trabalho de segurá-la. E Rieux, distraído por essa agitação, mal ouviu Paneloux,que retomava o sermão. Dizia, mais ou menos, que não se devia tentar explicar oespetáculo da peste, mas sim tentar aprender o que com ele se podia aprender.Rieux compreendeu coníusamente que, segundo o padre, nada havia a explicar.Seu interesse fixou-se quando Paneloux disse vigorosamente que havia coisasque se podiam explicar em relação a Deus e outras que não se podiam. Havia,certamente, o bem e o mal e, geralmente, as pessoas sabiam explicar facilmente oque os distinguia. A dificuldade começava porém no interior do mal. Havia, porexemplo, o mal aparentemente necessário e o mal aparentemente inútil. HaviaDom Juan mergulhado nos Infernos e a morte de uma criança. Pois, se é justoque um libertino seja fulminado, não se compreende o sofrimento de umacriança. E, na verdade, nada havia de mais importante sobre a terra que osofrimento de uma criança e o horror que esse sofrimento traz consigo e suasrazões que é preciso descobrir. No resto da vida, Deus nos facilitava tudo e, atéentão, a religião não tinha méritos. Aqui, pelo contrário, ele encostava-nos contraa parede. Estávamos assim sob as muralhas da peste e era à sua sombra mortalque era necessário encontrar nosso benefício. O Padre Paneloux chegava até arecusar as oportunidades que lhe permitissem escalar a muralha. Ter-lhe-ia sidofácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podiacompensar seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Quem podia afirmarque a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana?Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor nos membros e naalma. Não, o padre continuaria encostado à muralha, fiel a esse esquartejamentode que a cruz era o símbolo, diante do sofrimento de uma criança. E diria semtemor aos que o escutavam nesse dia, ”Meus irmãos, chegou a hora. É precisocrer em tudo ou tudo negar. E quem, dentre vós, ousaria negar tudo?” Rieux mal tivera tempo de pensar que Paneloux beirava a heresia e já ooutro recomeçava, com veemência, para afirmar que essa injunção, essa puraexigência, era o benefício do cristão. Era, também, sua virtude. O padre sabia queo que havia de excessivo na virtude de que ia falar chocaria muitos espíritoshabituados a uma moral mais indulgente e mais clássica. Mas a religião do tempoda peste não podia ser a religião de todos os dias, e se Deus podia admitir, emesmo desejar, que a alma repouse e se rejubile nos tempos de felicidade,desejava-o excessivamente nos excessos da desgraça. Deus concedia hoje às suascriaturas a graça de colocá-las numa desgraça tal que lhes era necessárioreencontrar e assumir a maior virtude que é a do Tudo ou Nada. Um autor profano, há muitos séculos, pretendera revelar o segredo daIgreja, ao afirmar que não havia Purgatório. Subentendia, assim, que não haviameias medidas, que só havia o Paraíso e o Inferno, e que só se podia ser salvo oucondenado, segundo o que se tinha escolhido. Era, na opinião de Paneloux, umaheresia que só podia nascer no seio de uma alma libertina. Pois existia umPurgatório. Mas havia épocas, sem dúvida, em que não se podia contar muitocom esse Purgatório, havia épocas em que não se podia falar de pecado venial.Todo pecado era mortal e toda indiferença, criminosa. Tudo ou nada. Paneloux deteve-se, e Rieux ouviu melhor, nesse momento, debaixo dasportas, as lamúrias do vento, que parecia redobrar lá fora. Nesse instante, opadre dizia que a virtude da aceitação total de que falava não podia sercompreendida no sentido restrito que lhe era habitualmente atribuído, que não setratava da banal resignação, nem mesmo da difícil humildade. Tratava-se dehumilhação, mas de uma humilhação consentida pelo humilhado. Sem dúvida, o
sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o coração. Masexatamente por isso era necessário passar por essa prova. Era por isso - ePaneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil -preciso querê-la, porque Deus a queria. Só assim o cristão nada se pouparia e,com todas as saídas fechadas, iria ao fundo da escolha essencial. Escolheria crerem tudo, para não ficar reduzido a tudo negar. E como as boas mulheres que nasigrejas, nesse momento, ao saber que os tumores que se formavam eram ocaminho natural por onde o corpo rejeitava a infecção, diziam: ”Meu Deus, dai-nos tumores”, o cristão saberia abandonar-se à vontade divina, ainda queincompreensível. Não se podia dizer: ”Isso eu compreendo, mas aquilo éinaceitável”, era preciso agarrar-se avidamente a esse inaceitável que nos eraoferecido, justamente para que fizéssemos nossa escolha. O sofrimento dascrianças era nosso pão amargo, mas sem esse pão, nossa alma pereceria de fomeespiritual. Aqui, o burburinho surdo que geralmente acompanhava as pausas doPadre Paneloux começava a fazer-se ouvir, quando, inopinadamente, o pregadorrecomeçou com força, aparentando perguntar, em lugar de seus ouvintes, qualera em suma a conduta a adotar. Receava efetivamente que eles fossempronunciar a aterradora palavra ”fatalismo”. Pois bem, ele não recuaria diante dotermo, se lhe permitissem acrescentar o adjetivo ativo. Sem dúvida, e mais umavez, não se deviam imitar os cristãos da Abissínia de que falara. Não se deviasequer pensar em imitar os persas atingidos pela peste, que lançavam seusbandos sobre os piquetes cristãos, invocando o céu em altas vozes, para pedirque mandasse a peste a esses infiéis que queriam combater o mal enviado porDeus. Mas, por outro lado, tampouco se deviam imitar os monges do Cairo que,nas epidemias do século passado, davam a comunhão pegando a hóstia com umapinça, para evitar o contato com aquelas bocas úmidas e quentes em que ainfecção podia dormir. Os doentes persas e os monges pecavam igualmente. Issoporque, para os primeiros, o sofrimento de uma criança não contava e, para osoutros, pelo contrário, o receio bem humano da dor tudo invadira. Em ambos oscasos, o problema era escamoteado. Todos permaneciam surdos à voz de Deus.Mas havia outros exemplos que Paneloux queria recordar. Segundo o cronista dagrande peste de Marselha, dos oitenta e um religiosos do Convento de La Mercy,só quatro sobreviveram à febre. E, desses quatro, três fugiram. Assim falavam oscronistas, e não fazia parte de seu ofício dizer mais. Mas, ao ler isso, opensamento do Padre Paneloux ia para aquele que ficara sozinho, apesar dossetenta e sete cadáveres e, sobretudo, apesar do exemplo de seus três irmãos. E opadre, batendo com o punho no rebordo do púlpito, exclamava: ”Meus irmãos, épreciso ser aquele que fica!” Não se tratava de recusar as precauções, a ordem inteligente que umasociedade introduzia na desordem de um flagelo. Não se deviam escutar osmoralistas que diziam ser preciso cair de joelhos e tudo abandonar. Era preciso,apenas, começar a caminhar para a frente, nas trevas, um pouco às cegas, etentar praticar o bem. Quanto ao resto, porém, era preciso ficar e aceitarentregar-se a Deus, mesmo na morte das crianças, e sem procurar um recursopessoal. Aqui, o Padre Paneloux evocou a grande figura do Bispo Belzunce durantea peste de Marselha. Lembrou que, pelo fim da epidemia, o bispo, tendo feito tudoo que devia fazer, julgando que já não havia remédio, se trancou com víveres emsua casa, que mandou murar; que os habitantes, de quem era o ídolo, por uma
reviravolta de sentimentos, tal como ocorre por vezes no excesso das dores,zangaram-se com ele, cercaram-lhe à casa de cadáveres para infectá-lo echegaram até a atirar corpos por cima dos muros para fazê-lo morrer com maiscerteza. Assim, o bispo, numa última fraqueza, tinha julgado isolar-se da morteno mundo, e os mortos caíam-lhe do céu sobre a cabeça. Esse era também nossocaso, já que devíamos persuadir-nos de que não havia ilha na peste. Não, nãohavia meio-termo. Era preciso admitir o escândalo, pois era necessário escolherentre odiar a Deus ou amá-lo. E quem ousaria escolher o ódio a Deus? - Meus irmãos - disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar -, oamor de Deus é um amor difícil. Ele pressupõe o abandono total de si mesmo e omenosprezo da pessoa. Mas só ele pode apagar o sofrimento e a morte dascrianças, só ele, em todo caso, pode torná-la necessária, pois é impossívelcompreendê-la, e não podemos senão desejá-la. Eis a difícil lição que desejavacompartilhar convosco. Eis a fé, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhosde Deus, de quem é preciso nos aproximarmos. Diante dessa imagem terrível, épreciso que nos igualemos. Nesse cume, tudo se confundirá e se nivelará, averdade brotará da injustiça aparente. É assim que em muitas igrejas do sul daFrança os mortos da peste dormem, há séculos, sob as lajes do coro, e os padresfalam por cima de seus túmulos, e o espírito que eles propagam brota dessa cinzapara a qual as crianças deram, contudo, a sua parte. Quando Rieux saiu, um vento violento engolfou-se pela porta entreabertae atingiu em pleno rosto os fiéis. Trazia até a igreja um cheiro de chuva, umaroma de calçadas molhadas que lhes deixava adivinhar o aspecto da cidadeantes de saírem. Diante do Dr. Rieux, um velho padre e um jovem diácono, quesaíam nesse momento, seguravam com dificuldade os chapéus. Nem por isso, omais velho deixou de comentar o sermão. Prestava homenagem à eloquência dePaneloux, mas mostrava-se inquieto com as ousadias de pensamento que o padretinha mostrado. Achava que esse sermão indicava mais inquietação que força e,na idade de Paneloux, um padre já não tinha o direito de ficar inquieto. O jovemdiácono, com a cabeça baixa para proteger-se do vento, afirmou que frequentavao padre, que estava a par de sua evolução, que seu tratado seria ainda muitomais ousado e que não obteria o Imprimatur. - Qual é afinal a ideia dele? - perguntou o velho padre. Tinham chegado ao adro e o vento cercava-os, uivando, cortando apalavra ao mais novo. Quando conseguiu falar, disse simplesmente: - Se um padre consulta um médico, há contradição. A Rieux, que lhecontava as palavras de Paneloux, disse que conhecia um padre que perdera a fédurante a guerra ao descobrir um rosto de rapaz com os olhos vazados. - Paneloux tem razão - disse Tarrou. - Quando a inocência tem os olhosvazados, um cristão deve perder a fé ou aceitar que lhe furem os olhos. Panelouxnão quer perder a fé, irá até o fim. Foi isso o que quis dizer. Será que essa observação de Tarrou permite esclarecer um pouco oslamentáveis acontecimentos que se seguiram e em que a atitude de Panelouxpareceu incompreensível aos que o cercavam? É o que se verá. Na verdade, alguns dias depois do sermão, Paneloux ocupou-se emmudar de casa. Era a época em que a evolução da doença provocava mudançasconstantes na cidade. E, assim como Tarrou tivera de abandonar o hotel paramorar em casa de Rieux, o padre teve de deixar a casa em que sua ordem oinstalara para ir morar em casa de uma pessoa idosa, frequentadora das igrejas eainda imune à peste. Durante a mudança, o padre sentira aumentar o cansaço e
a angústia. E foi assim que ele perdeu a estima da dona da casa. Como esta lhetivesse louvado calorosamente os méritos da profecia de Santa Odília, o padredemonstrara uma impaciência muito ligeira, devida sem dúvida ao cansaço. Pormais esforços que fizesse, em seguida, para obter da velha senhora pelo menosuma neutralidade benévola, não o conseguiu. Tinha causado má impressão. E,todas as noites, antes de voltar para o quarto cheio de rendas de croché, tinha decontemplar as costas de sua anfitriã, sentada na sala ao mesmo tempo em quelevava a recordação do ”Boa noite, Padre Paneloux” que ela lhe dirigia secamentee sem se voltar. Foi numa noite dessas que, no momento de se deitar, com acabeça latejante, ele sentiu desencadearem-se, nos pulsos e nas têmporas, asondas de uma febre, latente há dias. O que se seguiu só ficou conhecido depois, pelo relato de sua anfitriã. Demanhã, ela se levantara cedo, como de costume. Ao fim de certo tempo, admiradade não ver o padre sair do quarto, decidira-se, depois de muita hesitação, bater àporta. Encontrara-o ainda deitado, depois de uma noite de insónia. Respiravacom dificuldade e parecia mais congestionado que habitualmente. Segundo seuspróprios termos, tinha-lhe proposto com cortesia chamar um médico, mas aproposta fora repelida com uma violência que ela considerava lamentável. Nadapudera fazer, senão retirarse. Um pouco mais tarde, o padre tocara e mandarachamar Ia. Tinha-se desculpado pelo mau humor e declarara-lhe que não deviaser a peste, que não apresentava nenhum dos sintomas e que se tratava de umcansaço passageiro. A velha senhora respondera-lhe com dignidade que suaproposta não nascera de nenhuma inquietação dessa ordem, que não visava asua própria segurança, que estava nas mãos de Deus, mas que só pensara nasaúde do padre, pela qual se julgava, em parte, responsável. Mas, como ele nadamais acrescentasse, sua anfitriã, a acreditar em suas palavras, desejosa decumprir inteirametne seu dever, propusera-lhe, mais uma vez, chamar o médico.O padre recusara de novo, mas acrescentando explicações que a velha senhorajulgara muito confusas. Pensava apenas ter compreendido - e isso justamente lheparecia incompreensível - que o padre recusava essa consulta porque estava emdesacordo com seus princípios. Concluíra que a febre perturbava as ideias de seuinquilino, e que ela estava reduzida a levar-lhe um chá. Sempre decidida a cumprir com grande exatidão as obrigações que asituação lhe criava, visitara regularmente o doente de duas em duas horas. O quemais a impressionara fora a agitação incessante em que o padre passara o dia.Tirava os lençóis e tornava a cobrir-se, passando incessantemente as mãos sobrea testa úmida e erguendo-se muitas vezes para tentar tossir, com uma tosseestrangulada, rouca e úmida, aos arrancos. Parecia então incapaz de extirpar dofundo da garganta os tampões de algodão que o teriam sufocado. Ao fim dessascrises, deixava-se cair para trás, com todos os sinais de esgotamento. Por fim,semierguia-se de novo e, durante um breve momento, olhava para a frente, comuma fixidez mais veemente que toda a agitação anterior. Mas a velha senhorahesitava ainda em chamar o médico e contrariar o doente. Podia ser um simplesacesso de febre, por mais impressionante que parecesse. À tarde, contudo, tentou falar com o padre, recebendo como respostaapenas algumas palavras confusas. Renovou a proposta. Mas então o padreergueu-se e, meio sufocado, respondeu-lhe distintamente que não queria ummédico. Nesse momento, a anfitriã decidiu que esperaria até o dia seguinte demanhã e que, se o estado do padre não tivesse melhorado, telefonaria para onúmero que a Agência Ransdoc repetia todos os dias uma dezena de vezes pelo
rádio. Sempre atenta a seus deveres, pretendia visitar seu locatário durante anoite e velar por ele. Mas à noite, depois de lhe ter dado um chá fresco, quisdescansar um pouco e só acordou de madrugada. Então, correu para o quarto. O padre estava estendido, sem um movimento. À extrema congestão davéspera, sucedera uma espécie de lividez que se acentuava pelas formas aindacheias do rosto. O padre fixava o pequeno lustre de contas multicolores quependia por cima da cama. À entrada da velha senhora, voltou a cabeça em suadireção. Segundo ela, parecia nessa altura ter sido surrado durante toda a noite eter perdido todas as forças para reagir. Perguntou-lhe como estava. E, numa vozem que notou o tom estranhamente indiferente, ele disse que ia mal, que nãoprecisava de médico e que bastava que o levassem para o hospital, para que tudose fizesse segundo as regras. Aterrada, a velha correu para o telefone. Rieux chegou ao meio-dia. Diante do relato, respondeu apenas quePaneloux tinha razão e que devia ser tarde demais. O podre recebeu-o com omesmo ar indiferente. Rieux examinou-o e ficou surpreso por não encontrarnenhum dos sintomas principais da peste bubônica ou pulmonar, a não ser oingurgitamento e a opressão dos pulmões. De qualquer maneira, o pulso estavatão baixo e o estado geral tão alarmante, que havia poucas esperanças. - O senhor não tem nenhum dos sintomas principais da doença, mas, emtodo caso, há dúvidas e tenho de isolá-lo. O padre sorriu estranhamente, como por delicadeza, mas calou-se. Rieuxsaiu para telefonar e voltou. Olhava para o padre. - Ficarei perto do senhor - disse-lhe, suavemente. O outro pareceureanimar-se e voltou para o médico uns olhos aos quais uma espécie de calorparecia ter retornado. Depois, articulou dificilmente, de maneira que eraimpossível saber se o dizia com tristeza ou não: - Obrigado. Mas os religiosos não têm amigos. Concentraram tudo emDeus. Pediu o crucifixo que estava colocado à cabeceira do leito e, quando orecebeu, voltou para ele o olhar. No hospital, Paneloux não descerrou os dentes. Abandonou-se como umacoisa a todos os tratamentos que lhe impuseram, mas não largou o crucifixo.Entretanto, o caso do padre continuava a ser ambíguo. A dúvida persistia noespírito de Rieux. Era a peste e não era. Há’algum tempo, ela parecia comprazer-se em confundir os diagnósticos. No caso de Paneloux, porém, o que se seguiuviria demonstrar que essa incerteza não tinha importância. A febre subiu. A tosse tornou-se cada vez mais rouca e torturou o doentedurante todo o dia. À noite, finalmente, o padre expectorou o algodão que osufocava. Era vermelho. Em meio ao tumulto da febre, Paneloux conservava oolhar indiferente e quando, no dia seguinte de manhã, o encontraram morto,meio fora do leito, seu olhar não exprimia nada. Na ficha, escreveram: ”Casoduvidoso”. O Dia de Todos os Santos, nesse ano, não foi o que era habitualmente. Naverdade, o tempo era o de costume. Mudara bruscamente, e os calores tardiostinham dado lugar de repente a uma temperatura mais baixa. Como nos outrosanos, um vento frio soprava agora de modo contínuo. Grossas nuvens corriam deum lado para outro no horizonte e cobriam de sombra as casas, nas quais caía,após sua passagem, a luz fria e dourada do céu de novembro. As primeiras capasde chuva tinham surgido. Mas notava-se um número surpreendente de tecidosimpermeabilizados e brilhantes. Os jornais tinham contado, com efeito, que,
