o açúcar sólido e puroà mole polpa dos frutos; escumante, viscosa, ardente, a substância que se elabora é perigosa: é uma lava em ebulição que a dona de casa doma eescorre orgulhosamente nos potes. Quando os reveste de papel-pergaminho e neles inscreve a data de sua vitória, ela triunfa sobre o próprio tempo:pegou a duração na armadilha do açúcar, pôs a vida em bocais. A cozinha faz mais do que penetrar e revelar a intimidade das substâncias. Modela-asde novo, as recria. No manuseio da massa ela experimenta seu poder. “A mão, tanto quanto o olhar, tem seus devaneios e sua poesia”.368 E ele fala“dessa flexibilidade macia da plenitude, dessa agilidade macia que enche a mão, que se reflete sem cessar da matéria na mão e da mão na matéria”. Amão da cozinheira que amassa é uma “mão feliz” e o cozimento dá ainda à massa um valor novo. “O cozimento é assim um devir material, um devir quevai da palidez à douração, da pasta à crosta”: a mulher pode encontrar uma satisfação particular no êxito do bolo, da massa folhada, porque esse êxitonão é dado a todos: é preciso ter o dom. “Nada há mais complicado do que as artes da massa, escreve Michelet. Nada que se regule menos, que seaprenda menos. É preciso ter nascido para isso. Tudo é dom da mãe.”Nesse campo também, compreende-se que a menina se divirta apaixonadamente imitando os mais velhos: com barro e matinho, ela brinca de fabricarsucedâneos; é mais feliz ainda quando tem por brinquedo um forno de verdade ou quando sua mãe a aceita na cozinha e lhe permite manusear a massado bolo ou cortar o caramelo escaldante. Mas verifica-se nisso o que se verifica nos cuidados da casa: a repetição logo esgota o prazer. Entre os índiosque se alimentam essencialmente de tortas, as mulheres passam metade dos dias a amassar, cozer, esquentar, amassar novamente as tortas idênticasem todas as casas, idênticas através dos séculos: quase não são sensíveis à magia do forno. Não é possível transformar todos os dias a feira em umacaça ao tesouro nem se extasiar ante o brilho da torneira. São principalmente os homens e as mulheres que escrevem que exaltam liricamente esses


triunfos, porque não cuidam da casa ou o fazem raramente. Cotidiano, esse trabalho torna-se monótono e maquinal; é crivado de esperas: é precisoesperar que a água ferva, que o assado esteja no ponto, a roupa seca; mesmo organizando as diferentes tarefas, sobram momentos longos depassividade e de vazio; elas realizam-se na maior parte do momento no tédio; não passam de um intermediário inessencial entre a vida do presente e avida do amanhã. Se o indivíduo que as executa é ele próprio produtor, criador, integram-se em sua existência tão naturalmente como as funçõesorgânicas; eis por que as corveias cotidianas são muito menos tristes quando executadas por homens; só representam para eles um momento negativoe contingente de que se apressam a se evadir. Mas o que torna ingrata a sorte da mulher-serva é a divisão do trabalho que a destina totalmente aogeral e ao inessencial; o habitat, o alimento são úteis à vida mas não lhe dão um sentido: as metas imediatas da dona de casa não passam de meios, nãosão fins verdadeiros e neles só se refletem projetos anônimos. Compreende-se que, para ter a coragem de enfrentar o trabalho, ela tente empenhar nelesua singularidade e revestir os resultados de um valor absoluto; ela tem seus ritos, suas superstições, faz questão de sua maneira de arranjar ostalheres, de arrumar a sala, de cerzir, de cozinhar um prato; persuade-se de que em seu lugar ninguém poderia fazer tão bem um assado ou umalimpeza; se o marido ou a filha querem ajudá-la, ela arranca-lhes da mão a agulha, a vassoura. “Você não é capaz de pregar um botão.” DorothyParker369 descreveu com uma ironia apiedada o embaraço de uma jovem mulher convencida de que deve dar uma nota pessoal ao arranjo de seu lar,mas não sabe como o fazer. Mrs. Ernest Welton errava pelo estúdio bem arranjado, dando-lhe alguns desses pequenos toques femininos. Não era especialmente hábil na arte de dar esses toques. A ideia era bonita e excitante. Antes de casar-se imaginara que passearia docemente através de sua nova residência, deslocando uma rosa, endireitando uma flor e transformando assim sua casa num lar. Mesmo agora, depois de sete anos de casamento, gostava de se imaginar entregando-se a essa graciosa ocupação. Mas embora a tentasse conscienciosamente todas as noites, logo que se acendiam as lâmpadas dos abajures cor-de-rosa, ela indagava de si mesma com algum desamparo como fazer para realizar esses pequenos milagres que transfiguram integralmente um interior... Dar um toque feminino era o papel da esposa. E Mrs. Welton não era mulher de fugir às suas responsabilidades. Com um ar de incerteza quase lamentável, tateou em cima da lareira, ergueu um vasinho japonês e ficou em pé, com o vaso na mão, inspecionando o quarto com um olhar desesperado... Depois recuou e ponderou suas inovações. Era incrível quão poucas modificações operara no cômodo. Nessa busca da originalidade ou de uma perfeição particular, a mulher desperdiça muito tempo e esforços; é o que dá a seu trabalho o caráter de uma“tarefa meticulosa e desordenada, sem freio nem limite” que Chardonne assinala e que torna tão difícil apreciar o que representam realmente aspreocupações domésticas. De acordo com uma pesquisa recente (publicada pelo jornal Combat em 1947 com a assinatura de C. Hébert), as mulherescasadas consagram cerca de três horas e quarenta e cinco minutos ao trabalho doméstico (casa, abastecimento etc.), nos dias úteis, e oito horas nosdias de descanso, ou seja, trinta horas por semana, o que corresponde a 3/4 de tempo de trabalho hebdomadário de uma operária ou uma empregada; éenorme se a tarefa se acrescenta a um ofício; é pouco se a mulher não tem outra coisa a fazer (tanto mais quanto operária e empregada perdem tempoem deslocamentos que não encontram equivalência aqui). O cuidado dos filhos, se numerosos, aumenta consideravelmente as fadigas da mulher: umamãe de família pobre gasta suas forças ao longo de dias desordenados. Ao contrário, as burguesas que se fazem ajudar são quase ociosas; e o preçodesses lazeres é o tédio. Como se aborrecem, muitas complicam e multiplicam indefinidamente seus deveres de maneira que os tornam mais exaustivosdo que um trabalho qualificado. Uma amiga, que passara por crises de depressão nervosa, dizia-me que, quando estava bem de saúde, cuidava da casaquase sem pensar nisso e sobrava tempo para ocupações muito mais obrigatórias; quando uma neurastenia a impedia de se dedicar a esses outrostrabalhos, ela deixava-se envolver pelas preocupações domésticas e tinha dificuldade então em dar conta delas, embora consagrando-lhes dias inteiros.O mais triste é que esse trabalho não conduz sequer a uma criação duradoura. A mulher é tentada — tanto mais quanto mais cuidado nela pôs — aconsiderar sua obra como um fim em si. Contemplando o bolo que tira do forno, ela suspira: é realmente uma pena comê-lo! É realmente uma pena queo marido e os filhos arrastem os pés enlameados pelo assoalho encerado. Logo que as coisas servem, sujam-se ou se destroem: ela é tentada, já o vimos,a subtraí-las a qualquer uso; uma guarda suas geleias até que o mofo as invada; outra fecha o salão à chave. Mas não se pode parar o tempo; asprovisões atraem os ratos, os vermes acorrem. As cobertas, as cortinas, as roupas são comidas pelas traças: o mundo não é um sonho de pedra, massim feito de uma substância equívoca que a decomposição ameaça. O tecido comestível é tão equívoco quanto os monstros de carne de Dalí: pareciainerte, inorgânico, mas as larvas escondidas metamorfosearam-no em cadáver. A dona de casa que se aliena em coisas depende, como as coisas, domundo inteiro: queima-se a roupa e o assado, a porcelana quebra; são desastres absolutos, porque as coisas, quando se perdem, se perdemirreparavelmente. É impossível obter permanência e segurança através delas. As guerras ameaçam com bombas e saques os armários, a casa.É preciso, portanto, que o produto do trabalho doméstico se consuma; uma renúncia constante é exigida da mulher, cujas operações só terminam com adestruição. Para que ela consinta nisso sem lamentá-lo, é preciso, pelo menos, que esses pequenos holocaustos acendam, em algum lugar, uma alegria,um prazer. Mas como o trabalho doméstico se esgota na manutenção de um status quo, o marido ao voltar para casa observa a desordem e anegligência, mas parece-lhe que a ordem e a limpeza são naturais. Ele dedica um interesse mais positivo à refeição bem preparada. O momento em quetriunfa a cozinheira, é o momento em que põe sobre a mesa um prato bem-feito: marido e filhos acolhem-no com entusiasmo, não somente compalavras, mas ainda consumindo-o alegremente. A alquimia culiná ria prossegue, o alimento torna-se quilo e sangue. A manutenção de um corpo temum interesse mais concreto, mais vital que o de um assoalho; o esforço da cozinheira é de uma maneira evidente ultrapassado para o futuro.Entretanto, se repousar numa liberdade estranha é menos vão do que se alienar nas coisas, não é menos perigoso. É somente na boca dos convivas queo trabalho da cozinheira encontra sua verdade; ela precisa de sua aprovação; ela exige que eles apreciem seus pratos, que os repitam; ela irrita-se seeles não têm mais fome: a tal ponto que não se sabe mais se as batatas fritas se destinam ao marido ou o marido às batatas fritas. Esse equívoco seencontra no conjunto das atitudes da mulher doméstica: ela cuida da casa para o marido, por isso mesmo exige que ele destine todo o dinheiro queganha à compra de móveis ou de uma geladeira. Ela quer torná-lo feliz, mas só aprova as atividades dele que cabem no quadro da felicidade que elaconstruiu.Houve épocas em que tais pretensões eram geralmente satisfeitas: nos tempos em que a felicidade era também o ideal do homem, em que ele estavaantes de tudo apegado a sua casa, a sua família, e em que os próprios filhos queriam definir-se pelos pais, as tradições, o passado. Então, aquela quereinava no lar, que presidia à mesa, era reconhecida como soberana; ela desempenha ainda esse glorioso papel entre certos proprietários fundiários,certos camponeses ricos que perpetuam esporadicamente a civilização patriarcal. Mas, no conjunto, o casamento é hoje a sobrevivência de costumes jámortos e a situação da esposa é muito mais ingrata do que outrora, porque ela tem ainda os mesmos deveres, mas não os mesmos direitos; tem asmesmas tarefas sem tirar delas recompensa nem honra. O homem, hoje, casa para ancorar na imanência, mas não para nela se encerrar; quer um lar,mas conservando a liberdade de se evadir dele; fixa-se, mas o mais das vezes continua vagabundo no fundo do coração; não despreza a felicidade, masnão faz dela um fim em si; a repetição aborrece-o; procura a novidade, o risco, resistências que lhe caiba vencer, camaradagens, amizades que oarranquem da solidão a dois. Os filhos, mais ainda do que o marido, almejam ultrapassar os limites do lar: sua vida situa-se fora dali, à sua frente; acriança deseja sempre o que é outro. A mulher tenta constituir um universo de permanência e continuidade: marido e filhos querem ultrapassar asituação que ela cria e que não passa para eles de um dado. Eis por que lhe repugna admitir a precariedade das atividades a que devota toda sua vida,ela é levada a impor seus serviços pela força: de mãe e dona de casa ela faz-se madrasta e megera.Assim, o trabalho que a mulher executa no interior do lar não lhe confere autonomia; não é diretamente útil à coletividade, não desemboca no futuro,não produz nada. Só adquire seu sentido e sua dignidade se é integrado a existências que se ultrapassam para a sociedade, na produção ou na ação:isto significa que, longe de libertar a matrona, esse trabalho a coloca na dependência do marido e dos filhos; é através deles que ela se justifica: emsuas vidas ela é apenas uma mediação inessencial. O fato de o código ter suprimido a “obediência” entre seus deveres não modifica em nada a situação;esta não repousa na vontade dos cônjuges e sim na própria estrutura da comunidade conjugal. Não é permitido à mulher fazer uma obra positiva e, porconseguinte fazer-se reconhecer como pessoa acabada. Por respeitada que seja, é subordinada, secundária, parasita. A grave maldição que pesa sobreela está em que o sentido mesmo de sua existência não se encontra em suas mãos. Eis por que os êxitos e os malogros de sua vida conjugal têm muitomais gravidade para ela do que para o homem: este é um cidadão, um produtor, antes de ser um marido; ela é antes de tudo — e muitas vezesexclusivamente — uma esposa, seu trabalho não a arranca de sua posição; é desta, ao contrário, que ele tira ou não seu valor. Amorosa, generosamentedevotada, ela executará suas tarefas com alegria; elas lhe parecerão insípidas corveias se as executa com rancor. Não terão nunca em seu destinosenão um papel inessencial; não serão nenhum socorro nos avatares da vida conjugal. Cumpre-nos ver, portanto, como se vive concretamente essacondição essencialmente definida pelo “serviço” da cama e o “serviço” da casa e na qual a mulher só encontra sua dignidade aceitando sua vassalidade. Uma crise fez a moça passar da infância à adolescência; é uma crise mais aguda que a precipita na vida de adulta. Às perturbações que provocafacilmente na mulher uma iniciação sexual um tanto brusca, superpõem-se as angústias inerentes a toda “passagem” de uma condição para outra. Ser lançada como um raio na realidade e no conhecimento, pelo casamento surpreender o amor e a vergonha em contradição, dever sentir em um só objeto o êxtase, o sacrifício, o dever, a piedade e o pavor, por causa da vizinhança inesperada de Deus e da besta... criou-se com isso um emaranhamento da alma que buscaria em vão outro semelhante, escreve Nietzsche. A agitação da tradicional “viagem de núpcias” era destinada em parte a mascarar essa desordem: jogada durante semanas fora do mundo cotidiano,todas as amarras com a sociedade provisoriamente rompidas, a jovem não se situava mais no espaço, no tempo, na realidade.370 Mas era preciso maiscedo ou mais tarde restabelecer-se; e não é nunca sem inquietação que ela se encontra em seu novo lar. Suas ligações com o lar paterno são muito maisestreitas do que as do rapaz. Arrancar-se da família é um desmame definitivo: é então que ela conhece toda a angústia do abandono e a vertigem da


liberdade. A ruptura é, segundo os casos, mais ou menos dolorosa; se já rompeu os laços que a ligavam ao pai, aos irmãos e às irmãs, e principalmenteà mãe, deixa-os sem drama; se dominada ainda por eles, pode praticamente continuar sob a proteção deles e a mudança de situação será menossensível. Mas, habitualmente, mesmo desejando evadir-se da casa paterna, sente-se desnorteada quando se separa da pequena sociedade a que estavaintegrada, cortada de seu passado, de seu universo infantil de princípios seguros, de valores garantidos. Só uma vida erótica ardente e ple na poderiafazê-la novamente banhar-se na paz da imanência; mas de costume ela é primeiramente mais transtornada do que satisfeita; por mais certo que dê, ainiciação sexual não faz senão aumentar sua inquietação. Encontram-se nela, no dia seguinte ao das núpcias, muitas das reações que opôs à suaprimeira menstruação: sente muitas vezes nojo ante essa suprema revelação de sua feminilidade, e horror à ideia de que a experiência se repetirá. Elaconhece também a amarga decepção do amanhã; uma vez regrada, a menina percebia com tristeza que não era uma adulta; deflorada, eis a jovemmulher adulta, foi vencida a última etapa: e agora? Essa decepção inquieta acha-se, aliás, tão ligada ao casamento propriamente dito quanto aodefloramento: uma mulher que já tenha “conhecido” o noivo, ou que tenha “conhecido” outros homens, mas para quem o casamento represente o plenoacesso à vida de adulta, terá muitas vezes a mesma reação. Viver o início de um empreendimento é exaltante; mas nada é mais deprimente do quedescobrir um destino sobre o qual não se tem mais nenhum domínio. É desse fundo definitivo, imutável, que a liberdade emerge com a mais intolerávelgratuidade. Antes, a jovem abrigada pela autoridade dos pais usava de sua liberdade na revolta e na esperança; empregava-a em recusar e emultrapassar uma condição em que encontrava ao mesmo tempo segurança; era para o casamento que se transcendia do seio do calor familiar; agora elaé casada, não há mais diante dela outro futuro. As portas do lar fecharam-se atrás dela: será esse seu quinhão na Terra. Ela sabe exatamente quetarefas a aguardam: as mesmas que sua mãe executava. Dia após dia, os mesmos ritos se repetirão. Jovem, tinha as mãos vazias: na esperança, nosonho, tudo possuía. Agora, ela adquiriu uma parcela do mundo e pensa com angústia: é apenas isto, para sempre. Para sempre este marido, esta casa.Nada mais tem a esperar, nada mais de importante a querer. Entretanto, tem medo de suas novas responsabilidades. Mesmo que o marido seja maisvelho e tenha autoridade, o fato de ter relações sexuais com ele tira dela o prestígio; não poderia substituir um pai, menos ainda uma mãe, nem livrá-lade sua liberdade. Na solidão do novo lar, ligada a um homem que lhe é mais ou menos estranho, já não mais criança e sim esposa e destinada a ser mãepor sua vez, ela se sente paralisada; definitivamente destacada do seio materno, perdida no meio de um mundo em que nenhuma meta a chama,abandonada em um presente glacial, ela descobre o tédio e a sensaboria da pura facticidade. É esse desalento que se exprime de uma maneiraimpressionante no diário da jovem condessa Tolstoi; tinha dado a mão com entusiasmo ao grande escritor que admirava; depois dos abraços fogososque sofreu no balcão de madeira de Iasnaiava Poliana, ela se reencontra enojada do amor carnal, longe dos seus, cortada de seu passado, ao lado de umhomem de quem fora noiva durante oito dias, que tem 17 anos mais do que ela, um passado e interesses que lhe são totalmente estranhos; tudo lheparece vazio, gélido; sua vida não passa de um sono. É preciso citar a narrativa que ela faz no início do casamento e as páginas de seu diário durante osprimeiros anos.A 23 de setembro de 1862, Sofia casa-se e à noite deixa a família. Um sentimento penoso, doloroso contraía-me a garganta e me estrangulava. Senti então que chegara o momento de deixar para sempre minha família e todos os que eu amava profundamente e com quem sempre vivera... Os adeuses começaram e foram terríveis... Eis os últimos minutos. Intencionalmente reservara para o fim a despedida de minha mãe... Quando me desprendi de seu abraço e, sem me voltar, fui instalar-me no carro, ela deu um grito lancinante que nunca mais na vida pude esquecer. A chuva de outono não parava de cair... Encolhida em meu canto, acabrunhada de cansaço e de dor, entreguei-me as lágrimas. Leon Nicolaievitch parecia muito espantado, descontente mesmo... Quando saímos da cidade, experimentei nas trevas um sentimento de pavor... A escuridão oprimia-me. Não nos dissemos quase nada até a primeira estação, Biriulev, se não me engano. Lembro-me de que Leon Nicolaievitch se mostrava muito terno e muito atencioso comigo. Em Biriulev, deram-nos quartos ditos de tsar, grandes quartos com móveis forrados de crepe vermelho que nada tinham de acolhedor. Trouxeram-nos o samovar. Encolhida num canto do sofá, mantinha-me silenciosa como uma condenada. “Então!”, disse-me Leon Nicolaievitch, “se fizesses as honras da casa?” Obedeci e servi o chá. Sentia-me confusa e não podia livrar-me de certo temor. Não ousava dizer tu a Leon Nicolaievitch e evitava chamá-lo pelo nome. Durante muito tempo ainda continuei a dizer-lhe vós. Vinte e quatro horas depois, chegam a Iasnaiava Poliana. A oito de outubro, Sofia retorna a seu diário. Sente-se angustiada. Sofre com o fato de omarido ter um passado. Desde que me lembro, sempre sonhei com um ser completo, novo, puro, que amaria... me é difícil renunciar a esses sonhos de criança. Quando ele me beija, penso que não sou a primeira que beija assim. No dia seguinte ela anota: Não me sinto à vontade. Tive sonhos maus esta noite e, embora não pense nisso constantemente, tenho a alma pesada. Foi mamãe que me apareceu em sonho e isso me causou grande mágoa. É como se dormisse sem poder despertar... Algo me pesa. Parece-me constantemente que vou morrer. É estranho, agora que tenho um marido. Ouço-o dormir e tenho medo sozinha. Ele não me deixa penetrar em seu íntimo e isso me aflige. Todas essas relações carnais são repugnantes. 11 de outubro: Terrível! Horrivelmente triste! Encolho-me cada vez mais em mim mesma. Meu marido está doente, de mau humor e não me ama. Contava com isso, mas não pensava que fosse tão horroroso. Quem se preocupa com minha felicidade? Ninguém duvida de que essa felicidade eu não a sei criar, nem para ele nem para mim. Nas minhas horas de tristeza acontece-me perguntar: para que viver quando as coisas vão tão mal para mim como para os outros! É estranho, mas esta ideia me persegue. Ele vai se tornando dia a dia mais frio, ao passo que eu, ao contrário, amo-o cada vez mais... Evoco a lembrança dos meus. Como a vida era fácil então! Ao passo que agora, meu Deus, tenho a alma ferida! Ninguém me ama... Querida mamãe, querida Tânia, como eram gentis! Por que as deixei? É triste, é horrível! Entretanto Liovotchka é excelente... Outrora eu punha ardor em viver, trabalhar, dedicar-me aos cuidados da casa. Agora, acabou: poderia permanecer silenciosa dias inteiros, de braços cruzados a remoer meus anos passados. Gostaria de trabalhar, mas não posso... Tocar piano teria me agradado, mas aqui é muito incômodo... Liovotchka propusera-me ficar em casa hoje enquanto ele ia a Nikolskoie. Eu deveria ter consentido para libertá-lo de mim, mas não tive forças para tanto... Pobre! Procura distrações por toda parte e pretextos para me evitar. Por que estou no mundo? 13 de novembro de 1863: Confesso que não sei com que me ocupar. Liovotchka é feliz porque tem inteligência e talento, enquanto eu não tenho nem uma coisa nem outra. Não é difícil encontrar alguma coisa para fazer, trabalho não falta. Mas é preciso interessar-me por essas pequenas tarefas, acostumar-me a apreciá-las: cuidar do galinheiro, arranhar o piano, ler muitas tolices e poucas coisas interessantes, salgar os pepinos... Tornei-me tão profundamente abúlica, que nem nossa viagem a Moscou nem a perspectiva de um filho me causam a menor emoção, a mais insignificante alegria, nada. Quem me indicará o meio de despertar, de me reanimar? Esta solidão acabrunha-me. Não estou habituada a isto. Em casa havia tanta animação e aqui na sua ausência tudo é insípido. A solidão lhe é familiar. Ele não aufere como eu prazer de seus amigos íntimos, mas sim de suas atividades... Cresceu sem família. 23 de novembro: Sou sem dúvida inativa, mas não por natureza. Não sei simplesmente que trabalho empreender. Por vezes sinto uma vontade louca de escapar de sua influência... por que sua influência me pesa? Contenho-me, mas não me tornarei ele. Com isso só perderia minha personalidade. Já não sou mais a mesma, o que me torna a vida mais difícil ainda. 10 de abril: Tenho o grande defeito de não encontrar recursos em mim mesma... Liova está muito absorvido por seu trabalho e pela administração da propriedade, ao passo que eu não tenho nenhuma preocupação. Não tenho jeito para nada. Gostaria de ter mais trabalho, um trabalho de verdade, porém. Outrora, nesses belos dias de primavera, sentia a necessidade, a vontade de alguma coisa. Deus sabe de meus sonhos! Hoje não tenho necessidade de nada, não sinto mais essa vaga e estúpida aspiração a não sei quê, pois tendo tudo encontrado, nada tenho que procurar. Todavia, aborreço-me. 20 de abril: Liova afasta-se cada vez mais de mim. O lado físico do amor desempenha um papel muito importante para ele, ao passo que para mim não desempenha nenhum. Vê-se que essa jovem mulher sofre, no decorrer desses primeiros seis meses, de estar separada dos seus, de sua solidão, do aspecto definitivo queassumiu seu destino; detesta as relações físicas com o marido e se aborrece. É também esse tédio que sente, até as lágrimas, a mãe de Colette371 após oprimeiro casamento imposto pelos irmãos: Ela deixou, pois, a tépida casa belga, a cozinha de porão que cheirava a gás, o pão quente e o café, deixou o piano, o violino, o grande Salvador Rosa, herança do pai, o pote de fumo, os finos e compridos cachimbos de barro... os livros abertos e os jornais amarrotados para entrar, recém-casada, na casa de escadaria que cercava o duro inverno das regiões de florestas. Aí encontrou um inesperado salão branco e dourado, no térreo, mas um primeiro andar apenas rebocado, abandonado como um sótão... os quartos de dormir gelados não falavam nem de amor nem de doce sono... Sido, que almejava amigos, uma sociabilidade inocente e alegre, só encontrou em sua própria casa criados e meeiros cautelosos... Encheu a casa de flores, mandou caiar a cozinha sombria, cuidou ela própria dos pratos flamengos, preparou bolos de uvas e ficou à espera do primeiro filho. Le Sauvage sorria-lhe entre dois passeios e partia novamente... Cansada de receitas apetitosas, de paciência e da encáustica, Sido, exaurida de solidão, chorou... Marcel Prévost descreve em Lettres à Françoise mariée o desatino da jovem de volta de sua viagem de núpcias. Ela pensa no apartamento materno com seus móveis Napoleão III e Mac-Mahon, suas pelúcias nos espelhos, seus armários de pereira escura, tudo o que julgava tão fora de moda, tão ridículo... Tudo isso é evocado durante um instante ante sua memória como um asilo real, um verdadeiro ninho, o ninho em que foi acalentada por uma ternura desinteressada, ao abrigo de toda intempérie e de todo perigo. O apartamento de agora, com seu cheiro de tapete novo, suas janelas desguarnecidas, a sarabanda das


cadeiras, todo seu ar de improvisação, de ameaça de viagem, não, não é um ninho. É apenas o lugar do ninho que cumpre construir... Sentiu-se súbita e horrivelmente triste, triste como se a tivessem abandonado num deserto. A partir desse desatino, surgem muitas vezes na jovem esposa longas melancolias e diversas psicoses. Ela sente, em particular, sob a forma dediferentes obsessões psicastênicas e vertigem de sua liberdade vazia; assim é que, por exemplo, cria e alimenta esses fantasmas de prostituição que jáencontramos na jovem. Pierre Janet372 cita o caso de uma recém-casada que não podia suportar a solidão em seu apartamento porque se sentia tentadaa ir para a janela e trocar olhares com os passantes. Outras permanecem abúlicas em face de um universo que “não parece mais verdadeiro”, que sepovoa tão somente de fantasmas e de cenários de papelão. Algumas há que se esforçam em negar sua condição de adulto, que se obstinarão a negá-ladurante a vida inteira. Assim a paciente que Janet designa pelas iniciais QI. QI, mulher de 36 anos, achava-se obcecada pela ideia de que é uma menina de dez a 12 anos; principalmente quando fica só, põe-se a pular, a rir, a dançar, desfaz os cabelos, solta-os sobre os ombros, corta-os, pelo menos parcialmente. Gostaria de poder entregar-se completamente a esse sonho de ser criança: “É tão lamentável não poder brincar de esconde-esconde diante de todos, pregar peças... Desejaria que me achassem gentil, tenho medo de ser feia como um piolho, gostaria que gostassem de mim, conversassem comigo, me acarinhassem, me dissessem sempre que gostam de mim como gostam das criancinhas... Gosta-se de uma criança por causa de suas travessuras, de seu coraçãozinho bom, de suas gentilezas, e o que lhe pedem em troca? Que gostem também, nada mais. É isso que é bom, mas não posso dizê-lo a meu marido, ele não me compreenderia. Bem, gostaria tanto de ser uma menina, de ter um pai ou uma mãe que me pusesse no colo, que me acariciasse os cabelos... mas não, sou uma senhora, mãe de família; é preciso cuidar de uma casa, ser séria, refletir sozinha, que vida!” Para o homem, o casamento também é por vezes uma crise: a prova está em que muitas psicoses masculinas têm início durante um noivado ou duranteos primeiros tempos da vida conjugal. Menos apegado à família do que as irmãs, o jovem pertencia a alguma confraria: colégio superior, universidade,atelier de aprendizagem, equipe, bando, que o protegia contra a solidão; larga-a para começar sua verdadeira existência de adulto; teme a solidãofutura e é muitas vezes para conjurá-la que se casa. Mas é vítima dessa ilusão que a coletividade alimenta e que apresenta o casal como uma“sociedade conjugal”. A não ser durante o rápido incêndio de uma paixão amorosa, dois indivíduos não podem constituir um mundo que os proteja aambos contra o mundo: é o que ambos sentem após as núpcias. A mulher, desde logo familiar, escravizada, não esconde do marido sua liberdade; ela éum fardo, não um álibi; não o exime do peso de suas responsabilidades, agrava-o, ao contrário. A diferença dos sexos implica muitas vezes diferençasde idade, educação, situação que não permitem nenhum entendimento real: em bora familiares, os esposos são estranhos. Outrora, havia muitas vezesentre eles um verdadeiro abismo: a jovem, educada em um estado de ignorância, de inocência, não tinha nenhum “passado”, ao passo que o noivo“vivera”, a ele cabia iniciá-la na realidade da existência. Certos homens sentiam-se lisonjeados com essa tarefa delicada; mais lúcidos, mediam cominquietação a distância que os separava da futura companheira. Edith Wharton descreveu, em seu romance This Age of Innocence, os escrúpulos de umjovem norte-americano de 1870 em face da moça que lhe era destinada: Com uma espécie de respeitoso terror, ele contemplou a fronte pura, os olhos sérios, a boca inocente e alegre da jovem criatura que lhe ia confiar a alma. Esse produto temível do sistema social de que ele participava e em que acreditava — a jovem que tudo ignorando tudo esperava — apresentava-se agora a ele como uma estranha... Em verdade, que sabiam eles um do outro, posto que era de seu dever de homem galante esconder o passado à noiva e dever desta não o ter?... A moça, centro desse sistema de mistificação superiormente elaborado, revelava-se, por sua própria fraqueza e coragem, um enigma ainda mais indecifrável. Era franca, a pobre querida, porque não tinha o que esconder; confiante, porque não imaginava que se devesse defender; e sem maior preparação, ia ser mergulhada, numa noite, nisso que chamam “as realidades da vida”... Tendo feito pela centésima vez um exame completo daquela alma sucinta, voltou desanimado ao pensamento de que aquela pureza factícia, tão habilmente fabricada pela conspiração das mães, das tias, das avós, até as remotas antepassadas puritanas, só existia para a satisfação de seus gostos pessoais, para que ele pudesse exercer sobre ela seu direito de senhor e destruí-la como uma estátua de neve. Hoje o fosso é menos profundo porque a jovem é um ser menos factício; está mais bem informada, mais bem armada para a vida. Mas muitas vezes éela ainda muito mais jovem do que o marido. É um ponto cuja importância não se acentuou suficientemente; tomam-se frequentemente por diferençasde sexo as consequências de uma maturidade desigual; em muitos casos, a mulher é uma criança, não porque seja mulher, mas porque é realmentemuito jovem. A seriedade do marido e dos amigos do marido a deixaram acabrunhada. Sofia Tolstoi escrevia, cerca de um ano depois do dia dasnúpcias: Ele é velho, por demais concentrado, e eu sinto-me hoje tão moça e teria tamanha vontade de fazer loucuras! Ao invés de me deitar, gostaria de fazer piruetas, mas com quem? Uma atmosfera de velhice me envolve, toda a minha coragem é velha. Esforço-me por reprimir todo impulso de mocidade, a tal ponto parece deslocado neste meio de sensatez. Por seu lado, o marido vê em sua mulher um “bebê”; ela não é a companheira que esperava e ele faz com que ela o sinta; ela se humilha. Sem dúvida,ao sair da casa paterna, ela gosta de encontrar um guia, mas quer também ser encarada como “uma adulta”; deseja permanecer criança, mas quertornar-se mulher; o marido mais idoso nunca a pode tratar de maneira a satisfazê-la inteiramente.Mesmo que a diferença de idade seja insignificante, há que considerar que a moça e o rapaz foram em geral educados de modo bem diverso; elaemerge de um universo feminino em que lhe inculcaram uma sabedoria feminina, e respeito aos valores femininos, ao passo que ele está imbuído dosprincípios da ética masculina. Para eles é muitas vezes difícil compreenderem-se, e os conflitos não tardam.Pelo fato de, em geral, o casamento subordinar a mulher ao marido, é principalmente a ela que se apresenta em toda a sua acuidade o problema dasrelações conjugais. O paradoxo do casamento está em que é, a um só tempo, uma função erótica e uma função social: essa ambivalência reflete-se nafigura que o marido assume para a jovem mulher. É um semideus dotado de prestígio viril e destinado a substituir o pai: protetor, provedor, tutor, guia;é à sombra dele que a vida da esposa deve desabrochar; ele é o detentor dos valores, o fiador da verdade, a justificação ética do casal. Mas é tambémum macho com quem cumpre partilhar uma experiência com frequência vergonhosa, barroca, odiosa, ou perturbadora, contingente em todo caso; eleconvida a mulher a chafurdar consigo na bestialidade, ao mesmo tempo que a dirige com firmeza para o ideal. Uma noite, em Paris, de volta a casa, eles se detiveram, Bernard deixou ostensivamente um music-hall cujo espetáculo o chocara: “Dizer que os estrangeiros veem isto! Que vergonha, e é por isso que nos julgam...” Thérèse admirava que esse homem pudico fosse o mesmo cujas pacientes invenções da escuridão lhe seria necessário suportar dentro de menos de uma hora. 373 Entre o mentor e o fauno numerosas formas híbridas são possíveis. Por vezes, o homem é ao mesmo tempo pai e amante, o ato sexual torna-se umaorgia sagrada e a esposa uma amorosa que encontra nos braços do esposo uma salvação definitiva alcançada através de uma renúncia total. Este amor-paixão dentro da vida conjugal é muito raro. Por vezes, também, a mulher amará platonicamente seu marido, mas se recusará a entregar-se aos braçosde um homem respeitado demais. É o caso dessa mulher de que fala Stekel: “Mme D.S., viúva de um grande artista, tem agora quarenta anos. Emboraadorando o marido, foi com ele inteiramente frígida.” Ao contrário, ela pode ter com ele um prazer que suporta como uma degradação comum e matanela estima e respeito. Por outro lado, um fracasso erótico coloca para sempre o marido no nível do animal: odiado em sua carne, ele será desprezadoem seu espírito; inversamente, verificamos como desprezo, antipatia, rancor determinavam a frigidez na mulher. O que acontece muito frequentementeé que o marido permanece, após a experiência sexual, um superior respeitado, cujas fraquezas animais se desculpam; parece que foi, entre outros, ocaso de Adèle Hugo. Ou então fica ele sendo um agradável parceiro sem prestígio. K. Mansfield descreveu na novela Prelúdio uma das formas que essaambivalência pode assumir: Ela o amava realmente. Adorava-o, admirava-o e respeitava-o enormemente. Sim, mais do que qualquer pessoa no mundo. Conhecia-o a fundo. Ele era a franqueza, a própria respeitabilidade e, apesar de toda a sua experiência prática, continuava simples, absolutamente ingênuo, contente com pouca coisa e vexado com pouca coisa. Se ao menos não saltasse assim nela, gritando tanto, olhando-a com olhos tão ávidos, tão amorosos! Era forte demais para ela. Desde a infância detestava as coisas que se precipitavam sobre ela. Havia momentos em que ele se tornava terrificante, realmente terrificante, em que ela quase gritava com toda a força: vais matar-me! E então ela tinha vontade de dizer coisas duras, coisas detestáveis... Sim, sim, era verdade; com todo o seu amor, todo o seu respeito e a sua admiração por Stanley, ela o detestava. Nunca sentira isso tão claramente; todos esses sentimentos por ele eram claros, definidos, tão verdadeiros um como outros. E esse ódio, bem real, como o resto. Teria podido fazer pacotinhos com eles e dá-los a Stanley. Tinha vontade de entregar-lhe o último como surpresa e imaginava os olhos dele quando o abrisse. A jovem mulher está longe de se confessar sempre seus sentimentos com essa sinceridade. Amar o marido, ser feliz, é um dever para consigo mesma epara com a sociedade; é o que sua família espera dela; ou, se os pais se mostraram hostis ao casamento, é um desmentido que lhes quer infligir. Em


