Emil Michel CioranSILOGISMOSDA AMARGURA
ATROFIA DO VERBO Formados na escola dos veleidosos, idólatras do fragmento e do estigma,pertencemos a um tempo clínico em que só importam os casos. Só nos interessa o queum escritor calou, o que poderia ter dito, suas profundidades mudas. Se deixa umaobra, se explica, assegura no esquecimento. Magia do artista irrealizado..., de um vencido que desperdiça suas decepções, quenão sabe faze-las frutificar. * Tantas páginas, tantos livros que foram, para nós, fontes de emoção, e que relemospara estudar a qualidade dos advérbios ou a propriedade dos adjetivos! * Existe na estupidez uma gravidade que, melhor orientada, poderia multiplicar assomas de obras-primas. * Sem nossas dúvidas sobre nós mesmos, nosso ceticismo seria letra morta,inquietude convencional, doutrina filosófica. * Não queremos mais suportar os pesos das “verdades”, continuar sendo suasvítimas ou seus cúmplices. Sonho com um mundo em que se morreria por uma vírgula. * Como gosto dos autores menores (Joubert sobretudo) que, por delicadeza, viveramà sombra do gênio dos outros e que renunciaram ao seu por temor de possuí-lo! * Se Molière tivesse se concentrado em seus abismos, Pascal — com o seu — teriaparecido um jornalista. * Com certezas, o estilo é impossível: a preocupação com a expressão é própriados que não podem adormecer em uma fé. Por falta de um apoio sólido, agarram-se àspalavras — sombras de realidade —, enquanto os outros, seguros de suas convicções,desprezam sua aparência e descansam comodamente no conforto da improvisação. *
Desconfie dos que dão as costas ao amor, à ambição, à sociedade. Se vingarãopor haver renunciado a isso. * A história das idéias é a história do rancor dos solitários. * Plutarco, hoje, escreveria as Vidas paralelas dos fracassados. * O romantismo inglês foi uma mistura feliz de láudano, exílio e tuberculose; oromantismo alemão, de álcool, província e suicídio. * Certos seres deveriam ter vivido em cidades alemãs da época romântica.Imaginamos tão bem um Gerard von Nerval em Tübingen ou em Heidelberg! * A capacidade de resistir dos alemães não tem limites; e isto até na loucura:Nietzsche suportou a sua 11 anos, Hölderlin quarenta. * Lutero, prefiguração do homem moderno, assumiu todos os tipos dedesequilíbrio: um Pascal e um Hitler coabitavam nele. * “... só o verdadeiro é digno de ser amado.” Daí provêm as lacunas da França, suarepulsa ao Vago e ao turvo, sua antipoesia, sua antimetafísica. Mais ainda que Descartes, foi Boileau quem influiu sobre todo um povo,censurando seu gênio. * O inferno — tão exato como um atestado. O purgatório — falso como toda alusão ao Céu. O paraíso — mostruário de ficções e de insipidezes... A trilogia de Dante constitui a mais alta reabilitação do diabo empreendida porum cristão. * Shakespeare: encontro de uma rosa com um machado...
* Fracassar na vida é ter acesso à poesia — sem o suporte do talento. * Só os espíritos superficiais abordam as idéias com delicadeza. * A menção dos dissabores administrativos (“The law’s delay, the insolence ofoffice”) entre os motivos que justificam o suicídio, me parece a coisa mais profunda quedisse Hamlet. * Esgotados os modos de expressão, a arte se orienta para o sem-sentido, para umuniverso privado e incomunicável. Todo estremecimento inteligível, tanto em pinturacomo em música ou em poesia, nos parece, com razão, antiquado ou vulgar. O públicodesaparecerá em breve; a arte o seguirá de perto. Uma civilização que começou com as catedrais tinha que acabar no hermetismoda esquizofrenia. * Quando estamos a mil léguas da poesia, ainda dependemos dela por essa súbitanecessidade de uivar — último grau do lirismo. * Ser um Raskolnikov — sem a desculpa do homicídio. * Só cultivam o aforismo os que conheceram o medo no meio das palavras, essemedo de desmoronar com todas as palavras. * Não poder voltar a época em que nenhum vocábulo paralisava os seres, aolaconismo da interjeição, ao paraíso do embotamento, ao estupor alegre anterior aosidiomas...! * É fácil ser “profundo”; basta deixar-se invadir por suas próprias taras. *
Toda palavra me faz sofrer. No entanto, como seria doce ouvir florestagarelando sobre a morte! * Modelos de estilo: a praga, o telegrama e o epitáfio. * Os românticos foram os últimos especialistas do suicídio. Desde de então seimprovisa... Para melhorar sua qualidade precisamos de um novo mal do século. * Despojar a literatura do seu disfarce, ver seu verdadeiro rosto, é tão perigosocomo privar a filosofia de seu jargão. As criações do espírito se reduzem àtransfiguração de bagatelas? E só haveria alguma substância, fora do articulado, noríctus ou na catalepsia? * Um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão. * Mônadas desagregadas, chegamos ao final das tristezas prudentes e dasanomalias previstas: mais de um sinal anuncia a hegemonia do delírio. * As “fontes” de um escritor são suas vergonhas; quem não as descubra em simesmo ou as eluda está condenado ao plágio ou à crítica. * Todo ocidental atormentado faz pensar em um herói de Dostoievski que tivesseuma conta no banco. * O bom dramaturgo deve possuir o sentido do assassinato; depois doselisabetanos, quem ainda sabe matar seus personagens? * A célula nervosa habitou-se tão bem a tudo que devemos renunciardefinitivamente a conceber uma insanidade, que, penetrando nos cérebros, os fariaexplodir.
* Depois de Benjamin Constant, ninguém tornou a encontrar o tom da decepção. * Aquele que, possuindo os rudimentos da misantropia, quiser aperfeiçoar-se nela,deve freqüentar a escola de Swift: aprenderá assim a dar a seu desprezo pelos homens aintensidade de uma nevralgia. * Baudelaire introduziu a sua fisiologia na poesia; Nietzsche, na filosofia. Comeles, as perturbações dos órgãos se elevaram a canto e a conceito. Proscritos da saúde,cabia a eles assegurar uma carreira à doença. * Mistério, palavra de que nos servimos para enganar os outros, para fazer-lhesacreditar que somos mais profundos que eles. * Se Nietzsche, Proust, Baudelaire e Rimbaud sobrevivem às flutuações da moda,devem isso à gratuidade de sua crueldade, à sua cirurgia demoníaca, à generosidade deseu fel. O que faz durar uma obra, o que a impede de envelhecer é sua ferocidade.Afirmação gratuita?Considere o prestígio do Evangelho, livro agressivo, livro venenosoentre todos. * O público se precipita sobre os autores chamados “humanos” porque sabe quedeles nada tem a temer; parados, como ele, a meio caminho, lhe proporão um acordocom o Impossível, uma visão coerente do Caos. * A negligência verbal dos pornógrafos provém freqüentemente de um excesso depudor, da vergonha de exibir a sua “alma”, e sobretudo de nomeá-la: não existe palavraindecente em nenhum idioma. * Que uma realidade se oculte atrás das aparências é, em todo caso, possível; que alinguagem possa reproduzi-la, seria ridículo esperar. Por que, então, adotar uma opiniãoem lugar de outra, recuar ante o banal ou o inconcebível, ante o dever de dizer ouescrever qualquer coisa? Um mínimo de sabedoria nos obrigaria a defender todas asteses ao mesmo tempo, em um ecletismo do sorriso e da destruição. *
O medo da esterilidade leva o escritor a produzir acima de suas possibilidades ea acrescentar às mentiras vividas muitas outras que toma emprestadas ou forja. Sob toda“Obra completa” jaz um impostor. * O pessimista deve inventar cada dia novas razões de existir: é uma vítima do“sentido” da vida. * Macbeth: um estóico do crime, um Marco Aurélio com um punhal. * O espírito é o grande favorecido com as derrotas da carne. Enriquece-se à suacusta, a saqueia, regozija-se com suas misérias; vive do banditismo. A civilização deveseu êxito às proezas de um bandido. * O “talento” é o meio mais seguro de falsear tudo, de deformar as coisas e deequivocar-se quanto a si mesmo. Só possuem uma existência verdadeira aqueles a quema natureza não sobrecarregou com nenhum dom. Por isso seria difícil imaginar universomais falso que o universo literário, ou homem mais desprovido de realidade que ohomem de letras. * Não há salvação possível fora da imitação do silêncio. Mas nossa loquacidade épré-natal. Raça de tagarelas, de espermatozóides verbosos, estamos quimicamenteligados à Palavra. * A busca do signo em detrimento da coisa significada; a linguagem consideradacomo um fim em si, como rival da “realidade”; a mania verbal, mesmo nos filósofos; anecessidade de renovar-se a nível das aparências; características de uma civilização naqual a sintaxe prevalece sobre o absoluto e o gramático sobre o sábio. * Goethe, artista completo, é nosso antípoda. Alheio ao inacabado, a esse idealmoderno da perfeição, negou-se a compreender os riscos de seus contemporâneos;quanto aos seus, assimilou-os tão bem que não os sofreu de maneira alguma. Seu clarodestino nos desmoraliza; após havê-lo esquadrinhado tentando em vão descobrir nelesegredos sublimes ou sórdidos, ficamos com as palavras de Rilke: “Não tenho órgãospara Goethe.”