duzentos anos antes, durante as grandes pestes do sul, os médicos usavamoleados para sua própria preservação. As lojas tinham se aproveitado disso paraliquidar um estoque de roupas fora de moda, graças às quais todos esperavamimunizar-se. Mas todos esses sinais da estação não podiam fazer esquecer que oscemitérios estavam desertos. Nos outros anos, os bondes se enchiam do cheiroenjoativo dos crisântemos e as mulheres em bandos dirigiam-se aos locais ondeestavam enterrados os seus para cobrir-lhes de flores as sepulturas. Era o dia emque se tentava compensar junto ao morto o isolamento do esquecimento em quefora mantido durante longos meses. Mas, naquele ano, ninguém queria maispensar nos mortos. É que, precisamente, já se pensava demais nisso. E não setratava mais de voltar a eles com um pouco de pesar e muita melancolia. Já nãoeram os abandonados junto dos quais os vivos vão justificar-se uma vez por ano.Eram intrusos que se desejava esquecer. Eis por que a festa dos mortos, nesseano, foi, de certo modo, escamoteada. Segundo Cottard, em quem Tarroureconhecia uma linguagem cada vez mais irónica, todos os dias eram dia dosmortos. E, realmente, as fogueiras da peste ardiam com uma satisfação cada vezmaior no forno crematório. De um dia para o outro, na verdade, o número dosmortos não aumentava. Mas parecia que a peste se tinha instaladoconfortavelmente no seu paroxismo e incorporava aos seus assassinatos diários aprecisão e a regularidade de um bom funcionário. Em princípio, segundo aopinião de pessoas competentes, era bom sinal. O gráfico da evolução da peste,com sua subida incessante, depois o longo planalto que lhe sucedera, pareciainteiramente reconfortante ao Dr. Richard, por exemplo. ”É um bom gráfico, umexcelente gráfico”, dizia ele. Achava que a doença tinha atingido o que elechamava de ”patamar”. Daqui em diante, só poderia decrescer. E ele atribuía omérito disso ao novo soro de Gastei, que acabava de obter, com efeito, algunsêxitos imprevistos. O velho Gastei não o contradizia, mas considerava que narealidade nada se podia prever, já que a história das epidemias comportava saltosimprevistos. A prefeitura, que há muito desejava tranqüilizar a opinião pública eà qual a peste não proporcionava os meios necessários, se propunha a reunir osmédicos para lhes pedir um relatório sobre o assunto, quando o próprio Dr.Richard, logo ele, foi arrebatado pela peste e precisamente no patamar da doença. A administração, diante desse exemplo sem dúvida im- j pressionante,mas que, afinal, nada provava, voltou ao pessimismo com a mesmainconsequência com que acolhera, a princípio, o otimismo. Gastei limitava-se apreparar seu soro com o maior cuidado possível. De qualquer forma, já não havianenhum lugar público que não estivesse transformado em hospital ou emisolamento, e se a prefeitura ainda era respeitada, é porque era efetivamentenecessário manter um local de reunião. De um modo geral, porém, graças àrelativa estabilidade da peste nessa época, a organização prevista por Rieux nãofoi de modo algum ultrapassada. Os médicos e os auxiliares, que contribuíamcom um esforço inesgotável, não eram obrigados a imaginar um esforço aindamaior. Deviam apenas prosseguir com regularidade, se assim se pode dizer, essetrabalho sobre-humano. As formas pulmonares da infecção, que já se tinhammanifestado, multiplicavam-se agora nos quatro cantos da cidade, como se ovento acendesse e alimentasse incêndios nos peitos. Em meio aos vómitos desangue, os doentes eram arrebatados muito mais rapidamente. O contágio tinhaagora probabilidade de ser maior, com essa nova forma de epidemia. Na
realidade, as opiniões dos especialistas tinham sempre sido contraditórias sobreesse ponto. Contudo, para maior segurança, o pessoal sanitário continuava arespirar através de máscaras de gaze desinfetadas. À primeira vista, em todocaso, a doença deveria ter-se alastrado. No entanto, como os casos de pestebubônica diminuíam, a balança mantinhase em equilíbrio. Havia, no entanto, outros motivos de inquietação em consequência dasdificuldades de abastecimento, que cresciam com o tempo. A especulaçãointerviera e oferecia, a preços fabulosos, os géneros de primeira necessidade quefaltavam no mercado habitual. As famílias pobres viam-se, assim, numa situaçãomuito difícil, enquanto às ricas não assim, faltava praticamente nada. A peste,que, pela imparcialidade eficaz com que exercia seu ministério, deveria terreforçado a igualdade entre nossos concidadãos pelo jogo normal dos egoísmos,tornava, ao contrário, mais acentuado no coração dos homens o sentimento dainjustiça. Restava, é bem verdade, a igualdade irrepreensível da morte, mas essa,ninguém queria. Os pobres que sofriam de fome pensavam, com mais nostalgiaainda, nas cidades e nos campos vizinhos, onde a vida era livre e o pão não eracaro. Já que não podiam alimentá-los suficientemente, eles tinham o sentimento,pouco sensato aliás, de que deveriam tê-los deixado partir. De tal modo que sedifundira uma divisa que se lia, às vezes, nos muros ou se gritava à passagem doprefeito: ”Pão ou ar”. Essa fórmula irónica dava o alarme de certas manifestaçõeslogo reprimidas, mas cuja gravidade todos percebiam. Os jornais, evidentemente, obedeciam às instruções que recebiam, deotimismo a qualquer preço. Ao lê-los, o que caracterizava a situação era ”oexemplo comovente de calma e de sangue-frio” dado pela população. Numacidade fechada sobre si mesma, porém, em que nada conseguia ficar em segredo,ninguém tinha ilusões sobre o ”exemplo” dado pela comunidade. E, para se teruma ideia justa da calma e do sangue-frio de que se falava, bastava entrar numlocal de quarentena ou num dos campos de isolamento que haviam sidoorganizados pelas autoridades. Acontece que o narrador, ocupado com outroschamados, não os conheceu. Eis por que só pode citar aqui o testemunho deTarrou. Tarrou, na verdade, relata em seus cadernos uma visita que fez comRambert ao campo instalado no estádio municipal. O estádio fica situado quaseàs portas da cidade e dá, por um lado, para a rua onde passam os bondes e, pelooutro, para os terrenos baldios que se estendem até a beira do planalto em que acidade está construída. Habitualmente, é cercado por muros altos de cimento ebastara colocar sentinelas às quatro portas de entrada para dificultar a fuga. Damesma forma, os muros impediam as pessoas do exterior de importunar, comsua curiosidade, os infelizes que estavam de quarentena. Em compensação,estes, durante todo o dia, ouviam, sem vê-los, os carros que passavam eadivinhavam, pelo maior rumor que estes deixavam para trás, as horas deentrada e de saída das repartições. Sabiam, assim, que a vida de que estavamexcluídos continuava a alguns metros dali e que os muros de cimento separavamdois universos mais estranhos um ao outro do que se estivessem em planetasdiferentes. Foi uma tarde de domingo que Tarrou e Rambert escolheram para sedirigir ao estádio. Acompanhava-os González, o jogador de futebol, que Rambertvoltara a encontrar e que acabara aceitando dirigir, por turnos, a vigilância doestádio. Rambert devia apresentá-lo ao administrador do campo. Gonzálezdissera aos dois homens no momento em que se tinham encontrado, que era
àquela hora, antes da peste, que ele se preparava para começar sua partida.Agora que os estádios estavam requisitados, não era mais possível. Gonzálezsentia-se e parecia inteiramente ocioso. Essa era uma das razões pelas quaisaceitara essa vigilância, com a condição de exercê-la apenas nos fins de semana.O céu estava meio encoberto e González, de nariz no ar, observou com pesar queesse tempo, nem chuvoso nem quente, era o mais favorável a uma boa partida.Recordava como podia o cheiro de embrocação nos vestiários, as tribunasapinhadas, os uniformes de cores vivas sobre o terreno fulvo, o limão dosintervalos e a limonada que arde nas gargantas secas com mil agulhasrefrescantes. Tarrou nota, aliás, que durante todo o trajeto através das ruasesburacadas do subúrbio, o jogador não parava de chutar todas as pedrinhas queencontrava. Procurava acertar nos bueiros e, quando conseguia, exclamava: ”Uma zero”. Quando acabava de fumar, atirava a ponta do cigarro à frente e tentava,com o pé, pegá-la no ar. Perto do estádio, crianças que jogavam mandaram umabola para perto do grupo que passava, e González deu-se ao trabalho de devolvê-la com precisão. Finalmente, entraram no estádio. As tribunas estavam cheias de gente.Mas o terreno estava coberto de várias centenas de barracas vermelhas, nointerior das quais se avistavam, de longe, camas e embrulhos. As tribunashaviam sido conservadas, para que os internados pudessem abrigarse do calor ouda chuva. Ao anoitecer, deviam simplesmente retornar às barracas. Debaixo dastribunas, encontravam-se os chuveiros, que tinham sido arranjados, e os antigosvestiários dos jogadores, que tinham sido transformados em gabinetes eenfermarias. A maior parte dos internados .encontrava-se nas tribunas. Outrosvagavam pelos corredores laterais. Outros ainda estavam agachados à entrada desua barraca e passeavam sobre todas as coisas um olhar vago. Nas tribunas,muitos estavam deitados e pareciam esperar. - Que fazem durante o dia? - perguntou Tarrou a Rambert. - Nada. Quase todos, na verdade, tinham os braços caídos e as mãos vazias. Essaimensa assembleia de homens mantinhase curiosamente silenciosa. - Nos primeiros dias, ninguém se entendia aqui - disse Rambert. - Mas, àmedida em que os dias corriam, passaram a falar cada vez menos. A julgar por suas anotações, Tarrou os compreendia e via-os a princípioamontoados em suas barracas, ocupados em escutar as moscas ou coçar-se,uivando sua cólera ou seu medo, quando encontravam um ouvido complacente.Mas, a partir do momento em que o campo ficara superpovoado, restava-lhes,portanto, calar e desconfiar. Na verdade, havia uma espécie de desconfiança quecaía do céu cinzento e, no entanto, luminoso, sobre o campo vermelho. Sim, todos tinham um ar de desconfiança. Já que os tinham separadodos outros, devia haver alguma razão, e apresentavam o rosto dos que procuramsuas razões e as temem. Cada um daqueles que Tarrou olhava tinha os olhosdesocupados, e todos pareciam sofrer de uma separação muito genérica daquiloque constituía a sua vida. E, como não podiam pensar sempre na morte, nãopensavam em nada. Estavam de férias. ”Mas o pior”, escrevia Tarrou, ”é elesserem esquecidos e saberem disso. Os que os conheciam esqueceram-nos porquepensam em outra coisa, e isso é bem compreensível. Quanto aos que os amam,esqueceram-se também, pois são forçados a esgotar-se em diligências e projetospara retirá-los dali e, de tanto pensarem nessa saída, já não pensam naquelesque querem retirar. Também isso é normal. E, afinal, vê-se que ninguém é
realmente capaz de pensar em ninguém, ainda que seja na pior das desgraças.Porque pensar realmente em alguém é pensar de minuto a minuto, sem se deixardistrair pelo que quer que seja: nem os cuidados da casa, nem a mosca que voa,nem as refeições, nem uma coceira. Mas há sempre moscas e coceiras. É por issoque a vida é difícil de viver. E eles sabem muito bem.” O administrador, que se dirigia a eles, disse-lhes que um tal Sr. Othondesejava vê-los. Conduziu González ao seu gabinete e depois levou-os a um cantodas tribunas, de onde o Sr. Othon, que se sentara a alguma distância, selevantou para recebê-los. Continuava a vestir-se da mesma maneira e usava omesmo colarinho engomado. Tarrou notou apenas que os cabelos nas têmporasestavam muito mais eriçados e que um dos cordões dos sapatos se desatara. Ojuiz parecia cansado e nem uma única vez olhou seus interlocutores de frente.Disse que tinha muito prazer em vê-los e encarregou-os de agradecer ao Dr.Rieux pelo que fizera. Os outros calaram-se. - Espero - disse o juiz, algum tempo depois - que Philippe não tenhasofrido muito. Era a primeira vez que Tarrou o ouvia pronunciar o nome do filho ecompreendeu que alguma coisa mudara. O sol baixava no horizonte e, entre duasnuvens, os raios penetravam lateralmente nas tribunas, dourando-lhes o rosto. - Não - disse Tarrou -, não, ele realmente não sofreu. Quando se retiraram, o juiz continuava a olhar para o lado de onde vinhao sol. Foram despedir-se de González, que estudava um quadro de vigilânciapor turnos. O jogador riu ao apertar-lhes a mão. - Ao menos, descobri os vestiários - disse ele. Estão como antes. Pouco depois, o administrador reconduzia Tarrou e Rambert, quando seouviu um enorme zumbido nas tribunas. Em seguida os alto-falantes, que nosbons tempos serviam para anunciar os resultados das partidas ou paraapresentar os times, declararam, fanhosos, que os internados deviam voltar àsbarracas para que pudesse ser servido o jantar. Lentamente, os homensabandonaram as tribunas e dirigiram-se para as barracas, arrastando o passo.Depois de todos estarem instalados, dois pequenos carros elétricos, como os quese vêem nas estações, passaram por entre as barracas, transportando enormespanelas. Os homens estendiam os braços, duas conchas mergulhavam naspanelas e delas saíam para encher as duas tigelas. O carrinho prosseguia na suamarcha. A cena recomeçava na barraca seguinte. - É científico - disse Tarrou ao administrador. - É verdade - respondeu o outro, satisfeito, apertando-lhes a mão -, écientífico. Chegara o crepúsculo e o céu se descobrira. Uma luz suave e frescabanhava o campo. Na calma da tarde, ruídos de colheres e de pratos vinham detodos os lados. Morcegos voavam por cima das barracas e desapareciamsubitamente. Um bonde gritava na agulha, do outro lado do muro. - Pobre juiz - murmurou Tarrou, na saída. - Era preciso fazer qualquercoisa por ele. Mas como se ajuda um juiz? Havia assim, na cidade, vários outros campos sobre os quais o narrador,por escrúpulo e por falta de informação direta, nada mais pode dizer. Mas o queele pode afirmar é que a existência desses campos, o cheiro de homens que delesvinha, as vozes enormes dos alto-íalantes no crepúsculo, o mistério dos muros e o
temor desses lugares condenados pesavam duramente sobre o moral de nossosconcidadãos e aumentavam ainda mais a desorientação e o mal-estar de todos.Os incidentes e os conflitos com a administração multiplicaram-se. No fim de novembro, entretanto, as manhãs tornaram-se muito frias.Chuvas diluvianas lavaram as calçadas, limparam o céu e deixaram-no puro denuvens por sobre as ruas reluzentes. Um sol sem força espalhou sobre a cidade,todas as manhãs, uma luz brilhante e gélida. Pela tarde, ao contrário, o ar ficavade novo morno. Foi esse o momento que Tarrou escolheu para se revelar umpouco junto ao Dr. Rieux. Por volta de dez horas, depois de um dia longo e exaustivo, Tarrouacompanhou Rieux, que ia fazer ao velho asmático sua visita da noite. O céubrilhava suavemente por sobre as casas do velho bairro. Uma ligeira brisasoprava sem ruído através das encruzilhadas obscuras. Das ruas calmas, os doishomens deram com a tagarelice do velho. Este informou-os de que havia algunsque não estavam de acordo, que a manteiga ia sempre para os mesmos, que tantoo jarro vai à fonte que um dia quebra e que provavelmente - nesse ponto,esfregava as mãos - ia haver problemas. O médico tratou-o sem que ele parassede comentar os acontecimentos. Ouviam passos por cima deles. A velha, notando o ar interessado deTarrou, explicou-lhe que havia vizinhas no terraço. Souberam, ao mesmo tempo,que havia uma bela vista lá de cima e que, como os terraços das casas setocavam, por vezes era possível às mulheres do bairro visitarem-se sem sair decasa. - É verdade - disse o velho -, podem subir. Lá em cima o ar é bom. Encontraram o terraço vazio e guarnecido de três cadeiras. De um lado,tão longe quanto a vista podia alcançar, só se viam terraços que acabavam por irencostar-se a uma massa escura e pedregosa, em que reconheceram a primeiracolina. Do outro lado, por cima de algumas ruas e do porto invisível, o olharmergulhava num horizonte em que o céu e o mar se misturavam numa palpitaçãoindistinta. Para além do que eles sabiam ser as falésias, um clarão cuja origemnão distinguiam reaparecia regularmente: o farol do canal, desde a primavera,continuava a girar para os navios que demandavam outros portos. No céu varridoe polido pelo vento, brilhavam estrelas puras, a que o clarão longínquo do farolmisturava, de momento a momento, uma cinza passageira. A brisa trazia cheirosde especiarias e de pedra. O silêncio era absoluto. - O tempo está agradável - disse Rieux, sentando-se. - É como se a peste nunca tivesse subido até aqui. Tarrou, de costas para ele, olhava para o mar. - É verdade - retorquiu ele, um momento depois. - Está agradável. Veio sentar-se perto do médico e olhou para ele atentamente. Por trêsvezes, o clarão reapareceu no céu. Da rua, das profundezas da rua, chegou atéeles um ruído de louça. Na casa uma porta bateu. - Rieux - disse Tarrou, num tom natural -, nunca procurou saber quemeu era? Sente amizade por mim? - Sim - respondeu Rieux -, agora, o que nos faltou foi tempo. - Bem, isso me tranqüiliza. Quer que esta hora seja a da amizade? Como única resposta, Rieux sorriu. - Está bem... Algumas ruas adiante, um automóvel pareceu deslizar longamente sobre