geral ela começa vivendo s ua situação conjugal de má-fé; persuade-se de bom grado de que sente pelo marido um grande amor; e essa paixão assumeuma forma tanto mais maníaca, possessiva, ciumenta quanto menos satisfeita sexualmente é a mulher; para se consolar da decepção, que a princípio serecusa a confessar, ela tem a necessidade insaciável da presença do marido. Stekel cita numerosos exemplos desses apegos doentios. Em consequência de fixações infantis, uma mulher permanecerá frígida durante os primeiros anos do casamento. Desenvolveu-se então nela um amor hipertrofiado como acontece frequentemente com mulheres que não querem ver que o marido é indiferente em relação a elas. Ela só vivia e pensava no marido. Não tinha mais vontade. Ele devia, pela manhã, fazer o programa do dia dela, dizer o que cabia comprar etc. Ela executava tudo conscienciosamente. Se ele não indicava nada, ela ficava no quarto sem fazer nada, com saudade dele. Não podia deixá-lo ir a parte alguma sem o acompanhar. Não podia ficar sozinha e gostava de segurar sua mão... Era infeliz, chorava durante horas, tremia por ele e, quando não havia motivo para tremer, ela o criava. Meu segundo caso é o de uma mulher encerrada num quarto como numa prisão, de medo de sair sozinha. Encontrava-a segurando as mãos do marido, conjurando-o a permanecer sempre perto dela... Casada há sete anos, ele nunca pudera ter relações com ela. O caso de Sofia Tolstoi é análogo; conclui-se evidentemente, dos trechos que citei e de todo o diário, que logo depois de casar ela percebeu que nãoamava o marido. As relações carnais que tinha com ele enojavam-na; censurava-lhe o passado, achava-o velho e aborrecido, só manifestava hostilidadeàs ideias dele; parece, de resto, que ávido e brutal na cama, ele a negligenciava e tratava duramente. Aos gritos de desespero, às confissões de tédio,de tristeza, de indiferença, misturam-se, entretanto, em Sofia, protestos de amor apaixonado: ela quer sempre ter a seu lado o esposo bem-amado; malele se afasta, ela fica torturada pelo ciúme. Eis o que escreve: 11-1-1863: Meu ciúme é uma doença inata. Talvez provenha de que, amando somente a ele, não posso ser feliz senão com ele, por ele. 15-1-1863: Gostaria que ele só sonhasse comigo e pensasse em mim, só amasse a mim. Mal acabo de afirmar que gosto disto ou daquilo e me retrato: sinto que não amo outra coisa além de Liovotchka. No entanto, deveria gostar absolutamente de outra coisa, como ele gosta de seu trabalho... Sinto, porém, tal angústia sem ele! Sinto aumentar dia a dia a necessidade de não o deixar... 17-10-1863: Sinto-me incapaz de compreendê-lo bem, eis por que o vigio tão ciumentamente... 31-7-1868: Como é engraçado reler um diário! Quantas contradições! Como se eu fosse uma mulher infeliz! Existirão casais mais unidos e felizes do que nós? Meu amor aumenta sempre. Amo-o sempre com o mesmo amor inquieto, apaixonado, ciumento, poético. Sua calma e sua segurança irritam-me por vezes. 16-9-1876; Procuro avidamente em seu diário as páginas em que trata de amor e logo que as encontro sou devorada pelo ciúme. Tenho raiva de Liovotchka por ter partido. Não durmo, não como quase nada, engulo minhas lágrimas ou choro escondida. Tenho todos os dias um pouco de febre e arrepios à noite... Estarei sendo punida por ter amado tanto? Sentimos, através de todas essas páginas, um inútil esforço para compensar, pela exaltação moral ou “poética”, a ausência de um amor verdadeiro; éesse vazio do coração que as exigências, a ansiedade, o ciúme traduzem. Muitos ciúmes mórbidos desenvolvem-se em condições semelhantes; o ciúmetraduz de uma maneira indireta uma insatisfação que a mulher objetiva inventando uma rival; não experimentando nunca junto do marido umsentimento de plenitude, ela de certo modo racionaliza sua decepção imaginando que ele a engana.Muitas vezes, por moralidade, hipocrisia, orgulho, timidez, a mulher obstina-se em sua mentira. “Muitas vezes, uma aversão pelo marido querido nãofoi percebida durante toda uma vida: chamam-na melancolia ou lhe dão qualquer outro nome”, escreve Chardonne.374 Mas não é por não ser nomeadaque a hostilidade deixa de ser vivida. Imprime-se, com maior ou menor violência, pelo esforço que a mulher faz para recusar o domínio do esposo.Depois da lua de mel e do período de desatino que muitas vezes se lhe segue, ela tenta reconquistar a autonomia. Não é uma tarefa fácil. Por ser muitasvezes mais idoso do que ela, por possuir em todo caso um prestígio viril, por ser por lei o “chefe da família”, o marido detém uma superioridade moral esocial; muitas vezes possui também, pelo menos aparentemente, uma superioridade intelectual. Tem sobre a mulher a vantagem da cultura ou pelomenos da formação profissional; desde a adolescência interessa-se pelos negócios do mundo: são seus negócios; conhece um pouco de direito, está apar da política, pertence a um partido, a um sindicato, a associações; trabalhador, cidadão, seu pensamento está empenhado na ação; enfrenta a provada realidade, contra a qual não se pode trapacear: isso equivale a dizer que o homem médio tem a técnica do raciocínio, o gosto dos fatos e daexperiência, certo senso crítico; é o de que ainda carecem numerosas jovens; mesmo se leram, assistiram a conferências, se dedicaram por distração aalguma arte, seus conhecimentos acumulados mais ou menos ao acaso não constituem uma cultura; não é em consequência de um vício cerebral queraciocinam mal: é porque a prática não as obrigou a fazê-lo bem. Para elas, o pensamento é antes um jogo do que um instrumento; mesmo inteligentes,sensíveis, sinceras, elas não sabem, por falta de técnica intelectual, demonstrar suas opiniões, tirar as consequências que comportem. É por esse ladoque um marido — mesmo mais medíocre — as dominará facilmente: saberá provar que tem razão ainda que não tendo. Nas mãos de um homem, alógica é muitas vezes violência. Chardonne descreveu em Epithalame essa forma dissimulada de opressão. Mais idoso, mais culto e mais instruído doque Berthe, Albert vale-se da superioridade para negar qualquer valor às opiniões da mulher, quando não as partilha; prova-lhe infatigavelmente quetem razão; ela, por seu lado, obstina-se e recusa-se a outorgar qualquer conteúdo aos raciocínios do marido: ele aferra-se igualmente a suas ideias, eistudo. Assim se agrava entre eles um mal-entendido sério. Ele não procura compreender sentimentos, reações que ela não sabe justificar habilmentemas que têm raízes profundas; ela não compreende o que pode haver de vivo sob a lógica pedante com que o marido a esmaga. Ele chega a irritar-secom uma ignorância que, entretanto, ela nunca dissimulou e faz, como para desafiá-la, perguntas de astronomia; no entanto, sente-se lisonjeado por lheorientar as leituras, por encontrar nela um auditor que domina sem dificuldade. Em uma luta em que a insuficiência intelectual a condena a ser semprevencida, a jovem esposa não tem outro recurso a não ser o silêncio, ou as lágrimas, ou a violência: Com o cérebro ensurdecido, abatido pelos choques, Berthe não podia mais pensar quando ouvia aquela voz sincopada e estridente e Albert continuava a envolvê-la num zunido imperioso para estonteá-la, feri-la no desatino de seu espírito humilhado... Ela sentia-se vencida, desamparada ante as asperezas de uma argumentação inconcebível, e para se livrar desse injusto poder gritou: Deixe-me em paz! Tais palavras pareciam-lhe fracas demais; deparou com um frasco de cristal na penteadeira e subitamente atirou-o em Albert... Por vezes a mulher procura lutar. Mas, muitas vezes, ela aceita por bem ou por mal, como a Nora de A casa de bonecas,375 que o homem pense por ela;ele é que será a consciência do casal. Por timidez, inabilidade, preguiça, ela deixa ao homem o cuidado de forjar as opiniões que lhes serão comunsacerca de todos os assuntos gerais e abstratos. Uma mulher inteligente, culta, independente, mas que admirara durante 15 anos um marido que julgavasuperior, dizia-me transtornada, depois da morte dele, que se vira obrigada a decidir ela própria sobre suas convicções e sobre sua conduta: tenta aindaadivinhar o que ele teria pensado em cada circunstância. O marido compraz-se geralmente nesse papel de mentor e chefe.376 Ao fim de um dia em queconhece dificuldades em suas relações com iguais, em que tem de submeter-se a superiores, ele gosta de se sentir um superior absoluto e oferecerverdades incontestadas.377 Narra os acontecimentos do dia, dá razão a si mesmo contra seus adversários, feliz por encontrar na esposa um duplo que oconfirma a si próprio; comenta o jornal e as notícias políticas, de bom grado lê em voz alta para a mulher, a fim de que a relação dela com a cultura nãoseja autônoma. Para ampliar sua autoridade, exagera com prazer a incapacidade feminina; ela aceita mais ou menos docilmente esse papel desubordinada. Sabe-se com que prazer espantado mulheres que lamentam sinceramente a ausência do marido descobrem em si mesmas, nessaoportunidade, possibilidades insuspeitadas; gerem os negócios, educam os filhos, decidem, administram sem qualquer auxílio. Sofrem quando a voltado marido as relega novamente à incompetência.O casamento incita o homem a um imperialismo caprichoso: a tentação de dominar é a mais universal, a mais irresistível que existe; entregar o filho àmãe, entregar a mulher ao marido é cultivar a tirania na terra; muitas vezes não basta ao esposo ser aprovado, admirado, aconselhar, guiar: ele ordena,representa o papel de soberano. Todos os rancores acumulados em sua infância, durante sua vida, acumulados cotidianamente entre os outros homenscuja existência o freia e fere, ele descarrega em casa, acenando para a mulher com sua autoridade; mima a violência, a força, a intransigência: dáordens com voz severa, ou grita, bate na mesa; essa comédia é para a mulher uma realidade cotidiana. Ele se acha tão convencido d e seus direitos quea menor autonomia conservada pela mulher lhe parece uma rebeldia; gostaria de impedi-la de respirar sem ele. Ela, entretanto, revolta-se. Mesmo secomeçou reconhecendo o prestígio viril, seu deslumbramento dissipa-se depressa. O filho percebe um dia que o pai não é senão um indivíduocontingente; a esposa descobre logo que não tem diante de si a grande figura do suserano, do chefe, do senhor, e sim um homem; não vê nenhumarazão para se escravizar; a seus olhos ele não representa senão um ingrato e injusto dever. Por vezes, a mulher se submete com uma complacênciamasoquista; assume um papel de vítima e sua resignação não passa de uma censura silenciosa; mas muitas vezes, também, ela luta abertamente contraseu senhor, e por seu turno esforça-se por tiranizá-lo.O homem é ingênuo quando imagina que submeterá facilmente a mulher a suas vontades e a “formará” como quiser. “A mulher é o que dela faz omarido”, diz Balzac; mas diz o contrário algumas páginas adiante. No terreno da abstração e da lógica, a mulher resigna-se frequentemente a aceitar aautoridade masculina; mas quando se trata de ideias, de hábitos que a interessam realmente, ela se opõe com uma tenacidade dissimulada. A influênciada infância e da juventude é muito mais profunda nela do que no homem, pelo fato de que ela permanece mais encerrada em sua história individual. Doque adquiriu nesses períodos, geralmente não se desfaz nunca. O marido imporá à mulher uma opinião política, porém não modificará suas convicçõesreligiosas, não abalará suas superstições: é o que verifica Jean Barois, que imaginava conquistar uma influência real sobre a pequena devota que


associou à sua vida. Diz, acabrunhado: “Um cérebro de menina cristalizado à sombra de uma cidade provinciana: todas as afirmações da toliceignorante: não se arranca essa crosta.” A despeito das opiniões aceitas, a despeito dos princípios que repete como um papagaio, a mulher conserva suavisão pessoal do mundo. Essa resistência pode torná-la incapaz de compreender um marido mais inteligente do que ela; ou, ao contrário, ela o ergueráacima da seriedade masculina, como acontece com as heroínas de Stendhal ou Ibsen. Por vezes — ou porque ele a tenha desiludido sexualmente, ou, aocontrário, porque a domine e ela queira vingar-se —, a mulher deliberadamente apega-se por hostilidade ao homem, a valores que não são os dela;apoia-se na autoridade da mãe, do pai, de um irmão, de qualquer personalidade masculina que se lhe afigure “superior”, de um confessor, de uma irmãde caridade, apenas para o enfrentar. Ou, sem opor nada de positivo, ela se esforça por contradizê-lo sistematicamente, atacá-lo, magoá-lo; esforça-sepor inculcar-lhe um complexo de inferioridade. Naturalmente, tendo as capacidades necessárias, terá prazer em deslumbrar o marido, em lhe imporseus palpites, suas opiniões, suas diretrizes; irá se apossar de toda a autoridade moral. Nos casos em que for impossível contestar a supremaciaespiritual do marido, tentará conseguir sua vingança no terreno sexual. Ou recusa-se a ele, como Mme Michelet, de quem Halévy nos diz: Queria dominar em tudo; na cama, porquanto era forçoso suportá-lo, e à mesa de trabalho. Era a mesa que ela visava e Michelet a proibiu enquanto ela proibia a cama. Durante muitos meses o casal foi casto. Finalmente, Michelet teve a cama e Athénais Mialaret logo depois teve a mesa: nascera escritora e era na verdade seu lugar... Ou ela se retesa nos braços masculinos e lhe inflige a afronta da frigidez; ou mostra-se caprichosa, coquete, impondo-lhe uma atitude de suplicante;flerta, provoca ciúmes, engana-o: de uma maneira ou de outra tenta humilhá-lo em sua virilidade. Se a prudência a impede de ir até o fim, encerra ela,pelo menos orgulhosamente em seu coração, o segredo de sua frieza altiva. Confia-o, por vezes, a um diário, de preferência a suas amigas: numerosasmulheres casadas divertem-se em se contar mutuamente “truques” de que se valem para fingir experimentar um prazer que pretendem não sentir;riem-se ferozmente da vaidosa ingenuidade de suas vítimas; tais confidências talvez sejam igualmente uma comédia: entre a frigidez e a vontade defrigidez, a fronteira não é muito precisa. Em todo caso, elas se imaginam insensíveis e assim satisfazem seu ressentimento. Há mulheres — as que seassemelham à fêmea do louva-a-deus — que querem triunfar tanto à noite como de dia: são frias no amor, desdenhosas nas conversas, tirânicas nascondutas. Assim é que — segundo o testemunho de Mabel Dodge — Frieda se conduzia com Lawrence. Não podendo negar a superioridade intelectualdele, pretendia impor-lhe sua própria visão do mundo, em que só os valores sexuais contavam. Ele tinha de encarar a vida através dela e era o papel dela ver a vida do ponto de vista do sexo. Era deste ponto de vista que ela se colocava para aceitar ou condenar a vida. Ela declarou um dia a Mabel Dodge: É preciso que ele receba tudo de mim. Quando eu não estou presente ele não sente nada; nada, e é de mim que recebe seus livros, continuou ela com ostentação. Ninguém o sabe. Fiz páginas inteiras desses livros para ele. Entretanto, Frieda tem necessidade premente de provar a si mesma que ela é necessária para ele; exige que ele se ocupe dela incessantemente: se nãoo faz espontaneamente, força-o a fazê-lo: Frieda muito conscienciosamente aplicava-se a nunca permitir que suas relações com Lawrence se desenvolvessem na calma que se estabelece geralmente entre casados. Logo que sentia que ele se entregava ao hábito, lançava-lhe uma bomba. Fazia de modo que ele não a esquecesse nunca. Essa necessidade de uma atenção perpétua... tinha se tornado, quando eu os vi, a arma de que a gente se serve contra um inimigo. Frieda sabia feri-lo nos lugares sensíveis... Se durante o dia não lhe dava atenção, ela ia à noite até o insulto. A vida conjugal tornara-se para eles uma série de cenas indefinidamente recomeçadas e nas quais nenhum deles queria ceder, dando à menoraltercação o aspecto titânico de um duelo entre o Homem e a Mulher.De uma maneira diferente, encontra-se também em Elise, que nos descreve Jouhandeau,378 uma vontade feroz de domínio que a leva a diminuir omáximo possível o marido: ELISE: Para começar, diminuo tudo em torno de mim. Fico então bem tranquila. Só tenho que tratar com monos e grotescos. Ao despertar, ela me chama: — Meu monstrinho. É uma política. Quer me humilhar. Com que indisfarçável alegria se dedicou a fazer com que eu renunciasse a todas as minhas ilusões, sobre mim, uma após outra. Ela nunca perdeu uma oportunidade de dizer que sou isto, que sou aquilo, um pobre-diabo, diante de meus amigos espantados ou de nossos criados embaraçados. Acabei assim acreditando nela... Para desprezar-me, não há ocasião em que deixe de me fazer sentir que minha obra a interessa menos do que o bem-estar que nos poderia dar. Foi ela quem secou a fonte de meus pensamentos, desanimando-me paciente, lenta e pertinentemente, me humilhando com método, levando-me a renunciar contra minha vontade, pouco a pouco, com uma lógica precisa, imperturbável, implacável, a meu orgulho. — Em suma, ganhas menos do que um operário — disse-me um dia diante do encerador... ...Quer diminuir-me para parecer superior ou pelo menos igual, e que esse desdém a mantenha diante de mim em sua superioridade... Só tem estima por mim na medida em que o que faço lhe serve de estribo ou de mercadoria. Para se apresentar em face do macho como o sujeito essencial, Frieda e Elise empregam uma tática que os homens denunciaram muitas vezes:esforçam-se por lhes negar a transcendência. Os homens supõem facilmente que a mulher alimenta sonhos de castração em relação a eles; na verdade,a atitude dela é ambígua: deseja humilhar, mais do que suprimir o sexo masculino. O que é mais exato é que ela quer mutilar o homem em seusprojetos, em seu futuro. Triunfa quando o marido ou o filho estão doentes, cansados, reduzidos a sua presença de carne. Então eles não se apresentammais, na casa em que ela reina, senão como um objeto entre outros objetos; ela o trata com uma competência de dona de casa; faz-lhe um curativocomo se cola um prato quebrado, limpa-o como se limpa um pote; nada repugna às suas mãos angélicas, amigas dos restos e das lavagens. Lawrencedizia a Mabel Dodge, falando de Frieda: “Você não pode saber o que é sentir a mão dessa mulher quando se está doente. Mão pesada, alemã, de carne.”Conscientemente, a mulher impõe essa mão, como todo o seu peso, para que o homem sinta que também é apenas um ser de carne. Não é possívellevar mais longe do que Elise essa atitude, como conta Jouhandeau: Lembro-me, por exemplo, do piolho Tchang Tsen no início de nosso casamento... Só conheci realmente a intimidade com uma mulher graças a ele, no dia em que Elise me botou nu em pelo em seus joelhos para me tosquiar como um carneiro, iluminando até os meus recantos recônditos com uma vela que passeava à volta de meu corpo. Ah! sua lenta inspeção de minhas axilas, de meu peito, de meu umbigo, da pele de meus testículos esticada entre seus dedos como um tambor, suas paradas prolongadas ao longo de minhas coxas, entre meus pés e a passagem da navalha e m torno do cu: a queda enfim no cestinho de um punhado de pelos louros em que o piolho se escondia e que ela queimou, abandonando-me, ao mesmo tempo que me livrava dele e de seus esconderijos, a uma nova nudez e ao deserto do isolamento. A mulher gosta que o homem seja não um corpo em que se exprime uma subjetividade, mas sim uma carne passiva. Ela afirma a vida contra aexistência, os valores carnais contra os valores espirituais; ela adota de bom grado em relação aos empreendimentos masculinos a atitude humorísticade Pascal; pensa também “que toda a infelicidade dos homens provém de não saberem ficar descansando num quarto”; ela os fecharia com prazerdentro de casa; toda atividade que não beneficia a vida familiar provoca sua hostilidade; a mulher de Bernard Palissy mostra-se indignada por elequeimar os móveis para inventar um novo esmalte de que até então o mundo prescindira; Mme Racine leva o marido a interessar-se pelas groselhas dojardim e recusa-se a ler suas tragédias. Jouhandeau mostra-se muitas vezes exasperado em suas Chroniques maritales porque Elise se obstina em nãoconsiderar seu trabalho literário senão como uma fonte de proveitos materiais.


Disse-lhe: minha última novela sai esta manhã. Sem querer ser cínica, mas porque só isso a interessa de fato, respondeu-me: serão, ao menos, trezentos francos a mais para este mês. Tais conflitos podem exasperar até provocarem uma ruptura. Mas, geralmente, embora recusando-lhe o domínio, a mulher deseja “conservar” o marido.Luta contra ele para defender sua própria autonomia, e combate contra o resto do mundo para conservar a “situação” que a destina à dependência.Esse duplo jogo realiza-se com dificuldade, o que explica em parte o estado de inquietação e nervosismo em que numerosas mulheres passam a vida.Stekel nos dá um exemplo muito significativo: Mme Z.T., que jamais gozou, é casada com um homem muito culto. Mas ela não pode suportar-lhe a superioridade, e começou a querer igualá-lo estudando a mesma especialidade. Como era muito penoso, abandonou os estudos ao ficar noiva. O homem é muito conhecido e numerosas alunas o cortejam. Ela resolve não se entregar a esse culto ridículo. Na intimidade, foi insensível desde o princípio e assim permaneceu. Só atingia o orgasmo pelo onanismo quando seu marido a deixava, satisfeito, e lhe confessava isto. Recusava as tentativas dele de excitá-la com carícias... Muito breve começou a ridicularizá-lo e a menosprezar seu trabalho. Não conseguia “compreender essas tolas que corriam atrás dele, ela que conhecia os bastidores da vida privada do grande homem”. Em suas disputas cotidianas ocorriam a ela expressões como: “A mim é que não vais impor os teus rabiscos, ou pensas que podes fazer de mim o que quiseres só porque és um escritorzinho.” O marido ocupava-se cada vez mais de suas alunas, ela cercava-se de rapazes. Assim continuou durante anos, até que o marido se apaixonou por outra mulher. Ela sempre suportara as pequenas aventuras dele, tornava-se até amiga das “bobinhas” abandonadas... Mas, então, mudou de atitude e entregou-se sem orgasmo ao primeiro rapaz que surgiu. Confessou ao marido que o enganara, ele o admitiu perfeitamente. Podiam separar-se tranquilamente... Ela recusou o divórcio. Houve uma longa explicação e uma reconciliação... Entregou-se chorando e alcançou seu primeiro orgasmo intenso... Vê-se que, em sua luta contra o marido, ela nunca pensou em deixá-lo.“Pegar um marido” é uma arte, “retê-lo” é um ofício. É preciso muito jeito. A uma jovem mulher rabugenta, dizia a irmã prudente: “Cuidado, de tantofazer cenas a Marcel vais perder tua situação.” Joga-se o que há de mais sério: a segurança material e moral, um lar próprio, a dignidade de esposa, umsucedâneo mais ou menos feliz do amor, a felicidade. A mulher aprende depressa que sua atração sexual é apenas a mais frágil de suas armas; dissipa-se com o hábito e, infelizmente, há outras mulheres desejáveis no mundo, ela se esforça contudo por ser sedutora, por agradar: frequentemente estádividida entre o orgulho que a impele para a frigidez e a ideia de que com seu ardor sensual lisonjeará e prenderá o marido. Ela conta também com aforça do hábito, com o encanto que ele encontra numa casa agradável, com seu pendor pela boa cozinha, sua ternura pelos filhos; ela se aplica emtorná-lo orgulhoso dela pela maneira de receber, de se vestir e em conquistar ascendência sobre ele com conselhos, influência; na medida de suasforças ela se tornará indispensável a ele, seja ao seu êxito mundano, seja ao seu trabalho. Mas, principalmente, toda uma tradição ensina à mulher a“arte de saber segurar um homem”; é preciso descobrir e lisonjear suas fraquezas, dosar habilmente a adulação e o desdém, a docilidade e aresistência, a vigilância e a indulgência. Esta última mistura é particularmente delicada. Não deve dar ao marido nem uma liberdade excessiva nemuma liberdade insuficiente. Demasiado complacente, a mulher vê o marido escapar-lhe; frustra-a do dinheiro, do ardor amoroso que gasta com outrasmulheres; ela corre o risco de que uma amante adquira força bastante para obter um divórcio ou, pelo menos, para ocupar o primeiro lugar em suavida. Entretanto, se proíbe a ele toda aventura, se o irrita com sua vigilância, suas cenas, suas exigências, pode indispô-lo contra ela gravemente. Trata-se de saber “fazer concessões” com conhecimento de causa; cumpre fechar os olhos se o marido não “obedece à risca ao contrato”, e em outrosmomentos abri-los bem; a mulher casada desconfia, em particular, das moças que se sentiriam por demais felizes, pensa, em roubar-lhe a “posição”.Para arrancar o marido de uma rival inquietante tentará distraí-lo, fazê-lo viajar; se necessário — tomando por modelo Mme de Pompadour — suscitaráoutra rival menos perigosa; se nada der resultado, recorrerá às crises de choro, de nervos, às tentativas de suicídio etc., mas o abuso das cenas erecriminações expulsará o marido do lar; a mulher vai se tornar insuportável no momento em que terá maior necessidade de seduzir; se quiser ganhara partida, dosará habilmente lágrimas comovedoras e sorrisos heroicos, chantagem e coquetismo. Dissimular, negacear, odiar e temer em silêncio,apostar na vaidade e nas fraquezas do homem, aprender a não cair nas tramas dele, a enganá-lo, a manobrá-lo, é uma triste ciência. A grande desculpada mulher está em que lhe impuseram empenhar-se completamente no casamento: ela não tem profissão, não tem capacidades, não tem relaçõespessoais, seu nome mesmo não lhe pertence; é apenas a “metade” de seu marido. Se ele a abandonar, ela não encontrará nenhum recurso nem em sinem fora de si. É fácil condenar Sofia Tolstoi, como o fazem A. de Monzie e Montherlant: mas se ela tivesse recusado a hipocrisia da vida conjugal, paraonde teria ido? Que destino a aguardava? Sem dúvida ela parece ter sido uma megera odiosa: mas pode-se pedir a ela que amasse seu tirano eabençoasse sua escravidão? Para que haja entre esposos lealdade e amizade, a condição sine qua non está em que sejam ambos livres em relação um aooutro, e concretamente iguais. Enquanto o homem possui sozinho a autonomia econômica e detém — pela lei e os costumes — os privilégios que avirilidade confere, é natural que se apresente tantas vezes como tirano, o que incita a mulher à revolta e à astúcia.Ninguém pensa em negar as tragédias e as mesquinharias conjugais: mas o que sustentam os defensores do casamento é que os conflitos entre espososprovêm da má vontade dos indivíduos e não da instituição. Tolstoi, entre outros, descreveu o casal ideal do epílogo de Guerra e paz: Pierre e Natacha.Esta foi uma moça coquete e romanesca; casada, espanta todo o seu círculo de relações porque renuncia aos vestidos, à sociedade, a toda distraçãopara se consagrar exclusivamente ao marido e aos filhos; torna-se o tipo da matrona. Ela não tinha mais aquela chama de vida sempre acesa que lhe dava encanto outrora. Agora, muitas vezes, só se percebia dela o rosto e o corpo, não se lhe via mais a alma, mas somente a mulher forte, bela e fecunda. Ela exige de Pierre um amor tão exclusivo quanto o que lhe dedica; tem ciúmes dele; ele renuncia às saídas, às amizades, para se dedicar tambéminteiramente à família. Não ousava ir jantar nos clubes nem empreender uma longa viagem, salvo para seus negócios, entre os quais a mulher incluía os trabalhos científicos a que, sem nada entender, atribuía uma importância extrema. Pierre era dominado pela mulher, mas em compensação: Natacha na intimidade fizera-se a escrava do marido. Toda a casa era gerida pelas ditas ordens do marido, isto é, pelos desejos de Pierre que Natacha se esforçava por adivinhar. Quando Pierre se encontra longe dela, Natacha acolhe-o, na volta, com impaciência porque sofreu com sua ausência; mas reina entre os esposos ummaravilhoso entendimento; compreendem-se por meias palavras. Entre os filhos, a casa, o marido amado e respeitado, ela experimenta uma felicidadequase sem mácula.Esse quadro idílico merece ser estudado de mais perto. Natacha e Pierre estão unidos, diz Tolstoi, como a alma ao corpo; mas quando a alma deixa ocorpo, a morte é uma só; que aconteceria se Pierre deixasse de amar Natacha? Lawrence também recusa a hipótese da inconstância masculina: DonRamon amará sempre a pequena índia Teresa que lhe fez dom de sua alma. Entretanto, um dos mais ardentes defensores do amor único, absoluto,eterno, André Breton, é forçado a admitir que, pelo menos nas circunstâncias atuais, esse amor pode enganar-se de objeto: erro ou inconstância, trata-se para a mulher do mesmo abandono. Pierre, robusto e sensual, será atraído carnalmente por outras mulheres; Natacha tem ciúmes: dentro em breveas relações se azedarão; ou ele a deixará, o que arruinará a vida dela, ou ele mentirá e a suportará com rancor, o que estragará a vida dele, ou ambosviverão de compromissos e meias medidas, o que fará ambos infelizes. Vamos objetar que Natacha terá pelo menos os filhos: mas os filhos só são umafonte de alegria no seio de uma forma equilibrada em que o marido é um dos ápices; para a esposa abandonada, ciumenta, tornam-se um fardo ingrato.Tolstoi admira o devotamento cego de Natacha às ideias de Pierre; mas um outro homem, Lawrence, que também exige da mulher um devotame ntocego, zomba de Pierre e de Natacha; um homem pode, portanto, na opinião de outros homens, ser um ídolo de barro e não um deus verdadeiro;rendendo-lhe um culto, perde-se sua vida em lugar de salvá-la; como sabê-lo? As pretensões masculinas se contestam: a autoridade não funciona mais.É preciso que a mulher julgue e critique, não pode ser apenas um eco dócil. É aviltá-la, de resto, impor-lhe princípios e valores a que não adira de livree espontânea vontade; o que ela pode partilhar do pensamento do marido, só pode fazê-lo através de um juízo autônomo; o que lhe é estranho, não deveser obrigada nem a aprovar nem a recusar; não pode tomar de empréstimo a outra pessoa suas próprias razões de existir.A condenação mais radical do mito Pierre-Natacha é dada pelo casal Leon-Sofia. Sofia sente repulsa pelo marido, acha-o “maçante”; ele a engana comtodas as camponesas das cercanias, ela tem ciúme e se aborrece; vive no nervosismo de sua repetida gravidez e seus filhos não enchem o vazio de seucoração nem o de seus dias; o lar é para ela um deserto árido; para ele, um inferno. E isso termina com essa velha histérica deitando-se seminua nanoite úmida da floresta e esse ancião acuado que foge, renegando enfim a “união” de toda uma vida.O caso de Tolstoi é por certo excepcional; há numerosas uniões em que tudo “funciona bem”, isto é, em que os esposos chegam a um entendimento;vivem um ao lado do outro sem muito se disputar, sem muito se mentir. Mas há uma maldição a que escapam raramente: o tédio. Que o marido consiga


