esse ser, quando chega o tempo da ausência, num sono sem sonhos que só possaacabar no dia do reencontro. Pouco depois do sermão, o calor começou. Chegava-se ao fim do mês dejunho. No dia seguinte ao da chuva tardia que marcara o domingo do sermão, overão irrompeu de repente no céu e acima das casas. Levantou-se primeiro umvento forte e ardente que soprou durante um dia e ressecou as paredes. O solfixou-se. Vagas incessantes de calor e de luz inundaram a cidade durante todo odia. Fora das ruas em arcada e das casas parecia não haver um único ponto nacidade que não estivesse colocado na reverberação mais ofuscante. O solperseguia nossos concidadãos em todas as esquinas e, se eles paravam, atacava-os então. Como esses primeiros calores coincidiram com uma subida vertiginosado número de vítimas que se calculou em cerca de setecentas por semana,apoderou-se da cidade uma espécie de abatimento. Nos subúrbios, nas ruasplanas e nas casas com terraços, a animação decresceu e, nesse bairro onde todaa gente vivia sempre nas soleiras, todas as portas estavam fechadas e aspersianas corridas, sem que se soubesse se era da peste ou do calor que aspessoas julgavam assim proteger-se. De algumas casas, contudo, saíam gemidos.Antes, quando isso acontecia, viam-se muitas vezes curiosos que paravam narua, à escuta. Mas depois desses longos alarmes, parecia que o coração de todostinha endurecido e que caminhavam ou viviam ao lado dos queixumes como seeles fossem a linguagem natural dos homens. Os tumultos junto às portas da cidade, durante os quais os guardastinham sido obrigados a servir-se de armas, criaram uma surda agitação. Tinhahavido feridos, sem dúvida, mas falava-se de mortos na cidade, onde tudo seexagerava por efeito do calor e do medo. Em todo caso, é verdade que odescontentamento não cessava de aumentar, que nossas autoridades tinhamreceado o pior e estudado muito a sério medidas a serem tomadas no caso deessa população, mantida sob o flagelo, ser levada à revolta. Os jornais publicaramdecretos que renovavam a proibição de sair e ameaçavam com penas de prisão osinfratores. Patrulhas percorriam a cidade. Muitas vezes, nas ruas desertas eescaldantes viam-se avançar, anunciados em primeiro lugar pelo ruído doscascos dos cavalos nos paralelepípedos, guardas montados que passavam porentre duas fileiras de janelas fechadas. Desaparecida a patrulha, um silênciopesado e cheio de desconfiança recaía sobre a cidade ameaçada. De vez emquando, ouviam-se os disparos dos grupos especiais encarregados de matar oscães e os gatos que poderiam transmitir pulgas. Essas detonações secascontribuíam para estabelecer na cidade uma atmosfera de alerta. No calor e no silêncio, e para o coração em pânico dos nossosconcidadãos, tudo assumia, aliás, uma importância maior. Pela primeira veztodos se tornavam sensíveis às cores do céu e aos odores da terra causados pelamudança das estações. Cada um compreendia com terror que o calor ajudaria aepidemia e, ao mesmo tempo, cada um via que o verão se instalava. O grito dosgaviões no céu da tarde tornava-se mais débil por cima da cidade. Não mais seenquadravam nesses crepúsculos de junho que ampliam o horizonte em nossopaís. As flores de mercados já não chegavam fechadas em botão e, depois davenda da manhã, as pétalas amontoavam-se nas calçadas poeirentas. Via-seclaramente que a primavera se extenuara, que se tinha prodigalizado em milharesde flores que desabrochavam por toda parte e que ia agora adormecer, esmagar-se lentamente sob o duplo peso da peste e do calor. Para todos os nossosconcidadãos, o céu de verão, essas ruas que empalidecem sob os tons da poeira e
do tédio, tinham o mesmo sentido ameaçador que as centenas de mortos que acada dia pesavam sobre a cidade. O sol inclemente, estas horas com gosto desono e de férias, já não convidavam como antes às festas da água e da carne. Pelocontrário, soavam lúgubres na cidade fechada e silenciosa. Tinham perdido obrilho metálico das estações felizes. O sol da peste apagava todas as cores eescorraçava qualquer alegria. Era essa uma das grandes revoluções da doença. Em geral, todos osnossos concidadãos acolhiam o verão com alegria. A cidade abria-se então para omar e derramava sua mocidade nas praias. Nesse verão, pelo contrário, o marpróximo estava interditado e o corpo já não tinha direito às suas alegrias. Quefazer nessas condições? É ainda Tarrou quem dá a imagem mais fiel de nossavida de então. Ele seguia, a bem da verdade, os progressos da peste em geral,observando justamente que uma mudança da epidemia fora assinalada pelo rádioquando deixou de anunciar as centenas de óbitos por semana para passar acomunicar noventa e dois, cento e sete e cento e vinte mortos por dia. ”Os jornaise as autoridades brincam de espertos com a peste. Imaginam que lhe tiramalguns pontos porque cento e trinta é um número menos impressionante quenovecentos e dez.” Evocava também os aspectos patéticos ou espetaculares daepidemia, como a mulher que, num bairro deserto, com as persianas fechadas,tinha subitamente aberto uma janela por cima dele e soltado dois grandes gritosantes de voltar a fechar as persianas sobre a sombra espessa do quarto. Mas eleanotava, além disso, que as pastilhas mentoladas tinham desaparecido dasfarmácias, pois muitas pessoas as chupavam para se prevenir contra umcontágio eventual. Continuava também a observar suas personagens favoritas. Soube-se queo velhote dos gatos vivia também na tragédia. Certa manhã, com efeito, haviamsoado tiros e, como escrevia Tarrou, alguns estilhaços de chumbo tinham matadoa maior parte dos gatos e aterrorizado os outros, que abandonaram a rua. Nomesmo dia, o velhote surgira na varanda, à hora habitual, mostrara uma certasurpresa, debruçara-se, examinara as extremidades da rua e resignara-se aesperar. com a mão dava pequenas pancadas na grade da varanda. Esperavaainda, rasgara um pedaço de papel, entrara e tornara a sair. Depois de um certotempo desaparecera bruscamente, fechando, com rancor, as janelas. Nos diasseguintes repetiu-se a mesma cena, mas podiam ler-se no rosto do velho umatristeza e uma perturbação cada vez mais manifestas. Ao fim de uma semana,Tarrou esperou em vão o aparecimento diário, e as janelas ficaramobstinadamente fechadas sobre um desgosto bastante compreensível. ”Em tempode peste, é proibido escarrar nos gatos” era a conclusão das anotações. Por outro lado, quando Tarrou entrava à noite em casa, tinha semprecerteza de encontrar, no vestíbulo, a figura sombria do vigia, que passeava de umlado para outro. Ele não deixava de lembrar a todos que chegavam que tinhaprevisto o que estava acontecendo. A Tarrou, que reconhecia ter-lhe ouvido preveruma desgraça, mas que lhe recordava sua ideia de terremoto, o velho guardarespondia: ”Ah, se fosse um terremoto? Uma boa sacudidela, e não se fala maisnisso... Contam-se os mortos, os vivos, e pronto. Mas essa porcaria de doença?Até os que não a apanham, parecem trazê-la no coração”. O proprietário não andava menos desanimado. A princípio, os viajantes,impedidos de deixar a cidade, tinham sido mantidos no hotel quando as portasda cidade se fecharam. Mas, pouco a pouco, como a epidemia se prolongasse,muitos tinham preferido instalar-se em casa de amigos. E as mesmas razões que
tinham enchido todos os quartos do hotel mantinham-nos vazios desde então, jáque não chegavam novos viajantes a nossa cidade. Tarrou era um dos raroshóspedes, e o gerente não perdia oportunidade para lhe fazer notar que, se nãofosse seu desejo de ser agradável aos seus últimos clientes, teria há muitofechado o estabelecimento. Pedia muitas vezes a Tarrou que calculasse a duraçãoprovável da epidemia. ”Dizem”, observava Tarrou, ”que o frio é inimigo dessaespécie de doença.” O gerente exasperava-se: ”Mas aqui nunca faz realmente frio,meu caro senhor. De qualquer modo, ainda faltam alguns meses”. Tinha certezaaliás de que os visitantes continuariam durante muito tempo a evitar a cidade.Essa peste era a ruína do turismo. No restaurante, d pois de uma curta ausência,viuse reaparecer o Sr. Othon, o homem-coruja, mas seguido apenas pelos doiscachorrinhos comportados. Colhidas as informações, soube-se que a mulhertinha tratado e enterrado a própria mãe e que estava, nesse momento, dequarentena. - Não gosto disso - disse o gerente a Tarrou. com quarentena ou semquarentena, ela é suspeita, e, conseqúentemente, eles também. Tarrou fez-lhe notar que, sob esse ponto de vista, todos eram suspeitos.Mas o outro era categórico e tinha sobre a questão opiniões bem definidas: - Não, senhor, nem o senhor nem eu somos suspeitos. Eles são. Mas o Sr. Othon não se alterava por tão pouco e, dessa vez, a peste não ialevar vantagem alguma. Entrava da mesma maneira na sala do restaurante,sentava-se antes dos filhos e continuava a dirigir-lhes frases distintas e hostis.Apenas o garoto mudara de aspecto. Vestido de preto como a irmã, um poucomais curvado sobre si próprio, parecia uma pequena sombra do pai. O vigia, quenão gostava do Sr. Othon, dissera a Tarrou: - Ah! Aquele vai morrer todo vestido, nem será preciso arrumá-lo. Vaidireitinho. O sermão de Paneloux era também relatado, mas com o seguintecomentário: ”Compreendo esse simpático ardor. No começo dos flagelos e quandoeles terminam, sempre se faz um pouco de retórica. No primeiro caso, não seperdeu ainda o hábito, e no segundo, ele já retornou. É no momento da desgraçaque a gente se habitua à verdade, quer dizer, ao silêncio. Esperemos”. Tarrou anotava, enfim, que tivera uma longa conversa com o Dr. Rieux,da qual recordava apenas que dera bons resultados e esclarecia, a propósitodisso, a cor castanho-clara dos olhos da mãe do médico, afirmava estranhamenteque um olhar onde se lia tanta bondade seria sempre mais forte que a peste econsagrava, por fim, longas páginas ao velho asmático tratado por Rieux. Tinha ido vê-lo, com o médico, depois da entrevista. O velho acolheraTarrou com risinhos, esfregando as mãos. Estava na cama, encostado aotravesseiro, por cima das suas duas panelas de grãos-de-bico. ”Ah, mais um”,dissera ele ao ver Tarrou. ”É o mundo às avessas, mais médicos que doentes. Éque a coisa anda depressa, hem? O padre tem razão, é bem merecido.” No diaseguinte, Tarrou voltara sem avisar. Se se der crédito às suas anotações, o velhoasmático, lojista de profissão, tinha decidido aos cinquenta anos que játrabalhara bastante. Metera-se na cama e não voltara a levantar-se desde então.No entanto, a sua asma conciliavase com o tempo em que estivera em pé. Umapequena renda o mantivera até os setenta e cinco anos, cujo peso ele carregavaalegremente. Não conseguia tolerar relógios e, na verdade, não havia um únicoem toda a casa. ”Um relógio é um objeto caro e bobo”, dizia ele. Calculava otempo, e sobretudo a hora das refeições, a única que lhe importava, com suas
duas panelas, uma das quais estava cheia de grãosde-bico quando acordava.Enchia a outra, uma a uma, com o mesmo movimento aplicado e regular.Encontrava assim seus pontos de referência, num dia medido por panelas. ”Dequinze em quinze panelas”, dizia ele, ”é hora de comer. É muito simples.” Aliás, a se acreditar na mulher, desde muito novo dera sinais dessavocação. Na verdade, nada lhe interessara jamais: nem o trabalho, nem osamigos, nem os cafés, nem a música, nem as mulheres, nem os passeios. Nuncasaía da cidade, exceto num dia em que, obrigado a ir a Argel para cuidar denegócios da família, tinha descido na estação mais próxima de Oran, incapaz delevar mais adiante a aventura, e voltara no primeiro trem. A Tarrou, que parecera admirar-se da vida enclausurada que ele levava,tinha mais ou menos explicado que, segundo a religião, a primeira metade davida de um homem era uma ascensão e a outra, um declínio; que no declínio, osdias do homem já não lhe pertenciam, que lhe podiam ser arrebatados a qualquermomento, que ele nada podia fazer deles, e que o melhor, justamente, era nãofazer nada. A contradição, aliás, não o assustava, pois tinha pouco depois dito aTarrou que certamente Deus não existia, já que, de outro modo, os padres seriaminúteis. No entanto, por certas reflexões que se seguiram, Tarrou compreendeuque essa filosofia estava estreitamente ligada ao estado de espírito que lhe davamos peditórios frequentes da sua paróquia. Mas o que completava o retraio dovelho era um desejo que parecia profundo, e que ele exprimiu várias vezesperante seu interlocutor: esperava morrer muito velho. ”Será um santo?”, perguntava Tarrou a si próprio. E respondia: ”Semdúvida, se a santidade é um conjunto de hábitos”. Mas, ao mesmo tempo, Tarrou dedicava-se à descrição bastanteminuciosa de um dia na cidade tomada pela peste, dando assim uma justa ideiadas ocupações e da vida de nossos concidadãos durante esse verão. ”Ninguém ri,a não ser os bêbados”, dizia Tarrou, ”e esses riem demais.” Depois, retomava suadescrição: ”De madrugada, brisas leves percorrem a cidade ainda deserta. A essahora que fica entre as mortes da noite e as agonias do dia, parece que a pestesuspende por um instante seu esforço e toma fôlego. Todas as lojas estãofechadas. Mas, em algumas, o aviso ’Fechada por causa da peste’ atesta que nãoabrirão dentro em pouco como as outras. Vendedores de jornais meioadormecidos não gritam mais as notícias, mas, encostados às esquinas das ruas,oferecem sua mercadoria aos lampiões com gestos de sonâmbulos. Daqui apouco, despertados pelos primeiros bondes, vão espalhar-se por toda a cidade,oferecendo de braço estendido as folhas onde se destaca a palavra ’peste’. ’Haveráum outono de peste?’ O Professor B. . . responde: ’Não’. Cento e vinte e quatromortos, e eis o balanço depois de noventa e quatro dias de peste’. Apesar da crise de papel, que se torna cada vez mais acentuada, e jáforçou alguns periódicos a diminuírem o número de páginas, criou-se mais umjornal, O Correio da Epidemia, que se impõe como tarefa ’informar nossosconcidadãos, com a preocupação de uma escrupulosa objetividade, dosprogressos ou retrocessos da doença; fornecer as opiniões mais categorizadassobre o futuro da epidemia; prestar o apoio de suas colunas a todos os que,conhecidos ou desconhecidos, estejam dispostos a lutar contra o flagelo; levantaro moral da população, transmitir as diretrizes das autoridades e, numa palavra,reunir todos os esforços para lutar de modo eficaz contra o mal que nos assola’.Na realidade, esse jornal limitou-se muito rapidamente a publicar anúncios de
novos produtos infalíveis para evitar a peste. Por volta das seis horas da manhã,todos esses jornais começam a ser vendidos nas filas que se instalam às portasdas lojas mais de uma hora antes da sua abertura, depois nos bondes quechegam, apinhados, dos subúrbios. Os bondes tornaram-se o único meio detransporte e avançam com grande dificuldade, os estribos sobrecarregados. Coisacuriosa, no entanto: todos os ocupantes, na medida do possível, voltam as costasaos outros para evitar um contágio mútuo. Nas paradas, o bonde despeja umacarga de homens e de mulheres cheios de pressa de se afastarem e de seisolarem. Frequentemente, ocorrem cenas devidas apenas ao mau humor, que setorna crônico. Depois da passagem dos primeiros bondes, a cidade desperta pouco apouco, as primeiras cervejarias abrem as portas, com os balcões carregados deavisos: ’Não há mais café’, ’Traga o seu açúcar’, etc. . . Depois, abrem-se as lojas,as ruas animam-se. Ao mesmo tempo, a luz sobe e o calor aumenta pouco apouco no céu de julho. É a hora em que aqueles que não fazem nada se arriscampelas avenidas. A maior parte parece ter-se encarregado de conjurar a peste pelaostentação do seu luxo. Todos os dias, por volta de onze horas, nas artériasprincipais, há um desfile de homens e de mulheres jovens, em que se pode sentiressa paixão de viver que cresce no seio das grandes desgraças. Quanto mais aepidemia se estender, mais o moral se tomará elástico. Voltaremos a ver assaturnais milanesas à beira das sepulturas. Ao meio-dia, os restaurantes enchem-se num abrir e fechar de olhos.Muito depressa, formam-se à porta pequenos grupos que não conseguiramencontrar lugar. O céu começa a perder a luz por excesso de calor. À sombra dosgrandes toldos, os candidatos à comida esperam a vez, à beira da rua estalam aosol. Se os restaurantes são invadidos, é porque simplificam muito o problema doabastecimento. Mas deixam intacta a angústia do contágio. Os convivas perdemlongos minutos limpando pacientemente os talheres. Não há muito tempo, certosrestaurantes anunciavam: ’Aqui escaldam-se os talheres’. Pouco a pouco, porém,renunciaram a qualquer publicidade, já que os clientes eram forçados a vir. Aliás,o cliente gasta de bom grado. Os vinhos finos ou assim considerados, ossuplementos mais caros, são o começo de uma corrida desenfreada. Parecetambém que houve cenas de pânico num restaurante, porque um cliente,indisposto, empalidecera, levantara-se cambaleando e dirigira-se rapidamentepara a saída. Por volta de duas horas, a cidade esvazia-se pouco a pouco e é então omomento em que o silêncio, a poeira, o sol e a peste se encontram na rua. Aolongo das grandes casas cinzentas, o calor desliza sem cessar. São longas horasprisioneiras que acabam nas tardes inflamadas que se abatem sobre a cidadepopulosa e tagarela. Durante os primeiros dias de calor, uma vez ou outra, e semque se saiba por quê, as tardes eram desertas. Mas agora a primJira friagem trazuma trégua, se não uma esperança. Todos descem então para as ruas, falam parase atordoar, discutem ou desejam-se e, sob o céu vermelho de julho, a cidade,carregada de casais e de clamores, deriva em direção à noite ofegante. Em vão,todas as tardes nas avenidas, um velho inspirado, com um chapéu de feltro egravata esvoaçante, atravessa a multidão, repetindo sem cessar: ’Deus é grande,vinde a Ele’. Todos se precipitam, pelo contrário, para qualquer coisa que malconhecem ou que lhes parece mais urgente que Deus. A princípio, quandoachavam que era uma doença como as outras, a religião tinha prestígio. Masquando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer. Toda a angústia que
se pinta durante o dia nos rostos se dissolve então, no crepúsculo ardente epoeirento, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada queinflama todo um povo. E também eu sou como eles. Puro engano! A morte nada é para oshomens como eu. É um acontecimento que lhes dá razão.” Foi Tarrou que pediu a Rieux a entrevista de que fala nos seus cadernos.Na noite em que Rieux o esperava, o médico contemplava a mãe, placidamentesentada a um canto da sala de jantar. Era aí que ela passava seus dias quando aarrumação da casa a deixava livre. com as mãos juntas sobre os joelhos,esperava. Rieux não tinha sequer a certeza de que fosse ele quem ela esperava.No entanto, qualquer coisa se alterava no seu rosto quando ele aparecia. Tudoque uma vida laboriosa nele colocara de mutismo parecia então animar-se.Depois, recaía no silêncio. Nessa noite, olhava através da janela para a ruadeserta. A iluminação tinha sido diminuída de dois terços. E, aqui e ali, umalâmpada muito fraca punha alguns reflexos nas sombras da cidade. - Vão manter a iluminação reduzida durante toda a peste? - perguntou aSra. Rieux. - Provavelmente. - Contanto que isso não dure até o inverno. . . Seria muito triste. - É verdade - disse Rieux. Viu o olhar da mãe pousar-lhe na fronte. Sabia que a inquietação e oexcesso de trabalho dos últimos dias lhe haviam vincado o rosto. - O dia não correu bem? - perguntou a Sra. Rieux. - Oh, como de costume. Como de costume! Quer dizer que o novo soro enviado de Paris pareciaser menos eficaz que o primeiro, e as estatísticas subiam. Continuava a nãohaver a possibilidade de inocular o soro preventivo a não ser nas famílias jáatingidas. Teriam sido necessárias quantidades industriais para generalizar suautilização. A maior parte dos abscessos recusavam-se a abrir-se, como se tivessechegado a época do seu endurecimento, e torturavam os doentes. Desde avéspera, havia na cidade dois casos de uma nova forma da epidemia. A pestetornava-se então pulmonar. Nesse mesmo dia, no decurso de uma reunião, osmédicos, exaustos diante de um prefeito desorientado, tinham pedido e obtidonovas medidas para evitar o contágio que na peste pulmonar se fazia de boca aboca. Como sempre, não se sabia nada. Olhou para a mãe. O belo olhar castanho revolveu nele anos de ternura. - Está com medo, mamãe? - Na minha idade, já não se teme muita coisa. - Os dias são muito compridos e eu agora nunca estou em casa. - Para mim é indiferente esperar, desde que saiba que vai chegar. Equando você não está, penso no seu trabalho. Tem notícias? - Sim, vai tudo bem, se posso acreditar no último telegrama. Mas sei queela diz isso para me tranqüilizar. A campainha da porta tocou. O médico sorriu para a mãe e foi abrir. Napenumbra do patamar, Tarrou, vestido de cinzento, parecia um grande urso.Rieux fez o visitante sentar-se diante da secretária. Ele próprio ficou em pé, atrásda poltrona. Estavam separados pela única lâmpada acesa em cima da secretária. - Sei - disse Tarrou, sem preâmbulos - que posso lhe falar com franqueza.- Rieux aprovou em silêncio. Dentro de quinze dias ou um mês, o senhor já nãoterá aqui qualquer utilidade; estará superado pelos acontecimentos.