a rua molhada. Afastou-se e, depois dele, exclamações confusas, vindas de longe,romperam ainda o silêncio. Depois, este caiu de novo sobre os dois homens comtodo o seu peso de céu e de estrelas. Tarrou levantara-se para se empoleirar noparapeito do terraço, de frente para Rieux, que continuava enterrado na cadeira.Só se via dele uma forma maciça, recortada no céu. Falou longamente, e eis, maisou menos, seu discurso reconstituído: - Digamos, para simplificar, Rieux, que eu já sofria da peste muito antesde conhecer esta cidade e esta epidemia. Basta dizer que sou como todos. Mas hápessoas que não o sabem ou que se sentem bem nesse estado e pessoas que osabem e que gostariam de sair dele. Por mim, quis sempre sair dele. ”Quando era jovem, vivia com a ideia de minha inocência, isto é, sernideia nenhuma. Não sou do género atormentado, comecei como convinha. Tudome corria bem, sentia-me à vontade com a inteligência, melhor ainda com asmulheres, e, se tinha algumas inquietações, passavam como tinham vindo. Umdia, comecei a refletir. Agora... ”Devo dizer-lhe que eu não era pobre como o senhor. Meu pai eraprocurador-geral, o que é uma bela situação. Contudo, ninguém diria ao vê-lo,pois era bonachão por natureza. Minha mãe era simples e apagada, nunca deixeide amá-la, mas prefiro não falar dela. Ele ocupava-se de mim com afeto, e creioaté que se esforçava por me compreender. Tinha suas aventuras por fora, agoratenho certeza disso e estou longe de me indignar. Conduzia-se em tudo isso comoera de esperar que se conduzisse: sem chocar ninguém. Para encurtar, não eramuito original e, hoje que está morto, compreendo que, se não viveu como umsanto, também não era um mau homem. Adaptava-se ao meio, e é esse o génerode homem por quem se sente uma afeição razoável, que é duradoura. ”Tinha, entretanto, uma particularidade: o grande Guia Chaix era seulivro de cabeceira. Não que viajasse muito, exceto nas férias, para ir à Bretanha,onde tinha uma pequena propriedade. Mas era capaz de dizer exatamente ashoras de partida e de chegada do Paris-Berlim, as combinações de horários queera necessário fazer para ir de Lyon a Varsóvia, a quilometragem exata entrequaisquer capitais à sua escolha. É capaz de dizer como se vai de Briançon aChamonix? Até um chefe de estação se perderia. Mas meu pai, não. Exercitava-sequase todas as noites a enriquecer seus conhecimentos nesse ponto e sentianisso um certo orgulho. Isso me divertia muito e eu o interrogava muitas vezes,encantado por verificar suas respostas no Chaix e reconhecer que não seenganara. Esses pequenos exercícios ligaramnos muito um ao outro, pois eu lhefornecia um auditório cuja boa vontade ele apreciava. Quanto a mim, pensavaque essa superioridade em relação às estradas de ferro valia tanto quantoqualquer outra. ”Mas estou divagando e arrisco-me a atribuir demasiada importância aesse bom homem. Porque, para terminar, ele só teve uma influência indireta naminha determinação. Quando muito, forneceu-me uma oportunidade. Naverdade, quando fiz dezessete anos, meu pai convidou-me a ir ouvilo. Tratava-sede um caso importante, no Tribunal do Júri, e certamente ele tinha pensadopoder mostrar-se na sua melhor forma. Acho, também, que ele contava com essacerimonia, própria para impressionar as imaginações jovens, para me levar aentrar para a carreira que ele próprio escolhera. Eu tinha aceitado, pois isso davaprazer ao meu pai e porque, da mesma forma, tinha curiosidade de vê-lo e ouvi-loem um papel diferente do que representava entre nós. Não pensava em maisnada. O que se passava num tribunal sempre me parecera tão natural e
inevitável quanto um desfile de 14 de Julho ou uma distribuição de prémios.Fazia disso uma ideia abstraía e que não me incomodava. ”Contudo, não conservei desse dia senão uma única imagem: a do réu.Creio que ele era realmente culpado, mas não importa de quê. Mas o homenzinhode cabelo ruivo e ralo, de uns trinta anos, parecia tão decidido a admitir tudo, tãosinceramente aterrorizado pelo que tinha feito e pelo que iam fazer-lhe, que aofim de alguns minutos eu não tinha olhos senão para ele. Parecia uma corujaassustada por uma luz demasiado forte. O nó da sua gravata não se ajustavaexatamente ao ângulo do colarinho. Roía as unhas de uma única mão, a direita. .. Em resumo, não vale a pena insistir mais, já compreendeu que ele estava vivo. ”Eu, porém, só agora me dava conta disso, bruscamente, pois até entãosó tinha pensado nele através da categoria de ’acusado’. Não posso dizer queesquecia então meu pai, mas qualquer coisa me apertava o estômago e me tiravatoda a atenção além daquela que prestava ao acusado. Não ouvia quase nada,sentia que queriam matar aquele homem vivo, e um instinto formidável comouma vaga me levava para seu lado com uma espécie de cega obstinação. Sódespertei, realmente, com o requisitório de meu pai. ”Transformado pela toga vermelha, nem bonachão nem afetuoso, suaboca fervilhava de frases imensas que, sem parar, saíam dela como serpentes. Ecompreendi que ele pedia a morte daquele homem, em nome da sociedade, e quepedia até que lhe cortassem a cabeça. É verdade que ele dizia apenas: ’Aquelacabeça deve cair’. Mas, no fim, a diferença não era grande. E deu no mesmo, naverdade, já que obteve a cabeça. Simplesmente, não foi ele que fez então otrabalho. E eu, que acompanhei, em seguida, o caso até sua conclusão,exclusivamente, tive com esse infeliz uma intimidade bem mais vertiginosa doque meu pai jamais teve. Este devia, contudo, segundo o costume, assistir àquiloque se chamava delicadamente ’os últimos momentos’ e que é preciso classificarcomo ’o mais abjeto dos assassinatos’. ”A partir desse dia, não consegui olhar para o Guia Chaix sem umarepugnância abominável, A partir desse dia, passei a interessar-me com horrorpela justiça, pelas condenações à morte, pelas execuções, verificando, com umavertigem, que meu pai devia ter assistido várias vezes a assassinatos, e que erajustamente nesses dias que ele se levantava muito cedo. Na realidade, nessescasos, ele dava corda no despertador. Não me atrevi a falar disso a minha mãe,mas observei-a melhor, então, e compreendi que já não havia nada entre eles eque ela levava uma vida de renúncia. Isso me ajudou a perdoar-lhe, como eu diziaentão. Mais tarde, soube que não havia nada a perdoar-lhe, pois ela havia sidopobre toda a sua vida até no casamento, e a pobreza ensinara-lhe a resignação. ”Espera, sem dúvida, que eu lhe diga que parti logo. Não, fiquei váriosmeses, quase um ano. Mas meu coração estava doente. Uma noite, meu pai pediuo despertador, pois tinha de levantar-se cedo. Não dormi a noite toda. No diaseguinte, quando voltou, eu tinha partido. Digamos logo que meu pai me mandouprocurar, que fui vê-lo e que, sem lhe explicar nada, disse-lhe que me mataria seele me forçasse a voltar. Acabou aceitando, pois era cordato por temperamento,fez-me um discurso sobre a estupidez que havia em eu querer viver minha vida -era assim que ele explicava o meu gesto, e eu não o dissuadi -, deu-me milconselhos e reprimiu as lágrimas sinceras que lhe vinham aos olhos. Mais tarde,embora bastante tempo depois, fui regularmente ver minha mãe e encontrei-oentão. Creio que essas relações lhe bastaram. Quanto a mim, não tinhaanimosidade contra ele, apenas um pouco de tristeza no coração. Quando
morreu, minha mãe veio viver comigo, onde ainda estaria, se, por sua vez, nãotivesse morrido também. ”Insisti longamente nesse princípio, porque foi realmente o princípio detudo. Agora, irei mais depressa. Conheci a pobreza aos dezoito anos, ao cair daabastança. Exerci mil profissões para ganhar a vida. E não me dei muito mal.Mas o que me interessava era a condenação à morte. Queria ajustar umas contascom a coruja ruiva. Por isso, meti-me na política, como se diz. Não queria seratacado pela peste. Eis tudo. Acreditei que a sociedade em que eu vivia repousavana condenação à morte e que, ao combatê-la, cornbateria o assassinato. Acrediteinisso, outros me disseram e, para terminar, em grande parte era verdade.Coloquei-me, pois, com aqueles que amava e que não deixei de amar. Fiquei comeles durante muito tempo, e não há país da Europa de cujas lutas eu não tenhacompartilhado. Passemos adiante. ”É claro, eu sabia que também nós pronunciávamos, ocasionalmente,condenações. Mas diziam-me que essas poucas mortes eram necessárias paraconstruir um mundo em que não se mataria ninguém. Era verdade, de certomodo, e, afinal, talvez eu não seja capaz de me manter nesse género de verdades.O certo é que eu hesitava. Mas pensava na coruja, e a coisa continuava. Até o diaem que vi uma execução (foi na Hungria), e a mesma vertigem que atacara acriança que eu era obscureceu meus olhos de homem. ”Nunca viu um homem ser fuzilado? Não, com certeza, isso se faz, emgeral, a convite, e o público é escolhido antecipadamente. O resultado é o que osenhor conhece apenas pelas gravuras e pelos livros. Uma venda, um barrote e,longe, alguns soldados. Pois bem, não é nada disso. Sabe que o pelotão se colocaa um metro e meio do condenado? Sabe que, se o condenado desse dois passos àfrente, bateria com o peito nas espingardas? Sabe que, a essa curta distância, osexecutores concentram todos os tiros na região do coração e que, entre todos,com suas grandes balas, fazem um buraco onde se poderia meter o punho? Não,não sabe, pois são pormenores de que não se fala. O sono dos homens é maissagrado que a vida dos empestados. Não se deve impedir as pessoas decentes dedormir. Seria mau gosto, e o gosto consiste em não insistir, todos sabem disso.Mas eu, por mim, não dormi bem desde aquela época. O gosto ruim me ficou naboca e desde então não deixei de insistir, quer dizer, de pensar. ”Compreendi assim que eu, pelos menos, não tinha deixado de ser umempestado durante todos esses longos anos em que, no entanto, com toda aminha alma, eu julgava lutar contra a peste. Descobri que tinha contribuídoindiretamente para a morte de milhares de homens, que tinha até provocado essamorte, achando bons os princípios e as ações que a tinham fatalmenteacarretado. Os outros não pareciam perturbados por isso, ou, pelo menos, nuncafalavam disso espontaneamente. Mas eu tinha um nó na garganta. Estava comeles e, contudo, estava só. Quando me acontecia exprimir meus escrúpulos,diziam-me que era preciso refletir no que estava em jogo e davam-me razõesmuitas vezes impressionantes para me fazer engolir o que eu não conseguiadeglutir. Mas eu respondia que os grandes empestados, os que vestem togasvermelhas, dispõem também de excelentes razões nesses casos e que, se euadmitisse as razões de força maior e as necessidades invocadas pelos pequenosempestados, não poderia rejeitar as dos grandes. Eles faziam-me notar que amaneira correta de dar razão às togas vermelhas era deixar-lhes a exclusividadeda condenação. Mas eu me dizia, então, que, se cedesse uma vez, não havia razãopara parar. Parece-me que a história me deu razão: hoje cada qual mata o mais
que pode. Estão todos no furor do crime e não podem proceder de outra maneira. ”Meu negócio, em todo caso, não era o raciocínio. Era a coruja ruiva, essasuja aventura em que bocas sujas e empestadas anunciavam a um homemacorrentado que ia morrer e preparavam tudo para que ele morresse, na verdade,após noites e noites de agonia, durante as quais ele esperava de olhos abertos serassassinado. Meu negócio era o buraco no peito. E dizia a mim mesmo,entretanto, que, pelo menos de minha parte, recusaria sempre dar uma razão,uma única - compreende? - para essa repugnante carnificina. Sim, escolhi essacegueira obstinada, enquanto esperava poder ver mais claro. ”Desde então, não mudei. Há muito tempo que tenho vergonha, umavergonha mortal, de ter sido, ainda que de longe, ainda que na boa vontade, porminha vez, um assassino. com o tempo, compreendi apenas que até os que erammelhores que outros não conseguiam impedir-se, hoje, de matar ou de deixarmatar, porque estava na lógica em que viviam e que não se podia fazer um gestoneste mundo sem se correr o risco de fazer morrer. Sim, continuei a ter vergonha,aprendi isso - que estávamos todos na peste -, e perdi a paz. Ainda hoje aprocuro, tentando compreendê-los a todos e não ser o inimigo mortal deninguém. Sei apenas que é preciso fazer o necessário para deixar de ser umempestado e que só isso nos permite esperar a paz, ou, na sua falta, uma boamorte. É isso que pode aliviar os homens e, se não os salvar, pelo menos, fazer-lhes o menos mal possível e até, às vezes, um pouco de bem. E foi por isso quedecidi recusar tudo o que, de perto ou de longe, por boas ou más razões, fazmorrer ou justifica que se faça morrer. ”É ainda por isso que esta epidemia não me ensina nada, senão que épreciso combatê-la ao seu lado. Sei, de ciência certa (sim, Rieux, sei tudo da vida,como vê), que cada um traz em si a peste, porque ninguém, não, ninguém nomundo está isento dela. Sei ainda que é preciso vigiar-se sem descanso para nãoser levado, num minuto de distração, a respirar na cara de outro e transmitir-lhea infecção. O que é natural é o micróbio. O resto - a saúde, a integridade, apureza, se quiser - é um efeito da vontade, de uma vontade que não deve jamaisse deter. O homem direií | to, aquele que não infecta quase ninguém, é aqueleque tem o menor número de distrações possível. E como é preciso ter vontade etensão para nunca se ficar distraído! Sim, Rieux, é bem cansativo ser umempestado. Mas é ainda mais cansativo não querer sê-lo. É por isso que todosparecem cansados, já que todos, hoje em dia, se acham um pouco empestados.Mas é por isso que alguns que querem deixar de sê-lo conhecem um extremo decansaço de que já nada os libertará, a não ser a morte. ”Até lá, sei que já não valho mais nada para este mundo e que, a partir domomento em que renunciei a matar, me i condenei a um exílio definitivo. São osoutros que farão a história. Sei, também, que não posso, aparentemente, julgaresses outros. Falta-me uma qualidade para ser um assassino razoável. Não é,pois, uma superioridade. Agora, porém, consinto em ser o que sou - aprendi a sermodesto. Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário,tanto quanto possível, recusarmo-nos a estar com o flagelo. Isso lhe parecerátalvez um pouco simples. Não sei se é simples, mas sei que é verdadeiro. Ouvitantos raciocínios que por pouco não me fizeram perder a cabeça, mas queviraram bastante outras cabeças para fazê-las consentir no assassinato, quecompreendi que toda a desgraça dos homens provinha de eles não terem umalinguagem clara. Decidi então falar e agir claramente, para me colocar no bomcaminho. Por isso, digo que há flagelos e vítimas, e nada mais. Se, ao dizer isso,
me torno eu próprio um flagelo, não é por minha vontade. Procuro ser umassassino inocente. Como vê, não é uma grande ambição. ”Seria necessário, sem dúvida, que houvesse uma terceira categoria, ados verdadeiros médicos, mas é um fato que não se encontram muitos e que issodeve ser difícil. Foi assim que decidi pôr-me do lado das vítimas, em todas asocasiões, para limitar os prejuízos. No meio delas, posso, ao menos, procurarcomo se chega à terceira categoria, isto é, a paz. Ao terminar, Tarrou balançava a perna e batia levemente com o pé noterraço. Depois de um silêncio, o médico soergueu-se um pouco e perguntou-lhese tinha alguma ideia sobre o caminho que era preciso seguir para se chegar àpaz. - Tenho. A simpatia. Duas sirenes de ambulância ressoaram ao longe. As exclamações, aindaagora confusas, juntaram-se nos confins da cidade, perto da colina pedregosa.Ouviu-se, ao mesmo tempo, qualquer coisa que se assemelhava a umadetonação. Depois o silêncio voltou. Rieux contou duas piscadelas do farol. Abrisa pareceu ganhar mais força e, ao mesmo tempo, um sopro do mar trouxecheiro de sal. Ouvia-se agora, nitidamente, a surda respiração das vagas contra afalésia. - Em resumo - disse Tarrou com simplicidade -, o que me interessa ésaber como alguém pode tornar-se santo. - Mas você não acredita em Deus. - Justamente. Poder ser santo sem Deus é o único problema concreto quetenho hoje. Bruscamente, um grande clarão irrompeu do lado dos gritos e, subindo acorrente do vento, um clamor obscuro chegou até os dois homens. O clarãoapagou-se imediatamente e, longe, à beira dos terraços, ficou apenas umamancha vermelha. Numa pausa do vento, ouviram-se claramente gritos dehomens, depois o barulho de uma descarga e o clamor de uma multidão. Tarroulevantara-se e escutava. Não se ouvia mais nada. - Houve briga de novo nas portas. - Agora acabou - disse Rieux. Tarrou murmurou que nunca acabava, e que haveria mais vítimas, poisessa era a ordem natural. - Talvez - respondeu o médico -, mas, sabe, sinto-me mais solidário comos vencidos do que com os santos. Creio que não sinto atração pelo heroísmo epela santidade. O que me interessa é ser um homem. - Sim, buscamos a mesma coisa, mas eu sou menos ambicioso. Rieux pensou que Tarrou gracejava e olhou para ele. Mas, na vagaclaridade que vinha do céu, viu um rosto triste e sério. O vento levantara-se denovo, e Rieux sentia-o morno sobre a pele. Tarrou agitou-se. - Sabe o que devíamos fazer em prol da amizade? - O que quiser - respondeu Rieux. - Tomar um banho de mar. Mesmo para um futuro santo, é um prazerdigno. Rieux sorria. - Com nossos salvo-condutos, podemos ir até o cais. Afinal, é bobagemviver só na peste. Na realidade, um homem deve lutar pelas vítimas. Mas, sedeixa de gostar de todo o resto, de que serve lutar? - Tem razão - disse Rieux. - Vamos.
