Sonho às vezes com um amor longínquo e vaporoso como a esquizofrenia de umperfume... * Sentir o cérebro: fenômeno tão nefasto para o pensamento como para avirilidade. * Enterrar o rosto entre dois seios, entre dois continentes da Morte... * Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo. * Só as paixões simuladas, os delírios fingidos, têm alguma relação com o espírito,com o respeito a nós mesmos; os sentimentos sinceros supõem uma falta deconsideração para consigo. * Feliz no amor, Adão teria nos poupado a História. * Sempre pensei que Diógenes havia sofrido, em sua juventude, algum acidenteamoroso: ninguém escolhe a via do sarcasmo sem a ajuda de uma doença venérea ou deuma mulher intratável. * Há façanhas que só perdoamos a nós mesmos: se imaginássemos os outros noponto culminante de certo grunhido, nos seria impossível tornar a estender-lhes a mão. * A carne é incompatível com a caridade: o orgasmo transformaria um santo emlobo. * Após as metáforas, a farmácia. Assim desmoronam os grandes sentimentos. Começar poeta e acabar ginecologista! De todas as condições, a menos invejávelé a de amante. *
Declara-se guerra às glândulas e prosta-se ante os relentos de uma mulherzinha...O que pode o orgulho contra a liturgia dos odores, contra o incenso zoológico? * Conceber um amor mais casto do que uma primavera que — entristecido pelafornicação das flores — chorasse em suas raízes... * Posso compreender e justificar todas as anomalias, tanto em amor como emtudo; mas que haja impotentes entre os imbecis, isso é algo que me ultrapassa. * A sexualidade: desregramento dos corpos, cirurgia e cinzas, bestialidade de umex-santo, estrondo de um risível e inesquecível desmoronamento... * Na volúpia, como no pânico, voltamos a nossas origens; o chimpanzé,injustamente relegado, alcança finalmente a glória — o instante de um grito. * Uma gota de ironia na sexualidade falseia o seu exercício e transforma quem apratica em um “mistificador” da Espécie. * Duas vítimas atarefadas, maravilhadas com seu suplício, com seu suor sonoro. Aque cerimonial nos obrigam a gravidade dos sentidos e a seriedade do corpo! * Estourar de riso em pleno estertor, única maneira de desafiar as prescrições dosangue, as solenidades da biologia. * Quem não escutou as confidências de algum pobre-diabo comparado ao qualTristão pareceria cafetão? * A dignidade do amor consiste no afeto desiludido que sobrevive a um instante debaba. *
Se os impotentes soubessem como a natureza foi maternal com eles,abençoariam o sono de suas glândulas e o louvariam nas esquinas das ruas. * Desde que Schopenhauer teve a idéia disparatada de introduzir a sexualidade nametafísica, e Freud a de substituir o equívoco picante por uma pseudociência de nossostranstornos, é admissível que qualquer um nos fale da “significação” de suas proezas, desua timidez e de seus êxitos. Assim começam todas as confidências e acabam todas asconversas. Dentro em pouco nossas relações com os outros se reduzirão ao registro deseus orgasmos efetivos ou inventados... É o destino de nossa raça, devastada pelaintrospecção e pela anemia: reproduzir-se através da palavra, ostentar suas noites,exagerar seus desfalecimentos e seus triunfos. * Quanto mais desiludido está alguém, mais se arrisca, caso apaixonado, a reagircomo uma mocinha leviana. * Duas vias se oferecem ao homem e à mulher: a ferocidade ou a indiferença.Tudo indica que tomarão a segunda, que entre eles não haverá nem ajuste de contas nemruptura, mas que continuarão se afastando um do outro, que a pederastia e o onanismo,propostos nas escolas e nos templos, alcançarão as massas, que um monte de víciosabolidos serão de novo vigentes, e que procedimentos científicos substituirão orendimento do espasmo e a maldição do casal. * Mescla de anatomia e de êxtase, apoteose do insolúvel, alimento ideal para abulimina da decepção, o Amor nos conduz a ralés de glória... * Apesar de tudo, continuamos amando; e esse “apesar de tudo” cobre um infinito.