fazer da mulher um eco de si mesmo, ou que cada qual se entrincheire em seu universo, ao fim de alguns meses ou de alguns anos nada mais têm a secomunicar. O casal é uma comunidade cujos membros perderam sua autonomia sem se livrar da solidão; estão estaticamente assimilados um ao outro,ao invés de sustentar um com o outro uma relação dinâmica e viva; eis por que, no terreno espiritual como no terreno erótico, nada podem dar-se, nadapodem trocar. Em uma de suas melhores novelas, Too bad!, Dorothy Parker resumiu o triste romance de muitas vidas conjugais; é noite e Mr. Weltonvolta para casa: Mrs. Welton abriu a porta ao toque da campainha. — Então! — disse alegremente. Sorriam-se animados. — Alô! — disse ele. — Ficaste em casa? Beijaram-se ligeiramente. Com um interesse cortês, ela olhou-o pendurar o sobretudo, o chapéu, tirar os jornais do bolso e ofe-recer-lhe um. — Trouxeste os jornais! — disse ela, pegando-o. — Então? Que fizeste durante o dia inteiro? — perguntou ele. Ela esperara a pergunta; imaginara antes da chegada dele como lhe contaria todos os pequenos incidentes do dia... Mas agora aquilo lhe parecia uma longa e insípida história. — Oh, nada — disse com um risinho alegre. — Tiveste uma boa tarde? — Bem... — começou ele. Mas seu interesse dissipou-se antes que começasse a falar... Ademais, ela estava ocupada em arrancar um fio de uma franja de lã de uma das almofadas. — Foi mais ou menos bem — disse ele. ...Ela sabia falar bastante bem com as outras pessoas... Ernest também era bastante loquaz em sociedade... Ela tentou lembrar-se do que falavam antes do casamento, durante o noivado. Nunca tinham tido grande coisa a dizer um ao outro. Mas ela não se inquietara com isso... Houvera os beijos e coisas que ocupam o espírito. Mas não se pode contar com os beijos e o resto para passar as noites ao fim de sete anos. Poderia se acreditar que a gente se habitua em sete anos, que se dá conta de que é assim e se resigna. Não. Acaba dando nos nervos. Não é um desses silêncios macios que caem por vezes entre as pessoas. Dá a impressão de que há algo a fazer e que a gente não está cumprindo seu dever. Como uma dona de casa quando a recepção não vai bem... Ernest leria laboriosamente e, mais ou menos na metade do jornal, começaria a bocejar. Alguma coisa se passava dentro de Mrs. Welton quando ele fazia isso. Murmuraria que tinha de falar com Delia e se precipitaria para a cozinha. Aí ficaria durante um longo momento, olhando vagamente os potes, verificando o rol da lavanderia e quando voltasse ele estaria fazendo sua toalete noturna. Em um ano, trezentas de suas noites assim se passavam. Sete vezes trezentas eram mais de duas mil. Pretende-se por vezes que o próprio silêncio é sinal de uma intimidade mais profunda do que qualquer palavra; e por certo ninguém pensa em negarque a vida conjugal crie uma intimidade: é o que ocorre com todas as relações de família, que nem por isso deixam de encobrir ódios, ciúmes, rancores.Jouhandeau acentua fortemente a diferença entre essa intimidade e uma fraternidade humana verdadeira quando escreve: Elise é minha mulher; sem dúvida nenhum de meus amigos, nenhum dos membros de minha família, nenhum de meus próprios membros é mais íntimo de mim do que ela, mas, por mais próximo de mim que seja o lugar que ela conquistou, que eu lhe dei em meu universo mais privado, por arraigada que esteja ao inextricável tecido de minha carne e de minha alma (e esse é todo o mistério e todo o drama de nossa indissolúvel união), o desconhecido que passa neste momento na rua e que eu mal percebo de minha janela, qualquer que seja, é menos estranho a mim do que ela. Diz em outro lugar: Percebemos que somos vítimas de um veneno, mas ao qual nos habituamos. Como renunciar a ele, desde então, sem renunciar a nós mesmos? E ainda: Quando penso nela, sinto que o amor conjugal não tem nenhuma relação nem com a simpatia nem com a sensualidade, nem com a paixão, nem com a amizade, nem com o amor. Adequado a si só, não redutível a nenhum desses diversos sentimentos, tem sua natureza própria, sua essência particular e seu modo único, segundo o casal que reúne. Os advogados do amor conjugal379 comprazem-se em dizer que não é um amor, e é exatamente isso que lhe dá um caráter maravilhoso. Porque aburguesia inventou nestes últimos anos um estilo épico: a rotina ass ume aspecto de aventura, a fidelidade o de uma loucura sublime, e tédio torna-sesabedoria e os ódios familiares são a forma mais profunda do amor. Na verdade, que dois indivíduos se detestem sem poder, entretanto, prescindir umdo outro, não é, de todas as relações humanas, a mais verdadeira, a mais comovente: é a mais lamentável. O ideal seria, ao contrário, que dois sereshumanos, cada um deles se bastando a si próprio perfeitamente, se ligassem um ao outro pelo livre consentimento de seu amor. Tolstoi admira que olaço que une Natacha e Pierre seja algo “indefinível, mas firme, sólido, como a união de sua própria alma a seu corpo”. Se se aceita a hipótese dualista,o corpo só representa para a alma uma simples facticidade; assim, na união conjugal, cada um teria para o outro o inelutável peso do dado contingente;é enquanto presença absurda e não escolhida, condição necessária e matéria mesma da existência que seria preciso assumi-lo e amá-lo. Estabelece-seuma confusão voluntária entre essas duas palavras e é daí que nasce a mistificação: o que se assume não se ama. Assume-se o corpo, o passado, asituação presente: mas o amor é movimento para um outro, para uma existência separada da própria, para um fim, um futuro; a maneira de assumir umfardo, uma tirania, não consiste em amá-lo e sim em se revoltar. Uma relação humana não tem valor enquanto é suportada no imediato; as relações dosfilhos com os pais, por exemplo, só adquirem valor quando se refletem numa consciência; não se pode admirar nas relações conjugais que recaiam noimediato e que neste os cônjuges enterrem sua liberdade. Essa mistura complexa de apego, rancor, ódio, normas, resignação, preguiça, hipocrisia, quese chama amor conjugal, só pretendem respeitar porque serve de álibi. Mas a amizade é como o amor físico, para que seja autêntica é precisoprimeiramente que seja livre. Liberdade não quer dizer capricho: um sentimento é um compromisso que ultrapassa o instante; mas só ao indivíduo cabeconfrontar sua vontade geral e suas condutas particulares de modo a manter sua decisão ou, ao contrário, quebrá-la; o sentimento é livre quando nãodepende de nenhuma palavra de ordem exterior, quando é vivido sem medo em uma sinceridade. A palavra de ordem do “amor conjugal” incita, aocontrário, a todos os recalques, a todas as mentiras. Antes de tudo, impede que os esposos se conheçam realmente. A intimidade cotidiana não criacompreensão nem simpatia. O marido respeita demais a mulher para se interessar pelos avatares da vida psicológica que ela vive; seria reconhecernele uma autonomia secreta que poderia evidenciar-se incômoda, perigosa; tem ela realmente prazer na cama? Gosta realmente do marido? Sente-serealmente feliz em obedecê-lo? Ele prefere não se interrogar a esse respeito; tais problemas parecem-lhe até chocantes. Desposou uma “mulherhonesta”, que é por essência virtuosa, devotada, fiel, pura, feliz e que pensa o que se deve pensar. Um doente, depois de ter agradecido a seus amigos,seus parentes, suas enfermeiras, disse a sua jovem mulher que durante seis meses não saíra de sua cabeceira: “A ti não agradeço, cumpriste apenas teudever.” O marido não atribui nenhum mérito a nenhuma das qualidades da mulher; são garantidas pela sociedade, estão implícitas na própriainstituição do casamento; ele não percebe que a mulher não sai de um livro de Bonald, que é um indivíduo de carne e osso; encara como dada afidelidade dela às normas que ela se impõe: que tenha de vencer tentações, que talvez fraqueje, que em todo caso sua paciência, sua castidade, suadecência sejam conquistas difíceis, isso ele não leva em conta; ignora mais radicalmente ainda os sonhos dela, seus fantasmas, suas nostalgias, o climaafetivo em que vive seus dias. Chardonne mostra-nos em Eve um marido que durante anos escreve um diário de sua vida conjugal: fala da mulher commatizes delicados, mas somente da mulher tal qual a vê, tal qual é para ele, sem nunca lhe restituir sua dimensão de indivíduo livre: é fulminadoquando vem a saber de repente que ela não o ama, que o abandona. Falou-se com frequência da desilusão do homem ingênuo e leal diante da perfídiafeminina; é com escândalo que os maridos de Bernstein descobrem que a companheira de sua existência é ladra, má, adúltera; recebem o golpe comuma coragem viril, mas nem por isso o autor deixa de fracassar em apresentá-los como generosos e fortes; eles nos parecem principalmente unsestúpidos isentos de sensibilidade e de boa vontade; o homem condena a dissimulação nas mulheres, mas é preciso muita complacência para se deixarludibriar com tanta constância. A mulher está destinada à imoralidade porque a moral consiste para ela em encarnar uma entidade inumana: a mulherforte, a mãe admirável, a mulher de bem etc. Desde que pense, que sonhe, que deseje, que respire sem palavra de ordem, está traindo o idealmasculino. É por isso que tantas mulheres só se permitem “ser autênticas” na ausência do marido. Reciprocamente, a mulher não conhece o marido;crê perceber nele a fisionomia verdadeira porque o apreende em sua contingência cotidiana: mas o homem é antes de mais nada o que faz no mund o,entre outros homens. Recusar compreender o movimento de sua transcendência é desnaturá-lo. “A gente casa com um poeta, diz Elise, e, quando se é


mulher dele, o que se observa primeiramente é que esquece de puxar o cordão da privada”.380 Nem por isso é ele menos poeta e a mulher que não seinteressa pelas suas obras conhece-o menos do que um leitor qualquer. Muitas vezes, a mulher não tem culpa de que essa cumplicidade lhe sejaproibida: ela não pode pôr-se a par dos negócios do marido, não tem a experiência, a cultura necessária para “segui-lo”: fracassa em se unir a eleatravés dos projetos bem mais essenciais para ele do que a repetição monótona dos dias. Em certos casos privilegiados, a mulher pode conseguirtornar-se uma verdadeira companheira para o marido: discute com ele os projetos, aconselha-o, participa dos trabalhos dele. Mas embala-se comilusões se acredita realizar assim uma obra pessoal: ele continua sendo a única liberdade atuante e responsável. É preciso que ela o ame paraencontrar sua alegria em servi-lo; sem amor só terá despeito porque se sentirá frustrada do produto de seus esforços. Os homens — fiéis ao conselho deBalzac, de tratar a mulher como escrava embora a persuadindo de que é rainha — exageram propositadamente a importância da influência exercidapelas mulheres; no fundo sabem muito bem que mentem. Georgette Leblanc foi vítima dessa mistificação quando reclamou de Maeterlinck queinscrevesse os nomes de ambos no livro que ela acreditava terem escrito juntos. No prefácio de Souvenirs, Grasset explica sem cerimônia que todohomem concorda em saudar, na mulher com quem partilha a vida, uma sócia, uma inspiradora, mas nem por isso encara seu trabalho como lhepertencendo pessoalmente; e com razão. Em toda ação, em toda obra é o momento da escolha e da decisão que conta. A mulher desempenhageralmente o papel da bola de cristal que os videntes consultam: qualquer uma serviria. E a prova está em que muitas vezes o homem acolhe com amesma confiança outra conselheira, outra colaboradora. Sofia Tolstoi copiava os manuscritos do marido, passava-os a limpo: mais tarde ele encarregouuma das filhas do trabalho; Sofia compreendeu então que nem o seu zelo a tornara indispensável. Só um trabalho autônomo pode assegurar à mulheruma autonomia autêntica.381A vida conjugal assume, segundo os casos, aspectos diferentes. Para numerosas mulheres o dia desenrola-se mais ou menos da mesma maneira. Pelamanhã, o marido deixa a esposa apressadamente: é com prazer que ela ouve a porta fechar-se atrás dele; gosta de reencontrar-se livre, sem ordens,soberana em sua casa. Os filhos partem por sua vez para a escola: ela ficará sozinha durante o dia todo; o bebê que se agita no berço ou brinca noparque não é uma companhia. Ela dedica um tempo mais ou menos demorado à toalete, à casa; se tem criada, dá-lhe ordens, fica um pouco na cozinhatagarelando; ou dá um giro na feira, troca algumas palavras sobre o custo de vida com as vizinhas ou os fornecedores. Se o marido e os filhos voltampara almoçar, ela não aproveita muito a presença deles; tem muito o que fazer, preparar a refeição, servir, tirar a mesa; geralmente eles não voltam. Dequalquer maneira tem diante de si uma tarde longa e vazia. Leva os filhos mais novos ao jardim público, faz tricô ou cose enquanto os vigia; ou sentadaà janela, em casa, conserta roupa; suas mãos trabalham, seu espírito não; remói preocupações, esboça projetos; devaneia, se aborrece; nenhuma desuas ocupações se basta a si mesma; seu pensamento está voltado para o marido, para os filhos que usarão essas camisas, que comerão a comida queela prepara; vive só para eles; em que eles lhe são gratos? Pouco a pouco seu tédio vira impaciência, ela começa a esperar com ansiedade a volta deles.Os filhos chegam da escola, ela beija-os, interroga-os, mas eles precisam fazer suas lições, têm vontade de brincar, escapam, não são uma distração.Além disso, tiveram notas ruins, perderam um lenço, fazem barulho, desordem, brigam; é sempre mais ou menos preciso ralhar com eles; a presençadeles cansa mais a mãe do que a acalma. Ela espera cada vez mais imperiosamente o marido. Que estará fazendo? Por que não voltou ainda? Eletrabalhou, viu gente, conversou, não pensou nela; põe-se a ruminar com nervosismo que é tola por sacrificar sua mocidade; ele não lhe será grato. Omarido, a caminho da casa onde a mulher se encerrou, sente que é vagamente culpado; nos primeiros tempos de casado, trazia umas flores, umpresentinho; mas esse rito logo perde o sentido; agora ele chega de mãos abanando e não tem pressa em chegar, pois conhece o acolhimento cotidiano.Com efeito, muitas vezes a mulher vinga-se do tédio com uma cena, vinga-se da espera do dia; com isso previne-se também contra a decepção que nãosatisfará as esperanças da espera. Mesmo se cala suas queixas, o marido por sua vez está desiludido. Não se divertiu no escritório, está cansado; temum desejo contraditório de excitação e repouso. A fisionomia demasiado familiar da mulher não o arranca de si mesmo; sente que ela gostaria que elepartilhasse as suas preocupações, que espera também distração e relaxamento: sua presença lhe pesa sem lhe dar satisfação ou descanso verdadeiro.Os filhos não trazem tampouco divertimento ou paz: refeição e noite decorrem em meio a um vago mau humor; lendo, ouvindo o rádio, conversandosem interesse. Sob a intimidade aparente, continuarão sós. Entretanto, a mulher pergunta-se com uma esperança ansiosa — ou uma apreensão nãomenos ansiosa — se nessa noite (finalmente! ainda!) alguma coisa acontecerá. Adormece, desiludida, irritada ou aliviada; é com prazer que ouvirá aporta bater amanhã cedo. A sorte das mulheres é tanto mais dura quanto forem mais pobres e sobrecarregadas de trabalho; melhora quando têmlazeres e distrações ao mesmo tempo. Mas este esquema — tédio, espera, decepção — se encontra em muitos casos.Certas evasões382 apresentam-se à mulher; mas na prática não são permitidas a todas. Na província particularmente, as cadeias do matrimônio sãopesadas; é preciso que a mulher encontre uma maneira de assumir uma situação a que não pode fugir. Algumas há, já vimos, que se enchem deimportância e tornam-se matronas tirânicas, megeras. Outras comprazem-se no papel de vítimas, fazem-se escravas infelizes do marido, dos filhos, etiram disso uma alegria masoquista. Outras perpetuam as condutas narcisistas que descrevemos a propósito da jovem; sofrem, elas também, de não serealizar em nenhum empreendimento e de, não se “fazendo ser nada”, não serem nada. Indefinidas, sentem-se ilimitadas e se imaginammenosprezadas; rendem-se a si mesmas um culto melancólico; refugiam-se em sonhos, em comédias, doenças, manias, cenas; criam dramas em tornode si ou se encerram em um mundo imaginário; a “sorridente Mme Beudet” que Amiel pintou é dessa espécie. Encerrada na monotonia de uma vidaprovinciana, ao lado de um marido grosseiro, não tendo oportunidade de agir nem de amar, é corroída pelo sentimento do vazio e da inutilidade de suavida; tenta encontrar uma compensação em devaneios romanescos, nas flores de que se cerca, nos vestidos, em sua personagem: até esses jogos omarido perturba. Ela acaba tentando matá-lo. As condutas simbólicas com que a mulher se evade podem acarretar perversões, suas obsessões podemlevar ao crime. Há crimes conjugais que são ditados menos por interesse do que por puro ódio. Assim é que Mauriac nos mostra Thérèse Desqueyrouxtentando envenenar o marido, como o fez outrora Mme Lafarge. Absolveu-se ultimamente uma mulher de quarenta anos que durante vinte suportaraum marido odioso e que um dia, friamente, o estrangulara com a ajuda do filho mais velho. Não havia para ela outro meio de se libertar de umasituação intolerável.A uma mulher que intenta viver sua situação com lucidez e autenticidade não sobra muitas vezes outro socorro a não ser um orgulho estoico. Comodepende de tudo e de todos, só pode conhecer uma liberdade toda interior, logo abstrata; recusa os princípios e os valores convencionais, julga,interroga e assim escapa da escravidão conjugal; mas sua reserva altiva, sua adesão à fórmula “suporta e abstém-te” constituem apenas uma atitudenegativa. Endurecida na renúncia, no cinismo, carece de um emprego positivo de suas forças; enquanto é entusiasta, viva, esforça-se engenhosamentepor utilizá-las: auxilia os outros, consola, protege, dá, multiplica suas ocupações; mas sofre por não encontrar nenhuma tarefa que realmente a solicite,por não consagrar sua atividade a nenhum fim. Corroída, muitas vezes, pela solidão e pela esterilidade, acaba por se renegar, se destruir. Exemplonotável de um tal destino nos é dado por Mme de Charrière. No atraente livro que lhe dedicou,383 Geoffrey Scott a apresenta com “traços de fogo,fronte de gelo”. Mas não foi a razão que apagou nela essa chama de vida que, no dizer de Hermenches, teria “aquecido um coração de lapão”; foi ocasamento que lentamente assassinou a deslumbrante Bela de Zuylen; fez de sua resignação razão: fora preciso heroísmo ou gênio para inventar outrasaída. Que suas grandes e raras qualidades não tenham bastado para salvá-la, é uma das mais irrecusáveis condenações da instituição conjugal que senos deparam na história.Brilhante, culta, inteligente, ardente, Mlle de Zuylen espantava a Europa; assustava os pretendentes; recusou contudo mais de doze, mas outros, talvezmais aceitáveis, recuaram. O único homem que a interessava, Hermenches, não havia como pensar em tê-lo por marido. Manteve, com ele,correspondência durante 12 anos, mas essa amizade, seus estudos, acabaram não lhe bastando mais; “virgem e mártir” é um pleonasmo, dizia; e aslimitações da vida em Zuylen eram para ela insuportáveis; queria tornar-se mulher, ser livre; com trinta anos, desposou M. de Charrière; apreciava a“honestidade de coração” que encontrava nele, “seu espírito de justiça”, e resolveu a princípio fazer dele “o marido mais ternamente amado do mundo”.Benjamin Constant contará mais tarde que ela “o atormentara muito para imprimir-lhe um ritmo igual ao seu”; não conseguiu vencer a fleuma metódicadele; encerrada em Colombier entre esse marido honesto e melancólico, um sogro senil, duas cunhadas sem encantos, Mme de Charrière começou aentediar-se. A sociedade provinciana de Neufchâtel a desagradava pelo espírito estreito e a chatice; passava os dias lavando a roupa da casa e as noitesa jogar comète. Um jovem atravessou sua vida, rapidamente, e deixou-a ainda mais só do que antes. “Valendo-se do tédio como musa” escreveu quatroromances sobre os costumes de Neufchâtel, e o círculo de amigos diminuiu mais ainda. Em uma de suas obras, ela descreveu a prolongada desgraça deum casamento de uma mulher viva e sensível com um homem bom mas frio e pesadão: a vida conjugal apresentava-se a ela como uma sequência demal-entendidos, decepções, pequenos rancores. Era visível que ela própria era infeliz; caiu doente, restabeleceu-se, retornou à longa solidão de suavida a dois. “É evidente que a rotina da vida em Colombier e a doçura negativa e cordata do marido abriam vazios que nenhuma atividade podiapreencher”, escreve seu biógrafo. Foi então que surgiu Benjamin Constant, que a ocupou apaixonadamente durante oito anos. Quando, demasiadoaltiva para disputá-lo com Mme de Staël, renunciou a ele, seu orgulho consolidou-se. Escrevera-lhe um dia: “Ficar em Colombier era para mim odioso, enunca voltava lá sem desespero. Não quis mais deixá-lo e tornei-o suportável.” Ali se fechou e não saiu de seu jardim durante 15 anos: assim aplicavaela o preceito estoico: procurar dominar o coração ao invés da sorte. Prisioneira, só podia encontrar a liberdade escolhendo sua prisão. “Aceitava apresença de M. de Charrière a seu lado como aceitava a dos Alpes”, diz Scott. Mas era demasiado lúcida para não compreender que essa resignaçãonão passava afinal de uma ilusão; tornou-se tão inacessível, tão dura, adivinhavam-na tão desesperada que assustava. Abrira sua casa aos emigradosque afluíam a Neufchâtel, protegia-os, socorria-os, orientava-os; escrevia obras elegantes e desencantadas que Hüber, filósofo alemão na miséria,traduzia; prodigalizava seus conselhos a um grupo de jovens senhoras e ensinava Locke a Henriette, sua predileta; gostava de desempenhar o papel deprovidência junto aos camponeses dos arredores; evitando cada vez mais cuidadosamente a sociedade de Neufchâtel, restringia orgulhosamente suavida; “esforçava-se tão somente por criar a rotina e suportá-la. Mesmo seus gestos de infinita bondade comportavam algo assustador, a tal ponto eraenregelante o sangue-frio que os ditava... Deu a impressão aos que a cercavam de uma sombra que passa num quarto vazio”.384 Em raras ocasiões —uma visita, por exemplo —, uma chama de vida acendia-se. Mas “os anos passavam de um modo árido. M. e Mme de Charrière envelheciam juntos,separados entretanto por um mundo, e mais de um visitante, dando um suspiro de alívio ao deixar a casa, tinha a impressão de escapar de um túmulofechado... A pêndula batia seu tique-taque, M. de Charrière, embaixo, entregava-se a suas matemáticas; da granja subia o som ritmado dos manguais...A vida continuava embora os manguais lhe tivessem arrancado o grão... Uma vida de pequenos fatos, desesperadamente reduzidos a preencher asmenores fendas do dia, eis a que chegara essa Zélida que detestava a mesquinharia”.Será dito talvez que a vida de M. de Charrière não foi muito mais alegre que a da mulher; ele a escolhera, pelo menos; e parece que convinha à suamediocridade. Imagine-se porém um homem dotado das qualidades excepcionais da Bela de Zuylen: é certo que não se teria consumido na árida solidãode Colombier. Teria conquistado seu lugar no mundo, onde teria empreendido, lutado, agido, vivido. Quantas mulheres, tragadas pelo casamento,


foram, no dizer de Stendhal, “perdidas para a humanidade”! Disseram que o casamento diminui o homem: é muitas vezes verdade; mas aniquila semprea mulher. O próprio Marcel Prévost, defensor do casamento, admite: Cem vezes, ao reencontrar ao fim de alguns anos uma jovem mulher que eu conhecera solteira, ficava impressionado com a banalidade de seu caráter, com a insignificância de sua vida. São quase as mesmas palavras que encontramos nos escritos de Sofia Tolstoi, seis meses depois de seu casamento. Minha existência é de uma tal banalidade, é uma morte. Ao passo que ele tem uma vida plena, uma vida interior, talento e imortalidade (23-12-1863). Alguns meses antes deixara escapar outra queixa: Como poderia uma mulher contentar-se com ficar sentada durante todo o dia, com uma agulha na mão, ou a tocar piano, sozinha, absolutamente só, se pensa que o marido não a ama e a reduziu para sempre à escravidão? (9 de maio de 1863). Doze anos mais tarde escreve estas palavras que, ainda hoje, muitas mulheres casadas subscrevem (22-10-1875): Hoje, amanhã, meses, anos, é sempre, sempre a mesma coisa. Acordo de manhã e não tenho coragem de sair da cama. Quem me ajudará a me sacudir? Que é que me espera? Sim, eu sei, o cozinheiro vai chegar e depois será a vez de Niannia. Em seguida vou sentar-me em silêncio com um bordado inglês, depois, gramática e escalas. Ao cair da noite voltarei a meu bordado inglês, enquanto titia e Pierre farão suas eternas paciências... A queixa de Mme Proudhon tem exatamente o mesmo tom. “Você tem suas ideias, dizia ao marido. Mas eu, quando você trabalha, quando os filhosestão na escola, não tenho nada.”Muitas vezes, durante os primeiros anos, a mulher acalenta ilusões, tenta admirar incondicionalmente o marido, amá-lo sem restrições, sentir-seindispensável a ele e aos filhos; depois, seus verdadeiros sentimentos se revelam; percebe que o marido poderia viver sem ela, que os filhos são feitospara se desprenderem dela: são sempre mais ou menos ingratos. O lar não a protege mais contra sua liberdade vazia; encontra-se solitária,abandonada, um sujeito; não sabe o que fazer de si mesma. Afeições, hábitos podem ser-lhe de grande auxílio, não uma salvação. Todas as escritorassinceras observaram essa melancolia que habita o coração das “mulheres de 30 anos”; é um traço comum às heroínas de Katherine Mansfield, deDorothy Parker, de Virginia Woolf. Cécile Sauvage, que cantou tão alegremente, no início da vida, o casamento e a maternidade, exprimeposteriormente uma delicada aflição. É de notar, comparando o número de suicídios femininos perpetrados por celibatárias e mulheres casadas, queestas se acham solidamente protegidas contra o desgosto de viver entre os vinte e os trinta anos (principalmente entre os 25 e os trinta), mas não nosanos seguintes. “Quanto ao casamento, escreve Halbwachs,385 protege as mulheres da província tanto quanto as de Paris, principalmente até os trintaanos, mas cada vez menos nas idades seguintes.”O drama do casamento não está no fato de que não assegura à mulher a felicidade que promete — não há seguro de felicidade — e sim no fato de que amutila; obriga a mulher à repetição e à rotina. Os vinte primeiros anos da vida feminina são de extraordinária riqueza; a mulher passa pelasexperiências da menstrua-ção, da sexualidade, do casamento, da maternidade; descobre o mundo e seu destino. Com vinte anos, dona de um lar, presapara sempre a um homem, com um filho nos braços, eis a vida acabada definitivamente. As ações verdadeiras, o verdadeiro trabalho são apanágio dohomem; ela só tem ocupações que são por vezes exaustivas, mas que jamais a satisfazem. Louvaram-lhe a renúncia, a dedicação; mas parece-lhe muitasvezes inteiramente inútil consagrar-se “ao cuidado de dois seres quaisquer até o fim da vida deles”. É muito bonito esquecer de si mesmo, cumpreporém saber para quem e por quê. O pior é que até sua dedicação se apresenta como importuna; converte-se aos olhos do marido em uma tirania a queele tenta escapar; e no entanto é ele que a impõe à mulher como sua suprema e única justificativa. Ao desposá-la, obriga a esposa a se entregartotalmente a ele; não aceita a obrigação recíproca, que é aceitar o dom. As palavras de Sofia Tolstoi: “Vivo por ele, para ele; exijo a mesma coisa paramim”, são certamente revoltantes; mas Tolstoi exigia com efeito que ela só vivesse por ele e para ele, atitude que só a reciprocidade pode justificar. É aduplicidade do marido que destina a mulher a uma infelicidade de que ele se queixa em seguida de ser vítima. Assim como na cama, ele a quer quente efria ao mesmo tempo, ele a exige totalmente entregue e no entanto sem peso; pede que o amarre ao chão e que o deixe livre, que lhe garanta arepetição monótona dos dias e que não o aborreça, que esteja sempre presente mas nunca importuna; quer tê-la inteiramente para ele mas não lhepertencer; viver junto mas continuar sozinho. Assim, desde o momento em que a desposa, mistifica-a. Ela passa a existência medindo a extensão dessatraição. O que diz D.H. Lawrence a respeito do amor sexual é geralmente válido: a união de dois seres humanos é destinada ao fracasso, se constitui umesforço para se completarem mutuamente, o que supõe uma mutilação original; seria preciso que o casamento fosse a união de duas existênciasautônomas, não uma abdicação, uma anexação, uma fuga, um remédio. É o que compreende Nora386 quando decide que, antes de poder ser uma esposae mãe, precisa tornar-se uma pessoa. Seria necessário que o casal não se considerasse como uma comunidade, uma célula inconsútil, e sim que oindivíduo fosse, enquanto indivíduo, integrado numa sociedade no seio da qual pudesse desabrochar sem ajuda; seria então permitido a ele, dentro deuma generosidade pura, criar laços com outro indivíduo igualmente adaptado à coletividade, laços que teriam fundamentos no reconhecimento de duasliberdades.Esse casal equilibrado não é uma utopia; existe por vezes dentro do quadro do casamento, o mais das vezes fora. Alguns são unidos por um grandeamor sexual que os deixa livres em suas amizades e ocupações; outros são ligados por uma amizade que não entrava sua liberdade sexual; há, maisraramente, os que são ao mesmo tempo amigos e amantes, mas sem procurar um no outro sua razão exclusiva de viver. Numerosos matizes sãopossíveis nas relações de um homem com uma mulher: na camaradagem, no prazer, na confiança, na ternura, na cumplicidade, no amor, podem ser umpara o outro a mais fecunda fonte de alegria, de riqueza, de força que se propõe a um ser humano. Não são os indivíduos os responsáveis pelo fracassodo casamento: é — ao contrário do que pretendem Bonald, Comte, Tolstoi — a própria instituição, desde a origem, pervertida. Declarar que um homeme uma mulher, que não se escolheram sequer, devem bastar-se de todas as maneiras ao mesmo tempo durante toda a vida é uma monstruosidade queengendra necessariamente hipocrisia, mentira, hostilidade, infelicidade.A forma tradicional do casamento vem sofrendo modificações, mas o casamento constitui ainda uma opressão que os dois cônjuges sentem de maneiradiferente. Considerando-se apenas os direitos abstratos de que gozam, são ambos quase iguais hoje; escolhem-se mais livremente do que outrora,podem muito mais facilmente separar-se, sobretudo na América do Norte, onde o divórcio é comum; há entre os esposos menor diferença de idade e decultura do que antes; o marido reconhece com maior boa vontade a autonomia que a mulher reivindica; algumas vezes partilham em igualdade decondições os cuidados da casa; suas distrações são comuns: camping, bicicleta, natação etc. Ela não passa os dias aguardando a volta do marido:pratica esporte, filia-se a associações, a clubes, tem ocupações fora de casa, tem até, às vezes, uma pequena atividade que lhe dá algum dinheiro.Muitos jovens casais dão a impressão de uma perfeita igualdade. Mas, enquanto o homem conserva a responsabilidade econômica do casal, isso nãopassa de ilusão. Ele é quem fixa o domicílio conjugal segundo as exigências de seu trabalho: ela o acompanha da província para Paris, de Paris para aprovíncia, às colônias, ao estrangeiro; o nível de vida estabelece-se de acordo com o que ele ganha; o ritmo dos dias, das semanas do ano regula-se emobediência às ocupações dele e de sua profissão dependem muitas vezes as relações e amizades. Estando mais positivamente integrado na sociedade doque a mulher, o marido conserva a direção do casal nas coisas intelectuais, políticas e morais. O divórcio para a mulher é apenas uma possibilidadeabstrata, não tendo ela meios de ganhar a própria vida: se na América do Norte o alimony é um pesado encargo para o homem, na França a sorte damulher, da mãe abandonada com uma mesada irrisória, é um escândalo. Mas a desigualdade profunda vem do fato de que o homem se realizaconcretamente no trabalho ou na ação, ao passo que, para a esposa, enquanto esposa, a liberdade tem apenas um aspecto negativo: a situação dasjovens norte-americanas lembra a das romanas emancipadas da decadência. Vimos que estas tinham a escolha entre dois tipos de conduta: umasperpetuavam o modo de vida e as virtudes das avós; outras passavam a vida numa agitação vã; assim também numerosas norte-americanaspermanecem “mulheres do lar” segundo o modelo tradicional; outras, em sua maioria, não fazem senão dissipar suas forças e seu tempo. Na França,por maior que seja a boa vontade do marido, os encargos do lar não acabrunham menos que outrora a mulher casada, desde que se torne mãe.É lugar-comum declarar que nos lares modernos, e principalmente nos Estados Unidos, a mulher reduz o homem à escravidão. O fato não é novo. Desdeos gregos os homens se queixam da tirania de Xantipa; a verdade é que a mulher intervém agora em terrenos que lhe eram outrora proibidos; conheço,por exemplo, mulheres de estudantes que dedicam ao êxito de seu homem uma obstinação frenética; regulam o emprego do tempo, o regime, vigiam otrabalho dele, coíbem-lhe as distrações, pouco falta para que o fechem à chave. É verdade também que o homem se encontra mais desarmado do queoutrora ante esse despotismo; ele reconhece direitos abstratos à mulher e compreende que ela só pode torná-los concretos por meio dele: é a expensaspróprias que ele compensa a impotência, a esterilidade a que a mulher é condenada. Para que na associação de ambos se realize uma aparenteigualdade, é preciso que seja ele quem dê mais, pelo fato de possuir mais. Porém, precisamente, se ela recebe, toma, exige, é porque é a mais pobre. A


dialética do senhor e do escravo encontra aqui sua aplicação mais concreta: oprimindo, torna-se o opressor oprimido. É por sua própria soberania queos homens estão amarrados; é porque só eles ganham dinheiro que a esposa exige cheques, porque só eles exercem uma profissão é que a esposa exigeque tenham êxito, porque só eles encarnam a transcendência é que ela a quer roubar fazendo seus os projetos e os êxitos do marido. Inversamente, atirania exercida pela mulher não faz mais do que manifestar sua dependência: ela sabe que o êxito do casal, seu futuro, sua felicidade e justificaçãodependem do outro; se procura com afinco submetê-lo à sua vontade, é porque está alienada nele. É de sua fraqueza que faz uma arma; mas narealidade ela é fraca. A escravidão conjugal é mais cotidiana e mais irritante para o marido; mas é mais profunda para a mulher; a mulher que retém omarido junto de si durante horas porque se aborrece, cerceia-o e se torna um peso para ele; mas, afinal de contas, ele pode mais facilmente viver semela do que ela sem ele; se a abandona, ela é que fica com a vida arruinada. A grande diferença está em que, na mulher, a dependência é interiorizada:ela é escrava, mesmo quando se conduz com aparente liberdade; ao passo que o homem é essencialmente autônomo e é de fora que está acorrentado.Se tem a impressão de ser a vítima, é porque os encargos que suporta são mais evidentes: a mulher alimenta-se dele como um parasito, e um parasitonão é um senhor triunfante. Na verdade, assim como biologicamente machos e fêmeas nunca são vítimas um do outro mas, juntos, da espécie, assimtambém os esposos suportam juntos a opressão de uma instituição que não criaram. Se se diz que os homens oprimem as mulheres, o marido indigna-se; ele é que se sente oprimido: ele o é. Mas, na realidade, é o código masculino, é a sociedade elaborada pelos homens em obediência a seu interesse,quem definiu a condição feminina sob uma forma que é, presentemente, uma fonte de tormentos para ambos os sexos.É tendo em vista seu interesse comum que seria preciso modificar a situação, proibindo que o casamento seja para a mulher uma “carreira”. Os homensque se declaram antifeministas, a pretexto de que “as mulheres já são bastante infernais assim como são”, raciocinam sem muita lógica: é exatamenteporque o casamento faz delas “fêmeas de louva-a-deus”, “sanguessugas”, “megeras” que é necessário modificar o casamento e, consequentemente, acondição feminina em geral. A mulher pesa tão fortemente ao homem porque foi proibida de se apoiar em si mesma: ele se libertará libertando-a, isto é,dando a ela alguma coisa que fazer neste mundo.Há jovens mulheres que já tentam conquistar essa liberdade positiva; mas raras são as que perseveram durante muito tempo em seus estudos ou suaprofissão; geralmente sabem que o interesse de seu trabalho será sacrificado à carreira do marido; só trarão para o lar um salário suplementar; só seempenham timidamente num trabalho que não as arranque à servidão conjugal. Mesmo as que têm uma profissão séria não tiram dela os mesmosbenefícios sociais que os homens: as mulheres de advogados, por exemplo, têm direito a uma pensão quando do falecimento do marido, mas recusou-seàs advogadas o direito simétrico de deixar uma pensão ao marido no caso de falecimento. Isso significa que não se considera que a mulher que trabalhasustente o casal em pé de igualdade com o homem. Há mulheres que encontram em sua profissão uma independência verdadeira; mas são numerosasaquelas para quem o trabalho “fora de casa” não representa no quadro do casamento senão uma fadiga a mais. Aliás, frequentemente, o nascimento deum filho obriga-as a se confinarem em seu papel de matrona; é atualmente muito difícil conciliar trabalho com maternidade.É precisamente o filho que, segundo a tradição, deve assegurar à mulher uma autonomia concreta que a dispense de se dedicar a qualquer outro fim.Se como esposa não é um indivíduo completo, ela se torna esse indivíduo como mãe: o filho é sua alegria e sua justificação. É por ele que ela acaba dese realizar sexual e socialmente; é, pois, por ele que a instituição do casamento assume um sentido e atinge seu objetivo. Examinemos, portanto, essasuprema etapa do desenvolvimento da mulher.