Momentos depois, o automóvel parava junto às grades do porto. A luanascera. Um céu leitoso projetava sombras pálidas. Por trás deles, estendia-se acidade, e dela vinha um sopro quente e mórbido, que os impelia para o mar.Mostraram os papéis a um guarda, que os examinou durante bastante tempo.Passaram e, através dos terraplenos cobertos de tonéis, entre os cheiros de vinhoe de peixe, tomarain. a direção do cais. Pouco antes de chegarem, o cheiro de iodoe de algas anunciou-lhes o mar. Depois ouviram-no. Assobiava suavemente aos pés dos grandes blocos do cais e, quando ostranspuseram, ele apareceu-lhes, espesso como veludo, flexível e macio como umanimal. Instalaram-se nos rochedos voltados para o largo. Lentas, as águasinchavam e desciam. Essa respiração calma do mar fazia nascer e desaparecerreflexos oleosos na superfície das águas. Diante deles, a noite que não tinhalimites. Rieux, que sentia sob os dedos o rosto gasto dos rochedos, experimentavauma estranha felicidade. Voltado para Tarrou, adivinhou, sob o rosto calmo egrave do amigo, essa mesma felicidade que nada esquecia, nem mesmo oassassinato. Despiram-se. Rieux mergulhou primeiro. Frias no começo, as águaspareceram-lhe mornas quando voltou à tona. Ao fim de algumas braçadas, sabiaque o mar, nessa noite, estava morno: eram os mares do outono que retomavamda terra o calor armazenado durante longos meses. Nadava regularmente. Asbatidas dos pés deixavam atrás dele uma efervescência de espuma, a água fugiaao longo de seus braços para colar-se às pernas. Um baque surdo indicou-lheque Tarrou mergulhara. Rieux, de costas, ficou imóvel diante do céu cheio de luare de estrelas. Respirou longamente. Depois, ouviu com uma nitidez cada vezmaior um barulho de água batida, estranhamente claro no silêncio e na solidãoda noite. Tarrou aproximava-se, em breve ouvia-se a sua respiração. Rieuxvoltou-se, colocou-se ao lado do amigo e nadou no mesmo ritmo. Tarrou avançavacom mais força e ele teve de acelerar os movimentos. Durante alguns minutos,avançaram com a mesma cadência e o mesmo vigor, solitários, longe do mundo,libertados, enfim, da cidade e da peste. Rieux foi o primeiro a parar e voltaramlentamente, a não ser num momento em que entraram numa corrente gelada.Sem nada dizer, ambos aceleraram os movimentos, fustigados por essa surpresado mar. Novamente vestidos, partiram, sem ter pronunciado uma palavra. Masentendiam-se, era suave a lembrança dessa noite. Quando viram de longe asentinela da peste, Rieux sabia que Tarrou dizia para si próprio, como ele, que adoença acabava de esquecê-los, que isso era bom, e que agora era precisorecomeçar. Sim, era preciso recomeçar, e a peste não esquecia ninguém por muitotempo. Durante o mês de dezembro, ela ardeu nos peitos de nossos concidadãos,iluminou o forno, povoou os campos de sombras com as mãos vazias, não deixou,enfim, de progredir, paciente e sincopada. As autoridades tinham contado com osdias frios para deter esse avanço e, contudo, ele passava através dos primeirosrigores da estação sem desanimar. Era preciso esperar ainda. Mas de tantoesperar, ninguém mais espera - e nossa cidade inteira vivia sem futuro. Quanto a Rieux, o instante fugidio de paz e de amizade que lhe haviamdado não teve continuidade. Tinham aberto mais um hospital, e o médico sóconversava com os doentes. Notou entretanto que, nessa fase da epidemia,enquanto a peste assumia, cada vez mais, a forma pulmonar, os doentespareciam, de certo modo, ajudar o médico. Em lugar de se abandonarem à
prostração e às loucuras do início, pareciam ter uma ideia mais correta de seusinteresses e reclamavam por si mesmos o que lhes podia ser mais favorável.Pediam incessantemente para beber e todos queriam calor. Embora o cansaçofosse o mesmo para o médico, ele se sentia, no entanto, menos só nessasocasiões. Por volta do fim de dezembro, Rieux recebeu do Sr. Othon, o juiz deinstrução, que se encontrava ainda no campo de isolamento, uma carta dizendoque seu tempo de quarentena tinha passado, que a administração nãoencontrava a data de sua entrada e que, certamente, o mantinham ainda isoladopor engano. Sua mulher, que já saíra há algum tempo, protestara na prefeitura,onde tinha sido mal recebida e onde lhe tinham dito que nunca havia enganos.Rieux fez Rambert intervir e, alguns dias depois, viu chegar o Sr. Othon. Houvera,com efeito, um engano, e Rieux indignou-se um pouco por isso. Mas o Sr. Othon,que tinha emagrecido, levantou a mão mole e disse, medindo as palavras, quetodos podiam enganar-se. O médico pensou apenas que alguma coisa mudara. - Que vai fazer, senhor juiz? Seus processos o esperam - disse Rieux. - Não - respondeu ele -, queria tirar uma licença. - Na verdade, precisa de repouso. - Não é isso, queria voltar para o campo de isolamento. Rieux admirou-se. - Mas acaba de sair de lá! - Não me expliquei bem. Disseram-me que havia voluntários daadministração no campo. - O juiz rolava um pouco os olhos redondos e tentavaabaixar um tufo de cabelos. - Sabe, teria uma ocupação. E, depois, parecebobagem dizê-lo, mas eu me sentiria menos afastado de meu garoto. Rieux olhava para ele. Não era possível que naqueles olhos duros e vaziosse instalasse subitamente uma suavidade. Mas eles tinham se tornado maisbrumosos, tinham perdido a pureza de metal. - Certamente - disse. - vou tratar disso, já que assim o deseja. De fato, o médico tratou do caso, e a vida da cidade empestada retomouseu ritmo até o Natal. Tarrou continuava a passear por toda parte suatranqüilidade eficiente. Rambert confiava ao médico que tinha estabelecido,graças aos dois guardas seus conhecidos, uma espécie de correspondênciaclandestina com a mulher. Recebia uma carta de tempos em tempos. Ofereceu aRieux o benefício do seu sistema e ele o aceitou. Escreveu, pela primeira vezdesde há longos meses, mas com enorme dificuldade. Havia uma linguagem queele perdera. A carta partiu. A resposta demorava a vir. Por seu lado, Cottardprosperava e suas pequenas especulações o enriqueciam. Quanto a Grand, operíodo das festas não lhe devia ser favorável. O Natal daquele ano foi mais a festa do Inferno que a do Evangelho. Aslojas desertas e privadas de luz, os chocolates falsos ou as caixas vazias nasvitrines, os bondes carregados de rostos sombrios, nada lembrava os Nataispassados. Nessa festa, em que toda gente, rica ou pobre, se juntava outrora, jánão havia lugar senão para alguns prazeres solitários e vergonhosos que osprivilegiados se ofereciam a preço de ouro, no fundo de uma loja sórdida. Maisque de ações de graças, as igrejas estavam cheias de lamentos. Na cidade, lúgubre e gelada, algumas crianças corriam, ignorantes aindado que as ameaçava. Mas ninguém ousava anunciar-lhes o Deus de outrora,carregado de oferendas, velho como o sofrimento humano, mas novo como ajovem esperança. Só havia lugar no coração de todos para uma esperança muito
velha e muito taciturna, a mesma que impede os homens de se entregarem àmorte e que não é mais que simples obstinação em viver. Na véspera, Grand tinha faltado ao encontro. Rieux, inquieto, passara emsua casa de manhã cedo, sem encontrá-lo. Todos haviam sido alertados. Por voltade onze horas, Rambert foi ao hospital dizer ao médico que tinha avistado Grandde longe, vagando pelas ruas, com o rosto desfigurado. Depois, perdera-o devista. O médico e Tarrou partiram de automóvel à sua procura. Ao meio-dia, hora gelada, o médico, que saíra do carro, olhava de longeGrand, quase colado a uma vitrine cheia de brinquedos grosseiramenteesculpidos em madeira. Pelo rosto do velho funcionário as lágrimas corriam seminterrupção. E essas lágrimas perturbaram Rieux, porque as compreendia e assentia também na garganta apertada. Ele se lembrava do noivado de um infelizdiante de uma loja de Natal, e de Jeanne voltada para ele para lhe dizer queestava contente. Do fundo desses anos longínquos, no próprio coração dessaloucura, a voz fresca de Jeanne voltava até Grand, disso tinha certeza. Rieuxsabia o que pensava nesse minuto aquele velho que chorava e achava, como ele,que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre umahora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamaro rosto de um ser e o coração maravilhoso da ternura. Mas o outro viu-o pelo vidro. Sem deixar de chorar, voltou-se e encostou-se à vitrine, para vê-lo chegar. - Ah, doutor! Ah, doutor! - dizia. Rieux balançava a cabeça para mostrar aprovação, incapaz de pronunciaruma palavra. Essa tristeza era também sua, e o aperto que sentia no coraçãonesse momento era a imensa cólera que surge no homem diante da dor que todosos homens compartilham. - Sim, Grand - disse. - Gostaria de ter tempo para lhe escrever uma carta. Para que ela saiba. .. e para que possa ser feliz sem remorsos... Com uma espécie de violência, Rieux fez Grand avançar. O outro, quase se deixando arrastar, continuava a balbuciar pedaços defrases. - Isso está durando demais. A gente tem vontade de se entregar. Ah,doutor! Eu tenho assim este ar calmo. Mas sempre precisei fazer um grandeesforço para ser apenas normal. Mas agora até isso é demais. Parou, com as pernas e os braços tremendo e com os olhos desvairados.Rieux pegou-lhe a mão. Estava ardendo. - É preciso voltar para casa. Mas Grand fugiu dele e correu alguns passos, depois parou, abriu osbraços e pôs-se a oscilar para a frente e para trás. Deu uma volta sobre si mesmoe caiu na calçada gélida, com o rosto molhado das lágrimas, que continuavam acorrer. Os transeuntes olhavam de longe, paravam bruscamente, sem ousarprosseguir. Foi necessário que Rieux carregasse o velho nos braços. Agora, na cama, Grand sufocava: tinha os pulmões tomados. Rieuxrefletia. O funcionário municipal não tinha família. Para que serviria levá-lo?Ficaria só, com Tarrou, que trataria dele.. . Grand estava enterrado no fundo de seu travesseiro, com a peleesverdeada e o olhar apagado. Olhava fixamente para um fogo medíocre queRieux acendia na lareira com os restos de um caixote. Isso vai mal, dizia ele. E,do fundo de seus pulmões em chamas, saía um crepitar estranho que
acompanhava tudo o que dizia. Rieux recomendou-lhe que se calasse e disse queia voltar. O doente esboçou um sorriso estranho e, com ele, veio-lhe ao rosto umaespécie de ternura. Piscou o olho com esforço. ”Se escapar dessa, vai ser de tiraro chapéu, doutor!” Mas logo a seguir caiu na prostração. Algumas horas depois Rieux e Tarrou foram encontrar o doente meioerguido no leito, e Rieux ficou aterrado ao ler no seu rosto os progressos do malque o queimava. Mas parecia mais lúcido, e de repente, com uma vozestranhamente cavernosa, pediu que lhe trouxessem o manuscrito, que guardaranuma gaveta. Tarrou deu-lhe as folhas, que ele estreitou contra o peito, sem olhá-las, para, em seguida, estendê-las ao médico, convidando-o com um gesto a ler.Era um manuscrito curto de umas cinquenta páginas. O médico folheou-o ecompreendeu que todas as páginas traziam apenas a mesma frase,indefinidamente copiada, retocada, enriquecida ou empobrecida.Incessantemente, o mês de maio, a amazona e as aléias do bosque confrontavam-se e dispunham-se - de maneiras diversas. A obra continha também explicações,por vezes demasiado longas, e variantes. Mas no fim da última página, uma mãoaplicada tinha apenas escrito com uma tinta ainda fresca: ”Minha queridaJeanne, hoje é Natal...” Por cima, numa caligrafia cuidada, figurava a últimaversão da frase. - Leia - disse Grand. E Rieux leu: - ”Numa bela manhã de maio, uma esbelta amazona, montada numasuntuosa égua alazã, percorria, no meio das flores, as aléias do Bois...” - É isso? - perguntou o velho numa voz febril. Rieux não levantou osolhos para ele. - Ah! - disse o outro, agitando-se. - Bem sei. Bela, bela não é o termocerto. Rieux pegou-lhe a mão por cima do cobertor. - Deixe, doutor. Não terei tempo. . . O peito levantava penosamente, e ele gritou de repente: - Queime-o! O médico hesitou, mas Grand repetiu a ordem com um tom tão terrível ecom tal sofrimento na voz, que Rieux atirou as folhas para o fogo quase apagado.O quarto iluminou-se rapidamente, e um calor breve o aqueceu. Quando omédico voltou para junto do doente, este tinha as costas voltadas e quase tocavaa parede com o rosto. Tarrou olhava pela janela, como estranho à cena. Depois deter injetado o soro, Rieux disse ao amigo que Grand não passaria daquela noite, eTarrou ofereceu-se para ficar. O médico aceitou. Toda a noite, a ideia de que Grand ia morrer o perseguiu. Mas, no diaseguinte de manhã, Rieux encontrou Grand sentado na cama, falando comTarrou. A febre desaparecera. Restavam apenas os sinais de um esgotamentogeral. - Ah, doutor - dizia Grand. - Fiz mal. Mas vou recomeçar. Lembro-me detudo, vai ver. - Esperemos - disse Rieux a Tarrou. Mas ao meio-dia, nada mudara. À noite, Grand podia considerar-se salvo.Rieux não compreendia nada daquela ressurreição. Mais ou menos pela mesma época, contudo, levaram a Rieux uma doente,cujo estado julgou desesperador e que mandou isolar logo que chegou aohospital. A moça estava em pleno delírio e apresentava todos os sintomas daforma pulmonar da peste. Mas, no dia seguinte de manhã, a febre baixara. O
médico achou que se tratava ainda, como no caso de Grand, da remissão matinal,que a experiência o habituara a considerar como um mau sinal. Ao meio-dia,contudo, a febre não tinha subido. À noite, aumentou alguns décimos apenas, e,no dia seguinte pela manhã, tinha desaparecido. A moça, embora fraca, respiravalivremente no leito. Rieux disse a Tarrou que ela se salvara, contra todas asregras. Mas, durante a semana, quatro casos semelhantes se apresentaram noserviço do médico. No fim da mesma semana, o velho asmático acolheu o médico e Tarroucom todos os sinais de uma grande agitação. - Pronto - dizia ele -, continuam a sair. - Quem? - Ora, os ratos! Desde o mês de abril não se tinha descoberto nenhum rato morto. - Será que vai recomeçar? - perguntou Tarrou a Rieux. O velho esfregava as mãos. - Precisa vê-los correr! É um prazer. Tinha visto dois ratos vivos entrarem em sua casa pela porta da rua.Alguns vizinhos tinham relatado que, também em casa deles, os ratos haviamfeito sua reaparição. Nas madeiras dos forros, ouvia-se de novo o rebuliçoesquecido há meses. Rieux esperou a publicação da estatística geral que ocorriano princípio de cada semana. Revelava um recuo da doença. V Embota essa brusca retirada da doença fosse inesperada, nossosconcidadãos não se apressaram em regozijar-se. O mês que acabavam de passar, ainda que aumentasse o desejo delibertação, ensinara-lhes a prudência e os habituara a contar cada vez menoscom um fim próximo da epidemia. No entanto, esse fato novo corria de boca emboca, e no fundo dos corações, agitava-se uma grande esperança inconfessada.Todo o resto passava para segundo plano. As novas vítimas da peste pesavambem pouco junto a esse fato enorme: a estatística tinha baixado. Um dos sinaisde que o tempo de saúde, sem ser abertamente esperado, era no entantoaguardado em segredo foi nossos concidadãos falarem espontaneamente, a partirdesse momento, embora com ares de indiferença, da maneira pela qual a vida sereorganizaria depois da peste. Todos estavam de acordo em pensar que as comodidades da vida passadanão voltariam de repente e que era mais fácil destruir que reconstruir.Considerava-se, apenas, que o reabastecimento podia ser um pouco melhorado eque, desse modo, se ficaria livre da preocupação mais premente. Na verdade,porém, sob essas observações anódinas, ao mesmo tempo uma esperançainsensata se desenfreava a tal ponto que nossos concidadãos às vezes tomavamconsciência disso e afirmavam então com precipitação que, em todo caso, alibertação não era para o dia seguinte. E, na realidade, a peste não parou no dia seguinte, mas, aparentemente,enfraquecia mais depressa do que se teria podido razoavelmente esperar. Duranteos primeiros dias de janeiro, o frio instalou-se com uma persistência inusitada e