- É verdade - respondeu o médico. - A organização do serviço sanitário é má. Faltam-lhe homens e tempo. Rieux reconheceu ainda que era verdade. - Soube que a prefeitura está planejando uma espécie de serviço civil paraobrigar os homens válidos a participarem no salvamento geral. - Está bem informado. Mas o descontentamento já é grande, e o prefeitohesita. - Por que não se pedem voluntários? - Isso foi feito, mas os resultados foram insignificantes. - Fez-se por via oficial e sem muita fé no que faziam. O que lhes falta éimaginação. Nunca estão à altura dos flagelos. Se os deixarmos agir, acabarãopor morrer, e nós com eles. - É provável - retorquiu Rieux. - Devo dizer que pensam também nospresos para os chamados trabalhos pesados. - Gostaria mais que fossem homens livres. - Eu também. Mas por quê, afinal? - Tenho horror às condenações à morte. Rieux olhou para Tarrou. - Então? - perguntou. - Então, tenho um plano de organização de equipes sanitáriasvoluntárias. Autorize-me a ocupar-me disso e deixemos as autoridades de lado.Aliás, as autoridades estão suplantadas. Tenho amigos por toda parte e elesformarão o primeiro núcleo. E naturalmente, participarei dele. - Está bem - disse Rieux -, aceito com alegria. Temos necessidade de serajudados, sobretudo nesta profissão. Encarrego-me de fazer a prefeitura aceitar aideia. Aliás, não há outra opção. Mas. . . Rieux refletiu. - Mas esse trabalho pode ser mortal, como sabe. Em todo caso é precisoque eu o previna. Pensou bem? Tarrou olhava-o com seus olhos cinzentos e tranqüilos. - Que pensa do sermão de Paneloux, doutor? A pergunta foi feita naturalmente, e Rieux respondeu naturalmente: - Vivi demais nos hospitais para gostar da ideia de castigo coletivo. Mas,como sabe, os cristãos falam às vezes assim, sem que realmente o pensem. Sãomelhores do que parecem. - Pensa então, como Paneloux, que a peste tem o seu lado bom, que abreos olhos, que obriga a pensar? O médico sacudiu a cabeça com impaciência. - Como todas as doenças deste mundo. Mas o que é verdade em relaçãoaos males deste mundo é também verdade em relação à peste. Pode servir paraengrandecer alguns. No entanto, quando se vê a miséria e a dor que ela traz épreciso ser louco, cego ou covarde para se resignar à peste. Rieux apenas erguera um pouco o tom de voz. Mas Tarrou fez um gestocom a mão como para acalmá-lo. Sorria. - Sim - continuou Rieux, dando de ombros. - Mas não me respondeu.Refletiu bem? Tarrou empertigou-se um pouco na cadeira e esticou a cabeça para a luz. - Acredita em Deus, doutor? De novo, a pergunta fora feita naturalmente. Mas desta vez Rieux hesitou. - Não, mas que quer dizer isso? Estou nas trevas e tento ver claro. Hámuito que deixei de achar isso original.
- Não é isso o que o separa de Paneloux? - Não acho. Paneloux é um estudioso. Não viu a morte o suficiente, e épor isso que fala em nome de uma verdade. Mas o mais modesto padre de aldeia,que cuida dos seus paroquianos e que ouviu a respiração de um moribundo,pensa como eu. Ele trataria da miséria antes de querer demonstrar-lhe aexcelência. Rieux levantou-se. Seu rosto estava agora na sombra. - Vamos deixar isso - disse -, já que não quer responder. Tarrou sorriu, sem se mexer na poltrona. - Posso responder com uma pergunta? Foi a vez de o médico sorrir. - Gosta do mistério. Vamos lá. - É isso - disse Tarrou. - Por que o senhor mesmo demonstra tantadedicação, já que não acredita em Deus? Sua resposta talvez me ajude aresponder. Sem sair da sombra, o médico disse que já respondera e que, seacreditasse num Deus todo-poderoso, deixaria de curar os homens, deixando aele esse cuidado. Mas que ninguém no mundo, não, nem mesmo Paneloux, quejulgava acreditar, acreditava num Deus desse género, já que ninguém seentregava totalmente e que nisso, ao menos ele, Rieux, julgava estar no caminhoda verdade, lutando contra a criação tal como ela era. - Ah! - exclamou Tarrou. - Então é essa a ideia que tem da sua profissão? - Mais ou menos - respondeu o médico, voltando-se para a luz. Tarrou assobiou baixinho, e o médico olhou para ele. - Bem sei - continuou. - Diz a - J próprio que para isso é preciso terorgulho. Mas eu não tenho senão o orgulho necessário, acredite. Não sei o que meespera, nem o que virá depois de tudo isto. No momento, há doentes, e é precisocurá-los. Em seguida, eles refletirão e eu também. Mas o mais urgente é curá-los.Eu os defendo como posso, é tudo. - Contra quem? Rieux voltou-se para a jane^. Adivinhava ao longe o mar por umacondensação mais escura do horizonte. Sentia apenas seu cansaço e lutava aomesmo tempo contra um desejo súbito e irracional de se abrir um pouco maiscom esse homem um pouco singular, mas que sentia fraternal. - Não sei, Tarrou, juro-lhe que não sei. Quando entrei para essa profissãoeu o fiz abstratamente, de certo modo, porque tinha necessidade, porque era umasituação como as outras, uma das que os jovens se propõem. Talvez tambémporque era particularmente difícil para um filho de operário corno eu. E depois foinecessário ver morrer. Sabe que há pessoas que se recusam a morrer? Já ouviualguma vez uma mulher gritar ”Nunca!” no momento de morrer? Eu já. E descobri então que não conseguia me habituar. Era novo, nessetempo, e minha repugnância julgava dirigir-se à própria ordem do mundo. Depoistornei-me mais modesto. Simplesmente, não me habituei a ver morrer. Não seimais nada. Mas, afinal. . . - Rieux calou-se e voltou a sentar-se. Sentia a bocaseca. - Afinal?... - perguntou suavemente Tarrou. - Afinal… - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhando para Tarroucom atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor conseguecompreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte,talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas asnossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala.
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas suas vitórias serão sempreefémeras; mais nada. O semblante de Rieux pareceu anuviar-se. - Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar. - Não, não é uma razão. Mas imagino então o que essa peste significapara o senhor. - É verdade - tornou Rieux. - Uma interminável derrota. Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhoupesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, queparecia olhar para os pés, lhe perguntou: - Quem lhe ensinou tudo isso, doutor? A resposta veio imediatamente. - A miséria. Rieux abriu a porta do escritório e, no corredor, disse a Tarrou que iadescer também, pois precisava ver um de seus doentes no subúrbio. O outropropôs acompanhá-lo, e o médico aceitou. No fim do corredor, encontraram a Sra.Rieux, a quem o médico apresentou Tarrou. - Um amigo - disse. - Ah! - exclamou a Sra. Rieux. - Muito prazer em conhecê-lo. Quando se afastou, Tarrou voltou-se mais uma vez para ela. No patamar,o médico tentou em vão acender a luz. As escadas continuaram mergulhadas nanoite. O médico perguntava a si mesmo se seria o efeito de uma nova medida deeconomia. Mas não se podia saber. Já há algum tempo que tudo nas casas e nacidade se estragava. Era talvez apenas porque os porteiros e nossos concidadãosem geral já não tomavam cuidado com coisa alguma. Mas o médico não tevetempo de continuar a interrogar-se porque a voz de Tarrou ressoava atrás dele: - Mais uma palavra, doutor, ainda que lhe pareça ridícula: o senhor temtoda a razão. No escuro, Rieux encolheu os ombros para si próprio. - Não sei, realmente. Mas o senhor, o que acha? - Oh - disse o outro, sem se perturbar -, tenho poucas coisas a aprender. O médico parou, e o pé de Tarrou, atrás dele, escorregou num degrau.Tarrou equilibrou-se, apoiando-se no ombro de Rieux. - Julga saber tudo da vida? - perguntou este. A resposta veio do escuro, trazida pela mesma voz tranqüila. - Sim. Quando saíram para a rua, compreenderam que era bastante tarde, onzehoras, talvez. A cidade estava muda, povoada apenas de rumores. Muito longe,ouvia-se a sirene de uma ambulância. Entraram no carro, e Rieux ligou o motor. - É preciso que vá amanhã ao hospital, por causa da vacina preventiva.Mas, para terminar e antes de entrar nessa história, pense que tem ^maprobabilidade contra duas de sair disso. - Esses cálculos, doutor, não têm sentido, sabe tão bem quanto eu. Hácem anos, uma epidemia de peste matou todos os habitantes de uma cidade daPérsia, exceto precisamente o lavador de defuntos, que nunca tinha deixado deexercer a profissão. - Teve sua terceira probabilidade, mais nada - disse Rieux, com uma vozsubitamente mais surda. - Mas é verdade que temos ainda muito a aprendersobre esse assunto. Entravam agora nos subúrbios. Os faróis brilhavam nas ruas desertas.Pararam. Diante do automóvel, Rieux perguntou a Tarrou se queria entrar, e o
outro disse que sim. Um reflexo do céu iluminava os rostos. Rieux deu, derepente, um sorriso de amizade. - Vamos, Tarrou - disse ele. - O que o leva a ocupar-se de tudo isso? - Não sei. Talvez minha moral. - Qual? - A compreensão. Tarrou voltou-se para a casa e Rieux não viu mais seu rosto até omomento de entrarem em casa do velho asmático. Logo no dia seguinte, Tarrou pôs-se a trabalhar e reuniu o primeiro grupoque devia ser seguido por muitos outros. A intenção do narrador não é, entretanto, dar a essas equipes sanitáriasmais importância do que elas realmente tiveram. No seu lugar, é verdade quemuitos de nossos concidadãos cederiam hoje à tentação de lhes exagerar o papel.Mas o narrador está antes tentado a acreditar que, ao dar demasiada importânciaàs belas ações, se presta finalmente uma homenagem indireta e poderosa ao mal.Pois, nesse caso, se estaria supondo que essas belas ações só valem tanto porserem raras e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem maisfrequentes nas ações dos homens. Essa é uma ideia de que o narrador nãocompartilha. O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e aboa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade.Os homens são mais bons que maus e, na verdade, a questão não é essa. Masignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o víciomais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então, amatar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amorsem toda a clarividência possível. É por isso que nossas equipes sanitárias, que se concretizaram graças aTarrou, devem ser julgadas com uma satisfação objetiva. É por isso que onarrador não quer ser o propagandista por demais eloquente de uma vontade ede um heroísmo a que atribui uma importância apenas razoável. Mas continuaráa ser o historiador dos corações de nossos concidadãos que a peste tornaradilacerados e exigentes. com efeito, os que se dedicaram às equipes sanitárias não tiveram ummérito tão grande em fazê-lo, pois sabiam que era a única coisa a fazer, e não sedecidir fazê-lo é que teria sido incrível. Essas equipes ajudaram nossosconcidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que, umavez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Uma vezque a peste se tornava o dever de alguns, ela surgiu realmente como era, isto é,como o problema de todos. Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por ensinar que dois edois são quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido essa bela profissão.Digamos, pois, que era provável que Tarrou e outros tivessem escolhidodemonstrar que dois e dois eram quatro e não o contrário, mas digamos tambémque essa boa vontade lhes era comum com a do professor, com a de todosaqueles que têm o coração igual ao do professor e que, para honra do homem,são mais numerosos do que se pensa, ou pelo menos essa é a convicção donarrador. Aliás, este compreende muito bem a objeção que lhe poderia ser feita,ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora nahistória em que l aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido l coma morte. O professor sabe muito bem disso. E a quesI tão não é saber qual é arecompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e
dois são ou não quatro. Quanto a nossos concidadãos que então arriscavam l avida, tinham de decidir se estavam ou não na peste e se era ou não necessáriolutar contra ela. Muitos moralistas novos da nossa cidade diziam então que nada serviapara nada e que era preciso cair de joelhos. E Tarrou, Rieux e os amigos podiam responder isto ou aquilo, mas aconclusão era sempre o que eles sabiam: era - preciso lutar, desta ou daquelamaneira, e não cair de joelhos. Toda a questão residia em impedir o maiornúmero possível de homens de morrer e de conhecer a sepam ração definitiva.Para isso, havia um único meio: combater a peste. Esta verdade não eraadmirável, era apenas conseqüente. Por isso, era natural que o velho Gastei pusesse toda a sua confiança etoda a sua energia em fabricar soros ali mesmo com material precário. Rieux eele esperavam que um soro fabricado com as culturas do próprio micróbio queinfestava a cidade teria uma eficácia mais direta que os soros vindos do exterior,já que o micróbio diferia ligeiramente do bacilo da peste tal como eraclassicamente definido. Grand esperava ter em breve seu primeiro soro. Por isso era natural que Grand, que nada tinha de herói, assumisse agorauma espécie de secretaria das equipes sanitárias. com efeito, parte dos gruposformados por Tarrou dedicava-se a um trabalho de assistência preventiva nosbairros muito populosos. Tentava-se introduzir aí a higiene necessária, contando-se as águas-furtadas e os porões que a desinfecção não tinha visitado. Uma outraparte dos grupos ajudava os médicos nas visitas domiciliares, garantindo otransporte dos doentes e até, mais tarde, na ausência de pessoal especializado,dirigia os carros dos doentes e dos mortos. Tudo isso exigia um trabalho deregistro de estatística que Grand aceitara fazer. Desse ponto de vista e mais que Rieux ou Tarrou, o narrador consideraque Grand era o verdadeiro representante dessa virtude tranqüila que animava asequipes sanitárias. Aceitara sem hesitação, com a boa vontade que ocaracterizava. Manifestara apenas o desejo de se tornar útil em pequenostrabalhos. Estava velho demais para o resto. Das dezoito às vinte horas podia darseu tempo. E, como Rieux lhe agradecesse calorosamente, ele se admirava: ”Não éo mais difícil. Há peste, é preciso nos defendermos, evidente. Ah, se tudo fossetão simples!” E repetia sua frase. Por vezes, à noite, quando o trabalho das fichasterminava, Rieux conversava com Grand. Tinham acabado por juntar Tarrou àssuas conversas, e Grand se abria com um prazer cada vez mais evidente aos doiscompanheiros. Estes acompanhavam com interesse o trabalho paciente queGrand continuava, em meio à peste. Também eles, por fim, encontravam nissouma espécie de repouso. ”Como vai a amazona?”, perguntava muitas vezes Tarrou. E Grandrespondia invariavelmente, com um sorriso: ”Vai trotando, vai trotando”. Umanoite, Grand disse que tinha posto definitivamente de lado o adjetivo elegantepara a sua amazona e que a classificava agora de esbelta. ”É mais concreto”,acrescentara. Outra vez, leu para os dois ouvintes a primeira frase, assimmodificada: ”Numa bela manhã de maio, uma esbelta amazona, montada numasoberba égua alazã, percorria as aléias floridas do Bois de Boulougne”. - Não é verdade - disse Grand - que a vemos melhor assim? E eu preferi:”numa manhã de maio, ” porque ”mês de maio” alongava um pouco o trote. Mostrou-se em seguida muito preocupado com o adjetivo ”soberba”. Erapouco sugestivo, em sua opinião, e ele procurava o termo que fotografasse
imediatamente a égua faustosa que ele imaginava. ”Gorda” não podia ser. Eraconcreto, mas um pouco pejorativo. ”Reluzente” o havia tentado por um instante,mas o ritmo não se prestava. Certa noite, anunciou triunfalmente que tinhaencontrado: ”Uma negra égua alazã”. O negro indicava discretamente a elegância,em sua opinião. - Não é possível - disse Rieux. - E por quê? - Alazã não indica raça, mas a cor. - Que cor? - Bem, uma cor que, em todo caso, não é preto. Grand pareceu muitoimpressionado. - Muito obrigado - disse ele. - Ainda bem que o senhor está aqui. Mas vejacomo é difícil. - Que acha de ”suntuosa”? - perguntou Tarrou. Grand olhou para ele, erefletiu. - Sim - disse. - Sim! E, pouco a pouco, esboçava um sorriso. Algum tempo depois, confessou que a palavra ”floridas” o constrangia.Como só conhecera Oran e Montélimar, às vezes pedia aos amigos indicaçõessobre a forma como as aléias do Bois eram floridas. A bem dizer, elas nuncatinham dado a impressão, a Rieux ou a Tarrou, de serem floridas, mas aconvicção do funcionário os abalava. Ele estranhava aquela incerteza. Só osartistas sabem olhar. Mas certa vez, o médico encontrou-o numa grandeexcitação. Tinha substituído ”floridas” por ”cheias de flores”. Esfregava as mãos.”Afinal, podemos vê-las e cheirá-las. Tirem o chapéu, meus senhores!” Leutriunfalmente a frase: ”Numa bela manhã de maio, uma esbelta amazona,montada numa suntuosa égua alazã, percorria as aléias cheias de flores do Boisde Boulogne”. No entanto, 1:dos em voz alta, os três genitivos que terminavam afrase soaram mal e Grand gaguejou um pouco. Acabrunhado, sentou-se. Depois,pediu ao médico licença para ir embora. Tinha necessidade de refletir um pouco. Foi nessa época, como se soube depois, que ele deu na repartição certossinais de distração considerados lamentáveis num momento em que a prefeituraenfrentava, com um pessoal reduzido, obrigações avassaladoras. O serviçoressentiu-se disso, e o chefe da repartição repreendeu-o severamente, lembrando-lhe que era pago para executar um trabalho que precisamente não cumpria.”Parece”, disse o chefe da repartição, ”que o senhor faz serviço voluntário nasequipes sanitárias, fora do seu trabalho. Nada tenho com isso. O que me dizrespeito é o seu trabalho aqui. E a primeira maneira de se tornar útil nessasterríveis circunstâncias é fazer bem seu trabalho. Ou senão o resto não servepara nada.” - Ele tem razão - disse Grand a Rieux. - Sim, tem razão - concordou o médico. - Mas eu ando distraído e não sei como sair do fim da minha frase. Tinha pensado em suprimir ”de Boulogne”, calculando que todoscompreenderiam. Mas então a frase parecia relacionar-se com ”flores”, o que, narealidade, se relacionava com ”aléias”. Examinara também a possibilidade deescrever: ”As aléias do Bois cheias de flores”. Mas a situação de ”Bois” entre umsubstantivo e um adjetivo que ele separava arbitrariamente era como um espinhona carne. Certas noites, é bem verdade que ele parecia mais cansado que Rieux. Sim, estava fatigado por essa busca que o absorvia por completo, mas
