virgindade. A seguir, ele a expulsa e repudia”. Dizem mesmo que certos primitivos só aceitam casar com uma mulher que já tenha sido mãe e dadoassim prova de fecundidade. Mas os verdadeiros motivos dos costumes tão difundidos de defloramento são místicos. Certos povos imaginam que há, navagina, uma serpente que morderia o esposo no momento da ruptura do hímen; atribuem-se virtudes terrificantes ao sangue virginal, aparentado aosangue menstrual e suscetível, ele também, de quebrar o vigor do homem. Através dessas imagens, exprime-se a ideia de que o princípio feminino temmais força e comporta mais ameaças estando intato.84 Há casos em que a questão do defloramento não existe; entre os indígenas descritos porMalinowski, por exemplo, do fato de serem as práticas sexuais autorizadas desde a infância, resulta que as jovens nunca são virgens. Por vezes, a mãe,a irmã mais velha ou alguma matrona deflora sistematicamente a menina e alarga-lhe o orifício vaginal no decurso da infância. Ocorre também ser odefloramento executado na época da puberdade por mulheres, com ajuda de um pedaço de pau, de um osso ou uma pedra, sendo encarado como umaoperação cirúrgica. Em outras tribos, a jovem, ao se tornar púbere, é submetida a uma iniciação selvagem: alguns homens arrastam-na para fora daaldeia e defloram-na, ou com instrumentos ou violentando-a. Um dos ritos mais frequentes consiste em entregar as virgens aos estrangeiros depassagem, ou por pensarem que eles não são alérgicos a esse mana, perigoso tão somente para os homens da tribo, ou por não se preocuparem com osmales que se desencadeiam sobre eles. O mais das vezes é o sacerdote, ou o homem-médico, ou o cacique, o chefe da tribo, que desvirgina a noiva nanoite anterior à das núpcias. Na costa de Malabar, os brâmanes encarregam-se dessa operação que executam, ao que se diz, sem alegria e pela qualexigem salários elevadíssimos. Sabe-se que todo objeto sagrado é perigoso para o profano, mas os indivíduos consagrados podem manejá-lo sem correrrisco; compreende-se, portanto, que os sacerdotes e os chefes sejam capazes de domar as forças maléficas contra as quais o esposo precisa se proteger.Em Roma, só restava desses costumes uma cerimônia simbólica. Sentavam a noiva no falo de um Priapo de pedra, o que tinha o duplo fim de aumentar-lhe a fecundidade e de absorver os fluidos demasiado fortes, e por isso mesmo nefastos, de que ela se achava carregada. O marido defende-se ainda deoutra maneira: deflora ele próprio a virgem, mas com cerimônias que o tornam invulnerável nesse momento crítico. Ele o faz, por exemplo, na presençade toda a aldeia, com ajuda de um pedaço de pau ou de um osso. Em Samoa, ele emprega o dedo enrolado previamente num pano branco do qualdistribui tiras manchadas de sangue aos assistentes. Acontece também de ser ele autorizado a deflorar normalmente a mulher, mas não deve ejacularnela antes de passados três dias, de maneira que o germe gerador não se macule com o sangue do hímen.Por uma inversão clássica no domínio das coisas sagradas, o sangue virginal torna-se, nas sociedades menos primitivas, um símbolo propício. Há ainda,na França, aldeias em que na manhã seguinte ao casamento se exibe o lençol ensanguentado aos pais e amigos. É que no regime patriarcal o homemtornou-se o senhor da mulher e as mesmas qualidades que atemorizam nos animais ou nos elementos indomados tornam-se qualidades preciosas para oproprietário que as soube domesticar. Da fogosidade do cavalo selvagem, da violência do raio e da catarata o homem fez os instrumentos de suaprosperidade. Do mesmo modo, procura anexar a mulher com toda sua riqueza intata. Motivos racionais desempenham certamente um papel no deverde virtude imposto à jovem; tal como a castidade da esposa, a inocência da noiva é necessária para que o pai não corra o risco de legar seus bens a umfilho estranho. É, porém, de uma maneira mais imediata que a virgindade da mulher é exigida quando o homem encara a esposa como sua propriedadepessoal. Primeiramente, a ideia de posse é sempre impossível de se realizar positivamente; em verdade, nunca se tem nada nem ninguém; tenta-se porisso realizá-la de modo negativo; a maneira mais segura de afirmar a posse de um bem é impedir que os outros o usem. E, depois, nada se afigura maisdesejável ao homem do que o que nunca pertenceu a nenhum ser humano; a conquista se apresenta, então, como um acontecimento único e absoluto.As terras virgens sempre fascinaram os exploradores; alpinistas morrem todos os anos por terem tentado violar um pico ainda virgem ou simplesmentepor terem querido abrir novo caminho em seus flancos; e curiosos arriscam a vida para descer ao fundo de grutas nunca antes exploradas. Um objetodomesticado pelo homem torna-se um instrumento; isolado de suas raízes naturais, perde suas mais profundas virtudes: há mais promessas na águalivre das torrentes do que na das fontes públicas. Um corpo virgem tem o frescor das nascentes secretas, o aveludado matinal de uma corola fechada, otom da pérola que o sol não acariciou ainda. Gruta , templo, santuário, jardim secreto, como a criança, o homem é fascinado pelos recantos umbrosos efechados que nenhuma consciência nunca animou, que esperam que uma alma lhes seja emprestada: o que só ele tocou e penetrou parece-lhe, emverdade, ser criação sua. Ademais, um dos fins a que visa todo desejo é a consumação do objeto desejado, o que implica sua destruição. Destruindo ohímen, o homem possui o corpo feminino mais intimamente do que mediante uma penetração que o deixa intato; com essa operação irreversível ohomem faz dele um objeto inequivocamente passivo, afirma seu domínio sobre ele. Esse sentido exprime-se muito exatamente na lenda do cavaleiro queabre um caminho difícil entre arbustos espinhosos para colher uma rosa nunca ainda respirada. Não somente ele a descobre, como ainda lhe quebra ocaule; é então que a conquista. A imagem é tão clara que, na linguagem popular, “colher a flor” de uma mulher significa destruir-lhe a virgindade, eessa expressão originou a palavra “defloramento”.Mas a virgindade só tem essa atração erótica quando ligada à mocidade, sem o que seu mistério torna-se inquietante. Atualmente muitos homenssentem repulsa sexu al diante de virgens algo amadurecidas e não é somente por motivos psicológicos que as solteironas são comparadas às matronasazedas e maldosas. A maldição está em sua própria carne, nessa carne que não é objeto para nenhum sujeito, que nenhum desejo tornou desejável, quedesabrochou e murchou sem encontrar um lugar no mundo dos homens; afastada de seu destino, ela torna-se um objeto barroco e que inquieta comoinquieta o pensamento incomunicável de um louco. De uma mulher de quarenta anos, ainda bela, mas presumivelmente virgem, ouvi um homem dizergrosseiramente: “Está cheio de teia de aranha lá dentro...” Realmente, os porões e os sótãos em que ninguém mais entra, que não servem para nada,impregnam-se de um mistério sujo; aí vivem de bom grado os fantasmas. Abandonadas pelos homens, as casas tornam-se residências de espíritos. Amenos que a virgindade feminina tenha sido consagrada a um deus, admite-se sem relutância que implica casamento com o demônio. As virgens que ohomem não dominou, as mulheres velhas que escaparam a seu poder são mais facilmente do que as outras encaradas como feiticeiras; porque, sendo asorte da mulher destinar-se a um outro, não sofrendo o jugo do homem está preparada para aceitar o do diabo.Exorcizada pelos ritos do defloramento ou purificada, ao contrário, pela sua virgindade, pode a esposa apresentar-se, então, como presa desejável.Unindo-se a ela, possui o amante todas as riquezas da vida que deseja possuir. Ela é toda a fauna e toda a flora terrestre: gazela, corça, lírios e rosas,pêssego sedoso, framboesa perfumada, pedras preciosas, madrepérolas, ágata, pérola, seda, azul do céu, frescor das nascentes, ar, chama, terra eágua. Todos os poetas do Oriente e do Ocidente metamorfosearam o corpo da mulher em flores, em frutos, em pássaros. Aqui também, através daAntiguidade, da Idade Média e da época moderna, seria preciso citar toda uma espessa antologia. Conhece-se o Cântico dos cânticos em que o bem-amado diz à bem-amada: Teus olhos são pombas...Teus cabelos são como um rebanho de cabras...Teus dentes são como um rebanho de ovelhas tosquiadas...Tua face é a metade de uma romã...Teus dois seios são dois enhos...Há sob tua língua mel e leite... Em Arcane 17, retoma André Breton esse cântico eterno: “Mélusine no momento do segundo grito: ela jorrou de suas ancas sem globo, seu ventre étoda uma seara de agosto, seu torso projeta-se em fogo de artifício da cintura arqueada, moldada sobre duas asas de andorinha; seus seios sãoarminhos presos em seu próprio grito, ofuscantes à força de se clarearem com o carvão abrasado de sua boca ardente. E seus braços são a alma dosregatos que cantam e perfumam...”O homem reencontra na mulher as estrelas brilhantes e a lua sonhadora, a luz do sol, a sombra das grutas; por outro lado, as flores selvagens dasmoitas, a rosa orgulhosa dos jardins são mulheres. Ninfas, dríades, sereias, ondinas, fadas habitam os campos, os bosques, os lagos, os mares, ascharnecas. Não há nada mais arraigado no coração dos homens do que esse animismo. Para o marinheiro, o mar é uma mulher perigosa, pérfida, difícilde conquistar mas que ele ama através de seu esforço para domá-la. Orgulhosa, rebelde, virginal e má, a montanha é uma mulher para o alpinista que aquer violar ainda que correndo perigo de morrer. Afirma-se, muitas vezes, que essas comparações são manifestações de uma sublimação sexual; elasexprimem antes uma afinidade tão original entre a mulher e os elementos quanto a própria sexua-lidade. O homem espera da posse da mulher mais doque a simples satisfação de um instinto; ela é o objeto privilegiado através do qual ele domina a Natureza. Pode acontecer que outros objetosdesempenhem esse papel. É, por vezes, no corpo dos rapazes que o homem procura a areia das praias, o aveludado das noites, o odor das madressilvas.Mas a penetração sexual não é o único modo pelo qual se pode realizar uma apropriação carnal da terra. Em seu romance To an unknow God,Steinbeck mostra um homem que escolheu como mediadora entre a natureza e ele uma rocha musgosa; em La Chatte, Colette descreve um jovemmarido que fixou seu amor na sua gata predileta, porque através desse animal selvagem e doce tem uma participação no universo sensual que suacompanheira demasiado humana não lhe consegue dar. No mar, na montanha, o Outro pode encarnar-se quase tão perfeitamente quanto na mulher: éque opõem ao homem a mesma resistência passiva e imprevista que lhe permite realizar-se; são uma recusa a ser vencida, uma presa a ser possuída. Seo mar e a montanha são mulheres, é porque a mulher é também para o amante o mar e a montanha.85Mas não é dado indiferentemente a qualquer mulher servir assim de mediadora entre o homem e o mundo; o homem não se contenta com encontrar emsua parceira órgãos sexuais complementares aos seus. É preciso que ela encarne o maravilhoso desabrochar da vida, e ao mesmo tempo que dissimuleos perturbadores mistérios dessa vida. Pedirão, portanto, a ela antes de tudo mocidade e saúde, pois apertando nos braços uma coisa viva só podeencantar-se com ela esquecendo que toda vida é habitada pela morte. Ele deseja mais ainda: que a bem-amada seja bela. O ideal da beleza feminina évariável; mas certas exigências permanecem constantes. Entre outras, exige-se que seu corpo ofereça as qualidades inertes e passivas de um objeto,
porquanto a mulher se destina a ser possuída. A beleza viril é a adaptação do corpo a funções ativas, é a força, a agilidade, a flexibilidade, amanifestação de uma transcendência a animar uma carne que não deve nunca recair sobre si própria. O ideal feminino só é simétrico em sociedadescomo as de Esparta, da Itália fascista, da Alemanha nazista que destinavam a mulher ao Estado e não ao indivíduo, que a consideravam exclusivamentecomo mãe e não atentavam em absoluto para o erotismo. Mas, quando a mulher é entregue ao homem como um bem, o que ele reclama é que nela acarne esteja presente em sua pura facticidade. Seu corpo não é tomado como a irradiação de uma subjetividade, mas sim como uma coi sa empasteladaem sua imanência; esse corpo não deve lembrar o resto do mundo, não deve ser promessa de outra coisa senão de si mesmo: precisa deter o desejo. Aforma mais ingênua dessa exigência é o ideal hotentote da Vênus esteatopigia, pois as nádegas são a parte do corpo menos inervada, a parte em que acarne se apresenta como um dado sem função. O gosto dos orientais pelas mulheres gordas é da mesma espécie; eles apreciam o luxo absurdo dessaproliferação adiposa que nenhum projeto anima, que não tem outro sentido senão o de estar presente.86 Mesmo nas civilizações de uma sensualidademais sutil, em que intervêm noções de forma e harmonia, os seios e as nádegas constituem objetos privilegiados por causa da gratuidade, dacontingência de seu desenvolvimento. Os costumes, as modas são muitas vezes utilizados para separar o corpo feminino da transcendência: a chinesade pés enfaixados mal pode andar; as garras vermelhas da estrela de Hollywood privam-na de suas mãos; os saltos altos, os coletes, as anquinhas, ascrinolinas destinavam-se menos a acentuar a linha arqueada do corpo feminino do que a aumentar-lhe a impotência. Amolecido pela gordura, ou aocontrário tão diáfano que qualquer esforço lhe é proibido, paralisado por vestidos incômodos e pelos ritos da boa educação, é então que esse corpo seapresenta ao homem como sua coisa. A maquilagem e as joias também servem para a petrificação do corpo e do rosto. A função do adorno é muitocomplexa: possui entre certos primitivos um caráter sagrado; mas seu papel mais habitual é completar a metamorfose da mulher em ídolo. Ídoloequívoco: o homem a quer carnal, sua beleza participará da das flores e dos frutos, mas ela deve também ser lisa, dura, eterna como uma pedra. Opapel do adorno é fazê-la participar mais intimamente da natureza e ao mesmo tempo arrancá-la dessa natureza; é dar à vida palpitante a necessidadeimota do artifício. A mulher faz-se planta, pantera, diamante, madrep érola, misturando a seu corpo flores, peles, búzios, penas; perfuma-se a fim deexalar um aroma como a rosa e o lírio: mas penas, seda, pérolas e perfumes servem também para esconder a crueza animal de sua carne, de seu odor.Ela pinta a boca e o rosto para dar-lhes a solidez imóvel de uma máscara; o olhar, ela o prende dentro da espessura do khol e outros ingredientes, éapenas um ornamento luminoso de seus olhos; trançados, encaracolados, esculpidos, seus cabelos perdem seu inquietante mistério vegetal. Na mulherenfeitada, a Natureza está presente mas cativa, moldada por uma vontade humana segundo o desejo do homem. Uma mulher é tanto mais desejávelquanto mais se acha nela desabrochada e escravizada a natureza; a mulher “sofisticada” sempre foi o objeto erótico ideal. E a predileção por umabeleza mais natural não passa, muitas vezes, de uma forma especiosa de sofisticação. Remy de Gourmont quer que a mulher use cabelos soltos, livrescomo os regatos e as ervas do prado; mas é na cabeleira de uma Verônica Lake que se podem acariciar as ondulações da água e das espigas e não numacabeleira hirsuta abandonada à natureza. Quanto mais uma mulher é jovem e sadia, quanto mais seu corpo novo e límpido parece votado a um frescoreterno, menos útil lhe é o artifício; mas é preciso dissimular sempre ao homem a fraqueza carnal dessa presa que ele abraça e a degradação que aameaça. É também porque ele lhe teme o destino contingente, porque a sonha imutável, necessária, que o homem procura no rosto da mulher, em seubusto e suas pernas a exatidão de uma ideia. Entre os povos primitivos a ideia é tão somente a da perfeição do tipo popular; uma raça de lábios grossose nariz achatado forja uma Vênus de lábios grossos e nariz achatado; posteriormente, aplicam-se às mulheres os cânones de uma estética maiscomplexa. Em todo caso, quanto mais os traços e as proporções de uma mulher parecem harmonizados, mais ela alegra o coração dos homens, porqueparece escapar aos avatares das coisas naturais. Chega-se, pois, a esse estranho paradoxo: desejando apreender a natureza na mulher, mastransfigurada, o homem obriga a mulher ao artifício. Ela não é physis somente mas também antiphysis; e isso não apenas nas civilizações dospermanentes elétricos, da depilação com cera, das cintas de látex como ainda no país das negras de botoque, na China, em toda parte. Swift denunciouessa mistificação em sua famosa ode a Célia. Descreve com asco os apetrechos da coquete e com asco lembra-lhe as servidões animais do corpo; erraduplamente ao indignar-se, porque o homem deseja que a mulher seja, ao mesmo tempo, animal e planta, e que se esconda por trás de uma armadurafabricada. Ama-a saindo das águas e de uma costureira, nua e vestida, nua sob a roupa, tal qual precisamente ele a encontra no universo humano. Ocitadino procura a animalidade na mulher, mas, para o jovem camponês que faz seu serviço militar, o bordel encarna toda a magia da cidade. A mulheré campo e pastagem, mas é também Babilônia.Entretanto, aí está a primeira mentira, a primeira traição da mulher: a da própria vida que, embora assumindo as formas mais atraentes, é semprehabitada pelos fermentos da velhice e da morte. O próprio uso que o homem faz dela destrói suas virtudes mais preciosas: gasta pelas maternidades,ela perde sua atração erótica; mesmo estéril, bastam os anos para alterar-lhe os encantos. Enferma, feia, velha, a mulher causa horror. Dela, como deuma planta, diz-se que seca, murcha. Sem dúvida, a decrepitude também atemoriza no homem; mas o homem normal não sente os outros homens comocarne, só tem com esses corpos autônomos e alheios uma solidariedade abstrata. É no corpo da mulher, esse corpo que lhe é destinado, que o homemexperimenta sensivelmente a decadência da carne. É com os olhos hostis do macho que a belle heaulmière de Villon contempla a degradação de seucorpo. A mulher velha, a mulher feia não são somente objetos sem encantos: suscitam um ódio impregnado de medo. Nelas está presente a figurainquietante da mãe quando os encantos da esposa se esvaem.Mas a própria esposa é uma presa perigosa. Deméter sobrevive em Vênus saindo das águas, como uma fresca espuma, uma loura seara; apropriando-seda mulher pelo gozo que dela tira, o homem também desperta nela as forças perturbadoras da fecundidade; é pelo mesmo órgão que o macho penetraque o filho é parido. Eis por que, em todas as sociedades, o homem é protegido por tantos tabus contra as ameaças do sexo feminino. A recíproca não éverdadeira, porque a mulher nada tem a temer do homem; o sexo deste é considerado