* Nunca se criticará demasiado o século XIX por haver favorecido essa corja deglosadores, essas máquinas de ler, essa malformação do espírito que encarna oProfessor — símbolo do declínio de uma civilização, do aviltamento do gosto, dasupremacia do trabalho sobre o capricho. * Ver tudo do exterior, sistematizar o inefável, não olhar nada de frente, fazer oinventário das visões dos outros!... Todo comentário de uma obra é insuficiente ouinútil, pois tudo o que não é direto é nulo. No passado, os professores se consagravam de preferência à teologia. Ao menostinham a desculpa de ensinar o absoluto, de limitar-se a Deus, enquanto que agora nadaescapa à sua competência assassina. * O que nos distingue de nossos antepassados é nossa petulância face ao Mistério.Nós até o desbatizamos: assim nasceu o Absurdo... * Fraude do estilo: dar às tristezas habituais um aspecto insólito, enfeitar aspequenas desgraças, vestir o vazio, existir pela palavra, pela fraseologia do suspiro oudo sarcasmo. * É inacreditável que a perspectiva de ter um biógrafo não tenha feito ninguémrenunciar a ter uma vida. * Suficientemente ingênuo para colocar-me em busca da Verdade, interessei-meno passado — inutilmente — por muitas disciplinas. Começava a firmar-me noceticismo quando tive a idéia de consultar, como último recurso, a Poesia: quem sabe,disse a mim mesmo, talvez me seja útil, talvez esconda sob sua arbitrariedade algumarevelação definitiva. Recurso ilusório: ela me fez perder até minhas incertezas... * Para quem respirou a Morte, que desolação o odor do Verbo! * Estando na moda a derrota, é natural que Deus se aproveite disso. Graças aosesnobes que o lastimam ou o maltratam, ainda goza de certa reputação. Mas durantequanto tempo será ainda interessante?
* “Tinha talento, no entanto ninguém mais se interessa por ele. Está esquecido. —É justo: não soube tomar todas as precauções necessárias para ser malcompreendido.” * Nada seca tanto o espírito como a repugnância a conceber idéias obscuras. * O que faz o sábio? Resigna-se a ver, a comer etc..., aceita a despeito de simesmo essa “chaga de nove aberturas” que é o corpo segundo o Bhagavad-Gita. Asabedoria? Sofrer dignamente a humilhação que nos infligem nossos buracos. * O poeta: um espevitado que sabe atormentar-se sem motivo, que se dedica comardor às perplexidades, que as procura por todos os meios. E depois, a ingênuaposteridade se apieda dele... * Quase todas as obras são feitas com clarões de imitação, estremecimentosaprendidos e êxtases roubados. * Prolixa por natureza, a literatura vive da pletora de vocábulos, do câncer dapalavra. * A Europa ainda não se encontra suficientemente em ruínas para que possaflorescer nela a epopéia. No entanto, tudo faz prever que, com o ciúmes de Tróia edisposta a imita-la, proporcionará um dia temas tão importantes que nem o romancenem a poesia serão suficientes... * Admiraria com prazer Omar Khayyan, suas tristezas sem réplica, se ele nãotivesse conservado uma última ilusão: infelizmente ainda acreditava no vinho. * O melhor de mim mesmo, este fiapo de luz que me afasta de tudo, devo aminhas raras conversas com alguns canalhas amargos, canalhas inconsoláveis que,vítimas do rigor de seu cinismo, não poderiam mais se dedicar a nenhum vício.
* Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nemmesmo a poesia, conseguem corrigir. * Neste “grande dormitório”, como um texto taoísta chama o universo, o pesadeloé a única forma de lucidez. * É preferível não se dedicar às Letras quando, possuindo uma alma obscura, seestá obcecado pela claridade. Só restarão atrás de si suspiros inteligíveis, pobresresíduos da recusa de ser você mesmo. * Nos tormentos do intelecto há uma decência que dificilmente encontraríamosnos do coração. O ceticismo é a elegância da ansiedade. * Ser moderno é remendar no Incurável. * Tragicomédia do discípulo: reduzi a pó o meu pensamento para ir além dosmoralistas, que só me haviam ensinado a fragmentá-lo...
O ESCROQUE DE ABISMOS Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso. * Com muita precaução ando em volta das profundidades, roubo delas algumasvertigens e fujo como um escroque de abismos. * Todo pensador, no começo de sua carreira, opta, involuntariamente, peladialética ou pelos chorões. * Muito antes da física e da psicologia nascerem, a dor desintegrava a matéria e aangústia a alma. * Essa espécie de mal-estar quando tentamos imaginar a vida cotidiana dosgrandes homens... Por volta das duas da tarde, o que fazia Sócrates? * Se acreditamos com tanta ingenuidade nas idéias é porque esquecemos queforam concebidas por mamíferos. * Uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Só osmaus poetas são livres. * Não encontrei no edifício do pensamento nenhuma categoria sobre a qualdescansar a minha cabeça. Em compensação, que travesseiro o caos! * Para nos vingar dos que são mais felizes do que nós, inoculamo-lhes — na faltade outra coisa — nossas angústias. Porque nossas dores, infelizmente, não sãocontagiosas. *
Nada mata minha sede de dúvidas: se tivesse o bastão de Moisés para faze-lasbrotar até da rocha! * Fora da dilatação do eu, fruto da paralisia geral, não existe nenhum remédiocontra as crises de abatimento, contra a asfixia no nada, contra o horror de ser apenasuma alma dentro de uma cusparada. * Se só obtive algumas idéias da tristeza, é porque amei-a demasiado praempobrecê-la, exercitando-me nela. * Uma moda filosófica se impõe como uma moda gastronômica: refuta-seigualmente uma idéia e um molho. * Todo aspecto do pensamento tem sua hora, sua frivolidade: assim, hoje, a idéiade Nada... Como parecem caducos a Matéria, a Energia, o Espírito. Felizmente o léxicoé rico: cada geração pode extrair dele um vocábulo tão importante como os outros —inutilmente defuntos. * Somos todos farsantes: sobrevivemos a nossos problemas. * Nas épocas em que o Diabo prosperava, o pânico, o horror, as desordens erammales que gozavam de proteção sobrenatural: sabia-se quem os provocava, quempresidia sua expansão; hoje, abandonados a si mesmos, transformam-se em “dramasinteriores” ou degeneram em “psicoses”, em patologia secularizada. * Obrigando-nos a sorrir, sucessivamente, para as idéias daqueles a quemmendigamos, a Miséria converte nosso ceticismo em ganha-pão. * A planta padece ligeiramente; o animal faz um esforço para se desequilibrar; nohomem se exaspera a anomalia de tudo o que respira. *
A Vida, combinação de química e estupor... Acabaremos nos refugiando noequilíbrio do mineral? Atravessaremos, retrocedendo, o reino que nos separa dele paraimitar a pedra normal? * Até onde me lembro, não fiz outra coisa senão destruir em mim o orgulho de serhomem. E vago na periferia da Espécie como um monstro temeroso, sem a envergadurasuficiente para reivindicar outro bando de macacos. * O Tédio nivela os enigmas: é um devaneio positivista... * Existe uma angústia infusa que substitui tanto a ciência como a intuição. * A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer. * Dever da lucidez: alcançar um desespero correto, uma ferocidade apolínea. * Se a felicidade é tão rara, é porque só é alcançada depois da velhice, nasenilidade, favor reservado a bem poucos mortais. * Nossas vacilações levam a marca de nossa honradez; nossas certezas a de nossaimpostura. A desonestidade de um pensador se reconhece pela quantidade de idéiasprecisas que enuncia. * Petulante, mergulhei no Absoluto; emergi troglodita. * O cinismo da solidão extrema é um calvário que a insolência atenua. * A morte coloca um problema que substitui todos os outros. Há algo mais funestopara a filosofia, para essa ingênua crença na hierarquia das perplexidades?
* A filosofia serve de antídoto contra a tristeza. E há quem ainda acredite naprofundidade da filosofia. * Neste universo provisório, nossos axiomas só tem um valor de notícias do dia. * A Angústia já era um produto comum na época das cavernas. Imaginem osorriso do homem de Neanderthal se tivesse previsto que os filósofos chegariam um diaa reclamar a sua paternidade. * O erro da filosofia é ser demasiado suportável. * Os abúlicos, que deixam as idéias tal como são, deveriam ser os únicos a teracesso a elas. Quando os ativos se apropriam delas, a doce bagunça cotidiana seconverte em tragédia. * A vantagem de se interessar pela vida e pela morte é que se pode dizer delasqualquer coisa. * O cético gostaria de sofrer, como o resto dos homens, pelas quimeras que fazemviver. Não conseguem: é um mártir do bom senso. * Objeção contra a ciência: este mundo não vale a pena ser conhecido. * Como se pode ser filósofo? Como se pode ter a ousadia de abordar o tempo, abeleza, Deus e todo o resto? O espírito fica inchado e saltita sem vergonha. Metafísica,poesia — impertinências de piolho... * Estoicismo de fachada: ser um apaixonado pelo “Nil admirari”, um histérico daataraxia.
* Mesmo que possa lutar contra um ataque de depressão, em nome de quevitalidade me obstinaria contra uma obsessão que me pertence, que me precede?Quando estou bem de saúde, escolho o caminho que me agrada; “doente”, já não sou euquem decide: é meu mal. Para os obcecados não existe opção: sua obsessão já optou poreles. Uma pessoa se escolhe quando dispõe de virtudes indiferentes; mas a nitidez deum mal é superior à diversidade dos caminhos a escolher. Perguntar-se se se é livre ounão: futilidade aos olhos de um espírito a quem arrastam as calorias de seus delírios.Para ele, exaltar a liberdade é dar provas de uma saúde indecente. A liberdade? Sofisma dos saudáveis. * Não contente com os sofrimentos reais, o ansioso se impõe imaginários; é umser para quem a irrealidade existe, deve existir; sem isso, onde encontraria a ração detormentos que sua natureza exige? * Por que não poderia me comparar aos maiores santos? Por acaso gastei menosloucura para salvaguardar minhas contradições do que gastaram eles para superar assuas? * Quando a Idéia buscava um refúgio, devia estar carcomida para só encontrar ahospitalidade do cérebro. * Técnica que praticamos à nossa custa, a psicanálise degrada nossos riscos,nossos perigos, nossos abismos; nos despoja de nossas impurezas, de tudo o que nostornava curiosos de nós de nós mesmos. * Que haja ou não uma solução para os problemas, isso só preocupa uma minoria;que os sentimentos não tenham nenhuma saída, que não venham dar em nada, que sepercam neles mesmos, eis o drama inconsciente de todos, o insolúvel afetivo que cadaum sofre sem pensar nele. * Aprofundar uma idéia é atentar contra ela: roubar-lhe o encanto e até a vida... *
Com um pouco mais de ardor no niilismo, me seria possível — negando tudo —sacudir minhas dúvidas e triunfar sobre elas. Mas só tenho o gosto da negação, não seudom. * Haver conhecido a fascinação dos extremos e haver parado em algum lugar entreo diletantismo e a dinamite! * Deveria ser o Intolerável, e não a Evolução, o tema preferido da biologia. * Minha cosmogonia acrescenta ao caos original uma infinidade de pontos desuspensão. * Cada vez que temos uma idéia, algo apodrece em nós. * Todo problema profana um mistério; por sua vez, o problema é profanado porsua solução. * O patético revela uma profundidade de mau gosto; como essa volúpia da sediçãoem que se comprazeram um Lutero, um Rousseau, um Beethoven, um Nietzsche. Asgrandes entonações — plebeísmo dos solitários... * Essa necessidade de remorsos que precede o Mal, ou melhor, que o cria... * Suportaria eu um só dia sem esta caridade de minha loucura que, diariamente,me promete o Juízo Final para o dia seguinte? * Sofremos: o mundo exterior começa a existir...; sofremos demasiado: eledesaparece. A dor só o suscita para desmascarar sua irrealidade. *
O pensamento que se liberta de todo preconceito se desagrega e imita aincoerência e a dispersão das coisas que quer apreender. Com idéias “fluidas” podemosnos espalhar sobre a realidade, aderir a ela, mas não explicá-la. Assim, paga-se caro o“sistema” que não se desejou. * O Real me dá asma. * Nos repugna levar até as últimas conseqüências um pensamento deprimente,mesmo que seja inatacável; o suportamos até o momento em que afeta nossas entranhas,em que se torna mal-estar, verdade e desastre da carne. Nunca li um sermão de Buda ouuma página de Schopenhauer sem vê-lo todo cor-de-rosa... * Encontramos Sutiliza:nos teólogos. Não podendo provar o que afirmam estão obrigados a praticar talquantidade de distinções que, com elas, perturbam o espírito: que é o que desejam. Quevirtuosismo não é necessário para classificar os anjos em dezenas de espécies! E issosem insistir em Deus: seu “infinito” fez cair em deliqüescência numerosos cérebros,desgastando-os;nos ociosos — nos mundanos, nas raças indolentes, em todos aqueles que se alimentamde palavras. A conversação, mãe da sutileza... Por haver sido insensíveis a ela, osalemães foram engolidos pela metafísica. Pela contrário, os povos faladores, os antigosgregos ou os franceses, peritos nos encantos do espírito, sobressaíram na técnica dasninharias;nos perseguidos. Obrigado à mentira, ao ardil, à tramóia, levam uma vida dupla e falsa:a insinceridade — por necessidade — excita a inteligência. Seguros de si, os inglesessão enfadonhos: pagam dessa maneira os séculos de liberdade em que puderam viversem recorrer à astúcia, ao sorriso dissimulado, às artimanhas. Compreende-se assim porque, no pólo oposto, os judeus possuem o privilégio de ser o povo mais desperto;nas mulheres. Condenadas ao pudor, devem camuflar seus desejos e mentir: a mentira éuma forma de talento, enquanto que o respeito pela “verdade” vai de par com agrosseria e com a falta de finura;nos tarados que não estão internados..., naqueles com os quais sonharia um código penalideal. * Quando se é jovem, pratica-se a filosofia menos para buscar nela uma visão queum estimulante; perseguem-se as idéias, adivinha-se o delírio que as produziu, sonha-seem imitá-lo e exagerá-lo. A adolescência se compraz no malabarismo das alturas; em
um pensador ama o saltimbanco; em Nietzsche amávamos Zaratustra, suas poses, suaspalhaçadas místicas, verdadeira feira de cumes... Sua idolatria da força é menos um sinal de esnobismo evolucionista que umatensão interior projetada para fora, uma embriaguez que interpreta e aceita o devir.Disso tinha que resultar uma imagem falsa da vida e da história. Mas era necessáriopassar por aí, pela orgia filosófica, pelo culto da vitalidade. Os que se negaram a issojamais conhecerão suas conseqüências, o reverso e as caretas desse culto; nuncacompreenderão as raízes da decepção. Como Nietzsche, acreditávamos na perenidade de nossos transes; graças àmaturidade de nosso cinismo, fomos ainda mais longe que ele. A idéia do super-homemnos parece, hoje, uma mera elucubração; naquela época nos parecia tão exata como umdado experimental. Assim se eclipsou o ídolo de nossa juventude. Mas qual deles — sefossem vários — permanece ainda? É o perito em decadências, o psicólogo agressivo,não somente observador como os moralistas, que escruta como inimigo e se criainimigos; mas seus inimigos ele os extrai de si mesmo, como os vícios que denuncia.Combate furiosamente os fracos?, pratica a introspecção; e quando ataca a decadência,descreve seu próprio estado. Todo seu ódio se dirige indiretamente contra si mesmo.Proclama suas fraquezas e as erige em ideal; se se detesta, o cristianismo ou osocialismo sofrem as conseqüências. Seu diagnóstico do niilismo é irrefutável: porqueele mesmo é niilista e o confessa. Panfletário apaixonado por seus adversários, não teriaconseguido suportar-se se não tivesse combatido contra si mesmo, se não tivessecolocado suas misérias em outro lugar, nos outros: vingou-se neles do que ele era.Tendo praticado a psicologia como herói, propõe aos apaixonados pelo Inextricáveluma diversidade de impasses. Medimos sua fecundidade pelas possibilidades que nos oferece de renegá-locontinuamente sem esgotá-lo. Espírito nômade, é um especialista em variar seusdesequilíbrios. Sustentou sempre o pró e o contra de tudo: é o procedimento dos que sededicam à especulação por não haver podido escrever tragédias ou dispersar-se emmúltiplos destinos. O certo é que Nietzsche, expondo suas histerias, nos desembaraçoudo pudor das nossas; suas misérias nos foram salutares. Ele inaugurou a era dos“complexos”. * O filósofo “generoso” esquece, em detrimento de si mesmo, que de um sistemasó sobrevivem as verdades nocivas. * Na época em que, por inexperiência, se toma gosto pela filosofia, decidi, comotodo mundo, fazer uma tese. Que tema escolher? Queria um ao mesmo tempo batido einsólito. Quando pensei havê-lo encontrado, corri para comunica-lo a meu orientador: — O que o senhor acha de uma Teoria Geral das Lágrimas? — É possível — me disse —, mas vai ser difícil encontrar bibliografia. —Se é por isso, não há problema. A História inteira me respaldará com suaautoridade — respondi-lhe com um tom de impertinência e de triunfo. Mas como, impaciente, me olhava com desdém, decidi imediatamente matar odiscípulo que havia em mim. *
Na antiguidade, o filósofo que não escrevia mas pensava, não se expunha aodesprezo; desde que nos prostramos ante a eficácia, a obra se converteu no absoluto dovulgo; os que não produzem são considerados “fracassados”. No entanto, esses“fracassados” teriam sido os sábios de outros tempos; eles reabilitarão a nossa época pornão haver deixado traços nela. * Aproxima-se o momento em que o cético, depois de haver questionado tudo, jánão terá de que duvidar; será, então, quando realmente suspenderá seu julgamento. Oque lhe restará? Divertir-se ou adormecer — a frivolidade ou a animalidade. * Mais de uma vez cheguei a entrever o outono do cérebro, o desenlace daconsciência, a última cena da razão, e logo uma luz que me gelava o sangue! * Na direção de uma sabedoria vegetal: abjuraria todos os meus terrores pelosorriso de uma árvore...
TEMPO E ANEMIA Como me sinto próximo daquela velha louca que corria atrás do tempo, quequeria agarrar um pedaço de tempo! * Existe uma relação entre as deficiências de nosso sangue e nosso estranhamentono tempo: tantos glóbulos brancos, tantos instantes vazios... Nossos estados conscientesnão procedem da descoloração de nossos desejos? * Surpreendido em pleno meio-dia pelo delicioso choque da vertigem, a queatribuí-lo? Ao sangue, ao céu azul? Ou à anemia, situada a meio caminho entre os dois? * A palidez nos mostra até onde o corpo pode compreender a alma. * Com tuas veias carregadas de noites, te encontras entre os homens como umepitáfio no meio de um circo. * No auge da Passividade, pensa-se em uma boa crise de epilepsia como em umaterra prometida. * Quanto mais difuso é o objeto de uma paixão, mais ela nos destrói; a minha foi oTédio: sucumbi à sua imprecisão. * O tempo está proibido para mim. Não podendo seguir sua cadência, agarro-me aele ou o contemplo, mas nunca estou dentro dele: não é meu elemento. E em vão esperoum pouco de tempo dos outros! * A Anemia é o jardim onde floresce Deus. *
Se a fé, a política ou a violência diminuem o desespero, tudo deixa intacta amelancolia: ela só poderia cessar com o nosso sangue. * O tédio é uma angústia larvar; a melancolia, um ódio sonhador. * Nossas tristezas prolongam o mistério que esboça o sorriso das múmias. * Só a ansiedade, utopia negra, nos fornece precisões sobre o futuro. * Vomitar? Rezar? O vazio nos eleva a um céu de Crucificações que nos deixa naboca um gosto de sacarina. * Durante muito tempo acreditei nas virtudes metafísicas do Cansaço; é verdadeque ele nos faz mergulhar nas raízes do Tempo; mas o que trazemos dele? Algumasninharias sobre a eternidade. * “Sou como um marionete quebrada cujos olhos tivessem caído para dentro.” Estas palavras de um doente mental valem mais do que o conjunto das obras deintrospecção. * Quando tudo se torna insípido à nossa volta, que tônico a curiosidade de saberde que maneira perderemos a razão! * Se nos fosse possível abandonar voluntariamente o nada da apatia pelodinamismo do remorso! * Comparado ao tédio que me espera, o que me habita me parece tãoagradavelmente insuportável que tremo só de pensar em esgotar seu terror. * Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar.
* Alguém emprega continuamente a palavra “vida”? Saiba que é um doente. * O interesse que manifestamos pelo Tempo emana de um esnobismo doIrreparável. * Para iniciar-se na tristeza, no artesanato do Indefinido, alguns demoram umsegundo, outros uma vida. * Muitas vezes me retirei para esse quarto de despejo que é o Céu, muitas vezescedi à necessidade de sufocar em Deus! * Só sou eu mesmo acima ou abaixo de mim, na raiva ou no abatimento; em meunível habitual, ignoro que existo. * Não é fácil adquirir uma neurose; quem o consegue dispõe de um fortuna quefaz prosperar tudo: tanto os êxitos como os fracassos. * Só podemos agir em função de um tempo limitado: um dia, uma semana, ummês, um ano, dez anos ou uma vida. Porque se por desgraça relacionamos nossos atosao Tempo, tempo e atos se evaporam; e é então a aventura no Nada, a gênese do Não. * Cedo ou tarde, cada desejo deve encontrar seu cansaço: sua verdade... * Consciência do tempo: atentado contra o tempo... * Graças à melancolia — esse alpinismo dos preguiçosos — escalamos da nossacama todos os cumes e sonhamos no alto de todos os precipícios. *
Entediar-se é mascar tempo. * A poltrona, essa grande responsável, essa promotora de nossa “alma”. * Tomo uma resolução de pé; deito-me e a anulo. * Aceitaríamos facilmente os desgostos se a razão ou o fígado não sucumbissem aeles. * Busquei em mim mesmo meu próprio modelo. Para imitá-lo, dediquei-me àdialética da indolência. É tão mais agradável fracassar na vida... * Ter dedicado à idéia da morte todas as horas que uma profissão teria exigido...Os extravasamentos metafísicos são próprios dos monges, dos libertinos e dosmendigos. Um emprego teria feito do próprio Buda um simples descontente. * Obriguem os homens a se deitar durante dias e dias: os colchões conseguiriam oque nem as guerras nem os slogans puderam fazer. Pois as manobras do Tédio superam,em eficácia, as das armas e das ideologias. * Nossas aversões? Desvios da aversão que temos a nós mesmos. * Quando me surpreendo em um momento de revolta, tomo um sonífero ouconsulto um psiquiatra. Qualquer procedimento é bom para quem persegue aIndiferença sem estar predisposto a ela. * Premissa dos indolentes, esses metafísicos natos: o Vazio é a certeza quedescobrem, ao final de sua carreira e como recompensa a suas decepções, as pessoashonestas e os filósofos profissionais. *
À medida que liquidamos nossas vergonhas, arrancamos nossas máscaras. Maschega um dia em que nosso jogo acaba: ficamos sem vergonhas e sem máscaras. E sempúblico. Superestimamos nossos segredos, a vitalidade de nossas misérias. * Diariamente converso em particular com meu esqueleto, e isso minha carnenunca me perdoará. * O que arruína a alegria é sua falta de rigor; contemple, por outro lado, a lógicado fel... * Se alguma vez estiveste triste sem motivo; é que o estiveste durante toda a vidasem sabê-lo. * Perambulo através dos dias como uma puta em um mundo sem trottoirs. * Só nos tornamos cúmplices da vida quando dizemos — de todo coração — umabanalidade. * Entre o Tédio e o Êxtase se desenvolve toda a nossa experiência do tempo. * Triunfaste na vida? Jamais conhecerás o orgulho. * Nós nos entrincheiramos atrás de nosso rosto; o louco se trai pelo seu. Ele seoferece, se denuncia aos outros. Havendo perdido sua máscara, divulga sua angústia, aimpõe ao primeiro que aparece, exibe seus enigmas. Tanta indiscrição irrita. É normalque o amarrem e que o isolem. * Todas as águas são cor de afogamento. *
Seja por paixão pelo remorso ou por insensibilidade, o fato é que nada fiz parasalvar o pouco de absoluto que encerra este mundo. * O Devir: uma agonia sem desenlace. * Contrariamente aos prazeres, as dores não conduzem à saciedade. Não existeleproso blasé. * A tristeza: um apetite que nenhuma desgraça satisfaz. * Nada nos seduz tanto como a obsessão da morte; a obsessão, não a morte. * Essas horas em que me parece inútil levantar-me aguçam minha curiosidadepelos Incuráveis. Presos a seu leito, e ao Absoluto, como devem conhecer tudo!Entretanto, só me pareço com eles no virtuosismo do torpor, na interminável ruminaçãodas manhãs inteiras passadas na cama. * Enquanto o tédio se limita unicamente aos assuntos do coração, tudo é aindapossível; mas se se estende à esfera do juízo, estamos perdidos. * Mal meditamos em pé, ainda menos andando. Foi nosso empenho em conversara posição vertical que originou a Ação; por isso, para protestar contra seus danos,deveríamos imitar a postura dos cadáveres. * O Desespero é o descaramento da desgraça, uma forma de provocação, umafilosofia para épocas indiscretas. * Quando se aprende a beber nas fontes do Vazio, deixa-se de temer o futuro. OTédio opera prodígios: converte a vacuidade em substância; é ele próprio vazionutritivo. *
Quanto mais envelheço, menos me agrada bancar o Hamlet. Já não sei, comrespeito à morte, que tipo de angústia sentir...
OCIDENTE Orgulho moderno: perdi a amizade de um homem que estimava por haverinsistido em repetir-lhe que eu era mais degenerado que ele... * O Ocidente busca em vão uma forma de agonia digna de seu passado. * Dom Quixote representa a juventude de uma civilização: ele se inventavaacontecimentos; nós não sabemos como escapar aos que nos perseguem. * O Oriente se interessou pelas flores e pela renúncia. Nós lhe opomos asmáquinas e o esforço, e esta melancolia galopante — último sobressalto do Ocidente. * Que tristeza ver grandes nações mendigarem um suplemento de futuro! * Nossa época será marcada pelo romantismo dos apátridas. Já se forma a imagemde um universo onde ninguém mais terá direito de cidadania. Em todo cidadão de hoje jaz um meteco futuro. * Mil anos de guerras consolidaram o Ocidente; um século de “psicologia” pôs-lhea corda no pescoço. * Através das seitas, o vulgo participa do Absoluto e um povo manifesta suavitalidade. Foram elas que prepararam a revolução russa e o dilúvio eslavo. Desde que o catolicismo mostra apenas um aspecto formal, a esclerose o invade;entretanto, sua carreira ainda não acabou: falta-lhe estar de luto pela latinidade. * “Nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais”. Sendo nosso mal ahistória, o eclipse da história, devemos insistir nas palavras de Valéry, agravar seualcance: sabemos agora que a civilização é mortal, que galopamos em direção ahorizontes de apoplexia, a milagres do pior, à idade de ouro do pânico.
* Pela intensidade de seus conflitos, o século XVI nos é mais próximo quenenhum outro; mas não vejo em nossa época Luteros ou Calvinos. Comparados a essesgigantes, e a seus contemporâneos, somos pigmeus elevados, pela fatalidade do saber, aum destino monumental. Apesar de nos faltar a distinção, em uma coisa, entretanto, ossuperamos: em suas tribulações, eles tinham o recurso, a covardia de julgar-se entre osleitos. A Predestinação, única idéia cristã ainda tentadora, conservava para eles suadupla face. Para nós, não há mais eleitos. * Escutem os alemães e os espanhóis explicar-se: farão ressoar em seus ouvidossempre a mesma cantilena: trágico, trágico... É sua maneira de fazer-nos compreendersuas calamidades ou suas estagnações, sua forma de triunfar... Virem-se para os Balcãs; ouvirão constantemente: destino, destino... Os povosdemasiado próximos de suas origens dissimulam assim suas tristezas inoperantes. É adiscrição dos trogloditas. * Em contato com os franceses se aprende a ser infeliz gentilmente. * Os povos que não tem o gosto das futilidades, da frivolidade e do aproximado,que vivem seus exageros verbais, são uma catástrofe para os outros e para eles mesmos.Insistem em ninharias, levam a sério o acessório e fazem uma tragédia do insignificante.Se a isso acrescentam uma paixão pela fidelidade e uma detestável repugnância a trair,não se pode esperar outra coisa deles senão sua ruína. Para corrigir seus méritos, pararemediar sua profundidade, é necessário convertê-los ao Sul, inocular-lhes o vírus dafarsa. A face do mundo não teria sido a mesma se Napoleão houvesse ocupado aAlemanha com marselheses. * Poderemos meridionalizar os povos profundos? O futuro da Europa depende daresposta a esta questão. Se os alemães se puserem a trabalhar como antes, o Ocidenteestá perdido; da mesma forma se os russos não reencontrarem o seu velho amor pelapreguiça. Seria preciso desenvolver em ambos os povos o gosto da indolência, da apatiae da sesta, fazer-lhes entrever as delícias da inércia e da inconstância. ... A menos que nos resignemos às soluções que a Prússia ou a Sibériainfligiriam a nosso diletantismo. * Não existe evolução nem entusiasmo que não sejam destruidores, ao menos emseus momentos de intensidade.
O devir de Heráclito desafia o tempo; o de Bergson faz pensar nas tentativasingênuas e nas velharias filosóficas. * Como eram felizes esses monges que, no final da Idade Média, corriam decidade em cidade anunciando o fim do mundo! Suas profecias demoravam a se realizar?Que importa! Eles podiam se soltar, dar livre curso a seus terrores, despeja-los sobre asmultidões; terapêutica ilusória em uma época como a nossa em que o pânico,introduzido nos costumes, perdeu suas virtudes. * Para governar os homens, é preciso praticar os seus vícios e acrescentar algumoutro mais. Vejam o caso dos papas; enquanto fornicavam, dedicavam-se ao incesto eassassinavam, dominavam o mundo e a Igreja era onipotente. Desde que respeitam seuspreceitos, só fazem é decair: a abstinência, assim como a moderação, lhes foi nefasta;convertidos em pessoas respeitáveis, ninguém mais os teme. Edificante crepúsculo deuma instituição. * O preconceito da honra é próprio das civilizações rudimentares. Ele desaparececom o advento da lucidez, com o reinado dos covardes, daqueles que, havendo“compreendido” tudo, não têm mais nada a defender. * Durante três séculos, a Espanha guardou zelosamente o segredo da Ineficácia;hoje em dia, todo o Ocidente possui esse segredo; ele não o roubou, descobriu-o porseus próprios meios, por introspecção. * Pela barbárie, Hitler tentou salvar toda uma civilização. Sua empresa foi umfracasso; no entanto, nem por isso deixará de ser a última iniciativa do Ocidente. Sem dúvida, este continente merecia coisa melhor. De quem é a culpa se nãosoube produzir um monstro de qualidade diferente? * Rousseau foi uma calamidade para a França, assim como Hegel para aAlemanha. Tão indiferente à histeria como aos sistemas, a Inglaterra contemporizoucom a mediocridade; sua “filosofia” estabeleceu o valor da sensação; sua política a donegócio. O empirismo foi sua resposta às elucubrações do Continente; o Parlamento,seu desafio à utopia, à patologia heróica. Não há equilíbrio político sem nulidades de boa qualidade. Quem provoca ascatástrofes? Os maníacos da agitação, os impotentes, os insones, os artistas fracassadosque portaram coroa, sabre ou uniforme, e, mais ainda que todos eles, os otimistas,aqueles que esperam à custa dos outros.
* Não é elegante abusar da má sorte; alguns indivíduos, como certos povos, secomprazem tanto nela que desonram a tragédia. * Os espíritos lúcidos, para dar uma caráter oficial a seu desalento e impô-lo aosoutros, deveriam constituir uma Liga da Decepção. Talvez assim conseguiriam atenuara pressão da história, torna o futuro facultativo... * Um após o outro, adorei e execrei numerosos povos; jamais me ocorreu renegaro espanhol que gostaria de ter sido... * I. Instintos vacilantes, crenças deterioradas, manias e caduquices. Por toda parteconquistadores aposentados, capitalistas do heroísmo, frente a jovens Alaricos queespreitam as novas Romas e Atenas; por toda parte, paradoxos de apáticos. No passado,as boutades de salão atravessavam os países, desconcertavam a tolice ou a aguçavam. AEuropa, coquete e intratável, estava na flor da idade; decrépita hoje, já não excita maisninguém. Os bárbaros, no entanto, ainda esperam herdar suas finuras e se irritam antesua longa agonia. II. França, Inglaterra, Alemanha; Itália talvez. O resto... Por que acidente umacivilização pára? Por que a pintura holandesa ou a mística espanhola só floresceram uminstante? Quantas nações sobreviveram a seu gênio! Por isso seu ocaso é trágico; o daFrança, da Alemanha e da Inglaterra procede, entretanto, de um irreparável interno, doacabamento de um processo, de um dever cumprido; é natural, explicável, merecido.Poderia ser diferente? São países que prosperaram e se arruinaram juntos, por espíritode concorrência, de fraternidade e de ódio; enquanto que, no resto do globo, a nova raléarmazenava energias, se multiplicava e esperava. Tribos de instintos imperiosos se aglutinam para formar uma grande potência;chega o momento em que, resignadas e esgotadas, só aspiram a um papel subalterno.Quando se cessa de invadir, se aceita ser invadido. O drama de Aníbal foi haver nascidocedo demais; alguns séculos mais tarde teria encontrado as portas de Roma abertas. Oimpério estava vago, como a Europa de nossos dias. III. Todos nós saboreamos o mal do Ocidente. Sabemos demasiado da arte, doamor, da religião, da guerra, para acreditar ainda em alguma coisa; e depois, tantosséculos foram gastos nisso... A época do acabamento da plenitude está terminada. Amatéria dos poemas? Extenuada. Amar? Até a gentalha repudia o “sentimento”. Apiedade? Esquadrinhe as catedrais. Nelas só se ajoelham os ineptos. Quem ainda desejacombater? O herói está superado; só a carnificina impessoal continua na moda. Somosfantoches clarividentes, capazes apenas de fazer caretas ante o irremediável. O Ocidente? Um possível sem futuro. IV. Não podemos defender nossas astúcias contra os músculos, seremos cada diamenos utilizáveis para qualquer fim; o primeiro que apareça nos prenderá. Contemple o
Ocidente: transborda de saber, de desonra e de preguiça. Tinham que acabar nisto oscruzados, os cavaleiros, os piratas, no estupor de uma missão cumprida. Quando Roma recuava suas legiões, ignorava a História e as lições doscrepúsculos. Não é esse nosso caso. Que sombrio Messias nos aguarda...! * Aquele que, por distração ou incompetência, detiver, ainda que só por ummomento, a marcha da humanidade, será seu salvador. * O catolicismo só criou a Espanha para melhor sufocá-la. É um país onde se viajapara admirar a Igreja, e para adivinhar o prazer que pode existir em assassinar umpároco. * O Ocidente progride: ostenta timidamente sua decrepitude — e já invejo menosaqueles que, tendo visto Roma, acreditavam gozar de uma desolação única,intransmissível. * As verdades do humanismo, a confiança no homem e o resto, só possuem aindaum vigor de ficções, uma prosperidade de sombras. O Ocidente era essas verdades;agora é apenas essas ficções, essas sombras. Tão miserável como elas, não podevivificá-las; as arrasta, as expõe, mas não as impõe mais; deixaram de ser ameaçadoras.Da mesma forma, os que se agarram ao humanismo se servem de um vocábuloextenuado, sem suporte afetivo, de um vocábulo espectral. * Em todo caso, talvez este continente ainda não tenha jogado sua última cartada.E se se dedicasse a desmoralizar o resto do mundo, a propagar a sua pestilência? Seriauma maneira de conversar o seu prestígio, de exercer ainda a sua influência. * No futuro, se a humanidade tiver começar de novo, o fará com sua ralé, com osmongóis de toda parte, com a escória dos continentes; se delineará uma civilizaçãocaricatural, à qual aqueles que produziram a verdadeira assistirão impotentes,humilhados, prostrados, para refugiar-se ao final na idiotia, onde esquecerão oesplendor de seus desastres.
O CIRCO DA SOLIDÃO I Ninguém pode conservar sua solidão se não saber fazer-se odioso. * Só vivo porque posso morrer quando quiser: sem a idéia do suicídio já teria mematado há muito tempo. * O ceticismo que não contribui para a ruína de nossa saúde é apenas um exercíciointelectual. * Alimentar na miséria uma ira de tirano, sufocar sob uma crueldade contida,odiar-se por falta de subalternos para massacrar, de império para terrorizar, ser umTibério pobre... * O que irrita no desespero é sua legitimidade, sua evidência, sua“documentação”: é pura reportagem. Observe, ao contrário, a esperança, suagenerosidade no erro, sua mania de fantasiar, sua repulsa ao acontecimento: umaaberração, uma ficção. E é nessa aberração que reside a vida e dessa ficção que ela sealimenta. * César? Dom Quixote? Qual dos dois, em minha presunção, eu gostaria de tomarcomo modelo? Pouco importa. O fato é que um dia parti de uma região longínqua àconquista do mundo, de todas as perplexidades do mundo... * Quando, de uma mansarda, contemplo a cidade parece tão honrado ser nelasacristão como cafetão. * Se tivesse que renunciar a meu diletantismo, me especializaria no uivo. *
Deixa-se de ser jovem quando já não se escolhe mais os inimigos, quando agente se contenta com os que tem à mão. * Todos os nossos rancores provêm do fato de havermos ficado abaixo de nossaspossibilidades, sem ter conseguido alcançar a nós mesmos. E isso nunca o perdoaremosaos outros. * À deriva no Vago, agarro-me ao menor desgosto como a uma tábua de salvação. * Querem multiplicar os desequilíbrios, agravar as perturbações mentais, construirmanicômios em cada canto da cidade? Proíbam a praga. Compreenderão então suas virtudes liberadoras, sua função terapêutica, asuperioridade de seu método face ao da psicanálise, das ginásticas orientais ou da igreja.Compreenderão sobretudo que graças às suas maravilhas, a seu auxílio constante, amaior parte de nós não é criminoso nem está louco. * Nascemos com tal capacidade de admirar que outros dez planetas não poderiamesgota-la; a Terra o consegue automaticamente. * Levantar-se como um taumaturgo resolvido a povoar seu dia de milagres, e cairde novo na cama para ruminar até a noite problemas de amor e de dinheiro... * Perdi em contato com os homens todo o frescor de minhas neuroses. * Nada revela tanto o vulgar como sua repulsa a ser decepcionado. * Quando não tenho nem um tostão no bolso, esforço-me para imaginar o céu daluz sonora que constitui, segundo o budismo japonês, uma das etapas que o sábio devetranspor para vencer o mundo — e o dinheiro, acrescentaria eu. * A pior das calúnias é a que visa nossa preguiça, a que contesta sua autenticidade.
* Na minha infância, meus amigos e eu nos divertíamos vendo o coveiro trabalhar.Às vezes ele nos deixava um crânio com o qual jogávamos futebol. Esse era para nósum prazer que nenhum pensamento fúnebre empanava. Durante muitos anos vivi em um ambiente de párocos que haviam ministradomilhares de extrema-unções; apesar disso, não conheci nenhum a quem a Morteintrigasse. Mais tarde compreendi que o único cadáver do qual se pode tirar algumproveito é o que se prepara em nós. * Sem Deus tudo é nada; e Deus? Nada supremo. II O desejo de morrer foi minha única preocupação; renunciei a tudo por ele, até amorte. * Mal um animal se transtorna, começa a parecer-se com o homem. Observe umcão furioso ou abúlico: parece que espera seu romancista ou seu poeta. * Toda experiência profunda se formula em termos de fisiologia. * A lisonja transforma uma pessoa de caráter em uma marionete, e, em uminstante, sob a influência de sua doçura, os olhos mais vivos adquirem uma expressãobovina. Insinuando-se mais fundo que a doença, e alterando, ao mesmo tempo, asglândulas, as entranhas e o espírito, ela é a única arma de que dispomos para dominar osnossos semelhantes, para desmoraliza-los e corrompê-los. * No pessimista se combinam uma bondade ineficaz e uma maldade insatisfeita. * Por necessidade de recolhimento, livrei-me de Deus, desembaracei-me do últimochato. *
Quanto mais desgraças sofremos, mais fúteis nos tornamos: elas mudam até anossa maneira de andar. Convidam-nos a nos pavonear, sufocam em nós a pessoa paradespertar o personagem. ... Se não fosse pela impertinência de julgar-me o ser mais desgraçado da terra,há muito tempo que teria desmoronado. * É uma grande injúria contra o homem pensar que para destruir-se ele necessitade uma ajuda, de um destino... Já não gastou o melhor de seu talento liquidando a suaprópria legenda? Nessa recusa de durar, nesse horror a si mesmo, reside a sua desculpaou, como se dizia antigamente, a sua grandeza. * Por que nos retirar e abandonar a partida quando ainda nos restam tantos seres adecepcionar? * Quanto as paixões, os acessos da fé, a intolerância me dominam, desceria commuito gosto à rua para lutar e morrer como militante do Vago, como entusiasta doTalvez... * Sonhas em incendiar o universo e nem sequer conseguiste comunicar tua chamaàs palavras, nem sequer conseguiste acender uma só! * Tendo dissipado o meu dogmatismo em imprecações, o que posso fazer senãoser cético? * Bem no meio de importantes estudos, descobri que ia morrer um dia..., minhamodéstia desapareceu imediatamente. Convencido de que não me restava mais nada aaprender, abandonei meus estudos para informar o mundo de tão extraordináriadescoberta. * Espírito positivo corrompido, o Destruidor acredita ingenuamente que vale apena demolir as verdades. É um técnico às avessas, um pedante do vandalismo, umevangelista extraviado. * Envelhecendo aprendemos a converter nossos terrores em sarcasmos.
* Não me pergunte mais qual é o meu programa: respirar não é um? * A melhor maneira de nos afastar dos outros é convida-los a desfrutar de nossosfracassos; depois disso, podemos ter certeza que os odiaremos pelo resto de nossas dias. * “Você deveria trabalhar, ganhar a vida, concentrar as suas forças.” “Minhas forças? Dissipei-as, empreguei-as todas em apagar de mim os vestígiosde Deus... E agora estou desocupado para sempre.” * Todo ato lisonjeia a hiena que existe em nós. * No mais profundo de nossos desfalecimentos, percebemos de repente a essênciada morte; percepção-limite, rebelde à expressão; derrota metafísica que as palavras nãopodem perpetuar. Isso explica por que, neste tema, as interjeições de uma velhaanalfabeta nos esclarecem mais do que o jargão de um filósofo. * A natureza só criou os indivíduos para aliviar a Dor, para ajuda-la a dispersar-seà custa deles. * Enquanto que para associar ao prazer a consciência do prazer é preciso asensibilidade de um esfolado vivo ou uma longa tradição de vício, a dor e a consciênciada dor se confundem até no imbecil. * Escamotear o sofrimento, degradá-lo em volúpia — fraude da introspecção,artimanha dos delicados, diplomacia do gemido. * De tanto mudar de atitude com relação ao sol, já não sei mais como tratá-lo. *
Só se descobre um sabor nos dias quando se escapa à obrigação de possuir umdestino. * Quanto mais indiferentes me são as pessoas, mais me perturbam; e quanto maisas desprezo, menos posso aproximar-me delas sem gaguejar. * Se espremêssemos o cérebro de um louco, o líquido obtido pareceria xaropecomparado ao fel que segregam certas tristezas. * Que ninguém tente viver sem haver feito o seu aprendizado de vítima. * Mais que uma reação de defesa, a timidez é uma técnica, aperfeiçoada semcessar pela megalomania dos incompreendidos. * Quando não tivemos a sorte de ter pais alcoólatras, devemos nos intoxicar toda avida para compensar a pesada herança de suas virtudes. * Pode-se falar honestamente de outra coisa além de Deus ou de si mesmo? III O odor da criatura nos põe na pista de uma divindade fétida. * Se a História tivesse uma finalidade, como seria lamentável o destino daquelesque, como nós, nada fizeram na vida. Mas no meio do absurdo geral, nos erguemostriunfantes, nulidades ineficazes, canalhas orgulhosos de haver tido razão. * Que inquietude quando não estamos seguros de nossas dúvidas e perguntamos:são verdadeiramente dúvidas? *
Quem nunca contradisse seus instintos, quem nunca se impôs um longo períodode ascese sexual ou desconheça por completo as depravações da abstinência, serácompletamente alheio tanto à linguagem do crime como a do êxtase; jamaiscompreenderá as obsessões do marquês de Sade ou as de São João da Cruz. * A menor submissão, nem que seja ao desejo de morrer, desmascara nossafidelidade à impostura do “eu”. * Quando sofrer a tentação do Bem, vá a um mercado, escolha entre a multidão avelha mais desvalida e a empurre. Uma vez excitada a sua verve, olhe-a sem responder,para que, graças ao estremecimento que produz o abuso do adjetivo, ela possa conhecerenfim um momento de glória. * Por que desfazer-se de Deus para refugiar-se em si mesmo? Por que essasubstituição de cadáveres? * O mendigo é um pobre que, ávido de aventuras, abandonou a pobreza paraexplorar as selvas da piedade. * Não se pode evitar os defeitos dos homens sem fugir ao mesmo tempo de suasvirtudes. Assim, nos arruinamos pela sensatez. * Sem a esperança de uma dor ainda maior, eu não poderia suportar esta de agora,mesmo que fosse infinita. * Esperar é desmentir o futuro. * Desde sempre, Deus escolheu tudo por nós, até as nossas gravatas. * Nenhuma ação, nenhum êxito é possível sem uma atenção total às causassecundárias. A “ vida” é uma ocupação de inseto.