2/A mãeÉ pela maternidade que a mulher realiza integralmente seu destino fisiológico; é a maternidade sua vocação “natural”, porquanto todo o seu organismose acha voltado para a perpetuação da espécie. Mas já se disse que a sociedade humana nunca é abandonada à natureza. E, particularmente, há umséculo, mais ou menos, a função reprodutora não é mais comandada pelo simples acaso biológico: é controlada pela vontade.387 Certos países adotaramoficialmente métodos precisos de controle de natalidade; nas nações submetidas à influência do catolicismo, esse controle realiza-se clandestinamente:ou o homem pratica o coitus interruptus ou a mulher expulsa os espermatozoides do corpo após o ato amoroso. Isso constitui, muitas vezes, uma fontede conflitos e rancores entre amantes ou esposos; o homem irrita-se por ter de vigiar seu prazer; a mulher detesta a tarefa da lavagem; ele se ressentecom a fecundidade do ventre da mulher; ela receia esses germes de vida que ele arrisca depositar nela. E é uma consternação para ambos quando,apesar das precauções, ela “pega” um filho. O caso é frequente nos países em que os métodos anticoncepcionais são rudimentares. Então o anti-physisassume uma forma particularmente grave: o aborto. Igualmente proibido nos países que autorizam o controle de natalidade, tem muito menor númerode oportunidades de se propor. Mas na França é uma operação a que numerosas mulheres se veem obrigadas a recorrer e que assombra a vidaamorosa da maioria delas.Há poucos assuntos a cujo respeito a sociedade burguesa demonstre maior hipocrisia: o aborto é um crime repugnante a que é indecente aludir. Queum escritor descreva as alegrias e os sofrimentos de uma parturiente, é perfeito; que fale de uma abortante e logo o acusarão de chafurdar naimundície e de descrever a humanidade sob um aspecto abjeto: ora, há na França anualmente número igual de abortos e de nascimentos. É umfenômeno tão expandido que cumpre considerá-lo como um dos riscos normalmente implicados na condição feminina. O código obstina-se, entretanto, afazer dele um delito: exige que essa operação delicada seja executada clandestinamente. Nada mais absurdo do que os argumentos invocados contra alegislação do aborto. Pretende-se que se trata de uma intervenção perigosa. Mas os médicos honestos reconhecem, como o Dr. Magnus Hirschfeld, que“o aborto feito pela mão de um médico especialista, numa clínica e com as medidas preventivas necessárias, não comporta esses graves perigos cujaexistência a lei afirma”. É, ao contrário, em sua forma atual que ele faz a mulher correr grandes riscos. A falta de competência das “fazedoras deanjos”, as condições em que operam, provocam muitos acidentes, por vezes mortais. A maternidade forçada leva a botar no mundo crianças doentias,que os pais serão incapazes de alimentar, que se tornarão vítimas da Assistência Pública, ou “crianças mártires”. Cabe observar, aliás, que a sociedadetão encarniçada na defesa dos direitos do embrião se desinteressa da criança a partir do nascimento; perseguem as praticantes do aborto em vez deprocurarem reformar essa escandalosa instituição que chamam Assistência Pública; deixam em liberdade os responsáveis que entregam os pupilos averdugos; fecham os olhos à horrível tirania que exercem “em casas de educação” ou em residências privadas os carrascos de crianças; se recusam aadmitir que o feto pertence à mulher que o traz no ventre, e asseguram por outro lado que o filho é coisa dos pais; acabamos de ver na mesma semanaum cirurgião condenado por práticas abortivas suicidar-se e um pai, que batera no filho até quase matá-lo, ser condenado a apenas três meses deprisão com sursis. Recentemente, um pai deixou o filho morrer de difteria por falta de cuidados; uma mãe recusou chamar um médico para a filha, emnome de seu abandono incondicionado à vontade divina: crianças jogaram-lhe pedras no cem itério, mas com a indignação de alguns jornalistas, umacoorte de pessoas de bem protestou declarando que os filhos pertenciam aos pais, que qualquer controle estranho era inaceitável. Há hoje “um milhãode crianças em perigo” diz o jornal Ce Soir; e France-Soir imprime que “quinhentas mil crianças se encontram em perigo físico ou moral”. No norte daÁfrica, a mulher árabe não tem a possibilidade de provocar voluntariamente o aborto: em cada dez filhos que concebe, sete ou oito morrem e ninguémse incomoda que as penosas e difíceis maternidades matem o sentimento materno. Se a moral se satisfaz com isso, que pensar de tal moral? É precisoacrescentar que os homens que mais respeitam a vida embrionária são também os que se mostram mais diligentes quando se trata de condenar adultosa uma morte militar.As razões práticas invocadas contra o aborto legal não têm nenhum peso; quanto às razões morais, reduzem-se ao velho argumento católico: o fetopossui uma alma a que se veda o paraíso, suprimindo-o antes do batismo. É de observar que a Igreja autoriza ocasionalmente a morte de homens feitos:nas guerras ou quando se trata de condenados à morte; reserva porém para o feto um humanitarismo intransigente. Não é ele resgatado pelo batismo,mas, na época das guerras santas contra os infiéis, estes não o eram tampouco e o massacre deles era fortemente encorajado. As vítimas da Inquisiçãonão se achavam sem dúvida todas em estado de graça, como hoje o criminoso que é guilhotinado ou os soldados que morrem no campo de batalha. Emtodos esses casos, a Igreja confia a decisão a Deus; ela admite que o homem não passa de um instrumento em sua mão e que a salvação de uma alma seresolve entre essa alma e Deus. Por que proibir então que Deus acolha uma alma embrionária em seu Céu? Se um concílio o autorizasse, ele nãoprotestaria como não o fez na bela época do piedoso massacre dos índios. Em verdade, chocamo-nos aqui contra uma velha tradição obstinada que nadatem a ver com a moral. É preciso contar também com esse sadismo masculino de que já tive a oportunidade de falar. O livro que o Dr. Roy dedicou aPétain em 1943 é um exemplo edificante; é um monumento de má-fé. Insiste ele, paternalmente, sobre os perigos do aborto, mas nada lhe parece maishigiênico do que uma cesariana. Ele quer que o aborto seja considerado um crime e não um delito; deseja que seja proibido mesmo em sua formaterapêutica, isto é, quando a gravidez põe em perigo a vida ou a saúde da mãe: é imoral escolher entre uma vida e outra, declara, e apoiando-se nesseargumento aconselha a sacrificar a mãe. Declara que o feto não pertence à mãe, que é um ser autônomo. Entretanto, quando esses mesmos médicosbem-pensantes exaltam a maternidade, afirmam que o feto faz parte do corpo materno, que não é um parasito alimentando-se a expensas dele. Vê-se aque ponto o antifeminismo é ainda vivo pela obstinação de certos homens em recusar tudo o que poderia libertar a mulher.Aliás, a lei, que condena à morte, à esterilidade, à doença muitas jovens mulheres, é totalmente impotente em assegurar um aumento da natalidade.Um ponto acerca do qual concordam partidários e inimigos do aborto legal, é o fracasso radical da repressão. Segundo os professores Doléris,Balthazard, Lacassagne, teria havido na França quinhentos mil abortos por ano, por volta de 1933; uma estatística (citada pelo Dr. Roy), de 1938,calculava o número em um milhão. Em 1941, o Dr. Aubertin, de Bordéus, hesitava entre oitocentos mil e um milhão. Esta última cifra parece a maispróxima da verdade. Em um artigo de Combat, datado de março de 1948, o Dr. Desplas escreve: O aborto entrou nos costumes... A repressão praticamente fracassou... No Seine, em 1943, 1.300 inquéritos acarretaram 750 inculpações com 360 mulheres detidas, 513 condenações de menos de um ano a mais de cinco, o que é pouco em relação aos 15.000 abortos presumidos no departamento. Em todo o território contam-se dez mil processos. E acrescenta: O aborto dito criminoso é tão familiar a todas as classes sociais quanto as políticas anticoncepcionais aceitas pela nossa sociedade hipócrita. Dois terços das abortadas são mulheres casadas... Pode-se estimar aproximadamente que há na França o mesmo número de abortos que de nascimentos. Em consequência de ser a operação praticada em condições frequentemente desastrosas, muitos abortos terminam com a morte da abortada. Dois cadáveres de mulheres abortadas chegam por semana ao instituto médico-legal de Paris; muitos abortos provocam doenças definitivas. Disseram às vez es que o aborto era um “crime de classe” e é em grande parte verdade. As práticas anticoncepcionais são muito mais espalhadas naburguesia; a existência do banheiro torna sua aplicação mais fácil do que entre os operários e camponeses privados de água corrente; as moças daburguesia são mais prudentes do que as outras; os filhos representam um fardo menos pesado para o casal: a pobreza, a crise de habitação, anecessidade de a mulher trabalhar fora de casa figuram entre as causas mais frequentes do aborto. Parece que é muitas vezes depois de duasmaternidades que o casal resolve restringir os nascimentos; de modo que a abortada de traços horríveis é também a mãe magnífica que embala nosbraços dois anjos louros: a mesma mulher. Em um documento publicado em Temps Modernes de outubro de 1945, sob o títudo de “Sala Comum”, MmeGeneviève Sarreau descreve uma enfermaria de hospital em que teve a oportunidade de ficar algum tempo e onde muitas das doentes acabavam desofrer curetagens: 15 em 18 tinham tido abortos, sendo que mais de metade provocados. A número 9 era mulher de um carregador do mercado; de doiscasamentos tivera dez filhos vivos, dos quais só restavam três, e sete abortos sendo cinco provocados; empregava de bom grado a técnica do “gancho”,que expunha com complacência, e também comprimidos que indicava às companheiras. A número 16, com 16 anos, casada, tivera aventuras e sofria deuma salpingite em consequência de um aborto. A número 7, de 35 anos, explicava: “Faz vinte anos que estou casada, nunca o amei; durante vinte anosconduzi-me decentemente. Há três meses tive um amante. Uma só vez num quarto de hotel. Fiquei grávida... Então foi preciso, não é? Pus para fora.Ninguém sabe, nem meu marido, nem... ele. Agora acabou, nunca mais recomeçarei. Sofre-se demais... Não me refiro à curetagem... Não, não, é outracoisa: é... amor-próprio, compreende”. A número 14 tivera cinco filhos em cinco anos; com quarenta anos parecia uma mulher velha. Em todas haviauma resignação feita de desespero: “a mulher foi feita para sofrer”, diziam tristemente.A gravidade dessa experiência varia muito segundo as circunstâncias. A mulher burguesamente casada ou confortavelmente sustentada, apoiada numhomem, com dinheiro e relações sociais, leva grande vantagem; primeiramente obtém muito mais facilmente uma licença para um aborto “terapêutico”;se necessário, tem os meios de pagar uma viagem à Suíça onde o aborto é largamente tolerado; nas condições atuais da ginecologia, é uma operaçãobenigna quando executada por especialista, com todas as garantias da higiene e, se preciso, os recursos da anestesia. Na ausência da cumplicidade


oficial, ela encontra ajudas oficiosas igualmente seguras: conhece bons endereços, tem bastante dinheiro para pagar cuidados conscienciosos e semesperar que a gravidez se ache adiantada: irão tratá-la com consideração; algumas dessas privilegiadas acreditam que esse pequeno acidente faz bem àsaúde e dá brilho à tez. Inversamente há poucas desgraças mais lamentáveis do que a de uma moça sozinha, sem dinheiro, que se vê acuada a um“crime” a fim de apagar a mancha de um “erro” que os seus não perdoariam: é anualmente na França o caso de cerca de trezentas mil empregadas,secretárias, estudantes, operárias, camponesas; a maternidade ilegítima é ainda um problema tão terrível que muitas preferem o suicídio ou oinfanticídio à condição de mãe solteira: isso quer dizer que nenhuma penalidade a impediria de “botar para fora o filho”. Caso banal e que se encontramuitas vezes é o que vem relatado numa confissão recolhida pelo Dr. Liepmann.388 Trata-se de uma berlinense, filha natural de um sapateiro e de umadoméstica: Travei relações com o filho de um vizinho, dez anos mais velho do que eu... As carícias me pareceram tão inéditas que, meu Deus, deixei correr a coisa. Entretanto, de modo nenhum aquilo era amor. Ele continuou porém a iniciar-me, dando-me a ler livros sobre a mulher; finalmente dei a ele a minha virgindade. Quando, depois de uma espera de dois meses, aceitei um lugar de preceptora na escola maternal de Speuze, estava grávida. Não tive mais regras durante dois outros meses. Meu sedutor escrevia-me que era absolutamente necessário fazê-las voltar bebendo petróleo e comendo sabão de cinza. Não sou capaz agora de descrever-lhe os tormentos que sofri... Tive que ir sozinha até o fim dessa miséria. O medo de ter um filho levou-me a fazer a coisa horrorosa. Foi então que aprendi a odiar o homem. O pastor da escola, tendo sabido da história por uma carta perdida, prega-lhe um sermão e ela separa-se do rapaz; tratam-na como ovelha negra. Foi como se tivesse vivido dezoito meses numa casa de correção. Em seguida ela se emprega como babá na casa de um professor e aí permanece quatro anos. Nessa época aprendi a conhecer um magistrado. Senti-me feliz por ter um homem de verdade a amar. Com meu amor dei-lhe tudo. Como consequência de nossas relações, aos 24 anos dei à luz um menino bem-constituído. A criança tem hoje dez anos. Há nove anos e meio que não r evejo o pai... como eu achasse insuficiente a importância de 2.500 marcos e como, por seu lado, recusando dar um nome ao filho, renegasse sua paternidade, tudo terminou entre nós. Nenhum homem me inspira mais desejo. É muitas vezes o próprio sedutor que convence a mulher a se livrar do filho. Ou ele já a abandonou quando fica grávida, ou ela quer generosamenteesconder-lhe a desgraça, ou não encontra nenhum auxílio nele. Por vezes não é sem o lamentar que recusa o filho; ou porque não resolve logo suprimi-lo, ou porque não conhece nenhum endereço, ou ainda porque não tem dinheiro disponível e perdeu tempo tentando drogas ineficientes; já chegou aoterceiro, quarto, quinto mês da gravidez quando decide livrar-se do feto; o aborto será então infinitamente mais perigoso, mais comprometedor do quedurante as primeiras semanas. A mulher sabe disso; é com angústia e desespero que tenta livrar-se dele; no campo, o emprego da sonda não é muitoconhecido; a camponesa que “errou” deixa-se cair da escada do celeiro, rola pelos degraus da escadaria, e muitas vezes machuca-se sem resultado; porisso acontece que se encontre nas cercas, nos cerrados, nas latrinas, algum cadaverzinho estrangulado. Na cidade, as mulheres auxiliam-semutuamente. Mas nem sempre é fácil descobrir uma “fazedora de anjos” e menos ainda juntar a importância exigida; a mulher grávida pede socorro aum amiga ou opera-se a si mesma; essas cirurgiãs ocasionais são muitas vezes pouco competentes; facilmente se perfuram com o gancho ou a agulhade tricô; um médico contou-me que uma cozinheira ignorante, querendo injetar vinagre no útero, injetou-o na bexiga, o que lhe provocou horríveissofrimentos. Brutalmente executado e maltratado, o aborto, muitas vezes mais penoso do que um parto normal, é seguido de perturbações nervosaspodendo ir até a beira do ataque epiléptico, provoca às vezes graves moléstias internas e pode desencadear uma hemorragia mortal. Colette contou emGribiche a dura agonia de uma pequena dançarina de music hall entregue às mãos ignorantes da mãe; um remédio habitual era, diz, beber uma soluçãoconcentrada de sabão e correr em seguida durante um quarto de hora: com tais tratamentos é muitas vezes matando a mãe que se suprime o filho.Falaram-me de uma datilógrafa que ficou durante quatro dias no quarto, banhada em sangue, sem comer nem beber, porque não ousara pedir socorro.É difícil imaginar abandono mais horrível do que esse em que a ameaça da morte se confunde com a do crime e da vergonha. A provação é menos rudeno caso de mulheres pobres, mas casadas, que agem de acordo com o marido e sem se atormentarem com escrúpulos inúteis: uma assistente socialdisse-me que nas favelas elas se aconselham mutuamente, emprestam instrumentos e se assistem tão simplesmente quanto se se tratasse de extirparcalos dos pés. Mas suportam duros sofrimentos físicos; os hospitais são obrigados a receber a mulher cuj o abortamento se acha iniciado; mas acastigam sadicamente recusando-lhe qualquer calmante durante a operação final da curetagem. Como se vê do testemunho recolhido por G. Sarreau,tais perseguições não indignam sequer as mulheres, demasiado habituadas ao sofrimento: mas elas são sensíveis às humilhações de que as cumulam. Ofato de ser a operação clandestina e criminosa multiplica-lhe os perigos e dá-lhe um caráter abjeto e angustiante. Dor, doença, morte assumem umaspecto de castigo: sabe-se que distância separa o sofrimento da tortura, o acidente da punição; através dos riscos que assume, a mulher sente-seculpada; é essa interpenetração da dor e do erro que é singularmente penosa.Esse aspecto moral do drama é sentido com maior ou menor intensidade segundo as circunstâncias. Para as mulheres muito livres de preconceitos,graças à sua fortuna, à sua situação social, ao meio a que pertencem, e para aquelas a quem a pobreza ou a miséria ensinaram o desdém da moralburguesa, quase não há problema: há um momento mais ou menos desagradável a passar, e é preciso passar por ele, eis tudo. Mas numerosas mulheressão intimidadas por uma moral que guarda prestígio a seus olhos, embora não possam adaptar sua conduta a ela; respeitam interiormente a lei queinfringem e sofrem por cometer um delito; sofrem ainda mais por terem de apelar para cúmplices. Suportam primeiramente a humilhação de mendigar:mendigam um endereço, os cuidados do médico, da parteira; arriscam-se a ser maltratadas com altivez ou se expõem a uma conivência degradante.Convidar deliberadamente outrem a cometer um delito é uma situação que, em sua maioria, os homens ignoram e que a mulher vive num misto demedo e vergonha. Essa intervenção que pede, muitas vezes, em seu coração, ela a rechaça. Acha-se dividida no interior de si mesma. É possível que seudesejo espontâneo seja conservar o filho que impede de nascer; mesmo que não deseje positivamente a maternidade, sente com mal-estar aambiguidade do ato que pratica. Pois se não é verdade que o aborto seja um assassinato, não pode contudo ser tratado como a uma simples práticaanticoncepcional; houve um acontecimento que é um começo absoluto e cujo desenvolvimento se detém. Certas mulheres serão perseguidas pelarecordação desse filho que não houve. Helen Deutsch389 cita o caso de uma mulher casada, psicologicamente normal, que tendo, por causa de suacondição física, perdido duas vezes fetos de três meses, mandou erguer-lhes dois pequenos túmulos de que cuidou com grande devoção, mesmo depoisdo nascimento de numerosos filhos. Com muito mais razão, sendo o aborto provocado, terá muitas vezes a mulher o sentimento de ter cometido umpecado. O remorso, que acompanha na infância o desejo ciumento da morte do irmãozinho recém-nascido, ressuscita e a mulher se sente culpada de terrealmente matado um filho. Melancolias patológicas podem exprimir esse sentimento de culpa. Ao lado das mulheres que pensam ter atentado contrauma vida estranha, muitas há que pensam ter sido mutiladas de uma parte de si mesmas; nasce disso um rancor contra o homem que aceitou ousolicitou a mutilação. É, ainda, H. Deutsch que cita o caso de uma moça profundamente apaixonada pelo amante, que insistiu ela própria em fazerdesaparecer um filho que seria um obstáculo à felicidade de ambos; ao deixar o hospital, recusou-se, e para sempre, a rever o homem que amava. Seuma ruptura tão definitiva é rara, em compensação é frequente que a mulher se torne frígida, seja com todos os homens, seja com o que a engravidou.Os homens tendem a encarar o aborto com displicência; consideram como um desses numerosos acidentes a que a malignidade da natureza condenouas mulheres; não medem os valores que se acham empenhados no aborto. A mulher renega os valores da feminilidade, seus valores, no momento emque a ética masculina se contesta da maneira mais radical. Todo o universo moral dela é abalado. Com efeito, repetem à mulher desde a infância queela é feita para gerar e cantam-lhe o esplendor da maternidade; os inconveni entes de sua condição — regras, doenças etc. —, o tédio das tarefascaseiras, tudo é justificado por esse maravilhoso privilégio de pôr filhos no mundo. E eis que o homem, para conservar sua liberdade, para nãoprejudicar seu futuro no interesse de sua profissão, pede à mulher que renuncie a seu triunfo de fêmea. O filho não é mais um tesouro sem preço: gerarnão é mais uma função sagrada: essa proliferação torna-se contingente, importuna, é mais um dos inconvenientes da feminilidade. O aborrecimentomensal da menstruação apresenta-se, comparativamente, como abençoado: eis que se aguarda ansiosamente a volta do escorrimento vermelho quemergulhara a menina no desespero; foi prometendo as alegrias do parto que a tinham consolado. Mesmo consentindo no aborto, desejando-o, a mulhero sente como um sacrifício de sua feminilidade: é preciso que ela veja em seu sexo, definitivamente, uma maldição, uma espécie de enfermidade, umperigo. Indo até o fim dessa renúncia, certas mulheres tornam-se homossexuais em consequência do traumatismo do aborto. Entretanto, no mesmomomento em que, para melhor realizar seu destino, o homem pede à mulher que sacrifique suas possibilidades carnais, ele denuncia a hipocrisia docódigo moral dos homens. Estes proíbem universalmente o aborto; mas aceitam-no singularmente como uma solução cômoda; podem se contradizercom um cinismo absurdo; mas a mulher experimenta essas contradições em sua carne ferida; ela é geralmente demasiado tímida para se revoltardeliberadamente contra a má-fé masculina; conquanto considerando-se vítima de uma injustiça que a decreta criminosa contra sua vontade, sente-sehumilhada, maculada; ela é que encarna, numa figura concreta e imediata, em si, a falta do homem; ele comete a falta, mas livra-se dela na mulher; elediz somente palavras, num tom suplicante, ameaçador, sensato, furioso: esquece-as depressa; cabe a ela traduzir essas frases na dor e no sangue.Algumas vezes, ele não diz nada, vai-se embora; mas seu silêncio e sua fuga são um desmentido ainda mais evidente de todo o código moral instituídopelos homens. Não devemos nos espantar com isso que chamam “a imoralidade” das mulheres, tema predileto dos misóginos; como não teriam elasuma íntima desconfiança em relação aos princípios arrogantes que os homens afirmam publicamente e em segredo denunciam? Elas aprendem a nãomais acreditar no que dizem os homens quando exaltam a mulher, nem quando exaltam o homem: a única coisa certa é esse ventre revolvido esangrento, esses molambos de vida vermelha, essa ausência do filho. É com o primeiro aborto que a mulher começa a “compreender”. Para muitasdelas o mundo nunca mais será o mesmo. E, no entanto, por falta de difusão dos métodos anticoncepcionais, o aborto é hoje na França o único caminho


aberto à mulher que não quer pôr no mundo filhos destinados a morrer na miséria. Stekel390 disse-o muito justamente: “A proibição do aborto é uma leiimoral, porquanto deve ser obrigatoriamente violada, todos os dias, a todas as horas”. *** O controle de natalidade e o aborto legal permitiriam à mulher assumir livremente suas maternidades. Na realidade, são em parte uma vontadedeliberada e em parte o acaso que decidem da fecundidade feminina. Não sendo por ora a inseminação artificial uma prática corrente, acontece àmulher desejar a maternidade sem poder obtê-la — seja por não ter relações com os homens, por ter um marido estéril, ou por ser malconformada. Masacontece, em compensação, que se ache muitas vezes obrigada a gerar contra a sua vontade. Gravidez e maternidade são vividas de maneira muitodiferente, caso se desenvolvam na revolta, na resignação, na satisfação, no entusiasmo. É preciso considerar que as decisões e os sentimentosconfessados da jovem mãe nem sempre correspondem a seus desejos profundos. Uma mãe solteira pode estar materialmente acabrunhada pelo fardoque lhe é repentinamente imposto, desolar-se abertamente e, no entanto, encontrar no filho a realização de sonhos secretamente acarinhados;inversamente, uma jovem recém-casada que acolhe com alegria e orgulho sua gravidez, pode receá-la em silêncio, detestá-la, através de obsessões, dealucinações, de recordações de infância que ela própria se recusa a admitir. É uma das razões que tornam as mulheres tão discretas a esse respeito.Seu silêncio vem em parte de que se comprazem em cercar de mistério uma experiência que é apanágio exclusivamente delas; mas veem-se igualmentedesnorteadas pelas contradições e os conflitos que nelas ocorrem. “As preocupações da gravidez são um sonho que é tão completamente esquecidoquanto o sonho das dores do parto”, disse uma mulher.391 São as verdades complexas que então se revelam a elas, que procuram envolver noesquecimento.Vimos que na infância e na adolescência a mulher passa por diversas fases em relação à maternidade. Menina, a coisa é milagre e jogo: ela encontra naboneca, ela pressente, no filho que virá, um objeto para possuir e dominar. Adolescente, vê na ocorrência, ao contrário, uma ameaça contra aintegridade de sua preciosa pessoa. Ou então recusa-a ferozmente como a heroína de Colette Audry,3 92 que nos confia: Cada criancinha que brincava na areia, eu a detestava por ter saído de uma mulher... Os adultos eu também os execrava por mandarem nessas crianças, por lhes darem purgantes, palmadas, vestirem-nas, humilharem-nas de todas as maneiras: as mulheres com seus corpos moles sempre a germinarem novos filhos, os homens que olhavam toda essa polpa de mulheres e filhos deles com um ar satisfeito e independente. Meu corpo pertencia-me, a mim somente, gostava dele bronzeado, incrustado de sal do mar, arranhado pelas plantas. Devia permanecer duro e selado. Ou então ela receia ter um filho, embora desejando-o, o que conduz a alucinações de gravidez e a toda espécie de angústias. Há jovens que secomprazem em exercer a autoridade que a maternidade confere, mas não estão dispostas a assegurar-lhe plenamente as responsabilidades. É o casodessa Lídia, citada por H. Deutsch, que, com a idade de 16 anos, empregada como criada em casa de desconhecidos, se ocupava das crianças entreguesa seus cuidados com a mais extraordinária dedicação: era um prolongamento dos devaneios infantis quando formava um par com sua mãe a fim deeducar um filho; repentinamente pôs-se a negligenciar o serviço, a mostrar-se indiferente às crianças, a sair, a namorar; a época dos jogos terminara eela começava a preocupar-se com sua verdadeira vida em que o desejo de maternidade ocupava pequeno espaço. Certas mulheres alimentam durantetoda a vida o desejo de dominar crianças, mas conservam um sentimento de horror ao trabalho biológico do parto; fazem-se parteiras, enfermeiras,preceptoras; são tias dedicadas, mas recusam-se a ter filhos. Algumas também, sem rechaçar com desgosto a maternidade, são por demais absorvidaspela sua vida amorosa ou por uma carreira para que lhe reservem um lugar na existência. Têm medo do fardo que o filho representaria para elas oupara o marido.Muitas vezes, a mulher garante deliberadamente sua esterilidade, seja esquivando-se a quaisquer relações sexuais, seja mediante práticas de controlede natalidade; mas há também casos em que ela não confessa seu temor do filho, e é um processo psíquico que impede a concepção; ocorrem com elaperturbações funcionais reveláveis a um exame médico, mas de origem nervosa. O Dr. Arthus393 cita, entre outros, um exemplo impressionante: Mme H... fora muito malpreparada pela mãe para sua vida de mulher; a mãe sempre predissera as piores catástrofes se lhe acontecesse ficar grávida... Quando Mme H... se casou, imaginou-se grávida no mês seguinte; verificou o engano; acreditou-o novamente ao fim de três meses: novo engano. Ao fim de um ano foi consultar um ginecologista que se recusou a reconhecer, nela ou no marido, uma causa qualquer de infecundidade. Três anos depois, ela consultou outro médico, que lhe disse: “A senhora ficará grávida quando falar menos disso...” Após cinco anos de casados, Mme H... e o marido haviam admitido que não teriam mais filhos. O bebê nasceu ao fim de seis anos. A aceitação ou a recusa de concepção são influenciadas pelos mesmos fatores que a gravidez em geral. No decurso desta, reavivam-se os sonhosinfantis do sujeito e suas angústias de adolescente; a gravidez é vivida de maneira muito diferente segundo as relações que a mulher mantém com amãe, com o marido e consigo mesma.Tornando-se mãe por sua vez, a mulher toma, de certo modo, o lugar daquela que a gerou; isso representa para ela uma emancipação total. Se a desejasinceramente, alegra-se com a gravidez e faz questão de conduzi-la sem ajuda; dominada ainda e consentindo nisso, entrega-se, ao contrário, às mãosmaternas: o recém-nascido se lhe afigurará antes um irmão ou uma irmã do que seu próprio fruto; se, ao mesmo tempo, quer e não ousa libertar-se,teme que o filho, ao invés de salvá-la, a faça recair sob o jugo: esta angústia pode provocar um aborto; H. Deutsch cita o caso de uma jovem mulherque, devendo acompanhar o marido e deixar o filho que iria nascer com a mãe, deu à luz uma criança morta; espantou-se por não o lamentarexcessivamente, porque o desejara muito; mas teria tido horror de a entregar à mãe, que a teria dominado através da criança. Vimos que o sentimentode culpa em relação à mãe é frequente na adolescente; se ainda se mantém vivo, a mulher imagina que uma maldição pesa sobre sua progenitura ousobre si mesma: o filho a matará ou morrerá ao nascer. É o remorso que geralmente provoca essa angústia, tão frequente nas mulheres jovens, de nãoconduzir a termo a gravidez. Vê-se neste exemplo, fornecido por H. Deutsch, a que ponto a relação da filha com a mãe pode assumir uma importâncianefasta: Mrs. Smith, caçula de uma família numerosa que só contava um rapaz, fora acolhida com despeito pela mãe, que queria um filho; não sofreu muito com isso graças à afeição do pai e de uma irmã mais velha. Mas esperando um filho depois de casada, embora o desejasse ardentemente, o ódio que sentira outrora pela mãe tornou-lhe detestável a ideia de ser mãe; deu à luz um mês antes do termo uma criança morta. Grávida pela segunda vez, teve receio de novo acidente; felizmente uma de suas amigas íntimas engravidou ao mesmo tempo; esta tinha uma mãe muito afetuosa que protegeu as duas mulheres durante a gravidez; mas a amiga concebera um mês antes de Mrs. Smith, que ficou apavorada com a ideia de terminar sua gravidez sozinha; ante a surpresa de todos, a amiga continuou grávida durante um mês ainda após a data prevista394 do parto e as duas deram à luz no mesmo dia. As duas amigas resolveram conceber no mesmo dia o outro filho e Mrs. Smith iniciou sem inquietação a nova gravidez. Mas, no terceiro mês, a amiga precisou sair da cidade; no dia em que o soube, Mrs. Smith abortou. Nunca mais pôde ter outro filho; a lembrança da mãe pesava demasiado sobre ela. Relação não menos importante é a que a mulher mantém com o pai de seu filho. Uma mulher já madura, independente, pode querer um filho que sópertença a ela: conheci uma cujos olhos brilhavam à vista de um belo macho, não por desejo sexual, mas porque julgava suas qualidades de reprodutor;são essas amazonas maternais que saúdam com entusiasmo o milagre da inseminação artificial. Se o pai da criança partilha a vida delas, recusam-lhequalquer direito sobre a progenitura, tentam — como a mãe de Paul em Amantes e filhos — constituir um casal isolado com o filhote. Mas, na maioriados casos, a mulher tem necessidade de um apoio masculino para aceitar suas novas responsabilidades; ela só se devotará alegremente ao recém-nascido se um homem se devotar a ela.Quanto mais infantil e tímida ela é, mais essa necessidade é urgente. H. Deutsch conta a história de uma jovem mulher que aos 15 anos se casou comum rapaz de 16 que a engravidara. Quando menina, sempre gostara dos bebês e assistira a mãe nos cuidados que prodigalizava a seus irmãos e irmãs.Mas, uma vez mãe de dois filhos, foi tomada de pânico. Exigia que o marido permanecesse sem cessar junto dela; ele teve que arranjar um trabalho quelhe permitisse ficar durante longas horas no lar. Ela vivia numa constante ansiedade, exagerando as brigas dos filhos, dando excessiva importância aosmenores incidentes do dia. Muitas jovens mães pedem socorro assim ao marido, e por vezes o expulsam do lar, oprimindo-os com as suas preocupações.H. Deutsch cita, entre outros casos curiosos, este: Uma jovem mulher casada imaginou que estava grávida e ficou extremamente feliz; separada do marido por uma viagem, teve uma aventura muito rápida que aceitou precisamente porque, satisfeita com a maternidade, nada lhe parecia ter qualquer consequência; voltando ao marido, soube mais tarde que, na verdade, se enganara acerca da data da concepção: esta datava do momento da viagem. Quando a criança nasceu, ela pôs-se subitamente a indagar se era filho do marido ou do amante ocasional; tornou- se incapaz de ter sentimento em relação ao filho desejado; angustiada, infeliz, recorreu a um psiquiatra e só se interessou pela criança depois que decidiu considerar o marido como pai do recém-nascido.