laico, profano. O falo pode ser elevado à dignidade de um deus,mas no culto que lhe rendem não entra nenhum elemento de terror, e no decurso de sua vida quotidiana a mulher não precisa ser misticamentedefendida contra ele; ele só lhe é propício. É notável, aliás, que em muitas sociedades de direito materno exista uma sexualidade muito livre, mas issoocorre somente durante a infância da mulher, na sua primeira juventude, quando o coito não se acha ligado à ideia de geração. Malinowski conta, comalgum espanto, que os jovens que dormem juntos livremente “na casa dos celibatários” exibem de bom grado seus amores; porque a jovem não casadaé considerada incapaz de conceber, e o ato sexual não passa de um tranquilo prazer profano. Quando casada, ao contrário, seu esposo não lhe devemanifestar publicamente qualquer afeição, não deve tocá-la, e qualquer alusão às relações íntimas é sacrílega, pois ela participa, então, da essênciatemível da mãe e o coito tornou-se ato sagrado. Desde então cerca-se de proibições e precauções. O coito é proibido quando se cultiva a terra, quandose semeia, quando se planta e o é porque não se quer que se desperdicem em relações interindividuais as forças fecundantes necessárias àprosperidade das colheitas e, portanto, ao bem da comunidade; é por respeito aos poderes ligados à fecundidade que se recomenda economizá-los.Mas, na maioria das oportunidades, a continência protege a virilidade do esposo; ela é exigida quando o homem parte para a pesca, para a caça, eprincipalmente quando se prepara para a guerra; na união com a mulher, o princípio masculino enfraquece-se e, em consequência, é necessário que eleevite essa união sempre que precisa da integridade de suas forças. Perguntou-se se o horror que o homem experimenta ante a mulher provém do quelhe inspira a sexualidade em geral ou se é o inverso. Verifica-se que, no Levítico em particular, a polução noturna é encarada como uma mácula, emboraa mulher não esteja presente. E, em nossas sociedades modernas, a masturbação é considerada um perigo e um pecado; muitas das crianças e muitosdos jovens que a ela se entregam só o fazem enfrentando terríveis angústias. É a intervenção da sociedade, e principalmente dos pais, que faz do prazersolitário um vício. Mais de um menino, porém, sentiu-se apavorado com suas primeiras ejaculações: sangue ou esperma, qualquer perda de sua própriasubstância lhe parece inquietante; é sua vida, é seu mana que lhe escapa. Entretanto, mesmo que subjetivamente um homem possa viver experiênciaseróticas a que a mulher não está presente, objetivamente ela se acha implicada em sua sexualidade. Como dizia Platão no mito dos andróginos, oorganismo do homem pressupõe o da mulher. É a mulher que ele descobre ao descobrir o próprio sexo, ainda que ela não lhe seja dada nem em carne eosso, nem em imagem. E, inversamente, é enquanto encarna a sexualidade que a mulher é temível. Nunca se pode separar o aspecto imanente doaspecto transcendente da experiência viva: o que receio ou desejo é sempre um avatar de minha própria existência, mas nada me acontece senãoatravés do que não é eu. O não eu está implicado nas poluções noturnas, na ereção, senão na imagem exata da mulher, pelo menos enquanto Naturezae Vida. O indivíduo sente-se possuído por uma magia estranha. De modo que a ambivalência dos sentimentos que tem para com a mulher se reencontraem sua atitude para com o próprio sexo: dele se orgulha, dele ri, dele se envergonha. O menino compara, numa espécie de desafio, o próprio pênis como dos amigos; sua primeira ereção enche-o de orgulho e de pavor ao mesmo tempo. O adulto olha o sexo como um símbolo de transcendência e força;dele se envaidece como músculo estriado, mas também como graça mágica. É uma liberdade rica de toda a contingência do dado, um dado livrementequerido; é sob esse aspecto contraditório que se encanta com ele; mas suspeita-lhe a ilusão. Esse órgão com o qual pretende afirmar-se não lheobedece; intumescido por desejos insatisfeitos, retesando-se inopinadamente, aliviando-se por vezes em sonhos, manifesta uma vitalidade estranha ecaprichosa. O homem pretende fazer o Espírito triunfar sobre a Vida, a atividade sobre a passividade. Sua consciência mantém a Natureza a distância,sua vontade molda-a, mas sob a imagem do sexo ele torna a encontrar em si a vida, a natureza, a passividade. “As partes sexuais são o verdadeirocentro ativo da vontade, sendo o cérebro o polo contrário”, escreve Schopenhauer. O que ele denomina vontade é o apego à vida, que é sofrimento emorte, ao passo que o cérebro é o pensamento que se destaca da vida, representando-a: o pudor sexual é, na sua opinião, o pudor que experimentamosante a nossa estúpida obstinação carnal. Ainda que não se aceite o pessimismo inerente a suas teorias, ele tem razão de ver na oposição sexo-cérebro aexpressão da dualidade do homem. Enquanto sujeito, ele põe o mundo, e, permanecendo fora do universo que põe, torna-se o soberano desse mundo;ele se apreende como carne, como sexo, não é mais consciência autônoma, liberdade transparente; está empenhado no mundo, um objeto limitado eperecível. E, talvez, o ato gerador ultrapasse as fronteiras do corpo; mas, no mesmo instante, ele as constitui. O pênis, pai das gerações, é simétrico àmatriz materna. Saído de um germe desenvolvido no ventre da mulher, o homem é, ele próprio por seu turno, portador de germes e, com essa sementeque gera a vida, é também sua própria vida que se renega. “O nascimento dos filhos é a morte dos pais”, diz Hegel. A ejaculação é promessa de morte,a afirmação da espécie contra o indivíduo; a existência do sexo e sua atividade negam a singularidade orgulhosa do sujeito. É essa contestação doespírito pela vida que faz do sexo um objeto de escândalo. O homem exalta o falo na medida em que o apreende como transcendência e atividade, comomodo de apropriação do outro; mas dele se envergonha quando não vê nele senão uma carne passiva através da qual é o joguete das forças obscuras daVida. Esse pudor se fantasia de bom grado de ironia. O sexo de outrem suscita facilmente o riso. Pelo fato de imitar um movimento intencional e ser,entretanto, involuntária, a ereção parece muitas vezes ridícula; e a simples presença dos órgãos genitais, tão somente evocada, suscita alegria.Malinowski narra que, entre os selvagens com os quais vivia, bastava pronunciar o nome dessas “partes vergonhosas” para provocar risosintermináveis. Muitas piadas grosseiras, ditas gaulesas, não vão muito além desses rudimentares jogos de palavras. Entre certos primitivos, asmulheres têm o direito, durante os dias consagrados à capina do jardim, de violentar brutalmente qualquer estrangeiro que se aventure na aldeia.Atacando-o em grupo, largam-no muitas vezes semimorto: os homens da tribo riem da façanha. Com essa violação, a vítima consti tui-se em carnepassiva e dependente: ele foi possuído pelas mulheres e através delas pelos maridos; ao passo que, no coito normal, o homem quer afirmar-se como
possuidor.Mas é então que vai sentir, com maior evidência, a ambiguidade de sua condição carnal. Ele só assume orgulhosamente sua sexualidade enquanto modode apropriação do Outro, e esse sonho de posse redunda tão somente em fracasso. Numa posse autêntica, o outro é abolido como outro, é consumido edestruído. Só o sultão das Mil e uma noites tem o poder de cortar a cabeça das amantes quando a madrugada as rouba de seu leito; a mulher sobreviveà posse do homem e assim lhe escapa: desde que ele abra os braços, a presa se lhe torna alheia, e ei-la nova, intata, pronta para ser possuída por novoamante, e de maneira igualmente efêmera. Um dos sonhos do homem é “marcar” a mulher de maneira a que permaneça sua para sempre: porém omais arrogante bem sabe que nunca deixará mais do que recordações e que as mais ardentes imagens são frias ante uma sensação. Toda uma literaturadenunciou esse fracasso. Objetivam-no na mulher que chamam inconstante e traidora porque seu corpo a destina ao homem em geral e não a umhomem particular. Sua traição é mais pérfida ainda: ela é que faz do amante uma presa. Só um corpo pode comover outro corpo. O homem não dominaa carne desejada senão tornando-se, ele próprio, carne. Eva foi dada a Adão para que ele realizasse nela sua transcendência e ela o arrasta para a noiteda imanência. A mulher reconstitui em torno de seu amante, nas vertigens do prazer, o barro opaco da ganga tenebrosa que a mãe modelou para o filhoe de que ele busca evadir-se. Ele queria possuir: ei-lo, ele próprio, possuído. Odor, morno suor, fadiga, tédio, toda uma literatura descreveu essa paixãosombria de uma consciência que se faz carne. O desejo, que muitas vezes elimina a repugnância, volta à repugnância quando satisfeito. Post coitumhomo animal triste. “A carne é triste”, e, no entanto, o homem não encontrou nos braços da amante um apaziguamento definitivo. Muito breve o desejorenasce nele; e não apenas o desejo da mulher em geral, porém, o da mesm a mulher. Esta adquire então um poder inquietante, porque em seu própriocorpo o homem só encontra a necessidade sexual como uma exigência de ordem geral análoga à da fome ou da sede e cujo objeto não é particular. Olaço que o amarra a esse corpo feminino singular foi obra do Outro. É um laço misterioso como o ventre impuro e fértil em que deita raízes, umaespécie de força passiva: é mágico. O vocabulário puído dos romances-folhetins em que a mulher é descrita como uma feiticeira, uma sedutora quefascina o homem, que o submete a seus encantos, reflete o mais antigo, o mais universal dos mitos. A mulher é votada à magia. A magia, diz Alain, é oespírito solto nas coisas; uma ação é mágica quando, em lugar de ser produzida por um agente, emana de uma passividade; precisamente os homenssempre encararam a mulher como a imanência do dado; se ela produz searas e filhos, não o faz por um ato de vontade; ela não é sujeito,transcendência, força criadora, e sim um objeto carregado de fluidos. Nas sociedades em que o homem adora esses mistérios, a mulher é, por causadessas virtudes, associada ao culto e venerada como sacerdotisa; mas quando ele luta para fazer a sociedade triunfar sobre a natureza, a razão sobre avida, a vontade sobre o dado inerte, então a mulher é encarada como feiticeira. Conhece-se a diferença entre o sacerdote e o mágico: o primeirodomina e dirige as forças de que se assenhoreou de acordo com os deuses e as leis, para o bem da comunidade e em nome de todos os seus membros; omágico opera à margem da sociedade contra os deuses e as leis e segundo suas próprias paixões. Ora, a mulher não se acha inteiramente integrada nomundo dos homens; enquanto outro, ela se opõe a eles; é natural que se valha das forças que detém, não para estender a marca da transcendênciaatravés da comunidade dos homens e no futuro, mas sim, por estar separada, por ser oposta, a fim de arrastar os homens para a solidão da separação,para as trevas da imanência. Ela é a sereia cujos cantos precipitavam os marinheiros de encontro aos recifes; ela é Circe que transformava os amantesem animais, a Ondina que atrai o pescador para o fundo da lagoa. O homem preso a seus encantos não tem mais vontade, projeto e futuro; não é maiscidadão, porém apenas uma carne escrava de seus desejos. É banido da comunidade, encerrado no instante, balouçado passivamente da tortura aoprazer; a mágica perversa ergue a paixão contra o dever, o momento presente contra a unidade do tempo, retém o viajante longe de seu lar, dá oesquecimento. Buscando apropriar-se do Outro, é preciso que o homem permaneça ele próprio; mas, no malogro da posse impossível, ele tenta tornar-se esse outro a quem não consegue unir-se; aliena-se então, perde-se, bebe o filtro que o faz estranho a si mesmo, mergulha no fundo das águasfugidias e mortais. A Mãe destina o filho à morte ao dar-lhe vida; a amante induz o amante a renunciar à vida e a abandonar-se ao sono supremo. Esselaço que une o Amor à Morte foi pateticamente salientado na lenda de Tristão, mas há uma verdade mais original. Nascido da carne, o homem realiza-se como carne no amor e a carne é condenada ao túmulo. Com isso, confirma-se a aliança da mulher com a Morte; a grande ceifadeira é a figurainvertida da fecundidade que faz crescerem as espigas. Mas ela se apresenta também como a horrível desposada cujo esqueleto se revela sob tenracarne mentirosa.87Assim, o que o homem ama e detesta antes de tudo na mulher, amante ou mãe, é a imagem imóvel de seu destino animal, é a vida necessária à suaexistência, mas que a condena à finitude e à morte. Desde o dia em que nasce, o homem começa a morrer: é a verdade que a mãe encarna. Procriando,ele afirma a espécie contra si próprio: é o que aprende nos braços da esposa. Na emoção perturbadora e no prazer, antes mesmo de ter engendrado, eleesquece seu eu singular. Embora tente distingui-las, encontra numa e noutra, amante e mãe, uma só evidência: a de sua condição carnal. Ao mesmotempo deseja realizá-la; venera a mãe, deseja a amante; ao mesmo tempo rebela-se contra elas na aversão e no terror.É num texto significativo de Jean Richard Bloch (La Nuit kurde) que vamos encontrar uma síntese de quase todos esses mitos. Trata-se do texto em quedescreve os amores do jovem Saad com uma mulher muito mais velha, mas ainda bela, durante o saque de uma cidade: “A noite abolia os contornos dascoisas e das sensações. Não apertou mais uma mulher contra o corpo. Chegava afinal ao cabo de uma viagem interminável, que prosseguia desde asorigens do mundo. Aniquilou-se pouco a pouco numa imensidade que balançava em derredor, sem fim, nem figura. Todas as mulheres se confundiramem um país gigante, encolhido sobre si mesmo, sombrio como o desejo, ardente como o verão... Ele, entretanto, reconhecia com uma admiraçãotemerosa a força encerrada na mulher, as coxas alongadas de cetim, os joelhos semelhantes a duas colinas de marfim. Quando subia pelo eixo polido dodorso, dos rins até os ombros, parecia-lhe percorrer a própria abóbada que sustenta o mundo. Mas o ventre chamava-o sem cessar, oceano elástico etenro em que toda a vida nasce e retorna, asilo entre os asilos, com suas marés, seus horizontes, suas superfícies ilimitadas.“Então viu-se tomado de um desejo raivoso de rasgar o invólucro delicioso e alcançar a própria fonte de suas belezas. Uma comoção simultâneaenrolou-os um no outro. A mulher não mais existiu senão para fender-se como o solo, abrir-lhe as vísceras, ingurgitar-se com os humores do amado. Oêxtase fez-se assassínio. Uniram-se como se apunhala.“...Ele, o homem isolado, o dividido, o separado, o cerceado, ia jorrar de sua própria substância, evadir-se de sua prisão de carne e rolar enfim, matériae alma, na matéria universal. Estava-lhe reservada a felicidade suprema, nunca experimentada até então, de ultrapassar as fronteiras da criatura, defundir na mesma exaltação o sujeito e o objeto, a pergunta e a resposta, de anexar ao ser tudo o que não é o ser, e atingir numa última convulsão oimpério do inatingível.“...Cada vai e vem do arco despertava no instrumento precioso que tinha à sua mercê vibrações sempre mais agudas. Subitamente, um último espasmoarrancou Saad do zênite e lançou-o na terra e na lama.”Insatisfeita em seu desejo, a mulher prende com as pernas o amante, que sem querer sente renascer o próprio desejo: ela se apresenta então a elecomo uma força inimiga que lhe arranca a virilidade e, ao possuí-la novamente, ele morde-lhe tão profundamente a garganta que a mata. Assim fecha-se o ciclo que vai da mãe à amante, à morte, através de complicados meandros.Muitas atitudes são possíveis ao homem segundo o aspecto do drama carnal que ele acentua. Se um homem não tem a ideia de que a vida é única, senão tem a preocupação de seu destino singular, se não teme a morte, aceitará alegremente sua animalidade. Entre os muçulmanos, a mulher é reduzidaa um estado de abjeção por causa da estrutura feudal da sociedade que não autoriza o recurso ao Estado contra a família. Isso se deve à religião que,exprimindo o ideal guerreiro dessa civilização, destinou diretamente o homem à morte e despojou a mulher da sua magia. Que temeria nesta terraquem está preparado para mergulhar de um segundo a outro nas voluptuosas orgias do paraíso maometano? O homem pode, pois, fruir tranquilamenteda mulher sem precisar defender-se contra si mesmo, nem contra ela. Os contos das Mil e uma noites encaram-na como uma fonte de untuosas delícias,tal qual os frutos, as geleias, os bolos opulentos, os óleos perfumados. Encontra-se hoje essa benevolência sensual em muitos povos do Mediterrâneo;satisfeito com o instante, não pretendendo a imortalidade, o homem do sul que, através do brilho do céu e do mar, apreende a Natureza em seu aspectofasto, amará gulosamente as mulheres; por tradição, despreza-as suficientemente para não as tomar como pessoas, não estabelecendo grande diferençaentre o encanto do corpo delas e o da areia ou da água; nem nelas nem em si mesmo sente o horror à carne. É com tranquilo deslumbramento que, nasConversações na Sicília, Vittorini diz ter descoberto com a idade de sete anos o corpo nu da mulher. O pensamento racionalista da Grécia e de Romaconfirma essa atitude espontânea. A filosofia otimista dos gregos ultrapassou o maniqueísmo pitagórico; o inferior subordina-se ao superior e como tal éútil: essas ideologias harmônicas não manifestam nenhuma hostilidade à carne. Voltado para o céu das Ideias, ou para a Cidade ou o Estado, oindivíduo, pensando-se como Nous ou como cidadão, crê ter superado sua condição animal: que se entregue à volúpia ou pratique o ascetismo, amulher solidamente integrada na sociedade masculina só tem uma importância secundária. Por certo, o racionalismo nunca triunfou inteiramente e aexperiência erótica conserva, nessas civilizações, seu caráter ambivalente: ritos, mitologias, literatura o comprovam. Mas as seduções e os perigos dafeminilidade nisso tudo só se manifestam sob uma forma atenuada. É o cristianismo que dá novamente à mulher um prestígio assustador: o medo dooutro sexo é uma das formas que assume para o homem o desespero da consciência infeliz. O cristão está separado de si mesmo; consuma-se a divisãodo corpo e da alma, da vida e do espírito: o pecado original faz do corpo o inimigo da alma; todas as ligações carnais se consideram más.88 É sóenquanto resgatado por Cristo e voltado para o reino celeste que o homem pode ser salvo, mas originalmente ele é apenas podridão; seu nascimentoimpõe-lhe não somente a morte mas ainda a danação; é em virtude de uma graça divina que o céu lhe pode ser aberto, mas em todos os avatares de suaexistência natural há uma maldição. O Mal é uma realidade absoluta e a carne, um pecado. E, naturalmente, como nunca a mulher deixa de ser o Outro,não se considera que homem e mulher sejam reciprocamente carne: a carne, que é para o cristão o Outro inimigo, não se distingue da mulher. Nela éque se encarnam as tentações da terra, do sexo, do demônio. Todos os padres da Igreja insistem no fato de que ela conduziu Adão ao pecado. Cumprecitar de novo as palavras de Tertuliano: “Mulher! És a porta do diabo. Persuadiste aquele que o diabo não ousava atacar de frente. Foi por tua causaque o filho de Deus teve de morrer. Deverias andar sempre vestida de luto e de andrajos.” Toda a literatura cristã se esforça por exacerbar arepugnância que o homem pode sentir pela mulher. Tertuliano assim a define: Templum aedificatum super cloacam. Santo Agostinho sublinha comhorror a promiscuidade dos órgãos sexuais e excretórios: Inter foeces et urinam nascimur. A repugnância do cristianismo pelo corpo feminino é tal queele consente em destinar seu Deus a uma morte ignominiosa, mas poupa-lhe a mácula do nascimento: o concílio de Éfeso no Oriente, o de Latrão noOcidente afirmam a concepção virginal de Cristo. Os primeiros padres da Igreja — Orígenes, Tertuliano, Jerônimo — pensavam que Maria parira nosangue e na imundície como as outras mulheres, mas é a opinião de santo Agostinho e santo Ambrósio que prevalece. O seio da Virgem permaneceu