pareceu cristalizar-se por cima da cidade. E, contudo, nunca o céu tinha estadotão azul. Durante dias inteiros seu esplendor imutável e gelado inundou nossacidade de uma luz ininterrupta. Nesse ar purificado, a peste, em três semanas, eem quedas sucessivas, pareceu esgotar-se nos cadáveres cada vez menosnumerosos que alinhava. Perdeu, num cur-l to intervalo, quase a totalidade dasforças que levara meses I para acumular. Ao vê-la liberar presas já marcadas,como I Grand ou a moça de Rieux, exacerbar-se em certos bairros! durante doisou três dias, enquanto desaparecia totalmente l de outros, multiplicar as vítimasna segunda-feira e, na quar-| ta, deixá-las escapar quase todas, ao vê-la assimesbaforir-sel ou precipitar-se, dir-se-ia que ela se desorganizava por ener-1vamento e cansaço, que perdia, ao mesmo tempo, o domíniol sobre si própria e aeficácia matemática e soberana que cons-l tituíra sua força. O soro de Gasteiconhecia subitamente uma| série de êxitos que lhe haviam sido recusados atéentão. Cada medida tomada pelos médicos e que anteriormente não davanenhum resultado parecia, de repente, acertar em cheio. Parecia que a peste, porsua vez, estava acuada, e que sua fraqueza súbita fazia a força das armasembotadas que lhe tinham, até então, oposto. Apenas uma vez ou outra j adoença se animava e, numa espécie de sobressalto cego J levava três ou quatrodoentes, cuja cura era esperada. Eram! os azarentos da peste, aqueles que elamatava em plena es-1 perança. Foi o caso do juiz Othon, que tiveram de evacuar!do campo de quarentena e Tarrou disse, a seu respeito, que, na verdade, nãotinha tido sorte, sem que se pudesse saber se ele pensava na morte ou na vida dojuiz. No conjunto, porém, a infecção recuava em toda a linha, e oscomunicados da prefeitura que, primeiro, tinham feito nascer uma tímida esecreta esperança, acabaram confirmando, no espírito do público, a convicção deque a vitória estava ganha e que a doença abandonava suas posições. Naverdade, era difícil decidir que se tratava de uma vitória. Era-se apenas obrigadoa verificar que a doença partia como viera. A estratégia que se lhe opunha nãotinha mudado, ineficaz ontem, hoje, aparentemente feliz. Tinha-se apenas aimpressão de que a doença se esgotara por si própria ou, talvez, de que seretirava depois de ter alcançado todos os seus objetivos. De qualquer maneira,seu papel acabara. Dir-se-ia, apesar de tudo, que nada mudara na cidade. Sempresilenciosas durante o dia, as ruas eram invadidas à noite pela mesma multidão,em que dominavam apenas os sobretudos e as echarpes. Os cinemas e os cafésfaziam os mesmos negócios. Olhando-se, porém, mais de perto, podia-se ver queos rostos estavam mais distendidos e que, às vezes, sorriam. E era então aoportunidade de verificar que, até o momento, ninguém sorria nas ruas. Narealidade, no véu opaco que há meses cercava a cidade, acabava de abrirse umrasgão, e, às segundas-íeiras, todos podiam verificar, pelas notícias de rádio, queo rasgão aumentava e, enfim, seria permitido respirar. Era ainda um alíviointeiramente negativo que não assumia uma expressão franca. Mas, ao passoque anteriormente não se teria descoberto, sem uma certa incredulidade, que umtrem tinha partido ou que um navio tinha chegado, ou ainda, que os automóveisiam ser de novo autorizados a circular, o anúncio desses acontecimentos nosmeados de janeiro não teria provocado, pelo contrário, nenhuma surpresa. Erapouco, sem dúvida. Mas essa sutil mudança traduzia, na verdade, os enormesprogressos realizados por nossos concidadãos no caminho da esperança. Pode-sedizer, aliás, que a partir do momento em que a mais ínfima esperança se tornou
possível para a população o reinado efetivo da peste tinha terminado. - Nem por isso, durante todo o mês de janeiro, nossos concidadãosreagiram de maneira menos contraditória. Mais exatamente, passaram poralternâncias de excitação e de depressão. Foi assim que se registraram novastentativas de fuga, no justo momento em que as estatísticas eram maisfavoráveis. Isso surpreendeu muito as autoridades e os próprios postos deguarda, visto que a maior parte das fugas teve êxito. Mas, na realidade, aspessoas que se evadiam nesses momentos obedeciam a sentimentos naturais. Emalguns, a peste tinha enraizado um ceticismo profundo de que não podiam seliberar. A esperança já não tinha efeito sobre eles. Mesmo quando o tempo dapeste já passara, continuavam a viver segundo suas normas. Estavam atrasadosem relação aos acontecimentos. Em outros, pelo contrário, e esses se recrutavamespecialmente entre os que tinham vivido até então separados dos seres queamavam, depois desse longo tempo de clausura e de abatimento, o vento deesperança que se levantava acendera uma febre e uma impaciência que lhestirava qualquer autodomínio. Invadia-os uma espécie de pânico ao pensamentode que podiam, tão perto do fim, morrer talvez, que não voltariam a ver o ser queamavam e que esses longos sofrimentos não lhes seriam pagos. Enquantodurante meses, com obscura tenacidade, apesar da prisão e do exílio, tinhamperseverado na expectativa, a primeira esperança bastou para destruir o que omedo e o desespero não tinham conseguido abalar. Precipitaram-se como loucospara ultrapassar a peste, incapazes de acompanhar-lhe o passo até o últimomomento. Ao mesmo tempo aliás manifestaram-se sinais espontâneos de otimismo.Foi assim que se registrou uma redução sensível dos preços. Do ponto de vista daeconomia pura, esse movimento não se explicava. As dificuldades continuavamas mesmas, as formalidades da quarentena tinham sido mantidas nas portas e oabastecimento estava longe de ter melhorado. Assistia-se, portanto, a umrendimento puramente moral, como se o recuo da peste repercutisse por todaparte. Ao mesmo tempo, o otimismo dominava aqueles que viviam antes emgrupos e que a peste tinha obrigado à separação. Os dois conventos da cidadecomeçaram a reconstituir-se e a vida comum pôde recomeçar. O mesmoaconteceu com os militares que se juntaram de novo nos quartéis livres eretomaram a vida normal da guarnição. Esses pequenos fatos eram grandesindícios. A população viveu nessa agitação secreta até 25 de janeiro. Naquelasemana, as estatísticas baixaram tanto que, após consulta à comissão médica, aprefeitura anunciou que a epidemia podia ser considerada erradicada. Ocomunicado acrescentava, é bem verdade, que, por espírito de prudência que nãopodia deixar de ser aprovado pela população, as portas da cidade continuariamfechadas durante mais duas semanas e as medidas profiláticas seriam mantidaspor mais um mês. Durante esse período, ao menor sinal de que o perigo podiarecomeçar, ”o status quo devia ser mantido e as medidas, prolongadas”. Todos noentanto concordaram em considerar esses aditamentos como cláusulas de estilo,e na noite de 25 de janeiro uma alegre agitação encheu a cidade. Para se associarà alegria geral, o prefeito deu ordem para que fosse restabelecida a iluminação dotempo de saúde. Nas ruas iluminadas, sob um céu frio e puro, nossosconcidadãos espalharam-se então em grupos risonhos e barulhentos. Naturalmente, em muitas casas as persianas continuaram fechadas efamílias passaram em silêncio essa vigília que outros encheram de gritos. No
entanto, para muitos desses seres enlutados, o alívio era também profundo, querpelo fato de que o medo de ver arrebatados outros parentes se acalmasse enfim,quer porque o sentimento de sua conservação pessoal deixasse de ficar em alerta.Mas as famílias que deviam ficar mais estranhas à alegria geral foram, semdúvida, as que nesse mesmo momento tinham um doente se debatendo contra apeste num hospital e que, nas casas de quarentena ou em suas próprias casas,esperavam que o flagelo acabasse verdadeiramente com eles, como tinha acabadocom outros. Essas concebiam, é claro, a esperança, mas faziam dela umaprovisão que guardavam de reserva e proibiam-se de se servir dela antes de teremrealmente esse direito. E essa expectativa, essa vigília silenciosa, situada entre aagonia e o júbilo, parecia-lhes ainda mais cruel, em meio ao regozijo geral. Mas essas exceções nada tiravam à satisfação dos outros. Sem dúvida, apeste não tinha ainda acabado e viria a prová-lo. No entanto, já em todos osespíritos, com algumas semanas de antecedência, os trens partiam, apitandosobre as intermináveis vias férreas, e os navios sulcavam os mares luminosos. Nodia seguinte, os espíritos estariam mais calmos e as dúvidas renasceriam. Nomomento, porém, a cidade inteira animava-se, abandonava os lugares fechados,sombrios e imóveis onde atirara suas raízes de pedra e punha-se, enfim, emmarcha com sua carga de sobreviventes. Nessa noite, Tarrou e Rieux, Rambert eos outros caminhavam no meio da multidão e também eles sentiam faltar-lhes ochão debaixo dos pés. Muito tempo depois de terem saído das avenidas, Tarrou eRieux ainda ouviam a alegria persegui-los, na própria hora em que, nas ruelasdesertas, passavam por janelas de persianas corridas. E até por causa de seucansaço, não podiam separar esse sofrimento, que se prolongava por detrás dasjanelas, da alegria que enchia as ruas um pouco adiante. A libertação que seaproximava tinha um semblante mesclado de risos e de lágrimas. Num momento em que o rumor se tornou mais forte e mais alegre, Tarrouparou. Na rua sombria, uma forma corria célere. Era um gato, o primeiro que sevia desde a primavera. Imobilizou-se um momento no meio do asfalto, hesitou,lambeu a pata, passou-a rapidamente sobre a orelha direita, retomou a corridasilenciosa e desapareceu na noite. Tarrou sorriu. O velhinho também ficariacontente. Mas no momento em que a peste parecia afastar-se para voltar ao covildesconhecido de onde saíra em silêncio, havia pelo menos alguém na cidade queessa partida lançava na consternação. A acreditar nos cadernos de Tarrou, essealguém era Cottard. A bem dizer, os cadernos tornam-se bastante estranhos a partir domomento em que a estatística começa a baixar. Talvez pelo cansaço, mas o certoé que a letra se torna dificilmente legível e passa-se com excessiva frequência deum assunto para outro. Além disso, e pela primeira vez, esses cadernos deixamde ser objetivos e dão lugar a considerações pessoais. Encontra-se, assim, nomeio de longos trechos sobre o caso de Cottard, um pequeno relato sobre o velhodos gatos. A acreditar em Tarrou, a peste nunca diminuíra sua consideração poressa personagem, que lhe interessava depois da epidemia, como lhe haviainteressado antes, e como, infelizmente, não poderia mais interessar-lhe, emborasua própria benevolência, dele, Tarrou, não estivesse em jogo. Porque ele tinhaprocurado ré vê-lo. Alguns dias depois da noite de 25 de janeiro, tinha ido postar-se na esquina da pequena rua. Os gatos estavam lá, aquecendo-se nas réstias desol, fiéis ao antigo lugar de encontro. Mas, na hora habitual, as janelascontinuaram teimosamente fechadas. No decurso dos dias seguintes, Tarrou
nunca as viu abertas. Disso concluíra, curiosamente, que o velho estava ofendidoou morto: que, se estava ofendido, é porque pensava ter razão, e que a peste lheenganara; mas que, se tinha morrido, era preciso perguntar a seu respeito, comopara o velho asmático, se fora um santo. Tarrou não achava, mas pensava quehavia no caso do velho uma ”indicação”. ”Talvez”, observavam seus cadernos, ”não se possa atingir senão aaproximação da santidade. Nesse caso, seria necessário contentarmo-nos comum satanismo modesto e caridoso.” Sempre entremeadas com observações relativas a Cottard, encontram-setambém, nos cadernos, numerosas observações muitas vezes dispersas, algumasdas quais dizem respeito a Grand (agora convalescente e que tinha voltado aotrabalho como se nada tivesse acontecido) e outras evocam a mãe do Dr. Rieux.As poucas conversas que a coabitação autorizava entre esta e Tarrou, as atitudesda velha senhora, seu sorriso, suas observações sobre a peste sãoescrupulosamente anotadas. Tarrou insistia sobretudo no retraimento da Sra.Rieux; na maneira que tinha de exprimir tudo em frases simples; no gostoparticular que mostrava por certa janela que dava para a rua calma e atrás daqual ela se sentava à noite, um pouco reta, com as mãos tranqüilas e o olharatento, até que o crepúsculo invadisse a sala, fazendo dela uma sombra negra naluz cinzenta que avançava pouco a pouco e dissolvia, então, a silhueta imóvel; naligeireza com que se deslocava de sala para sala; na bondade de que nunca deraprovas precisas diante de Tarrou, mas cujo brilho ele julgava ver transparecer emtudo o que dizia ou fazia; no fato enfim de que, segundo ele, ela conhecia tudosem nunca refletir, e que, com tanto silêncio e sombra, conseguia ficar à alturade qualquer luz, até mesmo a da peste. Aqui, de resto, a letra de Tarrou mostravaestranhos sinais de abatimento. As linhas que se seguiam eram dificilmentelegíveis e, como para dar uma nova prova desse abatimento, as últimas palavraseram as primeiras que tinham um caráter pessoal: ”Minha mãe era assim; euapreciava nela a mesma reserva e foi a ela que sempre quis juntar-me. Há oitoanos, não posso dizer que ela tenha morrido. Apagou-se apenas um pouco maisque de costume e, quando me voltei, já não estava mais lá”. Mas é preciso voltar a Cottard. Desde que a estatística baixara, fizeravárias visitas a Rieux, invocando diversos pretextos. Na realidade, porém, pediasempre a Rieux prognósticos sobre a evolução da epidemia. Acha que ela podeparar assim, de repente, sem aviso? Era cético sobre esse ponto, ou, pelo menos,assim o declarava. Mas as perguntas repetidas que formulava pareciam revelaruma convicção menos firme. Por volta de meados de janeiro, Rieux tinharespondido de forma bastante otimista. E, a cada vez, essas respostas, em vez dealegrarem Cottard, tinham-lhe provocado reações variáveis segundo os dias, masque iam do mau humor ao abatimento. Seguidamente, o médico tinha sido levadoa dizer-lhe, a despeito das indicações favoráveis dadas pelas estatísticas, que eramelhor não cantar vitória ainda. - Em outras palavras - observara Cottard -, nada se sabe, e a coisa poderecomeçar de um dia para o outro? - Sim, como também é possível que o movimento de cura se acelere. Essa incerteza, inquietante para todos, aliviara visivelmente Cottard e,diante de Tarrou, ele travara com os comerciantes do seu bairro conversas emque tentava propagar a opinião de Rieux. É verdade que não tinha dificuldade emfazê-lo, já que, depois da febre das primeiras vitórias, voltara a muitos espíritosuma dúvida que devia sobreviver à excitação causada pela declaração da
prefeitura. Cottard tranqúilizava-se com o espetáculo dessa inquietação, domesmo modo que de outras vezes também desanimava. ”Sim”, dizia ele a Tarrou,”vão acabar abrindo as portas. E, vai ver, todos vão me abandonar!” Até 25 de janeiro, todos notaram a instabilidade de seu caráter. Durantedias inteiros, depois de ter procurado tanto tempo conciliar-se com seu bairro econhecidos, rompia com eles. Aparentemente pelo menos, retirava-se então domundo e, de um dia para o outro, punha-se a viver como selvagem. Não o viamno restaurante, nem no teatro, nem nos cafés de que gostava. E, no entanto, nãoparecia voltar à vida comedida e obscura que levava antes da epidemia. Viviacompletamente retirado em seu apartamento e mandava vir as refeições de umrestaurante vizinho. Só ao fim da tarde dava saídas furtivas, comprando aquilo deque necessitava, saindo das lojas para se lançar em ruas solitárias. Se Tarrou oencontrava então, só conseguia arrancar-lhe monossílabos. Depois, semtransição, encontravam-no sociável, falando abundantemente da peste,solicitando a opinião de cada um e mergulhando todas as noites, comcomplacência, na vaga da multidão. No dia da declaração da prefeitura, Cottard saiu completamente decirculação. Dois dias depois, Tarrou encontrou-o, vagando pelas ruas. Cottardpediu-lhe que o acompanhasse até o subúrbio. Tarrou, que se sentiaparticularmente cansado, hesitou. Mas o outro insistiu. Parecia muito agitado,gesticulando de maneira desordenada, falando depressa e alto. Perguntou aocompanheiro se pensava que a declaração da prefeitura punha realmente termo àpeste. Na verdade, Tarrou considerava que uma declaração administrativa nãobastava, por si só, para deter um flagelo, mas era válido pensar que a epidemia,salvo qualquer imprevisto, ia cessar. - Sim - disse Cottard -, salvo qualquer imprevisto. E há sempre oimprevisto. Tarrou fez-lhe notar que, aliás, a prefeitura tinha previsto, de certa forma,o imprevisto, uma vez que instituíra um prazo de duas semanas para a aberturadas portas. - E fez bem - disse Cottard, sempre taciturno e agitado -, pois da maneiracomo vão as coisas, bem podia ter falado em vão. Tarrou considerava isso possível, mas pensava que, no entanto, eramelhor prever a próxima abertura das portas e o retorno à vida normal. - Admitamos - disse-lhe Cottard -, admitamos. Mas que chama de retornoa uma vida normal? - Novos filmes no cinema - respondeu Tarrou, sorrindo. Mas Cottard não sorria. Queria saber se se podia pensar que a peste nãomudaria nada na cidade e que tudo recomeçaria como antes, isto é, como se nadativesse ocorrido. Tarrou pensava que a peste mudaria e não mudaria a cidade.Que, na verdade, o mais forte desejo de nossos concidadãos era e seria agir comose nada tivesse mudado e que, portanto, nada, em certo sentido, seria mudado,mas que, em outro sentido, não se pode esquecer tudo, mesmo com a vontadenecessária, e a peste deixaria vestígios, pelo menos nos corações. O pequenocapitalista declarou abertamente que não se interessava pelo coração e, atémesmo, que o coração era a última de suas preocupações. O que lhe interessavaera saber se a organização em si não seria transformada, se, por exemplo, todosos serviços funcionariam como no passado. E Tarrou teve de admitir que nadasabia. Segundo ele, era necessário supor que todos esses serviços, perturbadosdurante a epidemia, teriam uma certa dificuldade em se restabelecer. Podia-se,