* A tenacidade que empreguei em combater a magia do suicídio teria me bastadopara alcançar a salvação, para pulverizar-me em Deus. * Quando nada mais nos estimula, resta-nos ainda a “angústia”. Não podendoprescindir dela, a perseguimos tanto no divertimento como na oração. E tememos tantoque ela nos falte, que “a angústia nossa de cada dia nos daí hoje” se torna o refrão denossas esperanças e de nossas súplicas. * Por mais íntima que seja a nossa relação com as atividades do espírito, nãopodemos pensar mais de dois ou três minutos por dia; a menos que, por gosto ou porprofissão, nos exercitemos durante horas em brutalizar as palavras para delas extrairidéias. O intelectual representa a maior desgraça, o fracasso culminante do homosapiens. * O que me dá a ilusão de jamais ter sido um iludido é que nunca amei nada semao mesmo tempo odiá-lo. * Por mais versados em saciedade que nos julguemos, continuaremos sendo acaricatura de nosso precursor Xerxes. Não foi ele quem prometeu por decreto umarecompensa a quem inventasse uma volúpia nova? Esse foi o gesto mais moderno daantiguidade. IV Quanto mais alguém corre perigos, mais sente a necessidade de parecersuperficial, de aparentar frivolidade, de multiplicar os mal-entendidos sobre si mesmo. * Passados os trinta anos, os acontecimentos deveriam nos interessar tanto como aum astrônomo os mexericos. * Só o idiota está equipado para respirar. *
Com a idade, não são tanto as nossas faculdades intelectuais que diminuem masessa força para desesperar da qual, jovens, não sabíamos apreciar nem o encanto nem oridículo. * Que lástima que para chegar a Deus tenha que se passar pela fé! * A vida, esse mau gosto da matéria. * Refutação do suicídio: não é deselegante abandonar um mundo que com tão boavontade se pôs a serviço de nossa tristeza? * Mesmo que nos embriaguemos o tempo todo, nunca conseguiremos a segurançadesse Creso de manicômio que dizia: “Para poder ficar tranqüilo, comprei para mimtodo o ar que existe, e me instalei nele.” * O mal-estar que sentimos ante uma pessoa ridícula provém do fato de que éimpossível imagina-la em seu leito de morte. * Só se suicidam os otimistas, os otimistas que não conseguem mais sê-lo. Osoutros, não tendo nenhuma razão para viver, por que a teriam para morrer? * Os temperamentos irascíveis? São aqueles que se vingam em seus pensamentosda alegria que dissiparam em seu trato com os outros. * Ignorava tudo dela; nossa conversa tomou, entretanto, um caminho macabro:falei-lhe do mar, esse comentário ao Eclesiastes... E qual não foi minha surpresaquando, ao final de minha tirada sobre a histeria das ondas, ela me disse: “Não é bomter pena de si mesmo.” * Ai do descrente que, ante suas insônias, só disponha de um estoque reduzido depreces!
* É por mero acaso que todos aqueles que me abriram novos horizontes sobre amorte eram escórias da sociedade? * Para o louco, qualquer bode expiatório é bom. Ele suporta suas derrotasacusando; como lhe parece que os objetos são tão culpados como os seres, ataca quemquer; o Delírio é uma economia de expansão; obrigados a discriminar melhor, nós nosconcentramos em nossas derrotas, nos agarramos a elas por não encontrar fora sua causaou seu alimento; o bom senso nos impõe uma economia cerrada, uma autarquia dofracasso. * “Não fica bem”, me dizia você, “praguejar o tempo todo contra a ordem dascoisas.” “É culpa minha se sou apenas um novo-rico da neurose, um Jó em busca deuma lepra, um Buda de pacotilha, um Cita indolente e extraviado?” * A sátira e o suspiro me parecem igualmente válidos. Tanto em um panfletocomo em um Ars moriendi, tudo é verdadeiro... Com o desembaraço da piedade adototodas as verdades e todas as palavras. “Serás objetivo!” — maldição do niilista que acredita em tudo. * No apogeu de nosso nojo, um rato parece ter se infiltrado em nosso cérebro parasonhar em seu interior. * Não foram os preceitos do estoicismo que nos mostraram a utilidade das afrontasou a sedução das desgraças. Os manuais de insensibilidade são demasiado sensatos. Ese, ao contrário, todos fizéssemos a nossa experiência de mendigos! Vestir-se comfarrapos, instalar-se em uma esquina, estender a mão aos transeuntes, suportar o seudesprezo ou agradecer a sua esmola, que disciplina! Ou sair na rua, insultardesconhecidos, fazer-se esbofetear... Durante muito tempo freqüentei os tribunais apenas com o objetivo decontemplar os reincidentes, sua superioridade sobre as leis, sua presteza em degradar-se.E no entanto parecem pobres miseráveis comparados às prostitutas, à desenvoltura queestas mostram frente ao tribunal. Tanta indiferença desconcerta: nenhum amor-próprio,as injúrias não as fazem sangrar, nenhum adjetivo as fere. Seu cinismo é a forma de suahonestidade. Uma jovem de 17 anos, majestosamente horrorosa, replica ao juiz quetenta arrancar-lhe a promessa de não voltar a freqüentar os trottoirs: “Não possoprometer-lhe, senhor juiz.”
Só medimos nossas próprias forças na humilhação. Para nos consolar dasvergonhas que não sofremos, deveríamos infligi-las a nós mesmos, cuspir no espelhoesperando que o público nos honre com a sua saliva. Que Deus nos preserve de umdestino distinto! * Tanto cortejei a idéia de fatalidade, à custa de tão grandes sacrifícios alimentei-a, que acabou por encarnar-se: da abstração que era, palpita agora na minha frente, e meesmaga com toda a vida que lhe dei.
RELIGIÃO Se acreditasse em Deus, minha fatuidade não teria limites; passearia nu pelasruas... * Tanto recorreram os santos à facilidade do paradoxo que é impossível não citá-los nos salões. * Quando se é devorado por um apetite de sofrer tal que, para acabar com ele,necessitaríamos de milhares de existências, imaginamos bem de que inferno deve tersurgido a idéia de transmigração. * Fora da matéria, tudo é música: Deus mesmo não passa de uma alucinaçãosonora. * Buscar os antecedentes de um suspiro pode nos levar ao instante anterior — ouao sexto dia da Criação. * Só o órgão nos faz compreender de que maneira a eternidade pode evoluir. * Essas noites em que já não podemos avançar em Deus, em que o percorremosem todos os sentidos, em que o gastamos de tanto pisoteá-lo, essas noites das quaisemergimos com a idéia de joga-lo no lixo... de enriquecer o mundo com um resíduoinútil. * Sem a vigilância da ironia, como seria fácil fundar uma religião! Bastaria deixaros curiosos agruparem-se em torno de nossos transes loquazes. * Não é Deus, mas a Dor, quem desfruta das vantagens da ubiqüidade. *
Nos momentos cruciais da vida, a ajuda do cigarro é mais eficaz que a dosEvangelhos. * Conta Suso que, com um estilete, gravou no peito, no lugar do coração, o nomede Jesus. Não sangrou em vão: pouco depois, uma luz emanava de sua chega. Por que não sou mais forte em minha incredulidade? Por que não posso,inscrevendo em minha carne um outro nome, o do Diabo, servi-lhe de insígnialuminosa? * Quis estabelecer-me no Tempo; mas era inabitável. Quando me voltei para aEternidade, perdi pé. * Chega sempre o momento em que cada um se diz: “Ou Deus ou eu” e se engajaem um combate do qual ambos saem diminuídos. * O segredo de um ser coincide com os sofrimentos que espera. * Só conhecendo, em matéria de experiência religiosa, as inquietudes da erudição,os modernos avaliam o Absoluto, estudam suas variedades e reservam seusestremecimentos para os mitos — esses vertigens para consciências historiadoras.Havendo deixado de rezar, comentam a prece. Nenhuma exclamação mais, só teorias. AReligião boicota a fé. No passado, com amor ou ódio, os homens se aventuravam emDeus, o qual, de Nada inesgotável que era, agora é apenas — para desespero de místicose ateus — um problema. * Como todo iconoclasta, destrocei meus ídolos para consagrar-me a seus restos. * A santidade me faz tremer: essa ingerência nas desgraças alheias, essa barbárieda caridade, essa piedade sem escrúpulos... * De onde vem a nossa obsessão do Réptil? Não será de nosso temor de umaúltima tentação, de uma queda próxima, e, desta vez, irreparável, que nos faria perderaté a memória do Paraíso?
* Essa época em que, ao levantar-me, escutava uma marcha fúnebre quecantarolava durante todo o dia e que, à noite, desgastada, se desvanecia em hino... * O grande pecado do cristianismo é haver corrompido o ceticismo. Um gregojamais teria associado o gemido à dúvida. Recuaria horrorizado ante Pascal e mais aindaante a inflação da alma que, desde a época da Cruz, desvaloriza o espírito. * Ser mais inutilizável que um santo... * Em plena nostalgia da morte, invade-nos uma fraqueza tão grande, opera-se emnossas veias uma modificação tal, que esquecemos a morte para pensar apenas naquímica do sangue. * A Criação foi o primeiro ato de sabotagem. * Apaixonado pelo Abismo e furioso não poder escapar dele, o descrentemanifesta um ardor místico para construir um mundo tão desprovido de profundidadecomo um balé de Rameau. * No antigo Testamento sabia-se intimidar o Céu, se o ameaçava com o punho: aoração era uma disputa entre a criatura e seu criador. Para reconcilia-los chegou oEvangelho: esse foi o erro imperdoável do cristianismo. * Quem vive sem memória ainda não saiu do Paraíso: as plantas continuamdeleitando-se nele. Não foram condenadas ao Pecado, a essa impossibilidade deesquecer; mas nós, remorsos ambulantes, etc, etc. (Ter saudades do Paraíso! Impossívelestar mais fora de moda, exagerar mais a paixão pelo caduco ou o provincianismo.) * “Senhor, sem ti estou louco, mas mais louco ainda contigo!” Esse seria, namelhor das hipóteses, o resultado de um reatamento de contato entre o fracassado debaixo e o fracassado do alto.
* O grande crime da Dor é haver organizado o Caos, havê-lo convertido emuniverso. * Que tentação as igrejas, se em lugar dos fiéis houvesse nelas apenas essascrispações de Deus que o órgão nos revela! * Quando roço o Mistério sem poder rir-me dele, me pergunto para que serve essavacina contra o absoluto que é a lucidez. * Quantos problemas para instalar-se no deserto! Mais espertos que os primeiroseremitas, aprendemos a busca-lo em nós mesmos. * Rondei com um delator em torno de Deus; incapaz de suplicar-lhe, espionei-o. * Há dois mil anos que Jesus se vinga de nós por não haver morrido em um sofá. * Os diletantes não querem saber de Deus; os loucos e os bêbados, esses grandesespecialistas da divindade, fazem dela o objeto de suas ruminações. Nós devemos a um resto de juízo o privilégio de ser ainda superficiais. * Eliminar de si as toxinas do tempo para guardar as da eternidade, essa é ainfantilidade do místico. * A possibilidade de renovar-se através da heresia confere ao crente uma nítidasuperioridade sobre o ateu. * Nunca se desce tão baixo como quando se tem saudade dos anjos..., a não serquando se deseja rezar até a liquefação do cérebro. *
Mais ainda que a religião, o cinismo comete o erro de atribuir demasiadaimportância ao homem. * Entre os franceses e Deus se interpõe a astúcia. * Examinei devidamente todos os argumentos favoráveis a Deus: sua inexistênciapermaneceu para mim intacta. Ele possui o talento de fazer-se desmentir por toda a suaobra; seus defensores o tornam odioso; seus adoradores, suspeito. Quem tema amá-lobasta abrir São Tomás... Recordo esse catedrático da Europa central que interrogava uma de suas alunassobre as provas da existência de Deus; ela lhe cita os argumentos históricos,ontológicos, etc., mas logo acrescenta que não acredita neles. O professor se irrita,repete as provas uma a uma; ela encolhe os ombros, persiste em sua incredulidade.Então o professor se levanta, roxo de fé: “Senhorita, dou-lhe minha palavra de honraque Deus existe!” ... Argumento que, sozinho, vale todas as Sumas teológicas. E o que dizer da Imortalidade? Querer elucidá-la, ou simplesmente abordá-la, ésinal de aberração ou de farsa. Entretanto, nem por isso os tratados deixam de expor suaimpossível fascinação. Segundo eles, basta nos fiar em algumas deduções hostis aoTempo para achar-nos subitamente munidos de eternidade, indenes de pó, isentos deagonia. Mas não são essas futilidades que me fizeram duvidar de minha precariedade.Em compensação, como me perturbaram as meditações de um velho amigo, músicoambulante e louco... Como todos os desequilibrados, punha-se problemas e havia“resolvido” uma quantidade. Um dia, depois de haver percorrido os cafés, veiointerrogar-me sobre... a imortalidade. “É impensável”, lhe respondi, ao mesmo temposeduzido e enojado por seus olhos inatuais, suas rugas e seus farrapos. Uma certeza oanimava: “Te equivocas se não acreditas nela; se não acreditas, não sobreviverás. Estoucerto de que a morte não poderá nada contra mim. Além do quê, apesar do que dizes,tudo tem uma alma. Viste os pássaros esvoaçando nas ruas e de repente elevando-se porcima das casas para contemplar Paris? Como não vão ter alma?!, como um pássaro podemorrer?!” * Para recuperar a sua autoridade sobre os indivíduos, o catolicismo necessita deum papa enfurecido, corroído por contradições, distribuidor de histeria, dominado poruma raiva de herege, um bárbaro a quem não perturbariam dois mil anos de teologia. Em Roma e no resto da cristandade já se esgotaram completamente as reservasde demência? Desde o final do século XVI, a igreja, humanizada, só produz cismas desegunda categoria, santos vulgares, excomunhões irrisórias. E se um louco nãoconseguisse salva-la, ao menos poderia precipita-la em outro abismo. *
De tudo o que os teólogos conceberam, as únicas páginas legíveis, as únicaspalavras verdadeiras, são as dedicadas ao Diabo. Como seu tom muda, como suaeloqüência se inflama quando dão as costas à Luz para se consagrar às Trevas! Dir-se-iaque voltam a seu elemento, que o descobrem de novo. Finalmente podem odiar,finalmente lhes é permitido; acabou-se o ronrom sublime ou a salmodia edificante. Oódio pode ser vil; extirpá-lo, no entanto, é mais perigoso que abusar dele. A igreja,sabiamente, poupou aos seus tais riscos; para que possam satisfazer seus instintos, ela osexcita contra o Demônio; eles se agarram a ele e o roem: felizmente é um ossoinesgotável... Se lhes fosse tirado, sucumbiriam ao vício ou à apatia. * Mesmo quando pensamos haver desalojado Deus de nossa alma, Ele continuavegetando nela. Mas sentimos que ali se aborrece: não temos mais fé suficiente paradiverti-Lo. * Que auxílio pode oferecer a religião a um crente decepcionado por Deus e peloDiabo? * Por que depor as armas, se ainda não vivi todas as contradições, se conservoainda a esperança de um novo impasse? * Há tantos anos que me descristianizo a olhos vistos! * Toda crença nos torna insolentes; recém-adquirida, aviva nossos maus instintos;os que não a partilham consideramos fracassados e incapazes, merecedores apenas denossa piedade e desprezo. Observe o neófito em política e sobretudo em religião, todos aqueles queconseguiram misturar Deus a suas tramóias, os convertidos, os novos-ricos do Absoluto.Compare sua impertinência com a modéstica e as boas maneiras dos que estão perdendoa fé e as convicções... * Nas fronteiras de si mesmo: “Ninguém saberá jamais tudo o que sofri e sofro,nem sequer eu mesmo.” * Quando, por apetite de solidão, cortamos nossos laços com os outros, o Vazionos arrebata: ficamos sem nada, sem ninguém... Quem liquidar agora? Onde encontrar
uma vítima durável? Tal perplexidade nos abre a Deus: ao menos com Ele estamosseguros de poder romper indefinidamente...
VITALIDADE DO AMOR Só se entregam ao tédio as naturezas eróticas, decepcionadas de antemão peloamor. * Um amor que acaba é uma experiência filosófica tão rica que faz de umcabeleireiro um êmulo de Sócrates. * A arte de amar? Saber unir a um temperamento de vampiro a discrição de umaanêmona. * Na busca do tormento, na obstinação de sofrer, só o ciumento pode competircom o mártir. No entanto, canoniza-se um e ridiculariza-se o outro. * Por que o “coche fúnebre do Matrimônio” (The Marriage Hearse)? Por que nãoo coche fúnebre do Amor? Como é lamentável a restrição de Blake! * Onan, Sade, Masoch, que felizardos! Seus nomes, assim como suas proezas, nãoenvelhecerão jamais. * Vitalidade do amor: é cometer uma grande injustiça denegrir um sentimento quesobreviveu ao romantismo e ao bidê. * Quem se mata por uma mulherzinha vive uma experiência mais completa eprofunda do que o herói que altera a ordem do mundo. * Quem abusaria da sexualidade se não esperasse, nela, perder a razão por umpouco mais de um segundo, pelo resto de seus dias? *