portanto, capaz de apreendê-lo com objetividade. Cabe a ela, em cada caso singular, denunciar a ausência ou a presença da coragem, da força, dabeleza, confirmando ao mesmo tempo, de fora, seu valor universal. Os homens acham-se demasiado ocupados com suas relações de cooperação e lutapara se constituírem público uns dos outros: não se contemplam. A mulher está afastada de suas atividades, não participa dos torneios nem doscombates. Toda a sua situação a destina a desempenhar esse papel de olhar. É por sua dama que o cavaleiro combate no torneio; é o sufrágio dasmulheres que os poetas procuram obter. Quando Rastignac quer conquistar Paris, pensa primeiramente em ter mulheres, menos para as possuir emseus corpos do que para gozar essa reputação que só elas são capazes de criar para um homem. Balzac projetou em seus jovens heróis a história de suaprópria juventude: foi junto das amantes mais idosas que ele começou a formar-se; e não é somente no Le Lys dans la vallée que a mulher desempenhaesse papel de educadora; é também o que lhe é apontado em L’Éducation sentimentale, nos romances de Stendhal e em numerosos outros romances deaprendizagem. Já se viu que a mulher é a um tempo physis e antiphysis; encarna a Natureza como encarna a sociedade; nela se resume a civilização deuma época, sua cultura, como se vê nos poemas corteses, no Decamerão, em L’Astrée; ela lança modas, reina nos salões, dirige e reflete a opinião. Acelebridade e a glória são mulheres. “A multidão é mulher”, dizia Mallarmé. Junto das mulheres, o jovem inicia-se “no mundo” e essa complexarealidade chama-se “a vida”. Ela é um dos objetivos privilegiados a que se destina o herói, o aventureiro, o individualista. Vê-se, na Antiguidade, Perseulibertar Andrômeda, Orfeu buscar Eurídice nos infernos, e Troia combater para guardar a bela Helena. Os romances de cavalaria quase não conhecemoutra façanha além da libertação de princesas cativas. Que faria o Príncipe Encantado se não despertasse a Bela Adormecida no bosque, se nãocumulasse Pele de Asno com seus dons? O mito do rei que casa com a pastora lisonjeia o homem tanto quanto a mulher. O homem rico precisa esbanjar,do contrário, sua riqueza inútil permanece abstrata: ele precisa de alguém a quem dar. O mito de Cinderela, que Philipp Wyllie descreve comcomplacência em Generation of Vipers, floresce principalmente nos países prósperos; tem mais força na América do Norte do que em outros lugares,porque aí se encontram os homens mais embaraçados com suas riquezas: esse dinheiro que acumulam durante uma vida inteira, como o gastariam senão o consagrassem a uma mulher: Orson Welles, entre outros, encarnou em Cidadão Kane o imperialismo dessa falsa generosidade: é para a afirmaçãode sua própria força que Kane resolve esmagar com seus presentes uma obscura cançonetista e impô-la ao público como uma grande cantora;poderíamos citar também, na França, muitos cidadãos Kane de menor porte. Em outro filme, O fio da navalha, quando o herói volta da Índia senhor deuma sabedoria absoluta, o único emprego que lhe sabe dar é o de reabilitar uma prostituta. É claro que em se sonhando assim doador, libertador,redentor, o homem ainda aspira à escravização da mulher; sim, porque para despertar a Bela Adormecida cumpre que ela durma; são necessários ogrose dragões para que haja princesas cativas. Entretanto, quanto mais o homem aprecia as empresas difíceis, mais ele se compraz em conceder aindependência à mulher. Vencer é ainda mais fascinante do que libertar ou dar. O ideal do homem médio ocidental é uma mulher que se submetalivremente a seu domínio, que não aceite suas ideias sem discussão, mas que ceda diante de seus argumentos, que lhe resista com inteligência paraacabar deixando-se convencer. Quanto mais seu orgulho se torna ousado, mais ele deseja que a aventura seja perigosa: é mais belo dominar Pentesileiado que desposar Cinderela. “O guerreiro aprecia o perigo e o jogo”, diz Nietzsche, “eis por que ama a mulher que é o jogo mais perigoso”. O homemque gosta do perigo e do jogo vê, sem desprazer, a mulher transformar-se em amazona desde que conserve a esperança de dominá-la:99 o que exige, emseu coração, é que essa luta seja um jogo para ele, ao passo que a mulher nela empenha seu destino; e a verdadeira vitória do homem, libertador ouconquistador, consiste em que a mulher o reconheça l ivremente como destino.Assim a expressão “ter uma mulher” comporta um duplo sentido: as funções de objeto e juiz não se acham dissociadas. A partir do momento em que amulher é encarada como pessoa, só pode ser conquistada com seu consentimento: cumpre vencê-la. É o sorriso da Bela Adormecida que encanta oPríncipe; são as lágrimas de felicidade e gratidão das princesas cativas que emprestam verdade à façanha do cavaleiro. Inversamente, seu olhar nãotem a severidade abstrata do olhar masculino, ele se deixa encantar. O her oísmo e a poesia são, portanto, modos de sedução, mas deixando-se seduzir,a mulher exalta o heroísmo e a poesia. Aos olhos do individualista, ela detém um privilégio ainda mais essencial: apresenta-se a ele não como umamedida de valores universalmente reconhecidos, mas sim como a revelação de seus méritos singulares e de seu próprio ser. Um homem é julgado porseus semelhantes pelo que faz, na sua objetividade e segundo medidas gerais. Mas algumas de suas qualidades, e entre outras suas qualidades vitais,só podem interessar a mulher; ele é viril, agradável, sedutor, terno, cruel unicamente em função dela: se é a essas mais secretas virtudes que dá valor,dela tem ele necessidade absoluta; por ela conhecerá o milagre de apresentar-se como outro, outro que é também seu eu mais profundo. Há um textode Malraux100 que exprime admiravelmente o que o individualista espera da mulher amada. Kyo interroga-se: “Ouve-se a voz dos outros com os ouvidos,a nossa própria com a garganta. Sim. A nossa vida também é ouvida com a garganta, e a dos outros?... Para os outro s, sou o que fiz... Somente paraMay ele não era o que fizera; somente para ele, ela era inteiramente diferente de sua biografia. O abraço pelo qual o amor mantém os seres colados unsaos outros contra a solidão não ajudava os homens, mas o louco, o monstro incomparável, preferível a tudo, o que todo ser é para si mesmo e queacarinha em seu coração. Desde que sua mãe morrera, May era o único ser para o qual ele não era Kyo Gisors e sim a mais estreita cumplicidade... Oshomens não são meus semelhantes, são quem me olha e me julga; meus semelhantes são os que me amam e não me olham, que me amam contra tudo,que me amam contra a decadência, contra a baixeza, contra a traição: a mim, e não ao que fiz ou farei. São os que me amarão enquanto eu amar a mimmesmo até o suicídio inclusive.”101 O que torna humana e comovente a atitude de Kyo é o fato de que ela implica a reciprocidade e de que ele pede aMay que o ame em sua autenticidade e não que lhe ofereça um reflexo complacente. Em muitos homens essa exigência se degrada: em lugar de umarevelação exata, eles buscam no fundo de dois olhos vivos uma imagem aureolada de admiração e gratidão, divinizada. Se a mulher foi, muitas vezes,comparada à água, é entre outros motivos porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou de má-fé. Mas oque, em todo caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a interioridade do existente não passa de nada e, para seatingir, ele precisa projetar-se em um objeto. A mulher é para ele a suprema recompensa porque é sob uma forma exterior que ele pode possuir, em suacarne, sua própria apoteose. E é esse “monstro incomparável”, isto é, a si mesmo, que ele possui quando aperta nos braços o ser que lhe resume oMundo e a quem impôs seus valores e leis. Então, unindo-se a esse outro que fez seu, espera atingir a si próprio. Tesouro, presa, jogo e risco, musa,guia, juiz, mediadora, espelho, a mulher é o Outro em que o sujeito se supera sem ser limitado, que a ele se opõe sem o negar. Ela é o Outro que sedeixa anexar sem deixar de ser o Outro. E, desse modo, ela é tão necessária à alegria do homem e a seu triunfo, que se pode dizer que, se ela nãoexistisse, os homens a teriam inventado.Eles inventaram-na.102 Mas ela existe também sem essa invenção. Eis por que é, ao mesmo tempo, a encarnação do sonho masculino e seu fracasso.Não há uma só representação da mulher que não engendre de imediato a imagem inversa: ela é a Vida e a Morte, a Natureza e o Artifício, o Dia e aNoite. Sob qualquer aspecto que a consideremos, encontramos sempre a mesma oscilação pelo fato de que o inessencial volta necessariamente aoessencial. Nas figuras da Virgem Maria e de Beatriz subsistem Eva e Circe.Pela mulher, escreve Kierkegaard,103 a idealidade entra na vida, e sem ela que seria do homem? Mais de um homem se fez gênio graças a uma jovem...mas nenhum se tornou gênio graças a uma jovem de quem tivesse obtido a mão...”“É numa relação negativa que a mulher torna o homem produtivo na idealidade... Relações negativas com a mulher podem tornar-nos infinitos...Relações positivas com a mulher tornam o homem finito nas mais amplas proporções.” Isso significa que a mulher é necessária na medida em quepermanece uma Ideia em que o homem projeta sua própria transcendência; mas que é nefasta enquanto realidade objetiva, existindo por si e limitada asi. É recusando casar-se com a noiva que Kierkegaard estima ter estabelecido a única relação válida com a mulher. E tem razão no sentido em que omito da mulher colocada como Outro infinito acarreta, de imediato, seu contrário.Porque é falso Infinito, Ideal sem verdade, ela se descobre como finitude e mediocridade e, concomitantemente, como mentira. Assim é que seapresenta em Laforgue. Este, em toda a sua obra, exprime seu rancor contra uma mistificação que torna o homem tão culpado quanto a mulher. Ofélia,Salomé são, na realidade, “mulherzinhas”. Hamlet pensa: “É assim que Ofélia me amara, como ‘seu bem’ e porque eu era social e moralmente superioraos bens de suas amiguinhas. E as pequenas frases que lhe escapam, nas horas em que as lâmpadas se acendem, acerca do bem-estar e do conforto!” Amulher faz o homem sonhar. Entretanto, pensa no conforto, no cotidiano; falam-lhe da alma quando não passa de um corpo. E acreditando perseguir umIdeal, o amante é o joguete da natureza que utiliza todas essas místicas para fins de reprodução. Ela representa, em verdade, o cotidiano da vida; ela éparvoíce, prudência, mesquinharia, tédio. É o que exprime, entre outros, o poema intitulado “Nossa companheirinha”: ...Tenho a arte de todas as escolasTenho almas para todos os gostosColhei a flor de meus rostosBebei minha boca e não minha vozNão procureis outra coisa:Ninguém aí vive com clareza nem mesmo eu.Nossos amores não são iguaisPara que vos estenda a mãoSois apenas machos ingênuosEu sou o Eterno Feminino!
Meu Fim perde-se nas estrelas!Sou eu a Grande Ísis!Ninguém me arregaçou o véuPensai somente em meus oásis...104 O homem conseguiu escravizar a mulher, mas desse modo despojou-a do que lhe tornava a posse desejável. Integrada na família e na sociedade, amagia da mulher dissipa-se em vez de se transfigurar; reduzida à condição de serva, ela não é mais a presa indomada em que se encarnavam todos ostesouros da natureza. Desde o aparecimento do amor cortês, é lugar-comum dizer que o casamento mata o amor. Demasiado desprezada ou demasiadorespeitada, por demais cotidiana, a esposa não é mais um objeto erótico. Os ritos do casamento destinam-se primitivamente a defender o homem contraa mulher; ela torna-se sua propriedade; mas tudo o que possuímos nos possui; o casamento é também uma servidão para o homem; é então que ele sevê preso na armadilha da natureza. Por ter desejado uma jovem viçosa, o homem deve sustentar toda sua vida uma gorda matrona, uma velhaencarquilhada; a joia delicada destinada a embelezar sua existência torna-se fardo odioso. Xantipa é um dos tipos femininos de que os homens semprefalaram com mais horror.105 Porém, mesmo que a mulher seja jovem, há no casamento uma mistificação, pois pretendendo socializar o erotismo sóconsegue aniquilá-lo. É que o erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a coletividade; ele afirma a separaçãocontra a comunicação; é rebelde a todo regulamento; contém um princípio hostil à sociedade. Nunca os costumes se dobraram ao rigor das instituiçõese das leis. É contra elas que o amor desde sempre se afirmou. Sob seu aspecto sensual, é aos jovens e às cortesãs que se endereça na Grécia e emRoma, carnal e platônico ao mesmo tempo, o amor cortês sempre se destinou à esposa de outrem. Tristão é a epopeia do adultério. A época que renovao mito da mulher, por volta de 1900, é aquela em que o adultério se torna o tema de toda a literatura. Certos escritores, como Bernstein, esforçam-sepor reintegrar, no casamento, o erotismo e o amor, numa defesa suprema das instituições burguesas; mas há mais verdade na Amoureuse de Porto-Riche que mostra a incompatibilidade dessas duas ordens de valores. O adultério só pode desaparecer com o próprio casamento. Porque o fim docasamento é, em suma, imunizar o homem contra sua mulher: mas as outras mulheres conservam a seus olhos uma vertiginosa atração; é para elas queele se volta. As mulheres fazem-se cúmplices, porque se rebelam contra uma ordem que pretende privá-las de todas as suas armas. Para arrancar amulher à Natureza, para escravizá-la ao homem mediante cerimônias e contratos, elevaram-na à dignidade de pessoa humana, deram-lhe liberdade.Mas a liberdade é precisamente o que escapa a toda servidão; e se é concedida a um ser originalmente habitado por forças maléficas, ela se tornaperigosa. E tanto mais quanto o homem se deteve nas meias medidas; só aceitou a mulher no mundo masculino fazendo dela uma serva, frustrando-ade sua transcendência; a liberdade que lhe outorgaram só podia ser de uso negativo; ela empenha-se em se recusar. A mulher só se tornou livretornando-se cativa; renuncia a esse privilégio humano para encontrar de novo sua força de objeto natural. De dia, ela desempenha perfidamente seupapel de escrava dócil, mas, à noite, transforma-se em gata, em corça; introduz-se novamente em sua pele de sereia ou, cavalgando uma vassoura,participa de rondas satânicas. Por vezes, é sobre o marido que exerce sua magia noturna; porém, é mais prudente dissimular essa metamorfose a seusenhor; são estranhos que ela escolhe como presas; eles não têm direitos sobre ela e ela continua planta, fonte, estrela, feiticeira para eles. Ei-la,portanto, destinada à infidelidade: é o único aspecto concreto que pode assumir sua liberdade. Ela é infiel para além mesmo de seus desejos, seuspensamentos, sua consciência; pelo fato de ser encarada como objeto está entregue a toda subjetividade que resolve apossar-se dela; encerrada noharém, escondida sob véus, nem assim se tem certeza de que não inspire desejos a ninguém: inspirar desejo a um estranho já é estar em falta com oesposo e com a sociedade. Demais, ela faz-se muitas vezes cúmplice dessa fatalidade; é somente pela mentira e pelo adultério que pode provar que nãoé a propriedade de ninguém e desmentir as pretensões do homem. Eis por que o ciúme do homem tão facilmente desperta; vê-se nas lendas que amulher, sem motivo, pode ser suspeita, condenada à menor desconfiança, como Geneviève de Brabant ou Desdêmona; antes mesmo de qualquersuspeita Grisélidis é submetida às mais duras provas. Esse conto seria absurdo se a mulher de antemão não fosse suspeita; não há necessidade dedemonstrar suas culpas: a ela é que cabe provar sua inocência. Eis por que igualmente o ciúme pode ser insaciável; já se disse que a posse nunca podeser positivamente realizada; mesmo em se proibindo a quem quer que seja servir-se dela, não se possui a nascente em que a gente se dessedenta. Ociumento bem o sabe. Por essência, a mulher é inconstante, como fluida é a água; e nenhuma força humana pode contradizer uma verdade natural.Através de todas as literaturas, nas Mil e uma noites, como no Decamerão, vemos os ardis da mulher triunfarem sobre a prudência do homem. E, noentanto, não é somente pela vontade individualista que este é carcereiro; é a sociedade que o torna responsável pela conduta da mulher, na qualidadede pai, irmão ou esposo. A castidade é imposta à mulher por motivos de ordem econômica e religiosa, devendo cada cidadão ser autentificado comofilho de seu pai. Mas é muito importante também obrigar a mulher a representar exatamente o papel que lhe atribui a sociedade. Há uma duplaexigência do homem que força a mulher à duplicidade: ele quer que ela seja sua e que lhe permaneça estranha, deseja-a escrava e feiticeira a umtempo. Mas é somente o primeiro desses desejos que demonstra publicamente; o outro é uma reivindicação sorrateira que dissimula no segredo de seucoração e de sua carne. Ela contesta a moral e a sociedade; ela é má como o Outro, como a Natureza rebelde, como “a mulher má”. O homem não sededica inteiramente ao Bem que constrói e pretende impor; entretém vergonhosamente relações com o Mal. Mas onde quer que este ouse mostrarimprudentemente seu rosto a descoberto, ele luta contra. Nas trevas da noite, o homem convida a mulher ao pecado, mas em pleno dia repudia opecado e a pecadora. E as mulheres, elas próprias pecadoras no mistério do leito, com muito mais paixão ainda rendem culto público à virtude. Assimcomo, entre os primitivos, o sexo masculino é laico enquanto o feminino se impregna de virtudes religiosas e mágicas, nas sociedades mais modernas, oerro do homem não passa de um deslize sem gravidade; consideram-no