também, admitir que surgiriam muitos outros problemas que tornariamnecessária, pelo menos, uma reorganização dos antigos serviços. - Ah! - disse Cottard. - É possível, com efeito. Todos terão de recomeçartudo. Os dois chegaram perto da casa de Cottard. Este se animara, esforçando-se por se mostrar otimista. Imaginava a cidade começando a viver de novo,apagando seu passado para recomeçar do nada. - Bem - disse Tarrou. - Afinal, talvez as coisas se arranjem para vocêtambém. De certa forma, é uma vida nova que vai começar. Estavam diante da porta e apertavam-se as mãos. - Tem razão - disse Cottard, cada vez mais agitado. - Começar do zero seria uma boa coisa. Mas, da sombra do corredor, haviam surgido dois homens. Tarrou malteve tempo de ouvir o companheiro perguntar o que quereriam aqueles doissujeitos. Os sujeitos, que tinham o ar de funcionários endomingados,perguntavam, na verdade, a Cottard se ele se chamava efetivamente Cottard, eeste, soltando uma espécie de exclamação surda, girava sobre si mesmo e logomergulhava na noite sem que os outros, nem Tarrou, tivessem tempo de esboçarum gesto. Passada a surpresa, Tarrou perguntou aos dois homens o quedesejavam. Assumiram um ar reservado e cortês para dizer que se tratava deinformações e partiram calmamente na direção que Cottard tomara. De volta a casa, Tarrou relatava essa cena e logo - a letra provava-o bem -anotava seu cansaço. Acrescentava que ainda havia muito a fazer, mas que nãoera uma razão para não se estar pronto e perguntava a si próprio se justamenteele estava pronto. Respondia, para terminar - e é aqui que os cadernos de Tarrouterminam -, que havia sempre uma hora do dia e da noite em que o homem eracovarde e que ele só tinha medo dessa hora. Dois dias depois, alguns dias antes da abertura das portas, o Dr. Rieuxvoltava para casa ao meio-dia e perguntava a si próprio se iria encontrar otelegrama que esperava. Embora seus dias fossem ainda tão exaustivos como noauge da peste, a expectativa da libertação definitiva tinha dissipado nele qualquercansaço. Agora, tinha esperança e alegrava-se com isso. Não se pode manterindefinidamente a vontade em estado de tensão, e é uma felicidade poder, enfim,na efusão, desatar esse molho de forças trançadas para a luta. Se o telegramaesperado fosse, ele também, favorável, Rieux poderia recomeçar. Ele era deopinião de que todos recomeçariam. Passou diante do cubículo da entrada. O novo porteiro, com o rostocolado na vidraça, sorria-lhe. Ao subir as escadas, Rieux revia aquele rosto,empalidecido pelas fadigas e pelas privações. Sim, recomeçaria quando a abstração tivesse acabado, e com um poucode sorte... No mesmo momento em que abrira a porta, sua mãe vinha ao seuencontro, para anunciar que o Sr. Tarrou não se sentia bem. Levantara-se demanhã, mas não tinha conseguido sair e acabava de se deitar de novo. A Sra.Rieux estava inquieta. - Talvez não seja nada de grave - disse o filho. Tarrou estava estendido,com a pesada cabeça enterrada no travesseiro, o peito forte desenhando-se sob aespessura dos cobertores. Estava com febre, doía-lhe a cabeça. Disse a Rieux quese tratava de sintomas vagos que podiam também ser os da peste. - Não, nada de preciso por enquanto - disse Rieux, depois de examiná-lo. Mas Tarrou sentia-se devorado pela sede. No corredor, o médico disse à
mãe que podia ser o começo da peste. - Oh! - disse ela. - Não é possível, logo agora! E a seguir: - Deixemo-lo ficar, Bernard. Rieux refletia. - Não tenho esse direito - disse ele. - Mas as portas vão abrir-se. Creioque seria esse o primeiro direito que eu tomaria para mim se você não estivesseaqui. - Bernard - disse ela -, deixe-nos, os dois. Bem sabe que acabo de servacinada mais uma vez. O médico disse que também Tarrou o fora, , mas que, talvez pelo cansaço,devia ter deixado passar a última injeção de soro e esquecera algumasprecauções. Rieux já se dirigia ao escritório. Quando voltou ao quarto, Tarrou viu quetrazia as enormes ampolas de soro. - Ah, é isso - disse ele. - Não, mas é uma precaução. Como única resposta, Tarrou estendeu o braço e recebeu a interminávelinjeção que ele próprio tinha dado a outros doentes. - Veremos esta tarde - disse Rieux, olhando Tarrou de frente. - E o isolamento, Rieux? - Não é certo que você tenha a peste. Tarrou sorriu com esforço. - É a primeira vez que vejo injetar um soro sem se determinar ao mesmotempo o isolamento. - Mas mamãe e eu trataremos de você. Estará melhor aqui. Tarrou calou-se e o médico, que arrumava as ampolas, esperou que elefalasse para se voltar. Por fim, dirigiu-se para o leito. O doente olhava para ele.Tinha o rosto cansado, mas os olhos cinzentos estavam calmos. Rieux sorriu-lhe. - Veja se consegue dormir. Volto daqui a pouco. À porta, ouviu a voz de Tarrou, que o chamava. Voltou-se para ele. Mas Tarrou parecia debater-se contra a própria expressão do que tinha adizer. - Rieux - articulou, por fim -, quero que me diga tudo. Tenho necessidadede sabê-lo. - Prometo. O rosto maciço do outro contraiu-se num sorriso. - Obrigado. Não tenho vontade de morrer e vou lutar. Mas, se a partidaestiver perdida, quero ter um bom fim. Rieux abaixou-se e apertou-lhe o ombro. - Não - disse. - Para se ser santo, é preciso viver. Lute. Durante o dia, o frio, que tinha sido intenso, diminuiu um pouco, maspara dar lugar, de tarde, a violentas tempestades de chuva e de granizo. Aocrepúsculo, o céu se descobriu um pouco e o frio tornou-se mais penetrante.Rieux voltou para casa no fim da tarde. Sem tirar o sobretudo, entrou no quartodo amigo. Sua mãe fazia tricô. Tarrou parecia não se ter mexido do mesmo lugar,mas os lábios, empalidecidos pela febre, diziam da luta que ele travava. - Então? - perguntou o médico. Tarrou encolheu um pouco, fora do leito, seus ombros fortes. - Então - disse ele -, estou perdendo a partida. O médico curvou-se sobreele. Tinham-se formado gânglios sob a pele ardente, o peito parecia ressoar comtodos os ruídos de uma forja subterrânea. Curiosamente, Tarrou apresentava asduas espécies de sintomas. Ao erguer-se, Rieux disse que o soro ainda não tivera
tempo de produzir todo o seu efeito. Mas uma onda de febre que veio rolar na suagarganta afogou as poucas palavras que Tarrou tentou pronunciar. Depois do jantar, Rieux e a mãe instalaram-se junto do doente. A noitecomeçava para ele na luta, e Rieux sabia que esse duro combate com o anjo dapeste devia durar até o amanhecer. Os sólidos ombros e o vasto peito de Tarrounão eram suas melhores armas, mas antes esse sangue que Rieux fizera brotarainda agora sob a agulha e, nesse sangue, o que era mais interior que a alma eque nenhuma ciência podia trazer à luz. E ele não podia fazer mais que ver oamigo lutar. O que ia fazer, os abscessos que devia provocar, os tónicos que erapreciso inocular, vários meses de fracassos repetidos tinham-lhe ensinado aapreciar-lhes a eficácia. Sua única tarefa, na verdade, era dar oportunidade aesse acaso que tantas vezes só age quando provocado. Era preciso que o acaso sedesse ao trabalho de manifestar-se. Porque Rieux encontrava-se diante de umaface da peste que o desconcertava. Uma vez mais, ela se dedicava a despistar asestratégias erguidas contra ela, aparecia nos lugares onde não era esperada, paradesaparecer daqueles onde parecia já instalada. Uma vez mais, dedicava-se acausar espanto. Tarrou lutava, imóvel. Nem uma única vez, durante a noite, opôs aagitação aos assaltos do mal, combatendo, apenas, com toda a sua solidez e todoo seu silêncio. Mas também não falou uma única vez, confessando assim, à suamaneira, que a distração já não lhe era possível. Rieux seguia apenas, as fases docombate pelos olhos do amigo, ora abertos, ora fechados, com as pálpebras maisapertadas contra o globo ocular, ou, pelo contrário, distendidas, o olhar fixo numobjeto ou voltado para o médico e a mãe. A cada vez que Rieux encontrava esseolhar, Tarrou sorria, com grande esforço. Em certo momento, ouviram-se passos precipitados na rua. Pareciamfugir diante de um rumor longínquo, que se aproximou pouco a pouco e acabouenchendo a rua com seu matraquear: a chuva recomeçava, logo mesclada aogranizo que estalava nas calçadas. Os grandes reposteiros ondularam diante dasjanelas. Na escuridão do quarto, Rieux, um instante distraído pela chuva,contemplava novamente Tarrou, iluminado por uma lâmpada de cabeceira. Suamãe tricotava, levantando a cabeça, de vez em quando, para olhar atentamentepara o doente. O médico tinha agora feito tudo o que havia a fazer. Depois dachuva, o silêncio tornou-se mais espesso no quarto, cheio apenas do mudotumulto de uma guerra invisível. Crispado pela insónia, o médico imaginava ouvirnos limites do silêncio o silvo doce e regular que o acompanhara durante toda aepidemia. Fez sinal à mãe, para que fosse deitar-se. Ela recusou com a cabeça,seus olhos iluminaram-se, depois examinou cuidadosamente, na ponta dasagulhas, um ponto que não lhe parecia perfeito. Rieux levantou-se para dar debeber ao doente e voltou a sentar-se. Alguns transeuntes, aproveitando a estiagem, caminhavam rapidamentena calçada. Os passos diminuíam e afastavam-se. O médico, pela primeira vez,reconheceu que essa noite, cheia de notívagos retardatários, e privada das sirenesdas ambulâncias, era semelhante às de outrora. Era uma noite libertada dapeste. E parecia que a doença, enxotada pelo frio, pelas luzes e pela multidão,fugira das profundezas obscuras da cidade para vir refugiar-se nesse quartoquente e fazer seu último assalto ao corpo inerte de Tarrou. O flagelo já nãoagitava o céu da cidade. Mas sibilava suavemente no ar pesado do quarto. Era eleque Rieux ouvia já há algumas horas. Era necessário esperar que também lá eleparasse, que também lá a peste se declarasse vencida.
Pouco antes do amanhecer, Rieux inclinou-se para a mãe. - Você devia deitar-se para me substituir às oito horas. Faça inalaçõesantes de se deitar. A Sra. Rieux levantou-se, arrumou seu tricô e dirigiuse para o leito.Tarrou, já há algum tempo, mantinha os olhos fechados. O suor encaracolava-lheos cabelos sobre a fronte dura. A Sra. Rieux suspirou, e o doente abriu os olhos.Viu o rosto suave curvado para ele e, sob as ondas móveis da febre, o sorrisotenaz reapareceu ainda. Mas os olhos fecharam-se logo. Só, Rieux instalou-se napoltrona que a mãe acabava de deixar. A rua estava muda, e o silêncio era agoracompleto. O frio da manhã começava a fazer sentir-se no quarto. O médico cochilou, mas o primeiro carro da madrugada arrancou-o àsonolência. Sentiu um arrepio e, olhando para Tarrou, compreendeu que tinhahavido uma pausa e que o doente dormia também. As rodas de madeira e de ferrodo carro rolavam ainda à distância. Lá fora, o dia estava ainda escuro. Quando omédico avançou em direção à cama, Tarrou olhou-o com olhos sem expressão,como se estivesse ainda do lado do sono. - Dormiu, não é verdade? - perguntou Rieux. - Dormi. - Está respirando melhor? - Um pouco. Isso significa alguma coisa?, Rieux calou-se e ao fim de ummomento disse: - Não, Tarrou, isso não significa nada. Você conhece como eu a remissãomatinal. Tarrou aprovou. - Obrigado - disse. - Responda-me sempre com essa exatidão. Rieux tinha-se sentado aos pés da cama. Sentia perto dele as pernas dodoente, compridas e duras como membros de defunto. Tarrou respirava com maisforça. - A febre vai recomeçar, não é, Rieux? - perguntou, com uma vozofegante. - Vai, mas ao meio-dia saberemos alguma coisa. Tarrou fechou os olhos,parecendo reunir suas forças. Lia-se em suas feições uma expressão de cansaço. Esperava a subida dafebre, que já se agitava, em qualquer parte, no fundo dele mesmo. Quando abriuos olhos, seu olhar era baço. Só se iluminou ao ver Rieux curvado sobre ele. - Beba - dizia-lhe este. O outro bebeu e deixou cair a cabeça novamente. - Demora tanto - disse. Rieux pegou-lhe no braço, mas Tarrou, com o olhar desviado, já nãoreagia. E, de repente, a febre refluiu visivelmente até sua fronte, como se tivessearrebentado alguma represa interior. Quando o olhar de Tarrou voltou a pousarno médico, este o animava com o rosto tenso. O sorriso que Tarrou tentou aindaesboçar não conseguiu passar dos maxilares cerrados e dos lábios cimentadospor uma espuma esbranquiçada. Mas, na face endurecida, os olhos brilharamainda com todo o fulgor da coragem. Às sete horas, a Sra. Rieux entrou no quarto. O médico dirigiu-se aoescritório para telefonar para o hospital e providenciar sua substituição. Decidiu,também, adiar as consultas, deitou-se um momento no divã do seu escritório,mas levantou-se logo e voltou ao quarto. Tarrou tinha a cabeça voltada para aSra. Rieux. Olhava para a pequena sombra abatida perto dele, numa cadeira,
com as mãos juntas sobre as coxas. E contemplava-a com tanta intensidade quea Sra. Rieux, pondo um dedo sobre os lábios, levantou-se para apagar a lâmpadade cabeceira. Mas, por trás das cortinas, o dia filtrava-se rapidamente e, pouco apouco, quando as feições do doente emergiram da sombra, a Sra. Rieux pôde verque ele continuava a olhá-la. Curvou-se sobre ele, endireitou o travesseiro e, aolevantar-se, pousou um instante a mão sobre os cabelos úmidos e emaranhados.Ouviu, então, uma voz ensurdecida, vinda de longe, dizer-lhe ”obrigado” e quetudo agora ia bem. Quando ela se sentou de novo, Tarrou fechara os olhos, e orosto esgotado, apesar da boca lacrada, parecia sorrir de novo. Ao meio-dia, a febre chegava ao máximo. Uma espécie de tosse visceralsacudia o corpo do doente, que começou a escarrar sangue. Os gânglios tinhamparado de inchar. Continuavam lá, duros como porcas atarraxadas no vão dasarticulações, e Rieux julgou impossível abri-los. Nos intervalos da febre e datosse, Tarrou uma vez ou outra olhava ainda para os amigos. Mas logo os olhoscomeçaram a abrir-se cada vez menos, e a luz que vinha agora iluminarlhe orosto devastado tornava-se cada vez mais pálida. A tempestade que sacudia seucorpo de sobressaltos convulsivos iluminava-o de relâmpagos cada vez maisraros, e Tarrou estava à deriva, lentamente, no fundo dessa tormenta. Rieux jánão tinha diante de si senão uma máscara agora inerte, de onde o sorriso tinhadesaparecido. Essa forma humana que lhe fora tão próxima, crivada agora degolpes de lança, queimada por um mal sobre-humano, retorcida pelos ventosrancorosos do céu, mergulhava diante de seus olhos nas águas da peste, e elenada podia contra esse naufrágio. Tinha de ficar na margem, com as mãos vaziase o coração oprimido, sem armas e sem recursos, uma vez mais, contra essedesastre. E, no fim, foram efetivamente as lágrimas da impotência que impediramRieux de ver Tarrou encostar-se bruscamente na parede e expirar, num lamentosurdo, como se em qualquer parte dentro dele uma corda essencial se tivesserompido. A noite que se seguiu não foi a da luta, mas a do silêncio. Nesse quartoseparado do mundo, acima do corpo morto agora vestido, Rieux sentiu pairar acalma surpreendente que muitas noites antes, nos terraços por cima da peste, seseguira ao ataque às portas. Já naquela época, tinha pensado nesse silêncio quese elevava dos leitos onde ele deixara morrer homens. Em todo lugar, era amesma pausa, o mesmo intervalo solene, sempre o mesmo sossegar que se seguiaaos combates, era o silêncio da derrota. Quanto a esse que envolvia agora oamigo, era tão compacto, moldava-se tão estreitamente ao silêncio das ruas e dacidade libertada da peste, que Rieux sentia efetivamente que se tratava, desta vez,da derrota definitiva, a que termina as guerras e faz da própria paz umsofrimento incurável. O médico não sabia se, para acabar, Tarrou tinhaencontrado a paz, mas, nesse momento, pelo menos, julgava saber que nuncahaveria a possibilidade de paz para si mesmo, assim como não há armistício paraa mãe amputada do filho ou para o homem que enterra o amigo. Lá fora, era a mesma noite fria, estrelas geladas num céu claro e gélido.No quarto semi-obscuro, sentia-se o frio que pesava nas vidraças, a granderespiração lívida de uma noite polar. Perto do leito, a Sra. Rieux estava sentada,na sua atitude familiar, com o lado direito iluminado pela lâmpada de cabeceira.No centro do quarto, longe da luz, Rieux esperava em sua poltrona. A lembrançade sua mulher o atraía, mas ele a repelia sempre. No princípio da noite, os saltos dos transeuntes tinham soado claro nanoite fria.