nem por isso deixava de fazer as somas e as estatísticas de que precisavam asequipes sanitárias. Pacientemente, todas as noites passava fichas a limpo,juntavalhes curvas e esforçava-se lentamente por apresentar quadros tãoprecisos quanto possível. Muitas vezes, ia encontrar-se com Rieux em um doshospitais e pedia-lhe uma mesa em algum gabinete ou enfermaria. Instalava-se lácom seus papéis, exatamente como se instalava à sua mesa na prefeitura, e no arque os desinfetantes e a própria doença tornavam espesso agitava as folhas parafazer secar a tinta. Tentava então honestamente não pensar mais na suaamazona e fazer apenas o que era necessário. Sim, se é verdade que os homens insistem em propor-se exemplos emodelos a que chamam heróis, e se é absolutamente necessário que haja umnesta história, o narrador propõe justamente esse herói insignificante e apagadoque só tinha um pouco de bondade no coração e um ideal aparentementeridículo. Isso dará à verdade o que lhe é devido, à adição de dois e dois o seu totalde quatro, e ao heroísmo o lugar secundário que lhe cabe, logo depois, e nuncaantes, da exigência generosa da felicidade. Isso dará também a esta crónica seucaráter, que deve ser o de uma relação feita com bons sentimentos, isto é,sentimentos que nem são ostensivamente maus nem exaltadores à feia maneirade um espetáculo. Era pelo menos a opinião do Dr. Rieux quando lia nos jornais ou ouvia norádio os apelos e estímulos que o mundo exterior fazia chegar à cidade da peste.Ao mesmo tempo em que os socorros enviados por ar e por terra, todas as noites,pelas ondas ou pela imprensa, comentários piedosos ou de admiração se abatiamsobre a cidade agora solitária. E todas as vezes, o tom de epopeia ou de discursode distribuição de prémios impacientava o médico. Naturalmente, ele sabia queessa solicitude não era fingida. Mas ela não se podia exprimir senão nalinguagem convencional pela qual os homens tentam exprimir o que os liga àhumanidade. E essa linguagem não se podia aplicar aos pequenos esforçosdiários de Grand, por exemplo, por não poder exprimir o que Grand significava nomeio da peste. À meia-noite, por vezes, no grande silêncio da cidade então deserta, nomomento de voltar à cama para um sono demasiado curto, o médico girava obotão de seu aparelho. E, dos confins do mundo, através de milhares dequilómetros, vozes desconhecidas e fraternas tentavam desajeitadamente dizersua solidariedade e diziam, de fato, mas demonstravam ao mesmo tempo aterrível impotência em que se encontra todo homem de compartilharverdadeiramente uma dor que não pode ver. ”Oran! Oran!” Em vão o apeloatravessava os mares, em vão Rieux se mantinha alerta, logo a eloquência subia eacusava mais ainda a separação essencial que fazia de Grand e do orador doisestrangeiros. ”Oran! Sim, Oran! Mas não”, pensava o médico, ”amar ou morrerjuntos, não há outro recurso. Eles estão muito longe.” E justamente o que falta relatar antes de chegar ao auge da peste,enquanto o flagelo reunia todas as suas forças para lançá-las sobre a cidade eapoderar-se dela definitivamente, são os longos esforços desesperados emonótonos que os últimos indivíduos, como Rambert, faziam para reencontrarsua felicidade e tirar à peste essa parte deles mesmos que defendiam contra todosos ataques. Era essa sua maneira de recusar a servidão que os ameaçava, eembora essa recusa, aparentemente, não fosse tão eficaz quanto a outra, aopinião do narrador é que ela tinha efetivamente um sentido e comprovavatambém nas suas próprias vaidades e contradições o que havia então de altivez
em cada um de nós. Rambert lutava para impedir que a peste o vencesse. Tendo adquirido aprova de que não poderia sair da cidade pelos meios legais, estava decidido,dissera a Rieux, a usar de outros. O jornalista começou pelos garçons dos bares.Um garçom de bar está sempre a par de tudo. Mas os primeiros que eleinterrogou estavam sobretudo a par das sanções muito graves que se aplicavam aesse género de empreendimento. Em certo caso, foi até tomado por umprovocador. Foi-lhe necessário encontrar Cottard em casa de Rieux para avançar umpouco. Nesse dia, Rieux e ele tinham falado mais uma vez nas vãs diligências queo jornalista fizera pelas repartições. Alguns dias depois, Cottard encontrouRambert na rua e acolheu-o com a franqueza que sempre imprimia agora às suasrelações. - Nada de novo? - perguntou ele. - Não, nada. - Não se pode contar com as repartições. Não foram feitas para acompreensão. - É verdade. Mas eu procuro outra coisa. É difícil. - Ah! - disse Cottard. - Compreendo. Ele conhecia um caminho, e a Rambert, que se admirava, explicou que hámuito frequentava os cafés de Oran, onde tinha amigos e que estava informadosobre a existência de uma organização que se ocupava desse tipo de operação. Averdade é que Cottard, cujas despesas ultrapassavam agora as receitas, tinha semetido em negócios de contrabando de produtos racionados. Assim, revendiacigarros e álcool de má qualidade cujos preços subiam sem cessar e que lhepropiciavam uma pequena fortuna. - Tem certeza? - perguntou Rambert. - Tenho, já que me fizeram uma proposta. - E não aproveitou? - Não seja desconfiado - disse Cottard, com um ar bonachão. - Nãoaproveitei porque não tenho vontade de partir. Tenho minhas razões. E acrescentou, depois de um silêncio: - Não me pergunta quais são as minhas razões? - Suponho - respondeu Rambert - que isso não seja de minha conta. - Em certo sentido, na verdade, isso não é de sua conta. Mas em outro. . .Enfim, a única coisa evidente é que me sinto bem melhor aqui desde que temos apeste conosco. O outro escutou o discurso: - Como entrar em contato com essa organização? - Ah! - disse Cottard. - Não é fácil. Venha comigo. Eram quatro horas da tarde. Sob um céu pesado, a cidade ardialentamente. Todas as lojas tinham baixado os toldos. As ruas estavam desertas.Cottard e Rambert andavam por ruas com arcadas e caminharam longo temposem falar. Era uma das horas em que a peste se tornava invisível. Esse silêncio, essa morte das cores e dos movimentos podiam ser tanto osdo verão quanto os do flagelo. Não se sabia se o ar estava carregado de ameaçasou de poeira e de ardor. Era preciso observar e refletir para chegar à peste, já queela só se traía por sinais negativos. Cottard, que tinha afinidades com ela, feznotar a Rambert, por exemplo, a ausência de cães que, normalmente, deviamestar deitados de lado, à entrada dos corredores, de língua de fora à procura de
um frescor impossível. Seguiram pelo Boulevard dês Palmiers, atravessaram a Place d’Armes edesceram para o Quartier de Ia Marine. À esquerda, um café pintado de verdeabrigava-se sob um toldo oblíquo, de grossa lona amarela. Ao entrar, Cottard eRambert enxugaram o suor da testa. Sentaram-se em cadeiras dobráveis dejardim diante de mesas de ferro verde. A sala estava absolutamente deserta.Moscas zumbiam no ar. Numa gaiola amarela pousada no balcão, um papagaio,de penas caídas, estava abatido no poleiro. Velhos quadros representando cenasmilitares pendiam das paredes, cobertos de sujeira e de teias de aranha emespessos filamentos. Em todas as mesas de ferro e diante do próprio Rambert,secavam excrementos de galinha, cuja origem ele não compreendia muito bem atéque de um canto obscuro, depois de um certo rebuliço, saiu saltitando um galomagnífico. Nesse momen’^, o calor pareceu aumentar ainda mais. Cottard tirou ocasaco e bateu na mesa. Um homenzinho, perdido num comprido avental azul,saiu do fundo, cumprimentou Cottard logo que pôde vê-lo, adiantou-se afastandoo galo com um vigoroso pontapé e perguntou, no meio dos cacarejes da ave, o queos senhores desejavam que lhes servisse. Cottard pediu vinho branco eperguntou por um certo Garcia. Segundo o homenzinho, já havia vários dias quenão o viam no café. - Acha que ele virá esta tarde? - Ora! - disse o outro. - Não estou dentro dele. Mas sabe a que horascostuma vir? - Sei, mas não é muito importante. Quero só apresentar-lhe um amigo. O garçom enxugou as mãos úmidas no avental. - Como? O senhor também se ocupa de negócios? ” - Sim - respondeu Cottard. O homenzinho fungou: - Então, volte hoje à tarde. vou mandar-lhe o garoto. Ao sair, Rambertperguntou de que negócios se tratava. - De contrabando, naturalmente. Eles fazem passar mercadorias pelasportas da cidade. Vendem com lucro. - Bem - disse Rambert. - E têm cúmplices? - Justamente. À tarde, o toldo estava levantado, o papagaio tagarelava na gaiola, e asmesas estavam rodeadas de homens em mangas de camisa. Um deles, com ochapéu de palha para trás, de camisa branca sobre o peito cor de terra queimada,levantou-se à entrada de Cottard. Um rosto regular e queimado, olhos negros epequenos, dentes brancos, dois ou três anéis nos dedos, parecia ter uns trintaanos. - Salve! - disse ele. - Vamos beber no balcão. Tomaram três rodadas emsilêncio. - E se saíssemos? - disse então Garcia. Desceram em direção ao porto, eGarcia perguntou o que queriam dele. Cottard disse-lhe que não era exatamentepara negócios que queria apresentar-lhe Rambert, mas apenas para o quechamou ”uma saída”. Garcia caminhava reto em frente e ia fumando. Fezperguntas, dizendo ”ele” ao falar de Rambert, sem parecer dar-se conta de suapresença. - Para quê? - perguntava. - A mulher está na França. - Ah!
E algum tempo depois: - Qual é sua profissão? - Jornalista. - É uma profissão em que se fala muito. Rambert não dizia nada. - É um amigo - afirmou Cottard. Caminhava em silêncio. Tinham chegado ao cais, cujo acesso estavainterditado por grandes grades. Mas dirigiram-se a uma pequena taverna onde sevendiam sardinhas fritas, cujo cheiro chegava até eles. - De qualquer maneira, isso não é comigo, mas com Raoul. E é precisoque eu o encontre. Não vai ser fácil. - Como? - perguntou Cottard, com animação. Ele está escondido? Garcia não respondeu. Perto da taverna, parou e voltou-se para Rambertpela primeira vez. - Depois de amanhã, às onze horas, na esquina do prédio da Alfândega. -Fez menção de partir, mas voltou-se para os dois homens. - Há despesas - acrescentou. - É claro - aprovou Rambert. Pouco depois, o jornalista agradeceu a Cottard:. - Oh! não - disse o outro com jovialidade. - Tenho prazer em prestar-lheum serviço. E depois você é jornalista, qualquer dia me retribui isso. Dois dias depois, Rambert e Cottard subiam as grandes ruas sem sombraque levam ao alto da nossa cidade. Uma parte do prédio da Alfândega tinha sidotransformada em enfermaria e, diante da grande porta, postavam-se pessoasvindas na esperança de uma visita que não podia ser autorizada ou à procura deinformações que, de uma hora para outra, caducariam. Em todo caso, esseajuntamento permitia muitas idas e vindas, e podia supor-se que essacircunstância não era diferente da maneira como o encontro de Garcia e deRambert tinha sido marcado. - É curiosa - disse Cottard - essa obstinação em partir. Em suma, o quese passa é bem interessante. - Não para mim - respondeu Rambert. - Oh! É claro que se arrisca alguma coisa. Mas, afinal, arriscava-se amesma coisa, antes da peste, ao atravessar uma rua muito movimentada. Nesse momento, o automóvel de Rieux parou junto deles. Tarrou dirigia, eRíeux parecia meio adormecido. Acordou para fazer as apresentações. - Já nos conhecemos - disse Tarrou. - Moramos no” mesmo hotel. Ofereceu a Rambert levá-lo para a cidade. - Não, temos um encontro aqui. Rieux olhou para Rambert: - Sim - disse este. - Ah! - admirou-se Cottard - o doutor está a par? - Aí vem o juiz de instrução - avisou Tarrou, olhando para Cottard. Este mudou de expressão. com efeito, o Sr. Othon descia a rua eavançava para eles, num passo vigoroso e compassado. Tirou o chapéu ao passarpelo pequeno grupo. - Bom dia, senhor juiz - cumprimentou Tarrou. O juiz cumprimentou os ocupantes do automóvel e, olhando para Cottarde Rambert, que tinham ficado atrás, saudou-os gravemente com a cabeça. Tarrouapresentou o capitalista e o jornalista. O juiz olhou para o céu por um segundo esuspirou, dizendo que era uma época bem triste. - Disseram-me, Sr. Tarrou, que se ocupa da aplicação de medidas
profiláticas. Permita-me que o felicite. Pensa, doutor, que a doença vai sepropagar? Rieux respondeu que era necessário esperar que não e o juiz repetiu queera preciso esperar sempre, que os desígnios da Providência eram insondáveis.Tarrou perguntou-lhe se os acontecimentos lhe haviam trazido um aumento detrabalho. - Pelo contrário, os casos que chamamos de direito comum diminuem. Sótenho que instruir infrações graves às novas disposições. Nunca se respeitaramtanto as leis antigas. - É que, em comparação - disse Tarrou -, elas parecem boas,necessariamente. O juiz abandonou o ar sonhador que assumira, com o olhar como quesuspenso do céu. E examinou Tarrou com um ar frio: - Que diferença faz? - perguntou. - Não é a lei que conta, é a condenação.Nada podemos contra isso. - Aquele - disse Cottard, quando o juiz partiu é o inimigo número um. O carro arrancou. Um pouco mais tarde, Rambert e Cottard viram Garcia chegar. Avançoupara eles sem lhes fazer sinal e disse, à guisa de cumprimento: - É preciso esperar. À volta deles, a multidão, em que predominavam mulheres, esperava numsilêncio total. Quase todas carregavam cestos que tinham a vã esperança depoder fazer passar aos parentes doentes e a ideia, ainda mais louca, de que estespoderiam utilizar suas provisões. A porta estava guardada por soldados armadose, de vez em quando, um grito estranho atravessava o pátio que ficava em frenteda porta. Na assistência, rostos inquietos voltavam-se para a enfermaria. Os três homens contemplavam esse espetáculo quando, às suas costas,um ”bom dia” claro e grave os fez voltarem-se. Apesar do calor, Raoul estavavestido muito corretamente. Alto e forte, vestia um terno jaquetão de cor escura eum chapéu de abas reviradas. Tinha o rosto bastante pálido. com os olhoscastanhos e a boca cerrada, Raoul falava de uma maneira rápida e precisa: - Vamos descer para a cidade - ordenou. - Garcia, você pode nos deixar. Garcia acendeu um cigarro e deixou-os afastarem-se. Caminharamrapidamente, acertando o passo pelo de Raoul, que se colocara no meio. - Garcia explicou-me - disse. - A coisa pode ser arranjada. De qualquermaneira, vai custar-lhe de mil francos. Rambert respondeu que aceitava. - Almoce comigo, amanhã, no restaurante espanhol do Quartier de IaMarine. Rambert concordou e Raoul apertou-lhe a mão, sorrindo pela primeiravez. Depois de sua partida, Cottard desculpou-se. Não estaria livre no diaseguinte e, além disso, Rambert não precisava dele. Quando, no dia seguinte, o jornalista entrou no restaurante espanhol,todas as cabeças se voltaram à sua passagem. O porão sombrio, situado numapequena rua amarela e seca pelo sol, só era frequentado por homens, a maiorparte de tipo espanhol. Mas logo que Raoul, instalado a uma mesa no fundo, fezum sinal ao jornalista e este se dirigiu para ele, a curiosidade desapareceu dosrostos, que voltaram aos seus pratos. Raoul tinha à sua mesa um sujeito alto,magro e mal barbeado, de ombros desmedidamente largos, rosto cavalar ecabelos espessos. Os braços compridos e delgados, cobertos de pêlos negros,
saíam de uma camisa de mangas arregaçadas. Acenou com a cabeça três vezesquando Rambert lhe foi apresentado. O seu nome não havia sido pronunciado, eRaoul referia-se a ele como ”nosso amigo”. - Nosso amigo acha possível ajudá-lo. Ele vai. . . Raoul calou-se, pois aempregada aproximava-se para servir Rambert. - Ele vai pô-lo em contato comdois de nossos amigos que o apresentarão a dois guardas que trabalham conosco.Mas a coisa não termina aí. Os próprios guardas é que devem indicar o momentopropício. O mais simples seria o senhor instalar-se durante algumas noites emcasa de um deles que mora perto das portas. Antes, porém, nosso amigo vaifacilitar-lhe os contatos necessários. Quando tudo estiver arranjado, é a ele quedeve pagar. O amigo mais uma vez sacudiu a cabeça de cavalo, sem parar demastigar a salada de tomate e pimentões que engolia. Depois, falou com um levesotaque espanhol. Propôs a Rambert que se encontrassem dois dias depois, àsoito horas da manhã, debaixo do pórtico da catedral. - Mais dois dias - observou Rambert, - É que não é fácil - disse Raoul. - É preciso encontrar as pessoas. O cavalo concordou mais uma vez e Rambert aprovou sem entusiasmo. Oresto do almoço desenrolou-se na procura de um assunto. Mas tudo se tornoumuito fácil quando Rambert descobriu que o cavalo era jogador de futebol. Elepróprio praticara esse esporte. Falou-se, portanto, no campeonato da França, dovalor dos times profissionais ingleses e da tática em W. No fim do almoço, ocavalo estava totalmente animado e tratava Rambert por tu, para persuadi-lo deque não havia lugar mais belo num time que o de centromédio. ”Compreendes”,dizia ele, ”o centro-médio é quem distribui o jogo. E distribuir o jogo, isso éfutebol.” Rambert era da mesma opinião, embora tivesse sempre jogado comocentro-avante. A discussão foi interrompida apenas por um aparelho de rádioque, depois de ter entoado em surdina melodias sentimentais, anunciou que navéspera a peste fizera cento e trinta e sete vítimas. Ninguém reagiu na sala. Ohomem de cabeça de cavalo encolheu os ombros e levantou-se. Raoul e Rambertimitaram-no. Ao partir, o centro-médio apertou a mão de Rambert com energia. - Chamo-me González - disse. Esses dois dias pareceram intermináveis a Rambert. Dirigiu-se à casa deRieux e contou-lhe com detalhes suas diligências. Depois, acompanhou o médicoem uma de suas visitas e despediu-se dele à porta da casa, onde o esperava umdoente suspeito. No corredor, um barulho de corridas e de vozes: avisavam àfamília da chegada do médico. - Espero que Tarrou não demore - disse Rieux. Parecia cansado. - A epidemia está andando muito rápido? - perguntou Rambert. Rieux disse que não era isso e que até a curva da estatística subia maisdevagar. Simplesmente, os meios de luta contra a peste não eram aindasuficientes. - Falta-nos material - disse. - Em todos os exércitos do mundo, substitui-se geralmente a falta de material por homens. Mas também há falta de homens. - Vieram médicos do exterior e sanitaristas. - Sim - disse Rieux -, dez médicos e uma centena de homens.Aparentemente, é muito. Mal chega para o estágio atual da doença. Seráinsuficiente, se a epidemia se propagar. Rieux apurou o ouvido aos ruídos do interior, depois sorriu para
Rambert. - Sim - disse -, deve apressar-se para resolver logo o caso. Uma sombra passou pelo rosto do jornalista. - Sabe, não é isso que me faz partir. - Rieux respondeu que sabia, masRambert continuou: - Creio que não sou covarde, pelo menos não sempre. Já tiveocasião de prová-lo. Só quê há ideias que não consigo suportar. O médico olhou-o de frente. - Vai encontrá-la - disse. - Talvez, mas não consigo suportar a ideia de que isso vai demorar muitoe que ela vai envelhecer durante todo este tempo. Aos trinta anos, começa-se aenvelhecer, e é preciso aproveitar tudo. Não sei se consegue me entender. Rieux murmurava que julgava compreender, quando Tarrou chegou,muito animado. - Acabo de pedir a Paneloux que se junte a nós. - E então? - perguntou o médico. - Ele refletíu e concordou. - Fico satisfeito - disse o médico. - Fico satisfeito em saber que ele émelhor que seu sermão. - Todos são assim - afirmou Tarrou. - É preciso apenas dar-lhes umaoportunidade. Sorriu e piscou o olho para Rieux. - E a minha função na vida é dar oportunidades. - Desculpe-me - disse Rambert -, mas preciso chegar a tempo. Na quinta-feira do encontro, Rambert dirigiu-se ao pórtico da catedralcinco minutos antes das oito horas. O ar estava ainda bastante fresco. No céuavançavam pequenas nuvens brancas e redondas que a vinda do calor logodesfaria. Um vago cheiro de umídade subia ainda do gramado, no entanto seco. Osol, por detrás das casas do leste, aquecia apenas o capacete da Joana d’Are todadourada que guarnecia a praça. Um relógio deu oito badaladas. Rambert ensaioualguns passos sob o pórtico deserto. Vagas salmodias chegavam-lhe do interiorcom velhos perfumes de porão e de incenso. De repente, os cânticos cessaram.Uma dezena de pequenos vultos negros saíram da igreja e puseram-se acaminhar em direção à cidade. Rambert começava a impacientar-se. Outrosvultos negros faziam a ascensão das grandes escadas e dirigiam-se para opórtico. Acendeu um cigarro, mas depois pensou que talvez não fosse permitidonaquele lugar. Às oito e quinze, os órgãos da catedral começaram a tocar em surdina.Rambert penetrou na abóbada escura. Ao fim de um instante conseguiudistinguir na nave os pequenos vultos negros que tinham passado por ele.Estavam todos reunidos a um canto, em frente a uma espécie de altarimprovisado, onde acabavam de instalar um São Roque executado às pressasnuma das oficinas da cidade. Ajoelhados, pareciam ter-se encolhido ainda mais,perdidos entre os tons cinzentos como pedaços de sombra coagulada, pouco maisespessos, aqui e ali, que a bruma na qual flutuavam. Por cima deles, os órgãosexecutavam variações sem fim. Quando Rambert saiu, González já descia as escadas e dirigia-se àcidade. - Pensei que tinha ido embora - disse ele ao jornalista. - Seria natural. Explicou que tinha esperado os amigos num outro encontro que marcara,não longe dali, às dez para as oito. Mas esperara por eles vinte minutos, em vão.