SOBRE A MÚSICA Nascido com uma alma habitual, pedi outra à música: foi o começo de desgraçasmaravilhosas... * Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: teria sidoo paraíso da evidência inexprimível, uma epidemia de êxtases. * Beethoven viciou a música: introduziu nela as mudanças de humor, deixou quenela penetrasse a cólera. * Sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto, a Criação fictícia, o nadaperemptório. Se há alguém que deve tudo a Bach esse alguém é Deus. * O que são todas as melodias comparadas àquela que sufoca em nós a duplaimpossibilidade de viver e de morrer...! * Para que reler Platão quando um saxofone pode nos fazer entrever igualmenteum outro mundo? * Sem meios de defesa contra a música, estou obrigado a sofrer seu despotismo e,segundo seu capricho, ser deus ou farrapo. * Houve um tempo em que, não conseguindo imaginar um eternidade que pudesseseparar-me de Mozart, não temia mais a morte. E foi assim com cada músico, com todaa música... * Chopin elevou o piano à condição da tuberculose. *
O universo sonoro: onomatopéia do inefável, enigma desenvolvido, infinitopercebido e inapreensível... Quando se experimenta sua sedução, só se concebe oprojeto de fazer-se enbalsamar em um suspiro. * A música é o refúgio das almas feridas pela felicidade. * Não há música verdadeira que não nos faça apalpar o tempo. * O infinito atual, paradoxo para a filosofia, é a realidade, a essência mesma damúsica. * Se houvesse sucumbido às adulações da música, a seus chamados, a todos osuniversos que suscitou e destruiu em mim, há muito tempo que, de orgulho, teriaperdido a razão. * A aspiração do Norte a outro céu engendrou a música alemã — geometria deoutonos, álcool de conceitos, embriaguez metafísica. À Itália do século passado — feira de sons — faltou a dimensão da noite, a artede espremer as sombras para extrair a sua essência. É preciso escolher entre Brahms e o Sol. * A música, sistema de adeuses, evoca uma física cujo ponto de partida não seriamos átomos, mas as lágrimas. * Talvez tenha esperado demais da música, talvez não tenha tomado as precauçõesnecessárias contra as acrobacias do sublime, contra o charlatanismo do inefável... * De alguns andantes de Mozart emana uma desolação etérea, como um sonho defunerais em uma outra vida. * Quando nem sequer a música é capaz de salvar-nos, um punhal brilha em nossosolhos; nada mais nos sustenta, a não ser a fascinação do crime.
* Como gostaria de morrer pela música, para punir-me por haver duvidadoalgumas vezes da soberania de seus sortilégios!
VERTIGEM DA HISTÓRIA Na época em que a humanidade, muito pouco desenvolvida ainda, já seexercitava na desgraça, ninguém a julgaria capaz de produzir um dia em série. * Se Noé tivesse possuído o dom de prever o futuro, teria certamente naufragado. * A trepidação da história é da alçada da psiquiatria, assim como de resto todos osmotivos da ação: mover-se é trair a razão, expor-se à camisa-de-força. * Os acontecimentos, tumores do Tempo... * Evolução: Prometeu, hoje em dia, seria deputado da oposição. * A hora do crime não soa para todos os povos ao mesmo tempo. Assim se explicaa permanência a história. * A ambição de cada um de nós é sondar o Pior, ser um profeta prefeito.Infelizmente há tantas catástrofes nas quais não pensamos... * Ao contrário dos outros séculos, que praticaram a tortura com negligência, este,mais exigente, introduz nela um desejo de purismo que hora a nossa crueldade. * Toda indignação — desde a simples reclamação até a revolta luciferina — indicauma interrupção na evolução mental. * A liberdade é o bem supremo só para aqueles a quem anima a vontade de serheréticos. *