geralmente com indulgência. Mesmo se desobedece às leis da comunidade, ohomem continua a pertencer-lhe; não passa de um menino levado que não ameaça profundamente a ordem coletiva. Ao contrário, se a mulher se evadeda sociedade, retorna à Natureza e ao demônio, desencadeia no seio da coletividade forças incontroláveis e perniciosas. À censura que inspira umaconduta desavergonhada, mistura-se sempre o medo. Se o marido não consegue constranger a mulher à virtude, ele participa do erro; sua desgraça éuma desonra aos olhos da sociedade; há civilizações tão severas que lhe obrigam a matar a criminosa para se dessolidarizar do crime. Em outras, pune-se o esposo complacente com charivaris, ou então passeando nu, montado num asno. E a comunidade encarrega-se de castigar a culpada em seu lugar:pois não é apenas a ele que ela ofende e sim toda a coletividade. Esses costumes existiram com certo rigor na Espanha supersticiosa e mística, sensuale aterrorizada pela carne. Calderon, Lorca, Valle Inclan fizeram disso o tema de muitos dramas. Em Casa de Bernarda Alba, de Lorca, as comadres daaldeia querem punir a jovem seduzida queimando com brasas “o lugar do pecado”. Nas Divinas palavras de Valle Inclan, a mulher adúltera apresenta-secomo feiticeira que dança com o demônio; descoberto o pecado, toda a aldeia se reúne para arrancar-lhe as roupas e afogá-la. Muitas tradições relatamque se desnudava a pecadora e a seguir a lapidavam como está dito no Evangelho, enterravam-na viva, afogavam-na, queimavam-na. O sentido de taissuplícios era devolvê-la à Natureza depois de tê-la despojado de sua dignidade social; com seu pecado ela desencadeara eflúvios naturais perniciosos ea expiação efetua-se numa espécie de orgia sagrada em que as mulheres, despindo, batendo, massacrando a culpada, desencadeavam por sua vezfluidos misteriosos mas propícios, porquanto agiam de acordo com a sociedade.Essa severidade selvagem perde-se à proporção que diminuem as superstições e que o medo se dissipa. Mas, nos campos, olham com desconfiança asciganas sem Deus nem lar. A mulher que exerce livremente o comércio de seus encantos — aventureira, vamp, mulher fatal — permanece um tipoinquietante. Na mulher má dos filmes de Hollywood sobrevive a imagem de Circe. Mulheres foram queimadas como feiticeiras simplesmente porqueeram belas. E na pudica hostilidade das virtudes provincianas, contra as mulheres de maus costumes, perpetua-se um velho terror.São esses perigos que, para um homem aventureiro, fazem da mulher um jogo cativante. Renunciando a seus direitos de marido, recusando-se a apoiar-se nas leis sociais, ele tentará vencê-la em combate singular. Tenta anexar a mulher a si mesmo até em suas resistências; persegue-a nessa liberdadepela qual lhe escapa. Em vão. Não se parcela a liberdade: a mulher livre o será várias vezes contra o homem. Mesmo a Bela Adormecida no bosquepode despertar com desprazer, pode não reconhecer em quem a acorda um Príncipe Encantado, pode não sorrir. É precisamente o caso do CidadãoKane, cuja protegida se apresenta como uma oprimida e cuja generosidade se revela como vontade de poder e de tirania. A mulher do herói escuta anarrativa das façanhas com indiferença, a Musa com que sonha o poeta boceja ouvindo-lhe os versos. A amazona pode recusar, entediada, a luta, comopode também sair dela vitoriosa. As romanas da decadência, muitas norte-ame-ricanas de hoje, impõem aos homens seus caprichos e leis. Onde estáCinderela? O homem desejava dar e eis que a mulher toma. Não se trata mais de jogar e sim de se defender. A partir do momento em que se torna livre,a mulher não tem outro destino senão aquele que ela cria livremente. A relação entre os dois sexos é, então, uma relação de luta. Tornando-se umasemelhante para o homem, apresenta-se como tão temível quanto no tempo em que era para ele a Natureza estranha. A fêmea nutriz, devotada,paciente, converte-se em animal ávido e devorador. A mulher má mergulha suas raízes na Terra, na Vida; mas a Terra é um fosso, a vida, um impiedosocombate: o mito da abelha diligente, da mãe galinha é substituído pelo do inseto devorador, do louva-a-deus, da aranha; a fêmea não é mais a quealimenta os filhotes e sim a que come o macho; o óvulo não é ma is o celeiro de abundância e sim uma armadilha de matéria inerte em que oespermatozoide, castrado, se afoga; a matriz, esse antro quente, calmo e seguro, torna-se um polvo sugador, planta carnívora, abismo de trevasconvulsivas; habita-o uma serpente que engole insaciavelmente as forças do macho. Uma idêntica dialética faz do objeto erótico uma perigosa feiticeira,da escrava uma traidora, de Cinderela uma ogra e transforma toda mulher em inimiga: é o preço que paga o homem por se ter afirmado, com má-fé,como o único essencial.Entretanto, esse rosto inimigo não é tampouco a imagem definitiva da mulher. O maniqueísmo introduz-se no seio da espécie feminina. Pitágorasassimilava o princípio bom ao homem e o mau à mulher. Os homens tentaram dominar o mal anexando a mulher; conseguiram-no parcialmente; masassim como foi o cristianismo, com suas ideias de redenção e de salvação, que deu seu pleno sentido à palavra danação, é ante a mulher santificada quea mulher má assume todo seu relevo. Durante a “querela das mulheres”, que se prolonga da Idade Média aos nossos dias, certos homens só queremconhecer a mulher abençoada com que sonham, outros a mulher maldita que lhes desmente os sonhos. Mas, em verdade, se o homem podetudo encontrar na mulher, é porque ela ao mesmo tempo tem essas duas faces. Ela representa de maneira carnal e viva todos os valores e antivalorespelos quais a vida adquire um sentido. Eis nitidamente separados o Bem e o Mal que se opõem sob os traços da Mãe devotada e da Amante pérfida; navelha balada inglesa Randall My Son, um jovem cavaleiro vem morrer nos braços da mãe, envenenado pela amante. L a Glu de Richepin, com maispatetismo e mau gosto, trata do mesmo tema. A angélica Michaela opõe-se à pérfida Carmen. A mãe, a noiva fiel, a esposa paciente oferecem-se para
tratar dos ferimentos abertos no coração dos homens pelas vamps e mandrágoras. Entre esses polos, claramente fixados, uma multidão de figurasambíguas irá definir-se, lamentáveis, detestáveis, pecadoras, vítimas, coquetes, fracas, angélicas, demoníacas. Com isso, numerosas condutas esentimentos solicitam o homem e o enriquecem.Essa própria complexidade da mulher encanta-o: eis uma maravilha doméstica com que pode deslumbrar-se com pouco dispêndio. É ela anjo oudemônio? A incerteza transforma-a em esfinge. É sob essa égide que uma das casas de tolerância mais célebres de Paris se apresentava. Na grandeépoca da Feminilidade, no tempo dos corpetes, de Paul Bourget, de Henri Bataille, do french-cancan, o tema da Esfinge surge sem cessar nas comédias,poesias e canções: “Quem és? De onde vens, Esfinge estranha?” E ainda não se acabou de sonhar com o mistério feminino e de discuti-lo. É parasalvaguardar esse mistério que durante muito tempo os homens suplicaram às mulheres que não abandonassem as saias compridas, as anáguas, osvéus, as luvas compridas, as botinas altas; tudo o que acentua no Outro a diferença torna-o mais desejável, porquanto é do Outro como tal que o homemquer apropriar-se. Vê-se Alain-Fournier censurar às inglesas, em suas cartas, o shake-hand masculino. É a reserva pudica das francesas que o perturba.É preciso que a mulher permaneça secreta, desconhecida, para que se possa adorá-la como uma princesa longínqua; não parece que Fournier tenhasido particularmente atencioso para com as mulheres, mas todo o maravilhoso da infância, da juventude, toda a nostalgia dos paraísos perdidos, foinuma mulher que ele encarnou, uma mulher cuja principal virtude era parecer inacessível. Traçou de Yvonne de Galais uma imagem branca e dourada.Mas os homens amam até os defeitos das mulheres quando criam mistério. “Uma mulher deve ter caprichos”, dizia com autoridade um homem a umamulher bem-comportada. O capricho é imprevisível, empresta à mulher a graça da água ondulante; a mentira enfeita-a com reflexos fascinantes; ocoquetismo, a perversidade dão-lhe um perfume capitoso. Enganadora, esquiva, incompreendida, dúplice, assim é que ela se presta aos desejoscontraditórios do homem; ela é a Maya das inumeráveis metamorfoses. É um lugar-comum representar a Esfinge sob o aspecto de uma jovem; avirgindade é um dos segredos que os homens acham mais perturbadores, e sobretudo quanto mais libertinos são; a pureza da jovem autoriza aesperança de todas as licenças e não se sabe que perversidades se dissimulam sob sua inocência. Próxima ainda do animal e da planta, já dócil aos ritossociais, ela não é nem criança nem adulta; sua feminilidade tímida não inspira o medo e sim uma inquietação temperada. Compreende-se que seja umadas imagens privilegiadas do mistério feminino. Entretanto, como a “verdadeira moça” se perde, seu culto tornou-se algo obsoleto. Em compensação, afigura de prostituta que, numa peça de êxito triunfal, Gantillon atribuiu a Maya, conservou muito de seu prestígio. É esse um dos tipos femininos maisplásticos, o que melhor permite o grande jogo dos vícios e das virtudes. Para o puritano timorato, ela encarna o mal, a vergonha, a doença, a danação;inspira pavor e repugnância; não pertence a nenhum homem, mas se empresta a todos e vive desse comércio, e assim readquire a independênciatemível das luxuriosas deusas-mães primitivas e encarna a Feminilidade que a sociedade masculina não santificou, que permanece impregnada deforças maléficas. No ato sexual, o macho não pode imaginar que a possui, só ele é entregue aos demônios da carne; é uma humilhação, uma mácula quesentem particularmente os anglo-saxões a cujos olhos a carne é mais ou menos maldita. Em compensação, um homem a quem a carne não chocaapreciará na prostituta a sua afirmação generosa e crua; nela verá a exaltação da feminilidade que nenhuma moral tornou insípida; encontrará nocorpo dela essas virtudes mágicas que outrora aparentavam a mulher aos astros e ao mar; um Miller, dormindo com uma prostituta, imagina sondar ospróprios abismos da vida, da morte, do cosmo; une-se a Deus no fundo das trevas úmidas de uma vagina acolhedora. Por ser ela uma espéci e de pária àmargem de um mundo hipocritamente moral, pode-se considerar a “mulher perdida” como a contestação de todas as virtudes oficiais; sua indignidadeaparenta-a às santas autênticas, pois o que foi aviltado será exaltado. Cristo olhou com bondade Maria Madalena; o pecado abre mais facilmente asportas do céu do que uma virtude hipócrita. Assim é que aos pés de Sônia, Raskolnikoff sacrifica o arrogante orgulho masculino que o levou ao crime;ele exasperou com o assassínio essa vontade de separação que existe em todo homem; resignada, abandonada por todos, é uma humilde prostituta quemelhor pode receber a confissão de sua abdicação.106 A expressão “mulher perdida” provoca ecos perturbadores; muitos homens sonham em se perder;não é tão fácil e não se consegue sem dificuldades atingir o Mal numa forma positiva e mesmo o demoníaco apavora-se com crimes excessivos. Pois amulher permite celebrar sem grandes riscos missas negras em que Satã é evocado sem ser especificamente convidado; ela está à margem do mundomasculino: os atos que lhe dizem respeito, na verdade, não acarretam consequências; ela é, entretanto, um ser humano e pode-se, através dela, realizarsombrias revoltas contra as leis humanas. De Musset e Georges Bataille , a devassidão de hedionda e fascinante fisionomia está na frequentação dasprostitutas. É com mulheres que Sade e Sacher Masoch satisfazem os desejos que os obcecam; seus discípulos e a maioria dos homens que têm “vícios”a satisfazer dirigem-se mais comumente às prostitutas. São entre todas as mulheres as mais submissas aos homens e que, no entanto, mais lheescapam; é o que as predispõem a assumir tão múltiplas significações. Entretanto, não há nenhuma figura feminina — virgem, mãe, esposa, irmã, serva,amante, virtude arisca, sorridente odalisca — que não seja suscetível de resumir assim as instáveis aspirações dos homens.Cabe à psicologia — e particularmente à psicanálise — descobrir por que um indivíduo se apega mais especialmente a tal ou qual aspecto do mito defaces inumeráveis; e por que é em tal ou qual mulher que o encarna. Mas o mito está implicado em todos os complexos, obsessões, psicoses. Muitasneuroses, em particular, têm sua causa numa vertigem do proibido; este só pode apresentar-se se os tabus foram previamente constituídos. Umapressão social exterior é insuficiente para lhes explicar a presença; na realidade, as proibições sociais não são unicamente convenções; têm — entreoutras significações — um sentido ontológico que cada indivíduo sente singularmente. A título de exemplo, é interessante examinar o “complexo deÉdipo”; consideram-no muito frequentemente como produzido por uma luta entre as tendências instintivas e as imposições sociais; mas é antes de tudoum conflito interior do próprio sujeito. O apego do filho ao seio materno é primeiramente o apego à Vida em sua forma imediata, em sua generalidade eem sua imanência; a recusa à desmama é a recusa ao abandono a que o indivíduo é condenado desde que se separe do Todo; é a partir de então, e namedida em que se individualiza e se separa ainda mais, que se pode qualificar como “sexual” o gosto que conserva pela carne materna doravantedestacada da sua. Sua sensualidade mediatiza-se então, torna-se transcendência para um objeto exterior. Porém, quanto mais depressa e maisdecididamente a criança se afirma como sujeito, mais o laço carnal que contesta sua autonomia lhe será pesado. Ele foge, então, às carícias; aautoridade exercida pela mãe, os direitos que ela possui sobre ele, sua própria presença, por vezes inspiram-lhe uma espécie de vergonha. Parece-lheprincipalmente embaraçoso, obsceno, descobri-la como carne e evita pensar no corpo dela. No horror que experimenta em relação ao pai, ao segundomarido ou ao amante, há menos ciúme do que escândalo; lembrar-lhe que a mãe é um ser de carne, é lembrar-lhe o próprio nascimento, acontecimentoque com todas as suas forças ele repudia; no mínimo, deseja dar-lhe a majestade de um grande fenômeno cósmico; é preciso que sua mãe resuma aNatureza que está em todos os indivíduos sem pertencer a nenhum; detesta que ela se torne presa, não porque — como se pretende muitas vezes —queira ele próprio possuí-la, mas porque quer que ela exista para além de toda posse: ela não deve ter as dimensões mesquinhas da esposa ou daamante. Entretanto, quando no momento da adolescência sua sexualidade se viriliza, ocorre o corpo da mãe o perturbar; mas é porque apreende nela afeminilidade em geral; e muitas vezes, o desejo despertado pela vista de uma coxa, de um seio, extingue-se logo que o rapaz compreende ser essa acarne materna. Há numerosos casos de perversão, porquanto sendo a adolescência a idade do desnorteamento, é também a da perversão em que arepugnância suscita o sacrilégio, em que do proibido nasce a tentação. Mas não se deve crer que inicialmente o filho deseje ingenuamente dormir coma mãe e que proibições exteriores se interponham e o oprimam; ao contrário, é por causa da proibição que se constituiu no coração do indivíduo que odesejo nasce. Essa proibição é a reação mais normal, mais generalizada. Mas, ainda aí, ela não provém de uma imposição social mascarando desejosinstintivos. O respeito é antes a sublimação de uma repugnância original; o jovem recusa-se a encarar a mãe como carnal; transfigura-a, assimila-a auma das imagens puras de mulher santificada que a sociedade lhe propõe. Desse modo, contribui para fortalecer a figura ideal da Mãe que virá emsocorro da geração seguinte. Mas se ela tem tamanha força é porque é chamada por uma dialética individual. E como cada mulher é habitada pelaessência geral da Mulher, logo da Mãe, é certo que a atitude em relação à Mãe repercutirá nas relações com a esposa e as amantes; porém menossimplesmente do que muitas vezes se imagina. O adolescente que concreta e sensualmente desejou a mãe pode ter desejado nela a mulher em geral: eo ardor de seu temperamento se aplacará com qualquer mulher; não se acha destinado a nostalgias incestuosas.107 Inversamente, um jovem que tenhapela mãe uma terna veneração, porém platônica, pode desejar que a mulher em qualquer ocasião participe da pureza materna.Conhece-se bastante a importância da sexualidade, consequentemente da mulher, nas condutas tanto patológicas como normais. Acontece que outrosobjetos sejam feminilizados; sendo a mulher em grande parte uma invenção do homem, ele a pode inventar através de um corpo masculino: napederastia a divisão dos sexos é mantida. Mas comumente é em seres femininos que a Mulher é procurada. É por ela, através do que nela há de pior ede melhor, que o homem faz a aprendizagem da felicidade, do sofrimento, do vício, da virtude, do desejo, da renúncia, do devotamento, da tirania, quefaz a aprendizagem de si mesmo; ela é o jogo e a aventura, mas também a provação; é o triunfo da vitória e, mais áspero, o do fracasso superado; é avertigem da perda, o fascínio da danação, da morte. Há todo um mundo de significações que só existe pela mulher; ela é a substância das ações e dossentimentos dos homens, a encarnação de todos os valores que solicitam libertação. Compreende-se que, embora condenado aos mais cruéisdesmentidos, o homem não deseje renunciar a um sonho no qual todos os seus sonhos estão envolvidos.Eis, portanto, por que a mulher tem um duplo e decepcionante aspecto: ela é tudo a que o homem aspira e tudo o que não alcança. Ela é a sábiamediadora entre a Natureza propícia e o homem: é a tentação da Natureza indomada contra toda sabedoria. Do bem ao mal, ela encarna carnalmentetodos os valores morais e seus contrários; é a substância da ação e o que se lhe opõe, o domínio do homem sobre o mundo e seu malogro; como tal, é afonte de toda reflexão do homem sobre a própria existência e de toda expressão que possa dar-lhe; entretanto, ela se esforça por desviá-lo de si mesmo,por fazê-lo afundar no silêncio e na morte. Serva e companheira, ele espera que ela seja também seu público e juiz, que ela o confirme em seu ser; masela o contesta com sua indiferença, e até com seus sarcasmos e risos. Ele projeta nela o que deseja e o que teme, o que ama e o que detesta. E se é tãodifícil dizer algo a respeito é porque o homem se procura inteiramente nela e ela é Tudo. Só que ela é Tudo à maneira do inessencial: é todo o Outro. E,enquanto outro, ela é também outra e não ela mesma, outra e não o que dela é esperado. Sendo tudo, ela nunca é isso justamente que deveria ser; ela éperpétua decepção, a própria decepção da existência que não consegue nunca se atingir nem se reconciliar com a totalidade dos existentes.