A mulher que tem afeição pelo marido modelará seus sentimentos pelos dele; acolhe a gravidez e a maternidade com alegria ou mau humor segundo elese sinta orgulhoso ou aborrecido. Por vezes, o filho é desejado, a fim de consolidar uma ligação, um casamento, e o apego que lhe dedica a mãedepende do êxito ou do fracasso de seus planos. Se é hostilidade que sente em relação ao marido, a situação é ainda diferente; pode devotar-seasperamente ao filho cuja posse nega ao pai ou, ao contrário, encarar com ódio o descendente do homem detestado. Mme H. N., cuja noite de núpciasStekel nos relatou, ficou grávida desde logo e detestou durante toda a vida a filha concebida no horror daquela iniciação brutal. Vê-se também no diáriode Sofia Tolstoi que a ambivalência de seus sentimentos em relação ao marido se reflete na primeira gravidez. Escreve: Este estado me é insuportável física e moralmente. Fisicamente, estou sempre doente e, moralmente, sinto um tédio, um vazio, uma angústia terrível. E para Liova deixei de existir... Não posso dar-lhe nenhuma alegria, posto que estou grávida. O único prazer que encontra nesse estado é de ordem masoquista: foi sem dúvida o fracasso de suas relações amorosas que lhe deu uma necessidadeinfantil de autopunição. Desde ontem estou muito doente, tenho medo de um aborto. Essa dor no ventre dá-me um certo gozo. É como em criança quando fazia uma travessura; mamãe perdoava-me, mas eu não me perdoava. Beliscava ou picava fortemente a mão até que a dor se tornasse intolerável. No entanto, suportava-a e sentia nisso um imenso prazer... Quando... a criança chegar, isso recomeçará, é repugnante! Tudo me parece fastidioso. As horas soam tão tristemente. Tudo é morno. Ah! se Liova... Mas a gravidez é principalmente um drama que se desenrola na mulher entre si e si; ela sente-o a um tempo como um enriquecimento e uma mutilação;o feto é uma parte de seu corpo e um parasito que a explora; ela o possui e é por ele possuída; ele resume todo o futuro e, carregando-o, ela sente-seampla como o mundo; mas essa própria riqueza a aniquila: tem a impressão de não ser mais nada. Uma existência nova vai manifestar-se e justificarsua própria existência; disso ela se orgulha, mas sente-se também o joguete de forças obscuras, é sacudida, violentada. O que há de singular na mulhergrávida é que, no mesmo momento em que se t ranscende, seu corpo é apreendido como imanente: encolhe-se em si mesmo, em suas náuseas e seusincômodos; deixa de existir para si só e é quando se faz então mais volumoso do que nunca. A transcendência do artesão, do homem de ação é habitadapor uma subjetividade, mas na futura mãe abole-se a oposição sujeito e objeto; ela forma, com esse filho de que se acha prenhe, um casal equívoco quea vida submerge; presa às malhas da natureza, ela é planta e animal, uma reserva de coloides, uma poedeira, um ovo; assusta as crianças de corpoegoísta e faz com que os jovens escarneçam, pois ela é um ser humano, consciência e liberdade, que se tornou um instrumento passivo da vida. A vidahabitualmente é apenas uma condição da existência; na gestação ela se apresenta como criadora; mas é uma estranha criação que se realiza naconti ngência e na facticidade. Há mulheres para quem as alegrias da gravidez e da amamentação são tão fortes que as querem repetirindefinidamente; sentem-se frustradas a partir do momento em que a criança é desmamada. Essas mulheres, que são “poedeiras” mais do que mães,procuram avidamente a possibilidade de alienar sua liberdade em proveito da carne: sua existência aparece-lhes tranquilamente justificada pelapassiva fertilidade do corpo. Se a carne é pura inércia, não pode encarnar a transcendência, ainda que sob uma forma degradada; é preguiça e tédio,mas torna-se, desde que brota, raiz, fonte, flor; ela se ultrapassa, é movimento para o futuro, ao mesmo tempo que uma presença espessa. A separaçãoque a mulher sofreu antes, no momento do desmame, é compensada; ela é novamente mergulhada na corrente da vida, reintegrada no todo, elo nacadeia das gerações, carne que existe por e para outra carne. A fusão procurada nos braços do homem e que é recusada logo que concedida a mãe arealiza quando sente o filho no ventre pesado ou que o aperta contra os seios túmidos. Ela não é mais um objeto submetido a um sujeito; não étampouco um sujeito angustiado por sua liberdade, é essa realidade equívoca: a vida. O corpo é enfim dela, posto que é do filho que lhe pertence. Asociedade reconhece-lhe a posse desse corpo e ainda o reveste de um caráter sagrado. O seio, antes objeto erótico, ela o pode exibir, é uma fonte devida: a tal ponto que quadros piedosos nos mostram a Virgem Mãe descobrindo o peito para suplicar ao Filho que poupe a humanidade. Alienada emseu corpo e em sua dignidade social, a mãe tem a ilusão pacificante de se sentir um ser em si, um valor completo.Mas é apenas uma ilusão. Porque ela não fez realmente o filho: ele se fez nela; sua carne só engendra carne: ela é incapaz de fundar uma existência,que se terá de fundar ela mesma; as criações que emanam da liberdade põem o objeto como valor e o revestem de uma necessidade; no seio materno, ofilho é injustificado, não passa ainda de uma proliferação gratuita, um fato bruto cuja contingência é simétrica à da morte. A mãe pode ter suas razõesde querer um filho, mas não poderá dar, a esse outro que vai ser amanhã, suas próprias razões de ser; ela o gera na generalidade de seu corpo, não nasingularidade de sua existência. É o que compreende a heroína de Colette Audry quando diz: Nunca pensara que ele pudesse dar um sentido a minha vida... Seu ser germinara em mim; o que quer que acontecesse, tinha de conduzi-lo a bom termo, até o fim, sem poder apressar as coisas, ainda que fosse preciso morrer. Depois ali estivera, nascido de mim; assim, assemelhava-se à obra que eu teria podido realizar na vida... mas afinal não o era.395 Em certo sentido, o mistério da encarnação se repete em cada mulher; toda criança que nasce é um deus que se faz homem: não poderia realizar-secomo consciência e liberdade se não viesse ao mundo; a mãe se presta a esse mistério, mas não o comanda; a suprema verdade desse ser que se formaem seu ventre lhe escapa. É esse equívoco que ela traduz por dois fantasmas contraditórios: toda mãe tem a ideia de que o filho será um herói; exprimeassim seu deslumbramento à ideia de gerar uma consciência e uma liberdade; mas teme também dar à luz um doente, um monstro, porque conhece ahorrível contingência da carne e esse embrião que a habita é somente carne. Há casos em que um dos mitos vence, mas muitas vezes a mulher oscilaentre um e outro. Ela é sensível também a outro equívoco. Presa no grande ciclo da espécie, afirma a vida contra o tempo e a morte: com isso tem apromessa da imortalidade; mas experimenta também na carne a realidade da afirmação de Hegel: “O nascimento dos filhos é a morte dos pais”. O filho,diz ele ainda, é para os pais “o ser para si do amor deles que cai fora deles”, e inversamente, ele obterá seu ser para si “na separação da fonte, umaseparação em que essa fonte seca”. Essa superação de si é também para a mulher prefiguração da morte. Ela traduz essa verdade pelo medo que sentequando imagina o parto; receia nele perder a própria vida.Sendo assim ambígua a significação da gravidez, é natural que a atitude da mulher seja ambivalente: aliás, ela se modifica nos diversos estágios daevolução do feto. É preciso sublinhar primeiramente que, no início do processo, o filho não está presente; ele ainda não tem senão uma existênciaimaginária; a mãe pode sonhar com esse pequeno indivíduo que nascerá dentro de meses, pode se ocupar em lhe preparar um berço, um enxoval: sóapreende concretamente os turvos fenômenos orgânicos que nela se verificam. Certos entusiastas da Vida e da Fecundidade pretendem misticamenteque a mulher reconhece, pela qualidade de seu prazer, que o homem acaba de torná-la mãe: trata-se de um desses mitos que cumpre abandonar. Elanunca tem uma intuição decisiva do acontecimento: ela o induz partindo de sinais incertos. Cessam as regras, engorda, os seios tornam-se pesados edoem, ocorrem vertigens e náuseas; por vezes, ela acredita simplesmente estar doente e é um médico que a informa. Sabe então que seu corpo recebeuum destino que o transcende; dia após dia, um pólipo nascido de sua carne e estranho a sua carne vai desenvolver-se nela; a mulher torna-se presa daespécie que lhe impõe suas misteriosas leis e, geralmente, essa alienação a amedronta: seu medo traduz-se por vômitos. Estes são parcialmenteprovocados pelas modificações das secreções gástricas que então se produzem; mas se essa reação, que outras fêmeas mamíferas ignoram, assumeimportância é por motivos psíquicos: manifesta o caráter agudo que o conflito entre a espécie e o indivíduo396 reveste na fêmea humana. Ainda que amulher deseje profundamente o filho, seu corpo revolta-se primeiramente quando lhe cumpre parir. Nos Estados nervosos de angústia, Stekel afirmaque o vômito da mulher grávida exprime sempre certa recusa ao filho; se este é acolhido com hostilidade — por motivos geralmente inconfessados — asperturbações estomacais aumentam.“A psicanálise ensinou-nos que a exageração psíquica dos sintomas do vômito só se observa no caso em que a expulsão oral traduz emoções dehostilidade em relação à gravidez ou ao feto”, diz H. Deutsch. E ela acrescenta: “Muitas vezes o conteúdo psíquico do vômito da gravidez é exatamenteo mesmo que nos vômitos histéricos das moças, provenientes de um fantasma de gravidez”.397 Em ambos os casos reaviva-se a velha ideia dafecundação pela boca que se encontra nas crianças. Para as mulheres infantis, em particular, a gravidez é, como no passado, assimilada a uma doençado aparelho digestivo. H. Deutsch cita o caso de uma doente que estudava, com ansiedade, seus vômitos para verificar se não encontrava nelesfragmentos de embrião; sabia, no entanto, pelo que afirmava, que a obsessão era absurda. A bulimia, a falta de apetite, as repugnâncias assinalam amesma hesitação entre o desejo de conservar e o de destruir o embrião. Conheci uma jovem mulher que sofria ao mesmo tempo de vômitos fortíssimose de uma constipação feroz; disse-me, ela própria, que tinha a impressão de procurar expulsar o feto e ao mesmo tempo retê-lo; o que correspondiaexatamente a seus desejos confessados. O dr. Arthus398 cita o exemplo seguinte, que resumo: Mme T. apresenta graves perturbações de gravidez, com vômitos incoercíveis... A situação é tão inquietante que se deve pensar em praticar uma interrupção da gravidez em processo... A mulher está desolada... A rápida análise que pôde ser praticada revela (que): Mme T. procedeu a uma identificação inconsciente com uma de suas antigas amigas de pensão que desempenhou papel muito grande em sua vida afetiva e morreu em consequência de sua primeira gravidez. Logo que a causa pode ser revelada, os sintomas melhoram; depois de uma quinzena de dias verificam-se ainda vômitos, porém sem mais nenhum perigo. Constipação, diarreias, trabalho de expulsão manifestam sempre a mesma mistura de desejo e de angústia; disso resulta, por vezes, um aborto: quase


todos os abortos espontâneos têm uma origem psíquica. Tais incômodos se acentuam ainda mais quando a mulher lhes dá maior importância e “seouve” mais. Em particular, os famosos “desejos” das mulheres grávidas são obsessões de origem infantil complacentemente acariciadas: relacionam-sesempre aos alimentos, em virtude da velha ideia da fecundação alimentar; sentindo perturbações em seu corpo, a mulher traduz, como acontece muitasvezes nas psicastenias, esse sentimento de estranheza por um desejo que por vezes a fascina. Há, de resto, uma “cultura” desses desejos pela tradição,como houve outrora uma cultura da histeria; a mulher, na expectativa de ter desejos, espera por eles, inventa-os. Relataram-me o caso de uma mãesolteira que tinha um desejo tão frenético de espinafres que corria a comprá-los no mercado e ficava numa terrível impaciência a olhá-los enquanto oscozinhava: exprimia assim a angústia de sua solidão; sabendo que só podia contar consigo mesma, era com pressa febril que apressava em satisfazerseus desejos. A duquesa de Abrantes descreveu de maneira muito divertida, em suas Mémoires, um caso em que o desejo é imperiosamente sugeridopelo ambiente da mulher. Queixa-se de ter sido cercada de excessiva solicitude durante a gravidez. Esses cuidados, essas atenções aumentam o mal-estar, o enjoo, o nervosismo, os mil e um sofrimentos que quase sempre acompanham a primeira gravidez. Senti-o... Foi minha mãe quem começou, um dia em que jantava em casa dela... “Ah! Meu Deus, disse-me de repente, largando o garfo e encarando-me com um ar consternado, ah! meu Deus, não pensei em perguntar qual era teu desejo.” — Mas não tenho nenhum — respondi. — Não tens desejo — disse minha mãe... — Não tens desejo! Mas nunca se viu isso! Tu te enganas. É que não prestas atenção. Falarei com tua sogra. E eis minhas duas mães se consultando e eis meu Junot que, com medo de que lhe desse um filho com cabeça de javali... me perguntava todas as manhãs: “Laure, de que tens vontade?” Minha cunhada, que voltou de Versalhes ampliou o coro das perguntas... nem podia enumerar quantas pessoas vira desfiguradas por desejos não satisfeitos... Acabei assustando-me também... Procurei em minha imaginação algo de que gostasse especialmente e não encontrei nada. Enfim, um dia, aconteceu-me, comendo uma pastilha de ananás, refletir que um ananás deveria ser uma coisa excelente... Uma vez persuadida de que tinha desejo de ananás, senti uma vontade muito grande, que aumentou quando Corcelet declarou que não estava no tempo. Oh! Então experimentei esse sofrimento que participa do desespero e põe a gente num estado de morrer ou satisfazê-lo. (Junot, após várias tentativas, acabou recebendo um ananás das mãos de Mme Bonaparte. A duquesa de Abrantes recebeu-o alegremente e passou a noite a cheirá-lo e tocá-lo, por lhe ter o médico ordenado que só o comesse pela manhã. Quando finalmente Junot o serviu a ela): Empurrei o prato para longe de mim. “Não sei o que tenho, não posso comer ananás.” Ele punha-me o nariz no maldito prato, o que provocou uma asserção positiva de que eu não podia comer ananás. Foi preciso não somente levá-lo, mas ainda abrir as janelas, perfumar meu quarto para tirar o menor vestígio de um odor que um segundo bastara para tornar odioso. O que há de mais singular neste fato é q ue, desde então, nunca pude comer ananás sem um esforço violento... São as mulheres de quem se ocupam demasiado ou que se ocupam demasiado consigo mesmas que apresentam maior número de fenômenos mórbidos.As que vencem mais facilmente a prova da gravidez são, por um lado, as matronas totalmente entregues a sua função de poedeira e, por outro lado, asmulheres viris que as aventuras do corpo não fascinam e que fazem questão de superá-las com facilidade; Mme de Staël conduzia uma gravidez comtanta vivacidade e displicência quanto uma conversação.Quando a gravidez prossegue, a relação entre a mãe e o feto muda. Este acha-se solidamente instalado no ventre materno, os dois organismos seadaptaram um ao outro e há entre ambos trocas biológicas que permitem à mulher reencontrar seu equilíbrio. Ela não se sente mais possuída pelaespécie: ela é que possui o fruto de suas entranhas. Durante os primeiros meses era uma mulher qualquer e diminuída pelo trabalho secreto que serealizava no seu interior; posteriormente torna-se, com evidência, uma mãe e suas fraquezas são o reverso de sua glória. A impotência de que sofriatorna-se, acentuando-se, um álibi. Muitas mulheres encontram, então, em sua gravidez uma maravilhosa paz: sentem-se justificadas; tinham sempretido prazer em se observar, em espiar o corpo; não ousavam, por senso de seus deveres sociais, interessar-se por ele com demasiada complacência:agora têm o direito de fazê-lo, porque tudo o que fazem para seu próprio bem-estar fazem para o filho. Não se lhes pede mais trabalho, nem esforço;não têm mais que se preocupar com o resto do mundo; os sonhos de futuro que acariciam dão um sentido ao momento presente; basta-lhes se deixaremviver, estão de férias. A razão de sua existência está em seu ventre e dá-lhes uma impressão perfeita de plenitude. “É como um pequeno aquecedor noinverno, sempre aceso e que só existe para você, inteiramente submetido à sua vontade. É também uma ducha fresca, escorrendo sem cessar durante overão. Está ali”, diz uma mulher citada por H. Deutsch. Satisfeita, a mulher conhece também o prazer de se sentir “interessante”, o que constituiu seumaior desejo desde a adolescência; como esposa, sofria com sua dependência em relação ao homem; agora não é mais um objeto sexual, uma serva;encarna a espécie, é promessa de vida, de eternidade; os que a cercam, respeitam-na; até seus caprichos tornam-se sagrados: o que a incita, já o vimos,a inventar “desejos”. “A gravidez permite à mulher racionalizar atos que de outro modo pareceriam absurdos”, afirma Helen Deutsch. Justificada pelapresença de um outro em seu seio, ela goza enfim plenamente de ser ela própria.Colette descreve em L’Étoile Vesper essa fase da gravidez. Insidiosamente, sem pressa, a beatitude das mulheres grávidas me invadia. Eu não era mais tributária de nenhum mal-estar, de nenhuma desgraça. Euforia, rom-rom, que nome — o científico ou o familiar — dar a essa preservação? E por certo me satisfez inteiramente, pois não a esqueço. A gente se cansa de calar o que nunca disse, no caso o estado de orgulho, de magnificência trivial que experimentava a preparar meu fruto... Cada noite dizia um pouco adeus a um dos bons momentos de minha vida. Bem sabia que os lamentaria. Mas a alegria, o rom-rom, a euforia submergiam tudo e reinavam em mim a doce animalidade, a indolência com que meu peso maior e os surdos apelos da criatura que eu formava me cumulavam. Sexto, sétimo mês... Primeiros morangos, primeiras rosas. Posso considerar minha gravidez de outra forma senão como uma longa festa? Esquecem-se as torturas do fim, não se esquece a longa festa única; eu nada esqueci. Lembro-me principalmente de que o sono, em horas caprichosas, se apoderava de mim e eu era novamente tomada, como na minha infância, pela necessidade de dormir no chão, na relva, na terra quente. Único “desejo”, desejo sadio. Ao chegar ao fim, parecia um rato carregando um ovo roubado. Incômoda a mim mesma, sentia-me por vezes demasiado cansada para deitar-me... Sob o peso, sob a fadiga, minha longa festa não se interrompia ainda. Carregavam-me sobre um broquel de privilégios e cuidados... Essa gravidez feliz, diz-nos Colette, uma de suas amigas a denominou “gravidez de homem”. Ela se apresenta, com efeito, como o tipo dessas mulheresque suportam corajosamente seu estado, porque nele não se absorvem. Continuava ao mesmo tempo a trabalhar como escritora. “O filho manifestouque chegaria em primeiro lugar e eu atarraxei a tampa de minha caneta-tinteiro.”Outras mulheres sentem mais pesadamente a gravidez; ruminam indefinidamente sua nova importância. Por pouco que as encoragem, retomam por suaconta os mitos masculinos: opõem à lucidez do espírito a noite fecunda da Vida, à consciência clara os mistérios da interioridade, à liberdade estéril opeso do ventre em sua enorme facticidade; a futura mãe sente-se humo e gleba, fonte e raiz; quando adormece, seu sono é o do caos em que fermentammundos. Outras há que, mais desprendidas de si, se encantam principalmente com o tesouro de vida que cresce nelas. É essa alegria que exprimeCécile Sauvage em seus poemas L’Âme en bourgeon: Tu me pertences como a aurora à planície Ao redor de ti a vida é uma lã quente Em que teus membros friorentos crescem em segredo. E mais adiante: Ó tu que acarinho com temor no acolchoado Pequena alma em botão presa a minha flor Com um pedaço de meu coração formo teu coração Ô meu fruto macio, pequena boca úmida.399 E numa carta ao marido: É engraçado, parece-me que assisto à formação de um ínfimo planeta e que modelo seu globo frági l. Nunca estive tão perto da vida. Nunca senti tão bem que sou irmã da


terra com as vegetações e as seivas. Meus pés andam sobre a terra como sobre um animal vivo. Penso no dia cheio de flautas, de abelhas acordadas, de orvalho, pois eis que ele se retesa e agita em mim. Se soubesses que frescor de primavera e de juventude essa alma em botão põe em meu coração. E dizer que é a alma infantil de Pierrot e que ela elabora na noite de meu ser dois grandes olhos de infinito semelhantes aos dele. Em compensação, as mulheres que são profundamente coquetes, que se apreendem essencialmente como objeto erótico, que se amam na beleza de seucorpo, sofrem ao se verem deformadas, feias, incapazes de suscitar o desejo. A gravidez não se apresenta a elas como uma festa ou um enriquecimentoe sim como uma diminuição de seu eu.Lê-se, entre outras coisas, em Minha vida de Isadora Duncan: O filho dava agora sinais de sua presença... Meu belo corpo de mármore distendia-se, quebrava-se, deformava-se... Andando à beira-mar, eu sentia às vezes um excesso de força e de vigor e me dizia que essa criaturinha seria minha, só minha; mas outros dias... tinha a impressão de ser um pobre animal caído numa armadilha... Com alternativas de esperança e de desespero, pensava muitas vezes nas peregrinações de minha mocidade, meus passeios sem objetivo, minhas descobertas da arte e tudo isso que não passava de um prólogo antigo, perdido na bruma que levava à espera de um filho, obra-prima ao alcance de qualquer camponesa... Comecei a ser vítima de toda espécie de temores. Em vão eu me dizia que todas as mulheres têm filhos. Era algo natural e no entanto eu tinha medo. Medo de quê? Não da morte por certo, nem dos sofrimentos, tinha um medo desconhecido do que não conhecia. Cada vez mais meu belo corpo se deformava ante meus olhos espantados. Onde minhas graciosas formas juvenis de náiade? Onde minha ambição, meu renome? Muitas vezes, a despeito de mim mesma, sentia-me miserável e vencida. A luta contra a vida, esta gigante, era desigual; mas então pensava no filho que ia nascer e toda a minha tristeza se dissipava. Horas cruéis de espera dentro da noite. Como pagamos caro a glória de ser mãe!... No último estágio da gravidez, esboça-se a separação entre a mãe e o filho. As mulheres sentem de maneira diferente seu primeiro movimento, opontapé dado às portas do mundo, contra a parede do ventre que o encerra longe do mundo. Algumas acolhem com deslumbramento esse sinal queanuncia a presença de uma vida autônoma; outras se imaginam com repugnância como o receptáculo de um indivíduo estranho a elas. Novamente, aunião do feto com o corpo materno perturba-se: o útero desce, a mulher tem uma sensação de pressão, de tensão, de dificuldades respiratórias. Épossuída, dessa feita, não pela espécie indistinta, mas pelo filho que vai nascer; não passava até então de uma imagem, uma esperança e eis que setorna pesadamente presente. Sua realidade cria novos problemas. Toda passagem é angustiante: o parto apresenta-se particularmente assustador.Quando a mulher se aproxima da data final, todos os seus terrores infantis se reanimam; se em virtude de um sentimento de culpa ela se acreditaamaldiçoada pela mãe, persuade-se de que vai morrer ou de que o filho morrerá. Tolstoi pintou em Guerra e paz, sob os traços de Lise, uma dessasmulheres infantis que veem no parto uma condenação à morte: e morre, com efeito.O parto assumirá, segundo os casos, um caráter muito diferente: a mãe almeja ao mesmo tempo guardar no ventre o tesouro de carne que é um pedaçoprecioso de seu eu e desembaraçar-se de um importuno; quer seu sonho nas mãos, mas tem medo das novas responsabilidades que vai criar essamaterialização: um ou outro desejo pode vencer, mas muitas vezes ela se divide. Muitas vezes também não é com resolução firme que enfrenta aangustiante experiência: quer provar a si mesma e provar aos seus — mãe, marido — que é capaz de superá-la sem ajuda; mas, ao mesmo tempo, odeiao mundo, a vida, os parentes, por causa dos sofrimentos que lhe são infligidos, e adota, como protesto, uma conduta passiva. As mulheresindependentes — matronas ou mulheres viris — fazem questão de desempenhar um papel ativo nos moment os que precedem o parto e durante opróprio parto. As muito infantis abandonam-se passivamente à parteira, à mãe; algumas põem seu orgulho em não gritar; outras recusam quaisquerconselhos. De maneira geral pode-se dizer que exprimem nessa crise sua atitude profunda em relação ao mundo em geral, e sua maternidade emparticular: são estoicas, resignadas, reivindicadoras, imperiosas, revoltadas, inertes, tensas... Tais disposições psicológicas têm enorme influência naduração e na dificuldade do parto (que dependem também, naturalmente, de fatores puramente orgânicos). O que é significativo é que, normalmente, amulher — como certas fêmeas de animais domésticos — precisa de auxílio para cumprir a função a que a natureza a destina; há porém camponesas dehábitos rudes e mães solteiras que dão à luz sozinhas: mas sua solidão acarreta muitas vezes a morte do filho ou doenças incuráveis na mãe. No própriomomento em que acaba de realizar seu destino feminino é ainda a mulher dependente: o que prova que também na espécie humana a natureza não sedistingue nunca do artifício. Naturalmente o conflito entre o interesse do indivíduo feminino e o da espécie é tão agudo que acarreta às vezes a morteda mãe ou a do filho: são as intervenções humanas da medicina, da cirurgia, que diminuíram consideravelmente (quase eliminaram) os acidentes antestão frequentes. Os métodos de anestesia estão desmentindo a afirmação bíblica: “Conceberás na dor”; correntemente utilizados na América do Norte,começam a vulgarizar-se na França; em março de 1949, um decreto tornou-os obrigatórios na Inglaterra.400É difícil saber quais são os sofrimentos que poupam exatamente à mulher. O fato de o parto durar por vezes mais de 24 horas e, por vezes, terminar emduas ou três horas, impede qualquer generalização. Para certas mulheres, o parto é um martírio. É o caso de Isadora Duncan: ela vivera sua gravidezna angústia e sem dúvida resistências psíquicas agravaram ainda mais as dores do parto. Eis o que escreve: Pode-se dizer o que se quiser da Inquisição espanhola, nenhuma mulher que teve um filho poderia temê-la. Era um brinquedo em comparação. Sem trégua, sem parada, sem piedade, esse gênio invisível e cruel me tinha em suas garras, partia-me ossos e nervos. Dizem que tais sofrimentos são rapidamente esquecidos. Tudo o que posso responder é que me basta fechar os olhos para ouvir de novo meus gritos e minhas queixas. Certas mulheres consideram ao contrário que é uma prova relativamente fácil de suportar. Pequeno número encontra nela um prazer sensual. Sou um ser tão sexual que até o parto é para mim um ato sexual, escreve uma.401 Tinha uma “Madame” muito bonita. Ela me banhava e dava-me injeções. Bastava isso para me pôr num estado de grande excitação, com arrepios nervosos. Algumas há que dizem ter experimentado durante o parto uma impressão de poder criador; realizaram realmente um trabalho voluntário e produtor;muitas, ao contrário, sentiram-se passivas, instrumento sofrido, torturado.As primeiras relações da mãe com o recém-nascido são igualmente variáveis. Certas mulheres sofrem desse vazio que depois sentem em seu corpo:parece-lhes que lhes roubaram seu tesouro. Sou a colmeia sem palavras cujo enxame alçou voo Não trago mais o alimento De meu sangue para teu frágil corpo Meu ser é a casa fechada De onde acabam de tirar um morto,402 escreve Cécile Sauvage. E também: Não és mais inteiramente meu. Tua cabeça Reflete outros céus.403 E ainda:


Nasceu, perdi meu jovem bem-amadoAgora nasceu, estou só, sintoApavorar-se em mim o vazio de meu sangue...404 Ao mesmo tempo, entretanto, há em toda jovem mãe uma curiosidade maravilhada. É um estranho milagre ver, ter em mãos um ser vivo formado em si,saído de si. Mas que parte teve exatamente a mãe no acontecimento extraordinário que põe na terra uma nova existência? Ela o ignora. Não existiriasem ela e no entanto ele lhe escapa. Há uma tristeza espantada em vê-lo fora, separado de si. E quase sempre uma decepção. A mulher gostaria desenti-lo seu tão seguramente quanto a própria mão: mas tudo o que ele experimenta está encerrado nele, ele é opaco, impenetrável, separado; ela não oreconhece sequer, pois não o conhece; sua gravidez, ela a viveu sem ele: não tem nenhum passado comum com esse pequeno estranho; esperava queele lhe fosse de imediato familiar: não, é um desconhecido e ela fica estupefata com a indiferença com que o acolhe. Durante os devaneios da gravidez,ele era uma imagem, era infinito e a mãe representava em pensamento sua maternidade futura; agora é um individuozinho finito e presente de verdade,contingente, frágil, exigente. A alegria de enfim vê-lo presente, bem real, mistura-se à tristeza de que seja apenas isso.É pela amamentação que muitas jovens mães reencontram, para além da separação, uma íntima relação animal com o filho; é uma fadiga maisexaustiva que a da gravidez, mas que permite à ama perpetuar o estado de folga, de paz, de plenitude saborosa da mulher grávida. Quando o bebê mamava, diz Colette Audry a propósito de uma de suas heroínas, não havia mais nada que fazer e isso poderia ter durado horas; ela não pensava sequer no que viria depois. Tinha-se que esperar que ele se destacasse do seio como uma grande abelha.405 Mas há mulheres que não podem amamentar e em quem a indiferença espantada das primeiras horas se perpetua enquanto não reencontram laçosconcretos com o filho. É o caso, entre outros, de Colette, a quem não foi possível amamentar a filha e que descreve, com sua habitual sinceridade, seusprimeiros sentimentos maternos.406 O que se segue é a contemplação de uma nova pessoa, que entrou na casa sem vir de fora... Punha eu suficiente amor em minha contemplação? Não ouso afirmá-lo. Sem dúvida tinha o hábito — tenho-o ainda — do deslumbramento. Exercia-o sobre o conjunto de prodígios que é um recém-nascido: as unhas, semelhantes em transparência à escama convexa do camarão rosado, a planta dos pés vinda a nós sem ter tocado o solo. A ligeira plumagem dos cílios baixando sobre o rosto, interpostos entre as paisagens terrestres e o sonho azulado do olho. O pequeno sexo, amêndoa apenas incisa, bivalve, exatamente fechado lábio a lábio. Mas a minuciosa admiração que eu dedicava à minha filha não a chamava amor, não a sentia como tal. Espiava... Não tirava, desses espetáculos que minha vida tão longamente esperara a vigilância e a emulação das mães maravilhadas. Quando surgiria para mim o sinal que realiza uma segunda, uma mais difícil violentação? Tive que aceitar que uma soma de advertências, de furtivas revoltas ciumentas, de premonições falsas, e até verdadeiras, o orgulho de dispor de uma vida de que eu era a humilde credora, a consciência algo pérfida de dar ao outro uma lição de modéstia, me transformassem enfim em uma mãe comum. Ainda assim, só me tranquilizei quando a linguagem inteligível floriu em lábios encantadores, quando o conhecimento, a malícia e mesmo a ternura fizeram de um pequerrucho standard uma menina, e de uma menina, minha filha! Há também muitas mães que se assustam com suas novas responsabilidades. Durante a gravidez, só lhes cabia entregarem-se a sua carne; nenhumainiciativa lhes era exigida. Agora há em face delas uma pessoa com direitos sobre elas. Certas mulheres acariciam alegremente o filho enquanto seacham no hospital, ainda joviais e despreocupadas, mas começam a encará-lo como um fardo quando voltam para casa. Nem mesmo a amamentaçãolhes dá alguma alegria, ao contrário, receiam estragar os seios; é com rancor que os sentem rachados, com as glândulas doloridas; fere-os a boca dofilho: parece-lhes que ele lhes aspira as forças, a vida, a felicidade. Ele inflige-lhes uma dura servidão e não faz mais parte delas: apresenta-se como umtirano; elas olham com hostilidade esse pequeno indivíduo estranho a elas e que constitui uma ameaça à carne, à liberdade, ao seu eu inteiro.Muitos outros fatores intervêm. As relações com a mãe conservam toda a sua importância. H. Deutsch cita o caso de uma jovem ama cujo leite secavatodas as vezes que a mãe a visitava; muitas vezes ela pede auxílio, mas tem ciúme dos cuidados que outra dá ao bebê e com mau humor o encara. Asrelações com o pai da criança, os sentimentos que ele próprio alimenta têm também grande influência. Todo um conjunto de razões econômicas,sentimentais, define a criança como um fardo, uma cadeia, ou uma libertação, uma joia, uma segurança. Há casos em que a hostilidade se torna ódiodeclarado que se traduz por uma negligência extrema ou maus-tratos. O mais das vezes, a mãe, consciente de seus deveres, combate-a; com isso senteum remorso que engendra angústias em que se prolongam as apreensões da gravidez. Todos os psicanalistas admitem que todas as mães que vivemobcecadas pela ideia de que podem fazer mal aos filhos, todas as que imaginam horríveis acidentes, experimentam em relação a eles uma inimizade quebuscam recalcar. O que, em todo caso, é de notar, e distingue essa relação de qualquer outra relação humana, é o fato de que nos primeiros tempos ofilho, ele próprio, não intervém: seus sorrisos, seus balbucios só têm o sentido que lhes empresta a mãe; quer lhe pareça encantador, único, ouaborrecido, vulgar, odioso, ele depende dela e não de si mesmo. É por isso que as mulheres frígidas, insatisfeitas, melancólicas, que esperavam do filhouma companhia, um calor, uma excitação capaz de arrancá-las de si mesmas, ficam sempre profundamente desapontadas. Como a “passagem” dapuberdade, da iniciação sexual, do casamento, a da maternidade engendra uma decepção melancólica nos sujeitos que esperam que um acontecimentoexterior possa renovar-lhes e justificar-lhes a vida. É o sentimento que se encontra em Sofia Tolstoi. Eis que escreve: Estes nove meses foram os mais terríveis de minha vida. Quanto ao décimo, é melhor não falar. Em vão se esforça ela por inscrever no diário uma alegria convencional: é sua tristeza, seu medo das responsabilidades que nos impressionam. Tudo aconteceu. Dei à luz, tive minha parte de sofrimentos, tive alta e pouco a pouco volto à vida com um medo e uma inquietude constantes acerca de meu filho e principalmente de meu marido. Alguma coisa partiu-se em mim. Algo me diz que sofrerei constantemente, creio que é o temor de não desempenhar meus deveres para com a minha família. Deixei de ser natural porque tenho receio desse amor vulgar de uma fêmea pelos filhotes e medo de amar exageradamente meu marido. Afirmam que é uma virtude amar o marido e os filhos. Por vezes esta ideia consola-me... Como o sentimento materno é forte e como me parece natural ser mãe! É o filho de Liova, eis por que o amo. Mas sabe-se que ela só exibe tamanho amor pelo marido porque não o ama; essa antipatia recai no filho concebido em atos que lhe repugnavam.K. Mansfield descreveu a hesitação de uma jovem mãe que adora o marido mas suporta com repulsa suas carícias. Ela sente perante os filhos ternura eao mesmo tempo uma impressão de vazio que interpreta melancolicamente como uma indiferença completa. Linda, descansando no jardim junto doúltimo filho, pensa no marido, Stanley.407 Agora, tinha-o desposado; e até o amava. Não o Stanley que todo mundo conhecia, não o Stanley cotidiano; mas um Stanley tímido, sensível, inocente, que se ajoelhava todas as noites para rezar. Mas a desgraça era... que via seu Stanley tão raramente. Havia momentos de beleza e calma, mas o resto do tempo ela tinha a impressão de viver numa casa sempre ameaçada de incêndio, num navio que todos os dias naufragava. E era sempre Stanley que se achava em perigo. Ela passava todo o tempo a salvá-lo, a tratar dele, a acalmá-lo e ouvir-lhe a história. O tempo que sobrava, vivia-o com medo de ter filhos... Era muito bonito dizer que ter filhos é a sorte comum das mulheres. Não era verdade. Ela, por exemplo, poderia provar que era falso. Estava quebrada, enfraquecida, desanimada com tanta gravidez. E o mais duro de suportar era que não gostava dos filhos. Não vale a pena fingir... Não, era como se um vento frio a tivesse enregelado em cada uma daquelas terríveis viagens; não lhe restava mais calor para dar-lhes. Quanto ao menininho, graças aos céus pertencia à sua mãe, a Beryl, a quem quisesse. Mal o tivera nos braços. Era-lhe tão indiferente enquanto repousava a seus pés. Baixou o olhar... Havia algo tão estranho, tão inesperado no sorriso dele que Linda sorriu também. Mas dominou-se e disse à criança: “Não gosto de bebês. — Não gostas de bebês?” Ele não podia acreditar. “Não gostas de mim?” Agitava estupidamente os braços para a mãe. Linda deixou-se cair na relva. “Por que continuas a sorrir?, disse severamente. Se soubesses o que estava pensando não ririas...” Linda estava tão espantada com a confiança daquela criaturinha. Ah, não, seja sincera. Não era o que sentia; era algo inteiramente diferente, algo tão novo, tão... Lágrimas dançaram-lhe nos olhos; murmurou docemente para o filho: “Bom dia, meu estranho menino...” Todos esses exemplos bastam para mostrar que não existe “instinto” materno: a palavra não se aplica em nenhum caso à espécie humana. A atitude damãe é definida pelo conjunto de sua situação e pela maneira por que a assume. É, como se acaba de ver, extremamente variável.Entretanto, não sendo as circunstâncias inteiramente desfavoráveis, a mãe encontrará no filho um enriquecimento. Era como uma resposta à realidade de sua própria existência... Por ele tinha a possibilidade de aprender todas as coisas e a si mesma para começar.