Dizer: prefiro tal regime a tal outro, é flutuar no indefinido; seria mais exatoafirmar: prefiro tal polícia a tal outra. Pois a história na realidade, se reduz a umaclassificação de polícias; por que, de que trata o historiador, senão da concepção dogendarme que os homens criaram através dos tempos? * Que não nos falem mais de povos dominados, nem de seu gosto pela liberdade;os tiranos sempre são assassinados tarde demais: essa é sua grande desculpa. * Nas épocas tranqüilas, quando odiamos pelo prazer de odiar, devemos buscarinimigos que nos agradem; deliciosa preocupação que nos evitam as épocas agitadas. * O homem segrega desastre. * Admiro esses povos de astrônomos: caldeus, assírios, pré-colombianos, que, porcausa de seu gosto pelo céu, fracassaram na história. * Povo autenticamente eleito, os Ciganos não são responsáveis por nenhumacontecimento, por nenhuma instituição. Triunfaram do mundo por sua vontade de nãofundar nada nele. * Algumas gerações mais e o riso, reservado aos iniciados, será tão impraticávelcomo o êxtase. * Uma nação se extingue quando deixa de reagir ante as fanfarras: a Decadência éa morte da trombeta. * O ceticismo é o excitante das civilizações jovens e o pudor das velhas. * As terapêuticas mental abundam nos povos opulentos: a ausência de angústiasimediatas alimenta neles um clima mórbido. Para conservar o seu bem-estar nervoso,uma não necessita de uma desgraça substancial, de um objeto para suas inquietudes, de
um terror efetivo que justifique seus “complexos”. As sociedades se consolidam noperigo e se atrofiam na neutralidade. Onde reinam a paz, a higiene e o conforto, aspsicoses se multiplicam. ... Venho de um país que, por não haver conhecido jamais a felicidade, sóproduziu um psicanalista. * Os tiranos, uma vez saciada a sua ferocidade, tornam-se inofensivos; tudovoltaria ao normal se os escravos, ciumentos, não pretendessem também saciar a sua. Aaspiração do cordeiro a converter-se em lobo suscita a maioria dos acontecimentos.Quem não tem presas, sonha com elas; deseja devorar por sua vez e o consegue pelabrutalidade do número. A história, esse dinamismo das vítimas. * Por haver incluído a inteligência entre as virtudes e a asneira entre os vícios, aFrança ampliou o domínio da moral. Daí sua vantagem sobre as outras nações, suavaporosa supremacia. * Poder-se-ia medir o grau de refinamento de uma civilização pelo número dedoentes hepáticos, impotentes ou neuróticos que possui. Mas por que limitar-se a essesdeficientes, quando há tantos outros que atestam, pela carência de suas vísceras ou desuas glândulas, a prosperidade fatal do Espírito? * Não encontrando nenhuma satisfação na vida, os biologicamente fracos sededicam a modificá-la atacando seus princípios. * Por que não se isolou os grandes reformadores aos primeiros sintomas da fé? E oque se esperou para encerrá-los em um hospício ou em uma prisão? Aos 12 anos, oGalileu já deveria estar internado. A sociedade está mal organizada: não toma asmedidas necessárias contra os delirantes que não morrem jovens. * O ceticismo derrama demasiado tarde suas bênçãos sobre nós, sobre nossosrostos deteriorados pelas convicções, sobre nossos rostos de hienas com um ideal. * Um livro sobre a guerra — o de Clausewitz — foi o livro de cabeceira de Lênine de Hitler. E ainda se pergunta por que este século está condenado!
* Para passar das cavernas aos salões, precisamos de um tempo considerável;necessitaremos outro tanto para percorrer o caminho inverso ou queimaremos as etapas?Pergunta inútil para os que não pressentem a pré-história... * Todas as calamidades — revoluções, guerras, perseguições — provêm de umequívoco inscrito sobre uma bandeira. * Só os povos fracassados se aproxima de um ideal “humano”; os outros, os quetriunfam, portam consigo os estigmas de sua glória, de sua atrocidade dourada. * No pavor, somos vítimas de uma agressão do Futuro. * Temo um homem político que não dá algum sinal de caduquice. * Possuindo a iniciativa de suas misérias, as grandes nações podem variá-las àvontade; as pequenas estão obrigadas a suportar as que lhe são impostas. * A ansiedade — ou o fanatismo do pior. * Quando a ralé adota um mito, conte com um massacre ou, pior ainda, com umanova religião. * As ações brilhantes são próprias de povos que, alheios ao prazer de demorar-se àmesa, ignoram a poesia da sobremesa e as melancolias da digestão. * Sem a sede do ridículo, o gênero humano teria durado mais de uma geração? *