2 Para confirmar esta análise do mito feminino, tal qual se apresenta coletivamente, vamos considerar o aspecto singular e sincrético que assume emcertos escritores. A atitude de Montherlant, D. H. Lawrence, Claudel, Breton, Stendhal, entre outros, em relação à mulher pareceu-nos típica. I/MONTHERLANT OU O PÃO DO NOJO Montherlant inscreve-se dentro da longa tradição dos homens que retomaram, por sua conta, o maniqueísmo orgulhoso de Pitágoras. Ele estima, depoisde Nietzsche, que somente as épocas de fraqueza exaltaram o Eterno Feminino e que o herói deve insurgir-se contra a Magna Mater. Especialista doheroísmo, empenha-se em destroná-la. A mulher é a noite, a desordem, a imanência. “Essas trevas convulsivas não são senão o feminino em seu estadopuro”,108 escreve, a propósito de Mme Tolstoi. Foi a seu ver a tolice, a baixeza dos homens de hoje que emprestaram uma forma positiva às deficiênciasfemininas: fala-se do instinto das mulheres, de sua intuição, de sua adivinhação, quando fora preciso denunciar-lhe a ausência de lógica, a ignorânciaobstinada, sua incapacidade em apreender o real; elas não são efetivamente nem observadoras nem psicólogas; elas não sabem nem ver as coisas nemcompreender os seres; seu mistério é uma ilusão, seus insondáveis tesouros têm a profundidade do nada; elas nada têm a dar ao homem e não podemsenão ser-lhe nocivas. Para Montherlant a mãe é que é primeiramente a grande inimiga; em uma peça de mocidade, L’Exil, ele focaliza uma mãe queimpede o filho de se engajar; em Les Olympiques o adolescente que gostaria de se dedicar aos esportes é “barrado” pelo egoísmo medroso da mãe; emLes Célibataires e em Les Jeunes filles a mãe é descrita de maneira odiosa. Seu crime é querer conservar o filho encerrado para sempre nas trevas doventre; ela o mutila a fim de poder açambarcá-lo e encher assim o vazio estéril de seu ser; é a mais lamentável das educadoras; corta as asas ao filho,retém-no longe das alturas a que ele aspira, imbeciliza-o e avilta-o. Tais críticas não são sem fundamento. Mas, através das censuras explícitas queMontherlant dirige à mulher-mãe, é claro que o que detesta nela é seu próprio nascimento. Ele se crê deus, ele se quer deus: porque é homem, porqueé “homem superior”, porque é Montherlant. Um deus nunca foi engendrado; seu corpo, se é que tem um, é uma vontade encerrada em músculos durose obedientes, não uma carne surdamente habitada pela vida e pela morte; a responsabilidade dessa carne perecível, contingente, vulnerável e que elerenega cabe à mãe. “O único lugar do corpo que era vulnerável em Aquiles era aquele pelo qual a mãe o segurara”.109 Montherlant nunca quis assumira condição humana; o que chama seu orgulho é, desde o início, uma fuga amedrontada ante os riscos que comporta uma liberdade empenhada nomundo através da carne; ele pretende afirmar a liberdade, mas recusar o compromisso; sem ligações, sem raízes, ele se acredita uma subjetividadesoberanamente voltada sobre si mesma; a lembrança de sua origem carnal perturba esse sonho e ele recorre a um processo que lhe é habitual: em vezde superá-la, ele a repudia.Aos olhos de Montherlant, a amante é tão nefasta quanto a mãe; ela impede o homem de ressuscitar o deus dentro de si; a parte da mulher, declara, é avida no que tem de imediato; ela se nutre de sensações, ela se agita na imanência, ela tem a mania da felicidade: quer encerrar o homem nisso, nãosente o impulso da transcendência, não tem o sentido da grandeza; ama o amante em sua fraqueza e não em sua força, nas suas penas e não na suaalegria; ela o deseja desarmado, infeliz a ponto de querer, contra toda evidência, convencê-lo de sua miséria. Ele a ultrapassa e assim lhe escapa: elaaspira a reduzi-lo a sua própria medida a fim de se apossar dele. Porque ela precisa dele, não se basta, é um ser parasitário. Pelos olhos de Dominique,Montherlant mostra as passantes do Ranelagh “penduradas aos braços dos amantes como seres sem vértebras, semelhantes a grandes lesmasfantasiadas”.110 As mulheres são a seu ver, com exceção das esportistas, seres incompletos, destinados à escravidão; moles e sem músculos, não podemdominar o mundo, por isso mesmo trabalham com afinco para anexar-se um amante, ou melhor, um marido. O mito do louva-a-deus não é, ao que eusaiba, utilizado por Montherlant, mas ele redescobre-lhe o conteúdo: amar, para a mulher, é devorar; pretendendo dar-se, ela toma. Ele cita aexclamação de Mme Tolstoi: “Vivo por ele, para ele, exijo o mesmo para mim”, e denuncia os perigos de uma tal fúria de amor. Encontra uma terrívelverdade nas palavras do Eclesiastes: “Um homem que vos quer mal vale mais do que uma mulher que vos quer bem.” Invoca a experiência de Lyautey:“Um de meus homens que se casa é um homem reduzido à metade.” É principalmente para o “homem superior” que ele julga nefasto o casamento; éum aburguesamento ridículo. Seria possível dizer: Mme Ésquilo ou “Vou jantar em casa dos Dante?” O prestígio de um grande homem é enfraquecidopelo casamento, mas este principalmente quebra a solidão magnífica do herói, o qual “precisa não se distrair de si mesmo”.111 Já disse que Montherlantescolheu uma liberdade sem objeto, isto é, que ele prefere uma ilusão de autonomia à autêntica liberdade que se empenha no mundo; é essadisponibilidade que ele pensa defender contra a mulher: ela incomoda, pesa. “Era um triste símbolo que um homem não pudesse andar direito porque amulher que amava o segurava pelo braço.”112 “Eu ardia, ela me apaga. Eu andava sobre as águas, ela pendura-se a meu braço e me afunda.”113 Comopode ela ter tamanho poder se é apenas carência, pobreza, negatividade e sua magia, ilusória? Montherlant não o explica. Diz tão somente comsoberbia que “o leão teme com razão o mosquito”.114 Mas a resposta é evidente: é fácil acreditar-se soberano quando se está só, acreditar-se fortequando se recusa cuidadosamente a carregar qualquer fardo. Montherlant escolheu a facilidade; ele pretende ter o culto dos valores difíceis, masprocura alcançá-los facilmente. “As coroas que damos a nós mesmos são as únicas que merecem ser usadas”, diz o rei de Pasiphaé. Princípio cômodo.Montherlant sobrecarrega a fronte, veste-se de púrpura, mas bastaria um olhar alheio para revelar que seus diademas são de papel pintado e que,como o rei de Andersen, está inteiramente nu. Andar em sonho sobre as águas é muito menos cansativo do que marchar de verdade pelos caminhos daterra. Eis por que o leão Montherlant evita com terror o mosquito feminino: receia a prova do real.115Se Montherlant tivesse verdadeiramente esvaziado de seu conteúdo o mito do Eterno Feminino, seria preciso felicitá-lo. É negando a Mulher que sepode ajudar as mulheres a se considerarem seres humanos. Mas viu-se que ele não pulveriza o ídolo: converte-o em monstro. Crê, também ele, nestaobscura e irredutível essência: a feminilidade. Considera, após Aristóteles e são Tomás, que ela se define negativamente; a mulher é mulher por falta devirilidade; é o destino que todo indivíduo do sexo feminino deve suportar sem poder modificá-lo. Aquela que pretende escapar a esse destino situa-se nomais baixo degrau da escala humana; não consegue tornar-se homem e renuncia a ser mulher; não passa de uma caricatura irrisória, uma aparência; ofato de ser um corpo e uma consciência não lhe confere nenhuma realidade. Platônico em certos momentos, Montherlant parece considerar que só asIdeias de feminilidade e virilidade possu em o ser; o indivíduo que não participa nem de uma nem de outra tem apenas uma aparência de existência. Elecondena inapelavelmente essas “estriges” que têm a ousadia de se pôr como sujeitos autônomos, de pensar, de agir. Retratando Andrée Hacquebaut,pretende provar que toda mulher que se esforça por fazer de si uma pessoa, transforma-se em um fantoche, alvo de deboche. Naturalmente, Andrée éfeia, desgraciosa, malvestida, suja mesmo, com unhas e braços duvidosos; o pouco de cultura que lhe é atribuído bastou para matar toda suafeminilidade; Costals assegura-nos que ela é inteligente, mas, em todas as páginas que lhe consagra, Montherlant convence-nos da sua estupidez.Costals tenta ter simpatia por ela, Montherlant a torna odiosa para nós. Com esse equívoco engenhoso, prova-se a tolice da inteligência feminina,estabelece-se que uma desgraça original perverteu na mulher todas as qualidades viris para as quais ela tende.Montherlant concorda em admitir uma exceção para as desportistas; pelo exercício autônomo do corpo, podem elas conquistar um espírito, uma alma;ainda assim seria fácil fazê-las descer de tais alturas. Da vencedora dos mil metros a quem dedica um hino entusiasta, Montherlant afasta-sedelicadamente: não duvida de que a seduziria com facilidade e quer poupar-lhe essa decadência. Dominique116 não se manteve nos cimos a que achamava Alban; apaixona-se por ele: “A que era toda espírito, toda alma, suava, desprendia perfumes e, perdendo o fôlego, tossia repetidamente.”Indignado, Alban expulsa-a. Pode-se apreciar uma mulher que pela disciplina do esporte matou em si a carne; mas é um escândalo odioso umaexistência autônoma encerrada numa carne de mulher; a carne feminina é detestável a partir do momento em que uma consciência a habita. O queconvém à mulher é ser puramente carne; Montherlant aprova a atitude oriental: como objeto de gozo o sexo frágil tem um lugar na terra, humilde semdúvida, mas válido; ele encontra uma justificação no prazer que o macho extrai desse objeto, mas somente no prazer. A mulher ideal é perfeitamenteestúpida e submissa; está sempre preparada para acolher o homem e nunca lhe pede nada. Assim é Douce, que Alban aprecia em certos momentos.“Douce, admiravelmente tola e tanto mais desejada quanto mais tola... inútil fora do amor e que ele evita então com uma doçura decidida.”117 Assim éRadidja, a pequena árabe,118 tranquilo animal de amor que aceita docilmente prazer e dinheiro. Assim se pode imaginar o “animal feminino” encontradoem um trem espanhol: “Tinha um ar tão estúpido que me pus a desejá-la.” O autor explica: “O que há de irritante nas mulheres é a pretensão à razão;
quando exageram a animalidade, esboçam o sobre-humano.”119Entretanto, Montherlant nada tem de um sultão oriental: falta-lhe primeiramente a sensualidade. Está longe de se deleitar sem segunda intenção com“animais femininos”; são “doentes, malsãs, e nunca inteiramente limpas”;120 Costals confia-nos que os cabelos dos jovens têm cheiro mais forte emelhor do que os das mulheres; ele sente, por vezes, nojo diante de Solange, diante “desse odor açucarado, quase enjoativo, desse corpo sem músculos,sem nervo, como uma lesma branca”.121 Ele sonha com posses mais dignas de si, entre iguais, em que a doçura nascesse da força vencida... O orientalaprecia voluptuosamente a mulher e assim se estabelece entre amantes uma reciprocidade carnal: é o que manifestam as ardentes invocações doCântico dos Cânticos, os contos das Mil e uma noites e tantas poesias árabes à glória da bem-amada. Por certo, há mulheres más; mas há tambémsaborosas, e o homem sensual abandona-se confiantemente em seus braços sem se achar humilhado. Ao passo que o herói de Montherlant está semprena defensiva: “Possuir sem ser possuído, única fórmula aceitável entre o homem superior e a mulher.”122 Ele fala de bom grado do momento do desejo,que se lhe afigura um momento agressivo, viril, mas afasta o do gozo; talvez se arriscasse a descobrir que ele também sua, arqueja, desprendeperfumes. Não: quem lhe ousaria respirar o odor, sentir-lhe o suor? Sua carne desarmada não existe para ninguém, porque não há ninguém diante dele:ele é a única consciência, uma pura presença transparente e soberana; e se o prazer existe para sua consciência, ele não o leva em consideração: seriaceder-lhe. Montherlant fala com complacência do prazer que dá, nunca do que recebe: receber é uma dependência. “O que peço a uma mulher é dar-lhe prazer”;123 o calor vivo da volúpia seria uma cumplicidade e ele não admite nenhuma; prefere a solidão altiva do domínio. São satisfações cerebraise não sensuais que ele busca nas mulheres.Antes de tudo aquelas de um orgulho que deseja exprimir-se mas sem correr ri scos. Diante da mulher “tem-se o mesmo sentimento que diante de umcavalo, de um touro que se vai enfrentar: a mesma incerteza e o mesmo gosto de medir o próprio poder”.124 Medi-lo com outros homens seria pordemais ousado: eles interviriam na prova, imporiam tabelas imprevistas, pronunciariam um veredicto estranho; diante de um touro, de um cavalo, ohomem permanece seu próprio juiz, o que é infinitamente mais seguro. Perante uma mulher, se bem escolhida, também se fica só: “Não amo naigualdade, porque na mulher é a criança que procuro.” Esta verdade banal nada explica: por que procura a criança e não a igual? Montherlant seriamais sincero se dissesse que ele, Montherlant, não tem igual; ou, mais exatamente, que não quer ter: seu semelhante amedronta-o. Na época de LesOlympiques admira no esporte o rigor das competições que criam hierarquias com as quais não se pode trapacear; mas ele próprio não entendeu alição; no resto de suas obras e em sua vida, seus heróis, como ele mesmo, fogem a qualquer confronto; lidam com bichos, paisagens, crianças,mulheres-crianças, nunca com iguais. Antes apaixonado pela dura lucidez do esporte, Montherlant só aceita como amantes mulheres cujo juízo seuorgulho medroso não precisa temer; escolhe-as “passivas e vegetais”, infantis, estúpidas, vendáveis. Evitará sistematicamente atribuir-lhes umaconsciência. Se lhes descobre algum vestígio, agasta-se e se vai; não se trata de estabelecer qualquer relação intersubjetiva com a mulher; no reino dohomem ela deve ser unicamente um objeto animado. Nunca será encarada como sujeito, nunca seu ponto de vista será considerado. O herói deMontherlant tem uma moral que imagina ser arrogante e que é apenas cômoda: só se preocupa com suas relações consigo mesmo. Apega-se à mulher— ou melhor, pega a mulher — não para desfrutá-la, mas para desfrutar de si mesmo. Sendo absolutamente inferior, a existência da mulher desvendasem risco a superioridade substancial, essencial e indestrutível do homem.Assim, a tolice de Douce125 permite a Alban “reconstituir, até certo ponto, as sensações do semideus antigo desposando uma gansa fabulosa”. Mal tocaSolange e eis Costals transformado em um soberbo leão: “Mal se sentaram um ao lado do outro, ele pôs a mão sobre a coxa da jovem (por cima dovestido), depois manteve-a pousada no centro do corpo como um leão pousa a pata aberta sobre o quarto da carne que conquistou.”126 Esse gesto, quena obscuridade dos cinemas tantos homens fazem modestamente, Costals proclama-o “o gesto primitivo do Senhor”.127 Se os amantes, os maridos quebeijam a amante antes de a possuir tivessem, como ele, o sen tido da grandeza, conheceriam, sem maior esforço, essas poderosas metamorfoses. “Eleaspirava vagamente o rosto da Mulher, como um leão que, despedaçando a carne que tem entre as patas, de vez em quando se detém para lambê-la.”128 Esse orgulho carnívoro não é o único prazer que o macho extrai da fêmea; ela lhe serve de pretexto para experimentar livremente, e sempre semrisco, o próprio coração. Costals, certa noite, chega a divertir-se com o sofrer até que, saciado seu apetite de dor, atira-se alegremente a uma coxa defrango. Só raramente é que a gente pode permitir-se um tal capricho... Mas há outras alegrias fortes ou sutis. A condescendência, por exemplo: Costalscede em responder a certas cartas de mulheres e até o faz, por vezes, com cuidado. A uma camponesinha inspirada, escreve ao fim de uma dissertaçãopedante: “Duvido que possa compreender-me, mas isso é melhor do que se me tivesse abaixado até você”.129 Agrada-lhe, às vezes, moldar uma mulher àpróp ria imagem: “Quero que você seja para mim como uma cereja... não a ergui até mim para que você fosse outra coisa que não eu.”130 Diverte-secom fabricar algumas belas recordações para Solange. Mas é principalmente quando dorme com uma mulher que sente com embriaguez seuesbanjamento: doador de alegria, de paz, de calor, de força, de prazer, as riquezas que esbanja enchem-no de satisfação. Nada deve a suas amantes;paga-as frequentemente para ter certeza disso; mas mesmo quando o coito se realiza ao par, a mulher é sua devedora sem reciprocidade: ela não dánada, ele toma. Por isso acha absolutamente normal mandar Solange ao toilette no dia em que a def lora: ainda que uma mulher seja ternamentequerida, seria absurdo um homem constranger-se com ela; ele é macho por direito divino, ela por direito divino é votada ao bidê. O orgulho de Costalsimita aqui tão fielmente o cafajestismo que não se sabe ao certo o que o diferencia de um caixeiro-viajante mal-educado.O primeiro dever de uma mulher é submeter-se às exigências de sua generosidade; quando supõe que Solange não lhe aprecia as carícias, Costals ficafurioso. Se gosta de Radidja é porque o rosto dela se ilumina de alegria quando ele a penetra. Então goza por sentir-se ao mesmo tempo animal derapina e príncipe magnífico. Indaga-se, entretanto, com perplexidade, de onde pode vir a embriaguez de possuir e satisfazer, se a mulher possuída esatisfeita não passa de uma pobre coisa, carne insípida em que palpita um ersatz de consciência. Como Costals pode perder tanto tempo com criaturasvãs?Essas contradições dão a medida de um orgulho que não passa de vaidade.Um deleite mais sutil do forte, do generoso, do senhor, é a piedade pela raça infeliz. Costals, de quando em quando, comove-se ao sentir no coraçãotanta gravidade fraternal, tanta simpatia pelos humildes, tanta “piedade pelas mulheres”. Haverá coisa mais tocante do que a doçura imprevista dosseres inflexíveis? Ele ressuscita em si essa nobre imagem de Epinal quando se debruça sobre esses animais enfermos que são as mulheres. Mesmo asdesportistas, gosta de as ver vencidas, feridas, exaustas, magoadas; quanto às outras, ele as quer o mais desarmadas possível. A miséria mensal delasrepugna-lhe e no entanto Costals nos confia que “sempre preferira nas mulheres esses dias em que as sabia atingidas”.131 Acontece-lhe ceder a essapiedade; chega a assumir compromissos, senão a cumpri-los: compromete-se a ajudar Andrée, a desposar Solange. Quando a piedade se retira de suaalma tais promessas morrem: não tem ele o direito de se contradizer? Ele é que estabelece as regras do