Escreve C. Audry a propósito de uma jovem mãe.E empresta a outra estas palavras: Pesava em meus braços, no meu peito como o que há de mais pesado no mundo, até o limite de minhas forças. Afundava-me na terra, no silêncio e na noite. De uma só vez jogara-me o peso do mundo sobre os ombros. É bem por isso que o quisera. Sozinha eu era leve demais. Se certas mulheres, que são mais “poedeiras” do que mães, se desinteressam do filho logo depois do desmame, logo depois do nascimento, e nãodesejam senão uma nova gravidez, muitas, ao c ontrário, consideram que é a própria separação que lhes dá o filho; este não é mais um pedaçoindistinto de seu eu e sim uma parcela do mundo; não lhes habita mais surdamente o corpo, mas pode-se vê-lo, tocá-lo; após a melancolia do parto,Cécile Sauvage exprime a alegria da maternidade possessiva: Aqui estás meu pequeno amanteNo grande leito de tua mamãePosso beijar-te, abraçar-te,Ponderar teu belo futuro;Bom dia, minha pequena estátuaDe sangue, de alegria e de carne nua,Meu pequeno duplo, minha emoção...408 Já se disse e repetiu que a mulher encontra felizmente no filho uma equivalência do pênis: é inteiramente inexato. Na realidade, o homem adulto deixoude ver no pênis um brinquedo maravilhoso; o valor que seu órgão conserva é o dos objetos desejáveis cuja posse ele assegura; do mesmo modo, amulher adulta inveja do homem a presa que ele anexa, não o instrumento da anexação; o filho satisfaz esse erotismo agressivo que o carinho masculinonão satisfaz: é o homólogo dessa amante que ela entrega ao homem e que este não é para ela; bem-entendido não há equivalência exata: toda relação éoriginal; mas a mãe encontra no filho — como o amante na amada — uma plenitude carnal e isso não na rendição mas no domínio; ela apreende nele oque o homem procura na mulher: um outro, a um tempo natureza e consciência, que seja sua presa, seu duplo. Ele encarna toda a natureza. A heroínade C. Audry diz-nos que encontrava no filho: A pele que era para meus dedos, que cumprira a promessa de todos os gatinhos, de todas as flores... A carne dele tem essa doçura, essa elasticidade morna que, em criança, a mulher desejara através da carne materna, e mais tarde por toda parte nomundo. Ele é planta, bicho, há em seus olhos chuvas e riachos, o azul do céu e do mar, as unhas são de coral, os cabelos uma vegetação sedosa, é umaboneca viva, um pássaro, um gatinho; minha flor, minha pérola, meu pintinho, meu cordeirinho... a mãe murmura as palavras do amante e, como ele,serve-se avidamente do adjetivo possessivo; emprega os mesmos modos de apropriação: carícias, beijos; aperta o filho contra o corpo, envolve-o nocalor dos braços, do leito. Por vezes essas relações r evestem-se de um caráter nitidamente sexual. Assim é que se lê na confissão recolhida por Stekel ejá citada: Amamentava meu filho, mas sem alegria porque não crescia e ambos perdíamos peso. Isso representava algo sexual para mim e eu experimentava um sentimento de pudor dando-lhe o seio. Tinha a sensação adorável de sentir o corpinho quente que se achegava ao meu; arrepiava-me quando sentia suas mãozinhas me tocarem... Todo o meu amor se destacava de meu eu para se voltar para meu filho... O filho estava tempo demais comigo. Logo que me via na cama, e tinha então dois anos, arrastava-se para o leito, tentando colocar-se sobre mim. Acariciava-me os seios com suas mãozinhas e queria descer com o dedo; o que me dava tanto prazer que tinh a dificuldade em afastá-lo. Muitas vezes tive de lutar contra a tentação de brincar com o pênis dele... A maternidade assume novo aspecto quando o filho cresce; nos primeiros tempos, ele não passa de um “pequerrucho-standard”, só existe em suageneralidade: pouco a pouco, individualiza-se. As mulheres muito dominadoras ou muito carnais esfriam-se então; é nesse momento, ao contrário, queoutras — como Colette — começam a se interessar por ele. A relação entre mãe e filho torna-se cada vez mais complexa: ele é um duplo e por vezes elaé tentada a alienar-se inteiramente nele, mas ele é um sujeito autônomo, logo rebelde; é hoje vivamente real, mas no fundo do futuro um adolescente,um adulto imaginário, uma riqueza, um tesouro; é também um fardo, um tirano. A alegria que a m ãe pode encontrar nele é uma alegria degenerosidade; é preciso que ela se compraza em servir, em dar, em criar felicidade, como a mãe que pinta C. Audry: Ele tinha pois uma infância feliz como nos livros, mas que estava para a infância dos livros como as rosas de verdade estão para as rosas dos cartões-postais. E essa felicidade dele saía de mim como o leite com que o amamentara. Como a apaixonada, a mãe encanta-se ao sentir-se necessária; é justificada pelas exigências a que atende; mas o que faz a dificuldade e a grandeza doamor materno é o fato de que não implica uma reciprocidade; a mulher não tem diante de si um homem, um herói, um semideus, e sim uma pequenaconsciência balbuciante, afogada em um corpo frágil e contingente; o filho não detém valor algum, nem pode conferir nenhum; diante dele a mulherpermanece só; ela não espera nenhuma recompensa em troca daquilo que doa, cabe a sua própria liberdade justificá-lo. Essa generosidade merece oslouvores que os homens incansavelmente lhe outorgam; mas a mistificação começa quando a religião da maternidade proclama que toda mãe éexemplar. Porque o devotamento materno pode ser vivido numa perfeita autenticidade; mas o caso é raro, na realidade. De costume, maternidade é umestranho compromisso de narcisismo, de altruísmo, de sonho, de sinceridade, de má-fé, dedicação e cinismo.O grande perigo que nossos costumes fazem o filho correr é que a mãe, a quem o confiam de pés e mãos atados, é quase sempre uma mulherinsatisfeita: sexualmente, é frígida ou irrealizada; socialmente, sente-se inferior ao homem; não tem domínio sobre o mundo e o futuro; procurarácompensar através do filho todas as suas frustrações; quando se compreendeu a que ponto a situação atual da mulher lhe torna difícil sua plenarealização, quantos desejos, revoltas, pretensões, reivindicações a habitam surdamente, espanta-nos que filhos sem defesa lhe sejam entregues. Suascondutas são simbólicas como no tempo que ora embalava a boneca, ora a torturava: mas esses símbolos tornam-se uma áspera realidade para o filho.Uma mãe que bate no filho não bate somente nele, em certo sentido não bate absolutamente na criança: vinga-se de um homem, do mundo, de simesma; mas é o filho que recebe as pancadas. Mouloudji fez-nos sentir em Enrico esse mal-entendido penoso: Enrico compreende muito bem que não énele que a mãe bate tão loucamente; e, despertando de seu delírio, ela soluça de remorso e de ternura; ele não guarda rancor, mas nem por isso ficamenos desfigurado pelas pancadas. Do mesmo modo, a mãe descrita em L’Asphyxie, de Violette Leduc, enfurecendo-se contra a filha, vinga-se dosedutor que a abandonou, da vida que a humilhou e venceu. Sempre se conheceu esse aspecto cruel da maternidade; mas com um pudor hipócritadesfez-se a ideia de “mãe má”, inventando o tipo da madrasta; é a esposa de segundas núpcias que atormenta o filho de uma “boa mãe” defunta. Emverdade, em Mme Fichini, é uma mãe, exatamente igual à edificante Mme de Fleurville, que Mme de Ségur nos descreve. Depois de Poil de carotte, deJules Renard, os atos de acusação multiplicaram-se: Enrico, L’Asphyxie, La Haine maternelle, de S. de Tervagnes, Vipère au poing de Hervé Bazin. Se ostipos descritos nesses romances são algo excepcionais, é porque em sua maioria as mulheres recalcam por moralidade e decência seus impulsosespontâneos; mas estes manifestam-se por momentos através de cenas, tapas, raivas, insultos, castigos etc. Ao lado das mães francamente sádicas,muitas há simplesmente caprichosas; o que as encanta é dominar; bem pequenino, o bebê é um brinquedo; se é menino, elas divertem-se sem escrúpulocom o sexo dele; se é menina, fazem dela uma boneca; mais tarde querem que um pequeno escravo lhes obedeça cegamente; vaidosas, exibem acriança como um animal ensinado; ciumentas e exclusivas, isolam-no do resto do mundo. Muitas vezes também a mulher não renuncia a umarecompensa pelos cuidados que deu à criança; modela através dela um ser imaginário que a reconhecerá com gratidão como uma mãe admirável e emquem esta se reconhecerá. Quando Cornélia, mostrando os filhos, dizia com orgulho: “Eis minhas joias” dava o mais nefasto exemplo à posteridade;


número demasiado grande de mães vive na esperança de repetir um dia esse gesto orgulhoso; e não hesitam em sacrificar a esse objetivo o pequenoindivíduo de carne e osso cuja existência contingente, indecisa, não as satisfaz. Impõem-lhe que se assemelhe ao marido ou, ao contrário, que não seassemelhe a ele em nada, ou que reencarne um pai, uma mãe, um antepassado venerado; imitam um modelo prestigioso: uma socialista alemãadmirava profundamente Lily Braun, conta H. Deutsch; a célebre agitadora tinha um filho genial e que morreu moço; sua imitadora obstinou-se emtratar o próprio filho como um futuro gênio e o resultado foi que ele se tornou um bandido. Nociva à criança, essa tirania desadaptada é sempre umafonte de decepção para a mãe. H. Deutsch cita outro exemplo impressionante, o de uma italiana cuja história acompanhou durante vários anos. A sra. Mazetti tinha numerosos filhos e queixava-se sem cessar de se achar em dificuldade com um ou outro; pedia ajuda mas era difícil auxiliá-la porque ela se imaginava superior a todo mundo e principalmente ao marido e aos filhos; fora da família, conduzia-se com muita ponderação e altivez, mas em casa, ao contrário, mostrava-se muito excitada e fazia cenas violentas. Saíra de um meio pobre, inculto e sempre quisera “subir”; frequentava cursos noturnos e talvez houvesse realizado suas ambições se não tivesse se casado aos 16 anos com um homem que a atraía sexualmente e que a fizera mãe. Continuou a tentar sair de seu meio indo a cursos etc.; o marido era um bom operário especializado que a atitude agressiva e superior da mulher levou, como reação, ao alcoolismo; para vingar-se, talvez, foi que a engravidou tantas vezes. Separada do marido, após um período em que se resignou com a sua situação, começou a tratar os filhos da mesma maneira que o pai; nos primeiros tempos, eles lhe deram satisfação: trabalhavam direito, tinham boas notas na escola etc. Mas quando Luísa, a mais velha, fez 16 anos, ela teve medo de que repetisse sua própria experiência; tornou-se tão severa e dura que Luísa, com efeito, teve, por vingança, um filho ilegítimo. Em conjunto, os filhos tomavam o partido do pai contra a mãe, que os aborrecia com suas exageradas exigências morais; ela era incapaz de se apegar ternamente a mais de um filho de cada vez, nele pondo todas as suas esperanças; depois mudava de predileção, o que tornava os outros furiosos e ciumentos. Uma após outra, as filhas puseram-se a receber homens, a pegar sífilis e a trazer filhos ilegítimos para casa; os filhos tornaram-se ladrões. E a mãe não queria compreender que suas exigências ideais é que os haviam impelido a esse caminho. Essa obstinação educadora e o sadismo caprichoso de que falei misturam-se muitas vezes; como pretexto para suas cóleras, a mãe afirma que deseja“formar” o filho; e, inversamente, o fracasso do empreendimento exaspera-lhe a hostilidade.Outra atitude assaz frequente, e não menos nefasta à criança, é a dedicação masoquista; certas mães, para compensar o vazio de seu coração e se punirde uma hostilidade que não querem confessar, tornam-se escravas da progenitura; cultivam indefinidamente uma ansiedade mórbida, não suportam queo filho se afaste delas; renunciam a quaisquer prazeres, a toda vida pessoal, o que lhes permite assumirem atitudes de vítima; e tiram desse sacrifício odireito de negar ao filho toda independência; essa renúncia concilia-se facilmente com uma vontade tirânica de domínio; a mater dolorosa faz de seussofrimentos uma arma que emprega sadicamente; suas cenas de resignação engendram na criança sentimentos de culpa que muitas vezes pesarão emtoda a sua vida e que são ainda mais nocivos do que as cenas agressivas. Hesitante, desnorteada, a criança não encontra nenhuma atitude de defesa:ora as pancadas, ora as lágrimas a denunciam como criminosa. A grande desculpa da mãe está em que o filho não lhe proporciona nem de longe a felizrealização de si mesma que lhe prometeram desde a infância: culpa-o da mistificação de que foi vítima e que inocentemente ele denuncia. Ela dispunhadas suas bonecas à vontade; e quando ajudava a cuidar do bebê de uma irmã, era sem responsabilidade que o fazia. Agora a sociedade, o marido, a mãee seu próprio orgulho exigem que preste contas daquela pequena vida estranha como se fosse obra sua: o marido em particular irrita-se com os defeitosdo filho como se irritaria com um mau jantar ou com a má conduta da mulher; suas exigências abstratas pesam muitas vezes fortemente nas relaçõesentre mãe e filho; uma mulher independente — graças à sua solidão, sua despreocupação ou sua autoridade no lar — será muito mais serena do queaquelas sobre quem pesam vontades dominadoras a que devem, queiram ou não, obedecer, fazendo o filho obedecer. Pois a grande dificuldade consisteem encerrar em quadros previstos uma existência misteriosa como a dos animais, turbulenta e desordenada como a das forças naturais, e no entanto,humana; não se pode educar a criança em silêncio, como se faz com um cão, nem persuadi-la com palavras de adulto; ela joga com esse equívoco,opondo às palavras a animalidade de seus soluços e de suas convulsões e, à opressão, a insolência da linguagem. Sem dúvida o problema assim posto éapaixonante e, quando tem lazeres, a mãe compraz-se em ser uma educadora: tranquilamente instalado num jardim público, o bebê é ainda umálibi, como no tempo em que se aninhava no ventre materno; muitas vezes, tendo permanecido mais ou menos infantil, a mãe se encanta em brincarcom ele, ressuscitando os jogos, as palavras, as preocupações, as alegrias dos tempos idos. Mas quando ela lava, cozinha, amamenta outro filho, vai àfeira, recebe visitas e principalmente quando se ocupa do marido, o filho já se torna uma presença importuna, exaustiva; ela não tem tempo para“formá-lo”, é preciso antes de tudo impedi-lo de perturbar, pois ele quebra, rasga, suja, é um perigo constante para os objetos e para si próprio; agita-se, grita, fala, faz barulho: vive por sua conta e essa vida atrapalha a dos pais. Os interesses de uns e outro não se ajustam, daí o drama. Atormentadosincessantemente por ele, os pais lhe infligem sem cessar sacrifícios cujas razões ele não compreende: sacrificam-no à sua tranquilidade e também aofuturo dele. É natural que ele se revolte. Não entende as explicações que a mãe tenta dar-lhe: ela não pode penetrar na consciência do filho, cujossonhos, fobias, obsessões, desejos formam um mundo opaco: a mãe só pode regulamentar de fora, às apalpadelas, um ser que sente essas leis abstratascomo uma violência absurda. Quando o filho cresce, a incompreensão continua: ele entra em um mundo de interesses, de valores, de que a mãe se achaexcluída; muitas vezes, ele a despreza. O menino, particularmente, orgulhoso de suas prerrogativas masculinas, zomba das ordens de uma mulher: elaexige que faça suas lições, mas não poderia resolver os problemas do filho, nem traduzir um texto em latim; não pode “acompanhá-lo”. A mãe enerva-sepor vezes até às lágrimas nessa tarefa ingrata cuja dificuldade o marido raramente calcula; governar um ser com quem não se comunica e que noentanto é um ser humano; imiscuir-se numa liberdade estranha que não se define e só se afirma pela revolta.A situação é diferente segundo o sexo da criança e, embora no caso de um menino a coisa seja mais “difícil”, em geral a mãe a ela se ajeita melhor. Porcausa do prestígio de que a mulher reveste os homens, e também dos privilégios que estes detêm concretamente, muitas mulheres desejam filhos depreferência a filhas. “É maravilhoso pôr no mundo um homem!”, dizem; vimos que sonham com gerar um “herói” e o herói é evidentemente do sexomasculino. O filho será um chefe, um condutor de homens, um soldado, um criador; imporá sua vontade sobre a terra e a mãe participará de suaimortalidade. As casas que ela não construiu, os países que não explorou, os livros que não leu, ele dará a ela. Através dele ela possuirá o mundo: mas àcondição de possuir seu filho. Daí o paradoxo de sua atitude. Freud considera que a relação da mãe com o filho é a que comporta menos ambivalência;mas, em verdade, na maternidade , como no casamento e no amor, a mulher tem uma atitude equívoca em relação à transcendência masculina; se suavida conjugal ou amorosa a tornou hostil aos homens, será para ela uma satisfação dominar o macho reduzido a sua figura infantil. Ela tratará com umafamiliaridade irônica o sexo de pretensões arrogantes: às vezes assustará a criança, anunciando-lhe que o tirarão dela, se ele não se comportar direito.Mesmo que, mais humilde, mais pacífica, respeite no filho o futuro herói, a fim de que seja realmente seu, ela se esforça para reduzi-lo à sua realidadeimanente: assim como trata o marido como criança, trata o filho como bebê. É demasiado racional, demasiado simples pensar que deseja castrar o filho;seu sonho é mais contraditório: ela o quer infinito e, no entanto, cabendo na palma da mão, dominando o mundo inteiro, mas de joelhos diante dela.Incita-o a mostrar-se sensível, guloso, egoísta, tímido, sedentário, proíbe-lhe a prática dos esportes, a camaradagem, torna-o desconfiado de si mesmo,porque pretende tê-lo para si; mas fica decepcionada se ele não se torna ao mesmo tempo um aventureiro, um campeão, um gênio de que pudesse seorgulhar. Que sua influência seja muitas vezes nefasta — como o afirmou Montherlant, como mostrou Mauriac em Génitrix — é fato indiscutível.Felizmente, para ele, o menino pode assaz facilmente escapar a esse domínio; os costumes, a sociedade o encorajam, e a própria mãe se resigna a isso:sabe que a luta contra o homem é desigual. Consola-se fazendo-se de mater dolorosa ou ruminando o orgulho de ter gerado um de seus vencedores.A menina é mais totalmente dependente da mãe: com isso, as pretensões desta aumentam. Suas relações assumem um caráter muito mais dramático.Na filha, a mulher não saúda um membro da casta eleita; nela procura seu duplo. Projeta nela toda a ambiguidade de sua relação consigo mesma; equando se afirma a alteridade desse alter ego, sente-se traída. É entre mãe e filha que os conflitos de que falamos assumem formas exasperadas.Há mulheres que se acham suficientemente satisfeitas com a vida para desejar reencarnar-se numa filha ou, pelo menos, acolhê-la sem decepção;desejarão dar à filha as possibilidades que tiveram e também as que não tiveram: proporcionarão a ela uma juventude feliz. Colette deu-nos o retrato deuma dessas mães equilibradas, generosas: Sido ama a filha em sua liberdade, cumula-a de satisfações sem nada exigir, porque tira sua alegria de seupróprio coração. É possível que, dedicando-se a esse duplo em quem se reconhece e se ultrapassa, a mãe acabe por se alienar inteiramente nele;renuncia a seu eu, sua única preocupação é a felicidade da filha; mostrar-se-á mesmo egoísta e dura para com o resto do mundo; o perigo que a ameaçaé de se tornar importuna a quem adora, como Mme de Sévigné o foi para Mme de Grignan; a filha tentará, com mau humor, desembaraçar-se de umadedicação tirânica; muitas vezes não o consegue e fica a vida inteira infantil, tímida ante suas responsabilidades por ter sido demasiado “mimada”. Masé principalmente certa forma masoquista da maternidade que ameaça pesar fortemente sobre a jovem. Certas mulheres sentem sua feminilidade comouma maldição absoluta: desejam ou acolhem uma filha com o amargo prazer de se reencontrar em outra vítima; e, ao mesmo tempo, julgam-se culpadasde a ter dado à luz; seus remorsos, a piedade que sentem por si mesmas através da filha traduzem-se por ansiedades infinitas; não largarão essa filhaum só instante; dormirão na mesma cama durante 15, vinte anos; a menina será aniquilada pelo fogo dessa paixão inquieta.Em sua maioria, as mulheres reivindicam, e ao mesmo tempo detestam, sua condição feminina; é no ressentimento que a vivem. O nojo queexperimentam por seu sexo poderia incitá-las a dar a suas filhas uma educação viril: raramente são bastante generosas. Irritada por ter gerado umamulher, a mãe a recebe com esta equívoca maldição: “Serás uma mulher”. Espera resgatar sua inferioridade fazendo de quem encara como seu duplouma criatura superior; tende também a infligir-lhe a tara de que sofreu. Por vezes, procura impor à filha exatamente o seu próprio destino: “O que foibastante bom para mim, será igualmente para ti; assim foi que me educaram, terás a mesma sorte”. Outras vezes, ao contrário, proibe-lhe que seassemelhe a ela: quer que sua experiência sirva, é uma maneira de refazer a vida. A mulher galante põe a filha num convento, a ignorante faz a filhainstruir-se. Em L’Asphyxie, a mãe, que vê na filha a consequência detestada de um erro de mocidade, diz-lhe com furor: Vê se compreendes. Se te acontecesse coisa igual, eu te renegaria. Eu não sabia nada. O pecado! É vago o pecado! Se um homem te chamar, não vás. Segue teu caminho. Não te voltes. Compreendes? Estás prevenida, é preciso que isso não te aconteça e se te acontecesse eu não teria nenhuma piedade, te largaria na sarjeta. Vimos que a Sra. Mazetti levara a filha ao erro de tanto querer poupar-lhe a falta que ela própria cometera. Stekel conta um caso complexo de ódio


materno para com uma filha: Conhecia uma mãe que, desde o momento do nascimento, não podia suportar sua quarta filha, uma criaturinha encantadora e gentil... Acusava-a de ter herdado todos os defeitos do marido... A menina nascera numa época em que outro homem a cortejara, um poeta por quem se apaixonara perdidamente; esperava que, como nas Afinidades eletivas de Goethe, a criança tivesse os traços do homem amado. Mas desde o nascimento a menina pareceu-se com o pai. Além disso, a mãe via na criança seu próprio reflexo: o entusiasmo, a doçura, a dedicação, a sensualidade. Gostaria de ser forte, inflexível, dura, casta, enérgica. Na filha, detestava-se muito mais a si mesma do que ao marido. É quando a menina cresce que nascem verdadeiros conflitos; vimos que ela desejava afirmar sua autonomia contra a mãe: aos olhos desta há nisso umtraço de ingratidão odiosa; obstina-se em “subjugar” essa vontade que lhe escapa; não aceita que seu duplo se torne uma outra. O prazer de se sentirabsolutamente superior, que o homem experimenta junto das mulheres, a mulher só o conhece junto dos filhos e em particular das filhas; sente-sefrustrada se precisa renunciar a seus privilégios, à sua autoridade. Mãe apaixonada ou mãe hostil, a independência dos filhos arruína-lhe asesperanças. É duplamente ciumenta: do mundo que lhe toma a filha, da filha que, conquist ando uma parte do mundo, a rouba dela. Esse ciúme volta-seprimeiramente para as relações da menina com o pai; muitas vezes, a mãe vale-se da filha para prender o marido ao lar: em caso de fracasso, ficadespeitada, mas se a manobra dá certo ela é tentada a reavivar, sob uma forma invertida, seu complexo infantil: irrita-se contra a filha como outroracontra a própria mãe; emburra, imagina-se abandonada e incompreendida. Uma francesa, casada com um estrangeiro e que gostava muito das filhas,disse um dia com raiva: “Estou farta de viver com gringos!” Muitas vezes a mais velha, predileta do pai, é particularmente alvo das perseguiçõesmaternas. A mãe a humilha com tarefas ingratas, exige dela uma seriedade acima da idade; uma vez que é uma rival, será tratada como adulta; ficarásabendo, ela também, “que a vida não é um romance, que nem tudo é cor-de-rosa, que não se faz o que se quer, que não se está no mundo para sedivertir...” Frequentemente, a mãe estapeia a criança a torto e a direito, simplesmente “para ensinar-lhe”; entre outras coisas, faz questão de provarque continua a ser quem manda; o que mais a irrita é não ter nenhuma superioridade verdadeira a opor a uma criança de 11 a 12 anos; esta já estáapta a desincumbir-se das tarefas caseiras; é “uma mulherzinha”; tem mesmo uma vivacidade, uma curiosidade, uma lucidez que a tornam, sob muitosaspectos, superior às mulheres adultas. A mãe compraz-se em reinar sem contestação sobre seu universo feminino; quer ser única, insubstituível, e eisque a jovem assistente a reduz à pura generalidade de suas funções. Ralha duramente com a filha se, após dois dias de ausência, encontra a casa emdesordem, mas entra furiosamente em transe se verifica que a vida familiar prosseguiu perfeitamente sem ela. Não aceita que a filha se torneverdadeiramente um duplo, uma substituta. Entre tanto, é muito mais intolerável ainda para ela que a filha se afirme francamente como outra. Detestasistematicamente as amigas em que a filha busca auxílio contra a opressão familiar e que “lhe enchem a cabeça”; ou, tomando como pretexto a “máinfluência” delas, proíbe-lhe radicalmente que as veja. Toda influência que não for a sua é má; tem uma animosidade particular contra as mulheres damesma idade que ela — professoras, outras mães — para as quais a menina volta sua afeição; declara que tais sentimentos são absurdos ou perniciosos.Basta para a exasperar, por vezes, a alegria, a despreocupação dos jogos e risos da criança; perdoa-os com mais boa vontade aos meninos; estesaproveitam seu privilégio de machos, é natural, ela já renunciou há muito a uma impossível competição. Mas por que essa outra mulher gozaria devantagens que lhe são recusadas? Presa às armadilhas da seriedade, inveja todas as ocupações e os divertimentos que arrancam a menina ao tédio dolar; essa evasão é um desmentido a todos os valores pelos quais se sacrificou. Quanto mais a filha cresce, mais o rancor rói o coração materno; cadaano encaminha a mãe para seu declínio; de ano em ano o corpo juvenil se afirma, desabrocha, esse futuro que se abre à frente da filha, parece à mãeque lhe foi roubado; daí é que vem a irritação de certas mulheres quando as filhas têm as primeiras regras; querem-lhes mal por serem agora mulheres.A essa recém-chegada oferecem-se, contra a repetição e a rotina que são o quinhão da mais velha, possibilidades ainda indefinidas: são estasoportunidades que a mãe inveja e detesta; não podendo fazê-las suas, tenta constantemente diminuí-las, suprimi-las: prende a filha em casa, vigia-a,tiraniza-a, recusa-lhe todos os lazeres, propositadamente veste-a de modo ridículo, fica furiosa se a adolescente se pinta, se “sai”; todo seu ra ncorcontra o mundo, ela o dirige contra essa jovem vida que se lança para um futuro novo; tenta humilhar a jovem, ridiculariza suas iniciativas, zomba dela.Uma luta aberta declara-se muitas vezes entre ambas; é normalmente a mais jovem que ganha, pois o tempo trabalha por ela; mas a vitória tem umgosto de pecado: a atitude da mãe engendra na filha revolta e remorso ao mesmo tempo; a simples presença da mãe faz dela uma culpada e vimos queesse sentimento pode pesar muito sobre seu futuro; de uma maneira ou de outra, a mãe termina por aceitar sua derrota; quando a filha se torna adulta,uma amizade ma is ou menos atormentada restabelece-se entre elas. Mas uma permanece desiludida, frustrada para sempre; a outra, muitas vezes,acredita-se perseguida por uma maldição.Voltaremos a tratar das relações que uma mulher idosa mantém com seus filhos adultos: mas é evidentemente durante os vinte primeiros anos que elesocupam maior lugar na vida da mãe. A perigosa falsidade dos dois preconceitos geralmente admitidos decorre claramente da descrição que acabamosde fazer. O primeiro consiste em imaginar que a maternidade basta, em qualquer caso, para satisfazer uma mulher: não é verdade. Há muitas mulheresque são infelizes, azedas, insatisfeitas. O exemplo de Sofia Tolstoi, que teve 12 partos, é significativo; não para de repetir em seu diário que tudo lheparece inútil e vazio no mundo e em si mesma. Os filhos dão-lhe uma espécie de paz masoquista. “Com os filhos, não tenho mais o sentimento de serjovem. Estou calma e feliz.” Renunciar à sua mocidade, à sua beleza, à sua vida pessoal traz-lhe um pouco de calma; sente-se envelhecida, justificada.“O sentimento de lhes ser indispensável é para mim uma grande felicidade.” Eles são uma arma que lhe permite recusar a superioridade do marido.“Meus únicos recursos, minhas únicas armas para restabelecer a igualdade entre nós, são os filhos, a energia, a alegria, a saúde...” Mas eles nãobastam absolutamente para dar um sentido a uma existência corroída pelo tédio. A 25 de janeiro de 1905, após um momento de exaltação, ela escreve: Eu também quero e posso tudo.409 Mas logo que esse sentimento passa, verifico que não quero nem posso nada, nada senão cuidar dos bebês, comer, beber, dormir, amar meu marido e meus filhos, o que em definitivo deveria ser a felicidade mas que me entristece e, como ontem, me dá vontade de chorar. E 11 anos mais tarde: Consagro-me energicamente e com ardente desejo de acertar à educação dos filhos. Deus meu! Como sou impaciente, irascível, como grito!... Como é triste esta eterna luta com os filhos! A relação da mãe com os filhos define-se no seio da forma global que é a sua vida; depende de suas relações com o marido, com o passado, com suasocupações e consigo mesma; é um erro nefasto tanto quanto absurdo pretender ver no filho uma panaceia universal. É a conclusão a que também chegaH. Deutsch, na obra que citei muitas vezes e em que estuda, através de sua experiência de psiquiatra, os fenômenos da maternidade. Ela coloca muitoalto essa função pela qual considera que a mulher se realiza totalmente; mas com a condição de que seja livremente assumida e sinceramente desejada;é preciso que a jovem mulher se encontre numa situação psicológica, m oral e material que lhe permita suportar o fardo, sem o que as consequênciasserão desastrosas. É criminoso, em particular, aconselhar o filho como remédio a melancólicas ou neuróticas; faz-se com isso a infelicidade da mulher eda criança. A mulher equilibrada, sadia, consciente de suas responsabilidades é a única capaz de se tornar uma “boa mãe”.Disse que a maldição que pesa sobre o casamento provém de que muito frequentemente os indivíduos nele se juntam em sua fraqueza, não em suaforça, cada qual solicitando do outro em vez de ter prazer em lhe dar. É um engano ainda mais decepcionante do que sonhar em alcançar, pelo filho,uma plenitude, um calor, um valor que não se soube criar por si mesmo; o casamento só dá alegria a uma mulher capaz de querer desinteressadamentea felicidade de outro, àquela que, sem se voltar para si mesma, busca uma superação de sua própria existência. O filho é, sem dúvida, umempreendimento a que se pode validamente destinar; mas tal como outras não representa uma justificação em si; e é preciso que seja desejada peloque é e não por benefícios hipotéticos. Stekel diz muito justamente: Os filhos não são sucedâneos do amor; não substituem uma meta de vida falhada; não são material destinado a preencher o vazio de nossa vida; são uma responsabilidade e um pesado dever; são os florões mais generosos do amor livre. Não são nem o brinquedo dos pais, nem a realização de sua necessidade de viver, nem sucedâneos de suas ambições insatisfeitas. Os filhos representam a obrigação de formar seres felizes. Uma tal obrigação nada tem de natural: a natureza não poderá nunca ditar uma escolha moral; esta implica um compromisso; dar à luz é assumir umcompromisso; se a mãe não o cumpre a seguir comete um erro contra uma existência humana, contra uma liberdade; mas ninguém pode impor isso aela. A relação dos pais com os filhos, como a relação da mulher com o marido, deveria ser livremente desejada. Nem sequer é verdade que o filho sejapara a mulher uma realização privilegiada; diz-se de bom grado que uma mulher é coquete, amorosa, lésbica, ambiciosa por “não ter filho”; sua vidasexual, seus objetivos, seus valores seriam sucedâneos do filho. Na realidade, há primitivamente indeterminação: pode-se dizer também que é por faltade amor, de ocupação, de satisfação de suas tendências homossexuais que a mulher deseja um filho. Sob esse pseudonaturalismo esconde-se uma moralsocial e artificial. Afirmar que o filho é o fim supremo da mulher tem exatamente o valor de um slogan publicitário.O segundo preconceito, imediatamente implicado pelo primeiro, consiste em dizer que o filho encontra uma felicidade segura nos braços maternos. Nãohá mãe “desnaturada”, posto que o amor materno nada tem de natural; mas precisamente por causa disso há mães más. E uma das grandes verdades