- Naturalmente, há algum problema. Nem sempre se fica à vontade notrabalho que fazemos. Propunha um outro encontro para o dia seguinte, à mesma hora, juntodo monumento aos mortos. Rambert suspirou e atirou o chapéu para a nuca. - Não é nada - concluiu González, rindo. - Pensa só em todos osdeslocamentos, os ataques e os passes que é preciso fazer para marcar um gol. - Claro - disse, ainda, Rambert -, mas a partida só dura hora e meia. O monumento aos mortos de Oran encontra-se no único lugar de onde sepode ver o mar, uma espécie de passeio que ladeia, numa distância bastantecurta, as falésias que dominam o porto. No dia seguinte, Rambert, o primeiro achegar, lia com atenção a lista dos mortos no campo de batalha. Alguns minutosdepois, aproximaram-se dois homens, olharam-no com indiferença, depois foramencostar-se ao parapeito da avenida e pareciam inteiramente absorvidos nacontemplação dos cais vazios e desertos. Eram ambos da mesma estatura,vestidos com as mesmas calças azuis e idêntica camiseta de malha azul-marinhode mangas curtas. O jornalista afastou-se um pouco, depois sentou-se numbanco e pôde observá-los à vontade. Viu então que, com certeza, não tinham maisde vinte anos. Nesse momento viu González, que caminhava em direção a ele,desculpando-se. - Estes são nossos amigos - disse, conduzindo-o na direção dos doisrapazes, que apresentou com os nomes de Mareei e Louis. De frente, pareciam-semuito, e Rambert calculou que fossem irmãos. - Pronto - disse González. - Agora a apresentação está feita. Falta fazer onegócio. Mareei ou Louis disse então que seu plantão começaria dentro de doisdias, duraria uma semana e que seria preciso escolher o dia mais conveniente.Eram quatro a guardar a porta de oeste e os dois outros eram militares decarreira. Não havia condições de envolvê-los no negócio. Não eram de confiança e,além disso, só viriam aumentar as despesas. Mas às vezes, em determinadasnoites, os dois colegas iam passar uma parte da noite na sala dos fundos de umbar que eles conheciam. Mareei ou Louis propunha assim a Rambert que fosseinstalar-se em casa deles, próximo das portas, e que esperasse que viessembuscá-lo. A passagem seria então muito fácil. Mas era preciso não perder tempo,porque se falava ultimamente em instalar postos duplos no exterior da cidade. Rambert concordou e ofereceu alguns dos seus últimos cigarros. O rapazque ainda não tinha falado perguntou então a González se a questão dopagamento estava resolvida e se podiam receber um adiantamento. - Não - disse González. - Não vale a pena, é um conhecido. As despesasserão pagas na saída. Combinaram novo encontro. González propôs um jantar no restauranteespanhol, dois dias depois. De lá, poderiam seguir para a casa dos guardas. - Na primeira noite - disse ele a Rambert -, eu te faço companhia. No dia seguinte, Rambert, ao subir ao seu quarto, cruzou com Tarrou naescada do hotel. - Vou encontrar-me com Rieux - disse. - Quer vir? - Nunca sei se o estou incomodando - disse Rambert, depois de umahesitação. - Não acho. Ele falou-me muito em você. O jornalista refletia: - Ouça - disse. - Se dispuserem de um momento depois do jantar, mesmotarde, venham os dois ao bar do hotel.
- Isso depende dele e da peste - disse Tarrou. No entanto, às onze horas da noite Rieux e Tarrou entraram no bar,pequeno e estreito. Umas trinta pessoas acotovelavam-se lá, falando muito alto.Recém-chegados do silêncio da cidade infestada, os dois pararam, um poucoaturdidos. Compreenderam a agitação ao verem que ainda serviam bebidasalcoólicas. Rambert estava numa ponta do balcão e fazia-lhes sinais do alto deseu banco. Eles o cercaram, Tarrou empurrando, com tranqüilidade, um freguêsbarulhento. - O álcool não os assusta? - Não - respondeu Tarrou. - Pelo contrário. Rieux aspirou o cheiro de ervas amargas do seu copo. Era difícil nessetumulto, mas Rambert parecia sobretudo ocupado em beber. O médico não podiajulgar ainda se ele estava bêbado. Numa das duas mesas que ocupavam o restodo local onde se encontravam, um oficial da Marinha, com uma mulher em cadabraço, relatava a um gordo interlocutor congestionado uma epidemia de tifo noCairo. ”Acampamentos”, dizia ele, ”tinham feito acampamentos para os indígenas,com tendas para doentes e, em toda a volta, um cordão de sentinelas queatiravam contra a família quando ela tentava trazer clandestinamente remédioscaseiros. Era duro, mas era certo.” Na outra mesa, ocupada por rapazeselegantes, a conversa era incompreensível e perdia-se nos compassos do SaintJames Infirmary, derramados por um pick-up colocado no alto. - Está contente? - perguntou Rieux, elevando a voz. - Está próximo - disse Rambert. - Talvez esta semana. - É pena - gritou Tarrou. - Por quê? Tarrou olhou para Rieux. - Oh! - disse este. - Tarrou diz isso porque acha que você podia nos serútil aqui. Mas eu compreendo muito bem o seu desejo de partir. Tarrou ofereceu outra rodada. Rambert desceu do banco e olhou-o defrente pela primeira vez: - Em que poderia eu ser-lhes útil? - Bem - disse Tarrou, estendendo a mão para o copo, sem pressa. - Nasnossas equipes sanitárias. Rambert retomou o ar de profunda reflexão que lhe era habitual e subiude novo no banco. - Essas equipes não lhe parecem úteis? - perguntou Tarrou, que acabavade beber e olhava para Rambert com atenção. - Muito úteis - respondeu o jornalista. E bebeu. Rieux notou que sua mãotremia. Pensou que com toda a certeza, sim, ele estava totalmente bêbado. No dia seguinte, quando Rambert entrou pela segunda vez no restauranteespanhol, passou no meio de um pequeño grupo de homens que tinham puxadocadeiras para a calçada e saboreavam uma tarde verde e dourada em que o calorcomeçava apenas a abrandar. Fumavam um tabaco de cheiro acre. No interior, orestaurante estava quase deserto. Rambert foi sentar-se à mesa do fundo, ondeencontrara González j pela primeira vez. Disse à empregada que esperaria. Eram lsete e meia. Pouco a pouco, os homens voltaram à sala de] jantar e instalaram-se.Começaram a servi-los, e a abóbada j muito baixa encheu-se de ruídos detalheres e de conversas! surdas. Às oito horas, Rambert ainda esperava.Acenderam a luz. Novos clientes instalaram-se à mesa. Pediu o jantar. Às oito emeia, terminara sem ter visto González nem os dois rapazes. Fumou. A sala
esvaziava-se lentamente. Lá fora, a noite caía muito rapidamente. Uma brisamorna que vinha do mar levantava suavemente as cortinas das janelas. Às novehoras, Rambert viu que a sala estava vazia e que a empregada olhava para elecom espanto. Pagou e saiu. Em frente ao restaurante um café estava aberto.Rambert instalou-se no balcão para vigiar a entrada do restaurante. Às nove emeia dirigiu-se ao seu hotel, procurando imaginar como havia de encontrarGonzález, cujo endereço não tinha, com o coração desanimado por todas asprovidências que teria de retomar. Foi nesse momento, na noite atravessada por ambulâncias apressadas,que ele compreendeu, como viria a dizer ao Dr. Rieux, que durante todo essetempo tinha de algum modo esquecido a mulher, para dedicar-se inteiramente <à busca de uma abertura nos muros que o separavam dela. Mas foi nessemomento também que, com todos os caminhos mais uma vez fechados, ele aencontrou de novo no centro do seu desejo e com uma irrupção tão súbita de dorque começou a correr para o hotel a fim de fugir a essa queimadura atroz que, noentanto, levava consigo e que lhe devorava as têmporas. Entretanto, no dia seguinte muito cedo, procurou Rieux para perguntar-lhe como poderia encontrar Cottard. - Tudo o que me resta fazer - disse - é seguir de novo a pista. - Venha amanhã à noite - disse Rieux. - Tarrou pediu-me que convidasseCottard, não sei para quê. Ele deve chegar às dez horas. Venha às dez e meia. Quando, no dia seguinte, Cottard chegou à casa do médico, Tarrou eRieux falavam de uma cura inesperada que ocorrera no serviço deste último. - Um em dez. Teve sorte - dizia Tarrou. - Bem! - exclamou Cottard. - Então não era peste. Garantiram-lhe que setratava efetivamente da doença. - Não é possível, já que está curado. Sabem tão bem quanto eu que apeste não perdoa. - Em geral, não - disse Rieux. - Mas, com um pouco de obstinação, tem-se surpresas. Cottard ria. - Não me parece. Ouviu os números, esta tarde? Tarrou, que olhava parao capitalista com benevolência, respondeu que conhecia os números e que asituação era grave, mas que provava isso? Provava que eram necessárias medidasainda mais excepcionais. - O senhor já as tomou. - Já, mas é preciso que cada um as tome por conta própria. Cottard olhava para Tarrou sem compreender. Este disse que homensdemais continuavam inativos, que a epidemia dizia respeito a todos e que cadaum devia cumprir seu dever. As equipes voluntárias estavam abertas a todos. - É uma ideia - disse Cottard -, mas isso não servirá para nada. A peste éforte demais. - Vamos saber - retorquiu pacientemente Tarrou quando tivermos tentadotudo. Durante esse tempo Rieux, à sua secretária, copiava fichas. Tarroucontinuava a olhar para o capitalista, que se agitava na cadeira. - Por que não se junta a nós, Sr. Cottard? O outro levantou-se com ar ofendido e pegou o chapéu redondo: - Não é minha profissão. - Depois, num tom de bravata, acrescentou: -Além disso, sinto-me bem na peste. Não vejo por que haveria de me empenhar em
fazê-la cessar. Tarrou bateu na testa, como que iluminado por uma verdade súbita. - Ah! É verdade, ia me esquecendo, sem isso, o senhor seria preso. Cottard estremeceu e agarrou-se à cadeira, como se fosse cair. Rieuxtinha parado de escrever e olhava-o com um ar sério e interessado. - Quem lhe disse isso? - gritou o capitalista. Tarrou mostrou-se surpresoe respondeu: - Mas o senhor mesmo. Ou, pelo menos, foi o que o doutor e eu julgamoscompreender. E como Cottard, invadido de repente por uma raiva forte demais para ele,gaguejasse palavras incompreensíveis, acrescentou: - Não se irrite. Não será o doutor nem eu que vamos denunciá-lo. A suahistória não nos diz respeito. E, além disso, a polícia é algo de que jamaisgostamos. Vamos, sente-se. O capitalista olhou para a cadeira e sentou-se, após uma hesitação. Ummomento depois, suspirou. - É uma velha história - reconheceu - que eles desenterraram. Achei queestava esquecida. Mas houve um que falou. Mandaram chamar-me e disseramque me mantivesse à disposição deles até o fim do inquérito. Compreendi queacabariam por me prender. - É grave? - perguntou Tarrou. - Depende da interpretação. De qualquer forma, não é um assassinato,em todo caso. - Prisão ou trabalhos forçados? Cottard parecia muito abatido. - Prisão, se tiver sorte... Mas logo depois, recomeçou, com veemência: - Foi um erro. Todos erram. E não consigo suportar a ideia de ser presopor isso, de ser separado da minha casa, dos meus hábitos, de todos os queconheço. - Como? - perguntou Tarrou. - Foi por isso que resolveu enforcar-se? - Foi. Uma bobagem, é claro. Rieux falou pela primeira vez e disse a Cottard que compreendia a suainquietação, mas que talvez tudo se solucionasse. - Ah! Por ora, sei que nada tenho a temer. - Vejo - disse Tarrou - que não entrará para nossas equipes. O outro, que fazia girar o chapéu entre as mãos, levantou para Tarrou umolhar incerto. - Não me queiram mal por isso. - Claro que não. Mas tente, ao menos - disse Tarrou, sorrindo -, nãopropagar voluntariamente o micróbio. Cottard protestou que não tinha querido a peste, que ela vieraespontaneamente e que não era culpa sua se ela o beneficiava no momento. Equando Rambert chegou à porta, o capitalista acrescentou com muita energia navoz: - De resto, minha ideia é que não conseguirá nada. Rambert soube queCottard desconhecia o endereço de González, mas que podiam sempre voltar aopequeno café. Marcaram encontro para o dia seguinte. E, como Rieuxmanifestasse o desejo de ser informado, Rambert convidou-o a ir com Tarrou aoseu quarto, no fim da semana, a qualquer hora da noite. De manhã, Cottard e Rambert foram ao café e deixaram recado para
Garcia marcando encontro para a tarde, ou no dia seguinte, em caso deimpedimento. À tarde, esperaram em vão. No dia seguinte, Garcia estava lá.Ouvia em silêncio a história de Rambert. Não estava a par, mas sabia que haviamfechado bairros inteiros, durante vinte e quatro noras, a fim de proceder averificações domiciliares. Era possível que González e os dois rapazes nãotivessem conseguido atravessar as barreiras. Tudo o que podia fazer era colocá-lode novo em contato com Raoul. Naturalmente, não seria antes de dois dias. - Compreendo - disse Rambert. - É preciso recomeçar tudo. Dois dias depois, na esquina de uma rua, Raoul confirmou a hipótese deGarcia: os bairros inferiores tinham sido fechados. Era preciso entrar novamenteem contato com González. Dois dias depois, Rambert almoçava com o jogador defutebol. - É uma idiotice - dizia. - Devíamos ter combinado uma maneira de nosencontrarmos. Essa era também a opinião de Rambert. - Amanhã de manhã, iremos à casa dos garotos e trataremos de resolvertudo. No dia seguinte, os garotos não estavam em casa. Deixaram-lhe recadopara que aparecesse no dia seguinte, ao meio-dia, na Place du Lycée. E Rambertvoltou para casa com uma expressão que impressionou Tarrou quando oencontrou à tarde: - Algum problema? - perguntou-lhe. - Fui obrigado a recomeçar - respondeu Rambert. E renovou o convite: - Apareça esta noite. À noite, quando os dois homens penetraram no quarto de Rambert, eleestava estendido na cama. Levantou-se e encheu os copos que tinha preparado.Rieux, pegando o seu, perguntou-lhe se as coisas estavam bem encaminhadas. Ojornalista respondeu que tinha feito tudo de novo, que chegara ao mesmo ponto eque teria em breve o seu último encontro. Bebeu e acrescentou: - Naturalmente, eles não virão. - É preciso não fazer disso um princípio - disse Tarrou. - Os senhores não compreenderam ainda - respondeu Rambert,encolhendo os ombros. - O quê? - A peste. - Ah! - exclamou Rieux. - Não, não compreenderam que consiste em recomeçar. Rambert foi a um canto do quarto e abriu um pequeno fonógrafo. - Que disco é este? - perguntou Tarrou. - Conheço a música. Rambert respondeu que era o Saint James Infirmary. No meio do disco,ouviram-se dois tiros dispararem ao longe. - Um cão ou uma fuga - disse Tarrou. Um momento depois, o disco acabou e a sirene de uma ambulância sedefiniu, aumentou, passou sob as janelas do hotel, diminuiu e finalmenteextinguiu-se. - Este disco não é nada bom - disse Rambert. E além disso, já o ouvi pelomenos dez vezes hoje. - Gosta tanto assim dele? - Não, mas só tenho este, E um momento depois, acrescentou:
- Eu não disse que tudo consiste em recomeçar? Perguntou a Rieux comoiam as equipes. Havia cinco grupos trabalhando. Esperavam criar outros. Ojornalista tinha se sentado na cama e parecia preocupado com as unhas. Rieuxexaminava-lhe a silhueta curta e robusta, curvada à beira da cama. Descobriu derepente que Rambert o fitava. - Sabe, doutor, pensei muito na sua organização. Se não estou nela, éporque tenho minhas razões. Quanto ao resto, creio que saberia ainda sacrificar aminha vida: fiz a guerra na Espanha. - De que lado? - perguntou Tarrou. - Do lado dos vencidos. Mas desde então, pensei um pouco. - Em quê? - insistiu Tarrou. - Na coragem. Agora, sei que o homem é capaz de grandes ações. Mas senão for capaz de um grande sentimento, não me interessa. - Temos a impressão de que ele é capaz de tudo disse Tarrou. - Não. É incapaz de sofrer ou de ser feliz por muito tempo. Portanto, não écapaz de nada que preste. Olhou para eles e continuou: - Vejamos, Tarrou, você é capaz de morrer por um amor? - Não sei, mas parece-me que não, agora. - Está vendo? Você é capaz de morrer por uma ideia, é visível a olho nu.Pois bem, estou farto das pessoas que morrem por uma ideia. Não acredito emheroísmo. Sei que é fácil e aprendi que é criminoso. O que me interessa é que seviva e que se morra pelo que se ama. Rieux escutara o jornalista com atenção. Sem deixar de olhar para ele,disse, suavemente: - O homem não é uma ideia, Rambert. O outro saltou da cama com o rosto inflamado de paixão. - É uma ideia, e uma ideia curta, a partir do momento em que se desviado amor. E, justamente, nós já não somos capazes de amar. Resignemo-nos,doutor. Esperemos vir a sê-lo e, se verdadeiramente não for possível, esperemos alibertação geral sem brincar de herói. Não irei mais longe. Rieux levantou-se com um ar de súbito cansaço. - Tem razão, Rambert, tem toda a razão, e por nada deste mundo eugostaria de demovê-lo do que vai fazer, que me parece justo e bom. Mas devodizer-lhe uma coisa: não se trata de heroísmo. Trata-se de honestidade. É umaideia que talvez faça rir, mas a única maneira de lutar contra a peste é ahonestidade. - Õ que é honestidade? - perguntou Rambert, com um ar subitamentesério. - Não sei o que ela é em geral. Mas no meu caso, sei que consiste em fazero meu trabalho. - Ah! - disse Rambert com raiva. - Não sei qual é o meu trabalho. Naverdade, talvez esteja errado ao escolher o amor. Rieux o enfrentou: - Não - disse com energia -, não está errado. Rambert olhava-os,pensativo. - Creio que ambos nada têm a perder em tudo isso. É mais fácil ficar dolado bom. Rieux esvaziou o copo. - Vamos - disse. - Temos muito que fazer. E saiu.
Tarrou seguiu-o, mas pareceu mudar de ideia no movimento de sair;voltou-se para o jornalista e disse: - Sabe que a mulher de Rieux se encontra numa casa de saúde a algumascentenas de quilómetros daqui? Rambert fez um gesto de surpresa, mas Tarrou já saíra. 1 Muito cedo, nodia seguinte, Rambert telefonou para o médico. - Aceitaria que eu trabalhasse com o senhor até encontrar um meio dedeixar a cidade? Houve um silêncio do outro lado da linha, e depois Rieux disse: - Sim, Rambert. Muito obrigado, Assim, durante semanas, os prisioneiros da peste debateram-se comopuderam. E alguns, como Rambert, chegavam até a imaginar, como se vê, queainda agiam como homens livres, que ainda podiam escolher. Mas, na realidade,podia-se dizer nesse momento, nos meados do mês de agosto, que a peste tudodominara. Já não havia então destinos individuais, mas uma história coletiva queera a peste e sentimentos compartilhados por todos. O maior era a separação e oexílio, com o que isso comportava de medo e de revolta. Eis por que o narradoracha conveniente, no auge do calor e da doença, descrever de maneira geral e atítulo de exemplo as violências dos nossos concidadãos vivos, os enterros dosdefuntos e o sofrimento dos amantes separados. Foi no meio desse ano que o vento se ergueu e soprou durante vários diasna cidade empestada. O vento é particularmente temido pelos habitantes deOran, pois não encontra nenhum obstáculo natural no planalto em que ela estáconstruída e invade assim as ruas com toda a violência. Depois desses longosmeses em que nem uma gota de água refrescara a cidade, ela se recobrira de umacamada cinzenta que se descamava ao sopro do vento. Esse levantava assimondas de poeira e de papéis que batiam nas pernas dos transeuntes, agora maisraros. Passavam apressados pelas ruas, curvados para a frente, com a mão ouum lenço sobre a boca. À noite, em lugar das reuniões em que se tentavaprolongar o mais possível esses dias em que cada um podia ser o último,encontravam-se pequenos grupos de pessoas com pressa de voltar para casa oude entrar nos cafés, se bem que durante alguns dias, com o crepúsculo quechegava bem mais rápido nessa época, as ruas ficavam desertas e só o ventosoltava lamúrias contínuas. Do mar agitado e sempre invisível, vinha um cheirode algas e de sal. Essa cidade deserta, branca de poeira, saturada de odoresmarinhos, toda sonora dos gritos do vento, gemia então corno uma ilha infeliz. Até aqui, a peste tinha feito muito mais vítimas nos bairros periféricos,mais povoados e menos confortáveis do que no centro da cidade. Mas ela pareceude repente aproximar-se e instalar-se também nos bairros comerciais. Oshabitantes acusavam o vento de transportar os germes da infecção. ”Ele baralhaas cartas”, dizia o gerente do hotel. Fosse como fosse, porém, os bairros do centrosabiam que sua vez tinha chegado ao ouvirem vibrar muito perto deles, na noite,e cada vez mais frequentemente, a sirene das ambulâncias que faziam ressoarsob suas janelas o apelo monótono e desapaixonado da peste. Até no próprio interior da cidade, teve-se a ideia de isolar certos bairrosparticularmente castigados e de só autorizar a saída dos homens cujos serviçoseram indispensáveis. Os que ali viviam até então não puderam deixar deconsiderar essa medida como uma peça que lhes havia sido pregadaespecialmente e, em todo caso, pensavam, por contraste, nos habitantes dos
outros bairros como homens livres. Estes, por outro lado, nos seus momentosdifíceis, consolavam-se ao imaginar que outros eram ainda menos livres que eles.”Há sempre alguém mais prisioneiro que eu”, era a frase que resumia então aúnica esperança possível. Mais ou menos nessa época, houve também uma recrudescência deincêndios, sobretudo nos bairros residenciais à porta oeste da cidade. Asinformações revelaram que se tratava de pessoas egressas da quarentena e que,enlouquecidas pelo luto e pela desgraça, ateavam fogo às suas casas na ilusão dedizimar a peste. Foi muito difícil combater esses empreendimentos, cujafrequência submetia bairros inteiros a um perigo constante devido à violência dovento. Depois de ter demonstrado em vão que a desinfecção das casas, feita pelasautoridades, bastava para excluir qualquer risco de contágio, foi necessárioinstituir penas severas contra os incendiários inocentes. E sem dúvida, não era apena de prisão que fazia recuar esses infelizes, mas a certeza, comum a todos oshabitantes, de que uma pena de prisão equivalia a uma pena de morte emconsequência da excessiva mortalidade verificada na penitenciária municipal.Evidentemente, essa crença não era destituída de fundamento: por motivosóbvios, parecia que a peste se empenhara em atacar particularmente aqueles quetinham adquirido o hábito de viver em grupo: soldados, religiosos e prisioneiros.Apesar do isolamento de certos detidos, uma prisão é uma comunidade e a provadisto é que na nossa prisão municipal os guardas, tanto quanto os presos,pagavam seu tributo à doença. Do ponto de vista superior da peste, todos aqueleshomens, desde o diretor ao último dos detidos, estavam condenados e, talvez pelaprimeira vez, reinava na prisão uma justiça absoluta. Foi em vão que as autoridades tentaram introduzir hierarquia nessenivelamento, concebendo a ideia de condecorar os guardas da prisão mortos noexercício de suas funções. Como fora decretado o estado de sítio e, de certaforma, podia-se considerar que os guardas da prisão estavam mobilizados, amedalha militar lhes era concedida a título póstumo. No entanto, se os detidosnão fizeram ouvir nenhum protesto, os meios militares não aceitaram bem a ideiae fizeram notar, com razão, que se podia estabelecer no espírito do público umalamentável confusão. Fez-se justiça ao seu pedido e pensou-se que o maissimples era atribuir aos guardas a medalha da epidemia. Para os primeiros,porém, o mal estava feito, não se podia pensar em retirar-lhes as condecorações,e os meios militares continuaram a manter, o seu ponto de vista. Por outro lado,no que se refere à medalha da epidemia, ela apresentava o inconveniente de nãoproduzir o efeito moral que se obtivera através da atribuição de umacondecoração militar, já que, em tempo de epidemia, era banal obter umacondecoração desse género. Todos ficaram descontentes. Além disso, a administração da penitenciária não pôde atuar como asautoridades religiosas e, em menor escala, as militares. Na verdade, os mongesdos dois únicos conventos da cidade tinham sido dispersados e alojadosprovisoriamente em casa de famílias piedosas. Da mesma forma, sempre quepossível, eram destacadas pequenas companhias das casernas para seaquartelarem em escolas e edifícios públicos. Assim, a doença que,aparentemente, tinha forçado os habitantes à solidariedade de sitiados quebravaao mesmo tempo as associações tradicionais e devolvia os indivíduos à suasolidão. Isso causava tumultos. Pode-se pensar que todas essas circunstâncias, acrescentadas ao vento,levaram também o incêndio a certos espíritos. As portas da cidade foram
atacadas de novo durante a noite e por várias vezes, mas dessa feita porpequenos grupos armados. Houve troca de tiros, feridos e algumas fugas. Ospostos de guarda foram reforçados e essas tentativas cessaram com certa rapidez.No entanto, isso bastou para levantar na cidade um sopro de revolução queprovocou algumas cenas de violência. Casas incendiadas ou fechadas por motivossanitários foram saqueadas. A bem da verdade, é difícil supor que esses atostenham sido premeditados. Na maior parte das vezes, uma oportunidade súbitalevava pessoas até então respeitáveis a ações repreensíveis que eram logoimitadas. Encontraram-se, assim, indivíduos furiosos capazes de se precipitarnuma casa ainda em chamas na presença do próprio proprietário, imbecilizadopela dor. Diante de sua indiferença, o exemplo dos primeiros foi seguido pormuitos espectadores e nessa rua obscura, à luz do incêndio, viram-se fugir portodos os lados sombras deformadas pelas chamas moribundas e pelos objetos oumóveis que carregavam nos ombros. Foram incidentes que forçaram asautoridades a assimilar o estado de peste ao estado de sítio e a aplicar as leisdecorrentes. Fuzilaram-se dois ladrões, mas não é certo que isso impressionasseos outros, pois no meio de tantos mortos, as duas execuções passaramdespercebidas: eram uma gota de água no oceano. E na verdade, cenassemelhantes se desenrolaram com bastante frequência sem que as autoridadesfizessem menção de intervir. A única medida que pareceu impressionar oshabitantes foi a instituição do toque de recolher. A partir de onze horas,mergulhada na noite completa, a cidade era de pedra. Sob os céus enluarados, ela alinhavava os muros esbranquiçados e suasruas retilíneas, jamais manchadas pela massa negra de uma árvore, jamaisperturbadas pelos passos de um transeunte ou pelo latido de um cão. A grandecidade silenciosa não passava então de um aglomerado de cubos maciços einertes, entre os quais as efígies taciturnas de benfeitores esquecidos ou degrandes homens antigos, sufocados para sempre no bronze, tentavam sozinhos,com seus falsos rostos de pedra ou de bronze, evocar uma imagem degradada doque fora o homem. Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nasencruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reinoimóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de umanecrópole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito calar, enfim, todas asvozes. Mas a noite também estava em todos os corações, e as verdades, como aslendas que se contavam sobre os enterros, não eram feitas para tranqüilizarnossos concidadãos. Porque é efetivamente necessário falar dos enterros, e onarrador pede desculpas. Sente naturalmente a crítica que lhe poderia ser feita arespeito, mas a única justificativa é que houve enterros durante toda essa época eque, de certo modo, o obrigaram, como obrigaram a todos os nossos concidadãos,a preocupar-se com enterros. Não é que ele goste desse tipo de cerimónias,preferindo, pelo contrário, a sociedade dos vivos, e, para dar um exemplo, osbanhos de mar. Mas, afinal, os banhos de mar tinham sido suprimidos, e asociedade dos vivos receava durante todo o dia ser obrigada a ceder lugar àsociedade dos mortos. Era a evidência. Na verdade era sempre possível esforçar-se por não vê-la, fechar os olhos e recusá-la, mas a evidência tem uma forçaterrível que acaba sempre vencendo. Qual o meio, por exemplo, de recusar osenterros no dia em que nossos entes queridos precisam ser enterrados? Pois bem, o que caracterizava no início nossas cerimónias era a rapidez!Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a
pompa fúnebre fora suprimida. Os doentes morriam longe da família e tinhamsido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinhapassavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora.Naturalmente, a família era avisada, mas, na maior parte dos casos, não podiadeslocar-se por estar de quarentena, se tinha vivido perto do doente. No caso de afamília não morar com o defunto, apresentava-se à hora indicada da partida parao cemitério, depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão. Suponhamos que essa formalidade se passara no hospital auxiliar de quese ocupava o Dr. Rieux. A escola tinha uma saída por trás do edifício principal.Num grande cómodo que dava para o corredor, amontoavam-se os caixões. Nopróprio corredor a família encontrava um único caixão, já fechado. Passava-selogo ao mais importante, quer dizer, fazia-se o chefe da família assinar papéis.Em seguida, colocava-se o corpo num carro que podia ser um verdadeiro carrofunerário ou uma ambulância transformada. Os parentes tomavam um dos táxisainda autorizados e, a toda a velocidade, os carros dirigiam-se ao cemitério porruas exteriores. À porta, os guardas faziam parar o cortejo, davam umacarimbada no salvo-conduto oficial, sem o qual era impossível ter o que nossosconcidadãos chamam de última morada, desapareciam, e os carros iam colocar-se perto de um quadrado onde numerosas covas esperavam que as enchessem.Um padre acolhia o corpo, pois os serviços fúnebres tinham sido suprimidos naigreja. Tiravam o caixão para as preces, passavam-lhe uma corda, era arrastado,deslizava, batia no fundo, o padre agitava o seu hissope e já a primeira pá deterra caía sobre o esquife. A ambulância partira urr, pouco antes para sesubmeter a uma desinfecção e, enquanto as pás de terra ressoavam cada vezmais surdas, a família entrava num táxi. Quinze minutos depois, chegava à casa. Assim, tudo se passava na verdade com o máximo de rapidez e o mínimode riscos. E, sem dúvida, no princípio pelo menos, é evidente que o sentimentonatural das famílias se ofendia. Em tempos de peste porém não é possível levarem conta semelhantes considerações: tinha-se sacrificado tudo à eficácia. Alémdisso, se a princípio o moral da população se ressentira com essas práticas,porque o desejo de ser enterrado decentemente é muito mais profundo do que sesupõe, pouco depois, por felicidade, o problema do abastecimento tornou-sedelicado e o interesse dos habitantes derivou para preocupações mais imediatas.Absorvidas pelas filas que era preciso fazer, pelas providências a tomar e pelasformalidades a cumprir caso quisessem comer, as pessoas não tiveram tempo dese ocupar da maneira como se morria à sua volta e como elas próprias morreriamum dia. Assim, essas dificuldades materiais que deviam ser um mal revelaram-sedepois um benefício. E tudo teria corrido bem, se a epidemia não se tivessealastrado, como já vimos. Porque os caixões escassearam, faltou pano para as mortalhas e lugarnos cemitérios. Foram necessárias algumas precauções. O mais simples, e aindapor razões de eficácia, pareceu ser agrupar as cerimónias e, quando a coisa eranecessária, multiplicar as viagens entre o hospital e o cemitério. Assim, no quediz respeito ao serviço de Rieux, o hospital dispunha nesse momento de cincocaixões. Uma vez cheios, a ambulância os transportava. No cemitério eramesvaziados, os corpos cor de ferro eram colocados em macas e esperavam numlocal preparado para esse fim. Os caixões eram regados com uma solução anti-séptica e levados novamente para o hospital, onde a operação recomeçava tantasvezes quantas fossem necessárias. A organização era, portanto, muito boa e oprefeito mostrava-se satisfeito. Disse até a Rieux que afinal isso valia mais que as
carretas mortuárias conduzidas por negros, tal como se lia nas cerimónias deantigas pestes. - Sim - respondeu Rieux -, é o mesmo enterro, mas nós fazemos fichas. Oprogresso é incontestável. Apesar desses êxitos de administração, o caráter desagradável de que serevestiam agora as formalidades obrigou a prefeitura a afastar os parentes dacerimónia. Tolerava-se apenas que viessem até a porta do cemitério e nem issoera oficial. Sim, pois, no que se refere à última cerimónia, as coisas tinhammudado um pouco. Num extremo do cemitério, num local coberto de lentisco,tinham sido abertas duas enormes fossas. Havia a fossa dos homens e a dasmulheres. Sob esse aspecto, as autoridades respeitavam as conveniências, e foisó muito mais tarde que, pela força das circunstâncias, este último pudordesapareceu e se enterraram de qualquer maneira, uns sobre os outros, sempreocupações de decência, os homens e as mulheres. Felizmente, essa confusãoextrema marcou apenas os últimos momentos do flagelo. No período de que nosocupamos, a separação das fossas existia, e as autoridades eram muito exigentesem relação a isso. No fundo de cada uma delas, uma espessa camada de cal vivafumegava e fervilhava. Nas bordas do mesmo buraco, um montículo da mesmacal deixava suas bolhas arrebentarem ao ar livre. Depois de acabadas as viagensda ambulância, levavam-se as macas em cortejo, deixavam escorregar para ofundo, mais ou menos ao lado uns dos outros, os corpos desnudados eligeiramente retorcidos que, nesse momento, eram recobertos de cal viva e depois,de terra, mas só até uma certa altura, a fim de poupar espaço para os futuroshóspedes. No dia seguinte, os parentes eram convidados a assinar um registro, oque mostra a diferença que pode haver entre os homens e, por exemplo, os cães:a verificação era sempre possível. Para todas essas operações era preciso pessoal e este estava sempreprestes a faltar. Muitos desses enfermeiros e coveiros, primeiros-oficiais, depoisimprovisados, morreram de peste. Por mais precauções que se tomassem, ocontágio acabava por se fazer um dia. No entanto, quando se pensa bem, o maisextraordinário é que nunca faltaram homens para exercer essa profissão durantetodo o tempo da epidemia. O período crítico ocorreu um pouco antes de a pesteter atingido o seu auge, e as inquietações do Dr. Rieux eram entãofundamentadas. Nem para os trabalhos especializados, nem para o que sechamavam os trabalhos grosseiros, a mãode-obra era suficiente. Mas, a partir domomento em que a peste se apossou realmente de toda a cidade, então seupróprio excesso provocou consequências bastante cómodas, pois ela desorganizoua vida económica e suscitou assim um número considerável de desempregados.Na maior parte dos casos, estes não permitiam recrutamento para os técnicos,mas os trabalhos grosseiros encontraram-se extremamente facilitados. A partirdesse momento, na realidade, viu-se sempre a miséria mostrar-se mais forte queo medo, tanto mais que o trabalho era pago na proporção dos riscos. Os serviçossanitários puderam dispor de uma lista de pretendentes e, logo que havia umavaga, avisavam-se os primeiros da lista que, salvo no caso de terem tambémentrado em férias no intervalo, não deixavam de se apresentar. Foi assim que oprefeito que hesitara muito tempo em utilizar os condenados temporários oucondenados à prisão perpétua, para esse género de trabalhos, pôde evitar que sechegasse a esse extremo. Enquanto houvesse desempregados, ele era de opiniãoque se podia esperar. Bem ou mal, o fato é que até o fim do mês de agosto, nossos concidadãos,
puderam, pois, ser conduzidos à sua última morada, se não decentemente, pelomenos com uma ordem suficiente para que a administração mantivesse aconsciência de que cumpria seu dever. Mas é necessário antecipar um pouco asequência dos acontecimentos para relatar os últimos procedimentos a que foipreciso recorrer. com efeito, no estágio em que a peste se manteve, a partir domês de agosto o acúmulo de vítimas ultrapassou em muito as possibilidades quenosso pequeno cemitério podia oferecer. De nada servira derrubar muros, abriraos mortos uma saída para os terrenos vizinhos: em breve tornou-se necessárioencontrar outra coisa. Decidiu-se, em primeiro lugar, fazer os enterros à noite, oque logo dispensou certos cuidados. Puderam amontoar-se os corpos cada vezmais numerosos nas ambulâncias. E alguns retardatários que, contra todas asregras, ~se encontravam ainda nos bairros exteriores depois do toque de recolher(ou aqueles que o dever levava para lá) encontravam por vezes longasambulâncias brancas que corriam a toda a velocidade, fazendo soardiscretamente a sirene nas ruas vazias da noite. Apressadamente, os corpos eramlançados nas fossas. Mal tinham acabado de cair e já as pás de cal se abatiamsobre os rostos, e a terra os cobria de modo anónimo, nas covas que se abriamcada vez mais profundas. Um pouco depois, contudo, foi preciso procurar outro lugar, tomar outrasmedidas. Um decreto da prefeitura expropriou os jazigos perpétuos e todos osrestos exumados foram encaminhados ao forno crematório. Em breve, tornou-senecessário conduzir os próprios mortos da peste para a cremação. Mas, então, foipreciso utilizar o antigo forno de incineração que se encontrava a leste da cidade,fora das portas. Afastou-se para mais longe o piquete da guarda e um empregadoda prefeitura facilitou muito a tarefa das autoridades ao aconselhar o uso dosbondes que antigamente serviam à orla marítima e que se encontravamdesativados. Para esse fim, arrumou-se o interior dos veículos retirando-se osassentos e desviou-se a linha para o forno, que se tornou, assim, uma estaçãofinal. Ê durante todo o fim do verão, como em meio às chuvas do outono, erapossível ver passar, à beira-mar, no coração de cada noite, estranhos cortejos debondes sem passageiros, oscilando acima do mar. Os habitantes acabaramsabendo do que se tratava. E, apesar das patrulhas que proibiam o acesso à orlamarítima, alguns grupos conseguiam insinuar-se com certa frequência por entreos rochedos escarpados sobre as vagas para atirar flores aos carros, à passagemdos bondes. Ouviam-se, então, solavancos dos veículos, na noite de verão, comsua carga de flores e de mortos. Pela manhã, em todo caso, nos primeiros dias, um vapor espesso enauseabundo pairava sobre os bairros orientais da cidade. Na opinião dosmédicos, essas exalações, embora desagradáveis, não eram nocivas a ninguém.Mas os habitantes desses bairros ameaçaram imediatamente abandoná-los,persuadidos de que a peste assim se abatia também sobre eles do alto dos céus,de modo que as autoridades foram obrigadas a desviar a fumaça por um sistemade canalizações complicadas e os habitantes acalmaram-se. Só nos dias de muitovento um vago cheiro vindo do leste lhes lembrava que estavam instalados numanova ordem e que, todas as noites, as chamas da peste devoravam a sua tribo. Foram essas as consequências extremas da epidemia. Mas, felizmente,ela não aumentou depois, porque se pode calcular que a engenhosidade denossas repartições, as disposições da prefeitura e até mesmo a capacidade deabsorção do forno poderiam ter sido ultrapassadas. Rieux sabia que se tinham
previsto então soluções desesperadas, como o lançamento dos cadáveres ao mar,e imaginava facilmente sua espuma monstruosa sobre a água azul. Sabiatambém que, se as estatísticas continuassem a subir, nenhuma organização, pormelhor que fosse, resistiria; que os homens viriam a morrer amontoados eapodrecer na rua, apesar da prefeitura, e que a cidade veria, nas praças públicas,os mortos agarrarem-se aos vivos, com um misto de ódio legítimo e de estúpidaesperança. De qualquer forma era esse tipo de evidência ou de apreensão quemantinha, em nossos concidadãos, o sentimento do exílio e. da separação. A esserespeito, o narrador sabe perfeitamente quanto é lamentável não poder relataraqui algo de verdadeiramente espetacular como, por exemplo, algum heróialtruísta ou alguma ação brilhante, semelhantes aos que se encontram nasvelhas histórias. É que nada é menos espetacular que um flagelo e, pela suaprópria duração, as grandes desgraças são monótonas. Na lembrança dossobreviventes, os dias terríveis da peste não surgem como grandes chamasintermináveis e cruéis e sim como um interminável tropel que tudo esmaga à suapassagem. Não, a peste nada tinha a ver com as grandes imagens exaltadas quetinham perseguido o Dr. Rieux no princípio da epidemia. Ela era, em primeirolugar, uma administração prudente e impecável de bom funcionamento. É assimque, diga-se entre parênteses, para nada trair e, sobretudo, para não se trair a sipróprio, o narrador tendeu para a objetividade. Não quis modificar quase nadapelos efeitos da arte, a não ser no que diz respeito às necessidades básicas de umrelato mais ou menos coerente. E é a própria objetividade que o obriga agora adizer que, se o grande sofrimento dessa época, tanto o mais geral quanto o maisprofundo, era a separação, e se é indispensável, em sua consciência, fazer deleuma nova descrição nessa fase da peste, não deixa de ser verdade que até essesofrimento era então menos patético. Teriam nossos concidadãos, pelo menos os que mais haviam sofrido comessa separação, se habituado à situação? Não seria inteiramente justa essaafirmação. Seria mais exato afirmar que, tanto moral quanto fisicamente, sofriamcom a desencarnação. No começo da peste, lembravam-se nitidamente do enteque haviam perdido e sentiam saudade. Mas, se se lembravam nitidamente dorosto amado, de seu riso, de determinado dia que agora reconheciam ter sidofeliz, tinham dificuldade de imaginar o que o outro podia estar fazendo no própriomomento em que o evocavam e em lugares de agora em diante tão longínquos.Em suma, nesse momento, tinham memória, mas uma imaginação insuficiente.Na segunda fase da peste, perderam também a memória. Não que tivessemesquecido esse rosto, mas, o que vem a dar no mesmo, ele perdera a carne, já nãoo sentiam no interior de si próprios. E, enquanto tendiam a queixarse, nasprimeiras semanas, de só lhes restarem sombras das coisas amadas,compreenderam, com a continuação, que essas sombras podiam tornar-se aindamais descarnadas ao perderem até as cores ínfimas que a recordação conservava.Ao fim desse longo tempo de separação já não imaginavam essa intimidade quefora sua, nem como havia podido viver perto deles um ser em que podiam a todomomento pousar a mão. Desse ponto de vista, tinham entrado na própria ordem da peste, tantomais eficaz quanto mais medíocre era. Ninguém mais, entre nós, tinha grandessentimentos. Mas todos experimentavam sentimentos monótonos. ”É tempo deacabar com isso”, diziam nossos concidadãos, porque em período de flagelo é
normal desejar o fim dos sofrimentos coletivos, e na verdade desejavam queaquilo acabasse. Mas tudo isso se dizia sem o calor e sem o sentimento amargodo princípio e apenas com as poucas razões que nos restavam ainda claras e queeram bem pobres Ao grande impulso feroz das primeiras semanas, sucedera umabatimento que seria erro considerar como resignação, mas que nem por issodeixava de ser uma espécie de aquiescência provisória. Nossos concidadãos tinham-se adaptado, como se costuma dizer, porquenão havia outro modo de proceder. Tinham ainda, naturalmente, a atitude dadesgraça e do sofrimento, mas já não os sentiam. De resto, o Dr. Rieux, porexemplo, achava que essa era justamente a desgraça e que o hábito do desesperoé pior que o próprio desespero. Antes, os separados não eram realmente infelizes,pois havia no seu sofrimento uma luz que acabava de se extinguir. Agora, eramvistos pelas esquinas, nos cafés ou em casa dos amigos, plácidos e distraídos, ecom um ar tão entediado que, graças a eles, toda a cidade parecia uma sala deespera. Os que tinham uma profissão, executavam-na ao ritmo da própria peste,meticulosamente e sem brilho. Todos eram modestos. Pela primeira vez, osseparados não tinham repugnância em falar dos ausentes, em usar a linguagemde todos, em examinar sua separação sob o mesmo enfoque que as estatísticas daepidemia. Enquanto, até então, tinham subtraído ferozmente seu sofrimento àdesgraça coletiva, aceitavam agora a confusão. Sem memórias e sem esperança,instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. Apeste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo daamizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes. É claro que nada disso era absoluto. Pois se é verdade que todos osseparados chegaram a esse estado, é justo acrescentar que não chegaram todosao mesmo tempo e que, da mesma forma, uma vez instalados nessa nova atitude,lampejos, retrocessos, bruscos estados de lucidez, levavam os pacientes a umasensibilidade mais nova e mais dolorosa. Eram necessários para isso momentosde distração, em que eles formavam algum projeto que implicava o fim da peste.Era preciso que eles sentissem, inopinadamente e por efeito de alguma graça, amordida de um ciúme sem objeto. Outros encontravam também renascimentossúbitos, saíam do seu torpor em certos dias da semana, no domingo,naturalmente, e aos sábados à tarde, porque esses dias eram consagrados acertos ritos, do tempo do ausente. Ou, então, uma certa melancolia que osinvadia ao fim da tarde davalhes o aviso, aliás, nem sempre confirmado, de que amemória ia voltar. Essa hora da tarde, que para os crentes é a do exame deconsciência, é dura para o prisioneiro ou o exilado que só pode examinar o vácuo.Ela os mantinha suspensos por um momento; depois, voltavam à atonia,encerravam-se na peste. Já se compreendeu que isso consistia em renunciarem ao que tinham demais pessoal. Ao passo que nos primeiros tempos da peste eles se surpreendiamcom a quantidade de pequenas coisas que contavam muito para eles, sem teremqualquer existência para os outros, e faziam assim a experiência da vida pessoal;agora, pelo contrário, só se interessavam por aquilo que interessava aos outros, jánão tinham senão ideias gerais e seu próprio amor assumira para eles a formamais abstrata. Estavam a tal ponto abandonados à peste que lhes acontecia àsvezes só desejarem o sono e surpreenderem-se a pensar: ”Que venham logo ostumores e se acabe com isso!” Mas, na realidade, já estavam dormindo, e todoesse tempo não foi mais que um longo sono. A cidade estava povoada porsonolentos acordados que só escapavam realmente ao seu destino nos raros
momentos em que, de noite, sua ferida aparentemente fechada se reabriabruscamente. E, despertados em sobressalto, apalpavam então, distraídos, osbordos irritados dessa ferida, redescobrindo num lampejo seu sofrimento,subitamente rejuvenescido e com ele, a imagem perturbada do seu amor. Demanhã, voltavam ao flagelo, quer dizer, à rotina. Mas, perguntar-se-á, que aspecto tinham esses separados? Pois bem,muito simples: não tinham aspecto nenhum. Ou, se se prefere, tinham o aspectode todos, um aspecto inteiramente geral. Compartilhavam a placidez e asagitações pueris da cidade. Perdiam as aparências do senso crítico ao mesmotempo em que ganhavam as aparências do sanguefrio. Podia-se ver, por exemplo,os mais inteligentes fingirem procurar, como todos, nos jornais ou nas emissõesradiofónicas, razões para acreditar num fim rápido da peste e conceberem,aparentemente, esperanças quiméricas ou sentirem receios sem fundamento aoler considerações que um jornalista havia escrito um pouco ao acaso, bocejandode tédio. Os demais bebiam sua cerveja ou tratavam de seus doentes,preguiçavam ou se esgotavam, arquivavam fichas ou faziam girar discos sem sedistinguirem muito uns dos outros. Em outras palavras: já não escolhiam nada.A peste suprimira os juízos de valor. E isso se via pela maneira como ninguémmais se ocupava da qualidade do vestuário ou dos alimentos que se compravam.Aceitava-se tudo em bloco. Para encerrar, pode-se dizer que os separados já não tinham esse curiosoprivilégio que no princípio os preservava. Tinham perdido o egoísmo do amor e asvantagens que dele tiravam. Pelo menos agora, a situação era clara: o flagelo eraproblema de todos. Todos nós, no meio das detonações que irrompiam às portasda cidade, dos carimbos que marcavam o compasso de nossa vida ou de nossamorte, em meio aos incêndios e às fichas, ao terror e às formalidades, prometidosa uma morte ignominiosa, mas registrada, entre fumaças terríveis e as sirenestranqüilas das ambulâncias, todos nós nos nutríamos do mesmo pão do exílio,esperando sem o saber a mesma reunião e a mesma paz perturbadoras. Nossoamor, sem dúvida, estava presente ainda, mas simplesmente era inutilizável,pesado, inerte, estéril, como o crime ou a condenação. Não era mais que umapaciência sem futuro e uma espera obstinada. E, desse ponto de vista, a atitudede alguns de nossos concidadãos fazia pensar nas longas filas, nos quatro cantosda cidade, diante das lojas de alimentos. Era a mesma resignação e a mesmapersistência, ao mesmo tempo ilimitada e sem ilusões. Seria apenas necessárioelevar esse sentimento a uma escala mil vezes maior no que diz respeito àseparação, porque se tratava então de uma outra fome, capaz de tudo devorar. Em todo caso, supondo que se queira ter uma ideia justa do estado deespírito em que se encontravam os separados de nossa cidade, seria precisoevocar de novo as eternas tardes douradas e poeirentas que caíam sobre a cidadesem árvores, enquanto homens e mulheres se espalhavam por todas as ruas.Porque, estranhamente, o que chegava então dos terraços ainda ensolarados, naausência dos ruídos de veículos e de máquinas que normalmente constituem todaa linguagem das cidades, era apenas um rumor de passos e de vozes surdas, odoloroso deslizar de milhares de solas, ritmado pelo silvo do flagelo no céupesado, um interminável e sufocante arrastar de pés que enchia pouco a poucotoda a cidade e que, tarde após tarde, dava sua voz mais fiel e mais melancólica àobstinação cega que, em nossos corações, substituía então o amor.
IV Durante os meses de setembro e outubro, a peste manteve a cidade sobseu domínio. Já que se tratava de marcar passo, várias centenas de milhares dehomens continuaram a arrastar os pés durante semanas intermináveis. A bruma,o calor e a chuva sucederam-se no céu. Bandos silenciosos de estorninhos e detordos, vindos do sul, passaram muito alto, mas contornaram a cidade como se oflagelo de Paneloux, a estranha peça de madeira que girava, aos silvos, por cimadas casas, os mantivesse à distância. No começo de outubro grandes tempestadesvarreram as ruas. E durante todo esse tempo nada de importante se produziualém desse monstruoso arrastar de pés. Rieux e seus amigos descobriram então a que ponto estavam cansados.Na verdade, os homens dos grupos sanitários já não conseguiam digerir essecansaço. O Dr. Rieux apercebia-se disso ao observar nos amigos e em si próprio aevolução de uma curiosa indiferença. Esses homens, por exemplo, que até aquitinham mostrado vivo interesse por todas as notícias que diziam respeito à peste,já não se preocupavam com elas. Rambert, que fora encarregado provisoriamentede dirigir uma das casas de quarentena, instalada há pouco no seu hotel,conhecia perfeitamente o número dos que tinha em observação. Estava a par dosmínimos pormenores do sistema de evacuação imediata que organizara paraaqueles que mostravam subitamente sinais de doença. A estatística dos efeitos dosoro sobre os internados estava gravada em sua memória. Mas era incapaz dedizer o número semanal das vítimas da peste, ignorava se ela realmente progrediaou recuava. E, apesar de tudo, mantinha a esperança de uma evasão próxima. Quanto aos outros, absorvidos em seu trabalho dia e noite, não liam osjornais nem ouviam rádio. E se lhes anunciavam um resultado, simulavaminteressar-se, mas acolhiamno, na verdade, com a indiferença distraída queatribuímos aos combatentes das grandes guerras, esgotados pelo esforço,dedicados apenas a não desfalecer em seu dever cotidiano, mas já sem esperarpela operação decisiva nem pelo armistício. Grand, que continuava a efetuar os cálculos exigidos pela peste, teriacertamente sido incapaz de indicar seus resultados gerais. Ao contrário deTarrou, de Rambert e de Rieux, visivelmente resistentes ao cansaço, sua saúdenunca havia sido boa. Ora, ele acumulava as funções de auxiliar da prefeitura,sua secretaria junto a Rieux e os trabalhos noturnos. Viam-no assim num estadocontínuo de esgotamento, sustentado por duas ou três ideias fixas, como a de seoferecer umas férias completas depois da peste, durante uma semana pelomenos, e de trabalhar então de maneira positiva, ”tirem o chapéu, meussenhores”, no que tinha à mão. Era também sujeito a bruscos enternecimentos e,nessas ocasiões, falava de bom grado de Jeanne a Rieux, perguntava a si próprioonde estaria ela naquele momento e se, ao ler os jornais, pensaria nele. Foi comele que Rieux se surpreendeu um dia a falar de sua própria mulher no tom maisbanal, o que nunca fizera até então. Incerto do crédito que podia atribuir aostelegramas sempre tranqüilizadores da mulher, resolvera telegrafar ao médico-chefe da clínica onde ela se tratava. Em resposta, tinha recebido a comunicaçãode um agravamento do estado da paciente e a garantia de que tudo seria feitopara deter a evolução do mal. Tinha guardado para si a notícia, e não seexplicava, a não ser pelo cansaço, como tinha podido confiá-la a Grand. Oempregado municipal, depois de lhe ter falado de Jeanne, interrogara-o acerca desua mulher e Rieux respondera. ”Como sabe, isso agora se cura muito bem”,
dissera Grand. Rieux tinha concordado, dizendo simplesmente que a separaçãocomeçava a ser longa e que ele poderia talvez ter ajudado à mulher vencer adoença, ao passo que hoje ela devia sentir-se totalmente só. Depois, calara-se esó respondera muito evasivamente às perguntas de Grand. Os outros encontravam-se no mesmo estado. Tarrou resistia melhor, masos cadernos mostram que, se a sua curiosidade não se tornara menos profunda,perdera em diversidade. Durante todo esse período, na realidade, eleaparentemente só se interessava por Cottard. À noite, em casa de Rieux, ondeacabara por se instalar desde que o hotel fora transformado em instituição dequarentena, mal ouvia Grand ou o doutor enunciarem os resultados. Desviavaimediatamente a conversa para os pormenores da vida de Oran que geralmente oocupavam. Quanto a Gastei, no dia em que veio anunciar a Rieux que o soro estavapronto e depois de terem decidido fazer a primeira experiência no garoto do Sr.Othon, que acabavam de remover para o hospital e cujo caso pareciadesesperador a Rieux, este comunicava ao velho amigo as últimas estatísticas,quando reparou que seu interlocutor adormecera profundamente na cadeira. E,diante desse rosto, em que habitualmente um ar de ternura e de ironia punhauma perpétua juventude e agora, subitamente abandonado, com um filete desaliva a unir-lhe os lábios entreabertos, deixava ver os estragos e a velhice, Rieuxsentiu um aperto na garganta. Era por tais fraquezas que Rieux podia julgar seu cansaço. Asensibilidade lhe fugia. Amarrada a maior parte do tempo, endurecida e seca,irrompia de vez em quando e abandonava-o a emoções que já não conseguiadominar. Sua única defesa era refugiar-se neste endurecimento e apertar o nóque nele se formara. Sabia efetivamente que essa era a melhor maneira decontinuar. Quanto ao resto, não tinha muitas ilusões e seu cansaço tirava-lhe asque ainda conservava. Porque sabia que, durante um período cujo término nãoconseguia vislumbrar, seu papel já não era o de curar. Seu papel eradiagnosticar. Descobrir, ver, descrever, registrar, depois condenar, essa era suatarefa. Esposas agarravam-lhe as mãos e gritavam: ”Doutor, salve-o”. Mas ele nãoestava ali para salvar a vida, estava ali para ordenar o isolamento. De que serviao ódio que lia, então, nas fisionomias? ”O senhor não tem coração”, tinham-lhedito um dia. Sim, ele tinha um coração. Servia-lhe para suportar as vinte horaspor dia em que via morrer homens que haviam sido feitos para viver. Servia-lhepara recomeçar todos os dias. De agora em diante, o coração mal dava para isso.Como esse coração seria suficiente para dar vida? Não, não eram socorros que ele distribuía durante todo o dia e siminformações. Aquilo, é claro, não se podia chamar uma profissão de homem. Mas,afinal, a quem, então, aquela multidão aterrorizada e dizimada tinha deixadotempo para exercer a profissão de homem? Ainda bem que havia a fadiga. SeRieux estivesse mais vigoroso, aquele cheiro de morte espalhado por toda a partepoderia tê-lo tornado sentimental. Mas quando só se dorme quatro horas não se ésentimental. Vêem-se as coisas como elas são, isto é, vêem-se segundo a justiça,a horrenda e irrisória justiça. E os outros, os condenados, sentiam o mesmo. Antes da peste, recebiam-no como um salvador. Ele ia consertar tudo com três pílulas e uma seringa, eapertavam-lhe o braço, ao conduzi-lo pelos corredores. Era lisonjeiro, masperigoso. Agora, pelo contrário, apresentava-se com soldados, era necessário darcoronhadas para que a família se decidisse a abrir a porta. Teriam desejado
arrastá-lo e arrastar toda a humanidade com eles para a morte. Ah! Era bemverdade que os homens não podiam dispensar os homens, que ele se achava tãodespojado quanto esses desgraçados e que merecia esse mesmo tremor depiedade que sentia crescer em si depois de deixá-los. Eram pelo menos as ideias que o Dr. Rieux, durante essas intermináveissemanas, agitava com as que se relacionavam à sua situação de separado. Eeram também aquelas cujo reflexo ele lia no semblante dos amigos. Mas o efeitomais perigoso do esgotamento que vencia, pouco a pouco, todos os quecontinuavam a luta contra o flagelo não estava nessa indiferença aosacontecimentos exteriores e às emoções dos outros, e sim na negligência a quehaviam chegado. Porque tinham então tendência a evitar todos os gestos que nãofossem absolutamente indispensáveis e que lhes pareciam sempre acima de suasforças. Foi assim que esses homens chegaram a desprezar cada vez mais asregras de higiene que tinham codificado, a esquecer algumas das desinfecçõesque deviam praticar em si próprios, a correr por vezes, sem se prevenirem contrao contágio, para junto de doentes atacados de peste pulmonar, porque, alertadosno último momento de que deviam dirigir-se a casas infectadas, tinha-lhesparecido de antemão exaustivo voltarem a qualquer local para fazerem asinstilações necessárias. Nisso residia o verdadeiro perigo, pois era a própria lutacontra a peste que os tornava então mais vulneráveis a ela. Apostavam em sumano acaso, e o acaso não pertence a ninguém. Contudo, havia na cidade um homem que não parecia nem esgotado, nemdesanimado e que continuava a ser a imagem viva da satisfação. Era Cottard.Continuava a manter-se à distância, preservando, no entanto, suas relações comos outros. Mas optara por visitar Tarrou sempre que o trabalho deste o permitia;por um lado, porque Tarrou estava bem informado sobre o seu caso, por outro,porque ele sabia acolher o pequeno capitalista com uma cordialidade inalterável.Era um milagre perpétuo, mas Tarrou, apesar do esforço que despendia,continuava benévolo e atencioso. Mesmo quando o cansaço o arrasava, em certas noites, no dia seguinteele encontrava uma nova energia. ”com esse”, dissera Cottard a Rambert, ”pode-se conversar, porque é um homem.” É por isso que, nessa época, as notas de Tarrou convergem pouco apouco para a personagem Cottard. Tarrou tentou fazer um quadro das reações ereflexões de Cottard, tal como elas lhe eram confiadas por ele ou tal como ele asinterpretava. Sob a rubrica ”Relações entre Cottard e a peste”, esse quadro ocupaalgumas páginas do caderno, e o narrador acha útil fazer aqui um resumo. Aopinião geral de Tarrou sobre o pequeno capitalista resumia-se neste juízo: ”Éuma personagem que cresce”. Aparentemente, aliás, ele crescia em bom humor.Não lhe desagradava a feição que os acontecimentos tomavam. Exprimia, àsvezes, o fundo de seu pensamento diante de Tarrou, por meio de observações dogénero: ”É claro que a coisa não está melhor. Mas, ao menos, estão todos nomesmo barco”. ”Evidentemente”, acrescentava Tarrou, ”ele está ameaçado como osoutros, mas justamente com os outros. Depois, não está seriamente convencido,tenho certeza, de que possa ser atingido pela peste. Parece viver com a ideia,aliás, não totalmente tola, de que um homem presa de uma grande doença, ou deuma angústia profunda, está dispensado, por isso mesmo, de todas as outrasdoenças ou angústias. ’Já reparou’, disse-me ele, ’que não se podem acumulardoenças? Imagine que você esteja com uma doença grave ou incurável, um
câncer sério ou uma boa tuberculose, nunca apanhará peste ou tifo. Éimpossível. Aliás, a coisa vai ainda mais longe, pois nunca se viu um cancerosomorrer em desastre de automóvel.’ Falsa ou verdadeira, essa ideia deixa Cottardde bom humor. A única coisa que ele não quer é ficar separado dos outros.Prefere estar sitiado com todos a estar preso sozinho. com a peste, já não épreciso inquietar-se com inquéritos secretos, processos, fichas, instruçõesmisteriosas ou prisão iminente. Para dizer a verdade, já não há polícia, não hámais crimes, novos ou antigos, já não há culpados, há apenas condenados queesperam o mais arbitrário dos perdões e entre eles, os próprios policiais.” Assim,Cottard, e sempre segundo a interpretação de Tarrou, era levado a considerar ossintomas de angústia e de perturbação que apresentavam nossos concidadãoscom satisfação indulgente e compreensiva que se podia exprimir por um:”Continuem falando, senti isso antes de vocês”. ”Em vão eu lhe disse que a única maneira de não estar separado dosoutros era afinal ter uma consciência tranqüila. Olhou-me com maldade e disse-me: ’Então, desse modo, ninguém está nunca com ninguém’. E depois: ’Pode tercerteza, sou eu quem o digo. A única maneira de juntar as pessoas ainda émandar-lhes a peste. Olhe à sua volta’. E, na verdade, compreendo bem o que elequer dizer e o quanto a vida de hoje deve parecer-lhe confortável. Como nãohaveria ele de reconhecer reações que foram suas; a tentativa que cada um fazpara congregar todos à sua volta; a gentileza com que nos desdobramos parainformar às vezes um transeunte perdido e o mau humor de que outras vezesdamos prova; a precipitação das pessoas para os restaurantes de luxo, seu prazerem lá se encontrarem e em lá se demorarem; a afluência desordenada que fazfilas todos os dias no cinema, que enche todas as salas de espetáculos e ospróprios cabarés, que se espalha como uma maré desenfreada em todos oslugares públicos; o recuo diante de qualquer conta to, o apetite de calor humanoque, no entanto, impele os homens uns para os outros, cotovelos para cotovelos,sexos para sexos? Cottard conheceu tudo isso antes deles, é evidente. Exceto asmulheres, porque, com sua cabeça... E suponho que quando se sentiu tentado afrequentá-las, recusou-se para não ganhar uma fama que poderia prejudicá-lo nofuturo. ”Em resumo, a peste lhe convém. De um homem solitário que não queriasê-lo, ela fez um cúmplice. Porque, visivelmente, é um cúmplice e um cúmpliceque se deleita. É cúmplice de tudo o que vê, das superstições, dos terroresilegítimos, das suscetibilidades dessas almas em alerta; de sua mania de quererfalar da peste o menos possível e, no entanto, de falar dela sem cessar; de suaaflição e de sua palidez à menor dor de cabeça, desde que sabe que a doençacomeça por cefaléias, e de sua sensibilidade irritada, suscetível, instável, enfim,que transforma em ofensa esquecimentos e se aflige com a perda de um botão.” Acontecia muitas vezes a Tarrou sair com Cottard. Contava em seguida,em seus cadernos, como mergulhavam na multidão sombria dos crepúsculos oudas noites, ombro a ombro, imergindo numa massa branca e preta, em que umarara lâmpada brilhava, acompanhando o rebanho humano para os prazeresardentes que o defendiam contra o frio da peste. O que Cottard, alguns mesesantes, procurava nos lugares públicos, o luxo e a vida ampla, aquilo com quesonhava sem poder satisfazer-se, isto é, o gozo desenfreado, todo um povo oprocurava agora. Enquanto o preço das coisas subia irresistivelmente, nunca setinha desperdiçado tanto dinheiro e, quando o essencial faltava à maioria, nuncase tinha dissipado tão bem o supérfluo. Multiplicavam-se todos os jogos de uma
ociosidade que era apenas desemprego, Tarrou e Cottard seguiam por vezes,durante longos minutos, um desses casais que antes se aplicavam em esconder oque os unia e que agora, apertados um contra o outro, caminhavamobstinadamente através da cidade, sem ver a multidão que os rodeava, com adistração um pouco fixa das grandes paixões. Cottard enternecia-se. ”Ah! Quesafados!”, dizia ele. E falava alto, expandia-se no meio da febre coletiva, dasgorjetas reais que soavam à sua volta e das intriga • que se teciam diante de seusolhos. Entretanto, Tarrou achava que havia pouca maldad na atitude deCottard. Sua frase, ”Conheci isto antes deL^ ’, revelava mais infelicidade quetriunfo. ”Creio”, dizia Tarrou, ”que ele começa a amar esses homens, prisioneirosentre o céu e os muros da cidade. Por exemplo, ter-lhes-ia explicado de bomgrado, se pudesse, que a coisa não era tão terrível como tudo isso. ”Eles dizem”,afirmou ele, ”depois da peste, vou fazer isto, depois da peste vou fazer aquilo. . .Envenenam a própria existência, em vez de ficarem tranqüilos. E nem sequer sedão conta das vantagens de que desfrutam. Será que eu poderia dizer: Depois daminha prisão, vou fazer isto? A prisão é um começo, não é um fim. Ao passo quea peste. . . Quer a minha opinião? Eles são infelizes porque não se entregam. Esei muito bem o que estou dizendo.” ”com efeito, ele sabe o que diz”, acrescentavaTarrou. ”Avalia no seu justo valor as contradições dos habitantes de Oran que, aomesmo tempo em que sentem profundamente necessidade do calor que osaproxima, não conseguem contudo abandonar-se a ele, por causa dadesconfiança que os afasta uns dos outros. É sabido que não se pode terconfiança no vizinho que é capaz de nos passar a peste à nossa revelia e deaproveitar-se do nosso abandono para nos contagiar. Quando se passou o tempo,como Cottard, a ver indicadores possíveis em todos aqueles cuja companhia,contudo, se procurava, pode-se compreender esse sentimento. É fácil serindulgente com pessoas que vivem na ideia de que a peste pode, de um dia para ooutro, pôr-lhes a mão no ombro e de que ela se prepara, talvez, para fazer isso nomomento em que elas se regozijam de estar ainda sãs e salvas. Tanto quanto issoé possível, ele está à vontade no terror. Mas, porque ele sentiu tudo isso antesdeles, creio que não consegue sentir inteiramente com eles a crueldade dessaincerteza. Em suma, como todos nós que não morremos ainda da peste, ele senteefetivamente que sua vida e sua liberdade estão todos os dias às vésperas de serdestruídas. Mas, já que ele próprio viveu no terror, acha normal que os outros oconheçam por sua vez. Mais exatamente, o terror parece-lhe então menos pesadode suportar que se estivesse totalmente só. É nisso que ele está errado e que émais difícil de compreender que outros. Mas, afinal, é por isso que merece maisque os outros que tentemos compreendê-lo.” Finalmente, as páginas de Tarrou terminam por uma narrativa queilustra essa consciência singular que vinha ao mesmo tempo a Cottard e aosatacados pela peste. Esse relato reconstitui aproximadamente a atmosfera difícilda época e é por isso que o narrador lhe atribui importância. Eles tinham ido à Ópera Municipal, onde se representava o Orfeu, deGliick. Cottard convidara Tarrou. Tratavase de uma companhia que viera, naprimavera da peste, fazer algumas representações em nossa cidade. Bloqueadapela doença, a companhia se vira forçada, após um acordo com nossa Ópera, arepetir o espetáculo uma vez por semana. Assim, há meses, todas as sextas-feiras, no nosso teatro municipal, ressoavam os lamentos melodiosos de Orfeu eos chamados impotentes, de Eurídice. No entanto, esse espetáculo continuava a
conhecer o interesse do público e tinha sempre boas bilheterias. Instalados noslugares mais caros, Cottard e Tarrou dominavam uma plateia repleta pelos maiselegantes de nossos concidadãos. Os que chegavam esforçavam-se visivelmenteem fazer notar sua entrada. Sob a luz contundente da ribalta, enquanto osmúsicos afinavam discretamente os instrumentos, as silhuetas destacavam-secom precisão, passavam de uma fila a outra, inclinavam-se com graça. No ligeirorumor de uma conversa de bom-tom, os homens retomavam a segurança quelhes faltara algumas horas antes, entre as ruas negras da cidade. A casacaexpulsava a peste. Durante todo o primeiro ato, Orfeu queixou-se com facilidade, algumasmulheres de túnica comentaram com graça seu infortúnio, e cantou-se o amorem pequenas árias. A sala reagiu com um entusiasmo discreto. Mal se notou queOrfeu introduzia na sua ária do segundo ato tremores que não figuravam e pedia,com um ligeiro excesso de patético, ao Senhor dos Infernos que se deixassecomover pelo seu pranto. Certos gestos bruscos que lhe escaparam apareceramaos mais perspicazes como um efeito de estilização que aumentava ainda mais ovalor da interpretação do cantor. Foi necessário o dueto de Orfeu e Eurídice, no terceiro ato (era omomento em que Eurídice fugia ao seu amante), para que uma certa surpresacorresse pela sala. E, como se o cantor tivesse apenas esperado esse movimentodo público ou, mais certamente ainda, como se o rumor vindo da plateia tivesseconfirmado o que ele sentia, foi esse o momento que ele escolheu para avançarpara a boca da cena de uma forma grotesca, com os braços e pernas afastados noseu traje antigo, para vir abater-se no bucolismo do cenário, que nunca deixarade ser anacrónico, mas que assim se tornou aos olhos dos espectadores pelaprimeira vez e de uma maneira terrível. Isso porque, ao mesmo tempo, aorquestra calou-se, as pessoas da plateia levantaram-se e começaram lentamentea evacuar a sala, primeiro em silêncio, como se sai de uma igreja depois deacabada a missa, ou de uma câmara mortuária depois de uma visita, asmulheres segurando as saias e saindo de cabeça baixa, os homens guiando ascompanheiras pelo cotovelo, evitando o choque das cadeiras. Pouco a pouco,porém, o movimento precipitou-se, o murmúrio tornou-se exclamação e amultidão afluiu às saídas, comprimindo-se, acabando por se empurrar aos gritos.Cottard e Tarrou, que apenas se tinham levantado, ficaram sós diante de umadas imagens do que era a sua vida de então: a peste no palco, sob o aspecto deum histrião desarticulado, e, na sala, todo um luxo tornado inútil sob a forma deleques esquecidos e de rendas agarradas ao vermelho das poltronas. Durante os primeiros dias do mês de setembro, Rambert trabalharaseriamente ao lado de Rieux. Apenas pedira uma folga no dia em que deviaencontrar-se com González e os dois rapazes em frente ao liceu. Ao meio-dia, González e o jornalista viram chegar os dois rapazes, queriam. Disseram que não tinha havido sorte da outra vez, mas que era precisoesperar. Em todo caso, já não era a sua semana de plantão. Era preciso terpaciência até a semana seguinte. Então, recomeçariam. Rambert disse que eraexatamente essa a palavra. González propôs^ portanto, um encontro para asegunda-feira seguinte. Desssl vez, porém, instalariam Rambert em casa deMareei e Louisl ”Vamos marcar um encontro você e eu. Se eu não aparecer J vocêvai diretamente à casa deles. Vamos explicar onde mo-I ram.” Mas Mareei, ouLouis, disse nesse momento que ol mais simples era conduzirem imediatamente ocompanheiro.! Se não fosse muito exigente, havia comida para os quatro.1 E,
dessa forma, ele se informaria logo. González disse quel era uma excelente ideia,e desceram para o porto. Mareei e Louis moravam no final do Quartier de la Marine, perto dasportas que davam para a estrada da orla marítima. Era uma pequena casaespanhola, de paredes espessas, janelas exteriores de madeira pintada,compartímen tos nus e sombrios. Havia arroz, servido pela mãe dos rapazes, umavelha espanhola, sorridente e cheia de rugas. González admirou-se, pois já haviafalta de arroz na cidade. ”Nós o arranjamos nas portas”, disse Mareei. Rambertcomia e bebia, e González afirmou que ele era um companheiro de verdade,enquanto o jornalista pensava unicamente na semana que tinha de passar. Na realidade, teve de esperar duas semanas, pois os turnos de guardaforam prolongados para quinze dias a fim de reduzir o número de equipes. Edurante esses quinze dias, Rambert trabalhou sem se poupar, de maneiraininterrupta, com os olhos de certo modo fechados, desde a aurora até a noite.Tarde da noite, deítava-se e dormia um sono profundo. A passagem brusca daociosidade a esse trabalho esgotante deixava-o quase sem sonhos e sem forças.Falava pouco de sua próxima fuga. Um único fato notável: ao fim de uma semanaconfessou ao doutor que, pela primeira vez, na noite anterior, se embriagara. Aosair do bar, teve de repente a impressão de que suas virilhas se inchavam e seusbraços se moviam com dificuldade em torno da axila. Pensou que era a peste. E aúnica reação que pôde ter então, e que concordou com Rieux não ser racional, foicorrer ao alto da cidade e lá, de uma pequena praça, de onde ainda não sedivisava o mar, mas de onde se via um pouco mais de céu, chamar sua mulhercom um grande grito, por cima dos muros da cidade. De volta a casa e nãodescobrindo no corpo nenhum sinal de infecção, não se orgulhara muito dessacrise súbita. Rieux disse que compreendia muito bem que se pudesse agir assim.”De qualquer modo”, disse ele, ”pode acontecer que se tenha vontade de fazê-lo.” - O Sr. Othon falou-me a seu respeito esta manhã .- acrescentousubitamente Rieux, no momento em que Rambert ia deixá-lo. - Perguntou-me seeu o conhecia. ”Aconselhe-o, então, a não frequentar os meios de contrabando”,disse-me ele. ”Está se expondo.” - Que quer dizer isso? - Quer dizer que tem de apressar-se. - Obrigado - disse Rambert, apertando a mão do médico. Já à porta,voltou-se de repente. Rieux notou que, pela primeira vez desde a peste, ele sorria.- Por que não me impede então de partir? Dispõe de todos os meios. Rieux abanou a cabeça com seu movimento habitual e respondeu queisso era problema de Rambert, que escolhera a felicidade, e que ele, Rieux, nãotinha argumentos a contrapor. Sentia-se incapaz de julgar o que era bem ou malnaquele caso. - Nessas condições, por que me diz que devo me apressar? - Talvez porque também eu tenha vontade de fazer qualquer coisa pelafelicidade. No dia seguinte, não falaram mais de nada, mas trabalharam juntos.Uma semana depois, Rambert estava enfim instalado na pequena casaespanhola. Tinham-lhe feito uma cama no compartimento comum. Como osrapazes não comiam em casa e como lhe tinham recomendado que saísse omenos possível, vivia só a maior parte do tempo ou conversava com a velha mãeespanhola. Era seca e ativa, vestida de negro, com o rosto moreno e enrugadodebaixo dos cabelos brancos muito limpos. Silenciosa, sorria sozinha com todo o
rosto quando olhava para Rambert. Outras vezes, perguntava-lhe se não tinha medo de levar a peste a suamulher. Ele pensava que era um risco que valia a pena correr, mas que afinal aprobabilidade era mínima, ao passo que, permanecendo na cidade, arriscavam-sea ficar separados para sempre. - Ela é simpática? - perguntava a velha, sorrindo. - Muito simpática. - Bonita? - Acho que sim. - Ah! - dizia ela. - É por isso. Rambert refletia. Era, sem dúvida, por isso, mas era impossível que fossesó por isso. - Não acredita em Deus? - perguntava a velha, que ia à missa todas asmanhãs. Rambert reconheceu que não, e a velha disse ainda que era por isso. - Tem razão, é preciso ir ao encontro dela. Senão, o que lhe restaria? O resto do tempo Rambert andava à volta das paredes nuas e caiadas,afagando os leques pregados nas paredes ou então contava as bolas de lã quefranjavam o pano de mesa. À noite, os rapazes voltavam. Não falavam muito,senão para dizer que não chegara ainda o momento. Depois do jantar, Mareeitocava guitarra e bebiam um licor anisado. Rambert parecia pensativo. Na quarta-feira, Mareei disse ao entrar: ”É para amanhã à meia-noite.Fique preparado”. Dos dois homens que guardavam o posto com eles, um estavaatacado pela peste e o outro, que normalmente dividia o quarto com o primeiro,estava em observação. Assim, durante dois ou três dias, Mareei e Louis estariama sós. No decurso da noite, iam acertar os últimos detalhes. No dia seguinte, seriapossível. Rambert agradeceu. ”Está contente?”, perguntou a velha. Ele disse quesim, mas pensava em outra coisa. No dia seguinte, sob um céu pesado, o calor era úmido e sufocante. Asnotícias da peste eram más. A velha espanhola conservava, contudo, aserenidade. ”Há pecado no mundo”, dizia. ”Por isso, forçosamente. . .” ComoMareei e Louis, Rambert estava de peito nu. Porém, por mais que fizesse, o suorcorria-lhe entre os ombros e sobre o peito. Na semipenumbra da casa, depersianas fechadas, isso lhe tornava os torsos morenos e lustrosos. Rambert davavoltas, sem falar. Bruscamente, às quatro horas da tarde, vestiu-se e disse que iasair. - Cuidado - recomendou Mareei -, é para a meianoite. Está tudopreparado. O jornalista foi à casa do médico. A mãe de Rieux disse-lhe que oencontraria no hospital. Diante do posto da guarda, a mesma multidãocontinuava a girar sobre si própria. ”Circulem”, dizia um sargento de olhosprotuberantes. Os outros circulavam, mas em roda. ”Não há nada a esperar”,dizia o sargento, cujo suor atravessava o dólmã. Era também a opinião dosoutros, mas ficavam, apesar de tudo, apesar do calor infernal. Rambert mostrou osalvo-conduto ao sargento que lhe indicou o gabinete de Tarrou. A porta davapara o pátio. Rambert cruzou com o Padre Paneloux, que saía do gabinete. Numa pequena sala branca que cheirava a farmácia e a pano úmido,Tarrou, sentado atrás de uma secretária de madeira preta com as mangas dacamisa arregaçadas, enxugava com um lenço o suor que lhe corria pela curva dobraço.
- Ainda aqui? - perguntou. - Ainda. Queria falar com Rieux. - Está na sala. Mas se isso pudesse arranjar-se sem ele, seria melhor. - Por quê? - Está esgotado. Evito tudo o que possa perturbá-lo. Rambert olhava para Tarrou. Tinha emagrecido. O cansaço turvava-lhe osolhos e os traços. Os ombros fortes estavam curvados. Alguém bateu, e entrouum enfermeiro, de máscara branca. Colocou em cima da secretária de Tarrou ummaço de fichas e, com uma voz que o pano abafava, disse apenas: ”Seis”. Depois,saiu. Tarrou olhou para o jornalista e mostrou-lhe as fichas, que abriu em leque. - Belas fichas, hem? Pois bem, são mortos, os mortos da noite. Tinha a fronte cheia de sulcos. Juntou de novo o maço de fichas. - A única coisa que nos resta é a contabilidade. Tarrou levantou-se,apoiando-se na mesa. - Vai partir em breve? - Hoje, à meia-noite. Tarrou disse que isso o alegrava e que Rambert devia ter cuidado. - Diz isso sinceramente? Tarrou encolheu os ombros. - Na minha idade, é preciso ser sincero. Mentir é cansativo demais. - Tarrou - disse o jornalista -, queria falar com o doutor. Desculpe-me. - Eu sei. Ele é mais humano que eu. Vamos. - Não é isso - disse Rambert, com dificuldade. E calou-se. Tarrou olhou para ele e, de repente, sorriu-lhe. Seguiram por um pequeno corredor, cujas paredes estavam pintadas deverde-claro e onde flutuava uma luz de aquário. Pouco antes de chegarem a umaporta dupla envidraçada, por trás da qual se via um curioso movimento desombras, Tarrou fez Rambert entrar numa sala mu iço pequena, inteiramentecoberta de armários. Abriu um deles, tirou de um esterilizador duas máscaras degaze hidrófila e estendeu uma a Rambert, convidando-o a usá-la. O jornalistaperguntou se aquilo servia para alguma coisa, e Tarrou respondeu que não, masque dava confiança aos outros. Empurraram a porta envidraçada. Era uma sala imensa, de janelashermeticamente fechadas, apesar da estação. No alto das paredes, ronronavamcirculadores de ar, e suas hélices curvas agitavam o ar espesso e superaquecidopor cima de duas fileiras de camas cinzentas. De todos os lados, vinham gemidossurdos ou agudos, que formavam apenas um lamento monótono. Homensvestidos de branco deslocavam-se com lentidão na luz crua que transbordava dasjanelas guarnecidas de grades. Rambert sentia-se pouco à vontade no calorterrível da sala e teve dificuldade em reconhecer Rieux, curvado sobre uma formaque gemia. O doutor abria as virilhas do doente, que duas enfermeiras, uma decada lado da cama, mantinham de pernas afastadas. Quando se reergueu, deixoucair os instrumentos numa bandeja que um ajudante lhe estendia e ficou por ummomento imóvel, a olhar para o homem em quem faziam um curativo. - Que há de novo? - perguntou a Tarrou, que se aproximava. - Paneloux aceita substituir Rambert na casa de quarentena. Já fezmuito. Falta a terceira brigada de prospecção, a se reagrupar sem Rambert. Rieux aprovou com a cabeça. - Gastei terminou os primeiros preparados e propõe uma experiência. - Ah! - disse Rieux. - Muito bem. - Finalmente, está aqui Rambert.
Rieux voltou-se. Por cima da máscara, seus olhos se franziam ao ver ojornalista. - Que faz aqui? - perguntou. - Devia estar longe. Tarrou disse que erapara a meia-noite e Rambert acrescentou: ”Em princípio”. A cada vez que um deles falava, a máscara de gaze inchava e ficavaúmida à altura da boca. Isso tornava a conversa um pouco irreal, como umdiálogo de estátuas. - Queria falar-lhe - disse Rambert. - Vamos sair juntos, se quiser. Espere-me no gabinete de Tarrou. Um momento depois, Rieux e Rambert instalavam-se no banco traseirodo carro do médico. Tarrou dirigia. - Acabou a gasolina - disse, ao arrancar. - Amanhã, teremos de andar apé. - Doutor - disse Rambert -, não vou embora, fico com o senhor. Tarrou nem pestanejou. Continuava a dirigir. Rieux parecia incapaz desair de seu cansaço. - E ela? - perguntou, com uma voz surda. Rambert disse que tinharefletido, que continuava a acreditar no que acreditava, mas que se partisse teriavergonha. Isso perturbaria seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieuxendireitou-se e disse, com uma voz firme, que aquilo era tolice e que não eravergonha preferir a felicidade. - Sim - disse Rambert -, mas pode haver ^vergonha em ser feliz sozinho. Tarrou, que nada dissera até então, observou, sem voltar a cabeça, que,se Rambert queria compartilhar da desgraça dos homens, jamais teria tempopara ser feliz. Era preciso escolher. - Não é isso - disse Rambert. - Pensei sempre que era estranho a estacidade e que nada tinha a ver com vocês. Mas agora que vi o que vi, sei que soudaqui, quer queira, quer não. A história diz respeito a todos nós. Ninguém respondeu, e Rambert pareceu impacientar-se. - Aliás, sabem muito bem disso. Senão, o que fariam neste hospital?Acaso fizeram a sua escolha e renunciaram à felicidade? Nem Tarrou nem Rieux responderam. O silêncio durou muito tempo, atéque se aproximaram da casa do médico. E Rambert de novo fez sua últimapergunta, com mais força ainda. Só Rieux se voltou para ele. Ergueu-se comesforço. - Perdoe-me, Rambert - disse -, mas não sei. Fique conosco, já que assimo deseja. Uma guinada do carro fê-lo calar-se. Depois prosseguiu, olhando emfrente. - Nada no mundo vale que nos afastemos daquilo que amamos. E,contudo, também eu me afasto, sem que possa saber por quê. Deixou-se cair de novo sobre a almofada. - É um fato, é só. Registremo-lo e aceitemos suas consequências. - Que consequências? - perguntou Rambert. - Ah! - disse Rieux. - Não se pode, ao mesmo tempo, curar e saber. Então,curemos, o mais depressa possível. É o mais urgente. À meia-noite, Tarrou e o doutor faziam para Rambert o mapa do bairroque estava encarregado de fiscalizar quando Tarrou olhou para o relógio. Aolevantar a cabeça encontrou o olhar de Rambert. - Não os avisou?
O jornalista desviou o olhar. - Tinha mandado um recado - disse, com esforço antes de vir ao seuencontro. Foi nos últimos dias de outubro que o soro de Gastei foi experimentado.Praticamente era a última esperança de Rieux. Em caso de novo fracasso omédico estava convencido de que a cidade toda ficaria entregue aos caprichos dadoença, quer a epidemia prolongasse seus efeitos durante longos meses ainda,quer decidisse deter-se sem razão. Na própria véspera do dia em que Gastei veio visitar Rieux, o filho do Sr.Othon adoecera e toda a família fora posta de quarentena. A mãe, que saíra de lápouco antes, viuse pois isolada pela segunda vez. Cumpridor das determinaçõeslegais, o juiz mandara chamar o Dr. Rieux, logo que reconheceu no corpo dacriança os sinais da doença. Quando Rieux chegou, o pai e a mãe estavam de pé,junto à cama. A menina tinha sido afastada. O garoto estava no período deabatimento e deixou-se examinar sem se queixar. Quando o médico levantou acabeça, encontrou o olhar do juiz e, atrás dele, o rosto pálido da mãe, quecolocara um lenço na boca e seguia os gestos de Rieux com os olhos dilatados. - É isso, não é verdade? - perguntou o juiz, com uma voz fria. - Sim - respondeu Rieux, olhando de novo para a criança. Os olhos da mãe dilataram-se ainda mais, mas ela continuava calada. Ojuiz calou-se também e depois disse, num tom mais baixo: - Pois bem, doutor, temos de fazer o que está determinado. Rieux evitava olhar para a mãe, que mantinha o lenço na boca. - Será rápido - disse ele, hesitando -, se puder telefonar. O Sr. Othon disse que ia indicar-lhe o caminho. Mas o doutor voltou-separa a mulher: - Lamento muito. Acho que devia preparar suas coisas. Sabe como é. A Sra. Othon parecia perplexa. Olhava para o chão. - Sim - disse ela, abanando a cabeça. - É o que vou fazer. Antes de sair, Rieux não pôde deixar de perguntar se não precisavam denada. A mulher continuava a olhá-lo em silêncio. Mas dessa vez o juiz desviou oolhar. - Não - disse ele, engolindo a saliva -, mas salve meu filho. A quarentena, que a princípio era uma simples formalidade, tinha sidoorganizada por Rieux e Rambert de uma maneira muito rigorosa. Em especial,tinham exigido que os membros de uma mesma família fossem sempre isoladosuns dos outros. Se um dos membros da família tivesse sido infectado sem osaber, era preciso não multiplicar as possibilidades da doença. Rieux explicouessas razões ao juiz, que as achou razoáveis. Entretanto, a mulher e ele olharam-se de tal modo que o médico sentiu até que ponto essa separação os deixavaperturbados. A Sra. Othon e sua filha puderam ser alojadas num hotel dequarentena dirigido por Rambert. Para o juiz de instrução, porém, já não havialugar senão no campo de isolamento que a prefeitura estava organizando, noestádio municipal, com o auxílio de barracas emprestadas pelo serviço devigilância sanitária. Rieux pediu desculpas, mas o juiz disse que havia uma sóregra para todos, e que era justo obedecer. Quanto ao garoto, foi transportado para o hospital auxiliar para umaantiga sala de aula em que haviam sido instalados dez leitos. Umas vinte horasdepois, Rieux julgou seu caso desesperador. O pequenino corpo deixava-sedevorar pela infecção, sem reagir. Pequenos tumores, dolorosos, mas ainda em
formação, bloqueavam as articulações dos frágeis membros. Estava de antemãovencido. Foi por isso que Rieux teve a ideia de experimentar nele o soro de Gastei.Nessa mesma noite, depois do jantar, eles praticaram a longa inoculação, semobter uma única reação da criança. No dia seguinte, de madrugada, todos sedirigiram ao leito do menino para julgar a experiência decisiva. A criança, saída do seu torpor, agitava-se convulsivamente entre oslençóis. O Dr. Gastei e Tarrou estavam junto dele desde as quatro horas damanhã, acompanhando passo a passo os progressos ou recuos da doença. Àcabeceira do leito, o corpo maciço de Tarrou estava um pouco curvado. Aos pésda cama, sentado junto de Rieux, que estava de pé, Gastei lia, com toda aaparência de tranqüilidade, um velho livro. Pouco a pouco, à medida que o diaavançava na antiga sala de aula, os outros chegavam. Em primeiro lugar,Paneloux, que se colocou do outro lado do leito em relação a Tarrou e encostado àparede. Lia-se em seu rosto uma expressão dolorosa, e o cansaço de todos essesdias em que ele se entregara totalmente traçara-lhe rugas na frontecongestionada. Por sua vez, Joseph Grand chegou. Eram sete horas e oempregado municipal desculpou-se por estar esfalfado. Só podia ficar uminstante, mas talvez já soubessem alguma coisa de preciso. Sem falar, Rieuxmostrou-lhe a criança, que, com os olhos fechados e o rosto transtornado, osdentes cerrados até o limite de forças, o corpo imóvel, virava e revirava a cabeçada direita para a esquerda no travesseiro sem fronha. Quando, finalmente, estavabastante claro para que no quadro-negro que ficara ao fundo da sala pudessemdistinguir-se vestígios de antigas fórmulas de equações, chegou Rambert.Encostou-se aos pés da cama vizinha e tirou um maço de cigarros. Depois delançar um olhar ao pequeno, no entanto, voltou a guardar o maço no bolso. Gastei, que continuava sentado, olhava para Rieux por cima dos óculos. - Tem notícias do pai? - Não - disse Rieux -, está no campo de isolamento. O médico apertava com força a barra do leito onde a criança gemia. Nãotirava os olhos do pequeno doente, que se enrijeceu bruscamente e, com osdentes de novo cerrados, se encolheu um pouco ao nível da cintura, afastandolentamente os braços e as pernas. Do pequenino corpo, nu sob o cobertor militar,veio um cheiro de lã e de suor acre. A criança descontraiu-se pouco a pouco,levou os braços e as pernas para o centro da cama e, ainda cega e muda, pareceurespirar mais depressa. Rieux encontrou o olhar de Tarrou, que desviou os olhos. Tinham visto morrer crianças, já que o terror, há meses, não escolhia,mas nunca lhes tinham seguido o sofrimento minuto a minuto, como faziamdesde essa manhã. E, naturalmente, a dor infligida a esses inocentes nuncadeixara de lhes parecer o que era na verdade, isto é, um eescândalo. Mas até então ao menos escandalizavam-se abstratamente, de certomodo, pois nunca tinham olhado de frente, tão longamente, a agonia de uminocente. Justamente como se lhe mordessem o estômago, a criança dobrava-se denovo com um gemido débil. Ficou assim encolhida durante longos segundos,sacudida por calafrios e tremores convulsivos, como se sua frágil carcaça securvasse sob o vento furioso da peste e estalasse aos sopros repetidos da febre.Passada a tempestade, ele se descontraiu um pouco, a febre pareceu retirar-se eabandoná-lo ofegante num patamar úmido e envenenado, em que o repouso já separecia com a morte. Quando a vaga ardente o atingiu de novo pela terceira vez eo soergueu um pouco, a criança se retorceu, recuou para o fundo do leito no
terror da chama que o queimava e agitou loucamente a cabeça, repelindo ocobertor. Grossas lágrimas lhe jorravam das pálpebras inflamadas e corriam pelaface lívida, e, no fim da crise, exausta, crispando as pernas ossudas e os braços,cuja carne se fundira em quarenta e oito horas, a criança tomou no leitodevastado uma atitude de grotesco crucificado. Tarrou curvou-se e, com a pesada mão, enxugou o pequeno rosto,encharcado de lágrimas e de suor. Gastei fechara há um momento seu livro eolhava para o doente. Começou uma frase, mas foi obrigado a tossir para poderterminar, pois sua voz desafinava bruscamente. - Não houve remissão matinal, não é verdade, Rieux? Rieux disse quenão, mas que a criança resistia há mais tempo do que o normal. Paneloux, queparecia um pouco abatido, encostado à parede, disse então, surdamente: - Se tiver de morrer, terá sofrido mais tempo. Rieux voltou-sebruscamente para ele e abriu a boca para falar, mas calou-se, fez um esforçovisível para se dominar e voltou a olhar para a criança. A luz aumentava na sala. Nas outras cinco camas, formas mexiam-se egemiam, mas com uma discrição que parecia combinada. O único que gritava, nooutro extremo da sala, soltava com intervalos regulares pequenas exclamaçõesque pareciam traduzir mais espanto que dor. Parecia que, mesmo para osdoentes, não era já o terror dos primeiros tempos. Agora, havia até uma espéciede aquiescência na maneira como aceitavam a doença. Só o pequeno se debatiacom todas as suas forças. Rieux, que de vez em quando lhe tomava o pulso, semnecessidade aliás, mais para sair da imobilidade impotente em que seencontrava, sentia, ao fechar os olhos, essa agitação misturar-se ao tumulto deseu próprio sangue. Confundia-se então com a criança supliciada e tentavaapoiá-la com toda a sua força ainda intacta. No entanto, reunidas um minuto, aspulsações dos seus dois corações desencontravam-se, a criança lhe escapava eseu esforço perdia-se no vácuo. Soltava então o frágil pulso e voltava ao seulugar. Ao longo das paredes caiadas, a luz passava do rosa ao amarelo. Por trásda janela, uma manhã de calor começava a crepitar. Mal se ouviu Grand sair,dizendo que voltaria. Todos esperavam. A criança, sempre de olhos fechados,parecia acalmar-se um pouco. As mãos que agora pareciam garras raspavamsuavemente os flancos do leito. Depois subiram, coçaram o cobertor perto dosjoelhos e, de repente, o pequeno dobrou as pernas, aproximou as coxas do ventree imobilizou-se. Abriu então os olhos pela primeira vez e olhou para Rieux, que seencontrava diante dele. No rosto cavado, agora como que fixado numa argilacinzenta, a boca abriu-se e, quase imediatamente, emitiu um único grito contínuoque a respiração mal modulava e que encheu de súbito a sala de um protestomonótono, desafinado e tão pouco humano que parecia vir de todos os homens aomesmo tempo. Rieux cerrou os dentes, e Tarrou voltou-se. Rambert aproximou-sedo leito, perto de Gastei, que fechou o livro que ficara aberto sobre os joelhos.Paneloux olhou para a boca infantil, conspurcada pela doença, cheia desse gritode todas as idades. E deixou-se cair de joelhos, e todos acharam natural ouvi-lodizer, com uma voz um pouco abafada, mas nítida, por detrás do lamentoanónimo que não cessava: ”Meu Deus, salvai esta criança”. Mas a criança continuava a gritar e, à sua volta, os doentes agitaram-se.Aquele cujas exclamações não haviam cessado, no outro extremo da sala,precipitou o ritmo de seu lamento até fazer dele também um verdadeiro grito,enquanto os outros gemiam cada vez com mais força. Uma maré de soluços
irrompeu na sala, cobrindo a oração de Paneloux, e Rieux, agarrado à barra doleito, fechou os olhos, bêbado de cansaço e de desgosto. Quando voltou a abri-los, encontrou Tarrou a seu lado. - Preciso ir embora - disse. - Não consigo mais suportá-los. Mas, bruscamente, os outros doentes calaram-se. O médico reconheceuentão que o grito da criança tinha enfraquecido e que enfraquecia ainda e queacabava de cessar. À sua volta, os lamentos recomeçavam, mas surdamente ecomo um eco longínquo da luta que acabava de terminar. Porque a luta chegaraao fim. Gastei tinha passado para o outro lado do leito e disse que tudo findara.com a boca aberta, mas muda, a criança repousava no fundo dos cobertores emdesordem, subitamente menor, com restos de lágrimas no rosto. Paneloux aproximou-se do leito e fez os gestos da bênção. Depois, saiupelo corredor central. - Será preciso recomeçar tudo? - perguntou Tarrou a Gastei. O velho médico abanava a cabeça. - Talvez - disse com um sorriso crispado. - Afinal, ele resistiu muitotempo. Mas Rieux saía já da sala, com um passo tão precipitado e com um talaspecto que, quando passou por Paneloux, este estendeu o braço para detê-lo. - Vamos, doutor - disse-lhe. Com o mesmo movimento arrebatado, Rieux voltou-se e lançou-lhe comviolência: - Ah! Aquele, pelo menos, era inocente, como o senhor bem sabe! Depois voltou-se e, atravessando a porta da sala antes de Paneloux,chegou ao fundo do pátio da escola. Sentou-se num banco, entre pequenasárvores poeirentas, e enxugou o suor que já lhe escorria pelos olhos. Tinhavontade de gritar mais, para desfazer enfim o nó violento que lhe apertava ocoração. O calor caía lentamente entre os ramos das árvores. O céu azul damanhã cobria-se rapidamente de uma névoa esbranquiçada que tornava o armais abafado. Rieux deixou-se ficar no banco. Olhava para os galhos, para o céu,recuperava lentamente a respiração, vencendo pouco a pouco o cansaço. - Por que me falou com tanta raiva? - disse uma voz atrás dele. - Tambémpara mim o espetáculo é insuportável. Rieux voltou-se para Paneloux. - É verdade - disse. - Desculpe-me. Mas o cansaço é uma loucura. E háhoras, nesta cidade, em que nada sinto a não ser minha revolta. - Compreendo - murmurou Paneloux. - Isso é revoltante, pois ultrapassanossa compreensão. Mas talvez devamos amar o que não conseguimoscompreender. Rieux endireitou-se bruscamente. Olhava para Paneloux com toda a forçae toda a paixão de que era capaz e abanava a cabeça. - Não, padre - disse ele. - Tenho outra ideia do amor. E vou recusar até amorte essa criação em que as crianças são torturadas. No rosto de Paneloux passou uma sombra de perturbação. - Ah, doutor - exclamou, com tristeza -, acabo de compreender aquilo aque se chama graça. Mas Rieux deixara-se cair de novo em seu banco. Do fundo do cansaçoque lhe voltara, respondeu com mais suavidade: - É o que eu não tenho, bem sei. Mas não quero discutir isso com osenhor. Trabalhamos juntos para qualquer coisa que nos una para além das
blasfémias e das orações. Só isso é importante. Paneloux sentou-se junto de Rieux. Parecia comovido. - Sim - disse ele -, é verdade, também o senhor trabalha para a salvaçãodo homem. Rieux tentou sorrir. - A salvação do homem é, para mim, uma palavra demasiado grande. Nãovou tão longe. É sua saúde que me interessa, a saúde em primeiro lugar. Paneloux hesitou. - Doutor. . . - disse ele. Mas deteve-se. Também sobre sua fronte o suor começava a escorrer.Murmurou ”adeus”, e seus olhos brilhavam quando se levantou. Ia partir, quandoRieux, que rèfletia, se levantou também e deu um passo em sua direção. - Perdoe-me, mais uma vez. Esse rompante não voltará a se repetir. Paneloux estendeu-lhe a mão e disse com tristeza: - E, contudo, não o convenci. - Que importância tem isso? - respondeu Rieux. - Como sabe, o que odeio é a morte e o mal. E, quer queira, quer não,estamos juntos para sofrê-los e combatê-los. - Rieux segurava a mão de Paneloux. - Como vê - disse, evitando fixá-lo -,nem mesmo Deus pode nos separar agora. Desde que entrara para as brigadas sanitárias, Paneloux não abandonaraos hospitais e os lugares onde se encontrava a peste. Tinha-se colocado, entre ossalvadores, na posição que lhe parecia ser a sua. Quer dizer, no primeiro posto.Não lhe tinham faltado os espetáculos da morte. E embora, em princípio,estivesse protegido pelo soro, a preocupação com sua própria morte não lhe eraestranha. Aparentemente, mantivera sempre a calma. No entanto, a partir do diaem que vira, passo a passo, uma criança morrer, pareceu modificar-se. Lia-se noseu rosto uma tensão crescente. E, no dia em que disse a Rieux, sorrindo, quepreparava nesse momento um curto tratado sobre o assunto ”Um padre podeconsultar um médico?”, o doutor teve a impressão de que se tratava de algo maissério do que parecia dizer Paneloux. Como o médico exprimisse o desejo de tomarconhecimento desse trabalho, Paneloux anunciou-lhe que devia fazer um sermãona missa dos homens e que, nessa ocasião, exporia pelo menos alguns de seuspontos de vista. - Gostaria que viesse, doutor, o assunto vai interessar-lhe. O padre fez seu segundo sermão num dia de grande ventania. Para dizera verdade, a assistência era menos numerosa que por ocasião do primeirosermão. É que esse género de espetáculo já não tinha para nossos concidadãos aatração da novidade. Nas circunstâncias difíceis que a cidade atravessava, aprópria palavra ”novidade” tinha perdido seu sentido. Aliás, a maior parte daspessoas, quando não tinha desertado inteiramente de seus deveres religiosos., ouquando não os faziam coincidir com uma vida pessoal profundamente imoral,havia substituído as práticas normais por superstições pouco razoáveis. Era maisfácil usar medalhas protetoras ou amuletos de São Roque do que ir à missa. Pode-se dar como exemplo o uso imoderado que nossos concidadãosfaziam das profecias. Na primavera, com efeito, esperara-se, de um momentopara outro, o fim da doença, e ninguém pensava em pedir aos outros detalhessobre a duração da epidemia, já que todos estavam persuadidos de que ela nãoduraria para sempre. Mas, à medida que os dias passavam, começaram a recearque essa desgraça não tivesse realmente fim e, ao mesmo tempo, o término da
doença tornou-se o objeto de todas as esperanças. Era assim que passavam demão em mão diversas profecias atribuídas a magos ou a santos da Igreja Católica.Editores da cidade viram rapidamente o proveito que poderiam tirar dessa maniae difundiram em numerosos exemplares os textos que circulavam.Compreendendo que a curiosidade do público era insaciável, mandaram fazerpesquisas nas bibliotecas municipais sobre todos os testemunhos do género queas pequenas histórias podiam fornecer e espalharam-nos pela cidade. Quando aprópria história já não tinha profecias, encomendaram-nas a jornalistas que, aomenos nesse ponto, se mostraram tão competentes quanto seus modelos dosséculos passados. Algumas dessas profecias apareciam até em folhetins nos jornais e nãoeram lidos com menos avidez que as histórias sentimentais que lá seencontravam em tempo de saúde. Algumas dessas previsões baseavam-se emcálculos estranhos em que intervinham o milésimo do ano, o número de mortos ea conta dos meses já passados sob o regime da peste. Outras estabeleciamcomparações com as grandes pestes da história, tiravam delas semelhanças (queas profecias chamavam constantes) e, por meio de cálculos não menos estranhos,pretendiam extrair delas ensinamentos relativos à presente provação. Mas asmais apreciadas pelo público eram, sem contestação, as que, numa linguagemapocalíptica, anunciavam séries de acontecimentos, cada um dos quais podia seraquele que a cidade sentia e cuja complexidade permitia todas as interpretações.Nostradamus e Santa Odília foram assim consultados diariamente e sempre comproveito. O que, de resto, se tornava comum a todas as profecias era o fato deelas serem, finalmente, tranqüilizadoras. Só a peste não o era. Essas superstições substituíam para nossos concidadãos a religião, e foipor isso que o sermão de Paneloux se realizou numa igreja de que a quarta parteestava vaga. Na tarde do sermão, quando Rieux chegou, o vento, que se infiltravaem filetes de ar pelas portas de entrada, circulava livremente entre os ouvintes. Efoi numa igreja fria e silenciosa, no meio de uma assistência compostaexclusivamente por homens, que ele se instalou e viu o Padre Paneloux subir aopúlpito. Este falou num tom mais brando e mais refletido que da primeira vez, eem várias ocasiões os ouvintes notaram uma certa hesitação em seu discurso.Coisa mais curiosa ainda, dizia agora ”nós”, em vez de empregar a segundapessoa do plural. No entanto, sua voz tornou-se pouco a pouco mais firme. Começou porlembrar que a peste estava entre nós há longos meses e que, agora que aconhecíamos melhor, por a termos visto tantas vezes sentar-se à nossa mesa ou àcabeceira dos que nos eram queridos, caminhar ao nosso lado ou esperar a nossachegada aos lugares de trabalho, agora, portanto, poderíamos talvez recebermelhor o que ela nos dizia sem descanso e que talvez, com a primeira surpresa,não tivéssemos escutado bem. O que o Padre Paneloux já pregara no mesmolugar continuava verdadeiro ou era essa, pelo menos, sua convicção. Ou talvezainda, como acontecia a todos, e batia no peito, ele o tivesse pensado e dito semcaridade. O que continuava verdadeiro, entretanto, era que em tudo, e sempre,havia qualquer coisa a reter. A provação mais cruel era ainda benefício para ocristão, e justamente o que o cristão, nesse caso, devia procurar era seu benefícioe de que era ele feito e como podia encontrá-lo. Nesse momento, à volta de Rieux as pessoas pareceram enterrar-se entreos braços de seus bancos e instalar-se o mais confortavelmente que podiam. Umadas portas almofadadas da entrada bateu suavemente. Alguém se deu ao