- Tratou de tudo? - perguntara a Sra. Rieux. - Sim, já telefonei. Então, retomaram a vigília silenciosa. A Sra. Rieux olhava de vez emquando para o filho. Quando ele surpreendia um desses olhares, sorria. Osruídos familiares da noite tinham-se sucedido na rua. Embora não houvesseainda autorização, muitos carros circulavam de novo. Sugavam rapidamente oasfalto, desapareciam e reapareciam em seguida. Vozes, chamados, o silêncio quevoltava, passos de cavalo, dois bondes rangendo numa curva, rumores imprecisose de novo a respiração da noite. - Bernard? - Que é? - Não está cansado? - Não. Ele sabia o que a mãe pensava e que nesse momento ela o amava. Massabia também que não é grande coisa amar um ser, ou que, pelo menos, umamor não é nunca bastante forte para encontrar sua própria expressão. Assim,sua mãe e ele sempre se amariam em silêncio. E ela morreria por sua vez - ou ele- sem que, durante toda a vida, tivessem conseguido ir mais longe na confissãode sua ternura. Da mesma forma, ele tinha vivido ao lado de Tarrou e essa noiteele morrera, sem que sua amizade tivesse tido tempo de ser verdadeiramentevivida. Tarrou perdera a partida, como ele dizia. Mas ele, Rieux, o que tinhaganho? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela, ter conhecidoa amizade e lembrar-se dela, conhecer a ternura e haver um dia de lembrar-sedela. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era oconhecimento e a memória. Talvez fosse a isso que Tarrou chamava ganhar apartida! De novo, um automóvel passou e a Sra. Rieux mexeuse um pouco nacadeira. O filho sorriu-lhe. Ela lhe disse que não estava cansada e logo a seguiracrescentou: - Precisa ir descansar na montanha. - É claro, mamãe. Sim, iria descansar lá. Por que não? Seria também um pretexto pararecordar. Mas se era isso ganhar a partida, como devia ser duro viver apenas como que se sabe e aquilo de que se tem lembrança, privado do que se espera. Eraassim, sem dúvida, que Tarrou tinha vivido, e ele tinha consciência do que há deestéril numa vida sem ilusões. Não há paz sem esperança, e Tarrou, que recusavaaos homens o direito de condenar quem quer que fosse, que sabia, contudo, queninguém se pode impedir de condenar e que até as vítimas se encontravam, àsvezes, no papel de carrascos, Tarrou tinha vivido no sofrimento e na contradição,jamais conhecera a esperança. Seria por isso que ele tinha querido a santidade ebuscara a paz a serviço dos homens? Na verdade, Rieux nada sabia, e isso poucolhe importava. As únicas imagens de Tarrou que conservaria seriam as de umhomem que pegava no volante do seu automóvel com mãos firmes, para dirigi-lo,ou as deste corpo espesso estendido agora, sem movimento. Um calor de vida euma imagem de morte, era isso o conhecimento. Eis por que, sem dúvida, o Dr. Rieux recebeu com calma, de manhã, anotícia da morte de sua mulher. Estava no escritório. A mãe chegara, quasecorrendo, para trazer-lhe um telegrama, depois saíra para dar a gorjeta aomensageiro. Quando voltou, o filho tinha na mão o telegrama aberto. Olhou paraele, que, no entanto, contemplava obstinadamente, pela janela, uma manhã
magnífica que se erguia sobre o porto. - Bernard - disse a Sra. Rieux. O médico perscrutou-a com ar distraído. - O telegrama? - perguntou ela. - É isso - reconheceu o médico. - Há oito dias. A Sra. Rieux voltou acabeça para a janela. O médico continuava calado. Depois pediu à mãe que nãochorasse, que ele já esperava, mas que era difícil, apesar de tudo. Simplesmente,ao dizer isso, sabia que seu sofrimento era sem surpresa. Há meses e há doisdias, era a mesma dor que continuava. As portas da cidade abriram-se, afinal, na madrugada de uma belamanhã de fevereiro, saudadas pelo povo, pelos jornais, pelo rádio e peloscomunicados da prefeitura. Resta, pois, ao narrador fazer-se o cronista das horasde alegria que se seguiram a essa abertura das portas, embora ele próprioestivesse entre os que não tinham a liberdade de se juntar a elas inteiramente. Grandes festejos estavam organizados para o dia e para a noite. Aemesmo tempo, os trens começavam a fumegar na estação, enquanto, vindos demares longínquos, os navios já entravam no porto, acentuando, à sua maneira,que esse dia era, para todos os que gemiam por estar separados, o da grandereunião. Imaginar-se-á facilmente aqui em que se transformou o sentimento daseparação que tinha habitado tantos de nossos concidadãos. Os trens que,durante o dia, entraram em nossa cidade não vinham menos cheios que os quedela saíram. Todos tinham reservado seu lugar para esse dia, no decurso de duassemanas de sursis, temendo que, no último momento, a decisão da prefeiturafosse anulada. Alguns dos viajantes que se aproximavam de nossa cidade nãovinham, aliás, inteiramente livres da sua apreensão, já que, se conheciam emgeral o destino daqueles que os tocavam de perto, ignoravam tudo dos outros e dacidade em si, à qual atribuíam uma fisionomia terrível. Mas isso só era verdadepara aqueles que a paixão não tinha queimado durante todo esse espaço detempo. Na verdade, os apaixonados estavam entregues a sua ideia fixa. Umaúnica coisa mudara para eles: esse tempo que, durante os meses do exílio, teriamdesejado empurrar para que se apressasse, que se empenhavam em precipitarainda, agora que já se encontravam diante de nossa cidade, desejaram freá-lo,pelo contrário, e mante-lo suspenso desde que o trem começava a reduzir amarcha antes da parada. O sentimento, ao mesmo tempo vago e agudo, que havianeles, de todos esses meses de vida perdidos para o amor, fazia-os exigirconfusamente uma espécie de compensação, pela qual o tempo da alegria teriacorrido duas vezes mais devagar que o da espera. E aqueles que os esperavamnum quarto ou no cais, como Rambert, cuja mulher, avisada há semanas, fizerao necessário para chegar, encontravam-se na mesma impaciência e no mesmotumulto. Porque esse amor ou essa ternura que os meses da peste tinhamreduzido à abstração, Rambert esperava, num tremor, confrontá-los com o ser decarne que tinha sido seu sustentáculo. Teria desejado voltar a ser aquele que, no princípio da epidemia, queriacorrer, com um único impulso, para fora da cidade e atirar-se ao encontrodaquela que amava. Mas sabia que isso não era mais possível. Ele mudara, apeste tinha deixado nele uma distração que, com todas as suas forças, tentavanegar, e que, entretanto, continuava nele como uma angústia surda. De certaforma, tinha o sentimento de que a peste terminara com demasiada brutalidade,
de que não recuperara sua presença de espírito. A felicidade chegava com todo oímpeto, o acontecimento ia mais depressa que a expectativa. Rambertcompreendia que tudo lhe seria devolvido de uma vez e que a alegria é umaqueimadura que não se saboreia. Todos, aliás, mais ou menos conscientemente, estavam como ele, e é detodos que é preciso falar. Na plataforma da estação onde recomeçavam sua vidapessoal, sentiam ainda a sua comunhão, trocando entre si olhares e sorrisos.Mas o sentimento de exílio, desde que viram a fumaça do trem, apagou-sebruscamente sob a tempestade de uma alegria confusa e perturbadora. Quando otrem parou, separações intermináveis, que em muitos casos tinham começadonessa mesma plataforma de estação, ali terminaram, num segundo, no momentoem que braços se fecharam com uma avareza exultante sobre corpos cuja formaviva tinham esquecido. Rambert, por sua vez, mal teve tempo de olhar essa formaque corria para ele e já ela se abatia contra seu peito. E segurando-a com a forçade seus braços, apertando contra si uma cabeça de que só via os cabelosfamiliares, deixou correr as lágrimas, sem saber se elas vinham da felicidadepresente ou de uma dor muito tempo reprimida, seguro, pelo menos, de que elaso impediriam de verificar se esse rosto enterrado em seu ombro era aquele comque tanto sonhara ou, pelo contrário, o de uma desconhecida. Saberia mais tardese a sua suspeita era verdadeira. Por ora, queria fazer como todos os que à suavolta pareciam acreditar que a peste pode chegar e voltar a partir sem que ocoração dos homens mude com isso. Apertados uns contra os outros, todos voltaram então para casa, alheiosao resto do mundo, aparentemente vencedores da peste, esquecidos de toda adesgraça e daqueles que, vindos no mesmo trem, não tinham encontradoninguém e se dispunham a receber em casa a confirmação dos temores que umlongo silêncio já fizera nascer nos corações. Para estes últimos, que não tinhamagora por companhia senão a dor muito recente, para outros que seconsagravam, nesse momento, à recordação de um ser desaparecido, tudo sepassava de modo muito diferente, e o sentimento da separação tinha atingido oauge. Para esses - mães, esposos, amantes que tinham perdido toda a alegriacom o ser agora abandonado numa cova anónima ou fundido num monte decinza - era ainda a peste. Mas quem pensava nessas solidões? Ao meio-dia, o sol, dominando ossopros frios que lutavam no ar desde a manhã, despejava sobre a cidade asondas ininterruptas de uma luz imóvel. O dia estava suspenso. Os canhões dosfortes, no topo das colinas, trovejavam sem cessar no céu fixo. Toda a cidadelançou-se às ruas, para festejar esse minuto em que acabava o tempo dossofrimentos e ainda não começara o tempo do esquecimento. Dançava-se em todas as praças. De um dia para o outro, o trânsito tinhaaumentado consideravelmente e os automóveis, agora mais numerosos,circulavam com dificuldade nas ruas invadidas. Os sinos da cidade repicaramtoda a tarde, enchendo, com suas vibrações, um céu azul e dourado. Na verdade,nas igrejas, rezavam-se ações de graças. Mas, ao mesmo tempo, os lugares deprazer transbordavam e os cafés, sem se preocuparem com o futuro, distribuíamseus últimos álcoois. Diante dos balcões comprimia-se uma multidão de pessoasigualmente agitadas e, entre elas, numerosos pares enlaçados que não receavamexibir-se. Todos gritavam ou riam. A provisão de vida que tinham feito duranteaqueles meses em que cada um tinha velado a alma gastavam-na nesse dia, queera como o dia de sua sobrevivência. No dia seguinte, começaria a própria vida,
com suas precauções. No momento, pessoas de origens mais diversasacotovelavam-se e confraternizavam. A igualdade que a presença da morte nãotinha realizado de fato, estabelecia-a a alegria da libertação, ao menos poralgumas horas. Mas essa exuberância banal não dizia tudo, e os que enchiam as ruas aofim da tarde, ao lado de Rambert, disfarçavam muitas vezes, sob uma atitudeplácida, felicidades mais delicadas. Muitos casais e muitas famílias pareciamapenas transeuntes pacíficos. Na realidade, a maior parte efetuava peregrinaçõesaos lugares onde tinham sofrido. Tratava-se de mostrar aos recém-chegados ossinais evidentes ou ocultos da peste, os vestígios de sua história. Em algunscasos, contentavam-se com o papel de guias, daquele que viu muitas coisas, docontemporâneo da peste, e falavam do perigo sem evocar o medo. Esses prazereseram inofensivos. Em outros casos, porém, tratava-se de itinerários maisfrementes, em que um amante, abandonado à doce angústia da recordação, podiadizer a sua companheira: ”Neste lugar, nessa época, eu desejei você, e você nãoestava aqui”. Esses turistas da paixão eram então facilmente reconhecíveis:formavam ilhotas de sussurros e de confidências no meio do tumulto em quecaminhavam. Mais que as orquestras nas praças, eram eles que anunciavam averdadeira libertação. Porque esses casais encantados, estreitamente enlaçados eavarentos de palavras, afirmavam, em meio ao tumulto, com todo o triunfo e todaa injustiça da felicidade, que acabara a peste e o terror chegara ao fim. Negavamtranqüilamente, contra toda a evidência, que tivéssemos jamais conhecido essemundo insensato em que o assassinato de um homem era tão cotidiano quanto odas moscas, essa selvageria bem definida, esse delírio calculado, essa prisão quetrazia consigo uma pavorosa liberdade em relação a tudo o que não era opresente, esse cheiro de morte, que entorpecia todos aqueles a quem não matava- negavam, enfim, que tivéssemos sido esse povo atordoado de que todos os diasuma parte, empilhada na boca de um forno, se evaporava em fumaça gordurosa,enquanto a outra, carregada com as cadeias da impotência e do medo, esperavasua vez. Era isso, em todo caso, o que saltava aos olhos do Dr. Rieux, que,procurando alcançar os subúrbios, caminhava só, no fim da tarde, em meio aossinos, ao canhão, às músicas e aos gritos ensurdecedores. Seu trabalhocontinuava: para médicos, não há férias. Na bela luz fina que descia sobre acidade, subiam os velhos odores de carne assada, álcool, anis. À sua volta, facesrisonhas voltavam-se para o céu. Homens e mulheres agarravam-se uns aosoutros, os rostos inflamados, com todo o enervamento e o grito de desejo. Sim, apeste tinha acabado com o terror e esses braços que se entrelaçavam diziam bemque ela havia sido exílio e separação, no sentido profundo do termo. Pela primeira vez, Rieux podia dar um nome a esse ar de família quetinha lido, durante meses, em todos os rostos dos transeuntes. Bastava-lhe agoraolhar à sua volta. Chegados ao fim da peste, com a miséria e as privações, todosesses homens acabaram por assumir o traje do papel que desempenhavam já hámuito tempo, o de emigrantes cujo rosto, primeiro, e agora as roupas, diziam daausência da pátria longínqua. A partir do momento em que a peste tinha fechadoas portas da cidade, só tinham vivido na separação, tinham sido afastados dessecalor humano que faz esquecer tudo. Em graus diversos, em todos os cantos dacidade, esses homens e essas mulheres tinham aspirado a uma reunião que nãoera para todos da mesma natureza, mas que para todos era igualmenteimpossível. A maior parte tinha gritado com todas as suas forças por um ausente,
o calor de um corpo, a ternura ou o hábito. Alguns, muitas vezes sem o saber,sofriam por estar colocados fora da amizade dos homens, de já não poderemcomunicar-se com eles pelos meios normais da amizade, que são as cartas, ostrens e os navios. Outros, mais raros, como Tarrou, talvez, tinham desejado areunião com qualquer coisa que não podiam definir mas que lhes parecia o únicobem desejável. E, à falta de outro nome, chamavam-lhe, às vezes, paz. Rieux continuava a andar. À medida que avançava, a multidão crescia àsua volta, a confusão aumentava e parecia-lhe que os subúrbios que queriaalcançar recuavam. Pouco a pouco, fundia-se nesse grande corpo ululante, cujogrito ele compreendia cada vez melhor, esse grito que, por um lado, pelo menos,era seu grito. Sim, todos tinham sofrido juntos, tanto na carne quanto na alma,um vazio difícil, um exílio sem remédio e uma sede jamais satisfeita. Entre essesamontoados de mortos, as sirenes das ambulâncias, os avisos do que seconvencionou chamar destino, o tropel impaciente do medo e a revolta terrível deseu coração, não tinha parado de correr um grande rumor que punha desobreaviso esses seres aterrados, dizendo-lhes que era preciso encontrarem suaverdadeira pátria. Para todos eles, a verdadeira pátria encontrava-se para alémdos muros desta cidade sufocada. Ela estava nas matas perfumadas das colinas,no mar, nos países livres e no peso do amor. E era para ela, era para a felicidade,que eles queriam voltar, afastando-se do resto com repulsa. Quanto ao sentido que podiam ter esse exílio e esse desejo de reunião,Rieux nada sabia. Caminhando sempre, comprimido de todos os lados,interpelado, chegava, pouco a pouco, às ruas menos apinhadas e pensava quenão era importante que essas coisas tivessem um sentido ou não, mas que épreciso ver apenas a resposta dada à esperança dos homens. Ele sabia agora qual era essa resposta e a compreendia melhor nasprimeiras ruas dos subúrbios, quase desertas. Aqueles que, cientes do pouco queeram, tinham apenas desejado voltar à casa do seu amor, eram por vezesrecompensados. Decerto, alguns^deles continuavam a caminhar na cidade,solitários, privados do ser que esperavam. Felizes ainda dos que não tinham sidoduas vezes separados, como alguns que, antes da epidemia, não tinham podidoconstruir, à primeira tentativa, seu amor e tinham cegamente buscado, duranteanos, o difícil acordo que acaba por juntar um ao outro amantes inimigos. Essestinham tido, como o próprio Rieux, a leviandade de contar com o tempo: estavamseparados para sempre. Mas outros, como Rambert, que o doutor deixara nessamesma manhã, dizendo-lhe: ”Coragem, é agora que é preciso ter razão”, haviamreencontrado, sem hesitar, o ausente que tinham julgado perdido. Durante algumtempo, pelo menos, seriam felizes. Sabiam agora que, se há qualquer coisa que sepode desejar sempre e obter algumas vezes, essa qualquer coisa é a ternurahumana. Para todos aqueles, pelo contrário, que se tinham dirigido por cima dohomem a qualquer coisa que nem sequer imaginavam, não houvera resposta.Tarrou parecia ter alcançado essa paz difícil de que falara, mas só a tinhaencontrado na morte, na hora em que não podia lhe servir para nada. Se outros,pelo contrário, que Rieux avistava nas soleiras das casas, enlaçados com todas assuas forças e olhando-se com enlevo, tinham obtido o que queriam, é porquetinham pedido a única coisa que dependia deles. E Rieux, no momento de entrarna rua de Grand e de Cottard, pensava que era justo que, vez por outra, pelomenos, a alegria viesse recompensar os que se contentam com o homem e seupobre terrível amor.