que a psicanálise proclamou é o perigo que constituem para o filho os próprios pais “normais”. Os complexos, as obsessões, as neuroses de que sofremos adultos têm sua raiz no passado familiar; os pais, que têm seus próprios conflitos, suas dissensões, seus dramas, são para o filho a companhia menosdesejável. Profundamente marcados pela vida do lar paterno, abordam os próprios filhos através de complexos e frustrações e essa cadeia de miséria seperpetuará indefinidamente. O sadomasoquismo materno, em particular, cria na jovem um sentimento de culpa que se traduzirá sempre por condutassadomasoquistas para com os filhos. Há uma má-fé extravagante na conciliação do desprezo que se dedica às mulheres com o respeito com que sãocercadas as mães. É um paradoxo criminoso recusar à mulher toda atividade pública, vedar-lhe as carreiras masculinas, proclamar sua incapacidadeem todos os campos e confiar-lhe o empreendimento mais delicado, mais grave que existe: a formação de um ser humano. Há muitas mulheres a quemos costumes, a tradição recusam ainda a educação, a cultura, as responsabilidades, as atividades que são privilégio dos homens e a quem, no entanto,entregam sem escrúpulos os filhos, como outrora as consolavam, com bonecas, de sua inferioridade em relação aos meninos; impedem-nas de viver; emcompensação, autorizam-nas a brincar com brinquedos de carne e osso. Seria preciso que a mulher fosse perfeitamente feliz, ou uma santa, pararesistir à tentação de abusar de seus direitos. Montesquieu talvez tivesse razão quando dizia que fora preferível confiar o governo do Estado a umamulher a entregar-lhe o da família, porque, desde que se lhe dê a oportunidade, a mulher mostra-se tão sensata, tão eficiente quanto o homem: é nopensamento abstrato, na ação concertada que ela supera mais facilmente seu sexo; é bem mais difícil para ela, atualmente, libertar-se de seu passadode mulher, encontrar um equilíbrio afetivo que em sua situação nada favorece. O homem também é muito mais equilibrado, sensato em seu trabalho doque no lar; conduz seus cálculos com uma precisão matemática: torna-se ilógico, mentiroso, caprichoso junto da mulher com quem “se abandona”; omesmo ocorre com ela em relação ao filho. E essa complacência é mais perigosa, porque ela pode defender-se melhor contra o marido do que o filhocontra ela. Naturalmente seria desejável para o bem da criança que a mãe fosse uma pessoa completa e não mutilada, uma mulher que encontra emseu trabalho, em sua relação com a coletividade, uma realização de si que não buscasse alcançar através do filho, tiranicamente. E seria desejáveltambém que ele fosse menos abandonado aos pais do que o é atualmente, que seus estudos e distrações se desenrolassem no meio de outras crianças,sob o controle de adultos que só tivessem com ele relações impessoais e puras.Mesmo no caso em que o filho se apresenta como uma riqueza no seio de uma vida feliz, ou pelo menos equilibrada, não pode limitar o horizonte damãe. Não a arranca da imanência; ela modela-lhe a carne, cuida dele, sustenta-o: só pode criar uma situação de fato que cabe tão somente à liberdadedo filho ultrapassar; quando ela aposta no futuro dele, é ainda por procuração que se transcende através do universo e do tempo, isto é, uma vez maisela se destina à dependência. Não somente a ingratidão, mas o fracasso do filho será o desmentido de todas as esperanças: como no casamento ou noamor, ela entrega a um outro o cuidado de lhe justificar a vida, quando a única condut a autêntica consiste em a assumir livremente. Vimos que ainferioridade da mulher provinha originalmente de ela ter-se limitado a repetir a vida, enquanto o homem inventava razões de viver, a seus olhos maisessenciais do que a pura facticidade da existência; encerrar a mulher na maternidade seria perpetuar essa situação. Ela reclama hoje o direito departicipar do movimento pelo qual a humanidade tenta incessantemente justificar-se, se superando; ela só pode consentir em dar vida se a vida tem umsentido; não poderia ser mãe sem tentar desempenhar um papel na vida econômica, política, social. Não é a mesma coisa conceber carne para canhão,conceber escravos, vítimas ou homens livres. Numa sociedade convenientemente organizada, em que o filho estivesse até certo ponto a cargo dacoletividade, a mãe tratada e auxiliada, a maternidade não seria absolutamente incompatível com o trabalho feminino. Ao contrário: é a mulher quetrabalha — camponesa, química ou escritora — que tem o parto mais fácil, pelo fato de não se fascinar com sua própria pessoa. A mulher de vidapessoal mais rica será a que mais dará ao filho e menos lhe pedirá; será quem adquire no esforço e na luta o conhecimento dos verdadeiros valoreshumanos, será a melhor educadora. Se atualmente muitas vezes a mulher tem dificuldade em conciliar o trabalho, que a retém durante horas fora dolar e lhe toma todas as forças, com o interesse de seus filhos, é porque, por um lado, o trabalho feminino é ainda frequentemente uma escravidão, e,por outro, porque nenhum esforço se fez para assegurar o cuidado, a guarda, a educação das crianças fora do lar. Trata-se de uma carência social; masé um sofisma justificá-la alegando que uma lei inscrita no céu ou nas entranhas da terra determina que a mãe e o filho se pertençam exclusivamente umao outro; essa mútua pertinência não constitui, na verdade, senão uma dupla e nefasta opressão.É uma mistificação sustentar que a mulher se torna, pela maternidade, a igual concreta do homem. Os psicanalistas esforçaram-se muito pordemonstrar que o filho lhe trazia um equivalente do pênis; mas, por invejável que seja esse atributo, ninguém pretende que sua simples posse sejacapaz de justificar uma existência nem que seja o fim supremo desta. Falou-se também muitíssimo dos direitos sagrados da mãe, mas não foi como mãeque as mulheres conquistaram o direito de voto; a mãe solteira é ainda desprezada; é somente no casamento que a mãe é glorificada, isto é, na medidaem que permanece subordinada ao marido. Enquanto este permanece o chefe econômico da família, embora ela se ocupe muito mais dos filhos, elesdependem muito mais dele do que dela. É por isso que, como vimos, a relação da mãe com os filhos se acha estreitamente comandada pela que mantémcom o esposo.As relações conjugais, a vida caseira, a maternidade formam assim um conjunto em que todos os momentos se determinam; ternamente unida aomarido, a mulher pode assumir com alegria os encargos do lar; feliz com os filhos, será indulgente com o marido. Mas essa harmonia não é facilmenterealizável porque as diferentes funções consignadas à mulher se conjugam mal entre si. Os jornais femininos ensinam abundantemente à dona de casaa arte de conservar sua atração sexual embora lavando a louça, a permanecer elegante durante a gravidez, a conciliar o coquetismo com a maternidadee a economia; mas aquela que se sujeitasse a seguir atentamente esses conselhos logo se veria atormentada e desfigurada pelas preocupações; é muitodifícil para ela permanecer desejável quando tem as mãos inchadas e o corpo deformado pelas maternidades; eis por que uma mulher amorosaexperimenta muitas vezes certo rancor contra os filhos que lhe arruinam a sedução e a privam das carícias do marido; se, ao contrário, éprofundamente mãe, ela tem ciúme do homem que reivindica igualmente os filhos. Por outro lado, o ideal caseiro contradiz, como vimos, o movimentoda vida; a criança é inimiga dos assoalhos encerados. O amor materno perde-se, muitas vezes, nas repreensões e cóleras ditadas pela preocupação deum lar bem-arrumado. Não é de espantar que a mulher que se debate em meio a essas contradições viva muitas vezes seus dias em estado denervosismo e azedume; ela perde sempre, no que quer que aposte, e seus ganhos são precários, não se inscrevem em nenhum êxito seguro. Nunca épor seu próprio trabalho que pode se salvar; esse trabalho ocupa-a, mas não constitui uma justificação: esta assenta em liberdades alheias. A mulherencerrada no lar não pode fundar ela própria sua existência; não tem os meios de se afirmar em sua singularidade e esta, por conseguinte, não lhe éreconhecida. Entre os árabes, os índios e muitas populações rurais, a mulher é apenas uma criada, apreciada segundo o trabalho que fornece esubstituída sem lamentações caso desapareça. Na civilização moderna, ela é, aos olhos do marido, mais ou menos individualizada; mas, a menos querenuncie inteiramente a seu eu, abismando-se como Natacha numa dedicação apaixonada e tirânica pela família, ela sofre por se ver reduzida à suapura generalidade. É a dona de casa, a esposa, a mãe única e indistinta; Natacha compraz-se nesse aniquilamento soberano e, rechaçando qualquerconfronto, nega os outros. Mas a mulher ocidental moderna almeja, ao contrário, ser notada por outrem como essa dona de casa, essa esposa, essamãe, essa mulher. É a satisfação que procurará na vida social.


3/A vida social A família não é uma comunidade fechada em si mesma: para além de sua separação ela estabelece comunicações com outras células sociais; o lar não éapenas “um interior” em que se confina o casal; é também a expressão de seu padrão de vida, de sua fortuna, de seu gosto: deve ser exibido aos olhosde outrem. É essencialmente a mulher que ordena essa vida mundana. O homem acha-se ligado à coletividade, enquanto produtor e cidadão, por laçosde uma solidariedade orgânica baseada na divisão do trabalho: o casal é uma pessoa social, definida pela família, a classe, o meio, a raça a quepertence, presa por laços de uma solidariedade mecânica aos grupos que se situam socialmente de maneira análoga; a mulher é que é suscetível deencarná-lo com mais pureza: as relações profissionais do marido muitas vezes não coincidem com a afirmação de seu valor social; ao passo que amulher, não solicitada por nenhum trabalho, pode confinar-se na convivência com seus pares; além disso, ela tem os lazeres de assegurar em suas“visitas” e suas “recepções” essas relações praticamente inúteis e que, bem-entendido, só têm importância nas categorias interessadas em manter suaposição na hierarquia social, isto é, que se julgam superiores a algumas outras. Seu interior, sua própria figura que marido e filhos não veem, por nelesse acharem envolvidos, ela se encanta com os exibir. Seu dever mundano, que é “representar”, confunde-se com o prazer que sente em se mostrar.E, primeiramente, é preciso que ela se represente a si mesma; em casa, atenta a suas ocupações, ela está simplesmente vestida: para sair, para receberela “se arruma”. A toalete tem um duplo caráter: destina-se a manifestar a dignidade social da mulher (padrão de vida, fortuna, o meio a que pertence),mas ao mesmo tempo concretiza o narcisismo feminino; é um uniforme e um adorno; através dela, a mulher que sofre por não fazer nada, acreditaexprimir o seu ser. Cuidar de sua beleza, se arrumar, é uma espécie de trabalho que lhe permite apropriar-se de sua pessoa como se apropria do larpelo seu trabalho caseiro; seu eu parece-lhe, então, escolhido e recriado por si mesma. Os costumes incitam-na a alienar-se assim em sua imagem. Asroupas do homem, como seu corpo, devem indicar sua transcendência e não deter o olhar;410 para ele, nem a elegância nem a beleza consistem em seconstituir em objeto; por isso não considera, normalmente, sua aparência como reflexo de seu ser. Ao contrário, a própria sociedade pede à mulher quese faça objeto erótico. O objetivo das modas, às quais está escravizada, não é revelá-la como um indivíduo autônomo, mas ao contrário privá-la de suatranscendência para oferecê-la como uma presa aos desejos masculinos; não se procura servir seus projetos mas, ao contrário, entravá-los. A saia émenos cômoda do que as calças, os sapatos de salto alto atrapalham o andar; os vestidos e os escarpins menos práticos, os chapéus e as meias maisfrágeis é que são os mais elegantes; o vestido, quer fantasie, deforme ou modele o corpo, em todo caso o expõe aos olhares. Por isso é a toalete um jogoencantador para a menina que almeja contemplar-se; mais tarde, sua autonomia de criança insurge-se contra os constrangimentos das musselinasclaras e dos sapatos de verniz; na idade ingrata ela hesita entre o desejo e a recusa de se exibir; quando aceita sua vocação de objeto sexual, compraz-se em se enfeitar.Pelo adorno, dissemos,411 a mulher aparenta-se à natureza, embora emprestando-lhe a necessidade do artifício; torna-se, para o homem, a flor e a pedrapreciosa: e também para si mesma. Antes de dar-lhe as ondulações da água, a doçura quente das peles delas se apropria. Mais intimamente do quesobre os bibelôs, os tapetes, as almofadas, os buquês, ela reina sobre as plumas, as pérolas, os brocados, as sedas que mistura à sua carne; seu aspectocambiante, seu doce contato compensam a aspereza do universo erótico que é seu quinhão: dá a tais coisas um valor tanto maior quanto maisinsatisfeita está sua sensualidade. Se muitas lésbicas se vestem virilmente não é somente para imitar o homem e desafiar a sociedade: elas nãoprecisam das carícias do veludo e do cetim porque lhes apreendem as qualidades passivas em um corpo feminino.412 A mulher votada às rudes caríciasmasculinas — ainda que o aprecie e, mais ainda, se o suporta sem prazer — não pode abraçar outra presa carnal que não seu próprio corpo: perfuma-opara mudá-lo em flor e o brilho dos diamantes que pendura ao pescoço não se distingue do de sua carne; a fim de os possuir, identifica-se com todas asriquezas do mundo. E não visa somente aos tesouros sensuais, mas também, por vezes, aos valores sentimentais, ideais. Tal joia é uma recordação, taloutra um símbolo. Há mulheres que se fazem buquês, outras viveiros de pássaros, outras são museus, outras hieróglifos. Georgette Leblanc diz-nos, emsuas Mémoires, evocando os anos de sua juventude: Andava sempre vestida como um quadro. Passeava de Van Eyck, alegoria de Rubens ou Virgem de Memling. Vejo-me ainda atravessando uma rua de Bruxelas, num dia de inverno, com um vestido de veludo cor de ametista ornado de galões de prata tirados de uma casula. Arrastando uma cauda comprida com a qual não queria me preocupar, varria conscienciosamente as calçadas. Minha touca de pele amarelada enquadrava meus cabelos louros, mas o mais insólito era o diamante incrustado numa corrente de ouro que usava na fronte. Por que tudo isso? Simplesmente porque me agradava e porque, desse modo, eu acreditava viver à margem de qualquer convenção. Quanto mais riam quando eu passava, mais eu inventava as invenções grotescas. Teria tido vergonha de mudar qualquer coisa em meu aspecto porque zombavam de mim. Isso me parecia uma capitulação degradante... Em casa era bem diferente. Os anjos de Gozzoli, de Fra Angélico, os Burne Jones, os Watts eram meus modelos. Andava sempre vestida de azul e de aurora; meus vestidos amplos espalhavam-se em múltiplas caudas em torno de mim. É nos hospícios que se encontram os mais belos exemplos dessa apropriação mágica do universo. A mulher, que não controla seu amor pelos objetospreciosos e pelos símbolos, esquece sua própria imagem e arrisca-se a vestir-se com extravagância. Assim é que a menina vê principalmente em suatoalete uma fantasia que a transforma em fada, em rainha, em flor; acredita ser bela quando se sobrecarrega de guirlandas e de fitas porque seidentifica com esses falsos enfeites maravilhosos; encantada com a cor de um tecido, a moça ingênua não nota o tom lívido que se reflete em seu rosto.Depara-se também com esse mau gosto deflagrado em adultas artistas ou intelectuais mais fascinadas pelo mundo exterior do que conscientes de suaprópria figura: apaixonadas por esses tecidos antigos, por essas joias velhas, encantam-se com evocar a China ou a Idade Média e só lançam ao espelhoum olhar rápido ou prevenido. Espantamo-nos, por vezes, com a estranha e ridícula maneira de vestir que tanto agrada às mulheres idosas: diademas,rendas, vestidos provocantes, colares barrocos, chamam desagradavelmente a atenção para a ruína dos rostos. Isso ocorre frequentemente porque,tendo renunciado a seduzir, a toalete se torna para elas um jogo gratuito como na infância. Uma mulher elegante, ao contrário, pode a rigor tirar datoalete prazeres sensuais ou estéticos, mas é preciso que os concilie com a harmonia de sua imagem. A cor do vestido tem que lhe favorecer a tez, ocorte acentuar ou retificar a linha; é dela própria enfeitada que gosta com complacência e não dos objetos que a enfeitam.A toalete não é simplesmente um adorno: exprime, já o dissemos, a situação social da mulher. Somente a prostituta, cuja função é exclusivamente a deum objeto erótico, deve manifestar-se sob esse aspecto único; como outrora, os cabelos cor de açafrão e as flores do vestido, hoje os saltos altos, oscetins colantes, a maquiagem violenta, os perfumes pesados anunciam-lhe a profissão. A qualquer outra mulher censuram-lhe “vestir-se como umaputa”. Suas virtudes eróticas acham-se integradas na vida social e não devem apresentar-se senão sob esse aspecto bem-comportado. Mas é precisoacentuar que a decência não consiste em se vestir com rigoroso recato. Uma mulher que solicita por demais abertamente o desejo do macho é malvista;mas a que parece repudiá-lo não é muito mais recomendável: pensam que ela quer masculinizar-se, que é uma lésbica; ou singularizar-se: é umaexcêntrica; recusando seu papel de objeto, desafia a sociedade: é uma anarquista. Se deseja tão somente não ser notada, é preciso que conserve suafeminilidade. São os costumes que regulamentam o compromisso entre o exibicionismo e o pudor; ora é o colo, ora o tornozelo que a “mulher honesta”deve esconder; ora a moça tem o direito de acentuar seus encantos a fim de atrair os pretendentes, enquanto a mulher casada renuncia a quaisqueradornos: é esse o costume em muitas sociedades rurais; ora impõem-se às moças toaletes vaporosas, de cores delicadas e corte discreto, enquanto asmais velhas têm direito a vestidos colantes, tecidos pesados de cores vivas, de cortes provocantes. Num corpo de 16 anos o preto parece vistoso porquea regra é não usá-lo.413 É naturalmente necessário dobrar-se a tais leis; mas em todo caso, mesmo nos meios mais austeros, o caráter sexual da mulherserá acentuado; uma mulher de pastor protestante ondula os cabelos, pinta-se ligeiramente, segue a moda com discrição, assinalando, compreocupação de seu encanto físico, que aceita seu papel de fêmea. Essa integração do erotismo na vida social é particularmente evidente nos “vestidosde noite”. Para significar que há festa, isto é, luxo e desperdício, esses vestidos devem ser caros e frágeis, tão incômodos quanto possível; as saias sãotão compridas, tão largas ou tão estreitas que atrapalham o andar; por baixo das joias, das anáguas, das lantejoulas, das flores, das plumas, dasperucas, a mulher é transformada em boneca de carne; mesmo essa carne se exibe; assim como gratuitamente desabrocham as flores, a mulher exibeos ombros, o dorso, o seio; a não ser em orgias, o homem não deve mostrar que a deseja: só tem direito aos olhares e aos abraços da dança; mas podeencantar-se com ser o rei de um mundo de tão doces tesouros. De homem para homem, a festa assume então um ar de potlatch; cada qual oferececomo presente, a todos os outros, a visão desse corpo de sua propriedade. Em vestido de noite, a mulher fantasia-se de mulher para o prazer de todosos machos, e o orgulho de seu proprietário.


Essa significação social da toalete permite à mulher exprimir pela sua maneira de vestir-se sua atitude em relação à sociedade; submetida à ordemestabelecida, ela confere a si mesma uma personalidade discreta e de bom-tom; muitos matizes são possíveis: ela se fará frágil, infantil, misteriosa,cândida, austera, alegre, distinta, algo ousada, apagada, segundo sua vontade. Ou, ao contrário, ela se afirmará pela originalidade, hostilidade àsconvenções. É de notar que em muitos romances a mulher “livre” se singularize por uma ousadia de toalete que lhe acentua o caráter de objeto sexuale, portanto, de dependência. Assim, em This Age of innocence, de Edith Wharton, a jovem divorciada de passado aventureiro, de coração audacioso, éprimeiramente apresentada como exageradamente decotada; o arrepio de escândalo que suscita devolve-lhe o reflexo tangível de seu desprezo peloconformismo. Assim, a jovem se divertirá em vestir-se como mulher, a mulher idosa como menina, a cortesã como mulher da sociedade e esta comovamp. Ainda que cada qual se vista segundo sua condição, há nisso, também, um jogo. O artifício, como a arte, situa-se no imaginário. Não somentecintas, sutiãs, tinturas, maquiagens fantasiam corpo e rosto, mas a mulher menos sofisticada, desde que se “vista”, não se propõe à percepção: é comoo quadro, a estátua, como o ator no palco, um analogon através do qual é sugerido um sujeito ausente que é sua personagem mas que ela não é. É essaconfusão com um objeto irreal, necessário, perfeito como um herói de romance, como um retrato ou um busto que a lisonjeia; ela se esforça por sealienar nele e de aparecer assim a si mesma petrificada, justificada.É assim que, através dos Écrits intimes, de Maria Bashkirtseff, nós a vemos em cada página multiplicar infatigavelmente sua imagem. Não nos poupanenhum de seus vestidos: a cada nova toalete ela se acredita diferente e se adora novamente. Peguei um xale grande de mamãe, abri uma fenda para a cabeça e costurei-o de ambos os lados. Esse xale que cai em pregas clássicas dá-me um ar oriental, bíblico, estranho. Vou ao Laferrière e Carolina em três horas faz-me um vestido dentro do qual pareço estar envolvida numa nuvem. É tudo uma peça de crepe inglês com a qual ela me envolve e que me torna esbelta, elegante, alongada. Envolta num vestido de lã quente de pregas harmoniosas, uma figura de Lefebvre, que tão bem sabe desenhar esses corpos flexíveis e jovens em roupagens pudicas. Esse estribilho repete-se diariamente: “Estava encantadora de preto... Estava encantadora de cinza... Estava de branco, encantadora”.Mme de Noailles, que dava também muita importância a seus adornos, evoca com tristeza em suas Mémoires o drama de um vestido malfeito. Gostava da vivacidade das cores, de seu contraste audacioso, um vestido parecia-me uma paisagem, uma isca para o destino, uma promessa de aventura. No momento de vestir o vestido executado por mãos hesitantes, não deixava nunca de sofrer com todos os defeitos que me eram revelados. Se a toalete tem, para muitas mulheres, importância tão considerável é porque ela lhes entrega ilusoriamente, e ao mesmo tempo, o mundo e seupróprio eu. Um romance alemão, A moça de seda artificial,414 conta a paixão de uma moça pobre por um casaco de petigris; aprecia-lhe comsensualidade o calor acariciante, a ternura forrada; sob as peles preciosas é ela mesma transfigurada que ama; possui enfim a beleza do mundo quenunca abraçara e o destino radioso que nunca fora o seu. E eis que vi um casaco suspenso a um gancho, uma pele tão macia, tão doce, tão terna, tão cinzenta, tão tímida; tinha vontade de beijá-la, a tal ponto a amava. Ela tinha um ar de consolo e de dia de Todos os Santos, e de segurança completa, como um céu. Era um petigris verdadeiro. Silenciosamente tirei o impermeável e vesti o petigris. Essa pele era como um diamante para minha pele que a amava e o que se ama não se devolve quando se tem. Por dentro, um forro de crepe marroquino, pura seda, com bordados à mão. O casaco envolvia-me e falava mais do que eu ao coração de Hubert... Fico tão elegante com essa pele. É como um homem raro, que me tornaria preciosa através de seu amor por mim. Esse casaco me quer e eu o quero: nós nos possuímos. Sendo a mulher um objeto, compreende-se que a maneira pela qual se enfeita e se veste modifica seu valor intrínseco. Não é mais pura futilidade se dátamanha importância às meias de seda, às luvas, ao chapéu: manter sua posição é uma obrigação imperiosa. Nos Estados Unidos, uma enorme parte doorçamento da trabalhadora é consagrada aos cuidados com a beleza e as roupas; na França, esse fardo é menos pesado; entretanto, a mulher é tantomais respeitada quanto melhor “representa”. Quanto maior sua necessidade de achar trabalho, mais lhe é útil ter um aspecto agradável: a elegância éuma arma, um cartaz, um motivo de respeito, uma carta de recomendação.É uma servidão; os valores que conferem são pagos; tão caro que, às vezes, um inspetor de polícia surpreende nas grandes lojas uma mulher dasociedade ou uma atriz roubando perfumes, meias de seda, lingerie. É para se vestir que muitas mulheres se prostituem ou arranjam quem “as ajude”;é a toalete que lhes comanda sua necessidade de dinheiro. Andar bem-vestida exige também tempo e cuidados; é uma tarefa que é, por vezes, fonte dealegrias positivas: neste campo, também há descoberta de “tesouros escondidos”, pechinchas, ardis, combinações, invenção; hábil, pode a mulhertornar-se até criadora. Os dias de compras, de liquidações principalmente, são aventuras frenéticas. Um vestido novo é por si só uma festa. Amaquiagem, o penteado são o sucedâneo de uma obra de arte. Hoje, mais do que outrora, a mulher conhece a alegria de modelar o corpo pelosesportes415, a ginástica, os banhos, as massagens, os regimes; ela decide seu peso, sua linha, a cor de sua pele; a estética moderna permite-lhe integrarqualidades ativas em sua beleza: tem o direito a músculos exercitados, impede a invasão da gordura; na cultura física ela se afirma como uma pessoa;há, para ela, uma espécie de libertação da carne contingente; mas essa libertação retorna facilmente à dependência. A “estrela” de Hollywood triunfasobre a natureza, mas reencontra-se como objeto passivo nas mãos do produtor.Ao lado dessas vitórias em que a mulher pode com razão comprazer-se, o coquetismo implica — como os cuidados caseiros — uma luta contra o tempo;pois seu corpo é também um objeto que o tempo corrói. Colette Audry descreveu esse combate, simétrico ao que, em sua casa, a mulher trava com apoeira.416 Já não era mais a carne compacta da mocidade; ao longo dos braços e das coxas o desenho dos músculos acentuava-se sob a camada de gordura e de pele um pouco distendida. Inquieta, ela modificou novamente o emprego de seu tempo: o dia começaria com meia hora de ginástica e à noite, antes de se deitar, haveria um quarto de hora de massagem. Pôs-se a consultar manuais de medicina, jornais de modas, a controlar a cintura. Preparou sucos de frutas, purgou-se de quando em quando, lavou a louça com luvas de borracha. Suas duas preocupações fizeram-se uma só: rejuvenescer tão bem o corpo, lustrar tão bem a casa que chegaria, um dia, a um período de calma absoluta, a uma espécie de ponto morto... O mundo estaria parado, suspenso fora do envelhecimento e do desgaste... Tomava agora na piscina verdadeiras lições para melhorar o estilo e as revistas de beleza mantinham-na numa expectativa inquieta com receitas indefinidamente renovadas. Ginger Rogers confia-nos: “Dou, todas as manhãs, cem escovadelas nos cabelos, leva exatamente dois minutos e meio e tenho cabelos de seda”. Como adelgaçar os tornozelos? Erga-se todos os dias trinta vezes nas pontas dos pés sem apoiar os calcanhares, o exercício exige apenas um minuto; que é um minuto por dia? De outra feita, era o banho de óleo para as unhas, o creme de limão para as mãos, morangos esmagados para as faces. Também aqui a rotina transforma em tarefas penosas os cuidados com a beleza, o cuidado com roupas e vestidos. O horror à degradação, destino detodo ser vivo, suscita em certas mulheres frígidas ou frustradas o horror à própria vida: elas procuram conservar-se como outras conservam os móveise as geleias; essa obstinação negativa torna-as inimigas de sua própria existência e hostis a outrem: as refeições gostosas deformam a linha, o vinhoestraga a tez, sorrir demais enruga o rosto, o sol mancha a pele, o repouso engorda, o trabalho desgasta, o amor dá olheiras, os beijos inflamam asfaces, as carícias deformam os seios, os abraços fazem a pele murchar, a maternidade enfeia o rosto e o corpo; sabe-se quantas mães afastam com raivao filho maravilhado com o vestido de baile. “Não me toques, estás com as mãos suadas, vais me sujar”; a coquete opõe as mesmas advertências àsatenções do marido ou do amante. Assim como se cobrem os móveis com capas de pano, ela gostaria de se subtrair aos homens, ao mundo, ao tempo.Mas todas essas precauções não impedem o aparecimento de cabelos brancos, de pés de galinha. Desde a mocidade, a mulher sabe que esse destino éinelutável. E, apesar de toda a sua prudência, é vítima de acidentes: uma gota de vinho cai no vestido, um cigarro queima-o; então desaparece acriatura de luxo e festa que se pavoneava sorridente no salão: seu rosto toma o ar sério e duro da dona de casa; descobre-se repentinamente que suatoalete não era uma girândola, um fogo de artifício, um esplendor gratuito e perecível destinado a iluminar generosamente um instante: é uma riqueza,um capital, um investimento; custou sacrifícios, sua perda é um desastre irreparável. Manchas, rasgões, vestidos malfeitos, permanentes malsucedidassão catástrofes ainda mais graves do que um assado queimado ou um vaso quebrado: porque a coquete não somente se alienou nas coisas, ela se quiscoisa, e é sem intermediário que se sente em perigo no mundo. As relações que mantém com a costureira e a modista, suas impaciências, suasexigências revelam seu espírito de seriedade e sua insegurança. O vestido bem-feito cria nela a personagem de seu sonho; mas numa toalete sem viço,malfeita, ela sente-se degradada. Do vestido dependia meu humor, minha atitude, a expressão de meu rosto, tudo... escreve Maria Bashkirtseff. E ainda: Ou tem que passear nua ou vestir-se de acordo com o físico, o gosto e o caráter. Quando não me acho nessas condições, sinto-me desajeitada, vulgar e, por conseguinte, humilhada. Que acontece ao humor e ao espírito? Pensam nos trapos e a gente fica tola, aborrecida, não sabe onde se enfiar.


Muitas mulheres preferem renunciar a uma festa a se apresentarem malvestidas, ainda que não devam ser notadas.Entretanto, embora algumas afirmem: “Eu me visto só para mim mesma”, vimos que o olhar de outrem se acha implicado no narcisismo. É apenas noshospícios que as coquetes mantêm obstinadamente uma fé total em olhares ausentes; normalmente, elas exigem testemunhas. “Gostaria de agradar, que dissessem que sou bela e que Liova o visse e ouvisse... Para que serviria ser bela? Meu encantador pequeno Petia gosta de sua velha “niannia” como se amasse uma beleza e Liovotchka se teria acostumado ao rosto mais horrível... Tenho vontade de ondular meus cabelos. Ninguém o saberá, mas nem por isso será menos delicioso. Que necessidade tenho de que me vejam? As fitas e os laços me agradam, gostaria de ter um novo cinto de couro e agora que escrevi isto tenho vontade de chorar”, escreve Sofia Tolstoi, depois de dez anos de casada. O marido desobriga-se mal do que a mulher espera dele. Suas exigências são dúplices. Se a mulher é demasiado atraente, ele tem ciúme; entretanto,todo marido é mais ou menos o rei Candaule; quer orgulhar-se da mulher; quer que seja elegante, bonita, “bem” pelo menos; sem o quê, lhe diráagastado as palavras do Pai Ubu: “Estás bem feia, hoje! Será porque temos visitas?” No casamento, já o vimos, os valores eróticos e sociais conciliam-semal. Esse antagonismo reflete-se aqui. A mulher que acentua seu encanto sexual conduz-se mal aos olhos do marido; ele censura ousadias que oseduziriam numa estranha, e essa censura mata nele todo desejo; se a mulher se veste com decência, ele a aprova, mas com frieza: não a acha bastanteatraente e como que a censura vagamente. Por causa disso, olha-a raramente por sua própria conta, é através de olhos alheios que a inspeciona. “Quedirão dela?” Prevê mal, porque atribui a outrem sua perspectiva de marido. Nada mais irritante para uma mulher do que o ver apreciar numa outra asroupas ou as atitudes que critica nela. Espontaneamente, aliás, está próximo demais dela para vê-la; ela tem para ele uma fisionomia imutável; ele nãonota nem suas toaletes nem as mudanças de penteado. Mesmo um marido amoroso ou um amante apaixonado são muitas vezes indiferentes à toaleteda mulher. Se a amam ardentemente em sua nudez, os mais belos adornos não fazem senão mascará-la; eles a amarão malvestida, cansada, tantoquanto brilhante. Se não mais a amam, os mais lisonjeiros vestidos serão sem promessas. A toalete pode ser um instrumento de conquista, mas nãouma arma defensiva; sua arte consiste em criar miragens, oferece ao olhar um objeto imaginário: nas carícias carnais, na convivência quotidiana, todamiragem se dissipa; os sentimentos conjugais, como o amor físico, situam-se no terreno da realidade. Não é para o homem amado que a mulher seveste. Dorothy Parker, em uma de suas novelas,417 descreve uma jovem mulher que, esperando com impaciência o marido que chega de licença, resolvefazer-se bela para recebê-lo: Comprou um vestido novo; preto; ele gostava de vestidos pretos; simples, ele gostava de vestidos simples; e tão caro que não queria pensar no preço... — ...Gostas de meu vestido? — Sim! — disse ele. — Sempre gostei de você com esse vestido. Foi como se ela se tivesse transformado num pedaço de pau. — Este vestido — respondeu ela, articulando com uma nitidez insultante — é novo em folha. Nunca o usei. Caso te interesse, comprei-o de propósito para esta circunstância. — Desculpa, querida. Naturalmente, vejo agora que não se assemelha absolutamente ao outro; é magnífico; gosto de você sempre de preto. — Em momentos como este — disse ela — quase desejo ter outro motivo para me vestir de preto. Afirmou-se muitas vezes que a mulher se vestia para excitar o ciúme das outras mulheres: este ciúme é com efeito um sinal visível de triunfo; mas não éa única coisa visada. Através das demonstrações de inveja ou admiração, a mulher busca uma afirmação absoluta de sua beleza, de sua elegância, deseu gosto: de si mesma. Veste-se para se mostrar: mostra-se para se fazer ser. Submete-se assim a uma dolorosa dependência; a dedicação da dona decasa é útil mas não é reconhecida; o esforço da coquete é vão, se não se inscreve em alguma consciência. Ela procura uma valorização definitiva de simesma; é essa pretensão ao absolut o que torna sua busca tão exaustiva; condenado por uma só opinião, este chapéu não é bonito; um cumprimento alisonjeia mas um desmentido a arruína; e como o absoluto só se manifesta por uma série indefinida de aparições, ela jamais vencerá completamente; eispor que a coquete é tão suscetível; eis por que também certas mulheres bonitas e aduladas podem estar tristemente convencidas de que não são nembelas nem elegantes, que lhes falta precisamente a aprovação suprema de um juiz que não conhecem: visam um “em-si” que é irrealizável. Raras são ascoquetes maravilhosas que encarnam elas próprias as leis da elegância, que ninguém pode surpreender em erro porque são elas que definem, pordecretos, o êxito e o fracasso; essas, durante seu reinado, podem pensar-se como um êxito exemplar. A desgraça está em que esse êxito não serve paranada nem para ninguém.A toalete implica desde logo passeios e recepções, está nisso aliás seu destino original. A mulher passeia de salão em salão seu tailleur novo e convidaoutras mulheres para vê-la reinar em seu “interior”. Em certos casos particularmente solenes o marido acompanha-a em suas “visitas”; porém maisfrequentemente, é enquanto o marido trabalha que ela cumpre seus “deveres mundanos”. Descreveu-se mil vezes o tédio implacável dessas reuniões.Ele provém do fato de que essas mulheres reunidas pelas “obrigações mundanas” nada têm a se comunicar. Nenhum interesse comum liga a mulher doadvogado à mulher do médico — nem tampouco a do Dr. Dupont à do Dr. Durant. Não é de bom-tom, numa reunião, numa conversa de ordem geralfalar das travessuras dos filhos ou das preocupações domésticas. Fica-se, portanto, limitada a considerações sobre o tempo, o último romance em voga,algumas ideias gerais tiradas dos maridos. O hábito do “dia de Madame” tende cada vez mais a desaparecer; mas sob diversas formas a obrigação da“visita” sobrevive na França. As norte-americanas substituem de bom grado a conversa pelo bridge, o que só constitui uma vantagem para as mulheresque gostam desse jogo.Entretanto, a vida mundana reveste formas mais atraentes do que essa ociosa execução de um dever de polidez. Receber não é apenas acolher osoutros em sua residência particular; é transformar esta em um recanto encantado; a manifestação mundana é ao mesmo tempo festa e potlatch. A donade casa expõe seus tesouros: prataria, toalhas, cristais; enche de flores o lar: efêmeras, inúteis, as flores encarnam a gratuidade das festas que sãodespesas e luxo; desabrochadas nos vasos, condenadas a uma morte rápida, são fogo de artifício, incenso e mirra, libação, sacrifício. A mesa enche-sede pratos requintados, de vinhos preciosos. Trata-se, satisfazendo as necessidades dos convivas, de coisas agradáveis que lhes antecipem desejos; arefeição transmuda-se em misteriosa cerimônia. V. Woolf acentua esse caráter neste trecho de Mrs. Dalloway: Então começou pelas portas o vai-vem silencioso e encantador das criadinhas de avental e gorrinhos brancos, não serventes necessárias porém sacerdotisas de um mistério, da grande mistificação operada pelas donas de casa de Mayfair de uma hora e meia a duas horas. A um gesto de mão, o movimento da rua cessa e em seu lugar ergue-se essa ilusão enganadora: primeiramente, eis os alimentos oferecidos de graça, depois a mesa cobre-se sozinha de cristais e prataria, de cestos, de tigelas com frutos vermelhos; um véu de creme escuro esconde o peixe; frangos destrinchados nadam em caçarolas, o fogo flameja colorido, cerimonioso; e com o vinho e o café — dados de graça — alegres visões erguem-se ante os olhos sonhadores, os olhos que meditam docemente, aos quais a vida se apresenta musical, misteriosa... A mulher que preside tais mistérios está orgulhosa de se sentir criadora de um momento perfeito, dispensadora da felicidade, da alegria. É por ela queos convivas se encontram reunidos, que um acontecimento ocorre, ela é fonte gratuita de alegria, de harmonia.É exatamente o que sente Mrs. Dalloway: Mas suponhamos que Peter lhe diga: Bem! Bem! Mas suas reuniões, qual a razão delas? Tudo o que pode responder é isto (tanto pior se ninguém entende): São uma oferenda... Eis Fulano que mora em South Kennington, Beltrano que vive em Bayswater e Sicrano, digamos no Mayfair. Ela tem sempre o sentimento da existência deles; ela se diz: Que pena! Que saudade! E ela se diz: Por que não os reunir? E os reúne. É uma oferenda; é combinar, criar. Mas para quem? Uma oferenda pela alegria de oferecer, talvez. Em todo caso é seu presente. Ela não tem outra coisa... Outra pessoa, qualquer uma, poderia ter estado ali, fazer tudo tão bem. Entretanto, era um pouco admirável, pensava. Fizera com que assim fosse. Se há nessa homenagem prestada a outrem pura generosidade, a festa é realmente uma festa. Mas a rotina social dentro em pouco transforma opotlatch em instituição, o dom em obrigação e a festa em rito. Enquanto saboreia o jantar, a convidada pensa que será preciso pagá-lo: queixa-se muitasvezes de ter sido bem-recebida demais. “Os X... quiseram embasbacar-nos”, diz com azedume ao marido. Contaram-me, entre outras coisas, quedurante a última guerra os chás se tinham tornado, numa pequena cidade de Portugal, o mais caro dos potlatchs; em cada reunião devia a dona da casaservir uma variedade e uma quantidade de doces maiores do que na reunião precedente; o fardo tornou-se tão pesado que um dia as mulheresdecidiram de comum acordo nada mais oferecer com o chá. A festa em tais circunstâncias perde seu caráter generoso e magnífico; é um trabalho