Há mais honestidade e rigor nas ciências ocultas do que nas filosofias queatribuem um “sentido” à história. * Este século me transporta ao começo dos tempos, aos últimos dias do Caos.Ouço a matéria gemer; os gritos do Inanimado atravessam o espaço; meus ossosafundam nas pré-histórias enquanto meu sangue flui nas veias dos primeiros répteis... * Uma espiada no itinerário da civilização me dá uma presunção de Cassandra. * A “libertação” do homem? Virá no dia em que, desembaraçado de sua maniafinalista, tenha compreendido o acidente de sua aparição e a gratuidade de seusinfortúnios, no dia em que todos nos agitemos como atormentados saltitantes e sábios, eem que, mesmo para o populacho, a “vida” se reduza a suas justas proporções, a umahipótese de trabalho. * Quem não viu um bordel às cinco da manhã não pode imaginar para quelassitudes se encaminha o nosso planeta. * A história é indefensável. É preciso reagir em relação a ela com a inflexívelabulia do cínico; ou então, pensar como todo mundo, caminhar com a turba dosrebeldes, dos assassinos e dos crentes. * A “experiência homem” fracassou? Já havia fracassado com Adão. Entretanto, élegítimo perguntar: teremos bastante imaginação para parecer ainda inovadores, paraagravar tal fracasso? Enquanto esperamos, perseveremos no erro de ser homens, comportemo-noscomo farsantes da Queda, sejamos terrivelmente frívolos! * Nada me consola de não haver conhecido o momento em que a terra rompeucom o sol, a não ser a perspectiva de conhecer o instante em que os homens romperãocom a terra. *
Antigamente se passava com gravidade de uma contradição a outra; agorasofremos tantas ao mesmo tempo que não sabemos mais por qual nos interessar, nemqual resolver. * Racionalistas impenitentes, incapazes de nos acostumar ao Destino ou decompreender o seu sentido, nos julgamos o centro de nossos atos e acreditamosdesmoronar voluntariamente. Se uma experiência capital se produz em nossa vida, odestino, de impreciso e abstrato que era, adquire para nós o prestígio de uma sensação.Assim cada um de nós penetra à sua maneira no Irracional. * Uma civilização, ao final de seu percurso, de anomalia feliz que era, degrada-seem regra, alinha-se com nações medíocres, chafurda no fracasso e faz de seu destino seuúnico problema. A Espanha é o modelo prefeito desta forma de obsessão. Após haverconhecido, na época dos conquistadores, uma super-humanidade bestial, dedicou-se aruminar seu passado, a repisar suas lacunas, deixou embolorar suas virtudes e seu gênio;em compensação, apaixonada por seu declínio, adotou-o como uma nova supremacia.Esse masoquismo histórico, como não perceber que deixa de ser uma singularidadeespanhola para converter-se no clima e na receita da decadência de todo um continente? * Hoje em dia, no tema da caduquice das civilizações, um analfabeto poderiarivalizar em estremecimentos com Gibbon, Nietzsche ou Spengler. * O final da história? O fim do homem? É sério pensar nisso? São acontecimentoslongínquos que a Ansiedade — ávida de desastres iminentes — deseja a todo custoprecipitar.
NAS RAÍZES DO VAZIO Acredito na salvação da humanidade, no futuro do cianureto... * O homem superará algum dia o golpe mortal que aplicou na vida? * Não poderia reconciliar-me com as coisas, mesmo que cada instante deixasse otempo para me dar um beijo. * Só os indivíduos rachados possuem aberturas para o além. * Quem, buscando-se em um espelho em plena obscuridade, não viu refletidosnele os crimes que o esperam? * Se não tivéssemos a faculdade de exagerar os nossos males, nos seria impossívelsuportá-los. Atribuindo-lhes proporções inusitadas, nos consideramos condenadosescolhidos, eleitos às avessas, lisonjeados e estimulados pela desgraça... Felizmente, em cada um de nós existe um fanfarrão do Incurável. * Devemos corrigir tudo, até os soluços... * Quando Ésquilo ou Tácito lhe pareçam demasiado mornos, abram uma Vida dosinsetos — revelação de raiva e de inutilidade, inferno que, para nossa sorte, não teránunca dramaturgo nem cronista. O que restaria de nossas tragédias se um bichinholetrado nos mostrasse as suas? * Sem agir, sentes a febre das façanhas; sem inimigos, travas um combateextenuante... É a tensão gratuita da neurose, que daria até a um comerciante arrepios degeneral derrotado. *
Não posso contemplar um sorriso sem ler nele: “Olhe-me pela última vez.” * Senhor, tende piedade de meu sangue, de minha anemia em chamas! * Quanta concentração, quanto esforço e tato são necessários para destruir nossarazão de ser! * Quando me lembro que os indivíduos são apenas gotas de saliva que a vidacospe, e que a vida mesma não vale muito mais em comparação com a matéria, dirijo-me ao primeiro bar que encontro com a intenção de nunca mais sair dele. E no entanto,nem sequer mil garrafas me dariam o gosto da Utopia, dessa crença em que algo ainda épossível. * Cada um se confina em seu medo — sua torre de marfim. * O segredo de minha adaptação à vida? Mudei de desespero como quem muda decamisa. * Em todo desfalecimento se experimenta como uma última sensação — em Deus. * Minha avidez de agonias me fez morrer tantas vezes que me parece indecenteabusar ainda de um cadáver do qual já não posso extrair nada. * Por que o “Ser” ou qualquer outra palavra com maiúscula? “Deus” soavamelhor. Devíamos tê-lo conservado. Pois não são unicamente as razões de eufonia quedeveriam comandar o jogo das verdades? * Nos estados de paroxismo sem causa, o cansaço é um delírio e o cansado odemiurgo de um subuniverso. *
Cada dia é um Rubicão no qual aspiro a afogar-me. * Não se encontrará em nenhum fundador de religião uma piedade comparável àde uma paciente de Pierre Janet. Entre outras crises, ela tinha uma a respeito “dessedepartamento infeliz de Seine-et-Oise que encerra e contém o departamento do Seinesem nunca poder desembaraçar-se dele”. Em piedade, como em tudo, o hospício tem a última palavra. * Nos sonhos manifesta-se o louco que há em cada um de nós; após havergovernado as nossas noites, adormece no mais profundo de nós mesmos, no seio daEspécie; de vez em quando, no entanto, o ouvimos roncar em nossos pensamentos... * Quem teme perder sua melancolia, quem tem medo de curar-se dela, com quealívio constata que seus temores são infundados, que ela é incurável... * “De onde vêm seus ares presunçosos?” “Consegui sobreviver a tantas noites nas quais me perguntava: Vou me matar naaurora?...” * O instante em que acreditamos haver finalmente compreendido tudo nos dá umaaparência de assassinos. * Só alcançamos o irrevogável a partir do momento em que já não podemosrenovar nossos remorsos. * Essas idéias que voam pelo espaço e que, de repente, se chocam contra asparedes de nosso crânio... * Uma natureza religiosa se define menos por suas convicções que pelanecessidade de prolongar seus sofrimentos além da morte. *
Assisto, aterrorizado, à diminuição de meu ódio pelos homens, aoenfraquecimento do último vínculo que me unia a eles. * A insônia é a única forma de heroísmo compatível com a cama. * Para um jovem ambicioso, não há maior desgraça do que conviver comconhecedores do gênero humano. Conheci três ou quatro: eles me acabaram aos vinteanos. * A Verdade? Encontra-se em Shakespeare; um filósofo não poderia apropriar-sedela sem explodir com seu sistema. * Quando esgotamos os pretextos que incitam à alegria ou à tristeza, conseguimosvivê-las, ambas, em estado puro: nos igualamos assim aos loucos... * Após haver denunciado tantas vezes a megalomania nos outros, como poderia,sem cair no ridículo, julgar-me ainda o homem ineficaz por excelência, o primeiro entreos inúteis? * “Um só pensamento endereçado a Deus vale mais que o universo inteiro.”(Catherine Emmerich) Ela tem razão, a pobre santa... * Só enlouquecem os tagarelas e os taciturnos: os que se esvaziam de todomistério e os que o acumulam demasiado. * No pavor — megalomania às avessas — nos transformamos no centro de umturbilhão universal, enquanto os astros fazem piruetas à nossa volta. * Quando, na Árvore do Conhecimento, uma idéia amadureceu, que volúpiainsinuar-se nela para agir como uma larva a fim de precipitar sua queda!
* Para não insultar as crenças ou o trabalho dos outros, para que não meacusassem nem de esterilidade nem de preguiça, dediquei-me à Perplexidade até fazerdela a minha forma de piedade. * A propensão ao suicídio é característica dos assassinos timoratos, respeitosos dasleis; tendo medo de matar, sonham aniquilar-se, seguros que estão de sua impunidade. * “Quando faço a barba”, me dizia um semilouco, “quem, senão Deus, me impedede cortar a garganta?” — a fé seria apenas, afinal de contas, um artifício do instinto deconservação. Biologia por toda parte... * Nos empenhamos em abolir a realidade por medo de sofrer. Coroados nossosesforços, é a própria abolição que se revela fonte de sofrimentos. * Quem não vê a morte de cor rosa sofre de um daltonismo do coração. * Por não haver sabido celebrar o aborto ou legalizar o canibalismo, as sociedadesmodernas deverão resolver seus problemas através de procedimentos muito maisexpeditivos. * O último recurso daqueles que o destino maltratou é a idéia de destino. * Como gostaria de ser uma planta, mesmo que tivesse de velar um excremento! * Essa multidão de antepassados que se lamentam em seu sangue... Por respeito asuas derrotas, rebaixo-me ao suspiro. * Tudo se volta contra nossas idéias, a começar por nosso cérebro. *
É impossível saber se o homem se servirá ainda durante muito tempo da palavraou se recuperará pouco a pouco o uso do uivo. * Paris, o ponto mais afastado do Paraíso, é entretanto o único lugar onde ainda setorna agradável desesperar-se. * Há almas que nem o próprio Deus poderia salvar, ainda que se pusesse dejoelhos e rezasse por elas. * Um doente me dizia: “Para que sofro minhas dores se não sou poeta paravangloriar-me ou servir-me delas?” * Quando, liquidados os motivos de revolta, já não sabemos contra o quê nosinsurgir, somos tomados de tal vertigem que daríamos a vida em troca de umpreconceito. * Na palidez, nosso sangue se retira para não se interpor mais entre nós e não sesabe o quê... * Cada um com sua loucura: a minha foi julgar-me normal, perigosamente normal.E como me parecia que os outros estavam loucos, acabei ficando com medo, medodeles e, o que é pior, medo de mim mesmo. * Após certos acessos de eternidade e de febre, nos perguntamos por que razãonão nos dignamos ser Deus. * Os meditativos e os carnais: Pascal e Tolstoi. Interessar-se pela morte ou detestá-la, descobri-la pelo espírito ou pela fisiologia. Com instintos minados, Pascal superou assuas inquietações, enquanto que Tolstoi, furioso de ter que perecer, lembra um elefanteespavorido, uma selva devastada. Não se pode meditar nos equadores do sangue. *
Aquele que, por descuidos sucessivos, esqueceu de matar-se, dá a si mesmo aimpressão de um veterano da dor, de um aposentado do suicídio. * Quanto maior é a minha intimidade com os crespúsculos, mais me convenço deque os únicos que compreenderam algo de nossa horda são os humoristas, os charlatõese os loucos. * Atenuar nossas angústias, convertê-las em dúvidas, estratagema que nos inspiraa covardia, esse ceticismo para uso de todos. * Acesso involuntário a nós mesmos, a doença nos obriga à “profundidade”, noscondena a ela. O doente? Um metafísico involuntário. * Após haver buscado em vão um país adotivo, voltar-se para a morte parainstalar-se nela como cidadão de um novo exílio. * Todo ser que se manifesta renova à sua maneira o pecado original. * Concentrado no drama das glândulas, atento às confidências das mucosas, oNojo nos transforma em fisiologistas. * Se o sangue não tivesse um gosto insípido, o asceta se definiria por sua repulsaao vampirismo. * O espermatozóide é o bandido em estado puro. * Colecionar fatalidades, debater-se entre o catecismo e a orgia, descansartranqüilamente no frenesi e, nômade aturdido, moldar-se por Deus, esse Apátrida... *
Quem não conheceu a humilhação ignora o que é chegar ao último grau de simesmo. * Adquiri minhas dúvidas penosamente; minhas decepções, como se meesperassem desde sempre, vieram por elas mesmas, iluminações primordiais. * Sobre um planeta que compõe seu epitáfio, tenhamos a dignidade suficiente paranos comportar como cadáveres amáveis. * Queiramos ou não, somos todos psicanalistas, amantes dos mistérios do coraçãoe das cuecas, escafandristas do horror. Ai do espírito de abismos claros! * Nas lassitudes, deslizamos para o ponto mais baixo da alma e do espaço, para osantípodas do êxtase, para as raízes do Vazio. * Quando mais convivemos com os homens, mais nossos pensamentos seobscurecem; e quando, para aclará-los, voltamos à nossa solidão, encontramos nela asombra que eles projetaram. * A sabedoria desiludida deve remontar a alguma era geológica: talvez osdinossauros tenham sucumbido a ela... * Apenas adolescente, a perspectiva da morte me horrorizava; para fugir delacorria ao bordel ou invocava os anjos. Mas, com a idade, nos habituamos a nossospróprios terrores, não fazemos mais nada para nos livrar deles, nos aburguesamos noAbismo. E se houve um tempo em que invejava esses monges do Egito que cavavamsuas tumbas para chorar sobre elas, se cavasse agora a minha seria apenas para jogarpontas de cigarro. ***