Esta crónica chega ao fim. É tempo de o Dr. Bernard Rieux confessar queé o seu autor. Mas, antes de narrar os últimos acontecimentos, ele gostaria, aomenos, de justificar sua intervenção e fazer compreender por que quis assumir otom de testemunha objetiva. Ao longo de toda a duração da peste, sua profissão ocolocou em condições de ver a maior parte de seus concidadãos e de recolherseus sentimentos. Estava, pois, em boa posição para narrar o que tinha visto eouvido. De uma maneira geral, esforçou-se no sentido de não contar mais coisasdo que pôde ver, de não atribuir aos companheiros de peste pensamentos que,afinal, eles não eram obrigados a formular e de utilizar apenas os textos que oacaso ou a desgraça lhe tinham posto entre as mãos. Tendo sido chamado a depor, por ocasião de uma espécie de crime,manteve uma certa reserva, como convém a uma testemunha de boa vontade.Mas, ao mesmo tempo, segundo a lei de um coração honesto, tomoudeliberadamente o partido da vítima e quis juntar-se aos homens, seusconcidadãos, nas únicas certezas que eles têm em comum e que são o amor, osofrimento e o exílio. Assim é que não há uma só das angústias de seusconcidadãos de que não tenha compartilhado, uma só situação que não tenhatambém sido a sua. Para ser uma testemunha fiel, devia relatar sobretudo os atos, osdocumentos e os boatos. Mas o que pessoalmente tinha a dizer - sua expectativa,suas provações - devia calá-lo. Se se valeu delas, foi apenas para compreender oufazer compreender seus concidadãos, ou para dar forma, tão precisa quantopossível, ao que, na maior parte do tempo, eles sentiam de modo confuso. Paradizer a verdade, esse esforço da razão não lhe custou nada. Quando seencontrava tentado a misturar diretamente sua confidência às mil vozes dasvítimas da peste, era detido pelo pensamento de que não havia um só de seussofrimentos que não fosse ao mesmo tempo o dos outros e que, num mundo emque a dor é tantas vezes solitária, isso era uma vantagem. Decididamente, deviafalar por todos. Mas há um de nossos concidadãos, pelo menos, pelo qual o Dr. Rieux nãopodia falar. Tratava-se, na verdade, daquele de quem Tarrou lhe tinha dito umdia ”Seu único verdadeiro crime foi ter aprovado de coração o que fazia morrer ascrianças e os homens. O resto, compreendo-o, mas isso sou obrigado a perdoar-lhe”. É justo que esta crónica termine com aquele que tinha um coraçãoignorante, quer dizer, solitário. Quando saiu das grandes ruas barulhentas e da festa, no momento deentrar na rua de Grand e de Cottard, o Dr. Rieux, com efeito, foi detido por umabarreira de policiais. Não esperava por isso. Os rumores longínquos da festafaziam o bairro parecer silencioso, e ele o imaginava tão deserto quanto mudo.Tirou seu cartão de identidade. - Impossível, doutor - disse-lhe o guarda -, há um louco que está atirandosobre a multidão. Mas fique aí, poderá ser útil. Nesse momento, o doutor viu Grand, que se dirigia a ele. Grand tambémnada sabia. Impediam sua passagem e diziam que os tiros saíam de sua casa. Delonge, via-se, na verdade, a fachada, dourada pela última luz de um sol semcalor. À sua volta, recortava-se um grande espaço vazio que ia até a calçada emfrente. No meio da rua, via-se distintamente um chapéu e um pedaço de panosujo. Rieux e Grand podiam ver muito longe, do outro lado da rua, um cordão depoliciais, paralelo ao que os impedia de avançar e por trás do qual algunshabitantes do bairro passavam e tornavam a passar rapidamente. Olhando bem,
viram também policiais de revólver em punho, agachados nas portas dos edifíciosem frente da casa. Desta, todas as persianas estavam corridas. No segundoandar, contudo, uma delas parecia meio arrancada. O silêncio era completo narua. Ouviam-se apenas os restos de música que chegavam do centro da cidade. Em certo momento, dos edifícios em frente da casa saíram dois tiros derevólver e saltaram estilhaços da persiana desmantelada. Depois, tudo ficou denovo em silêncio. De longe, depois do tumulto do dia, aquilo parecia um poucoirreal a Rieux. - É a janela de Cottard - disse de repente Grand, muito agitado. - MasCottard desapareceu. - Por que disparam? - perguntou Rieux a um policial. - Para distraí-lo. Estamos esperando um carro com o material necessário,pois ele atira sobre os que tentam entrar pela porta do edifício. Já há um policialferido. - Por que ele atirou? - Não se sabe. As pessoas divertiam-se na rua. Ao primeiro tiro derevólver, não compreenderam. No segundo, houve gritos, um ferido e todosfugiram. É um louco, só pode ser! No silêncio que voltara, os minutos pareciam arrastarse. De repente, dooutro lado da rua, viram aparecer um cão, o primeiro que Rieux via há muitotempo, um víra-lata sujo que os donos deviam ter escondido até então, e quetrotava beirando o muro. Chegando à porta, hesitou, sentou-se e começou a cataras pulgas. Vários assobios dos policiais chamaram-no. Ele levantou a cabeça,depois decidiu-se a atravessar lentamente a rua para ir farejar o chapéu. Nomesmo momento, um tiro partiu do segundo andar, e o cão voltou-se, agitandoviolentamente as patas, para cair depois de flanco, sacudido por longasconvulsões. Em resposta, cinco ou seis disparos vindos das portas em frentedespedaçaram mais a persiana. O silêncio caiu de novo. O sol baixava um poucoe a sombra começava a aproximar-se da janela de Cottard. Freios gemeram narua, por detrás do doutor. - Estão aí - disse o policial. Por trás deles, apareceram policiais, trazendo cordas, uma escada e doisembrulhos oblongos, envolvidos em oleado. Dirigiram-se para uma rua quecontornava o bloco de casas em frente ao prédio de Grand. Um momento depois,adivinhou-se mais do que se viu uma certa agitação às portas dessas casas.Depois, esperou-se. O cão já não se mexia, mas estava agora caído numa poçaescura. De repente, das janelas das casas ocupadas pelos policiais saiu umarajada de metralhadora. A persiana visada desfez-se literalmente e deixou adescoberto uma superfície negra, onde Rieux e Grand, do seu lugar, nada podiamdistinguir. Quando a rajada parou, uma segunda metralhadora crepitou, de outraesquina, de uma casa mais adiante. As balas entravam, sem dúvida, no quadradoda janela, já que uma delas fez saltar um estilhaço de tijolo. No mesmo segundo,três policiais atravessaram a rua correndo e mergulharam pela porta de entrada.Quase imediatamente, precipitaram-se para lá mais três, e o fogo dametralhadora parou. Mais uma espera. Duas detonações longínquas ressoaramno prédio. Depois, ouviu-se um rumor, e viu-se sair da casa, mais carregado doque arrastado, um homenzinho em mangas de camisa, que gritava sem parar.Como por milagre, todas as persianas fechadas da rua se abriram e as janelasguarneceram-se de curiosos, enquanto uma multidão de pessoas saía das casas e
se comprimia por detrás das barreiras. Por um momento, viu-se o homenzinho nomeio da rua, com os pés finalmente no solo, os braços seguros atrás das costaspelos policiais. Gritava. Um policial aproximou-se dele e deu-lhe dois murros,com toda a força dos seus punhos, lentamente, com uma espécie de calmaaplicação. - É Cottard - balbuciava Grand. - Enlouqueceu. Cottard tinha caído. Viu-se, ainda, o policial chutar corn toda a força o monte que jazia por terra. Depois,um grupo confuso agitou-se e dirigiu-se para o médico e seu velho amigo. - Todos andando - disse o policial. Rieux desviou os olhos quando o grupo passou diante dele. Grand e o médico partiram no crepúsculo, que terminava. Como se oacontecimento tivesse sacudido o torpor em que o bairro adormecera, essas ruasafastadas enchiam-se de novo com o zumbido de uma multidão em festa. Junto àcasa, Grand despediu-se do doutor. Ia trabalhar. Mas no momento de subirdisse-lhe que tinha escrito a Jeanne e que, agora, sentia-se feliz. E depois tinharecomeçado sua frase. ”Eliminei todos os adjetivos”, disse. E, com um sorriso malicioso, tirou o chapéu numa saudaçãocerimoniosa. Mas Rieux pensava em Cottard e no barulho surdo dos punhos queesmagavam seu rosto, que o perseguia enquanto se dirigia à casa do velhoasmático. Talvez fosse mais duro pensar num homem culpado que num homemmorto. Quando Rieux chegou à casa de seu velho doente, a noite já devoravatodo o céu. Do quarto, podia-se ouvir o rumor longínquo da liberdade, enquanto ovelho continuava imperturbável, a despejar seus grãos-de-bico. - Eles têm razão em divertir-se. É preciso de tudo nesre mundo. E seucolega, doutor, que houve com ele? Chegavam até eles detonações, mas eram pacíficas: crianças quesoltavam suas bombas. - Morreu - disse o doutor, auscultando o peito resfolegante. - Ah! - exclamou o velho, um pouco perplexo. - Peste - acrescentou Rieux. - É verdade - reconheceu o velho, um instante depois -, são os melhoresque partem. É a vida. Mas era um homem que sabia o que queria. - Por que diz isso? - perguntou o médico, arrumando o estetoscópio. - Por nada. Nunca falava para não dizer nada. Enfim, ele me agradava.Mas é assim. Os outros dizem: ”É a peste, tivemos peste”. Por pouco, pediriamque os condecorassem. Mas que quer dizer isso, a peste? É a vida, nada mais. - Faça suas inalações regularmente. - Oh! Não tenha medo. Ainda vou viver muito tempo e vê-los morrertodos. Eu sei viver. Uivos de alegria responderam-lhe ao longe. O médico parou no meio doquarto. - Não se importa que eu vá até o terraço? - Claro que não. Quer vê-los lá de cima, hem? À vontade. Mas são sempreos mesmos. Rieux dirigiu-se para a escada. - Diga-me, doutor, é verdade que vão construir um monumento àsvítimas da peste? - O jornal assim o diz. Uma coluna ou uma lápide.
- Tinha certeza. E haverá discursos. O velho ria com um risoestrangulado. - Parece que consigo ouvi-los daqui: ”Nossos mortos. . .” E depois vãoencher a barriga. Rieux já subia a escada. O grande céu frio cintilava por cima das casas e,perto das colinas, as estrelas endureciam como sílex. Esta noite não era tãodiferente daquela em que Tarrou e ele tinham vindo a esse mesmo terraço paraesquecer a peste. Mas hoje, o mar estava mais barulhento que então junto àsfalésias. O ar estava imóvel e leve, aliviado pelos sopros salgados que o ventomorno do outono trazia. O rumor da cidade, contudo, continuava a chegar aosterraços com um marulho de vaga. Mas essa noite era a da libertação e não a darevolta. Ao longe, uma mancha vermelha, escura, indicava a localização dasavenidas e das praças iluminadas. Na noite agora libertada, o desejo nãoconhecia barreiras e era seu rumor que chegava até Rieux. Do morro escuro, subiram os primeiros foguetes dos festejos oficiais. Acidade saudou-os com uma longa e surda exclamação. Cottard, Tarrou, aqueles eaquela que Rieux tinha amado e perdido, todos, mortos ou culpados, estavamesquecidos. O velho tinha razão, os homens eram sempre os mesmos. Mas essaera sua força e sua inocência, e era aqui que Rieux, acima de toda dor, sentia quese juntava a eles. Em meio aos gritos que redobravam de força e de duração, querepercutiam longamente junto do terraço, à medida que as chuvas multicores seelevavam mais numerosas no céu, o Dr. Rieux decidiu, então, redigir estanarrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor afavor dessas vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiçae da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que seaprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar quecoisas a desprezar. Mas, no entanto, sabia que esta crónica não podia ser a da vitóriadefinitiva. Podia, apenas, ser o testemunho do que tinha sido necessário realizar eque, sem dúvida, deveriam realizar ainda, contra o terror e sua arma infatigável,a despeito das feridas pessoais, todos os homens que, não podendo ser santos erecusando-se a admitir os flagelos, se esforçam no entanto por ser médicos. Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieuxlembrava-se de que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o queessa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste nãomorre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveise na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lençose na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça eensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria morrernuma cidade feliz.
O AUTOR E SUA OBRA Quando o prémio Nobel de Literatura de 1957 foi concedido ao escritorfrancês Albert Camus, ele já era considerado um dos autores mais significativos erepresentativos de seu tempo. Isso apesar da pouca idade. Camus recebeu oprémio aos quarenta e quatro anos, e, depois do poeta inglês Rudyard Kipling - queo conquistou aos quarenta e dois anos -, era o mais jovem detentor do Nobel deliteratura. Mas a idade pouco tinha a ver com a importância que Camus assumiragradativamente no panorama da cultura francesa. Como já acontecera outrasvezes, o prémio não foi concedido exclusivamente ao romancista, mas também aopensador, ao homem preocupado com as angústias do século, o absurdo e odesespero que determinam o ato de existir, e decididamente envolvido na lutadiária que tornava possível a esperança. Esperança que ele exerceu, com maior ou menor intensidade, por quarentae sete anos, quando a morte o surpreendeu, a cem quilómetros de Paris. Umacâmara de ar estourada e o choque contra uma árvore. Muitos se lembraram do queCamus pensava sobre a existência do homem e seu destino no universo, sem umsentido, tendo apenas o absurdo para explicá-la. A frança ficou de luto pelodesaparecimento de uma de suas consciências mais honestas, como destacouAndré Malraux, também escritor e então ministro da Cultura: ”Há mais de vinteanos a obra de Albert Camus era inseparável da obsessão da justiça”. Há mais de vinte anos. . . Nascido em 1913, em Mondovi, departamento deConstantine, na Argélia, território francês que lutava por sua independência, filhode um operário, Camus teve uma infância difícil, entre duas culturas que seriamsempre cada vez mais antagónicas. Sua formação é francesa, seu compromisso écom os homens: ”Sou, antes de tudo, solidário do homem comum. Amanhã o mundopoderá romper-se em pedaços. Há uma lição de verdade nessa ameaça que pairasobre nossas cabeças”. Mecânico, professor primário, empregado no comércio, Camus publicariaseu primeiro livro em 1937, e no ano seguinte ingressaria no jornalismo, duasgrandes paixões. Atuando em Paris, abandonou o jornal em que trabalhava poruma cama maior, a resistência à barbárie que ocupava parte da França.Participante ativo da luta contra os alemães, não desdenhava de sua obra literária.A ”Envers et endroit”, ”Núpcias” e ”O verão” - os dois últimos publicados peloCírculo do Livro - seguiam-se ”O estrangeiro” também publicado pelo Círculo - e ”Omito de Sísifo”, além das peças ”Lê malentendu” e ”Calígula”. O jovem escritorexpunha com uma lucidez dolorosa a precariedade da condição humana, ainda queem ”O mito de Sísifo” propusesse: ”É preciso imaginar Sísifo feliz”. Depois da libertação, com apenas trinta anos, ele se tornou o jornalistamais lido da França. Nas páginas do jornal ”Combat”, lutava para que não fossemesquecidas as lições da guerra, a indiferença. As lições foram esquecidas, Camusabandonou o jornalismo. ”A peste” data dessa época, 1947, e reporta-se à experiência que ele desejava presente na consciênciados franceses. Uma epidemia assola uma cidade, como a ocupação nazistaassolara a França. A epidemia cessa - a ocupação termina -, e a apatia quecercava a vontade humana diante do elemento estranho volta a imperar. O livro foium grande sucesso de livraria e se tornou uma obra clássica. Porém, ”A peste” seria também um passo decisivo no rompimento com oexistencialista Jean-Paul Sartre, de quem Camus se aproximara. Como seria ”O
homem revoltado”. Ele preconizava a revolta individual e libertária, enquantoSartre colocava o existencialismo a serviço do marxismo, Camus estava só epreparava as últimas obras: ”Lê Minotaure ou La malte d’Oran” (1954), ”O exílio e oreino” e ”A queda” (1956), esta última também publicada pelo Círculo. A lição parao futuro permanece aquela que proferiu no Brasil, em 1949, numa frase: ”Não poderemos ficar alheios e distraídos. Nem o momento comportaatitudes de indiferença. Não durmamos, pois, que a paz será uma realidade, elaque, agora, não passa de uma promessa”.