penoso entre outros; os acessórios que exprimem a festividade não passam de uma fonte de preocupações: é preciso tomar conta dos cristais, da toalha,medir o champanha e os doces; uma xícara quebrada, a seda de uma poltrona queimada são desastres; amanhã será preciso limpar, arrumar, pôr emordem: a mulher teme esse excesso de trabalho. Sente essa múltipla dependência que define o destino da dona de casa; depende do suflê, do assado, doaçougueiro, da cozinheira, do criado extra; depende do marido que franze o sobrolho, quando alguma coisa falha; depende dos convidados que avaliamos móveis, os vinhos e julgam se a reunião foi um êxito ou não. Somente as mulheres generosas ou seguras de si passarão serenamente por tal prova.Um triunfo pode dar-lhes uma grande satisfação. Mas muitas assemelham-se nesse ponto a Mrs. Dalloway, a propósito de quem V. Woolf nos diz:“Embora gostando desses triunfos... de seu brilho e da excitação que dão, sentia-lhes também o vazio, o artifício”. A mulher só pode realmentecomprazer-se nisso se não lhe empresta grande importância; sem o quê, conhecerá os tormentos da vaidade nunca satisfeita. Há, aliás, poucasmulheres suficientemente ricas para encontrar no “mundanismo” um emprego para sua vida. As que a ele se consagram inteiramente tentam em geralnão somente render um culto a si mesmas como ainda ultrapassar essa vida mundana com vistas a outros fins: os verdadeiros “salões” têm um caráterliterário ou político. Elas se esforçam através desse meio por adquirir ascendência sobre os homens e desempenhar um papel pessoal. Evadem-se desua condição de mulher casada. Esta, em geral, não encontra satisfação nos prazeres, nos triunfos efêmeros que lhes dispensam raramente e quemuitas vezes representam para ela uma fadiga tanto quanto uma distração. A vida mundana exige que ela “represente”, que se exiba, mas não criaentre ela e outrem uma verdadeira comunicação. Não a tira de sua solidão. “É doloroso pensar”, escreve Michelet, “que a mulher, esse ser relativo que só pode viver a dois, se ache mais frequentemente só do que o homem. Eleencontra a sociedade por toda parte, cria relações novas para si. Ela não é nada sem a família. E a família a oprime; todo o peso lhe cai em cima.” E,com efeito, a mulher encarcerada, separada, não conhece as alegrias da camaradagem que implica o esforço em comum para alcançar certos objetivos;seu trabalho não ocupa o espírito, sua formação não lhe deu nem o gosto nem o hábito da independência e, no entanto, ela passa os dias na solidão;vimos que era uma das desgraças de que se queixava Sofia Tolstoi. Seu casamento afastou-a muitas vezes do lar paterno, das amizades da juventude.Colette descreveu em Mes apprentissages o desenraizamento de uma jovem casada transportada da província para Paris: não encontra apoio senão nalonga correspondência que troca com a mãe; mas as cartas não substituem uma presença e ela não pode confessar suas decepções a Sido. Geralmentenão há verdadeira intimidade entre a jovem mulher e sua família: nem sua mãe nem suas irmãs são suas amigas. Hoje, em virtude da crise dehabitação, muitas jovens recém-casadas vivem com a família ou a família do marido; mas essas presenças impostas estão longe de constituir umaverdadeira companhia para elas.As amizades femininas que ela consegue conservar ou criar serão preciosas para ela; têm um caráter muito diferente das relações que os homensconhecem; estes comunicam entre si, como indivíduos, através das ideias, os projetos que lhes são pessoais; as mulheres, encerradas na generalidadede seu destino, acham-se unidas por uma espécie de cumplicidade imanente. O que primeiramente procuram, umas junto de outras, é a afirmação douniverso que lhes é comum. Não discutem opiniões: trocam confidências e receitas; ligam-se para criar uma espécie de contrauniverso cujos valoressuperem os valores masculinos; reunidas, encontram força para sacudir suas correntes; negam o domínio sexual do homem, confiando umas às outrassua frigidez, zombando cinicamente dos apetites do macho ou de sua inabilidade; contestam também com ironia a superioridade moral e intelectual domarido e dos homens em geral. Confrontam suas experiências; gravidez, partos, doenças dos filhos, doenças pessoais, cuidados caseiros tornam-se osacontecimentos essenciais da história humana. Seu trabalho não é uma técnica: transmitindo-se receitas de cozinha, receitas caseiras, dão-lhes adignidade de uma ciência secreta baseada em tradições orais. Por vezes, examinam juntas problemas morais. A “pequena correspondência” dos jornaisfemininos oferece uma boa amostra dessas trocas; não há como imaginar uma “correspondência amorosa” reservada aos homens; eles se encontrarãono mundo, que é o mundo deles; ao passo que as mulheres têm que definir, medir, explorar seus domínios; comunicam principalmente conselhos debeleza, receitas de cozinha e de tricô, pedem opiniões; através de seu gosto pela tagarelice e pela exibição sentimos, por vezes, surgirem verdadeirasangústias. A mulher sabe que o código masculino não é o seu, que o próprio homem espera que ela não o observará, posto que a impele a abortos, aadultérios, a erros, a traições, a mentiras que oficialmente condena. Ela pede, portanto, às outras mulheres, que a ajudem a definir uma espécie de “lei”de seu meio, um código moral propriamente feminino. Não é somente por maldade que as mulheres comentam e criticam tão longamente as condutasdas amigas: para julgá-las e para se orientarem, precisam de muito mais invenção moral do que aos homens.O que dá valor a tais relações é a verdade que comportam. Diante do homem, a mulher está sempre representando; mente, fingindo aceitar-se como ooutro inessencial, mente erguendo, à frente dele, mediante mímicas, toaletes, frases preparadas, uma personagem imaginária; essa comédia exige umaconstante tensão; perto do marido, perto do amante, toda mulher pensa mais ou menos: “não sou eu mesma”. O mundo masculino é duro, tem arestasafiadas, as vozes são demasiado sonoras, as luzes demasiado cruas, os contatos rudes. Perto das outras mulheres, a mulher fica atrás do cenário; forjasuas armas, não combate; combina a toalete, inventa uma maquiagem, prepara seus ardis: arrasta-se de chinelos e roupão pelos bastidores, antes desubir ao palco; gosta dessa atmosfera morna, doce, repousante. Colette descreve assim os momentos que passava com sua amiga Marco: Confidências rápidas, divertimentos de reclusas, horas que por vezes se assemelham às de uma reunião, por vezes aos lazeres de uma convalescença. 418 Comprazia-se em desempenhar o papel de conselheira junto da mulher mais idosa: Nas tardes quentes, sob o toldo do balcão, Marco cuidava de suas roupas. Cosia mal mas com cuidado e eu me envaidecia com os conselhos que lhe dava... “Não se deve colocar fita azul-celeste nas camisas, o cor-de-rosa é mais bonito na roupa e junto da pele.” Não tardei em dar-lhe outros conselhos acerca do pó de arroz e da cor do batom, do traço duro e negro com que cercava o belo desenho de sua pálpebra. “Acha? Acha?”, dizia-me ela. Minha jovem autoridade não cedia. Pegava do pente, abria uma pequena brecha graciosa na sua franja fofa, mostrava-me perita em dar brilho a seu olhar, em acender uma aurora vermelha no alto de suas faces, perto das têmporas. Mais adiante mostra-nos Marco preparando-se ansiosamente para defrontar-se com um rapaz que desejava conquistar: ...Queria enxugar os olhos molhados, eu a impedia. — Deixa-me fazê-lo. Com os polegares, ergui as pálpebras superiores a fim de que as duas lágrimas prestes a escorrer se reabsorvessem e a pintura dos cílios não fundisse ao seu contato. — Bem. Espera, não terminou ainda. Retoquei todos os traços. A boca tremia um pouco. Deixou-se retocar pacientemente, suspirando como se eu estivesse fazendo nela um curativo. Para acabar, enchi-lhe o arminho com um pó de arroz mais rosado. Não falávamos, nem uma nem outra. — ...O que quer que aconteça — disse-lhe — não chore. De jeito nenhum te deixes dominar pelas lágrimas. ...Ela passou a mão entre a franja e a fronte. — Eu devia ter comprado sábado último aquele vestido preto que vi no revendedor... Escuta, não poderias emprestar-me meias muito finas? Nesta hora, não tenho mais tempo. — Mas naturalmente, naturalmente. — Obrigada. Não achas que uma flor pode clarear o vestido? Não, nada de flor na blusa. É verdade que o perfume de Íris não está mais na moda? Parece-me que teria uma porção de coisas para te perguntar, uma porção de coisas... E em outro de seus livros, Le toutounier, Colette evocou esse reverso da vida das mulheres. Três irmãs infelizes ou inquietas em seus amores reúnem-setodas as noites ao redor de um velho sofá de sua infância ; aí se relaxam, ruminando as preocupações do dia, preparando as batalhas do amanhã,degustando os prazeres fugidios de uma refeição bem-preparada, de um bom sono, de um banho quente, de uma crise de lágrimas; não se falam quase,mas cada uma cria para as outras uma espécie de ninho; e tudo o que ocorre entre elas é verdadeiro.Para certas mulheres essa intimidade frívola e cálida é mais preciosa do que a pompa séria das relações com os homens. É em outra mulher que anarcisista encontra, como no tempo de sua adolescência, um duplo privilegiado; é em seus olhos atentos e competentes que poderá admirar o vestidobem-cortado, o interior requintado. Para além do casamento, a amiga íntima permanece uma testemunha de escol: pode também continuar aapresentar-se como um objeto desejável, desejado. Em quase toda moça, dissemos, há tendências homossexuais: as carícias muitas vezes inábeis domarido não as dissipam; daí essa doçura sensual que a mulher conhece junto de suas semelhantes e que não tem equivalência entre os homensnormais. Entre as duas amigas, o apego sensual pode sublimar-se em sentimentalismo exaltado, ou se traduzir por carícias difusas ou precisas. Suascarícias podem também não passar de um jogo que ocupa seus momentos de lazer — é o caso das mulhe res de harém, cuja principal preocupaçãoconsiste em matar o tempo — e que podem assumir uma importância capital.


Entretanto, é raro que a cumplicidade feminina chegue a uma verdadeira amizade; as mulheres sentem-se mais espontaneamente solidárias do que oshomens, mas no seio dessa solidariedade não é uma para a outra que se superam; juntas, voltam-se para o mundo masculino, cujos valores cada qualbusca açambarcar para si. Suas relações não se constroem sobre sua singularidade, mas são imediatamente vividas em sua generalidade e, com isso,introduz-se, desde logo, um elemento de hostilidade. Natacha,419 que adorava as mulheres de sua família porque podia lhes exibir os partos, entretantotinha ciúme delas: em cada uma podia encarnar-se a mulher aos olhos de Pierre. O entendimento das mulheres entre si provém do fato de que seidentificam umas com as outras: mas por isso mesmo cada uma contesta a companheira. Uma dona de casa tem com a criada relações muito maisíntimas do que um homem — a não ser que seja pederasta — com seu criado ou seu motorista; trocam confidências, são cúmplices por vezes; mas hátambém entre elas uma rivalidade hostil, pois a patroa, embora livrando-se do fardo da execução do trabalho, quer ter a responsabilidade dele e omérito; ela quer imaginar-se insubstituível, indispensável. “Basta não estar presente para que tudo vá mal.” Ela tenta asperamente surpreender acriada em falta; se esta desempenha bem demais suas tarefas, a outra não pode mais conhecer o orgulho de ser a única. Da mesma maneira irrita-sesistematicamente contra as preceptoras, governantas, amas, babás que se ocupam de seus filhos, contra os pais e as amigas que a auxiliam; dá comopretexto o fato de que não respeitam “sua vontade”, que não se conduzem de acordo com “suas ideias”; na verdade, não tem nem vontade nem ideiasparticulares; o que a irrita, ao contrário, é que outras desempenham suas funções exatamente da maneira como ela o faria. Aí se encontra umadas fontes principais de todas as discussões familiares e domésticas que envenenam a vida do lar: a mulher exige ainda mais rispidamente ser asoberana porque não tem nenhum meio de fazer com que lhe reconheçam os méritos pessoais. Mas é principalmente no campo do coquetismo e doamor que cada uma vê na outra uma inimiga; assinalei essa rivalidade nas moças; pois perpetua-se muitas vezes durante a vida toda. Vimos que o idealda elegante, da mundana, é uma valorização absoluta; ela sofre por não sentir uma auréola em volta da cabeça; é para ela odioso perceber o mais tênuehalo em outra fronte; todas as aprovações que a outra recolhe lhe são roubadas; e em que consiste um absoluto que não seja único? Uma amantesincera contenta-se com ser glorificada num coração; não inveja os êxitos superficiais de suas amigas mas sente-se em perigo no seu próprio amor. Naverdade, o tema da mulher enganada pela sua mulher amiga não é apenas um lugar-comum literário; quanto mais duas mulheres são amigas, maisperigosa se torna a dualidade. A confidente é convidada a ver através dos olhos da apaixonada, a sentir com seu coração, com sua carne: é atraída peloamante, fascinada pelo homem que seduz a amiga; acredita-se suficientemente protegida pela sua lealdade para não temer os próprios sentimentos;aborrece-se também por desempenhar somente um papel irrelevante: logo estará prestes a ceder, oferecer-se. Prudentes, muitas mulheres, quandoamam, evitam “as amigas íntimas”. Essa ambivalência quase não permite às mulheres que confiem em seus sentimentos recíprocos. A sombra domacho lhes pesa sempre fortemente; mesmo quando não falam dele é possível lhe aplicar o verso de St.-John Perse:E o sol não é nomeado, mas sua presença está entre nós.420 Juntas vingam-se dele, armam-lhe armadilhas, amaldiçoam-no, insultam-no: mas esperam-no. Enquanto estagnam no gineceu, banham-se nacontingência, no insulto e no tédio; esses limbos retiveram um pouco do calor do seio materno: mas são limbos. A mulher só se detém neles com prazersob a condição de esperar emergir sem demora. Assim só se compraz na umidade morna do banheiro, se imaginando no salão iluminado em que logoentrará. As mulheres são companheiras de cativeiro, umas das outras, ajudam-se a suportar a prisão e até a preparar a fuga: mas o libertador virá domundo masculino.Para a grande maioria das mulheres, este mundo conserva seu brilho depois do casamento; só o marido perde seu prestígio; a mulher descobre que apura essência de homem nele se degradou. Contudo o homem continua sendo a verdade do universo, a autoridade suprema, a maravilhosa aventura, osenhor, o olhar, a presa, a salvação, o prazer; encarna ainda a transcendência, é a resposta a todas as perguntas. E a mais leal das esposas nuncaconsente em renunciar inteiramente a ele para se encerrar na morna companhia de um indivíduo contingente. Sua infância deixou-lhe a necessidadeimperiosa de um guia; quando o marido fracassa no desempenho desse papel, ela volta-se para outro homem. Às vezes o pai, um irmão, um tio, umparente, um velho amigo conservou seu antigo prestígio: nele é que ela se apoiará. Há duas categorias de homens cuja profissão os destina a tornarem-se confidentes e mentores: os padres e os médicos. Os primeiros têm a grande vantagem de não cobrar as consultas; o confessionário entrega-os semdefesa à tagarelice das devotas; fogem o quanto possível das “ratas de sacristia”, das “rãs de água benta”, mas seu dever é orientar as ovelhas pelocaminho da moral, dever tanto mais urgente quanto maior importância social e política têm as mulheres, pois a Igreja se esforça por fazer delas seuinstrumento. O “diretor de consciência” dita à penitente suas opiniões políticas, manda em seu voto; e muitos maridos se irritam ao vê-lo imiscuir-se emsua vida conjugal: a ele é que cabe definir as práticas que são lícitas ou ilícitas no segredo da alcova; ele se interessa pela educação dos filhos,aconselha a mulher no que concerne ao conjunto das condutas com o marido. E aquela que sempre saudou no homem um deus, ajoelha-se delicada aospés do macho que é o substituto terrestre de Deus. O médico defende-se melhor pelo fato de reclamar emolumentos; e pode fechar a porta às clientespor demais indiscretas; mas são alvo de perseguições mais precisas, mais obstinadas; três quartos dos homens que as erotômanas perseguem sãomédicos; pôr-se nua diante de um homem representa para muitas mulheres um grande prazer exibicionista. Conheço algumas mulheres, diz Stekel, que encontram sua única satisfação em ser examinadas por um médico que lhes é simpático. É particularmente entre as solteironas que se encontra grande número de doentes que vão ver o médico para serem examinadas “cuidadosamente” por causa de fluxos de sangue sem importância ou de uma perturbação qualquer. Outras sofrem da fobia do câncer ou das infecções (nos W.C.) e tais fobias são um pretexto para se fazerem examinar. Stekel cita, entre outros, os dois casos seguintes: Uma solteirona, B. V., de 43 anos, rica, vai ao médico uma vez por mês, depois das regras, exigindo um exame muito cuidadoso porque acredita que algo não vai bem. Muda todos os meses de médico e representa todas as vezes a mesma comédia. O médico pede-lhe que se dispa e se deite sobre a mesa ou o sofá. Ela recusa, dizendo que é muito pudica, que não pode fazer semelhante coisa, que é antinatural. O médico insiste, persuade-a docemente, ela despe-se afinal, explicando que é virgem e que ele não deve machucá-la. Ele promete-lhe fazer um toque retal. Muitas vezes o orgasmo ocorre logo no início do exame; repete-se, mais intenso, durante o toque retal. Ela apresenta-se sempre sob um nome falso e paga imediatamente... Confessa que agiu com a esperança de ser violentada por um médico. Mme L. M., 38 anos, casada, diz-me ser completamente insensível com o marido. Acaba de se fazer analisar. Depois de apenas duas sessões, confessa ter um amante. Mas ele não consegue fazê-la alcançar o orgasmo. Só o alcançava fazendo-se examinar por um ginecologista. (O pai era ginecologista!) Depois de aproximadamente duas ou três sessões, ela se sentiu na necessidade de ir a um médico para solicitar um exame. De tempos em tempos, pedia um tratamento, e eram seus momentos mais felizes. Da última vez, um ginecologista fizera-lhe longa massagem por causa de uma pretensa queda da matriz. Cada massagem acarretara vários orgasmos. Ela explica sua paixão por esses exames pelo primeiro toque que provocara o primeiro orgasmo de sua vida. A mulher imagina facilmente que o homem a quem se exibiu ficou impressionado com seu encanto físico ou a beleza de sua alma e assim se persuade,nos casos patológicos, de que é amada por um padre ou um médico. Mesmo normal, tem a impressão de que entre ela e ele existe um laço sutil;compraz-se em uma obediência respeitosa; por vezes, aliás, encontra nisso uma segurança que a ajuda a aceitar a vida.Há mulheres, entretanto, que não se contentam com alicerçar a existência numa autoridade moral; têm também necessidade de exaltação romântica noseio dessa existência. Se não querem nem enganar nem abandonar o marido, recorrem à mesma manobra que a moça assustada com os machos decarne e osso: entregam-se a paixões imaginárias. Stekel dá-nos vários exemplos:421 Uma mulher casada, muito decente, da melhor sociedade, queixa-se de seu estado nervoso e de depressões. Uma noite, na ópera, dá-se conta de que está loucamente apaixonada pelo tenor. Sente-se profundamente agitada ao ouvi-lo. Torna-se uma admiradora fervorosa do cantor. Não perde nenhuma representação, compra a fotografia dele, sonha com ele, manda-lhe flores com esta dedicatória: “De uma desconhecida reconhecida”. Resolve mesmo escrever-lhe uma carta (assinada igualmente por uma “desconhecida”). Mas permanece longe dele. Apresenta-se uma oportunidade de travar conhecimento com o cantor. Sabe de imediato que não irá. Não quer conhecê-lo de perto. Não precisa de sua presença. É feliz amando com entusiasmo e permanecendo uma esposa fiel. Uma senhora entregava-se ao culto de Kainz, ator muito célebre em Viena. Instalara em seu apartamento um quarto de Kainz com numerosas fotografias do grande artista. Em um canto, havia uma biblioteca de Kainz. Tudo o que pudera colecionar; livros, brochuras ou jornais falando de seu herói, era cuidadosamente conservado, assim como uma coleção de programas de teatro, de estreias ou de jubileus de Kainz. O tabernáculo era uma fotografia assinada pelo grande art ista. Quando seu ídolo morreu, a mulher pôs luto durante um ano e empreendeu longas viagens para ouvir conferências sobre Kainz. O culto de Kainz imunizara seu erotismo e sua sensualidade. Todos recordam com que lágrimas foi recebida a notícia da morte de Rodolfo Valentino. Tanto mulheres casadas como moças rendem culto a heróis decinema. São, às vezes, as imagens deles que evocam em seus prazeres solitários ou quando, nas carícias conjugais, apelam para fantasias; estesressuscitam também muitas vezes sob a figura de um avô, um irmão, um professor etc., alguma recordação infantil.Entretanto há também homens de carne e osso no ambiente da mulher; sexualmente satisfeita, frígida ou frustrada — salvo no caso muito raro de um


amor completo, absoluto, exclusivo — ela concede grande valor à aprovação deles. O olhar demasiado cotidiano do marido não consegue mais animarsua imagem; ela tem necessidade de que olhos ainda cheios de mistérios a descubram ela própria como um mistério; é preciso uma consciênciasoberana em face dela para recolher-lhe as confidências, despertar as fotografias apagadas, fazer com que exista a covinha do canto da boca, essebater de cílios que só a ela pertencem; ela só é desejável, amável se a desejam, se a amam. Acomoda-se mais ou menos a seu casamento, mas éprincipalmente a satisfação de sua vaidade que busca junto dos outros homens: convida-os a participarem do culto que rende a si mesma; seduz,agrada, contente em sonhar com amores proibidos, em pensar: “Se eu quisesse...”; gosta mais de encantar numerosos admiradores do que se apegarprofundamente a um deles; mais ardente, menos arisca do que uma moça, seu coquetismo pede aos homens que a confirmem na consciência de seuvalor e de seu poder; é muitas vezes ainda mais ousada porque ancorada em seu lar, e tendo conseguido conquistar um homem, joga sem grandesesperanças nem grandes riscos.Acontece que, após um período de fidelidade mais ou menos longo, a mulher não se detém mais nesses namoros e nessas faceirices. Frequentemente épor rancor que se decide a enganar o marido. Adler pretende que a infidelidade da mulher é sempre uma vingança; é ir longe demais; mas o fato é quemuitas vezes ela cede menos à sedução do amante do que a um desejo de desafiar o marido: “Não é o único homem no mundo — há outros a quemposso agradar — não sou sua escrava, acredita-se muito esperto e deixa-se enganar”. É possível que o marido ultrajado conserve aos olhos da mulheruma importância primordial; assim como a moça, por vezes, arranja um amante como revolta contra a mãe, como queixa contra os pais, paradesobedecer-lhes, afirmar-se, uma mulher que seus próprios rancores se prendem ao marido procura no amante um confidente, uma testemunha quecontemple seu personagem de vítima, um cúmplice que a ajude a diminuir o marido; fala-lhe deste sem cessar, a pretexto de entregá-lo a s eu desprezo;se o amante não desempenha bem seu papel, ela se afasta dele aborrecida, seja para voltar ao marido, seja para procurar outro consolador. Mas émuitas vezes menos o rancor do que a decepção que a joga nos braços de um amante; não encontra o amor no casamento e resigna-se dificilmente anão conhecer jamais as volúpias e as alegrias cuja espera encantou sua juventude. O casamento, frustrando a mulher de toda satisfação erótica,denegando-lhe a liberdade e a singularidade de seus sentimentos, a conduz, através de uma dialética necessária e irônica, ao adultério. Nós as educamos desde a infância para as coisas do amor, diz Montaigne; sua graça, seus adornos, sua ciência, sua palavra, toda a instrução que se lhes dá, visam tão somente a esse fim. Suas governantas só lhe apresentam a image m do amor, ainda que apenas para desgostá-las dela... E acrescenta mais adiante: É portanto loucura tentar reprimir nas mulheres um desejo que lhes é tão picante e tão natural. E Engels declara: Com a monogamia aparecem de maneira permanente duas figuras sociais características: o amante da mulher e o cornudo... Ao lado da monogamia e do heterismo, o adultério torna-se uma instituição social inelutável, proscrita, rigorosamente punida, mas impossível de ser suprimida. Se as carícias conjugais excitaram a curiosidade da mulher sem lhe satisfazer os sentidos, como L’lngénue libertine de Colette, ela procura terminar suaeducação nos leitos alheios. Se o marido conseguiu despertar-lhe a sexualidade, não tendo um apego especial por ele, desejará gozar com outros osprazeres que ele lhe revelou.Moralistas indignaram-se com a preferência dada ao amante, e assinalei o esforço da literatura burguesa para reabilitar a figura do marido; mas éabsurdo defendê-lo mostrando que constantemente aos olhos da sociedade — isto é, dos outros homens — tem ele mais valor do que o rival: oimportante aqui é o que ele representa para a mulher. Ora, há dois traços essenciais que o tornam odioso. Primeiramente, é ele que assume o papelingrato de iniciador. As exigências contraditórias da virgem que sonha, ao mesmo tempo, com ser violentada e respeitada, condenam-no quasenecessariamente a um fracasso; ela permanece frígida para sempre nos braços dele; junto do amante não conhece ela as angústias do defloramento,nem as primeiras humilhações do pudor vencido; é-lhe poupado o trauma da surpresa; ela sabe mais ou menos o que a espera; mais sincera, menossuscetível, menos ingênua do que na noite de núpcias, não confunde mais o amor ideal com o apetite físico, o sentimento com perturbação dos sentidos:quando arranja um amante é exatamente um amante que quer. Essa lucidez é um aspecto da liberdade de sua escolha. Pois aí está o outro defeito quepesa sobre o marido: ele em geral foi suportado, não eleito. Ou ela o aceitou resignada, ou ela lhe foi entregue pela família. E ainda que o tivessedesposado por amor, ao se casar fez dele seu senhor; suas relações tornaram-se um dever e muitas vezes ele se apresentou a ela sob a figura de umtirano. Provavelmente, a escolha de um amante é limitada pelas circunstâncias, mas há nessa relação uma dimensão de liberdade; casar-se é umaobrigação, ter um amante, um luxo; é porque ele a solicitou que a mulher cede; tem certeza, senão do amor, ao menos do desejo dele; não é paraobedecer às leis que ele resolve agir. Tem ele também o privilégio de não desgastar suas seduções nem seu prestígio nos atritos da vida cotidiana:permanece a distância: um outro. Por isso tem a mulher, em seus encontros, a impressão de sair de si, de atingir riquezas novas: ela sente-se outra. Ésobretudo o que certas mulheres procuram numa ligação: ser ocupadas, surpreendidas, arrancadas de si mesmas pelo outro. Uma ruptura deixa nelasum sentimento desesperado de vazio. Janet422 cita vários casos dessas melancolias que nos mostram em profundidade o que a mulher procurava eencontrava no amante: Uma mulher de 39 anos, desesperada por ter sido abandonada por um escritor que durante cinco anos a tinha associado a seus trabalhos, escreve a Janet: “Ele tinha uma vida tão rica e era tão tirânico que eu não podia ocupar-me senão dele e não podia pensar em outra coisa”. Outra, de 31 anos, ficara doente em consequência de uma ruptura com um amante que adorava. “Desejaria ser um tinteiro de sua escrivaninha para vê-lo e ouvi-lo”, diz ela. E explica: “Sozinha eu me aborreço, meu marido não faz minha cabeça trabalhar suficientemente, não sabe nada, não me ensina nada, não me surpreende... só tem um bom senso vulgar, isso me aflige”. Do amante, ao contrário, escrevia: “É um homem surpreendente, nunca o vi perturbado um só minuto, comovido, alegre, relaxado; sempre senhor de si, zombeteiro, de uma frieza capaz de matar de tristeza. Ao lado disso, uma audácia, um sangue-frio, uma finura de espírito, uma vivacidade de inteligência que me faziam perder a cabeça...” Há mulheres que só experimentam esse sentimento de plenitude e de excitação alegre nos primeiros momentos da ligação; se o amante não lhes dáprazer imediatamente — o que acontece frequentemente na primeira vez, já que os parceiros se encontram intimidados e inadaptados um ao outro —elas sentem rancor e repugnância contra ele; essas “Messalinas” multiplicam as experiências e passam de um amante a outro. Mas acontece tambémque a mulher esclarecida pelo fracasso conjugal seja atraída então pelo homem que precisamente lhe convém e assim se crie entre ambos uma ligaçãoduradoura. Muitas vezes ele lhe agradará por ser um tipo radicalmente oposto ao do marido. Foi sem dúvida o contraste, que Sainte-Beuve oferecia emrelação a Victor Hugo, que seduziu Adèle. Stekel cita o caso seguinte: Mme P. H. está casada há oito anos com um sócio de um clube de atletismo. Vai a uma clínica ginecológica em virtude de uma ligeira salpingite, queixando-se de que o marido não a deixa sossegada... sente somente dores. O homem é rude e brutal. Ele acaba arranjando uma amante e a esposa fica feliz com isso. Quer divorciar-se e no escritório do advogado conhece um secretário que é exatamente o contrário do marido. É esbelto, frágil, mas muito amável e terno. Tornam-se íntimos; o homem procura seu amor, escreve- lhe muitas cartas cheias de ternura, tem mil gentilezas para com ela. Descobrem interesses espirituais comuns... O primeiro beijo faz que desapareça sua anestesia... A potência relativamente fraca desse homem acarreta os mais intensos orgasmos na mulher... Depois do divórcio, casaram-se; e viveram muito felizes... Ele conseguia provocar o orgasmo com beijos e carícias. Era essa mesma mulher que o marido extremamente potente acusava de frigidez! Nem todas as ligações acabam assim em conto de fadas. Tal como a moça, que sonha com um libertador que a arranque do lar paterno, a mulher esperaque o amante a livre do jugo conjugal: é um tema frequentemente explorado o do amante ardoroso que esfria e foge quando a amante começa a falard e casamento; muitas vezes ela se sente magoada pelas reticências dele e essas relações são por sua vez pervertidas pelo rancor e pela hostilidade. Aose estabilizar, frequentemente uma ligação acaba assumindo um caráter familiar e conjugal; nela se reencontram o tédio, o ciúme, a prudência, o ardil,todos os vícios da casamento. E a mulher sonha com outro homem que a tire dessa rotina.O adultério reveste aliás aspectos muito diferentes, segundo os costumes e as circunstâncias. A infidelidade conjugal apresenta-se ainda, em nossacivilização, em que as tradições patriarcais sobrevivem, como muito mais grave para a mulher do que para o homem: