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Published by evertonlopes2012, 2020-04-03 14:13:27

A Peste PT

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A peste Albert Camus ”II est aussi raisonnable de représetiter une espèce d’emprisonnement par une autre que de représenter n’importe quette cbose qui existe réettement par quelque chose qui n’existe pás.” Daniel Defoe (Tradução para o francês de Albert Camus) (”É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe.”) Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crónica ocorreram em194..., em Oran. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que saíam umpouco do comum. À primeira vista, Oran é, na verdade, uma cidade comum e nãopassa de uma prefeitura francesa na costa argelina. A própria cidade, vamos admiti-lo, é feia. com seu aspecto tranqüilo, épreciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outrascidades comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, umacidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor deasas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu selê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar oupelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é umaprimavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casasmuito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então, só é possível viverà sombra das persianas fechadas. No outono, pelo contrário, é um dilúvio delama. Os dias bonitos só chegam no inverno. Uma forma cómoda de travar conhecimento com uma cidade é procurarsaber como se trabalha, como se ama e como se morre. Na nossa pequena cidade,talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar frenéticoe distante. Quer dizer que as pessoas se entediam e se dedicam a criar hábitos.Nossos concidadãos trabalham muito, mas apenas para enriquecer. Interessam-se principalmente pelo comércio e ocupam-se, em primeiro lugar, conforme suaprópria expressão, em fazer negócios. Naturalmente, apreciam prazeres simples,gostam das mulheres, de cinema e de banhos de mar. Muito sensatamente,porém, reservam os prazeres para os domingos e os sábados à noite, procurando,nos outros dias da semana, ganhar muito dinheiro. À tarde, quando saem dosescritórios, reúnem-se a uma hora fixa nos cafés, passeiam na mesma avenida ouinstalam-se nas suas varandas. Os desejos dos mais velhos não vão além dasassociações de boulomanes1, os banquetes das amicales2 e os ambientes em quese aposta alto no jogo de cartas. Dirão sem dúvida que nada disso é característico de nossa cidade e que,em suma, todos os nossos contemporâneos são assim. Sem dúvida, nada há demais natural, hoje em dia, do que ver as pessoas trabalharem de manhã à noite e1 Neologismo que designa os entusiastas de jogo muito popular na frança. (N. do T.)2Nome das associações formadas por membros do ensino, etc. (N. do T.)


optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo quelhes resta para viver. Mas há cidades e países em que as pessoas, de vez emquando, suspeitam que exista mais alguma coisa. Isso, em geral, não lhesmodifica a vida. Simplesmente, houve a suspeita, o que já significa algo. Oran,pelo contrário, é uma cidade aparentemente sem suspeitas, quer dizer, umacidade inteiramente moderna. Não é necessário, portanto, definir a maneira comose ama entre nós. Os homens e as mulheres ou se devoram rapidamente, no quese convencionou chamar ato de amor, ou se entregam a um longo hábito a dois.Isso tampouco é original. Em Oran, como no resto do mundo, por falta de tempoe de reflexão, somos obrigados a amar sem saber. O que é mais original na nossa cidade é a dificuldade que se pode terpara morrer. Dificuldade, aliás, não é o termo exato: seria mais certo falar emdesconforto. Nunca é agradável ficar doente, mas há cidades e países que nosamparam na doença e onde podemos, de certo modo, nos entregar. O doenteprecisa de carinho, gosta de se apoiar em alguma coisa. É bastante natural. EmOran, porém, os excessos do clima, a importância dos negócios que se tratam, ainsignificância do cenário, a rapidez do crepúsculo e a qualidade dos prazeres,tudo exige boa saúde. Lá o doente fica muito só. O que dizer então daquele quevai morrer, apanhado na armadilha por detrás das paredes crepitantes de calor,enquanto, no mesmo minuto, toda uma população, ao telefone ou nos cafés, falade letras de câmbio, de conhecimentos ou de descontos? Compreenderão o quehá de desconfortável na morte, mesmo moderna, quando ela chega assim, numlugar seco.


I Essas poucas indicações dão talvez uma ideia suficiente da nossa cidade.Aliás, é necessário não exagerar. O importante era ressaltar o aspecto banal dacidade e da vida. Mas os dias transcorrem sem dificuldades, desde que se tenhamcriado hábitos. A partir do momento em que nossa cidade favorece justamente oshábitos, pode-se dizer que tudo vai bem. Sob este aspecto, sem dúvida, a vidanão é muito emocionante. Pelo menos, desconhece-se a desordem. E a nossapopulação franca, simpática e ativa sempre despertou no viajante uma estimaconsiderável. Esta cidade sem pitoresco, sem vegetação e sem alma acabaparecendo repousante, e afinal adormece-se nela. Mas é justo acrescentar queestá enxertada numa paisagem sem igual, no meio de um planalto nu, rodeadade colinas luminosas, diante de uma baía de desenho perfeito. Pode-se apenaslamentar que tenha sido construída de costas para essa baía e que, portanto, sejaimpossível ver o mar. É sempre preciso ir procurá-lo. Agora, podemos admitir sem dificuldade que nada podia fazer prever aosnossos cidadãos os incidentes que se produziram na primavera desse ano e queforam, como compreendemos depois, os primeiros sinais dos acontecimentosgraves cuja crónica nos propusemos fazer aqui. Esses fatos parecerão a algunsperfeitamente naturais e a outros, pelo contrário, inverossímeis. Mas, afinal, umcronista não pode levar em conta essas contradições. Sua tarefa é apenas dizer:”Isso aconteceu”, quando sabe que isso, na verdade, aconteceu; que issointeressou à vida de todo um povo, e que, portanto, há milhares de testemunhasque irão avaliar nos seus corações a verdade do que ele conta. Aliás, o narrador, que se revelará no momento oportuno, não disporia demeios para lançar-se num empreendimento desse género se o acaso não o tivesseposto em condições de recolher um certo número de depoimentos e se a força dascircunstâncias não o tivesse envolvido em tudo o que pretende relatar. É isso queo autoriza a agir como historiador. É claro que um historiador, mesmo que nãopasse de um amador, tem sempre documentos. O narrador desta história tem,portanto, os seus: em primeiro lugar, o seu testemunho; em seguida, o dosoutros, já que, pelo seu papel, foi levado a recolher as confidências de todas aspersonagens desta crónica; e, finalmente, os textos que acabaram caindo em suasmãos. Pretende servir-se deles quando lhe parecer útil e utilizá-los como lheaprouver. Propõe-se ainda. .. Mas é talvez tempo de abandonar os comentários eas precauções de linguagem para passar ao assunto em si. O relato dos primeirosdias exige certa minúcia. Na manhã do dia 16 de abril, o Dr. Bernard Rieux saiu do consultório etropeçou num rato morto, no meio do patamar. No momento, afastou o bicho semprestar atenção e desceu a escada. Ao chegar à rua, porém, veio-lhe a ideia deque esse rato não estava no lugar devido e voltou para avisar o porteiro. Dianteda reação do velho Michel sentiu melhor o que sua descoberta tinha de insólito. Apresença desse rato morto parecera-lhe apenas estranha, enquanto para oporteiro constituía um escândalo. A posição deste último era aliás categórica: nãohavia ratos na casa. Por mais que o médico lhe garantisse que havia um nopatamar do primeiro andar, provavelmente morto, a convicção de Michelpermanecia firme. Não havia ratos na casa, e era necessário que tivessem trazidoeste de fora. Em resumo, tratava-se de uma brincadeira. Nessa mesma noite, Bernard Rieux, de pé no corredor do prédio,procurava as chaves antes de subir para sua casa, quando viu surgir, do fundo


obscuro do corredor, um rato enorme, de passo incerto e pêlo molhado. O animalparou, pareceu procurar o equilíbrio, correu em direção ao médico, parou denovo, deu uma cambalhota com um pequeno guincho e parou, por fim, lançandosangue pela boca entreaberta. O médico contemplou-o por um momento e subiu. Não era no rato que ele pensava. Aquele sangue fazia-o voltar à suapreocupação. Sua mulher, doente há um ano, devia partir no dia seguinte parauma temporada na montanha. Foi encontrá-la deitada no quarto, como lhe pediraque fizesse. Assim, preparava-se para o cansaço da viagem. Sorria. - Sinto-me muito bem - dizia. O médico olhou o rosto voltado para ele, à luz da lâmpada de cabeceira.Para Rieux, aos trinta anos e a despeito das marcas da doença, esse rosto erasempre o da mocidade devido talvez ao sorriso que dominava todo o resto. - Veja se consegue dormir - disse. - A enfermeira vem às onze horas, e euvou levá-las até o trem do meio-dia. Beijou uma testa ligeiramente úmida. O sorriso acompanhou-o até aporta. No dia seguinte, 17 de abril, às oito horas, o porteiro deteve o médico eacusou gracej adores de mau gosto de haverem posto três ratos mortos no meiodo corredor. Deviam tê-los apanhado com grandes ratoeiras, pois estavam cheiosde sangue. O porteiro ficara algum tempo à porta, segurando os ratos pelaspatas, esperando que os culpados se traíssem por algum sarcasmo. Mas nadaacontecera. - Ah - dizia Michel -, esses eu acabo apanhando. Intrigado, Rieux decidiucomeçar sua: visitas pelos bairros exteriores onde moravam os clientes maispobres. A coleta do lixo era feita muito mais tarde no local, e o automóvel, quecorria ao longo das ruas retas e poeirentas do bairro, roçava os caixotes dedetritos deixados à beira da calçada. Numa rua que percorria assim, o médicocontou uma dúzia de ratos jogados sobre restos de legumes e trapos sujos. Encontrou o primeiro doente na cama, num quarto que dava para a rua eque servia ao mesmo tempo de quarto e de sala de jantar. Era um velho espanholde rosto duro e vincado. Tinha à frente, sobre a coberta, duas marmitas cheias deervilhas. No momento em que o médico entrou, o doente, meio erguido no leito,inclinava-se para trás numa tentativa de recuperar seu fôlego penoso de velhoasmático. A mulher trouxe uma bacia. - Hem, doutor - disse ele durante a injeção -, eles estão saindo, já viu? - É verdade - confirmou a mulher; - o vizinho apanhou três. O velho esfregava as mãos. - Começam a sair, vêem-se em todas as latas de lixo. É a fome. Rieux não teve dificuldade em constatar, em seguida, que todo o bairrofalava dos ratos. Acabadas as visitas, voltou para casa. - Há um telegrama para o senhor lá em cima informou Michel. O médico perguntou-lhe se tinha visto novos ratos. - Ah, não - disse o porteiro. - É que estou tomando conta, compreende, eesses safados não se atrevem. O telegrama avisava Rieux da chegada de sua mãe no dia seguinte. Vinhaocupar-se da casa do filho durante a ausência da doente. Quando o médicoentrou em casa, a enfermeira já estava lá. Rieux viu a mulher de pé, como decostume, já pintada. - Está bem - disse -, muito bem. Momentos depois, na estação, instalava-a no carro-leito. Ela percorreu


com o olhar o compartimento. - É caro demais para nós, não é verdade? - É preciso - respondeu Rieux. - Que história de ratos é essa? - Não sei. É estranho, mas vai passar. Depois, disse-lhe muito rapidamente que lhe pedia perdão, que devia terolhado por ela e que se descuidara muito. Ela sacudia a cabeça, como para lhedizer que se calasse. Mas Rieux acrescentou: - Tudo correrá melhor quando voltar. Vamos recomeçar. - Sim - concordou ela, com os olhos brilhantes -, vamos recomeçar. Um instante depois, voltava-lhe as costas e olhava pela vidraça. Naplataforma, as pessoas apressavam-se aos empurrões. O guincho da locomotivachegava até eles. O médico chamou a mulher pelo nome e quando ela se voltou,viu que o rosto estava coberto de lágrimas. - Não - disse ele, carinhosamente. Sob as lágrimas, voltou o sorriso, um pouco crispado. Ela respirouprofundamente. - Vá embora, tudo correrá bem. Rieux abraçou-a e, na plataforma, nada via agora a não ser o seu sorriso. - Cuide-se, por favor - pediu. Mas ela não podia ouvi-lo. Perto da saída, Rieux encontrou o Sr. Othon, o juiz de instrução, quetrazia pela mão o filho pequeno. O médico perguntou-lhe se ia viajar. Othon, altoe escuro, que parecia, em parte, o que se chamava outrora um homem desociedade e, em parte, um coveiro, respondeu com uma voz amável, mas breve: - Estou à espera da Sra. Othon, que foi apresentar seus respeitos àminha família. A locomotiva apitou. - Os ratos. . . - disse o juiz. Rieux teve um movimento na direção do trem, mas voltou-se para asaída. - Sim, não é nada. Tudo o que guardou desse momento foi a passagem de um empregadoque levava debaixo do braço um caixote cheio de ratos mortos. Na tarde do mesmo dia, Rieux, no início de suas consultas, atendeu umrapaz que lhe disseram ser jornalista e que já viera de manhã. Chamava-seRaymond Rambert. Baixo de estatura, ombros largos, rosto decidido, olhos claros einteligentes, Rambert vestia roupa esporte e parecia à vontade na vida. Foi diretoao assunto. Fazia uma pesquisa para um grande jornal de Paris sobre ascondições de vida dos árabes e queria informações sobre o seu estado sanitário.Rieux informou-o de que esse estado não era bom, mas quis saber, antes de irmais longe, se o jornalista podia dizer a verdade. - Certamente - disse o outro. - Quero dizei, pode fazer a condenação total? - Total, não, devo dizê-lo. Mas creio que essa condenação não teriafundamento. Com delicadeza, Rieux disse que na verdade semelhante condenação nãoteria fundamento, mas que, ao fazer essa pergunta, procurava apenas saber se otestemunho de Rambert podia ou não ser feito sem reservas. - Só admito os testemunhos sem reservas. Não estou, pois, disposto a


apoiar o seu com as minhas informações. - É a linguagem de Saint-Just - disse o jornalista, sorrindo. Sem elevar a voz, Rieux disse que não sabia nada disso, mas que era alinguagem de um homem cansado do mundo em que vivia, mas que amava,contudo, seus semelhantes e estava decidido a recusar, de sua parte, a injustiçadas concessões. Rambert, com o pescoço enterrado nos ombros, olhava para omédico. - Creio que o compreendo - disse por fim, levantando-se. O médico acompanhou-o à porta. - Agradeço-lhe por aceitar as coisas assim. Rambert pareceu impaciente. - Sim, compreendo, perdoe-me o incómodo. O médico apertou-lhe a mão e informou-o de que haveria uma curiosareportagem a fazer sobre a quantidade de ratos mortos que se encontravam nacidade nesse momento. - Ah! - exclamou Rambert. - Isso me interessa. As cinco horas, ao sairpara novas visitas, o médico encontrou na escada um homem ainda novo, desilhueta pesada, de rosto maciço e cansado, riscado por sobrancelhas espessas.Tinha-o encontrado algumas vezes em casa dos bailarinos espanhóis quemoravam no último andar de seu prédio. Jean Tarrou fumava com empenho umcigarro e contemplava as últimas convulsões de um rato que morria num degrau,a seus pés. Levantou para o médico um olhar calmo e um pouco fixo nos olhoscinzentos e acrescentou que aquela aparição de ratos era uma coisa bastantecuriosa. - É verdade - respondeu Rieux -, mas acaba por tornar-se irritante. - Num sentido, doutor, só num sentido. Nunca vimos nada desemelhante, eis tudo, mas eu acho isso interessante, sim, positivamenteinteressante. - Tarrou passou a mão pelos cabelos, para atirá-los para trás, olhoude novo para o rato agora imóvel e depois sorriu para Rieux. - Mas, afinal, doutor,isso é sobretudo com o porteiro. De fato, o médico encontrou o porteiro em frente à casa, encostado àparede, perto da entrada, com uma expressão de cansaço no rosto habitualmentecongestionado. - Bem sei - disse o velho Michel a Rieux, que lhe comunicava a novadescoberta. - Encontram-se agora aos grupos de dois e três. Mas é a mesma coisanas outras casas. Parecia abatido e preocupado, esfregando o pescoço com um gestomaquinal. Rieux perguntou-lhe como ia de saúde. O porteiro não podia dizer, naverdade, que não ia bem. Simplesmente, não se sentia em forma. Em sua opinião,era o moral que estava um pouco abatido. Aqueles ratos tinhamno perturbado, etudo ficaria melhor quando eles desaparecessem. Mas no dia seguinte, 18 de abril, pela manhã, o médico, ao voltar com amãe da estação, encontrou Michel com uma expressão ainda mais abatida: doporão ao sótão, uma dezena de ratos jazia nas escadas. Os caixotes do lixo dascasas vizinhas estavam cheios deles. A mãe do médico tomou conhecimento danotícia sem se admirar. - São coisas que acontecem. - Era uma senhora de cabelos prateados, deolhos negros e meigos. - Estou satisfeita por voltar a ver-te, Bernard. Os ratosnada podem contra isso. Ele aprovava. Era verdade que, com ela, tudo lhe parecia sempre fácil. Entretanto, Rieux telefonou ao serviço comunal de desratização, cujo


diretor conhecia. Já ouvira falar desses ratos que vinham em bandos morrer aoar livre? Mercier, o díretor, tinha ouvido falar nisso e, no seu próprio serviço,instalado próximo ao cais, tinham sido encontrados uns cinquenta. Perguntava asi próprio se a coisa teria importância. Rieux não podia decidir, mas pensava quese impunha uma intervenção do serviço de Mercier. - Sim - disse Mercier -, com uma ordem. Se acha que vale realmente apena, posso tentar obter essa ordem. - Vale sempre a pena - respondeu Rieux. Sua empregada acabava de lhe comunicar que tinham apanhado váriascentenas de ratos mortos na fábrica onde o .marido trabalhava. Foi mais ou menos nessa época que nossos concidadãos começaram ainquietar-se com o caso, pois, a partir do dia 18, as fábricas e os depósitosvomitaram centenas de cadáveres de ratos. Em alguns casos, foi necessárioacabar de matar os bichos, pois sua agonia era demasiado longa. Mas desde osbairros exteriores até o centro da cidade, por toda parte onde o Dr. Rieuxpassava, por toda parte onde nossos concidadãos se reuniam, os ratos esperavamem montes, nas lixeiras ou junto às sarjetas, em longas filas. A imprensa da tardeocupou-se do caso a partir desse dia e perguntou se a municipalidade sepropunha ou não a agir e que medidas de urgência tencionava adotar paraproteger seus munícipes dessa repugnante invasão. A municipalidade nada setinha proposto e nada previra, mas começou por reunir-se em conselho paradeliberar. Foi dada ordem ao serviço de desratização para recolher os ratosmortos todas as madrugadas. Em seguida, dois carros do serviço de desratizaçãodeveriam transportar os animais até o forno de incineração de lixo a fim de seremqueimados. Mas, nos dias que se seguiram, a situação agravou-se. O número deroedores apanhados ia crescendo, e a coleta era a cada manhã mais abundante.A partir do quarto dia, os ratos começaram a sair para morrer em grupos. Dosporões, das adegas, dos esgotos, subiam em longas filas titubeantes, para viremvacilar à luz, girar sobre si mesmos e morrer perto dos seres humanos. À noite,nos corredores ou nas ruelas, ouviam-se distintamente seus guinchos de agonia.De manhã, nos subúrbios, encontravam-se estendidos nas sarjetas com umapequena flor de sangue nos focinhos pontiagudos; uns, inchados e pútridos;outros, rígidos e com os bigodes ainda eriçados. Na própria cidade, eramencontrados em pequenos montes nos patamares ou nos pátios. Vinham,também, morrer isoladamente nos vestíbulos das repartições, nos recreios dasescolas, por vezes nos terraços dos cafés. Nossos concidadãos, estupefatos,encontravam-nos nos locais mais frequentados da cidade. A Place d’Armes, asavenidas, La Promenade de Front-de-Mer apareciam conspurcados. Limpa dosanimais mortos ao amanhecer, a cidade voltava a encontrá-los pouco a pouco,cada vez mais numerosos durante o dia. Nas calçadas também, ocorria a mais deum noctívago sentir sob os pés a massa elástica de um cadáver ainda fresco, Dir-se-ia que a própria terra onde estavam plantadas nossas casas se purgava dosseus humores, pois deixava subir à superfície furúnculos que, até então, aminavam interiormente. Imaginem só o espanto da nossa pequena cidade, atéentão tão tranqüila, transtornada em alguns dias, como um homem saudávelcujo sangue espesso se pusesse de repente em revolução! As coisas foram tão longe que a Agência Ransdoc (informações,documentação, todas as informações sobre qualquer assunto) anunciou, naemissão radiofónica de informações gratuitas, seis mil, duzentos e trinta e um


ratos apanhados e queimados, só no dia 25. Este número, que dava um sentidoclaro ao espetáculo cotidiano que a cidade tinha diante dos olhos, aumentou aagitação. Até então, as pessoas tinham apenas se queixado de um espetáculo umpouco repugnante. Compreendia-se agora que esse fenómeno, de que não sepodia ainda avaliar a amplitude nem determinar a origem, tinha qualquer coisade ameaçador. Só o velho espanhol asmático continuava a esfregar as mãos e arepetir com uma alegria senil: - Eles estão saindo, estão saindo. Entretanto, a 28 de abril, a Ransdoc anunciava uma coleta deaproximadamente oito mil ratos, e a ansiedade atingiu o auge. Exigiam-semedidas radicais, acusavam-se as autoridades, e alguns que tinham casa à beira-mar já falavam em retirar-se para lá. Mas no dia seguinte, a agência anunciouque o fenómeno cessara bruscamente e que o serviço de desratização apanharaapenas uma quantidade insignificante de ratos mortos. A cidade respirou. Contudo, foi na mesma data, ao meio-dia, que o Dr. Rieux, ao parar ocarro diante de casa, viu ao fundo da rua o porteiro, que caminhava comdificuldade, de cabeça baixa, com os braços e as pernas afastados, numa atitudede fantoche. O velho apoiava-se no braço de um padre, que o doutor reconheceu.Era o Padre Paneloux, um jesuíta erudito e militante que encontrara algumasvezes, e que era muito estimado na nossa cidade, mesmo por aqueles que sãoindiferentes em matéria de religião. Esperou-os. O velho Michel tinha os olhosbrilhantes e a respiração ruidosa. Não se sentia muito bem e tinha saído paratomar ar, mas dores vivas no pescoço, nas axilas e nas virilhas tinham-noobrigado a voltar e a pedir auxílio ao Padre Paneloux. - São uns inchaços - disse. - Devo ter feito algum esforço. Com o braço fora da porta, o médico apalpou o pescoço que ele lheestendia. Tinha-se formado uma espécie de nó. - Deite-se e tire a temperatura. Venho vê-lo esta tarde. Quando o porteiro partiu, o médico perguntou ao Padre Paneloux o queachava daquela história de ratos. - Oh - respondeu o padre -, deve ser uma epidemia. E os olhos sorriram por detrás dos óculos redondos. Depois do almoço, Rieux relia o telegrama da casa de saúde que lheanunciava a chegada de sua mulher quando o telefone tocou. Era um dos seusantigos clientes, empregado da Câmara, que o chamava. Sofrera durante muitotempo de um estreitamento da aorta e, como era pobre, Rieux tratara-o de graça. - Sim - dizia ele -, sei que se lembra de mim. Mas é de outra pessoa quese trata. Venha depressa. Aconteceu alguma coisa em casa do meu vizinho. Falava com voz cansada. Rieux pensou no porteiro e decidiu que o veriadepois. Alguns minutos mais tarde, atravessava a porta de uma casa baixa daRue Faidherbe, num bairro periférico. No meio da escada, fria e malcheirosa,encontrou Joseph Grand, o empregado da Câmara que vinha ao seu encontro.Era um homem dos seus cinquenta anos, de bigode amarelo, alto e curvado, comos ombros estreitos e os membros magros. - Agora estou melhor - disse, ao chegar perto de Rieux -, mas julguei queia morrer. Assoou o nariz. No segundo e último andar, na porta da esquerda, Rieuxleu, escrito com giz vermelho. ”Entre. Eu me enforquei”. Entraram. Uma corda estava pendurada por cima de uma cadeira caída,a mesa fora empurrada para um canto. Mas ela pendia no vazio.


- Desatei-o a tempo - dizia Grand, que parecia sempre rebuscar aspalavras, embora falasse a linguagem mais simples. - Ia justamente sair, quandoouvi ruído. Ao ver a inscrição, como explicar-lhe?, julguei que se tratava de umabrincadeira. Mas ele soltou um gemido engraçado, até mesmo sinistro, se assimse pode dizer., Coçou a cabeça. - Na minha opinião, a operação deve ser dolorosa. Naturalmente, entrei. Tinham empurrado uma porta e encontravam-se à entrada de um quartoclaro, mas pobremente mobiliado. Um homenzinho gordo estava deitado no leitode cobre, Respirava fortemente e olhava-os com olhos congestionados. O médicodeteve-se. Nos intervalos da respiração, parecia-lhe ouvir guinchos de ratos. Masnada se mexia pelos cantos. Rieux aproximou-se do leito. O homem não tinhacaído de muito alto, nem muito bruscamente, e as vértebras tinham resistido. Naverdade, um pouco de asfixia. Seria necessário fazer uma radiografia. O médicodeu-lhe uma injeção de óleo canforado e disse que tudo estaria bem dentro dealguns dias. - Obrigado, doutor - agradeceu o homem, com uma voz sufocada. Rieux perguntou a Grand se tinha avisado o comissário, e o empregadoficou com um ar confuso. - Não, não! Pensei que o mais urgente. . . - Sem dúvida - interrompeu Rieux. - vou fazê-lo agora. Nesse momento, porém, o doente agitou-se e ergueu-se no leito,protestando que estava melhor e que não valia a pena. - Acalme-se - disse Rieux. - Não tem importância, acredite, mas énecessário que eu faça a minha declaração. - Oh! - exclamou o outro. E atirou-se para trás, chorando com soluços curtos. Grand, que há ummomento cofiava o bigode, aproximou-se dele. - Vamos, Sr. Cottard, tente compreender. Pode-se dizer que o doutor éresponsável. Se, por exemplo, o senhor tivesse vontade de recomeçar. . . Mas Cottard, entre lágrimas, disse que não recomeçaria, que fora apenasum momento de loucura e que só desejava que o deixassem em paz. Rieux redigiauma receita. - Entendido. Deixemos isso. Voltarei dentro de dois ou três dias. Mas nãofaça bobagens. No patamar, disse a Grand que era obrigado a fazer a declaração, masque pediria ao comissário que só procedesse ao inquérito daí a dois dias. - É preciso vigiá-lo esta noite. Ele tem família? - Não a conheço. Mas posso vigiá-lo eu mesmo. - Abanava a cabeça. - Tampouco posso dizer que o conheço, note bem. Masé preciso nos ajudarmos uns aos outros. Nos corredores da casa, Rieux olhou maquinalmente para os cantos eperguntou a Grand se os ratos tinham desaparecido totalmente do seu bairro. Ofuncionário nada sabia. Tinham-lhe falado, na verdade, dessa história, mas elenão prestava atenção aos boatos do bairro. - Tenho mais com que me preocupar - afirmou. Rieux já lhe apertava amão. Tinha pressa de ver o porteiro antes de escrever à mulher. Os vendedores dos jornais da tarde anunciavam que a invasão dos ratostinha parado. Mas Rieux encontrou o seu doente meio deitado para fora do leito,


com uma das mãos no ventre e a outra em volta do pescoço, vomitando, comgrandes arrancos, uma bílis rosada numa lata de lixo. Após grandes esforços,sem fôlego, o porteiro voltou a deitar-se. A temperatura era de trinta e nove emeio, os gânglios do pescoço e os membros tinham inchado, duas manchasescuras alastravam-se pelo flanco. Queixava-se agora de uma dor interna. - Está ardendo - dizia ele -, esta porcaria está ardendo. A boca fuliginosa obrigava-o a mastigar as palavras e voltava para omédico uns olhos protuberantes, dos quais a dor de cabeça fazia correr lágrimas.A mulher olhava com ansiedade para Rieux, que continuava mudo. - Doutor - perguntou ela -, que é isto? - Pode ser uma série de coisas. Mas não há ainda nada de certo. Até estanoite, dieta e depurativo. Deve tomar bastante líquido. Precisamente, o porteiro sentia-se devorado pela sede. Ao voltar à casa,Rieux telefonou ao seu colega Ríchard, um dos médicos mais importantes dacidade. - Não - dizia Richard -, não vi nada de extraordinário. - Nem febre com inflamações locais? - Ah! Sim, na verdade, dois casos de gânglios muito inflamados. - Anormalmente? - Sim - respondeu Richard -, o normal, você sabe. . . A noite, de qualquer forma, o porteiro delirava e, com quarenta graus,queixava-se dos ratos. Rieux tentou um abscesso de fixação. Sob a queimadurada terebintina, o porteiro berrou: - Ah, são uns safados. Os gânglios tinham aumentado, estavam duros e fibrosos ao tato. Amulher do porteiro afligia-se: - Fique junto dele - ordenou o médico - e, se for necessário, pode mechamar. No dia seguinte, 30 de abril, uma brisa já morna soprava sob um céu azule úmido. Trazia um cheiro de flores que vinha dos bairros mais afastados. Nasruas, os ruídos da manhã pareciam mais vivos, mais alegres do quehabitualmente. Em toda a nossa pequena cidade, liberta da apreensão em quetinha vivido durante a semana, esse era o dia da renovação. O próprio Rieux,tranqüilizado por uma carta da mulher, desceu até a casa do porteiro. E naverdade, de manhã, a febre caíra para trinta e oito graus. Enfraquecido, o doentesorria no leito. - Está melhor, não é verdade, doutor? - perguntou a mulher. - Vamos esperar um pouco. Ao meio-dia, porém, a febre subira bruscamente a quarenta graus, opaciente delirava sem cessar e os vómitos tinham recomeçado. Os gânglios dopescoço eram dolorosos ao tato, e o doente parecia querer manter a cabeça omais afastada possível do corpo. A mulher estava sentada aos pés da cama,segurando levemente os pés do doente. Olhava para Rieux. - Ouça - disse ele -, é preciso isolá-lo e tentar um tratamento maisradical. vou telefonar para o hospital e vamos levá-lo de ambulância. Duas horas depois, na ambulância, o médico e a mulher curvavam-sesobre o doente. Da boca, coberta de fungosidades, saíam fragmentos de palavras:”Os ratos”, dizia ele. Esverdeado, com lábios descorados, pálpebras pesadas,respiração entrecortada e breve, dilacerado pelos gânglios, abatido no fundo damaca, como se quisesse fechá-la em torno dele ou como se qualquer coisa, vindado fundo da terra, o chamasse sem descanso, o porteiro sufocava sob um peso


invisível. A mulher chorava. - Não há mais esperança, doutor? - Está morto - disse Rieux. A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio desinais desconcertantes, e o início de outro, relativamente mais difícil, em que asurpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico.Nossos concidadãos - a partir de agora eles se davam conta disso nunca tinhampensado que nossa pequena cidade pudesse ser um lugar particularmentedesignado para que os ratos morressem ao sol e os porteiros perecessem dedoenças estranhas. Sob esse ponto de vista, era evidente que estavam errados eque suas ideias precisavam ser revistas. Se tudo tivesse ficado por aí, os hábitos,sem dúvida, teriam vencido. Mas outros concidadãos nossos, que nem sempreeram porteiros nem pobres, tiveram de seguir o caminho que Michel fora oprimeiro a tomar. Foi a partir desse momento que começou o medo e com ele areflexão. Entretanto, antes de entrar nos detalhes desses novos acontecimentos, onarrador acha útil dar, sobre o período que acaba de ser descrito, a opinião deoutra testemunha. Jean Tarrou, que já encontramos no início deste relato, fixara-se em Oran há algumas semanas e morava, desde então, em um grande hotel nocentro. Parecia ser suficientemente próspero para viver dos seus rendimentos.Mas, embora a cidade se tivesse habituado a ele, pouco a pouco, ninguém sabiadizer de onde vinha, nem por que estava lá. Era encontrado em todos os lugarespúblicos. A partir do início da primavera, fora visto muitas vezes nas praias,nadando frequentemente e com um prazer manifesto. Bonachão, sempresorridente, parecia ser amigo de todos os prazeres normais, sem ser escravodeles. Na realidade, o único hábito seu que conheciam era a convivência assíduacom os bailarinos e músicos espanhóis, bastante numerosos na nossa cidade. Seus apontamentos de certa forma constituem também uma espécie decrónica desse período difícil. Mas trata-se de uma crónica muito especial queparece obedecer a uma ideia preconcebida de insignificância. À primeira vista,poderíamos achar que Tarrou se empenhara em ver as coisas e os seres por umbinóculo ao contrário. Na confusão geral, ele se empenhara, em suma, em ser ohistoriador do que não tem história. Pode-se sem dúvida deplorar essepreconceito e suspeitar uma certa dureza de coração. Nem por isso é menosverdade que os seus cadernos podem fornecer, para uma crónica desse período,grande quantidade de pormenores secundários que têm contudo importância; asua própria singularidade impedirá que se julgue precipitadamente essainteressante personagem. As primeiras notas de Tarrou datam de sua chegada a Oran. Mostramdesde o princípio uma curiosa satisfação por se encontrar numa cidade em si tãofeia. Encontra-se uma descrição pormenorizada dos dois leões de bronze queornam a municipalidade, considerações benévolas sobre a ausência de árvores,as casas sem graça e o plano absurdo da cidade. Tarrou mistura, ainda, diálogosouvidos nos bondes e nas ruas, sem acrescentar comentários, exceto um poucomais tarde, em relação às conversas a respeito de um tal Camps. Tarrou assistiraà conversa de dois condutores de bonde: - Você conheceu o Camps - dizia um. - Camps? Um alto, de bigode preto? - Exatamente. Trabalhava no controle. - Sim, isso mesmo.


- Pois bem, morreu. - Ah! E quando foi isso? - Depois da história dos ratos. - Veja só! E que foi que ele teve? - Não sei. Febre. Além disso, não era forte. Teve abscessos debaixo dosbraços. Não resistiu. - No entanto, parecia um homem como os outros. - Não, tinha o peito fraco e tocava no orfeão. Soprar num pistom acabacom a pessoa. - Ah! - terminou o segundo. - Quando se é doente, não se deve tocar uminstrumento de sopro. Depois dessas poucas indicações, Tarrou perguntava a si próprio por querazão Camps tinha entrado para o orfeão contra seu próprio interesse e quaiseram as razões profundas que o tinham levado a arriscar a vida pelos desfilesdominicais. Tarrou parecia, em seguida, ter sido favoravelmente impressionado poruma cena que se desenrolava muitas vezes na varanda que ficava em frente à suajanela. Na verdade, seu quarto dava para uma rua transversal, onde os gatosdormiam à sombra dos muros. Mas, todos os dias, depois do almoço, nas horasem que a cidade inteira cochilava no calor, um velhinho aparecia numa varandado outro lado da rua. com os cabelos brancos e bem penteados, ereto e austeronas suas roupas de corte militar, chamava os gatos com um ”bichano. . .bichano” ao mesmo tempo meigo e distante. Os gatos levantavam os olhos pálidosde sono, sem se perturbarem. O outro rasgava pedacinhos de papel e os jogavapara a rua; os bichos, atraídos por essa chuva de borboletas brancas, avançavampara o meio da calçada, estendendo uma pata hesitante para os últimos pedaçosde papel. O velhinho escarrava, então, sobre os gatos, com força e precisão. Seum dos escarros atingia o alvo, ele ria. Por fim, Tarrou parecia ter sido definitivamente seduzido pelo carátercomercial da cidade, cuja aparência, animação e até prazeres pareciamcomandados pelas necessidades do negócio. Essa singularidade (é o termoempregado nos cadernos) recebia a aprovação de Tarrou e uma de suasobservações elogiosas chegava a terminar por esta exclamação: ”Finalmente!” Sãoos únicos pontos em que as notas do viajante, nessa data, parecem assumir umcaráter pessoal. É difícil avaliar o seu significado e seriedade. Assim é que depoisde ter relatado que a descoberta de um rato morto levara o caixa do hotel acometer um erro na sua conta, Tarrou acrescentara, com uma letra menos nítidaque de costume: ”Pergunta: Como fazer para não se perder tempo? Resposta:Senti-lo em toda a sua extensão. Meios: Passar os dias na sala de espera de umdentista, numa cadeira desconfortável; viver as tardes de domingo na varanda,ouvir conferências numa língua que não se compreende; escolher os itineráriosde trem mais longos e menos cómodos e viajar de pé, naturalmente; fazer fila nasbilheterias dos espetáculos e não ocupar o seu lugar, etc.” Mas de repente, apósessas digressões de linguagem e de pensamento, os cadernos começam umadescrição detalhada dos bondes da nossa cidade, da sua forma de bote, da suacor indecisa, da sua sujeira habitual, terminando essas considerações por um ” énotável!” que nada explica. Eis em todo caso as explicações dadas por Tarrou sobre a história dosratos:


”Hoje, o velhinho que mora em frente está perturbado. Já não há gatos.Desapareceram na verdade excitados pela grande quantidade de ratos mortos quese descobrem nas ruas. Na minha opinião é impossível que os gatos comam ratosmortos. Lembro-me de que os meus detestam isso. O que não impede que elescorram pelos porões e que o velhinho esteja perturbado. Está menos bempenteado, menos vigoroso. Percebe-se que ele está inquieto. Demorou-se ummomento apenas e entrou. Só que, dessa vez, escarrara no vazio. Na cidade, pararam um bonde hoje porque se descobriu um rato mortoque, não se sabe como, chegara lá. Duas ou três mulheres desceram. Jogou-sefora o rato. O bonde voltou a funcionar. No hotel, o vigia da noite, que é homem digno de confiança, disse-me quecom todos esses ratos esperava uma desgraça. ’Quando os ratos abandonam onavio. . .’ Disselhe que era verdade no caso dos navios, mas que nunca se tinhaverificado isso com as cidades. No entarto, sua convicção persistia. Perguntei-lheque desgraça, em sua opinião, se podia esperar. Não sabia. É impossível prever adesgraça. Mas não se admiraria se fosse um tremor de terra. Reconheci que erapossível, e ele perguntou se isso não me inquietava. ’A única coisa que me interessa’, respondi-lhe, ’é encontrar a paz interior.’ Ele me compreendeu perfeitamente. No restaurante do hotel há uma família bastante interessante. O pai é umhomem alto e magro, vestido de preto, de colarinho engomado. Tem o meio docrânio calvo e dois tufos de cabelos grisalhos à direita e à esquerda. Uns olhinhosredondos e duros, nariz fino, boca horizontal dão-lhe um ar de uma coruja bem-educada. É sempre o primeiro a chegar à porta do restaurante. Afasta-se, deixapassar a mulher, pequenina como um rato preto, e então entra, trazendo atrásum rapaz e uma mocinha vestidos como cachorros comportados. Ao chegar àmesa, espera a mulher sentar-se, senta-se, e os dois cachorrinhos podemfinalmente 1 empoleirar-se nas cadeiras. Trata a mulher e os filhoscerimoniosamente, dirige gracejos bem-educados à primeira e palavrasterminantes aos herdeiros: ’Nicole, está soberanamente antipática!’ ’A menina está prestes a chorar. É o que é preciso.’ Essa manhã, o rapaz estava todo agitado com a história dos ratos. Quisdizer qualquer coisa à mesa. ’Não se fala de ratos à mesa, Philippe. Proíbo-o, daqui em diante, depronunciar essa palavra.’ ’Seu pai tem razão’, disse a rata preta. Os dois cãezinhos meteram os narizes nos pratos, e a coruja agradeceucom um sinal de cabeça, que não queria dizer muita coisa. Apesar desse belo exemplo, na cidade fala-se muito dessa história deratos. O jornal ocupou-se do caso. A crónica local, que é habitualmente muitovariada, é agora totalmente ocupada por uma campanha contra amunicipalidade: ’compreenderam os nossos edis o perigo que podiam representaros cadáveres podres desses roedores?’ O diretor do hotel não consegue falar deoutra coisa. Mas é também porque se sente envergonhado. Descobrir ratos noelevador de um hotel respeitável parece-lhe inconcebível. Para consolá-lo disse-lhe: ’Mas acontece o mesmo a todos!’ ’Justamente’, respondeu-me, ’somos agora como todos os outros.’ Foi ele que me falou dos primeiros casos dessa febre que começou a setornar inquietante. Uma das camareiras do hotel foi atacada.


’Mas, evidentemente, não é contagioso’, apressou-se a declarar. Respondi-lhe que isso me era indiferente. ’Ah, compreendo, o senhor é como eu, o senhor é fatalista.’ Eu não tinha dito nada de semelhante e, aliás, não sou fatalista. E eu lhedisse isso. . .” É a partir desse momento que os cadernos de Tarrou começam a falarcom alguns pormenores dessa febre desconhecida com que o público já seinquietava. Ao notar que o velhinho voltara a encontrar os gatos com odesaparecimento dos ratos e que retificava pacientemente os seus tiros, Tarrouacrescentava que já se podia citar uma dezena de casos dessa febre, a maiorparte dos quais tinha sido mortal. A título documental pode-se enfim reproduzir o retrato do Dr. Rieux feitopor Tarrou. Até onde o narrador pode julgar, ele é bastante fiel: ”Aparenta trinta e cinco anos. Estatura mediana. Ombros fortes. Rostoquase retangular. Olhos escuros e diretos, mas maxilares proeminentes. O narizforte é regular. Cabelos pretos, cortados muito curto. A boca é arqueada com oslábios cheios e sempre fechados. Tem um pouco o ar de um camponês sicilianocom a pele queimada, o cabelo preto e as roupas sempre de cor escura, mas quelhe ficam bem. Anda depressa. Desce as calçadas sem mudar de passo, mas duas vezesem cada três sobe a calçada em frente com um pequeno salto. Distrai-se aovolante do automóvel e deixa muitas vezes as setas ligadas, mesmo depois de terfeito a curva. Sempre de cabeça descoberta, parece pessoa bem informada.” Os números de Tarrou eram exatos. O Dr. Rieux sabia alguma coisa arespeito. Isolado o corpo do porteiro, telefonara a Richard para interrogá-lo sobreessas febres inguinais. - Não compreendo nada - respondera Richard. Dois mortos, um no prazode quarenta e oito horas, o outro, no de três dias. Eu tinha deixado o último, umamanhã, com todos os indícios de convalescença. - Avise-me se tiver outros casos - disse Rieux. Telefonou ainda paraoutros médicos. Essa sindicância mostrou uns vinte casos semelhantes emalguns dias. Quase todos tinham sido fatais. Pediu então a Richard, secretário doSindicato dos Médicos de Oran, o isolamento dos novos doentes. - Mas não posso fazer nada - respondeu Richard. - Essas providências são com a prefeitura. Além disso, quem lhe diz quehá risco de contágio? - Ninguém, mas os sintomas são inquietantes. Richard, entretanto,achava que não tinha ”competência”. Tudo o que podia fazer era falar com oprefeito. Porém, enquanto se falava, perdia-se tempo. No dia seguinte à morte doporteiro, grandes brumas cobriam o céu. Chuvas diluvianas e curtas abateram-sesobre a cidade, seguindo-se a esses bruscos aguaceiros um calor de tempestade.O próprio mar perdera o azul profundo e, sob o céu brumoso, tinha reflexos deprata ou de ferro, dolorosos à vista. O calor úmido dessa primavera nos faziadesejar os ardores do verão. Na cidade, construída em caracol sobre um planalto,quase fechada para o mar, reinava um morno torpor. No meio dos seus longosmuros caiados, entre as ruas de vitrines poeirentas, nos bondes de um amarelosujo, as pessoas sentiam-se um pouco prisioneiras do céu. Só o velho doente deRieux dominava a asma para se regozijar com esse tempo. - Está pegando fogo - dizia ele. - É bom para os brônquios.


Queimava, na verdade, mas nem mais nem menos do que uma febre.Toda a cidade estava com febre. Era essa pelo menos a impressão que perseguiao Dr. Rieux, na manhã em que se dirigia à Rue Faidherbe a fim de assistir aoinquérito sobre a tentativa de suicídio de Cottard. Mas essa impressão parecia-lhe insensata. Atribuía-a ao enervamento e às preocupações que o assaltavam, eadmitiu que era urgente colocar um pouco de ordem nas ideias. Quando chegou, o comissário ainda não estava. Grand esperava nopatamar, e decidiram entrar primeiro na sua casa deixando a porta aberta. Ofuncionário municipal ocupava duas peças sumariamente mobiliadas. Notava-seapenas uma estante de madeira branca guarnecida com dois ou três dicionários eum quadro-negro, onde se podiam ainda ler meio apagadas, as palavras ”aléiasfloridas”. Segundo Grand, Cottard tinha passado bem a noite. Mas de manhãtinha acordado com dor de cabeça e incapaz de qualquer reação. Grand pareciacansado e nervoso, passeando de um lado para outro, abrindo e fechando sobre amesa uma grande pasta, cheia de folhas manuscritas. Contou ao médico que conhecia mal Cottard, mas que julgava que tivessealguns bens. Cottard era um homem estranho. Durante muito tempo suasrelações tinham-se limitado a alguns cumprimentos nas escadas. - Só tive duas conversas com ele. Há alguns dias, derrubei no patamaruma caixa de giz que trazia para casa. Havia giz vermelho e giz azul. Nessemomento, Cottard apareceu no patamar e ajudou-me a apanhá-los. Perguntoumepara que servia esse giz de diferentes cores. Grand explicara então que tentava recordar um pouco o seu latim. Desdeo ginásio, seus conhecimentos tinham esmaecido. - Garantiram-me - explicou ao médico - que é útil para conhecer melhor osentido das palavras francesas. Escrevia portanto palavras latinas no seu quadro. Copiava com giz azul aparte variável das palavras, segundo as declinações e as conjugações e, com gizvermelho, a invariável. - Não sei se Cottard compreendeu bem, mas pareceu-me interessado epediu-me um pedaço de giz vermelho. Fiquei um pouco surpreso, mas afinal. . .Não podia adivinhar, evidentemente, que isso iria servir ao seu propósito. Rieux perguntou qual fora o assunto da segunda conversa. ^Mas,acompanhado do seu secretário, chegou o comissário, que quis ouvir, emprimeiro lugar, as declarações de Grand. O médico observou que Grand, ao falarde Cottard, referia-se sempre a ele como o ”desesperado”. Empregou até, em certomomento, a expressão ”resolução fav’ .*scutiram sobre a causa do suicídio, eGrand mostrou-se hesitante na escolha dos termos. Deteve-se por fim naspalavras ”desgostos íntimos”. O comissário perguntou se algo na atitude deCottard deixava prever o que ele chamava ”a sua determinação”. - Bateu ontem à minha porta - respondeu Grand - para me pedir fósforos.Dei-lhe a caixa. Pediu desculpas, dizendo que entre vizinhos... Depois, afirmouque me devolveria a caixa. Disse-lhe que ficasse com ela. O comissário perguntou ao funcionário municipal se Cottard não lheparecera estranho. - O que me pareceu estranho foi ele mostrar vontade de conversar. Maseu estava trabalhando. Grand voltou-se para Rieux e acrescentou, com ar constrangido: - Um trabalho pessoal. Entretanto, o comissário queria ver o doente. Mas Rieux achava que


primeiro era melhor preparar Cottard para essa visita. Quando entrou no quarto,ele estava erguido no leito, apenas com uma roupa de flanela acinzentada, evoltado para a porta com uma expressão de ansiedade. - É a polícia, hem? - É - disse Rieux. - Não se preocupe. Duas ou três formalidades e deixá-lo-ão em paz. Mas Cottard respondeu que isso não servia para nada e que não gostavada polícia. Rieux ficou impaciente. - Eu também não morro de amores por ela. Trata-se de responderdepressa t corretamente às perguntas para acabar com isso de uma vez portodas. Cottard calou-se, e o médico voltou à porta. Mas o sujeitinho chamou-o eagarrou-lhe as mãos quando chegou perto da cama. - Não se pode tocar num doente, num homem que se enforcou, não éverdade, doutor? Rieux olhou-o por um momento e, finalmente, garantiu que nunca secogitara de nada desse género e que enfim ele estava ali para proteger o seudoente. Este pareceu acalmar-se, e Rieux mandou entrar o comissário. Leram para Cottard o depoimento de Grand e perguntaram-lhe se podiaprecisar os motivos de seu ato. Ele respondeu apenas, e sem olhar para ocomissário, que ”desgostos íntimos” estava muito bem. O comissário forçou-o adizer se tinha vontade de reincidir. Cottard, animando-se, respondeu que não eque só desejava que o deixassem em paz. - Convém observar - disse o comissário, num tom irritado - que nomomento é o senhor que perturba a paz dos outros. Mas, a um sinal de Rieux, calou-se. - O senhor compreende - suspirou o comissário, ao sair -, temos outrosproblemas com que nos ocupar desde que se fala dessa febre. . . Perguntou ao médico se a coisa era séria, e Rieux respondeu que nadasabia. - É o tempo, mais nada - concluiu o comissário. Era o tempo, sem dúvida. Tudo ficava pegajoso à medida que o diaavançava, e Rieux sentia crescer sua apreensão a cada visita. Na noite daquelemesmo dia, no subúrbio, um vizinho do velho doente apertava as virilhas evomitava em meio ao delírio. Os gânglios estavam ainda maiores que os doporteiro. Um deles começava a supurar e logo se abriu como um fruto podre.Chegando a casa, Rieux telefonou para o depósito de produtos farmacêuticos dodepartamento. Suas notas profissionais mencionam, apenas, nessa data:”Resposta negativa”. E já o chamavam de outros lugares para casos semelhantes.Era evidente que se tornava necessário abrir os abscessos. Dois golpes de bisturiem cruz, e dos gânglios escorria uma pasta sangrenta. Os doentes sangravam.Mas surgiam manchas no ventre e nas pernas, um gânglio deixava de supurar,depois tornava a inchar. Na maior parte das vezes o doente morria exalando umcheiro terrível. A imprensa, tão indiscreta no caso dos ratos, já não mencionava nada. Éque os ratos morrem na rua e os homens, em casa. E os jornais só se ocupam darua. Mas a prefeitura e a municipalidade começavam a se questionar. Enquantocada médico não tinha tido conhecimento de mais de dois ou três casos, ninguémpensara em se mexer. Mas, em resumo, bastou que alguém pensasse em fazer asoma, e a soma era alarmante. Em apenas alguns dias, os casos mortais


multiplicaram-se e tornou-se evidente, para aqueles que se preocupavam com acuriosa moléstia, que se tratava de uma verdadeira epidemia. Foi o momento queGastei, colega de Rieux, muito mais velho que ele, escolheu para ir visitá-lo. - Naturalmente - perguntou -, sabe do que se trata, Rieux? - Estou esperando o resultado das análises. - Pois eu sei. E não preciso de análises. Fiz uma parte da minha carreirana China e vi alguns casos em Paris, há uns vinte anos. Simplesmente, não seteve a coragem de lhe dar um nome. A opinião pública é sagrada: nada de pânico.Sobretudo, nada de pânico. E depois, como dizia um colega: ”É impossível, tojomundo sabe que ela desapareceu do Ocidente”. Sim, todos sabiam, exceto osmortos. Vamos, Rieux, você sabe tão bem quanto eu o que é. Rieux refletia. Pela janela do escritório olhava a falésia rochosa que sefechava, ao longe, sobre a baía. O céu, embora azul, tinha um brilho pálido quese esbatia à medida que a tarde avançava. - É verdade, Gastei - respondeu. - É incrível, mas parece peste. Gastei levantou-se e dirigiu-se para a porta. - Você sabe o que vão nos responder - disse o velho médico: - ”Eladesapareceu dos países temperados há muitos anos”. - Que quer dizer isso. . . desapareceu? - perguntou Rieux, encolhendo osombros. - Sim, não se esqueça: em Paris ainda, há quase vinte anos. - Bem, esperemos que não seja mais grave hoje que naquela época. Mas érealmente incrível. A palavra ”peste” acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Nestemomento da narrativa, com Bernard Rieux atrás da janela, permitir-se-á aonarrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, já que, com algumasvariações, sua reação foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos,na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando seabatem sobre nós. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, aspestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmentedesprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como nossos concidadãos, énecessário compreender assim as duas hesitações. E por isso é precisocompreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e aconfiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: ”Não vai durar muito,seria idiota”. E sem dúvida uma guerra é uma tolice, o que não a impede dedurar. A tolice insiste sempre, e compreendê-la-íamos se não pensássemossempre em nós. Nossos concidadãos, a esse respeito, eram como todo mundo:pensavam em si próprios. Em outras palavras, eram humanistas: nãoacreditavam nos flagelos. O flagelo não está à altura do homem; diz-se então queo flagelo é irreal, que é um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passae, de sonho mau em sonho mau, são os homens que passam, e os humanistasem primeiro lugar, pois não tomaram suas precauções. Nossos concidadãos nãoeram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos epensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressupunha que osflagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens etinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, osdeslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres, e nunca alguém será livreenquanto houver flagelos. Mesmo depois de o Dr. Rieux ter reconhecido, diante do amigo, que umpunhado de doentes dispersos acabavam de morrer da peste, sem aviso, o perigo


continuava irreal para ele. Simplesmente, quando se é médico, faz-se uma ideiada dor e tem-se um pouco mais de imaginação. Ao olhar pela janela sua cidadeque não mudara, era com dificuldade que Rieux sentia nascer dentro de si esseligeiro temor diante do futuro, que se chama inquietação. Ele procurava reunir noseu espírito o que sabia sobre a doença. Flutuavam números na sua memória, edizia a si próprio que umas três dezenas de pestes que a história conheceutinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões demortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E já que umhomem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveressemeados através da história esfumaçam-se na imaginação. O médico lembrava-se da peste de Constantinopla, que, segundo Procópio, tinha feito dez mil vítimasem um só dia. Dez mil mortos são cinco vezes o público de um grande cinema. Aíestá o que se deveria fazer. Juntam-se as pessoas à saída de cinco cinemas paraconduzi-las a uma praça da cidade e fazê-las morrer aos montes para secompreender alguma coisa. Ao menos, poder-se-iam colocar alguns rostosconhecidos nesse amontoado anónimo. Mas, naturalmente, isso é impossível derealizar, e depois, quem conhece dez mil rostos? Além disso, sabe-se que aspessoas como Procópio não sabiam contar. Em Cantão, há setenta anos,quarenta mil ratos tinham morrido da peste, antes que o flagelo se interessassepelos habitantes. Mas, em 1871, não havia um meio de contar os ratos. Fazia-seo cálculo aproximado, por alto, com evidentes probabilidades de erro. Contudo, seum rato tem trinta centímetros de comprimento, quarenta mil ratos em filadariam... Mas o médico impacientava-se. Deixava-se entregar, e isso era perigoso.Alguns casos não constituem uma epidemia, e tJsta tomar precauções. Erapreciso limitar-se àquilo que se sabia: o torpor e a prostração, os olhosvermelhos, a boca suja, a dor de cabeça, os tumores, a sede terrível, o delírio, asmanchas no corpo, o dilaceramento interior e, no fim de tudo... No fim de tudo,uma frase surgia no espírito do Dr. Rieux, uma frase que no seu manualterminava justamente a enumeração dos sintomas: ”O pulso torna-se filiforme e amorte sobrevêm por ocasião de um movimento insignificante”. Sim, no fim detudo ficávamos presos por um fio, e três quartos da população - era o númeroexato - estavam impacientes para fazer o movimento imperceptível que asprecipitaria. O médico continuava a olhar pela janela. De um lado da vidraça, o céufresco da primavera; do outro, a palavra que ressoava ainda na sala: peste. Apalavra não continha apenas o que a ciência queria efetivamente atribuir-lhe,mas uma longa série de imagens extraordinárias que não combinavam com essacidade amarela e cinzenta, moderadamente animada a essa hora, maiszumbidora que ruidosa, feliz em suma, se é possível ser ao mesmo tempo feliz etaciturno. E uma tranqüilidade tão pacífica e tão indiferente negava quase semesforço as velhas imagens do flagelo: Atenas empestada e abandonada pelospássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos; os condenadosde Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construção, naProvença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seusmendigos horrendos, os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospitalde Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o carnaval dos médicosmascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios deMilão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda


parte e sempre cheios de gritos intermináveis dos homens. Não, tudo isso não eraainda bastante forte para matar a paz desse dia. Do outro lado da vidraça, acampainha de um bonde invisível tilintava de repente e refutava num segundo acrueldade e a dor. Só o mar, ao fundo do tabuleiro baço das casas, comprovava oque há de inquietação e de eterna falta de tranqüilidade neste mundo. E o Dr.Rieux, que olhava para o golfo, pensava nas fogueiras citadas por Lucrécio e queos atenienses atacados pela doença acendiam à beira do mar. Levavam os mortospara lá durante a noite, mas o lugar era pequeno e os vivos batiam-se a golpes dearchote para colocarem os que lhes tinham sido queridos, sustentando lutassangrentas para não abandonarem os cadáveres. Podia-se imaginar as fogueirasrubras diante da água tranqüila e escura, os combates de archotes na noitecrepitante de fagulhas e densos vapores envenenados subindo para o céu atento.Podia-se recear... Mas essa vertigem não se mantinha diante da razão. É verdade que apalavra ”peste” fora pronunciada, é verdade que, nesse mesmo instante, o flageloabalava e derrubava uma ou duas vítimas. Mas, que diabo, aquilo podia parar, Onecessário era reconhecer claramente o que devia ser reconhecido, expulsarenfim as sombras inúteis, tomar as providências adequadas. Em seguida, a pestepararia, porque ou não se podia imaginar a peste, ou então a imaginávamos demodo falso. Se ela parasse - o que era o mais provável -, tudo correria bem. Casocontrário, saber-se-ia o que ela era para, não havendo meio de se defender delaprimeiro, vencê-la em seguida. O médico abriu a janela, e o ruído da cidade cresceu de repente. De umaoficina vizinha chegava o silvo breve e repetido de uma serra mecânica. Rieuxdespertou. Aí estava a certeza, no trabalho de todos os dias. O resto, prendia-se afios, a movimentos insignificantes, não se podia perder tempo com isso. Oessencial era cumprir o seu dever. O Dr. Rieux estava nessa altura de suas reflexões quando lheanunciaram Joseph Grand. Como era funcionário da municipalidade, emborasuas ocupações fossem muito diversas, utilizavam-no periodicamente no serviçoda estatística do registro civil. Assim é que ele tinha de fazer a contagem dosóbitos. E, prestativo por natureza, concordara em levar pessoalmente à casa deRieux uma cópia dos seus resultados. O médico viu entrar Grand na companhia do seu vizinho Cottard. Ofuncionário municipal brandia uma folha de papel. - Os números sobem, doutor - anunciou. - Onze mortos em quarenta eoito horas. Rieux cumprimentou Cottard e perguntou-lhe como se sentia. Grandexplicou que Cottard fizera questão de agradecer ao médico e pedir-lhe desculpaspelos transtornos que lhe causara. Mas o médico olhava para a folha deestatística. - Vamos - disse Rieux -, talvez seja preciso decidirmo-nos a chamar essadoença pelo seu nome verdadeiro. Até &ÉJora, estamos tateando. Mas venhacomigo, preciso ir ao laboratório. - Sim, sim - dizia Grand, ao descer as escadas atrás do médico. - Épreciso chamar as coisas pelo nome verdadeiro. Mas que nome é esse? - Não posso lhe dizer e, além disso, de nada lhe serviria. - Está vendo? - disse o funcionário municipal, com um sorriso. - Não éfácil. Digiriram-se para a Place d’Armes. Cottard continuava calado. As ruas


começavam a encher-se de gente. O crepúsculo fugidio da nossa região jácomeçava a recuar diante da noite, e as primeiras estrelas apareciam nohorizonte ainda nítido. Um instante depois, as lâmpadas, acendendo-se por cimadas ruas, obscureceram todo o céu, e o ruído das conversas pareceu subir detom. - Desculpem-me - disse Grand, na esquina da Place d’Armes -, maspreciso tomar o bonde. Minhas noites são sagradas. Como dizem na minha terra:”Não se deve deixar para amanhã. Rieux já notara essa mania de Grand, nascido em Montélimar, de evocarprovérbios regionais e de acrescentar, em seguida, fórmulas banais que não eramde lugar algum, como: ”um tempo de sonho” ou ”uma iluminação feérica”. - Ah - disse Cottard -, é verdade. É impossível arrancá-lo de casa depoisdo jantar. Rieux perguntou a Grand se trabalhava para a prefeitura. Grandrespondeu que não, que trabalhava por conta própria. - Ah - disse Rieux, para ter o que dizer -, e está dando certo? - Há anos que trabalho nisto, forçosamente. Embora, em outro sentido,não haja muitos progressos. - Mas, afinal, de que se trata? - perguntou o médico, detendo-se. Grand gaguejou, enterrando o chapéu sobre as orelhas. E Rieuxcompreendeu muito vagamente que se tratava de qualquer coisa sobre odesenvolvimento de uma personalidade. Mas o funcionário já os deixava e subia oBoulevard de La Mame, sob os f í cus, com um passo apressado. À entrada dolaboratório, Cottard disse ao médico que gostaria muito de consultá-lo parapedir-lhe orientação. Rieux, que remexia nos bolsos a folha de estatística,convidou-o a ir ao consultório, mas depois, mudando de opinião, disse-lhe queiria no dia seguinte ao seu bairro e que passaria pela sua casa no fim da tarde. Ao deixar Cottard, o médico se deu conta de que pensava em Grand.Imaginava-o no meio de uma peste, e não daquela, que sem dúvida não seriaséria, mas de uma das grandes pestes da história. ”É o tipo de homem que époupado nesses casos.” Lembrava-se de ter lido que a peste poupava asconstituições fracas e destruía sobretudo as compleições vigorosas. E,continuando a pensar nisso, o médico descobria no empregado municipal umarzinho de mistério. À primeira vista, com efeito, Joseph Grand nada era além do pequenofuncionário municipal que aparentava ser. Alto e magro, flutuava dentro dasroupas, largas demais, e assim escolhidas por ele na ilusão de que durariammais. Se conservava ainda a maior parte dos dentes do maxilar inferior, emcontrapartida perdera a maior parte dos superiores. O sorriso, que lhe erguia olábio superior, tornava-lhe a boca escura. Se se acrescentar a esse retrato umandar de seminarista, a arte de resvalar pelas paredes e de deslizar por entre asportas, um perfume de adega e de fumaça, todos os sinais da insignificância,reconhecer-se-á que só era possível imaginá-lo diante de uma mesa, revendo astarifas dos banhos de ducha da cidade ou reunindo, para um jovem redator, oselementos de um relatório sobre a nova taxa de lixo. Mesmo para um espíritodesavisado, ele parecia ter vindo ao mundo para exercer as funções, discretasmas indispensáveis, de auxiliar municipal temporário, a sessenta e dois francos etrinta centavos por dia. Era, na verdade, a menção que ele dizia constar das folhas de emprego,em seguida à palavra ”qualificação”. Quando, há vinte e dois anos, ao fim de uma


licenciatura além da qual, por falta de dinheiro, ele não pudera ir, aceitara esseemprego, haviam lhe dado a esperança, segundo ele, de uma ”efetivação rápida”.Tratava-se apenas de dar, durante algum tempo, provas de competência nasquestões delicadas que a administração da nossa cidade apresentava. Depois,tinham-lhe garantido, não poderia deixar de chegar ao lugar de redator que lhepermitiria viver comodamente. Certamente não era a ambição que fazia JosephGrand agir, segundo ele assegurava com um sorriso melancólico, e sim aperspectiva de uma vida material assegurada por meios honestos.Conseqúentemente, sorria-lhe a perspectiva de entregar-se sem remorsos às suasocupações favoritas. Se aceitara a oferta que lhe faziam, fora por motivos dignose, se assim se pode dizer, por fidelidade a um ideal. Havia muitos anos que esse estado de coisas provisório durava, o custode vida tinha aumentado em proporções desmedidas, e o ordenado de Grand,apesar de alguns aumentos gerais, era ainda irrisório. Tinha-se queixado a Rieux,mas ninguém parecia dar importância ao fato. É aqui que se mostra aoriginalidade de Grand ou, pelo menos, um dos seus sinais. Ele teria podido, comefeito, fazer valer, se não os direitos, de que não estava muito seguro, pelo menosas garantias que lhe tinham dado. Mas, em primeiro lugar, o chefe de rep irtiçãoque o tinha contratado morrera há muito tempo e o empregado municipal não selembrava tampouco dos termos exatos da promessa que lhe fora feita. Enfim,Joseph Grand não achava as palavras. Era essa particularidade que melhor retratava o nosso concidadão, comoRieux pôde observar. Era ela, na verdade, que o impedia sempre de escrever acarta de reclamação em que meditava ou de tomar as medidas que ascircunstâncias exigiam. A acreditar nele, sentia-se particularmente impedido deempregar a palavra ”direito” sobre a qual não estava seguro ou ”promessas”, queteria implicado exigências do que lhe era devido, e teria, por consequência, serevestido de um caráter de ousadia pouco compatível com a modéstia das funçõesque desempenhava. Por outro lado, recusava-se a empregar os termos”benevolência”, ”solicitar”, ”gratidão” que, no seu entender, não se coadunavamcom sua dignidade pessoal. Assim, por falta da palavra certa, nosso concidadãocontinuou a exercer suas obscuras funções até uma idade bastante avançada.Aliás, e sempre segundo o que ele dizia a Rieux, deu-se conta, com o hábito, deque, de qualquer maneira, sua vida material estava assegurada, já que lhebastava afinal adaptar suas necessidades aos seus recursos. Reconheceu, assim,o acerto de uma das frases prediletas do prefeito, grande industrial de nossacidade, que afirmava enfaticamente que afinal - e acentuava bem essa palavraque continha todo o peso do raciocínio - afinal, portanto, nunca se tinha vistoninguém morrer de fome. De qualquer forma, a vida quase ascética que JosephGrand levava, na verdade, finalmente o liberava de qualquer preocupação dessaordem. Continuava a procurar as palavras. Em certo sentido, pode-se dizer que sua vida era exemplar. Era umdesses homens, raros na nossa cidade, como em qualquer lugar, que têm semprea coragem de assumir seus bons sentimentos. O pouco que confidenciava davaprovas de bondade e dedicação que não se ousa confessar nos nossos dias.Admitia, sem ruborizar, que gostava dos sobrinhos e da irmã, únicos parentesque lhe restavam e que, todos os anos, visitava na França. Reconhecia que alembrança dos pais, mortos quando era ainda jovem, fazia com que sofresse. Nãose recusava a admitir que amava, acima de tudo, um certo sino do seu bairro quetocava suavemente por volta de cinco horas da tarde. Para evocar emoções tão


simples, contudo, a menor palavra custava-lhe mil esforços. Finalmente, essadificuldade tinha-se tornado sua maior preocupação. ”Ah, doutor”, dizia, ”gostariatanto de aprender a me expressar”. Falava disso a Rieux todas as vezes que oencontrava. Nessa noite, o médico, ao ver o funcionário municipal partir,compreendeu de repente o que Grand tentara dizer: sem dúvida, ele estavaescrevendo um livro ou algo semelhante. Já no laboratório, onde entrou por fim,isso tranqüilizara Rieux. Sabia que essa impressão era tola, mas não conseguiaacreditar que a peste se pudesse instalar verdadeiramente numa cidade ondepodiam encontrar-se funcionários modestos que cultivavam manias respeitáveis.Exatamente. Ele não imaginava um lugar para essas manias no meio da peste ejulgava que ela não tinha praticamente futuro entre nossos concidadãos. No dia seguinte, graças a uma insistência tida como fora de propósito,Rieux obtinha a convocação para a Prefeitura de uma comissão sanitária. - É verdade que a população se inquietava - reconhecera Richard. - Edepois os falatórios exageram tudo. O prefeito me disse: ”Vamos agir depressa sequiser, mas em silêncio”. Aliás, ele está convencido de que se trata de um alarmefalso. Bernard Rieux levou Gastei, no seu carro, à Prefeitura. - Sabe - disse-lhe - que o departamento não tem soro? - Sei. Telefonei para o depósito. O diretor caiu das nuvens. É precisomandar vir de Paris. - Espero que não demore. - Já telegrafei - respondeu Rieux. O prefeito estava amável, mas nervoso. - Comecemos, senhores. Querem que resuma a situação? Richard achava que era inútil. Os médicos conheciam a situação. Aquestão era apenas saber que medidas convinha tomar. - A questão - interveio brutalmente o velho Gastei - é saber se se trata depeste ou não. Dois ou três médicos se sobressaltaram. Os outros pareciam hesitar.Quanto ao prefeito, estremeceu e voltou-se automaticamente para a porta, comopara verificar se ela havia impedido aquela enormidade de se espalhar peloscorredores. Richard declarou que, em sua opinião, não se devia ceder ao pânico.Tratava-se de uma febre com complicações inguinais e era tudo o que se podiadizer, já que as hipóteses, na ciência como na vida, são sempre perigosas. O velhorestei, que mastigava tranqüilamente o bigode amarelecido, levantou os olhosclaros para Rieux. Depois dirigiu um olhar benevolente à plateia e declarou quesabia muito bem que era a peste, mas que, é claro, reconhecê-lo oficialmenteimplicaria medidas implacáveis. Ele sabia que era isso, no fundo, que fazia oscolegas recuarem e portanto estava disposto a admitir, para tranqüilidade deles,que não era a peste. O prefeito agitou-se e afirmou que, em todo caso, não erauma boa maneira de argumentar. - O importante - insistiu Gastei - não é que essa maneira de argumentarseja boa, mas que ela nos obrigue a refletir. Como Rieux se calasse, perguntaram-lhe a sua opinião. - Trata-se de uma febre de caráter tifóide, mas acompanhadas deabscessos e de vómitos. Fiz incisões nos abscessos. Pude, assim, provocaranálises em que o laboratório julga reconhecer o bacilo da peste. Para ser preciso,é necessário dizer, entretanto, que certas modificações específicas do micróbionão coincidem com a descrição clássica.


Richard ressaltou que isso justificaria hesitações e que seria precisoesperar, pelo menos, o resultado estatístico da série de análises que começara háalguns dias. - Quando um micróbio - disse Rieux, depois de um curto silêncio - écapaz, em três dias, de quadruplicar o volume do baço, de dar aos gângliosmesentéricos o volume de uma laranja e uma consistência de mingau, já nãopermite hesitações. Os focos de infecção encontram-se em extensão crescente.Pela rapidez com que a doença se propaga, se não for detida, pode matar metadeda população em menos de dois meses. Conseqúentemente, pouco importa quelhe dêem o nome de peste ou febre de crescimento. O essencial é apenas impedi-la de matar metade da cidade. Ríchard achava que era preciso não ver as coisas tão pretas e que, alémdisso, o contágio não estava provado, já que os parentes dos doentes estavamainda indenes. - Mas morreram outros - observou Rieux. - E, é preciso que se entenda, ocontágio nunca é absoluto. Senão, teríamos uma progressão matemática infinitae um despovoamento fulminante. Não se trata de ver as coisas pretas, trata-se detomar precauções. Entretanto, Richard pensava em resumir a situação, lembrando que, paradeter a doença, se ela não parasse por si só, seria necessário aplicar as gravesmedidas de profilaxia previstas na lei e que, para isso, seria necessário admitiroficialmente que se tratava da peste; como a certeza a esse respeito não eraabsoluta, isso exigia reflexão. - A questão - insistiu Rieux - não é saber se as medidas previstas em leisão graves, mas se são necessárias para impedir que metade da população morra.O resto é com as autoridades, e, justamente, nossas leis prevêem um prefeitopara resolver essas questões. - Sem dúvida - retrucou o prefeito -, mas preciso que os senhoresreconheçam oficialmente que se trata de uma epidemia de peste. - Se não o reconhecermos, ela pode, apesar de tudo, matar metade dacidade. Ríchard interveio com certo nervosismo. - A verdade é que nosso colega acredita na peste. Sua descrição dasíndrome o comprova. Rieux respondeu que não descrevera uma síndrome, tinha descrito o queobservara. E o que observara eram os furúnculos, as manchas, as febresdelirantes, fatais em quarenta e oito horas. Poderia o Dr. Richard assumir aresponsabilidade de afirmar que a epidemia se deteria sem medidas profiláticasrigorosas? Ríchard hesitou e olhou para Rieux: - Diga-me, sinceramente, o seu pensamento: tem certeza de que é apeste? - O problema está mal colocado. Não é uma questão de vocabulário, éuma questão de tempo. - A sua ideia - interveio o prefeito - seria que, mesmo que não se tratassede peste, deveriam adotar-se as medidas profiláticas indicadas em tempo depeste. - Se é absolutamente necessário que eu tenha uma ideia, é essa, comefeito. Os médicos consultaram-se, e Richard acabou por dizer:


- É preciso, portanto, que se assuma a responsabilidade de agir como se adoença fosse a peste. A fórmula foi calorosamente aprovada: - É também a sua opinião, meu caro colega? - perguntou Richard. - A fórmula me é indiferente - respondeu Rieux. - Digamos apenas que não devemos agir como se metade da cidade nãocorresse o risco de morrer, porque senão ela morrerá de fato. Em meio à irritação geral, Rieux partiu. Alguns momentos depois, nosubúrbio que cheirava a fritura e a urina, uma mulher, com gritos terríveis, asvirilhas ensanguentadas, voltava-se para ele. No dia seguinte ao da reunião, a febre deu mais um pequeno salto.Chegou até os jornais, se bem que de uma forma benigna, já que se contentaramem fazer algumas alusões. No outro dia, em todo caso, Rieux podia ler pequenoscartazes brancos que a Prefeitura mandara rapidamente colar nos lugares maisdiscretos da cidade. Era difícil tirar desses cartazes a prova de que as autoridadesencaravam a situação de frente. As medidas não eram draconianas, e pareciammuito submetidas ao desejo de não inquietar a opinião pública. O decreto dizia,na verdade, que tinham aparecido na comuna de Oran alguns casos de uma febreperniciosa que não se podia ainda caracterizar como contagiosa. Esses casos nãoeram bastante característicos para serem realmente inquietantes, e não haviadúvida de que a população saberia manter o sangue-frio. Contudo, e com umespírito de prudência que podia ser compreendido por todos, o prefeito tomavaalgumas medidas preventivas. Compreendidas e aplicadas como deviam sê-lo,essas medidas eram de natureza a debelar qualquer ameaça de epidemia.Conseqúentemente, o prefeito não duvidava por um só instante de que seusadministrados dariam a mais dedicada colaboração ao seu esforço pessoal. O cartaz anunciava, em seguida, medidas gerais, entre as quais umadesratização científica, por injeção de gases tóxicos nos esgotos, e uma vigilânciaestrita do íornenecirnento de água. Recomendava aos habitantes o asseio maisrigoroso e convidava, enfim, todos os que tinham pulgas a se apresentarem nosdispensários municipais. Por outro lado, as famílias deviam notificarobrigatoriamente os casos diagnosticados pelo médico e consentir no isolamentodos seus doentes em salas especiais do hospital. Aliás, essas salas estavamequipadas para tratar os doentes no mínimo de tempo e com o máximo deprobabilidade de cura. Alguns artigos suplementares submetiam à desinfecçãoobrigatória o quarto do doente e o veículo de transporte. Quanto ao resto, o editallimitava-se a recomendar aos parentes que se submetessem a uma vigilânciasanitária. O Dr. Rieux afastou-se rapidamente do cartaz e retomou o caminho doconsultório. Joseph Grand, que o esperava, levantou de novo os braços ao vê-lo. - Sim - disse Rieux -, eu sei, os números estão subindo. Na véspera, uma dezena de doentes havia sucumbido na cidade. Omédico disse a Grand que talvez se encontrassem à noite, pois ia visitar Cottard. - Tem razão - respondeu Grand. - Isso vai lhe fazer bem, pois eu o achomudado, - Como? - Tornou-se gentil. - Não era gentil antes? Grand hesitou. Não podia dizer que Cottard fosse indelicado, a expressãonão seria correta. Era um homem fechado e silencioso, com um jeito de javali. O


seu quarto, um restaurante modesto e saídas bastante misteriosas eram toda avida de Cottard. Oficialmente, era representante de vinhos e de licores. Uma vezou outra recebia a visita de dois ou três homens, que deviam ser clientes. Àsvezes, à noite, ia ao cinema que ficava em frente à casa. O empregado municipalchegara a notar que Cottard preferia os filmes de gângsteres. Em todas asocasiões o representante de vinhos mantinha-se solitário e desconfiado. Tudo isso, segundo Grand, mudara muito: - Não sei como dizê-lo, mas tenho a impressão de que procura reconciliar-se com as pessoas, que quer todos do seu lado. Fala sempre comigo, convida-mepara sair com ele e nem sempre consigo recusar. Aliás, ele me interessa e, enfim,salvei-lhe a vida. Desde a tentativa de suicídio, Cottard nunca mais recebera visitas. Nasruas, nas casas dos fornecedores, procurava conquistar todas as simpatias.Nunca empregara tanta suavidade ao falar com os merceeiros, tanto interesse emescutar a vendedora de tabaco. - Essa vendedora de tabaco - observava Grand é uma verdadeira víbora.Disse isso a Cottard, mas ele respondeu-me que eu estava enganado e que elapossuía o seu lado born; era preciso saber descobri-lo. Por duas ou três vezes, finalmente, Cottard tinha levado Grand aosrestaurantes e bares luxuosos da cidade. Tinha, com efeito, começado afrequentá-los. - A gente sente-se bem nesses lugares - dizia ele -, e, depois, a companhiaé boa. Grand tinha observado as atenções especiais que os empregadosdispensavam ao representante de vinhos e compreendeu a razão quando viu asgorjetas excessivas que ele deixava. Cottard parecia muito sensível àsamabilidades que recebia em troca. Num dia em que um maítre d’hôtel oacompanhara e ajudara a vestir o sobretudo, Cottard dissera a Grand: - É Jom sujeito, pode perguntar a ele. - Perguntar o quê? Cottard hesitara. - Bem, perguntar se eu sou má pessoa. Aliás, tinha um humor variável. Num dia em que o merceeiro se mostraramenos amável, voltara para casa em estado de furor desmedido. - Passou para o lado dos outros, esse crápula repetia. - Que outros? - Todos os outros. Grand chegara a assistir a uma cena curiosa com a vendedora de tabaco.No meio de uma conversa animada, ela falara de uma prisão recente quealvoroçava Argel. Tratavase de um jovem que matara um árabe numa praia. - Se metessem toda essa corja na prisão - dissera a vendedora -, aspessoas honestas poderiam respirar. Mas fora forçada a interromper-se, diante da agitação de Cottard, que seprecipitara para fora da tabacaria sem uma palavra de desculpa. Grand e aempregada, boquiabertos, viram-no fugir. Mais tarde, Grand devia também apontar a Rieux outras modificações nocaráter de Cottard. Este sempre tivera opiniões muito liberais. Sua frase favorita,”Os grandes sempre comem os pequenos”, provava-o bem. No entanto, já háalgum tempo comprava apenas o jornal conservador de Oran, e era impossívelnão acreditar que ele até se dava ao trabalho de ostentar, de certa forma, sualeitura nos lugares públicos.


Da mesma forma, alguns dias depois de ter-se levantado, pedira a Grand,que ia ao correio, para lhe fazer o favor de expedir um vale postal de cem francosque enviava mensalmente a uma irmã. Porém, no momento em que Grand saía,pedira-lhe: - Mande-lhe duzentos. Será uma boa surpresa. Minha irmã acha quenunca penso nela. Mas a verdade é que a estimo muito. Finalmente, tivera com Grand uma curiosa conversa. Este fora obrigado aresponder às perguntas de Cottard, intrigado pelo trabalho a que Grand seentregava todas as noites. - Bom - dissera Cottard -, você está escrevendo um livro. - Como queira, mas é mais complicado do que isso! - Ah! - exclamara Cottard. - Gostaria de fazer o mesmo. Grand mostrara-se surpreso e Cottard balbuciara que ser artista deviaresolver muitas coisas. - Por quê? - perguntara Grand. - Ora, porque um artista tem mais direitos que os outros, todos sabemdisso. Perdoam-lhe mais coisas. - Ora, simplesmente - disse Rieux a Grand na manhã dos cartazes -, ahistória dos ratos virou-lhe a cabeça, como a de muitos outros. Ou, então, ele temmedo da febre. - Não acho, doutor - respondeu Grand. - Se quer minha opinião. . . O carro da desratização passou por baixo da janela com um grande ruídodo cano de escapamento. Rieux calou-se até que fosse possível fazer-se ouvir epediu distraidamente a opinião do funcionário municipal. Este olhava-o comgravidade. - É um homem - disse - que tem qualquer coisa na consciência. O médico deu de ombros. Como dizia o comissário, tinha mais o quefazer. À tarde, Rieux teve uma reunião com Gastei. O soro ainda não tinhachegado. - De resto - perguntava Rieux -, será útil? Este bacilo é estranho. - Oh! - respondeu Gastei. - Não concordo. Estes animais têm sempre umar de originalidade. Mas, no fundo, é a mesma coisa. - Você, pelo menos, assim o supõe. Na realidade, nada sabemos. - Claro que suponho. Mas não só eu, a suposição é geral Durante todo o dia, o médico sentiu aumentar a pequena vertigem que oatacava a cada vez que pensava na peste. Finalmente, reconheceu que tinhamedo. Entrou por duas vezes em bares cheios de gente. Também ele, comoCottard, sentia necessidade de calor humano. Rieux achava aquilo idiota, masisso o ajudou a lembrar-se de que prometera uma visita ao representante devinhos. À noite, o médico encontrou Cottard diante da mesa da sala de jantar.Quando entrou, via-se em cima da mesa um romance policial aberto. Mas a tardejá estava adiantada e devia ser difícil ler na obscuridade nascente. Era maisprovável que Cottard, um minuto antes, estivesse sentado na penumbra,pensando. Rieux perguntou-lhe como ia. Cottard, sentando-se, resmungou que iabem, e que iria ainda melhor se pudesse ter certeza de que ninguém sepreocupava com ele. Rieux observou que não se podia ficar sempre só. - Oh, não é isso, mas falo das pessoas que se ocupam em nos trazerproblemas.


Rieux continuou calado. - Não é o meu caso, note bem. Mas estava lendo este romance. Aí está umdesgraçado que é preso de repente, numa certa manhã. Ocupavam-se dele e elenada sabia. Falavam dele nas repartições, escreviam-lhe o nome em fichas. Achaque é justo? Acha que se tem direito de fazer isso a um homem? - Depende - disse Rieux. - Em certo sentido, nunca se tem esse direito, naverdade. Mas tudo isso é secundário. Não se deve ficar muito tempo fechado emcasa. O senhor precisa sair. Cottard pareceu irritar-se e respondeu que não fazia outra coisa, que todoo bairro podia testemunhá-lo, se fosse necessário. Mesmo fora do bairro, não lhefaltavam conhecidos. - Conhece Rigaud, o arquiteto? É um dos meus amigos. A penumbra aumentava na sala. A rua animava-se, e uma exclamaçãosurda e de alívio saudou lá fora o instante em que as luzes se acenderam. Ríeuxfoi até a varanda e Cottard o seguiu. De todos os bairros em redor, como emtodas as noites na nossa cidade, uma brisa ligeira trazia murmúrios, cheiros decarne grelhada, o zumbido alegre e perfumado da liberdade que enchia pouco apouco a rua, invadida por uma mocidade ruidosa. À noite, os grandes gritos dosbarcos invisíveis, o rumor que subia do mar e da multidão que passava, esta horaque Rieux conhecia tão bem e de que gostara outrora, parecia-lhe hoje opressivapor causa de tudo o que sabia. - Podemos acender a luz? - perguntou a Cottard. Acesa a luz, ohomenzinho olhou-o piscando os olhos. - Diga-me, doutor: se eu adoecesse, aceitar-me-ia no seu serviço dohospital? - Por que não? Cottard perguntou, então, se já ocorrera de prenderem alguém que seencontrasse numa clínica ou num hospital. Rieux respondeu que sim, mas quetudo dependia do estado do enfermo. - Eu - disse Cottard - tenho confiança no senhor. Depois perguntou aomédico se podia levá-lo para a cidade no seu automóvel. No centro da cidade, as ruas já estavam menos povoadas e as luzes, maisraras. Crianças brincavam ainda diante das portas. Quando Cottard pediu, omédico parou o carro diante de um grupo de crianças. Aos gritos, jogavamamarelinha. Mas um garoto, de cabelos pretos e lisos, traços perfeitos e rostosujo, fixava Rieux com os olhos claros e ameaçadores. O médico desviou o olhar.Cottard, de pé na calçada, apertava-lhe a mão. O representante de vinhos falavanuma voz rouca e difícil. Duas ou três vezes olhou para trás. - Fala-se em epidemia, doutor. É verdade? - As pessoas falam sempre, é natural - respondeu Rieux. - Tem razão. E depois, quando tivermos uma dezena de mortos, vai ser ofim do mundo. Não era disso que precisávamos. O motor já roncava. Rieux tinha o pé no acelerador, mas olhava de novopara a criança que não deixara de fitá-lo com o olhar grave e tranqüilo. E derepente, sem transição, a criança lhe sorriu, mostrando todos os dentes. - Então, de que estamos precisando? - perguntou o médico, sorrindo paraa criança. Cottard agarrou o portão e, antes de se afastar, gritou, com uma vozcheia de lágrimas e de furor: - De um terremoto. Um verdadeiro!


Não houve terremoto, e para Rieux o dia seguinte passou-sesimplesmente em longas corridas aos quatro cantos da cidade, em conversas comas famílias dos doentes e em discussões com os próprios doentes. Nunca Rieuxachara sua profissão tão pesada. Até então os doentes facilitavam-lhe o trabalho,entregando-se a ele. Pela primeira vez, o médico sentia-os reticentes, refugiadosno fundo da sua doença, com uma espécie de espanto desconfiado. Era uma lutaa que ainda não estava habituado. E por volta das dez da noite, com o carroparado diante da casa do velho asmático, que ele visitava por último, Rieux sentiadificuldade em se levantar do assento. Demorava-se a contemplar a rua escura eas estrelas que apareciam e desapareciam no céu negro. O velho asmático estavasentado na cama. Parecia respirar melhor e contava os grãos-de-bico, de umapanela para a outra. Recebeu o médico com um ar Fitisfeito. - Então, doutor, é cólera? - Que história é essa? - Li no jornal. E o rádio disse também. - Não, não é cólera. - De qualquer maneira - disse o velho, muito excitado -, como falam, hem! - Não acredite nisso - respondeu o médico. Examinara o velho e agoraestava sentado no meio daquela sala de jantar miserável. Sim, tinha medo. Sabiaque no próprio subúrbio uma dezena de doentes o esperariam no dia seguinte,curvados sobre seus furúnculos. Apenas em dois ou três casos a incisãoprovocara uma melhora. Para a maioria, porém, seria o hospital e ele sabia o queisso significava para os pobres. ”Não quero que ele sirva para as experiênciasdeles”, dissera-lhe a mulher de um dos seus doentes. Não serviria para asexperiências deles. Morreria, nada mais. Era evidente que as medidas decretadaseram insuficientes. Quanto às salas ”especialmente equipadas”, sabia bem do quese tratava: dois pavilhões apressadamente evacuados dos seus outros doentes,com as janelas calafetadas, um cordão sanitário ao redor. Se a epidemia nãoparasse por si própria, não seria vencida pelas medidas que a administraçãotinha imaginado. Entretanto, à noite, os comunicados oficiais continuavam otimistas. No dia seguinte, a Agência Ransdoc anunciava que as medidas daprefeitura haviam sido acolhidas com serenidade e que já uns trinta doentes setinham notificado. Gastei telefonara a Rieux: - Quantos leitos tem o pavilhão? - Oitenta. - Certamente, há mais de trinta doentes na cidade. - Há os que têm medo e os outros, mais numerosos, os que não tiveramtempo. - Os funerais não são fiscalizados? - Não. Telefonei a Richard para lhe dizer que eram necessárias medidascompletas, não frases, e que ou era preciso erguer contra a epidemia umaverdadeira barreira, ou absolutamente nada. - E então? - Respondeu-me que não tinha poderes. Em minha opinião, a coisa vaiaumentar. Em três dias, na verdade, os dois pavilhões ficaram cheios. Richardjulgava que iam desativar uma escola e um hospital auxiliar. Rieux aguardava asvacinas e abria os tumores. Gastei voltava aos seus velhos livros e fazia longosestágios na biblioteca.


- Os ratos morreram da peste ou de qualquer coisa muito parecida -concluía ele. - Puseram em circulação dezenas de milhares de pulgas que irãotransmitir a infecção segundo uma progressão geométrica, se não conseguirmosdetê-la a tempo. Rieux calava-se. Por essa época, o tempo pareceu estabilizar-se. O sol enxugava as poçasdos últimos temporais. Um céu azul, transbordante de luz amarela, roncos deaviões no calor nascente, tudo na estação convidava à serenidade. Em quatrodias, no entanto, a febre deu quatro saltos surpreendentes: dezesseis mortos,vinte e quatro, vinte e oito, trinta e dois. No quarto dia, anunciou-se a aberturado hospital auxiliar numa escola maternal. Nossos concidadãos, que até entãotinham continuado a disfarçar sua inquietação com gracejos, pareciam, nas ruas,mais abatidos e mais silenciosos. Rieux decidiu telefonar para o prefeito. - As medidas são insuficientes. - Estou com os números - respondeu -, na verdade, são ínquietantes. - São mais que Ínquietantes. São claros. - vou pedir ordens ao governo-geral. Rieux desligou, diante de Gastei. - Ordens! O que falta é imaginação. - E o soro? - Chega esta semana. A prefeitura, por intermédio de Richard, pediu a Rieux um relatóriodestinado à capital da colónia, para solicitar ordens. Rieux fez uma descriçãoclínica e colocou números. No mesmo dia, contaram-se cerca de quarenta mortos.O prefeito assumiu a responsabilidade, como ele dizia, de intensificar a partir dodia seguinte as medidas prescritas. A notificação compulsória e o isolamentoforam mantidos. As casas dos doentes deviam ser fechadas e desínfetadas, os queos rodeavam, submetidos a uma quarentena de segurança, os enterros,organizados pela cidade nas condições que veremos a seguir. Um dia depois, osoro chegava por avião. Era suficiente para os casos em tratamento. Erainsuficiente se a epidemia viesse a se alastrar. Responderam ao telegrama deRieux que o estoque de reserva estava esgotado e que estava sen^-b iniciada novaprodução. Durante esse tempo, de todos os subúrbios, a primavera chegava aosmercados. Milhares de rosas murchavam nas cestas dos vendedores, ao longodas calçadas, e seu perfume adocicado flutuava por toda a cidade.Aparentemente, nada mudara. Os bondes continuavam sempre cheios nas horasde afluência, vazios e sujos o resto do dia. Tarrou observava o velhinho, e esteescarrava nos gatos. Grand se recolhia em casa todas as noites para seumisterioso trabalho. Cottard vagueava sem destino e o Sr. Othon, o juiz deinstrução, continuava a passear com seus animais. O velho asmático despejavaos grãos-de-bico de um recipiente para o outro, e, por vezes, encontrava-se ojornalista Rambert com um ar tranqüilo e interessado. À noite, a mesma multidãoenchia as ruas e as filas estendiam-se diante dos cinemas. Aliás, a epidemiapareceu recuar, e durante alguns dias contou-se apenas uma dezena de mortos.Depois, de repente, subiu de modo vertiginoso. No dia em que o número dosmortos atingiu de novo trinta, Bernard Rieux olhava o telegrama oficial que oprefeito lhe estendera, exclamando: ”Estão com medo!” O telegrama dizia:”Declarem estado de peste. Fechem a cidade”.


II A partir desse momento, pode-se dizer que a peste se tornou umproblema comum a todos nós. Até então, apesar da surpresa e da inquietaçãotrazidas por esses acontecimentos singulares, cada um de nossos concidadãoscontinuara suas ocupações conforme pudera, no seu lugar habitual. E, semdúvida, isso devia continuar. No entanto, uma vez fechadas as portas, deu-seconta de que estavam todos, até o próprio narrador, metidos no mesmo barco eque era necessário ajeitar-se. Assim é, por exemplo, que, a partir das primeirassemanas, um sentimento tão individual quanto o da separação de um entequerido se tornou, subitamente, o de todo um povo e, juntamente com o medo, oprincipal sofrimento desse longo tempo de exílio. Na verdade, uma das consequências mais importantes do fechamento dasportas foi a súbita separação em que foram colocados seres que para isso nãoestavam preparados. Mães e filhos, esposos, amantes que tinham julgadoproceder, alguns dias antes, a uma separação temporária, que se tinham beijadona plataforma da nossa estação, com duas ou três recomendações, certos de sereverem dentro de alguns dias ou algumas semanas, mergulhados na estúpidaconfiança humana, momentaneamente distraídos de suas ocupações habituaispor essa partida, viram-se, de repente, irremediavelmente afastados, impedidosde se encontrarem ou de se comunicarem. Sim, porque as portas tinham sidofechadas algumas horas antes de ser publicado o decreto do prefeito e,naturalmente, era impossível levar em conta os casos particulares. Pode dizer-seque essa invasão brutal da doença teve, como primeiro efeito, o de obrigar nossosconcidadãos a agir como se não tivessem sentimentos individuais. Nas primeirashoras do dia em que o decreto entrou em vigor, a prefeitura foi invadida por umamultidão de requerentes que, ao telefone ou junto aos funcionários, expunhamsituações igualmente interessantes e, ao mesmo tempo, igualmente impossíveisde examinar. A bem da verdade, foram necessários vários dias para que nosdéssemos conta de que nos encontrávamos numa situação sem compromissos eque as palavras ”transigir”, ”favor”, ”exceção” já não tinham sentido. Até mesmo a leve satisfação de escrever nos foi recusada. Por um lado,com efeito, a cidade já não estava ligada ao resto do país pelos meios decomunicação habituais e, por outro, um novo decreto proibiu a troca de qualquercorrespondência, a fim de evitar que as cartas pudessem transformar-se emveículos de infecção. A princípio, alguns privilegiados puderam chegar às portasda cidade e entender-se com sentinelas dos postos de guarda que concordaramem facilitar a passagem de mensagens para o exterior. Isso era ainda nosprimeiros dias da epidemia, em que os guardas achavam natural ceder asentimentos de compaixão. No entanto, ao fim de algum tempo, quando ospróprios guardas se convenceram realmente da gravidade da situação,recusaram-se a assumir responsabilidades cuja extensão não podiam prever. Ascomunicações telefónicas interurbanas, autorizadas a princípio, provocaram talcongestionamento nas cabines públicas e nas linhas, ;ue foram totalmentesuspensas durante alguns dias e, depois, estritamente limitadas aos chamadoscasos urgentes, como morte, nascimento e casamento. Os telegramas tornaram-se, então, nosso único recurso. Seres ligados pela inteligência, pelo coração e pelacarne ficaram reduzidos a procurar os sinais dessa comunhão antiga nasmaiúsculas de um telegrama de dez palavras. E como, na realidade, as fórmulasque se podem utilizar num telegrama se esgotam depressa, longas vidas em


comum ou paixões dolorosas resumiram-se rapidamente numa troca periódica defórmulas feitas como ”Estou bem. Penso em ti. Saudades”. Alguns, contudo, obstinavam-se em escrever e, sem trégua, para secorresponder com o exterior, imaginavam estratagemas que acabavam semprepor se revelar ilusórios. Mesmo quando alguns dos meios que tínhamosimaginado obtinham êxito, ficávamos sem sabê-lo, por não recebermos qualquerresposta. Durante semanas ficamos, então, reduzidos a recomeçar sempre amesma carta, a copiar as mesmas informações e os mesmos apelos, se bem que,depois de um certo tempo, as palavras de sangue, ditadas pelo coração, perdiamo seu sentido. Então, nós as copiávamos maquinalmente, tentando, por meiodessas frases mortais, dar sinais de nossa vida difícil. E, finalmente, a essemonólogo estéril e teimoso, a essa conversa árida com uma parede, o apeloconvencional do telegrama parecia-nos preferível. Aliás, alguns dias depois, quando se tornou evidente que ninguémconseguiria sair da cidade, alguém teve a ideia de perguntar se o regresso dos quehaviam partido antes da epidemia podia ser autorizado. Depois de alguns dias dereflexão, a prefeitura respondeu afirmativamente. Mas logo estabeleceu que osrepatriados não poderiam, em caso algum, voltar a sair da cidade e que, se eramlivres para vir, não o seriam para tornar a partir. Algumas famílias, poucas aliás,não levaram a situação a sério e, sobrepondo a qualquer prudência o desejo derever os parentes, convidaram estes últimos a aproveitar a ocasião. No entanto,os prisioneiros da peste logo compreenderam o perigo a que expunham osparentes e resignaram-se a sofrer a separação. No momento mais grave dadoença, só se viu um caso em que os sentimentos humanos foram mais fortesque o medo de uma morte torturada. Ao contrário do que se poderia esperar, nãoeram dois amantes, que o amor atirava um para o outro, acima do sofrimento.Tratava-se apenas do velho Dr. Gastei e de sua mulher, casados há tantos anos.Alguns dias antes da epidemia, Mme Gastei dirigira-se a uma cidade vizinha. Nãoeram sequer um desses casais que oferecem ao mundo o exemplo de umafelicidade invejável, e o narrador está em condições de dizer que, segundo todasas probabilidades, esses esposos, até então, não tinham a certeza de estaremsatisfeitos com a sua união. Mas essa separação brutal e prolongada oscapacitara a afirmar que não conseguiam viver afastados um do outro e que,diante dessa verdade subitamente revelada, a peste era coisa sem importância. Tratava-se de uma exceção. Na maioria dos casos, era evidente que aseparação não devia cessar senão com a epidemia. E, para todos nós, osentimento que fazia a nossa vida e que, no entanto, julgávamos conhecer bem(os naturais de Oran, como já foi dito, têm paixões simples), assumia um novoaspecto. Maridos e amantes que tinham a maior confiança nas companheirasrevelavam-se ciumentos. Homens que se julgavam volúveis no amorredescobriam-se constantes. Filhos que tinham vivido junto da mãe, mal olhandopara ela, depositavam toda a preocupação e angústia numa ruga de seu rosto quelhe povoava a lembrança. Essa separação brutal, sem meio-termo, sem futuroprevisível, deixava-nos perturbados, incapazes de reagir contra a lembrançadessa presença, ainda tão próxima e já tão distante, que ocupava agora nossosdias. Na verdade, sofríamos duas vezes: o nosso sofrimento, em primeiro lugar, eem seguida, sofrimento que atribuíamos aos ausentes: filho, esposa ou amante. Em outras circunstâncias, aliás, nossos concidadãos teriam encontradouma solução numa vida mais exterior ou mais ativa. Mas, ao mesmo tempo, apeste deixava-os ociosos, reduzidos a vagar sem destino pela cidade triste e


entregues, dia após dia, aos jogos enganosos da recordação, pois, nos seuspasseios sem rumo, eram levados a passar sempre pelos mesmos caminhos e amaior parte das vezes, numa cidade tão pequena, os caminhos eramprecisamente os que, em outra época, haviam percorrido com o ausente. Assim, a primeira coisa que a neste trouxe a nossos concidadãos foi oexílio. E o narrador está convencido de que pode escrever aqui, em nome detodos, o que ele próprio sentiu então, já que o sentiu ao mesmo tempo que muitosdos nossos concidadãos. Sim, era realmente o sentimento do exílio esse vazio quetrazíamos constantemente em nós, essa emoção precisa, o desejo irracional devoltar atrás ou, pelo contrário, de acelerar a marcha do tempo, essas flechasardentes da ’memória. Se algumas vezes dávamos asas à imaginação e noscomprazíamos em esperar pelo toque de campainha que anuncia o regresso, oupelos passos familiares na escada; se, nesses momentos, consentíamos emesquecer que os trens estavam imobilizados, se nos organizávamos para ficar emcasa à hora em que normalmente um viajante podia ser trazido pelo expresso datarde até nosso bairro, esses jogos obviamente podiam durar. Chegava sempreum momento em que nos dávamos conta claramente de que os trens nãochegavam. Sabíamos, então, que nossa separação estava destinada a durar e quedevíamos tentar entender-nos com o tempo. A partir de então, nosreintegrávamos, afinal, à nossa condição de prisioneiros, estávamos reduzidos aonosso passado e, ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logorenunciava, ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aosque nela confiam. Em particular, todos os nossos concidadãos se privaram muito depressa,mesmo em público, do hábito que porventura tivessem adquirido de calcular oprazo da sua separação. Por quê? É que, quando os mais pessimistas o tinhamavaliado, por exemplo, em seis meses, quando haviam esgotado antecipadamentetoda a amargura dos meses vindouros, e erguido, com grande esforço, a suacoragem ao nível dessa prova, reunindo as últimas forças para continuar semvacilar à altura desse sofrimento, estirado numa tão longa sequência de’dias,então, às vezes, um conhecido, um anúncio de jornal, uma suspeita fugaz ouuma brusca clarividência despertava a ideia de que, afinal, não havia razão paraque a doença não durasse mais de seis meses, talvez um ano, ou mais. Nesse momento, o desmoronar da coragem, da vontade e da paciência eratão brusco, que lhes parecia que não poderiam jamais sair desse precipício.Então, restringiam-se a não pensar mais na libertação, a não se voltar para ofuturo e a manter sempre, por assim dizer, os olhos baixos. Mas, naturalmente,essa prudência, essa maneira de enganar a dor, baixar a guarda para recusar ocombate, eram mal recompensadas. Ao mesmo tempo em que evitavam essedesmoronamento que não queriam por preço algum, privavam-se, na verdade,dos momentos bastante frequentes em que podiam esquecer a peste nas imagensde seu futuro reencontro. E assim encalhados a meia distância entre essesabismos e esses cumes, mais flutuavam que viviam, abandonados a dias semrumo e recordações estéreis, sombras errantes, incapazes de se fortalecer a nãoser aceitando enraizar-se na terra de sua própria dor. Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros ede todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada.Esse próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto doarrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quantolamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela


que esperavam - assim como misturavam o ausente a todas as circunstâncias de suavida de prisioneiros, mesmo as relativamente felizes, e o resultado não podiasatisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados dofuturo, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódiohumano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar aessas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento ostrens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que, noentanto, se obstinava no silêncio. Mas, se havia exílio, na maior parte dos casos era o exílio em casa. E,embora o narrador só tenha conhecido o exílio de todos, não deve esqueceraqueles, como o jornalista Rambert ou outros, para quem, pelo contrário, asagruras da separação se intensificam, porque viajantes surpreendidos pela pestee retidos na cidade se encontravam afastados, ao mesmo tempo, do ente a quenão podiam juntar-se e de seu próprio país. No exílio geral, eram os maisexilados, pois se o tempo despertava neles, como em todos, a angústia que lhe éprópria, estavam também presos ao espaço e chocavam-se sem cessar deencontro aos muros que separavam o seu refúgio empestado da pátria perdida.Eram esses, sem dúvida, que víamos vagando a todas as horas do dia pela cidadepoeirenta, chamando em silêncio pelas noites que só eles conheciam e pelasmanhãs de seu país. Alimentavam então a sua dor com sinais imponderáveis emensagens desconcertantes, como um voo de andorinha, um orvalho de poenteou os estranhos raios que o sol às vezes abandona nas ruas desertas. Fechavamos olhos sobre esse mundo exterior que pode sempre salvar de tudo, obstinadosem acariciar suas quimeras demasiado reais e, em perseguir com todas as forçasas imagens de uma terra em que uma certa luz, duas ou três colinas, a árvorefavorita e rosto de mulheres .compunham um ambiente para eles insubstituível. Afinal, falemos mais expressamente dos amantes: são os de mdiorinteresse e deles o narrador está talvez mais habilitado a falar. Encontravam-seeles ainda atormentados por outras angústias, entre as quais é preciso assinalaro remorso. Essa situação, na verdade, permitia-lhes analisar o seu sentimentocom uma espécie de objetivídade febril. E era raro que nessas ocasiões suaspróprias fraquezas não lhes aparecessem mais claramente. A primeira ocasiãoque encontravam para isso estava na dificuldade que tinham em imaginar comprecisão os atos e os gestos do ausente. Lamentavam o desconhecimento de comoempregava o seu tempo, acusavam-se de seu descuido em informar-se disso e decomo haviam fingido acreditar que, para um ser que ama, o emprego do tempo doser amado não é a fonte de todas as alegrias. Era-lhes fácil, a partir dessemomento, recordar o seu amor e examinar-lhe as imperfeições. Em épocasnormais, sabíamos todos, conscientemente ou não, que não há amor que não sepossa superar e aceitávamos, no entanto, com maior ou menor tranqüilidade, queo nosso permanecesse medíocre. Mas a recordação é mais exigente. E, muitologicamente, essa desgraça que nos vinha do exterior e que atingia toda umacidade não nos trazia apenas um sofrimento injusto, com que teríamos podidoindignar-nos: levava-nos a incitar mais sofrimentos em nós mesmos, fazendonos,assim, consentir na dor. Essa era uma das maneiras que a doença tinha dedesviar a atenção e de baralhar as cartas. Assim, cada um teve de aceitar viver o dia-a-dia, só, diante do céu. Esseabandono geral que podia, com o tempo, fortalecer o caráter, começava noentanto por torná-lo fútil. Para alguns de nossos concidadãos, por exemplo, eles


eram ’então submetidos a uma outra servidão que os punha a serviço do sol e dachuva. Ao vê-los, parecia que recebiam pela primeira vez, diretamente, aimpressão do tempo que fazia. Suas fisionomias alegravam-se à simples visita deuma luz dourada, enquanto os dias de chuva lhes punham um véu espesso sobreo rosto e os pensamentos. Haviam escapado há algumas semanas dessa fraquezae dessa escravidão absurdas porque não estavam sós diante do mundo e porque,numa certa medida, o ser que vivia com eles se colocava diante do seu universo.A partir desse instante, pelo contrário, ficaram aparentemente entregues aoscaprichos do céu, o que significa que sofreram e esperaram sem razão. Enfim, nesses extremos da solidão ninguém podia contar com o auxílio dovizinho, e cada um ficava só com sua preocupação. Se alguém, por acaso, tentavafazer confidências ou dizer alguma coisa do seu sentimento, a resposta querecebia, qualquer que fosse, magoava na maior parte das vezes. Compreendiaentão que ele e o interlocutor não falavam da mesma coisa. com efeito, ele seexprimia do fundo de longos dias de ruminação e de sofrimentos, e a imagem quequeria transmitir ardera muito tempo no fogo da espera e da paixão. O outro, pelocontrário, imaginava uma emoção convencional, a dor que se vende nosmercados, uma melancolia em série. Amável ou hostil, a resposta caía sempre novazio, era preciso renunciar a ela. Ou, pelo menos, para aqueles a quem o silêncioera insuportável, já que os outros não conseguiam encontrar a verdadeiralinguagem do coração, resignavam-se a adotar a língua dos mercados e a falar,também eles, de maneira convencional, a do simples relato e do noticiário, dacrónica cotidiana, de certo modo. Ainda nesse caso, as dores mais verdadeirasadquiriram o hábito de se traduzir em fórmulas banais de conversação. Só poresse preço podiam os prisioneiros da peste obter a compaixão dos porteiros ou ointeresse dos ouvintes. Entretanto, e o que é mais importante, por mais dolorosas que fossemessas angústias, por mais pesado que estivesse esse coração, apesar de vazio,pode-se dizer efetivamente que esses exilados, no primeiro período da peste,foram privilegiados. Na verdade, no próprio momento em que a populaçãocomeçava a afligir-se, seu pensamento estava inteiramente voltado para o ser queesperavam. No desespero geral, o egoísmo do amor os preservava e, se pensavamna peste, era apenas na medida em que ela trazia à sua separação o risco de setornar eterna. Tinham, no meio da epidemia, uma distração salutar que se eratentado a considerar como sangue-frio. O desespero salvava-os do pânico, haviaalgo de bom na sua desgraça. Por exemplo, se acontecia que um deles fosselevado pela doença, era quase sempre sem que tivesse tido tempo de se precavercontra isso. Arrancado a essa longa conversa interior que mantinha com umasombra, era então lançado, sem transição, para o mais espesso silêncio da terra.Não tivera tempo para nada. Enquanto nossos concidadãos tentavam acomodar-se a esse súbito exílio,a peste colocava guardas às portas e desviava os navios que faziam rota paraOran. Depois do fechamento das portas, nem um único veículo entrara na cidade.A partir desse dia, teve-se a impressão de que os automóveis andavam sempre emcírculos. O porto apresentava também um aspecto singular para aqueles que oolhavam do alto das avenidas. A animação habitual que o tornava um dosprimeiros portos da costa extinguira-se bruscamente. Viam-se ainda algunsnavios, mantidos em quarentena. Mas nos cais, grandes guindastes desarmados,pequenos vagões deitados de lado, as pilhas solitárias de barris ou de sacostestemunhavam que também o comércio tinha morrido de peste.


Apesar desses espetáculos inéditos, parece que nossos concidadãostinham dificuldade em compreender o que lhes acontecia. Havia os sentimentoscomuns, como a separação ou o medo, mas continuavam a colocar em primeiroplano as preocupações pessoais. Ninguém aceitara ainda verdadeiramente adoença. A maior parte era sobretudo sensível ao que perturbava seus hábitos ouatingia seus interesses. Impacientavam-se, irritavam-se, e esses não sãosentimentos que se possam contrapor à peste. A primeira reação, por exemplo,era culpar as autoridades. A resposta do prefeito, diante das críticas de que aimprensa se fazia eco - ”Não se poderiam propor medidas mais flexíveis que asadotadas?” - foi bastante imprevista. Até então nem os jornais nem a AgênciaRansdoc tinham recebido qualquer estatística oficial sobre a doença. O prefeitopassou a comunicá-la, diariamente, à agência, pedindo-lhe a publicação de umanota semanal. Mesmo nesse caso, contudo, a reação do público não foi imediata. Naverdade, o anúncio de que a terceira semana de peste somava trezentos e doismortos não falava à imaginação. Por um lado, talvez nem todos tivessem morridode peste. Por outro lado, ninguém na cidade sabia quantas pessoas morriam porsemana em tempos normais. A cidade tinha duzentos mil habitantes. Ignorava-sese essa proporção de óbitos era normal. É esse o género de detalhes com quenunca nos preocupamos, apesar do interesse evidente que apresentam. Aopúblico faltavam, de algum modo, pontos de referenciai Foi só com o tempo, aoconstatar o aumento das mortes, que a opinião pública tomou consciência daverdade. com efeito, a quinta semana deu trezentos e vinte e um mortos e a sexta,trezentos e quarenta e cinco. O aumento, pelo menos, era eloquente. Mas não erabastante forte para impedir que nossos concidadãos, em meio à sua inquietação,tivessem a impressão de que se tratava de um acidente, sem dúvidadesagradável, mas, apesar de tudo, temporário. Continuavam assim a circular nas ruas e a sentar-se às mesas dos cafés.No conjunto, não eram covardes, trocavam mais gracejos que lamúrias eaparentavam aceitar com bom humor inconvenientes evidentemente passageiros.As aparências estavam salvas. No fim do mês, no entanto, mais ou menosdurante a semana de preces de que se falará mais adiante, transformações maisgraves modificaram o aspecto da nossa cidade. Para começar, o prefeito tomoumedidas relativas à circulação dos veículos e ao abastecimento. Este foi limitado ea gasolina, racionada. Prescreveu-se até a economia de eletricidade. Só osprodutos indispensáveis chegavam por terra e pelo ar a Oran. Foi assim que seviu o trânsito diminuir progressivamente, até ficar quase nulo, as lojas de luxofecharem de um dia para o outro, outras guarnecerem as vitrines com cartazesnegativos, enquanto filas de compradores se formavam diante de suas portas. Oran assumiu assim um aspecto singular. O número de pedestrestornou-se mais considerável e, até nas horas mortas, muitas pessoas, reduzidas àinação pelo fechamento dos armazéns ou de certos escritórios, enchiam as ruas eos cafés. Por ora, não estavam ainda desempregadas, mas de licença. Oran davaentão, por volta das três horas da tarde, por exemplo, e sob um belo céu, aimpressão ilusória de uma cidade em festa, cujo trânsito e comércio tivessem sidofechados para permitir a realização de uma manifestação pública e cujoshabitantes tivessem invadido as ruas para participar do regozijo. Naturalmente, os cinemas se aproveitavam dessas férias generalizadas efaziam um bom negócio. Mas os circuitos que os filmes cumpriam normalmenteeram interrompidos. Ao fim de duas semanas, os cinemas foram obrigados a


trocar os programas e, algum tempo depois, acabavam projetando sempre omesmo filme. Suas receitas contudo não diminuíam. Finalmente os cafés, graças ao considerável estoque a :umulado numacidade onde o comércio de vinhos e álcool ocupa o primeiro lugar, puderamigualmente servir os clientes. A bem da verdade, bebia-se muito. Como um cafétivesse anunciado que ”quem vinho bebe, mata a febre”, a ideia, já natural nopúblico, de que o álcool evitava doenças infecciosas reforçou-se na opinião geral.Todas as noites, por volta de dez horas, um número considerável de bêbadosexpulsos dos cafés enchia as ruas, espalhando afirmações otimistas. Todas essas modificações porém, em certo sentido, eram tãoextraordinárias e tinham-se realizado tão rapidamente, que não era fácilconsiderá-las normais e duradouras. O resultado era que continuávamos acolocar em primeiro lugar nossos sentimentos pessoais. Ao sair do hospital, dois dias depois de fechadas as portas, o Dr. Rieuxencontrou Cottard, que levantou para ele um rosto que era a própria imagem dasatisfação. Rieux felicitou-o pela aparência. - Sim, as coisas vão muito bem - respondeu o homenzinho. - Diga-me,doutor, e essa maldita peste, hem? A coisa está começando a ficar séria. O médico concordou. E o outro acrescentou, com uma espécie de prazer: - Agora não há razão para que ela pare. Vai ficar tudo de pernas para oar. Caminharam um momento juntos. Cottard contou que um grandemerceeiro do seu bairro armazenara géneros alimentícios para vendê-los maiscaro, e que tinham encontrado latas de conservas debaixo da cama quando forambuscá-lo para levá-lo ao hospital. ”Morreu lá. A peste não compensa.” Cottardestava assim, cheio de histórias, falsas ou verdadeiras, sobre a epidemia. Porexemplo, dizia-se que, no centro, certa manhã, um homem que apresentava ossinais da peste, no delírio da doença, tinha-se precipitado para a rua, atirando-sesobre a primeira mulher que encontrara, abraçando-a, enquanto gritava quecontraíra a peste. - Bem - observava Cottard, num tom amável que não combinava com suaafirmação -, vamos todos ficar loucos, com toda a certeza. Da mesma forma, na tarde do mesmo dia, Joseph Grand acabara fazendoconfidências pessoais ao Dr. Rieux. Vira a fotografia da Sra. Rieux em cima damesa e olhara para o médico. Rieux respondeu que sua mulher estava setratando fora da cidade. ”Em certo sentido”, dissera Grand, ”é uma sorte.” Omédico respondeu que sem dúvida era uma sorte e que era apenas necessário teresperança de que sua mulher se curasse. - Ah! - exclamou Grand. - Compreendo. E, pela primeira vez desde que Rieux o conhecia, pôs-se a falar comexuberância. Embora procurasse ainda as palavras, conseguia quase sempreencontrá-las, como se tivesse pensado há muito no que estava dizendo. Tinha-se casado muito jovem com uma moça pobre da vizinhança. Forajustamente para se casar que interrompera os estudos e arranjara um emprego.Jeanne e ele nunca saíam do bairro. Ia vê-la em casa, e os pais de Jeanne riam-se um pouco desse pretendente silencioso e desajeitado. O pai era ferroviário.Quando estava de folga, viam-no sempre sentado a um canto, perto da janela,pensativo, olhando o movimento da rua, com as mãos enormes pousadas nascoxas. A mãe cuidava sempre da casa e Jeanne ajudava. Era tão pequena, queGrand não podia vê-la atravessar uma rua sem sentir angústia. Os veículos


pareciam-lhe, então, desproporcionados. Um dia, diante de uma loja enfeitadapara o Natal, Jeanne, que olhava a vitrine, maravilhada, voltara-se para ele,dizendo: ”Como é bonito”. Ele apertara-lhe o pulso. Foi assim que o casamento foidecidido. O resto da história, segundo Grand, era muito simples. É o mesmo paratodos: a gente se casa, ama ainda um pouco, trabalha. Trabalha tanto que seesquece de amar. Jeanne trabalhava também, já que as promessas do chefe darepartição não tinham sido cumpridas. Aqui, era preciso um pouco de imaginaçãopara compreender o que Grand queria dizer. com a ajuda do cansaço, ele deixaracorrer as coisas, tinha-se calado cada vez mais e não cultivava na jovem mulher aideia de que era amada. Um homem que trabalha, a pobreza, o futuro lentamentefechado, o silêncio das tardes em redor da mesa - não há lugar para a paixãonum tal universo. Provavelmente, Jeanne tinha sofrido. Contudo, ficara: aconteceque se sofre muito tempo sem saber. Os anos tinham passado. Mais tarde, elapartira. Na verdade, não partira só. ”Gostei muito de você, mas agora estoucansada. . . Não me sinto feliz por partir, mas não é necessário ser feliz pararecomeçar.” Eis, em resumo, o que ela lhe escrevera. Joseph Grand, por sua vez, tinha sofrido. Teria podido recomeçar, comoobservou Rieux. Mas faltava-lhe fé. Simplesmente, continuava a pensar nela. O que teria desejado seriaescrever-lhe uma carta para se justificar. ”Mas é difícil”, dizia. ”Há muito tempoque penso nisso. Enquanto somos amados, somos compreendidos sem palavras. -Mas uma pessoa não ama sempre. Em dado momento, eu devia ter encontradopalavras para retê-la, mas não consegui.” Grand assoava-se numa espécie deguardanapo xadrez. Depois, limpou o bigode. Rieux o observava. - Desculpe, doutor - disse o velho -, mas como dizer? Tenho confiança nosenhor. Sinto que posso falar. De modo que isso me comove. Visivelmente, Grand estava a mil léguas da peste. À noite, Rieux telegrafou para a mulher a fim de dizerlhe que a cidadeestava fechada, que ele estava bem, que ela devia continuar a tratar-se e quepensava nela. Três semanas depois de a cidade ser fechada, Rieux encontrou, ao sair dohospital, um jovem que o esperava. - Suponho - disse-lhe este último - que se lembra de mim. - Rieux julgavaconhecê-lo, mas hesitava. - Antes desses acontecimentos - esclareceu o outro -vim pedir-lhe informações sobre as condições de vida dos árabes. Chamo-meRaymond Rambert. - Ah, sim - respondeu Rieux. - Bem, agora tem um belo assunto dereportagem. O outro parecia nervoso. Informou que não se tratava disso e que vinhapedir auxílio ao Dr. Rieux. - Desculpe - acrescentou -, mas não conheço ninguém nesta cidade e ocorrespondente do meu jornal tem a infelicidade de ser imbecil. Rieux propôs-lhe caminharem até o dispensário do centro, pois tinhaalgumas ordens a dar. Desceram as ruelas do bairro negro. A noite seaproximava, mas a cidade, antes tão barulhenta a essa hora, pareciacuriosamente solitária. Alguns toques de clarim no céu ainda douradotestemunhavam apenas que os militares se davam ares de cumprir o dever.Durante esse tempo, ao longo das ruas íngremes, entre os muros axuis, cor deocre ou roxos das casas mouriscas, Rambert falava, muito agitado. Deixara a