jogo que joga consigo mesmo, como únicoparceiro.Não basta considerá-la inferior, lamentável. Montherlant quer que a mulher seja desprezível. Afirma por vezes que o conflito do desejo com o desprezoé um drama patético: “Ah” desejar o que se desdenha, que tragédia!... Ter que atrair e rechaçar quase no mesmo gesto, acender e logo jogar fora comose faz com um fósforo, eis a tragédia das relações com as mulheres!”132 Em verdade não há tragédia senão para o fósforo, o que é negligenciável.Quanto ao acendedor, preocupado com não queimar os dedos, é evidente que essa ginástica o encanta. Se seu prazer não fosse “desejar o que sedesdenha”, não se recusaria sistematicamente a desejar o que estima: Alban não afastaria Dominique: preferiria “amar na igualdade”; poderia evitardesdenhar o que deseja; afinal de contas, não se vê por que, a priori, uma pequena dançarina espanhola jovem, bonita, ardente, simples, é tãodesprezível. Por ser pobre, de baixa extração, sem cultura? É de temer que aos olhos de Montherlant sejam efetivamente taras. Mas principalmente elea despreza como mulher, por decreto; diz justamente que não é o mistério feminino que suscita os sonhos do homem e si m esses sonhos que criammistério; mas ele também projeta no objeto o que sua subjetividade exige: não é porque são desprezíveis que ele desdenha as mulheres; é porque ele asquer desdenhar que elas lhe parecem abjetas. Sente-se encarrapitado em cumes tanto mais altivos quanto maior é a distância entre elas e ele: é o queexplica que escolha, para seus heróis, amorosas tão lamentáveis. Ao grande escritor, Costals opõe uma solteirona virgem da província, atormentadapelo sexo e pelo tédio, e uma pequena burguesa da extrema direita, ingênua e interesseira; é medir assim com medidas bem humildes um indivíduosuperior: o resultado de tão inábil prudência é torná-lo bem pequeno a nossos olhos. Mas pouco importa, Costals acredita-se grande. As maisinsignificantes fraquezas da mulher bastam para alimentar-lhe a soberbia. Um texto de Les Jeunes filles é particularmente significativo. Antes dedormir com Costals, Solange faz sua toalete noturna. “Ela devia ir ao W.C., e Costals lembrou-se da égua que tivera, tão altiva e delicada que nãourinava nem sujava nunca quando ele a montava.” Percebe-se aqui o ódio da carne (pensa-se em Swift: Célia caga), a vontade de assimilar a mulher aum animal doméstico, a recusa em lhe reconhecer qualquer autonomia, ainda que d e ordem urinária; mas, principalmente, enquanto Costals se indignaesquece que ele também possui uma bexiga e um cólon; da mesma forma, quando se sente enojado de uma mulher banhada de suor e de odores, aboletodas as suas próprias secreções: é um puro espírito servido por músculos e um sexo de aço. “O desdém é mais nobre do que o desejo”, declaraMontherlant em Aux fontaines du désir; e Álvaro: “Meu pão é o nojo”. 133 Que álibi é o desprezo, quando se compraz em si mesmo! Em se contemplandoe julgando, sente-se o indivíduo radicalmente diferente do outro que condena , lava-se sem esforço das taras de que o acusam. Com que embriaguezMontherlant exala durante toda a sua vida seu desprezo pelos homens! Basta-lhe denunciar a estupidez deles para que se acredite inteligente, acovardia deles para que se imagine corajoso. No início da ocupação, entrega-se a uma orgia de desprezo pelos compatriotas vencidos: ele não é nemfrancês nem vencido; flutua acima de todos. Em meio a uma frase, convém em que afinal ele, Montherlant, que acusa, não fez nada mais do que osoutros para prevenir a derrota; não consentiu sequer em ser oficial; mas logo recomeça a acusar com uma fúria que lhe faz perder as estribeiras.134 Seele se mostra afligido com seus nojos é para os sentir mais sinceros e com eles se regozijar ainda mais. Na verdade, encontra nisso tantas comodidadesque procura sistematicamente arrastar a mulher para a abjeção. Diverte-se em tentar com dinheiro ou joias raparigas pobres: se aceitam seuspresentes mal-intencionados, rejubila-se. Joga um jogo sádico com Andrée pelo prazer, não de a fazer sofrer, mas sim de vê-la aviltar-se. Incita Solangeao infanticídio; ela admite a perspectiva e os sentidos de Costals se inflamam: e num enlevo de desprezo ele possui essa assassina em potencial.A chave dessa atitude está no apólogo das lagartas;135 qualquer que tenha sido a intenção recôndita, ele é em si mesmo bastante significativo. Mijandonas lagartas, Montherlant diverte-se com poupar algumas e exterminar outras; concede uma piedade sorridente às que se esforçam por viver e dá-lhes,generosamente, uma oportunidade; o brinquedo encanta-o. Sem as lagartas, o jato urinário não passaria de uma excreção; mas, assim, torna-se uminstrumento de vida e de morte; diante do bicho rastejante, o homem que alivia a bexiga conhece a solidão despótica de Deus, sem ameaça de
reciprocidade. Assim, ante os animais femininos, o homem, do alto de seu pedestal, ora cruel, ora terno, justo ou caprichoso, dá, retoma, satisfaz,apieda-se, irrita-se; só obedece a seu prazer; é soberano, livre, único. Mas é preciso que esses animais sejam unicamente animais; cumpre escolhê-losde propósito, lisojeando-lhe as fraquezas, tratando-os como bichos tão obstinadamente que acabem aceitando sua condição. Por isso, os brancos deLuisiana e Geórgia adoram os pequenos furtos e mentiras dos negros. Sentem-se confirmados na superioridade que lhes confere a cor da pele e, se umdesses negros insiste em se mostrar honesto, muito mais maltratado será. Assim se praticava sistematicamente nos campos de concentração oaviltamento do homem: a raça dos senhores encontrava nessa abjeção a prova de que era de essência sobre-humana.Esse encontro nada tem de casual. Sabe-se muito bem que Montherlant admira a ideologia nazista. Encanta-o ver a cruz gamada, que é a Roda solar,triunfar em uma das festas do Sol. “A vitória da Roda solar não é somente vitória do Sol, vitória do paganismo. É vitória do princípio solar de que tudogira... Vejo triunfar neste dia o princípio de que estou imbuído, que cantei, que com inteira consciência sinto governar minha vida”, escreve.136 Sabe-setambém com que adequado sentido de grandeza, durante a ocupação, ele propôs como exemplo, aos franceses, esses alemães “que respiram o grandeestilo da força”. 137 O mesmo gosto pânico da facilidade que o levava a fugir diante dos iguais põe-no de joelhos ante os vencedores: crê que, em seajoelhando, se identifica a eles; ei-lo vencedor, o que sempre desejou, contra um touro, contra lagartas ou contra mulheres, contra a própria vida e aliberdade. É justo dizer que já antes da vitória ele incensava os “sedutores totalitários”.138 Como eles, sempre fora niilista, sempre detestara os homens.“Não vale sequer a pena conduzir os indivíduos (e não é necessário que a humanidade nos tenha feito alguma coisa para detestá-la a esse ponto)”,escreve;139 como eles, acreditava que certos seres: raça, nação ou ele próprio, Montherlant, detêm um privilégio absoluto que lhes confere todos osdireitos sobre outrem. Toda sua moral justifica e quer a guerra e as perseguições. Para julgar sua atitude com as mulheres, convém examinar essa éticamais de perto. Porque fora precis o afinal saber em nome de quê elas são condenadas.A mitologia nazi sta tinha uma infraestrutura histórica: o niilismo exprimia o desespero alemão; o culto do herói servia a fins positivos pelos quaismilhões de soldados morreram. A atitude de Montherlant não tem nenhuma contrapartida positiva e não exprime senão sua própria escolha existencial.Em verdade, esse herói escolheu o medo. Há, em toda consciência, uma pretensão à soberania: mas só pode afirmar-se arriscando-se. Nunca nenhumasuperioridade é dada porque, reduzido à sua subjetividade, o homem não é nada; é entre os atos e as obras que se podem estabelecer hierarquias.Cumpre conquistar o mérito, sem cessar; Montherlant, ele próprio, o sabe. “Só se tem direito sobre o que se está disposto a arriscar.” Mas ele jamaisquis arriscar-se no meio de seus semelhantes. E é porque não ousa enfrentá-la que quer abolir a humanidade. “Odioso obstáculo o dos seres”, diz o rei de La Reine morte. Sim, porque desmentem a “fantasia” complacente que o vaidoso cria em torno de si. É preciso negá-los. É notável que nenhuma dasobras de Montherlant descreva-nos um conflito de homem com homem; a coexistência é que é o grande drama vivo: ele o evita. Seu herói ergue-sesempre apenas perante animais, crianças, mulheres, paisagens; luta contra seus próprios desejos (como a rainha de Pasiphaé) ou contra suas própriasexigências (como Le Maître de Santiago) mas nunca há alguém a seu lado. O próprio Alban, em Le Songe, não tem companheiro: desdenha Prinet vivo esó se exalta sobre seu cadáver. A obra, como a vida de Montherlant, só admite uma consciência.Em consequência, todo sentimento desaparece desse universo; não pode haver relação intersubjetiva se há apenas um sujeito. O amor é irrisório; masnão é em nome da amizade que é desprezível, pois a “amizade carece de vísceras”.140 E toda solidariedade humana é recusada com altive z. O herói nãofoi engendrado, não é limitado pelo espaço e pelo tempo: “Não vejo nenhum motivo razoável para me interessar pelas coisas exteriores que me sãocontemporâneas, como não vejo tampouco para me interessar por qualquer ano do passado”.141 Nada do que acontece a outrem tem importância paraele: “Em verdade, os acontecimentos nunca me importaram. Só os amava nos raios de luz que produziam em mim ao me atravessarem... Que sejam poiso que querem ser.”142 A ação é impossível: “Ter tido o ardor, a energia, a audácia e não ter podido pô-los à disposição d e quem quer que seja por faltade fé em alguma coisa de humano!”143 Isto significa que toda transcendência é proibida. Montherlant reconhece-o. O amor e a amizade são tolices, odesprezo impede a ação; ele não crê na arte pela arte, e não crê em Deus. Resta apenas a imanência do prazer: “Minha única ambição foi usar meussentidos melhor do que os outros”, escreve em 1925.144 E ainda: “Em suma, que quero? A posse dos seres que me agradam na paz e na poesia.”145 E em1941:146 “Mas eu que acuso, que fiz desses vinte anos? Foram um sonho cheio de meu prazer. Vivi de cá para lá embriagando-me do que amo: de lábioscolados com a vida!” Seja. Mas não é precisamente porque chafurda na imanência que a mulher é espezinhada? Que fins mais elevados, que grandesdesígnios opõe Montherlant ao amor possessivo da mãe, da amante? Ele também busca a “posse”; e quanto aos “lábios colados com a vida”, muitasmulheres poderiam dar-lhe troco. É verdade que ele aprecia singularmente os prazeres insólitos: os que se podem tirar dos animais, dos rapazes, dasmeninas impúberes; fica indignado porque uma amante apaixonada se recusa a pôr em sua cama a filha de doze anos: mesquinharia muito pouco solar.Não sabe ele que a sensualidade das mulheres não é menos atormentada que a dos homens? Se se trata de hierarquizar os sexos segundo esse critério,talvez elas ganhem. Para dizer a verdade, as incoerências de Montherlant são aqui monstruosas. Em nome da “alternância” ele declara que,exatamente porque nada tem valor, tudo igualmente tem valor; aceita tudo, quer tudo abraçar e agrada-lhe que sua largueza de espírito assuste asmães de família; era ele, entretanto, que durante a ocupação reclamava uma “inquisição”,147 que censurasse filmes e jornais; as coxas das girls norte-americanas dão-lhe nojo, o sexo luzidio de um touro exalta-o; gosto não se discute. Cada qual recria a seu modo a “fantasia”; em nome de que valoresesse grande devasso cospe com repugnância sobre as orgias alheias? Porque não são suas? Mas toda moral consiste então em ser Montherlant?Ele responderia evidentemente que gozar não é tudo: depende do je ito. É preciso que o prazer seja o reverso de uma renúncia, que o voluptuoso sesinta também com o estofo de um herói e de um santo. Mas muitas mulheres são peritas em conciliar seus prazeres com a alta opinião que têm de simesmas. Por que devemos acreditar que os sonhos narcisistas de Montherlant valem mais do que os delas?Pois, em verdade, é de sonhos que se trata. Como Montherlant recusa todo conteúdo objetivo às palavras com que joga, grandeza, santidade, heroísmonão passam de brinquedos. Montherlant tem medo de arriscar sua superioridade perante os homens. Para se embriagar com esse vinho exaltante,refugiou-se nas nuvens: o Único é certamente soberano. Ele se encerra em seu gabinete de miragens: os espelhos devolvem-lhe sua imagem de todosos lados e ele acredita que pode, sozinho, povoar a terra. Porém não passa de um recluso prisioneiro de si mesmo. Acredita-se livre, mas aliena aliberdade em proveito de seu ego; molda a estátua de Montherlant segundo normas tomadas de empréstimo às imagens de Epinal. Alban, afastandoDominique porque deparou no espelho com uma cara de tolo, ilustra essa escravidão. Só se é tolo aos olhos de outrem. O orgulhoso Alban submete ocoração a essa consciência coletiva que despreza. A liberdade de Montherlant é uma atitude, não uma realidade. Sendo-lhe impossível a ação, por faltade objetivos, consola-se com gestos: faz mímica. As mulheres são para ele parceiros cômodos; dão-lhe a réplica, ele apropria-se do papel principal,cinge-se de louros e envolve-se em púrpura, mas tudo se passa em palco privado; na praça pública, sob um céu de verdade, o comediante não enxergamais direito, não fica em pé, titubeia, cai. Em um assomo de lucidez, Costals148 exclama: “No fundo, que palhaçada essas “vitórias” contra asmulheres!” Sim. Os valores, as façanhas que Montherlant n os propõe são uma triste farsa. Os grandes acontecimentos que o embriagam são tambémsimples gestos, nunca empreendimentos: comove-se com o suicídio de Peregrinus, a ousadia de Pasiphaé, a elegância do japonês que abriga oadversário sob o guarda-chuva antes de trespassá-lo em duelo. Mas dec lara que “a pessoa do adversário e as ideias que se admite que este representanão têm tanta importância”.149 Essa declaração ecoa de maneira singular em 1941. Toda guerra é bela, diz ele ainda, qualquer que seja o fim; a força ésempre admirável, sirva a quem servir. “O combate sem a fé é a fórmula a que chegamos forçosamente se queremos conservar a única ideia aceitáveldo homem: essa em que ele é, a um tempo, o herói e o sábio.”150 Mas é curioso que a nobre indiferença de Montherlant por todas as causas o tenhainclinado, não para a resistência, e sim para a Revolução nacional; que sua soberana liberdade tenha escolhido a submissão, e que tenha buscado osegredo de sua sabedoria heroica não nos maquis, mas entre os vencedores. Isso não é tampouco um acidente. É em tais mistificações que desemboca opseudossublime da La Reine morte e do Maître de Santiago. Nesses dramas, tanto mais significativos quanto pretensiosos, veem-se dois machosimperiosos que sacrificam a seu orgulho vazio mulheres culpadas tão somente de serem seres humanos; elas aspiram ao amor e à felicidade terrestre.Para puni-las, tira-se a vida de uma e a alma de outra. Mais uma vez perguntamos: em nome de quê? O autor responde com altivez: de nada. Não quisque o rei tivesse motivos imperiosos para matar Inês: o assassínio não passaria de um crime político trivial. “Por que a mato? Há sem dúvida uma razãomas não a distingo”, afirma ele. A razão está em que é necessário que o princípio solar triunfe sobre a trivialidade terrestre; mas esse princípio, já ovimos, não ilumina nenhum fim: exige a destruição, nada mais. Quanto a Álvaro, Montherlant diz-nos, em um prefácio, que se interessa por certoshomens desse tempo “por sua fé decidida, seu desprezo pela realidade exterior, seu gosto pela ruína, seu furor do nada”. A esse furor é que o senhor deSantiago sacrifica a filha. Será enfeitado com a linda e brilhante palavra misticismo. Não é medíocre preferir a felicidade à mística? Em verdade, ossacrifícios e as renúncias só têm sentido dentro da perspectiva de um fim, um fim humano; e os fins que ultrapassam o amor singular, a felicidadepessoal, só podem existir num mundo que reconhece o valor do amor e da felicidade; a “moral das costureirinhas” é mais autêntica do que as fantasiasdo vazio, porque tem suas raízes na vida e na realidade. E é daí que podem nascer as aspirações mais vastas. Im aginamos facilmente Inês de Castroem Buchenwald e o rei a cortejar a embaixada da Alemanha por motivo de Estado. Muitas costureirinhas mereceram durante a ocupação um respeitoque não temos por Montherlant. As palavras vazias com que se empanturra são perigosas por seu próprio vazio: a mística sobre-humana autoriza todasas devastações temporais. O fato é que, nos dramas de que falamos, ele se afirma mediante dois assassínios: um físico e outro moral. Álvaro não temmuito que caminhar para se tornar arisco, solitário, menosprezado, um grande inquisidor; nem o rei, incompreendido, renegado, um Himmler. Mata-seàs mulheres, aos judeus, aos homens efeminados e aos cristãos judaizantes, a tudo o que se tem interesse ou prazer em matar em nome de grandesideias. É somente por negações que se podem afirmar as místicas negativas. A verdadeira superação é uma marcha positiva para o futuro, o futuro doshomens. O falso herói, para se persuadir de que foi muito longe, de que paira muito alto, olha sempre para trás, para os pés; despreza, acusa, oprime,persegue, tortura, extermina. É pelo mal que faz ao próximo que se estima superior a este. Tais são os cumes que Montherlant nos aponta de dedo emriste quando interrompe seus “lábios colados com a vida”.“Como o burro das noras árabes, giro, giro, cego e passando sempre de novo sobre minhas pegadas. Só que não faço jorrar água fresca.” Há pouco queacrescentar a essa confissão que Montherlant assinava em 1927. A água fresca nunca jorrou. Talvez Montherlant devesse ter acendido a fogueira dePeregrinus: era a solução mais lógica. Preferiu refugiar-se em seu próprio culto. Em vez de entregar-se a esse mundo que não sabia fertilizar,contentou-se em mirar-se nele, e ordenou sua vida em atenção a essa miragem somente visível a seus olhos. “Os príncipes sentem-se à vontade emquaisquer circunstâncias, mesmo na derrota”,151 e como se compraz na derrota, acredita-se rei. Aprendeu com Nietzsche que “a mulher é o passatempodo herói” e crê que basta divertir-se com mulheres para se consagrar herói. O resto segue a mesma linha. Como diz Costals: “No fundo, quepalhaçada!”
II/D. H. LAWRENCE OU O ORGULHO FÁLICO Lawrence situa-se em posição diametralmente oposta a Montherlant. Não se trata para ele de definir as relações singulares da mulher com o homem,mas sim de recolocá-los ambos dentro da verdade da Vida. Essa verdade não é nem representação nem vontade: ela envolve a animalidade em que oser humano mergulha suas raízes. Lawrence recusa com paixão a antítese sexo-cérebro; há nele um otimismo cósmico que se opõe radicalmente aopessimismo de Schopenhauer; o querer-viver que se exprime no falo é alegria; e é nele que pensamento e ação devem ter sua fonte, sob pena de seremconceito vazio, mecanismo estéril. O simples ciclo sexual é insuficiente porque recai na imanência: é sinônimo de morte; porém, vale mais ainda essarealidade mutilada: sexo e morte, do que uma existência desligada do humo carnal. O homem não tem somente necessidade, como Anteu, de retomarpor momentos contato com a terra; sua vida de homem deve ser inteiramente expressão de sua virilidade que põe e exige imediatamente a mulher; estanão é, portanto, nem divertimento nem presa, não é um objeto em face de um sujeito e sim um polo necessário à existência do polo de sinal contrário.Os homens que desprezaram essa verdade, um Napoleão, por exemplo, falharam em seu destino de homem: são uns frustrados. Não é afirmando suasingularidade, é realizando sua generalidade da maneira mais intensa possível que o indivíduo pode salvar-se: macho ou fêmea, nunca deve procurarnas relações eróticas o triunfo de seu orgulho nem a exaltação de seu eu; servir-se do sexo como instrumento de sua vontade é um erro irreparável; épreciso destruir as barreiras do e go, ultrapassar os próprios limites da consciência, renunciar a toda soberania pessoal. Nada é mais belo do que essaestatueta representando uma mulher parindo,152 “uma figura terrivelmente vazia, pontuda, tornada abstrata até a insignificância sob o peso dasensação experimentada”. Esse êxtase não é nem um sacrifício nem um abandono; não se trata para nenhum dos sexos de ser tragado pelo outro, nemo homem nem a mulher devem apresentar-se como o fragmento partido de um casal; o sexo não é ferimento; cada um dos indivíduos é um sercompleto, perfeitamente polarizado; quando um se afirma em sua virilidade e o outro em sua feminilidade, “um e outro realizam a perfeição do circuitopolarizado dos sexos”; 153 o ato sexual é, sem anexação, sem rendição de nenhum dos parceiros, a realização maravilhosa de um pelo outro. QuandoUrsule e Bikrin154 se encontram, enfim, “eles se dão reciprocamente esse equilíbrio estelar, o único que se pode chamar liberdade. Ela era para ele oque ele era para ela, a magnificência imemorial da outra realidade, mística e palpável”. Ascendendo um ao outro no arranco generoso da paixão, osdois amantes ascendem juntos ao Outro, ao Todo. Assim ocorre com Paul e Clara,155 no momento de seu amor: ela é para ele “uma vida forte, estranha,selvagem que se misturava à dele. Era tão maior do que eles que se viam reduzidos ao silêncio. Tinham-se encontrado e em seu encontro confundia-se oimpulso das inumeráveis folhazinhas de erva, os turbilhões das estrelas”. Lady Chatterley e Mellors alcançam as mesmas alegrias cósmicas:misturando-se um ao outro, eles misturam-se às árvores, à luz, à chuva. Lawrence desenvolveu amplamente essa doutrina na Defesa de LadyChatterley: “O casamento não passa de uma ilusão, se não é duradouro e radicalmente fálico, se não se liga ao sol e à terra, à lua, às estrelas e aosplanetas, ao ritmo dos dias e ao ritmo dos meses, ao ritmo das estações, dos anos, dos lustros e dos séculos. O casamento não é nada, se não se alicerçanuma correspondência de sangue. Porque o sangue é a substância da alma.” “O sangue do homem e da mulher são dois rios eternamente diferentesque não se podem misturar.” Eis por que esses rios envolvem com seus meandros a totalidade da vida. “O falo é um volume de sangue que enche o valede sangue da mulher. O poderoso rio de sangue masculino envolve em sua última profundidade o grande rio do sangue feminino... no entanto nenhumdos dois rompe suas comportas . É a comunhão mais perfeita... e é um dos maiores mistérios.” Essa comunhão é um milagroso enriquecimento; masexige que as pretensões da “personalidade” sejam abolidas. Quando as personalidades procuram atingir-se sem se renegar, como acontece comumentena civilização moderna, a ten tativa é fadada ao fracasso. Há então uma sexualidade “pessoal, lívida, fria, nervosa, poética” que é dissolvente para acorrente vital de cada um. Os amantes tratam-se como instrumentos, o que engendra o ódio entre eles: assim ocorre entre Lady Chatterley e Michaelis;permanecem encerrados em sua subjetividade; podem conhecer uma febre análoga à que dá o álcool ou o ópio, mas que é sem objeto: não descobrem arealidade do outro; não chegam a nada. Lawrence teria condenado Costals sem apelo. Pintou em Gérard,156 um desses machos orgulhosos e egoístas; eGérard é, em grande parte, responsável por esse inferno em que se precipita com Gudrun. Cerebral, obstinado, compraz-se na afirmação vazia de seueu e retesa- se contra a vida; pelo prazer de domar uma égua fogosa, mantém-na encostada a uma cerca por trás da qual um trem passa ruidosamente;ensanguenta-lhe os flancos rebeldes e embriaga-se com seu próprio poder. Essa vontade de domínio avilta a mulher contra a qual se exerce; fraca, ei-latransformada em escrava. Gérard debruça-se sobre Minette: “Seu olhar elementar de escrava violentada, cuja razão de ser é ser perpetuamenteviolentada, fazia os nervos de Gérard vibrarem... A única vontade era a dele; ela era a substância passiva dessa vontade.” Eis uma soberania miserável;se a mulher não passa de uma substância passiva, o que o homem domina não é nada. Ele pensa possuir, enriquecer-se: é uma ilusão. Gérard apertaGudrun nos braços: “Ela era a substância rica e adorável do seu ser... Ela esvaíra-se nele e ele atingia a perfeição.” Mas logo que a deixa, torna aencontrar-se só e vazio. E, no dia seguinte, ela não comparece ao encontro marcado. Se a mulher é forte, a pretensão do macho nela suscita umapretensão simétrica; fascinada e rebelde, faz-se masoquista e sádica alternativamente. Gudrun sente-se transtornada e perturbada quando vê Gérardapertar entre as coxas os flancos da égua assustada; mas perturba-se também quando a ama de Gérard lhe conta que outrora “ela lhe beliscava abundinha”. A arrogância masculina exaspera as resistências femininas. Enquanto Ursule é vencida e salva pela pureza sexual de Birkin, como LadyChatterley pela do guarda florestal, Gérard arrasta Gudrun para uma luta sem saída. Certa noite, infeliz, debilitado por um luto, entrega-se aos braçosdela. “Ela era o grande banho de vida, ele a adorava. Ela era a mãe e a substância de todas as coisas. A emanação milagrosa e doce de seu seio demulher invadia-lhe o cérebro ressequido e doente como uma ninfa reconfortante, como o fluxo calmante da própria vida, perfeito como se ele sebanhasse de novo no seio materno.” Nessa noite, ele pressente o que poderia ser uma comunhão com a mulher; mas é demasiado tarde; sua felicidadeestá viciada, pois Gudrun não se acha realmente presente. Deixa Gérard dormir sobre o ombro, mas permanece acordada, impaciente, separada. É ocastigo do indivíduo em luta consigo mesmo; não pode, sozinho, romper a solidão: erguendo as barreiras do eu, ergueu as do Outro, não o alcançaránunca mais. No fim, Gérard morre, morto por Gudrun e por si mesmo.Nenhum sexo portanto se apresenta inicialmente como p rivilegiado. Nenhum é sujeito. Assim como não é uma presa, não é a mulher um simplespretexto. Malraux157 observa que para Lawrence não basta, como basta ao hindu, que a mulher seja a oportunidade de um contato com o infinito, àmaneira, por exemplo, de uma paisagem: seria fazer dela, de outro modo, um objeto. Ela é tão real quanto o homem; é a comunhão real que cumprealcançar. Por isso é que os heróis aprovados por Lawrence exigem muito mais da amante do que do corpo: Paul não aceita que Myriam se entregue aele por um terno sacrifício; Birkin não quer que Ursule se restrinja a buscar prazer em seus braços; fria ou ardente, a mulher que permaneceencerrada em si mesma deixa o homem com sua solidão: ele deve rechaçá-la. É preciso que ambos se entreguem de corpo e alma. Se esse dom serealizou, eles devem continuar fiéis para sempre. Lawrence é partidário do casamento monógamo. Só existe busca de variedade quando h á interessepela particularidade dos seres: mas o casamento fálico é baseado na generalidade. Quando o circuito virilidade-feminilidade se estabelece, nenhumdesejo de mudança é concebível: é um circuito perfeito, fechado em si, definitivo.Dom recíproco, fidelidade recíproca: será realmente o reinado do reconhecimento mútuo? Longe disso. Lawrence acred ita apaixonadamente nasupremacia do homem. A própria expressão “casamento fálico”, a equivalência que estabelece entre sexual e fálico provam-no suficientemente. Dasduas correntes de sangue que misteriosamente se casam, a corrente fálica é privilegiada. “O falo serve de traço de união entre os dois rios: conju ga osdois ritmos diferentes em uma única corrente.” Desse modo, o homem é não somente um dos termos do casal, mas ainda sua relação; sua superação: “Aponte que conduz ao futuro é o falo.” Lawrence procura substituir um culto fálico ao culto da Deusa-Mãe; quando quer ressaltar a natureza sexual docosmo, não é o ventre da mulher mas a virilidade do homem que evoca. Quase nunca pinta um homem perturbado pela mulher, mas cem vezes descrevea mulher secretamente transtornada pelo apelo vivo, sutil, insinuante do homem; suas heroínas são belas e sadias mas não obstinadas, ao passo queseus heróis são faunos inquietantes. São os animais machos que encarnam o poderoso e perturbador mistério da vida; as mulheres sentem-lhe osortilégio: uma comove-se com um raposo, outra apaixona-se por um garanhão, Gudrun desafia febrilmente um bando de bezerros; impressiona-a ovigor rebelde de um coelho. Nesse privilégio cósmico enxerta-se um privilégio social. Talvez por ser a corrente fálica impetuosa, agressiva, por projetar-se no futuro — Lawrence não o explica muito claramente —, ao homem é que cabe “marchar à frente carregando as flâmulas da vida”;158 ele se retesaem direção a metas, encarna a transcendência; a mulher é absorvida por seus próprios sentimentos, é toda interioridade; está votada à imanência. Nãosomente o homem desempenha o papel ativo na vida sexual, como ainda é por ele que essa vida é ultrapassada; acha-se arraigado ao mundo sexual masevade-se; ela permanece encerrada nele. O pensamento e a ação têm suas raízes no falo; por não possuir falo, a mulher não tem direito nem a um nema outra; pode desempenhar o papel de homem, e até brilhantemente, mas seu desempenho é falso. “A mulher é polarizada para baixo, para o centro daterra. Sua polaridade profunda é o fluxo dirigido para baixo, a atração lunar. O homem é, ao contrário, polarizado para cima, para o Sol e para aatividade diurna.”159 Para a mulher, “a mais profunda consciência jaz em seu ventre e em seus rins... Se ela se volta para o alto ocorre um momento emque tudo desmorona”.160 No terreno da ação o homem é que deve ser o iniciador, o positivo; a mulher é o positivo no terreno da emoção. Desse modo,Lawrence reencontra a concepção burguesa tradicional de Bonald, Auguste Comte, Clément Vautel. A mulher deve subordinar sua existência à dohomem. “Ela deve acreditar em vós, na meta profunda para a qual tendeis.”161 Então o homem lhe devotará ternura e gratidão infinitas. “Ah! Doçura devoltar para casa junto da mulher quando ela acredita em nós e aceita que nosso desígnio a supere... Sentimos uma gratidão insondável para com amulher que nos ama...”162 Lawrence acrescenta que, para merecer esse devotamento, cumpre que o homem seja autenticamente habitado por umgrande desígnio; se o projeto não passa de uma impostura, o casal se afunda em uma mistificação irrisória; mais vale ainda encerrar-se no ciclofeminino; amor e morte, como Ana Karenina e Vronsky, Carmen e D. José, do que mentir um a outro como Pierre e Natacha. Mas, sob essa reserva, oque propugna Lawrence é, à maneira de Proudhon, de Rousseau, o casamento monógamo em que a mulher encontra no marido a justificação daprópria existência. Contra a mulher que aspira a inverter os papéis, Lawrence tem inflexões tão carregadas de ódio quan to Montherlant. Se elarenuncia a desempenhar o papel de Magna Mater, a pretender deter a verdade da vida; açambarcadora, devorante, ela mutila o macho, fá-lo recair naimanência e o desvia de seus fins. Lawrence está longe de amaldiçoar a maternidade, ao contrário; alegra-se em ser carne, aceita o nascimento, adora amãe. As mães apresentam-se em sua obra como magníficos exemplos de verdadeira feminilidade; elas são pura renúncia, generosidade absoluta, todoseu calor vivo é dedicado ao filho; aceitam que ele se torne homem e se orgulham disso. Mas é preciso temer a amante egoísta que busca reconduzir ohomem à infância. Ela quebra o impulso do macho. “A lua, planeta das mulheres, chama-nos para trás.”163 Ela fala incessantemente de amor; mas amar,para ela, é possuir, é encher o vazio que ela sente em si; esse amor assemelha-se ao ódio; por isso é que Hermione sofre de horrível deficiência, porque
nunca soube dar-se e desejaria incorporar Birkin a si. Malogra. Tenta matá-lo e o êxtase voluptuoso que experimenta ao batê-lo é idêntico ao espasmoegoísta do prazer.164 Lawrence detesta as mulheres modernas, criaturas de celuloide e de borracha que reivindicam uma consciência. Quando a mulhertoma sexualmente consciência de si própria, ei-la que “caminha pela vida, agindo de uma maneira inteiramente cerebral e obedecendo às ordens deuma vontade mecânica”.165 Ele proíbe-lhe ter uma sensualidade autônoma; ela é feita para entregar-se, não para possuir. Pela boca de Mellors,Lawrence proclama seu horror às lésbicas. Mas censura também a mulher que, diante do homem, assume uma atitude desinteressada ou agressiva.Paul sente-se magoado e irritado quando Myriam acaricia-lhe os flancos dizendo: “És belo.” Gudrun, como Myriam, erra quando se encanta com abeleza do amante. Essa contemplação separa-os, tanto quanto a ironia das frias intelectuais que julgam o pênis irrisório e ridícula a ginásticamasculina; a procura encarniçada do prazer não é menos censurável; há um gozo agudo, solitário, que também separa, e a mulher não deve voltar-separa ele. Lawrence esboçou vários retratos dessas mulheres independentes, dominadoras, que falham em sua vocação feminina. Ursule e Gudrun166 sãodessa espécie. Inicialmente, Ursule é uma açambarcadora. “O homem teria que se entregar a ela até a borra...” Ela aprende a dominar a vontade. MasGudrun obstina-se; cerebral, artista, inveja ferozmente a independência e as possibilidades de ação dos homens; faz questão de conservar intata suaindividualidade; quer viver para si mesma. Irônica, possessiva, ficará para sempre encerrada em sua subjetividade. A figura mais significativa, por ser amenos sofisticada, é a de Myriam.167 Gérard é, em parte, responsável pelo malogro de Gudrun; diante de Paul, Myriam carrega sozinha o fardo de suadesgraça. Ela também gostaria de ser homem; odeia os homens; não se aceita em sua generalidade, quer “distinguir-se”; por isso a grande corrente davida não a atravessa; pode assemelhar-se a uma feiticeira, a uma sacerdotisa, nunca a uma bacante; só se comove com as coisas quando as recria emsua alma, dando-lhes um valor religioso, e esse próprio fervor separa-a da vida; ela é poética, mística, inadaptada. “Seu esforço exagerado fechava-sesobre si mesmo... Ela não era inábil e no entanto nunca fazia o movimento que convinha.” Ela procura alegrias muito interiores e a realidadeamedronta-a; a sexualidade amedronta-a; quando se deita com Paul, seu coração conserva-se arredio numa espécie de terror; tem sempre consciência,nunca vida: não é uma companheira; não consente em se fundir com o amante, quer absorvê-lo nela. Ele se irrita com essa vontade; é tomado deviolenta cólera quando a vê acariciar flores: diria-se que quer arrancar-lhes o coração. Insulta-a: “Você é uma mendiga de amor; não tem necessidadede amar mas sim de ser amada. Quer encher-se de amor porque lhe falta alguma coisa, não sei o quê.” A sexualidade não é feita para encher um vazio;deve ser a expressão de um ser acabado. O que as mulheres chamam amor é sua avidez diante da força viril de que gostariam de apossar-se. A mãe dePaul pensa lucidamente acerca de Myriam: “Ela o quer todo, quer extraí-lo de si mesmo e devorá-lo.” A jovem alegra-se quando o amigo está doenteporque poderá tratar dele: pretende servi-lo, mas é uma maneira de lhe impor sua vontade. Porque fica separada dele, excita em Paul “um ardorsemelhante à febre, como faz o ópio”, mas é incapaz de dar-lhe alegria e paz; do fundo de seu amor, no segredo de si mesma, “detestava Paul porqueele a amava e dominava”. Por isso Paul afasta-se dela. Busca seu equilíbrio junto de Clara; bela, viva, animal, esta entrega-se sem reservas e os amantesatingem momentos de êxtase que os superam a amb os. Mas Clara não compreende essa revelação. Acredita que deve sua alegria ao próprio Paul, à suasingularidade, e deseja apropriar-se dele: mas não consegue guardá-lo porque também o quer todo para ela. A partir do momento em que o amor seindividualiza, transforma-se em egoísmo ávido e o milagre do erotismo dissipa-se.