mulher em Paris. Para dizer a verdade, não era sua mulher, mas era a mesmacoisa. Telegrafara-lhe logo que a cidade foi fechada. Pensara, primeiro, que setratava de um acontecimento provisório e procurara apenas corresponder-se comela. Os colegas de Oran tinham-lhe dito que nada podiam fazer, os correiostinham-no mandado voltar da porta, um secretário da prefeitura rira-se na suacara. Depois de esperar duas horas numa fila, acabara fazendo com queaceitassem mandar um telegrama, onde tinham escrito: ”Tudo vai bem. Atébreve”. Mas de manhã, ao levantar-se, viera-lhe bruscamente o pensamento deque afinal não sabia quanto tempo aquilo podia durar. Decidira partir. Como erarecomendado (na sua profissão, tem-se certas facilidades), conseguira falar com ochefe do gabinete do prefeito e dissera-lhe que não tinha nenhuma ligação comOran, que não tinha nada que ficar, que se encontrava lá por acaso e que erajusto que o deixassem ir embora, ainda que, uma vez lá fora, o obrigassem a fazeruma quarentena. O chefe do gabinete respondera-lhe que compreendia muitobem, mas não podiam abrir exceções, ia ver, mas que, em resumo, a situação eragrave e não podia decidir nada. - Mas, afinal - dissera Rambert -, eu sou um estranho nesta cidade. - Sem dúvida, mas, apesar de tudo, esperemos que a epidemia não duremuito. Para concluir, tinha tentado consolar Rambert, observando que podiaencontrar em Oran matéria para uma reportagem interessante e que todoacontecimento tinha o seu lado bom. Rambert encolhia os ombros. Chegavam aocentro da cidade. - É uma estupidez, doutor, compreenda. Eu não vim ao mundo para fazerreportagens. Mas talvez tenha vindo ao mundo para viver com uma mulher. Não éa ordem natural das coisas? Rieux respondeu que pelo menos isso lhe parecia razoável. Nas ruas do centro não havia a multidão habitual. Alguns transeuntesdirigiam-se apressadamente para suas casas distantes. Nenhum sorria. Rieuxpensou que era o resultado da comunicação que a Ransdoc fizera nesse dia. Aofim de vinte e quatro horas, nossos concidadãos recomeçavam a ter esperança.Nesse mesmo dia, porém, os números estavam ainda muito frescos na memória. - É que - disse Rambert sem mais nem menos eu e ela encontramo-noshá pouco e entendemo-nos muito bem. Rieux não dizia nada. - Mas eu o estou amolando - continuou Rambert. - Queria apenas perguntar-lhe se podia passar-me um atestado, em quese afirmasse que não tenho essa maldita doença. Creio que isso me seria útil. Rieux acenou afirmativamente com a cabeça, agarrou um rapazinho quese atirava nas suas pernas e recolocou-o suavemente de pé. Partiram de novo echegaram à Place d’Armes. Os ramos de fícus e das palmeiras pendiam, imóveis,cinzentos de poeira, à volta de uma estátua da República empoeirada e suja.Rieux bateu no chão os pés cobertos de uma camada esbranquiçada. Olhou paraRambert. com o chapéu ligeiramente para trás, o colarinho desabotoado debaixoda gravata, mal-barbeado, o jornalista tinha um ar teimoso e irritado. - Pode ter certeza de que o compreendo - disse por fim Rieux -, mas seuraciocínio não é correto. Não posso passar-lhe o atestado, pois, na verdade,ignoro se o senhor tem ou não essa doença, e porque, mesmo nesse caso, nãoposso atestar que entre o segundo em que sair do meu consultório e aquele em


que entrar na prefeitura, não a tenha contraído. E ainda que. . . - E ainda que...? - interrompeu Rambert. - Ainda que eu lhe desse esse atestado, ele não lhe serviria para nada. - Por quê? - Porque há na cidade milhares de homens na sua situação que nãopodem, apesar de tudo, ser autorizados a sair. - Mas e se eles não tiverem a peste? - Não é razão suficiente. Essa história é tola, bem sei, mas diz respeito atodos. É preciso aceitá-la como é. - Mas não sou daqui! - A partir de agora, infelizmente, será daqui, eximo todo mundo. O outro animava-se. - É uma questão de humanidade, juro. Talvez não compreenda o quesignifica uma separação como esta para duas pessoas que se entendem bem. Rieux não respondeu imediatamente. Depois disse que julgavacompreender. com todas as suas forças, desejava que Rambert voltasse ereencontrasse a mulher e que todos os que se amavam se reunissem, mas haviadecretos e leis, havia a peste e o seu papel era fazer o que era necessário. - Não - insistiu Rambert, com amargura -, o senhor não podecompreender. O senhor fala a linguagem da razão, fala de modo abstrato. O médico levantou os olhos para a estátua da República e esclareceu quenão sabia se falava a linguagem da razão, mas que falava a linguagem daevidência, o que não era obrigatoriamente a mesma coisa. O jornalista ajeitou agravata. - Então isso significa que tenho de arranjar-me de outra maneira? Mas -prosseguiu com uma espécie de desafio - vou deixar esta cidade. O médico respondeu-lhe que o compreendia ainda, mas que não tinhanada com isso. - Sim, tem - afirmou Rambert, com um súbito lampejo. - Dirigi-me aosenhor porque me disseram que tinha um papel importante nas decisõestomadas. Pensei então que, ao menos em um caso, o senhor poderia desfazer oque fora feito com sua contribuição. Mas isso lhe é indiferente. Não pensou emninguém. Não levou em conta os que estavam separados. Rieux reconheceu que, em certo sentido, isso era verdade, que nãoquisera levá-lo em conta. - Ah! Compreendo - respondeu Rambert. - Vai falar do serviço público.Mas o interesse público é feito da felicidade de cada um. - Vamos - disse o médico, que parecia sair de um devaneio. - Não é sóisso. Não se deve julgar ninguém. Mas o senhor não tem razão em se zangar. Sepuder encontrar uma solução, ficarei profundamente feliz. Simplesmente, hácoisas que minhas funções me proíbem de fazer. O outro abanou a cabeça com impaciência. - Sim, faço mal em me zangar. E roubei-lhe muito tempo. Rieux pediu-lhe que o mantivesse a par das suas providências e que nãolhe guardasse rancor. Havia, certamente, um plano em que podiam encontrar-se.Rambert pareceu subitamente perplexo. - Acho que sim - murmurou, depois de um silêncio. - Sim, apesar de tudoo que me disse. - Hesitou. Mas não posso concordar com o senhor. Puxou o chapéu para a testa e partiu com um passo rápido. Rieux viu-oentrar no hotel onde vivia Jean Tarrou.


Logo depois, o médico abanou a cabeça. O jornalista tinha razão na suaimpaciência de felicidade. Mas teria razão quando o acusava? ”O senhor vive naabstracão.” Eram realmente abstracão esses dias passados no hospital, onde apeste se saciava em dobro, elevando a quinhentas a média de vítimas porsemana? Sim, havia na desgraça uma parte -y) de abstracão e de irrealidade. Masquando a abstração começa a matar-nos, é necessário que nos ocupemos daabstracão. E Rieux sabia apenas que isso era o mais fácil. Não era fácil, porexemplo, dirigir-se a esse hospital auxiliar - e agora havia três - de que estavaencarregado. Improvisara, num cómodo que dava para o consultório, uma sala derecepção. O solo cavado formava um lago de água com creolina, no centro do qualse encontrava uma ilhota de tijolos. O doente era transportado para sua ilha,despido rapidamente e as roupas caíam na água. Lavado, enxuto, coberto com acamisa áspera do hospital, passava às mãos de Rieux, sendo depois transportadopara uma das salas. Tinham sido obrigados a utilizar os pátios cobertos de. umaescola, que continha agora, ao todo, quinhentos leitos, a maioria dos quaisocupados. Depois da recepção da manhã que ele próprio dirigia, vacinados osdoentes, abertos os abscessos, Rieux verificava mais uma vez a estatística evoltava às consultas da tarde. À noite, enfim, fazia visitas e voltava para casamuito tarde. Na noite anterior sua mãe observara, ao entregar-lhe um telegramada jovem Mme Rieux, que as mãos do filho tremiam. - Sim - dissera ele. - Mas com a continuação, ficarei menos nervoso. Era vigoroso e resistente. Na realidade, não estava ainda cansado. Massuas visitas, por exemplo, se tornavam insuportáveis. Diagnosticar a febreepidêmica equivalia a mandar retirar rapidamente o doente. Então começavam,na verdade, a abstração e a dificuldade, pois a família do doente sabia que sóvoltaria a vê-lo curado ou morto. ”Piedade, doutor!”, dizia a Sra. Loret, mãe daempregada que trabalhava no hotel de Tarrou. Que significava isso? É evidenteque ele- tinha piedade. Mas isso não adiantava nada. Era preciso telefonar. Logose ouvia ressoar a sirene da ambulância. No início, os vizinhos abriam as janelase olhavam. Mais tarde, fechavam-nas precipitadamente. Começavam então aslutas, as lágrimas, a persuasão, em suma, a abstração. Nessas casassuperaquecidas pela febre e pela angústia desenrolavam-se cenas de loucura.Mas o doente era levado. Rieux podia partir. Das primeiras vezes tinha-se limitado a telefonar e a sair para atenderoutros doentes, sem esperar a ambulância. Mas os parentes fechavam então aporta, preferindo a convivência com a peste a uma separação cujo resultadoagora conheciam. Gritos, investidas, intervenções da polícia e, mais tarde, dasforças armadas, e o doente era tomado de assalto. Durante as primeirassemanas, Rieux fora obrigado a esperar até a chegada da ambulância. Depois,quando cada médico passou a ser acompanhado por um inspetor voluntário,Rieux pôde correr de um doente para outro. No início, porém, todas as noitesforam corno essa em que, tendo entrado em casa da Sra. Loret, um pequenoapartamento decorado com leques e flores artificiais, foi recebido pela mãe, quelhe disse com um sorriso maldesenhado: - Espero que não seja essa febre de que todos falam. E ele, levantando o lençol e a camisa, contemplando em silêncio asmanchas vermelhas sobre o ventre e as coxas, a inchação dos gânglios. A mãeolhava para as pernas da filha e, sem poder dominar-se, gritava. Todas as noitesas mães gritavam assim, com um ar abstrato, diante de ventres expostos comtodos os sintomas mortais, todas as noites braços se agarravam aos de Rieux,


palavras inúteis, promessas e prantos se precipitavam, todas as noites as sirenesdas ambulâncias desencadeavam crises tão vãs quanto qualquer dor. E, ao fim detoda essa longa série de noites sempre semelhantes, Rieux só podia esperar poruma longa série de cenas iguais, indefinidamente renovadas. Sim, a peste, comoabstração, era monótona. Uma única coisa talvez mudava o próprio Rieux.Sentia-o nessa noite, junto ao monumento à República, apenas consciente daindiferença que começava a invadi-lo, sem tirar os olhos da porta do hotel poronde Rambert desaparecera. Ao final dessas semanas estafantes, depois de todos esses crepúsculosem que a cidade saía para as ruas para dar voltas sem rumo, Rieux compreendiaque já não precisava defender-se contra a piedade. As pessoas cansam-se dapiedade quando ela é inútil. E na consciência desse coração lentamente fechadosobre si próprio, o médico encontrava o único lenitivo desses dias esmagadores.Sabia que sua tarefa seria facilitada. Por isso se alegrava. Quando a mãe,recebendo-o às duas da madrugada, se afligia com o olhar vazio que pousavasobre ela, deplorava precisamente o único enternecimento que Rieux podia entãoencontrar. Para lutar contra a abstração, é preciso assemelhar-se um pouco aela. Mas podia isso ser sensível a Rambert? A abstração, para Rambert, era tudoo que se opunha à sua felicidade. E na verdade, Rieux sabia que o jornalista, atécerto ponto, tinha razão. Mas sabia também que chega o momento em que aabstração se mostra mais forte que a felicidade e que é preciso então, e só então,levá-la em consideração. Era o que devia acontecer a Rambert, e o médico pôdesabê-lo em pormenores pelas confidências que o jornalista lhe fez posteriormente.Pôde assim seguir, num novo plano, essa espécie de luta enfadonha entre afelicidade de cada homem e as abstrações da peste que constituiu toda a vida danossa cidade durante esse longo período. No entanto, onde uns viam a abstração, outros viam a verdade. De fato, ofim do primeiro mês de peste foi obscurecido por uma recrudescência acentuadada epidemia e um sermão veemente do Padre Paneloux, o jesuíta que assistira ovelho Michel no princípio da doença. O Padre Paneloux já se havia distinguidopor colaborações frequentes no boletim da Sociedade de Geografia de Oran, ondesuas reconstituições epigráficas constituíam autoridade. Mas conquistara umauditório mais vasto que o de um especialista ao fazer uma série de conferênciassobre o individualismo moderno. Mostrara-se, então, defensor ardoroso de umcristianismo exigente, igualmente distanciado da libertinagem moderna e doobscurantismo dos séculos passados. Nessa ocasião não poupara duras verdadesao seu auditório. Daí sua reputação. Ora, por volta do fim do mês, as autoridades eclesiásticas da nossacidade decidiram lutar contra a peste com seus próprios meios, organizando umasemana de preces coletivas. Essas manifestações da devoção pública deviamterminar no domingo com uma missa solene, sob a invocação de São Roque, osanto atacado pela peste. Nessa ocasião, tinham dado a palavra ao PadrePaneloux. Há uns quinze dias que este abandonara seus trabalhos sobre SantoAgostinho e a Igreja africana, que lhe haviam granjeado um lugar à parte na suaordem. De temperamento fogoso e apaixonado, aceitara com determinação amissão de que o encarregavam. Muito antes desse sermão, já se falava dele nacidade e ele marcou, à sua maneira, uma data importante na história desseperíodo. A semana de preces foi seguida por um público numeroso. Não que emtempos normais os habitantes de Oran sejam particularmente piedosos. No


domingo de manhã, por exemplo, os banhos de mar fazem séria concorrência àmissa. Tampouco foram iluminados por uma súbita conversão. Mas, por um lado,com a cidade fechada e o porto interditado, os banhos não eram possíveis e, poroutro lado, encontravam-se num estado de espírito bem singular em que, semterem admitido no fundo de si próprios os acontecimentos surpreendentes que osatingiam, sentiam efetivamente que algo, é óbvio, mudara. No entanto, muitoscontinuavam a esperar que a epidemia parasse e que eles fossem poupados, comsuas famílias. Por conseguinte, não se sentiam ainda obrigados a nada. A pestenada mais era para eles do que uma visita desagradável que havia de partir umdia, já que tinha vindo. Assustados, mas não desesperados, não chegara ainda omomento em que a peste lhes surgiria como a própria forma de sua vida e em queesqueceriam a existência que até agora tinham podido levar. Em suma, estavamna expectativa. No que se refere à religião, como a muitos outros problemas, apeste tinha-lhes dado uma singular disposição de espírito, tão afastada daindiferença como da paixão, que podia definir-se pela palavra ”objetividade”. Amaior parte dos que seguiram a semana de preces poderia ter feito sua a fraseque um dos fiéis havia proferido diante do Dr. Ríeux: ”De qualquer maneira, malnão pode fazer”. O próprio Tarrou, depois de ter anotado em seus cadernos queos chineses, em casos semelhantes, vão tocar tambor diante do génio da peste,observava que era absolutamente impossível saber se, na realidade, oinstrumento se mostrava mais eficaz que as medidas profiláticas. Acrescentava,apenas, que para decidir a questão seria preciso estar informado sobre aexistência de um génio da peste e que a nossa ignorância sobre esse pontotornava estéreis todas as opiniões que se pudessem ter. De qualquer modo, a catedral de nossa cidade esteve quase cheia de fiéisdurante toda a semana. Nos primeiros dias, muitos habitantes ficavam ainda nosjardins de palmeiras e romãzeiras que se estendem diante do pórtico para ouvir amaré de invocações e de preces que refluíam até as ruas. Pouco a pouco, com oauxílio do exemplo, os mesmos ouvintes decidiram-se a entrar e a mesclar umavoz tímida aos responsos da assistência. E, no domingo, uma multidãoconsiderável invadiu a nave, transbordando até o adro e os últimos degraus daescadaria. Desde a véspera, o céu tinha-se toldado, a chuva caía pesadamente.Os que estavam do lado de fora tinham aberto os guarda-chuvas. Um cheiro deincenso e de molhado flutuava na catedral quando o Padre Paneloux subiu aopúlpito. Era de estatura mediana, mas robusto. Quando se apoiou ao rebordo dopúlpito, apertando a madeira entre as mãos grandes, não se via nele senão umaforma espessa e negra, encimada pelas manchas de duas faces rubicundas sobos óculos de metal. Tinha uma voz forte, apaixonada, que alcançava longe, equando atacou a assistência com uma única frase veemente e martelada:”Irmãos, caístes em desgraça, irmãos, vós o merecestes”, a assistência setumultuou. Logicamente, o que se seguiu não parecia estar de acordo com esseexórdio patético. Só a sequência do discurso fez compreender aos nossosconcidadãos que, por um hábil processo oratório, o padre tinha dado de uma sóvez, como um golpe que se desfecha, o tema de todo o seu sermão. Logo depoisdessa frase, Paneloux citou o texto do êxodo relativo à peste do Egito e disse: ”Aprimeira vez em que esse flagelo aparece na história é para atacar os inimigos deDeus. O faraó opõe-se aos desígnios eternos, e a peste o faz então cair de joelhos.Desde o princípio de toda a história, o flagelo de Deus põe a seus pés os


orgulhosos e os cegos. Meditai sobre isso e caí de joelhos”. A chuva redobrava lá fora e esta última frase pronunciada no meio de umsilêncio absoluto, que se tornou ainda mais profundo pelo crepitar da tempestadesobre os vitrais, ressoou com tal inflexão, que alguns ouvintes, depois de umsegundo de hesitação, deixaram-se deslizar da cadeira para o genuflexório.Outros julgaram que era necessário seguir o exemplo, de tal modo que, de vizinhoa vizinho, sem outro ruído que não fosse o ranger de alguma cadeira, todo oauditório se encontrou logo ajoelhado. Paneloux endireitou-se então, respirouprofundamente e continuou, num tom mais veemente: ”Se hoje a peste vos olha,é porque chegou o momento de refletir. Os justos não podem temê-la, mas osmaus têm razão para tremer. Na imensa granja do universo, o flagelo implacávelbaterá o trigo humano até que o joio se separe do trigo. Haverá mais joio quetrigo, mais chamados que eleitos e essa desgraça não foi desejada por Deus. Porlongo tempo, este mundo compactuou com o mal, repousou na misericórdiadivina. Bastava arrepender-se, tudo era permitido. E para se arrependerem, todosse sentiam fortes. Chegado o momento, o arrependimento viria por certo. Até lá, omais fácil era deixar-se levar, a misericórdia divina faria o resto. Pois bem! Issonão podia durar. Deus, que durante tanto tempo baixou sobre os homens destacidade seu rosto de piedade, cansado de esperar, desiludido na sua eternaesperança, acabara de afastar o olhar. Privados da luz de Deus, eis-nos por muitotempo nas trevas da peste!” Na sala, alguém resfolegou como um cavalo impaciente. Depois de umacurta pausa, o padre continuou, num tom mais baixo: ”Lê-se na Legende dorêeque no tempo do Rei Humberto, na Lombardia, a Itália foi devastada por umapeste tão violenta que os vivos mal chegavam para enterrar os mortos. Essa pestecastigava sobretudo Roma e Pavia. E um anjo bom apareceu nitidamente dandoordens ao anjo mau, que trazia uma lança de caça, ordenando-lhe que batessenas casas. E tantas vezes quantas uma casa recebia pancadas, tantos mortoshavia que dela saíam”. Paneloux estendeu aqui os dois braços curtos na direção do adro, comose mostrasse alguma coisa por detrás da cortina móvel da chuva. ”Meus irmãos”,disse com força, ”é a mesma caçada mortal que hoje prossegue nas nossas ruas.Vede-o, esse anjo da peste, belo como Lúcifer e brilhante como o próprio mal,erguido acima dos vossos telhados, empunhando a lança vermelha à altura dacabeça, designando com a mão esquerda uma de vossas casas. Nesse mesmoinstante, talvez, o seu dedo se estende para a vossa porta, a lança ressoa sobre amadeira: mais um instante e a peste entra em vossa casa, senta-se no vossoquarto e espera o vosso regresso. Ela está lá, paciente e atenta, segura como aprópria ordem do mundo. Essa mão que ela vos estenderá, nenhum poderhumano, nem sequer, vede bem, a vã ciência humana, pode fazer com que aeviteis. E, batidos na eira sangrenta da dor, sereis repelidos como a palha.” Aqui, o padre retomou, com mais amplidão ainda, a imagem patética doflagelo. Evocou a imensa lança volteando por cima da cidade, atacando ao acaso eerguendo-se de novo, ensanguentada; espalhando, enfim, o sangue e a dorhumana ”para as sementeiras que preparariam as searas da verdade”. Ao fim desse longo período, o Padre Paneloux parou, com os cabeloscaídos sobre a fronte, o corpo agitado por um tremor que as mãos comunicavamao púlpito, e prosseguiu, mais surdamente mas em tom acusador: ”Sim, chegou ahora de refletir. Pensastes que vos bastaria visitar Deus aos domingos paraficardes com vossos dias livres. Pensastes que algumas genuflexões bastariam


para pagar vosso desleixo criminoso. Mas Deus não é fraco. Essas atençõesespaçadas não bastavam à sua ternura devoradora. Ele queria ver-vos maistempo, é a sua maneira de vos amar que é, a bem dizer, a única maneira deamar. Eis por que, cansado de esperar vossa vinda, deixou que o flagelo vosvisitasse, corn~. visitou todas as cidades do pecado desde que os horúèns têmhistória. Sabeis agora o que é o pecado, como o souberam Caim e seus filhos, osde antes do Dilúvio, os de Sodoma e Gomorra, o faraó e Jó e também todos osmalditos. E, como esses o fizeram, é um olhar novo que lançais sobre os seres eas coisas, desde o dia em que esta cidade fechou seus muros em torno de vós edo flagelo. Sabeis agora, finalmente, que é preciso chegar ao essencial”. Um vento úmido infiltrava-se agora na nave e as chamas dos círioscurvavam-se, crepitando. Um cheiro espesso de cera, tosses, um espirrochegaram até o Padre Paneloux, que, voltando à sua exposição com uma sutilezaque foi muito apreciada, prosseguiu com voz calma: ”Muitos dentre vós, bem osei, perguntaram a si próprios aonde quero chegar. Quero fazer-vos chegar àverdade e ensinar-vos a vos regozijar, apesar de tudo o que vos disse. Passou otempo em que os conselhos, uma mão fraterna eram os meios de vos guiar para obem. Hoje, a verdade é uma ordem. E o caminho da salvação é uma lançavermelha que vos aponta e vos conduz. É aqui, meus irmãos, que se manifesta,enfim, a misericórdia divina que colocou em todas as coisas o bem e o mal, acólera e a piedade, a peste e a salvação. Este mesmo flagelo, que vos aflige, voseleva e vos mostra o caminho. Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam napeste um meio eficaz, de origem divina, para alcançar a eternidade. Os que nãoeram atingidos enrolavam-se nas roupas contaminadas para terem a certeza demorrer. Sem dúvida, essa fúria de salvação não é recomendável. Ela revela umaprecipitação lamentável, bem próxima do orgulho. Não se deve ser maisapressado que Deus, e tudo o que pretende acelerar a ordem imutável que Eleestabeleceu de uma vez para sempre conduz à heresia. Mas, ao menos, esseexemplo comporta uma lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, ele fazapenas valer esse clarão sublime de eternidade que j az no fundo de todosofrimento. Ele ilumina esse clarão, os caminhos crepusculares que conduzem àlibertação. Ele manifesta a vontade divina que, sem fraquejar, transforma o malem bem. Hoje ainda, através dessa caminhada de morte, de angústias e declamores, Ele nos guia para o silêncio essencial e para o princípio de toda a vida.Eis, meus irmãos, o imenso consolo que queria vos trazer para que não leveisdaqui apenas palavras que castigam, mas também um verbo de paz”. Sentia-se que o Padre Paneloux terminara. Lá fora a chuva havia cessado.Um céu mesclado de água e de sol derramava sobre a praça uma luz maisbrilhante. Da rua, chegavam ruídos de vozes, o deslizar de veículos, toda alinguagem de uma cidade que desperta. Os ouvintes juntavam discretamenteseus pertences, com um sussurro surdo. Entretanto, o padre retomou a palavra edisse que, depois de ter mostrado a origem divina da peste e o caráter punitivodesse flagelo, tinha terminado e não faria apelo, para concluir, a uma eloquênciaque seria inoportuna em matéria tão trágica. Parecia-lhe que tudo devia ser claropara todos. Lembrou apenas que, por ocasião da grande peste de Marselha, ocronista Mathieu Marais se queixara de estar mergulhado no inferno, vivendoassim sem socorro e sem esperança. Pois bem! Mathieu Marais era cego! Nunca,mais que hoje, pelo contrário, o Padre Paneloux tinha sentido o socorro divino e aesperança cristã que eram oferecidos a todos. Ele esperava, contra toda aesperança, que, a despeito do horror desses dias e dos gritos dos agonizantes,


nossos concidadãos dirigissem ao céu a única palavra que era cristã e que era deamor. Deus faria o resto. É difícil dizer se esse sermão produziu efeito sobre nossos concidadãos. OSr. Othon, o juiz de instrução, disse ao Dr. Rieux que tinha achado a exposiçãodo Padre Paneloux ”absolutamente irrefutável”. Nem todos, porém, tinham umaopinião tão categórica. Simplesmente, o sermão tornou mais evidente para algunsa ideia, vaga até então, de que estavam condenados, por um crime desconhecido,a uma prisão inimaginável. E enquanto uns continuavam a sua vidinha e seadaptavam à clausura, para outros, pelo contrário, a única ideia foi, a partirdesse momento, evadirem-se dessa prisão. A princípio, as pessoas tinham aceito estar isoladas do exterior comoteriam aceito qualquer outro inconveniente temporário que apenas perturbassealguns de seus hábitos. Mas, subitamente conscientes de uma espécie desequestro, sob a tampa do céu em que o verão começava a crepitar, sentiamconfusamente que essa reclusão lhes ameaçava toda a vida e, chegada a noite, aenergia que recuperavam com o frescor os lançava por vezes a atos de desespero. Em primeiro lugar, quer seja ou não por efeito de uma coincidência, foi apartir desse domingo que houve em nossa .idade uma espécie de medogeneralizado e bastante profundo para que se pudesse suspeitar que nossosconcidadãos começavam verdadeiramente a tomar consciência da sua situação.Sob esse ponto de vista, a atmosfera de nossa cidade modificou-se um pouco. Aquestão, porém, é saber se na verdade a modificação estava na atmosfera ou noscorações. Poucos dias depois do sermão, Rieux, que comentava o acontecimentocom Grand, ao dirigir-se para os subúrbios, chocou-se na escuridão contra umhomem que cambaleava diante deles, sem procurar avançar. Nesse mesmomomento as luzes de nossa cidade, que se acendiam cada vez mais tarde,resplandeceram bruscamente. O alto lampião por trás deles iluminousubitamente o homem, que ria sem ruído, de olhos fechados. Em seu rostoesbranquiçado, distendido por uma hilaridade muda, o suor corria em grossasgotas. - É um louco - disse Grand. Rieux, que acabava de pegá-lo pelo braço para arrastá-lo, sentiu que oempregado municipal tremia de nervoso. - Dentro em pouco, não haverá senão loucos dentro de nossos muros -concordou Rieux. com o cansaço, sentia a garganta seca. Vamos tomar qualquercoisa. No pequeno café em que entraram, iluminado por um único lampião emcima do balcão, as pessoas falavam em voz baixa, sem razão aparente, no arespesso e avermelhado. No balcão, Grand, para grande surpresa do médico, pediu aguardente,que bebeu de um trago, e declarou ser muito forte. Depois quis sair. Lá fora,parecia a Rieux que a noite estava cheia de gemidos. Em qualquer parte, no céunegro, um sibilar surdo lembrou-lhe o invisível flagelo que agitavaincansavelmente o ar quente. - Ainda bem, ainda bem - murmurava Grand. Rieux perguntava a sipróprio o que ele queria dizer. - Ainda bem - continuava o outro - que tenho meutrabalho. - Sim - disse Rieux -, isso é uma vantagem. E, decidido a não escutar o sibilar, perguntou a Grand se estava contente


com esse trabalho. - Sim, creio que estou no bom caminho. - Ainda lhe falta muito? Grand pareceu animar-se, com o calor do álcool transparecendo na voz. - Não sei. Mas a questão não é essa, doutor. Não, a questão não é essa. Na obscuridade, Rieux adivinhava que ele agitara os braços. Pareciapreparar qualquer coisa, que veio bruscamente, com volubilidade. - O que eu quero, sabe, doutor, é que no dia em que o manuscrito chegarao editor, ele se levante depois de ter lido e diga aos seus colaboradores: ”Meussenhores, tirem o chapéu”. Esta brusca declaração surpreendeu Rieux. Parecia-lhe que ocompanheiro fazia o gesto de se descobrir, levando a mão à cabeça e trazendo obraço à posição horizontal. Lá em cima, o estranho silvo parecia redobrar deintensidade. - É verdade - dizia Grand -, é necessário que seja perfeito. Embora pouco a par dos hábitos literários, Rieux tinha no entanto aimpressão de que as coisas não se deviam passar tão simplesmente e que, porexemplo, os editores, nos seus gabinetes, deviam estar de cabeça descoberta. Averdade, porém, é que nunca se sabia, e Rieux preferiu calar-se. Contra avontade, escutava os rumores misteriosos da peste. Chegavam ao bairro deGrand e, como este se situava num ponto alto, uma ligeira brisa refrescava-os,limpando ao mesmo tempo a cidade de todos os seus ruídos. No entanto, Grandcontinuava a falar, e Rieux não compreendia tudo o que o homenzinho dizia.Comprendeu apenas que a obra em questão tinha já muitas páginas, mas que oesforço a que seu autor se submetia para a levar à perfeição lhe era muitodoloroso. Noites, semanas inteiras com uma palavra. . . às vezes com umasimples conjunção. Nesse ponto, Grand deteve-se e agarrou o médico por umbotão do casaco. As palavras saíam trôpegas de sua boca malguarnecida. - Compreenda bem, doutor. A rigor, é fácil escolher entre ”mas” e ”e”. Já émais difícil optar entre ”e” e ”depois”. A dificuldade aumenta com ”depois” e ”emseguida”. Porém, o que há, sem dúvida, de mais difícil, é saber se se deve ou nãocolocar o e. - Compreendo - disse Rieux. Recomeçou a andar. O outro pareceu confuso e deu alguns passos paraalcançá-lo. - Desculpe - gaguejou. - Não sei o que tenho esta noite. Rieux bateu-lhe suavemente no ombro e disse que desejava ajudá-lo eque sua história lhe interessava muito. O outro pareceu acalmar-se um pouco e,chegando a casa, depois de hesitar, convidou o médico a subir um momento.Rieux aceitou. Na sala de jantar, Grand convidou-o a sentar-se diante de uma mesacoberta de papéis cheios de emendas feitas numa letra microscópica. - Sim, é isto - disse Grand ao médico, que o interrogava com o olhar. -Quer beber alguma coisa? Tenho um pouco de vinho. - Rieux recusou. Olhavapara as folhas de papel. - Não olhe - pediu Grand. - É minha primeira frase. Faz-me mal; faz-memuito mal. Também ele contemplava todas as folhas, e sua mão pareceuincontrolavelmente atraída para uma delas, que levantou e colocou emtransparência, diante da lâmpada elétrica sem cúpula. A folha tremia-lhe na mão.


Rieux notou que o empregado municipal tinha a testa úmida. - Sente-se - pediu o médico - e leia. O outro olhou para ele e sorriu com uma espécie de gratidão. - Acho, realmente, que estou com vontade de ler. Esperou um pouco, sempre olhando para a folha, depois sentou-se. Rieuxescutava ao mesmo tempo uma espécie de zumbido confuso que, na cidade,parecia responder ao silvo do flagelo. Nesse momento preciso, tinha umapercepção extraordinariamente aguda dessa cidade que se estendia a seus pés,do mundo fechado que ela formava e dos uivos terríveis que ela sufocava nanoite. A voz de Grand elevou-se surdamente: ”Numa bela manhã do mês de maio,uma elegante amazona percorria, numa soberba égua alazã, as aléias floridas doBois de Boulogne”. O silêncio voltou e com ele o rumor indistinto da cidade, quesofria. Grand pousara a folha e continuava a contemplá-la. Ao fim de ummomento, levantou os olhos. - Que acha? Rieux respondeu que o princípio lhe despertava a curiosidade deconhecer o resto. Mas o outro afirmou com animação que esse ponto de vista nãoera bom e bateu nos papéis com a palma da mão. - Isso é apenas uma aproximação. Quando eu conseguir transmitirperfeitamente o quadro que tenho na imaginação, quando a minha frase tiver opróprio ritmo deste passeio a trote um-dois-três, um-dois-três, então o resto serámais fácil e, sobretudo, a ilusão será tal, desde o princípio, que será possíveldizer: ”Tirem o chapéu”. Mas para isso faltava muito trabalho. Nunca consentiria em entregaraquela frase, tal como estava, a um editor, pois, apesar da satisfação que lhetrazia, por vezes se dava conta de que ela ainda não se ajustava perfeitamente àrealidade, e que, de certo modo, mantinha uma facilidade de tom que seassemelhava de longe, mas que se assemelhava, em todo caso, a um chavão. Eraesse pelo menos o sentido do que ele dizia quando ouviram homens correr sob asjanelas. Rieux levantou-se. - Vai ver o que vou fazer dela - dizia Grand. E, voltado para a janela,acrescentou: - Quando tudo isso tiver acabado. Mas o barulho de passos precipitados recomeçava. Rieux já descia, e doishomens passaram por ele quando chegou à rua. Aparentemente, iam para asportas da cidade. Na verdade, alguns de nossos concidadãos, perdendo a cabeçaentre o calor e a peste, deixavam-se arrastar à violência e tinham tentado burlara vigilância das barreiras para fugir da cidade. Outros, como Rambert, tentavam também fugir dessa atmosfera depânico nascente, mas com mais obstinação e habilidade, se não com mais êxito.Em primeiro lugar, Rarr> bert prosseguira suas diligências oficiais. Segundo elepróprio dizia, a obstinação acaba por triunfar sobre tudo e, de um certo ponto devista, ser desembaraçado era sua profissão. Visitara, pois, uma grande quantidade de funcionários e de pessoas cujacompetência habitualmente não se discutia. No entanto, nesse caso, talcompetência de nada lhes servia. Eram, a maior parte das vezes, homens quetinham ideias precisas e bem classificadas sobre tudo o que se refere aos bancos,à exportação, às laranjas e limões, ou ainda, ao comércio dos vinhos; quepossuíam indiscutíveis conhecimentos sobre os problemas de contencioso ou deseguros, sem contar os diplomas sólidos e uma boa vontade evidente. Era até aboa vontade o que de mais impressionante havia em todos. Porém, em matéria de


peste, seus conhecimentos eram quase nulos. Diante de cada um deles, entretanto, e sempre que isso fora possível,Rambert defendera sua causa. Sua argumentação principal consistia sempre emdizer que era estrangeiro na nossa cidade e que, por conseguinte, seu caso deviamerecer um exame especial. Em geral, os interlocutores do jornalista admitiam debom grado esse ponto, mas diziamlhe que era também o caso de um certonúmero de pessoas e que, conseqúentemente, seu problema não era tãoparticular quanto imaginava. Ao que Rambert podia retrucar que o fato nãomudava em nada a essência de sua argumentação, e replicavap-lhe que mudavaalguma coisa nas dificuldades administrativas que se opunham a toda medida defavor, que corria o risco de criar aquilo a que chamavam, com uma expressão degrande repugnância, um precedente. Segundo a classificação que Rambert propôsao Dr. Rieux, esse género de argumentadores constituía a categoria dosformalistas. Ao lado deles podiam encontrar-se os bem-falantes, queasseguravam ao suplicante que nada daquilo podia durar e que, pródigos de bonsconselhos quando só se lhes pediam decisões, consolavam Rambert decidindoque se tratava apenas de um problema momentâneo. Havia também osimportantes, que pediam ao visitante que deixasse uma nota resumindo seu caso,informando que decidiriam sobre o pedido; os fúteis, que lhe propunham vales dealojamento ou endereços de pensões económicas; os metódicos, que o faziampreencher uma ficha e arquivavam-na em seguida; os exaltados, que levantavamos braços e os aborrecidos, que desviavam os olhos; havia, enfim, os tradicionais,de longe os mais numerosos, que indicavam a Rambert outra repartição ou novadiligência a fazer. O jornalista tinha assim se esgotado em visitas e formara uma ideia justado que podia ser uma câmara ou uma prefeitura, de tanto esperar num bancoestofado diante de grandes cartazes que o convidavam a subscrever obrigações doTesouro, isentas de impostos, ou a alistar-se no exército colonial, de tanto entrarem repartições onde as fisionomias eram tão previsíveis quanto o arquivo e osfichários. A vantagem, como Rambert dizia a Rieux com uma ponta de amargura,era que tudo isso mascarava a verdadeira situação. Os progressos da pesteescapavam-lhe praticamente, sem contar que os dias assim se passavam maisdepressa e, na situação em que a cidade inteira se encontrava, podia-se dizer quecada dia que passava aproximava os homens, com a condição de que nãomorressem ao fim de suas provações. Rieux teve de reconhecer que esse ponto devista era verdadeiro, mas que se tratava, em todo caso, de uma verdadedemasiado genérica. Em dado momento, Rambert alimentou uma esperança. Tinha recebidoda prefeitura um boletim de informações em branco que lhe pediam quepreenchesse com exatidão. O boletim inquietava-se com sua identidade, asituação da família, seus recursos, antigos e atuais, e o que chamava de seucurriculum vitae. Teve a impressão de que se tratava de um inquérito destinado arecensear as pessoas suscetíveis de serem enviadas para a sua residênciahabitual. Algumas informações confusas colhidas numa repartição confirmaramessa suspeita. No entanto, depois de algumas diligências precisas, conseguiudescobrir o serviço que tinha enviado o boletim, e disseram-lhe então que essasinformações tinham sido recolhidas ”para o caso de virem a ser necessárias”. - Que caso? - perguntou Rambert. Afirmaram-lhe então que era para o caso de ele vir a adoecer da peste e amorrer dela, a fim de que se pudesse, por um lado, avisar a família e, por outro,


saber se se deviam debitar as despesas do funeral ao orçamento da cidade ou sese podia esperar que os parentes as reembolsassem. Evidentemente, isso provavaque ele não estava inteiramente separado daquela que o esperava, visto que asociedade se ocupava deles. Mas não era um consolo. O mais notável, e Ramberto observou, era a maneira como no auge de uma catástrofe uma repartição podiacontinuar o seu serviço e tomar iniciativas de outros tempos, muitas vezes comdesconhecimento das autoridades mais altas, pela simples razão de que era feitapara esse fim. O período que se seguiu foi para Rambert simultaneamente mais fácil emais difícil. Era um período de estagnação Tinha visitado todas as repartições, feito todas as diligências e todas assaídas, por esse lado, estavam agora fechadas. Vagava então de café em café. Demanhã, sentava-se num terraço, diante de um copo de cerveja morna, lia umjornal com a esperança de encontrar alguns sinais do fim próximo da doença,olhava para o rosto dos transeuntes, desviava-se, desgostoso, com sua expressãode tristeza e, depois de ter lido, pela centésima vez, as tabuletas das lojas emfrente, a publicidade dos grandes aperitivos que já de nada serviam, levantava-see caminhava ao acaso pelas ruas amarelas da cidade. Em passeios solitários paracafés e de cafés para restaurantes, chegava assim a noite. Rieux viu-o uma noite,precisamente à porta de um café, onde o jornalista hesitava em entrar. Pareceudecidir-se e foi sentar-se ao fundo da sala. Era aquela hora em que nos cafés, porordem superior, se retardava ao máximo o momento de acender as luzes. Ocrepúsculo invadia a sala como uma água cinzenta, o cor-de-rosa do céu poenterefletia-se nas vidraças e o mármore das mesas reluzia fracamente naobscuridade nascente. No meio da sala deserta, Rambert parecia uma sombraperdida, e Rieux pensou que era a hora de se sentir abandonado. Mas eratambém o momento em que todos os prisioneiros dessa cidade sentiam seupróprio abandono e era preciso, fazer qualquer coisa para apressar a libertação.Rieux afastou-se. Rambert passava também longos momentos na estação. O acesso àsplataformas estava interditado. Mas as salas de espera, às quais se chegava porfora, permaneciam abertas e às vezes ali instalavam-se mendigos nos dias decalor, pois eram sombrias e frescas. Rambert ficava lá, para ler velhos horários,avisos proibindo cuspir e o regulamento da Polícia Ferroviária. Depois, sentava-sea um canto. A sala estava escura. Um velho fogão de ferro fundido esfriava hámeses, no meio de desenhos em oito. Na parede alguns cartazes promoviam umavida feliz e livre em Bandol ou em Cannes. Rambert sentia aqui essa espécie deterrível liberdade que se experimenta no fundo da miséria. Para ele, imagens maisdifíceis de suportar, segundo o que dizia Rieux, eram as de Paris. Uma paisagemde velhas pedras e das águas, os pombos do Palais Royal, a Gare du Nord, osbairros desertos do Panthéon e alguns outros lugares de uma cidade que ele nãosabia ter amado tanto, perseguiam então Rambert e impediam-no de fazerqualquer coisa de preciso. Rieux pensava apenas que ele identificava essasimagens com as do seu amor. E no dia em que Rambert lhe disse que gostava deacordar às quatro da manhã e de pensar em sua cidade, o médico não tevedificuldade em traduzir do fundo de sua própria experiência que ele gostava deimaginar a mulher que tinha deixado. com efeito, era a hora em que ele podiaapoderar-se dela. Até as quatro horas da manhã não se faz nada, em geral,dorme-se a essa hora e isso é tranqüilizador, já que o grande desejo de umcoração inquieto é possuir interminavelmente o ser que ama e poder mergulhar