É preciso que a mulher renuncie ao amor pessoal: nem Mellors nem Don Cipriano consentem em dizer palavras de amor a suas amantes. Tere sa, que émulher exemplar, indigna-se quando Kate lhe pergunta se ama Dom Ramon.168 “Ele é minha vida”, responde. O dom que lhe consentiu é coisa muitodiferente do amor. A mulher como o homem deve abdicar todo orgulho e toda vontade; se, para o homem, encarna a vida, encarna-o também para si;Lady Chatterley só encontra paz e alegria porque reconhece essa verdade: “renunciaria a seu duro e brilhante poder feminino que a cansava eretesava, mergulharia no novo banho de vida, na profundidade de suas entranhas que cantavam a canção sem voz da adoração”; então ela alcança aembriaguez das bacantes; obedecendo cegamente ao amante, não se procurando nos braços dele, com ele forma um casal harmônico, afinado com achuva, as árvores, as flores da primavera. De igual modo, Ursule, entre os braços de Birkin, renuncia à própria individualidade e eles atingem juntosum “equilíbrio estelar”. Mas é principalmente A serpente emplumada que reflete em sua integridade o ideal de Lawrence. Porque Don Cipriano é umdesses homens que “vão à frente carregando as flâmulas da vida”; tem uma missão a que se entrega completamente, a tal ponto que a virilidade nele sesupera e se exalta até a divindade: faz-se sagrar deus e não é mistificação, é que todo homem plenamente homem é um deus; merece, portanto, adedicação absoluta de uma mulher. Imbuída de preconceitos ocidentais, Kate recusa, a princípio, essa dependência, apega-se à sua personalidade e àsua existência limitada; mas, pouco a pouco, deixa-se penetrar pela grande corrente da vida, dá a Cipriano seu corpo e sua alma. Não é uma rendiçãode escrava: antes de resolver ficar com ele, exige que ele reconheça a necessidade que tem dela; ele a reconhece, porquanto efetivamente a mulher énecessária ao homem; ela consente então em não ser nunca outra coisa senão sua companheira: adota os objetivos, os valores, o universo dele. Essasubmissão exprime-se no próprio erotismo; Lawrence não quer que a mulher se contraia na busca do prazer, separada do homem pelo espasmo que asacode; ele recusa-lhe deliberadamente o orgasmo; Don Cipriano afasta-se de Ka te quando sente nela a aproximação desse gozo nervoso; ela renunciaaté a essa autonomia sexual. “Sua ardente vontade de mulher e seu desejo aplacavam-se nela e dissipavam-se, deixando-a toda doçura e submissãocomo as nascentes de água quente que saem da terra sem ruído e são, entretanto, tão ativas e poderosas em seu poder secreto.”Compreende-se por que os romances de Lawrence são antes de tudo “educação de mulheres”. É infinitamente mais difícil para a mulher do que para ohomem submeter-se à ordem cósmica, porque ele se submete de maneira autônoma, ao passo que ela precisa da medição do hom em. É quando o Outroassume a figura de uma consciência e de uma vontade alheias que há realmente rendição; uma submissão autônoma, ao contrário, assemelha-seestranhamente a uma decisão soberana. Os heróis de Lawrence ou são condenados desde o iní cio ou desde o início detêm o segredo dasabedoria;169 sua submissão ao cosmo consumou-se desde muito e eles tiram dela tamanha segurança interior que parecem tão arrogantes como umindividualista orgulhoso; um deus fala pelas suas bocas: o próprio Lawrence. Ao passo que a mulher deve inclinar-se diante da divindade. Que o homemseja um falo e não um cérebro, o indivídu o que participa da virilidade conserva seus privilégios; a mulher não é o mal, ela é até boa, mas subordinada.É ainda o ideal da “verdadeira mulher” que Lawrence nos propõe, isto é, da mulher que aceita, sem reticência, definir-se como o Outro. III/CLAUDEL OU A SERVA DO SENHOR A originalidade do catolicismo de Claudel está num otimismo tão obstinado que o próprio mal retorna ao bem.“O mal mesmo“Comporta um bem que é preciso não deixar perder-se.”170Adotando o ponto de vista que só pode ser o do Criador — desde que o supõem todo-poderoso, onisciente e benevolente —, Claudel adere a toda acriação; sem o inferno e o pecado, não haveria nem liberdade nem salvação. Quando fez surgir este mundo do nada, Deus premeditou a queda e aredenção. Aos olhos dos judeus e dos cristãos a desobediência de Eva colocara as mulheres em má situação: sabe-se quanto os padres da Igrejadesprezaram a mulher. Ei-la, ao contrário, justificada, se se admite que serviu assim os desígnios divinos. “A mulher! Esse serviço que outrora, peladesobediência, prestou a Deus no paraíso terrestre; esse profundo entendimento que se estabeleceu entre Ele e ela; essa carne que pelo erro foi postaà disposição da Redenção!”171 Talvez ela seja a fonte do pecado e por ela o homem perdeu o paraíso, mas os pecados dos homens f oram resgatados eeste é novamente abençoado:“Não saímos deste paraíso de delícias em que Deus inicialmente nos colocou.”172“Toda terra é a Terra Prometida.”173Nada do que saiu das mãos de Deus, nada do que é dado poderia ser ruim em si: “É com toda sua obra que oramos a Deus! Nada do que ele fez é vão,nada que seja estranho à nossa salvação.”174 Mais ainda, nenhuma coisa há que não seja necessária. “Todas as coisas que ele criou juntas secomunicam, todas são, ao mesmo tempo, mutuamente necessárias.”175 Assim, a mulher tem seu lugar na harmonia do universo; mas não é um lugarqualquer; há “uma paixão estranha, e escandalosa aos olhos de Lúcifer, que liga o Eterno a essa flor momentânea do Nada”.176Evidentemente, a mulher pode ser destruidora: Claudel encarnou em Lechy,177 a mulher má que conduz o homem a sua perda; em Partage de midi, Ysédevasta a vida dos que caem na armadilha de seu amor. Mas, se não houvesse esse risco de perda, não existiria tampouco salvação. A mulher “é oelemento de risco que, deliberadamente, Ele introduziu no meio de sua prodigiosa construção”.178 É bom que o homem conheça as tentações da carne.“É esse inimigo, existente dentro de nós, que dá à nossa vida seu elemento dramático, esse sal angustiante. Se nossa alma não fosse tão brutalmenteatacada, ela dormiria, e ei-la que salta... É a luta o aprendizado da vitória.”179 Não é somente pelo caminho do espírito, mas também pelo da carne que ohomem é chamado a tomar consciência de sua alma. “E que carne, para falar ao homem, mais poderosa que a da mulher?”180 Tudo o que a arranca aosono, à segurança lhe é útil: o amor, qualquer que seja a forma pela qual se apresente, tem essa virtude de surgir em “nosso pequeno mundo pessoal,arranjado pela nossa medíocre razão, como um elemento profundamente perturbador”.181 Muitas vezes a mulher é apenas uma decepcionante doadorade ilusão:“Sou a promessa que não pode ser cumprida e minha graça nisso mesmo consiste.“Sou a doçura do que é, com a saudade do que não é. Sou a verdade com a fisionomia do erro e quem me ama não se preocupa com deslindar uma daoutra.”182
Mas a ilusão tem também uma utilidade; é o que o Anjo da Guarda anuncia a Dona Prouhèze:“— Mesmo o pecado! O pecado também serve.“— Então era bom que ele me amasse?“— Era bom que lhe ensinasses o desejo.“— O desejo de uma ilusão? De uma sombra que lhe escapa para sempre?“— O desejo é do que é, a ilusão é do que não é. O desejo através da ilusão.“É do que é através do que não é.”183E o que Prouhèze por vontade de Deus foi para Rodrigo é:“Uma espada atravessada no coração.”184Mas nas mãos de Deus a mulher não é apenas essa lâmina, essa queimadura; os bens deste mundo não se destinam a ser sempre recusados: sãotambém um alimento; é preciso que o homem os tome consigo e os faça seus. A bem-amada encarnará para ele toda a beleza sensível do universo; seráem seus lábios um cântico de adoração. “Como sois bela, Violaine, e como é belo este mundo em que estais.”185“Quem é essa que está em pé à minha frente, mais doce que o sopro do vento, tal qual a lua através da jovem folhagem?... Ei-la como a abelha nova queabre as asas ainda frescas, como uma grande corça, como uma flor que não sabe ela própria como é bela.”186“Deixa-me respirar teu odor, que é como o odor da terra quando, brilhante, lavada pela água como um altar, produz as flores amarelas e azuis.“E como o odor do verão que cheira a palha e a erva, e como o odor do outono...”187Ela resume toda a Natureza: a rosa e o lírio, a estrela, o fruto, o pássaro, o vento, a lua, o sol, o jato de água, “o sereno tumulto do grande porto na luzdo meio-dia”. 188 E é muito mais ainda: uma semelhante.“Ora, desta vez, eis que tu és, para mim, algo difer ente de uma estrela, ponto de luz na areia viva da noite.“Alguém humano como eu...”189“Não estarás mais só, mas em ti e contigo para sempre a devotada. Alguém teu para sempre e que não se retomará jamais , tua mulher.”190“Alguém para escutar o que digo e ter confiança em mim.“Um companheiro de voz baixa que nos toma nos braços e assegura-nos que é uma mulher.”191Corpo e alma, é apertando-a contra o coração que o homem encontra suas raízes nesta terra e nela se realiza.“Peguei esta mulher e tal é minha medida e minha porção de terra.”192 Ela não é leve de carregar, mas o homem não é feito para a disponibilidade:“E eis que o homem tolo se sente surpreso com essa pessoa absurda, essa grande coisa pesada e embaraçosa.“Tanta roupa, tanto cabelo, que fazer?“Ele não quer mais, não pode mais desfazer-se dela.”193É que o fardo é também um tesouro. “Sou um grande tesouro”, diz Violaine.Reciprocamente, é entregando-se ao homem que a mulher cumpre seu destino terres tre.“Pois para que serve ser mulher senão para ser colhida?“E esta rosa senão para ser devorada? E ter nascido enfim?“Senão para ser de outro e a presa de um poderoso leão?”194 “Que faremos, eu que não posso ser mulher senão entre seus braços e uma taça de vinho em seu coração?”195“Mas tu, minha alma, dize: não fui criada em vão e quem se destina a me colher existe!“Esse coração que me esperava, ah!, que alegria é para mim enchê-lo.”196Naturalmente, essa união do homem e da mulher deve ser consumada em presença de Deus; é sagrada e situa-se no eterno; deve ser consentida porum movimento profundo da vontade e não poderá ser rompida por um capricho individual. “O amor, o consentimento que duas pessoas livres dão uma àoutra pareceu a Deus coisa tão grande que dele fez um sacramento. Aí como em toda parte o sacramento dá realidade ao que era apenas um supremodesejo do coração.”197 E mais: “O casamento não é prazer, é o sacrifício do prazer, é o estudo de duas almas que para sempre, doravante e para um fim fora de si mesmas,“Terão que se contentar uma com a outra.”198Com essa união, não é somente alegria que o homem e a mulher se darão um ao outro; cada um entrará na posse de seu ser. “Essa alma no interior deminha alma, foi ele quem a soube encontrar!... Ele foi quem veio a mim e me estendeu a mão... Ele é que era minha vocação! Como dizer? Ele que eraminha origem! Aquele por quem e para quem vim ao mundo.”199“Toda uma parte de meu ser que eu pensava não existir, porque estava ocupada alhures e não pensava nela. Ah! Deus, ela existe e viveterrivelmente.”200E esse ser surge necessário, justificado para aquele a quem completa. “Nele é que eras necessária”, diz o Anjo de Prouhèze. E Rodrigo:“Pois o que é morrer senão deixar de ser necessário?“Quando foi que ela pôde passar sem mim? Quando deixarei de ser para ela isso sem o que ela não pode ser ela própria?”201“Dizem que não há alma que tenha sido feita fora de um intuito e dentro de uma misteriosa relação com outras.“Mas ambos somos mais do que isso ainda, existes à proporção que falas; uma mesma coisa respondendo entre duas pessoas.“Quando nos preparavam, Órion, penso que sobrava um pouco da substância que fora depositada em vós e eu sou feita do que careceis.”202Na maravilhosa necessidade dessa reunião, o paraíso é reencontrado, a morte vencida:“Ei-lo refeito por um homem e uma mulher, finalmente, esse ser que existia no Paraíso.”203“Nunca, senão um pelo outro, conseguiremos livrar-nos da morte.“Como o violeta, se se funde com o laranja, liberta o vermelho puro.”204 Enfim, sob a figura de um outro é que cada um ascende ao Outro em sua plenitude, isto é, a Deus.“O que damos um ao outro é Deus sob formas diferentes.”205
“Se não o tivesses visto primeiramente em meus olhos, terias tido tal desejo do céu?”206“Ah! Deixai de ser uma mulher e deixai-me ver em vosso rosto, enfim, esse Deus que sois impotente para conter.”207“O amor de Deus, como o das criaturas, apela em nós para a mesma faculdade, para esse sentimento de que em nós sozinhos não somos completos eque o Bem supremo em que nos realizamos é, fora de nós, alguém.”208 Assim, cada um encontra no outro o sentido da vida terrestre e também o testemunho irrefutável da insuficiência dessa vida:“Se não lhe posso dar o céu, posso ao menos arrancá-lo da terra. Eu só posso oferecer-lhe uma insuficiência na medida de seu desejo.”209“O que te pedia, o que queria dar-te, não é compatível com o tempo e sim com a eternidade”.210Entretanto, os papéis da mulher e do homem não são exatamente simétricos. No plano social há uma evidente primazia do homem. Claudel acredita nashierarquias e, entre outras, na da família: o marido é o chefe. Anne Vercors reina no lar. Don Pelagio considera-se o jardineiro a quem se confiou ocuidado dessa planta frágil, Dona Prouhèze; dá-lhe uma missão que ela não pensa em recusar. O simples fato de ser homem confere-lhe um privilégio.“Quem sou eu, pobre mulher, para me comparar ao homem de minha raça?” indaga Sygne.211 O homem é que ara os campos, constrói as catedrais,combate com a espada, explora o mundo, conquista terras, age, empreende. É por ele que se realizam os desígnios de Deus na terra. A mulher nãoaparece senão como uma auxiliar. Ela é a que fica no lugar, a que espera, a que mantém:“Sou a que fica e que se mpre está presente”, diz Sygne.Ela defende a herança de Coûfontaine, mantém as contas em dia enquanto ele combate ao longe pela Causa. A mulher traz ao lutador o socorro daesperança: “Trago a esperança irresistível.”212 E o da piedade:“Tive piedade dele. Pois para onde se voltaria ele, em busca da mãe, senão para a mulher humilhada,“Num espírito de confidência e pejo.”213 E Tête d’Or, morrendo, murmura:“Eis a coragem do ferido, o sustentáculo do enfermo“A companhia do agonizante...”Claudel não censura a mulher por conhecer assim o homem em sua fraqueza; ao contrário: acharia sacrílego o orgulho macho que se exibe emMontherlant e Lawrence. É bom que o homem se saiba carnal e miserável, que não esqueça a origem nem a morte que lhe é simétrica. Toda esposapode dizer as palavras de Marthe. 214“É verdade, não fui eu quem te deu a vida.“Mas aqui estou para te pedi-la de volta. E daí vem ao homem diante da mulher.“Esse embaraço semelhante ao da consciência, ao da presença de um credor.”Entretanto, essa fraqueza deve inclinar-se diante da força. No casamento a esposa dá-se ao esposo que a toma a seu cargo: Lâla deita-se no chão diantede Coeuvre que sobre ela pousa o pé. A relação da mulher com o marido, da filha com o pai, da irmã com o irmão, é uma relação de vassalagem.Sygne,215 entre as mãos de George, faz o juramento do cavaleiro perante o suserano.“Sois o chefe e eu a pobre sibila que guarda o fogo.”216“Dei xa-me prestar juramento como um novo cavaleiro! Ó, meu Senhor! Deixa-me, meu irmão mais velho, entre tuas mãos“Jurar como uma freira que profess a,“Ó macho de minha raça!”Fidelidade, lealdade são as maiores virtudes humanas da vassala. Doce, humilde, resignada como mulher, é ela, em nome de sua raça, de sua linhagem,orgulhosa e indomável; assim são a altiva Sygne de Co ûfontaine e a princesa de Tetê d’Or, que carrega sobre os ombros o cadáver do pai assassinado,o qual aceita a miséria de uma vida solitária e selvagem, as dores de uma crucificação e que assiste Tetê d’Or em sua agonia, ao lado dele antes demorrer. Conciliadora, mediadora , assim a mulher se nos apresenta amiúde: ela é Ester, dócil às ordens de Mardoqueu, Judite obedecendo aossacerdotes; sua fraqueza, sua pusilanimidade, seu pudor, ela é capaz de os vencer por lealdade para com a Causa que é sua porque é a dos senhores;ela retira de seu devotamento uma força que faz dela o mais precioso dos instrumentos.No plano humano, ela se apresenta, portanto, como extraindo sua grandeza de sua própria subordinação. Mas, aos olhos de Deus, ela é uma pessoaperfeita mente autônoma. O fato de que, para o homem, a existência se supera enquanto para a mulher ela se mantém não estabelece diferença entreeles senão em relação à terra; de qualquer maneira, não é na terra que a transcendência se realiza; é em Deus. E a mulher tem com ele uma ligação tãodireta, mais íntima mesmo e mais secreta do que seu companheiro. É por uma voz de homem — e de um padre — que Deus fala a Sygne; mas Violai neouve sua voz na solidão de seu coração, e Prouhèze só se entende com o Anjo da Guarda. As personagens mais sublimes de Claudel são mulheres:Sygne, Violaine, Prouhèze. E isso em parte porque, aos olhos dele, a santidade está na renúncia. E a mulher acha-se menos empenhada nos projetoshumanos, ela tem menos vontade pessoal: feita para entregar-se, não para possuir, encontra-se mais perto do perf eito devotamento. Por ela é que sefará a superação das alegrias terrestres, que são lícitas e boas, mas cujo sacrifício é melhor ainda. Sygne realiza-o por uma razão definida: salvar opapa. Prouhèze resigna-se primeiramente porque ama Rodrigo com amor proibido: “Desejarias então que pusesse entre teus braços uma adúltera?... Não teria sido senão uma mulher morrendo sobre teu coração e não essa estrelaeterna de que tens sede.”217 Mas quando esse amor poderia tornar-se legítimo, ela nada faz para realizá-lo neste mundo, porque o Anjo lhe murmurou:“Prouhèze, minha irmã, essa filha de Deus na luz que eu saúdo,“Essa Prouhèze que os anjos veem, é essa, sem o saber, que ele olha, é a que fizeste a fim de lhe dar.”218 Ela é humana, é mulher, não se resigna sem revolta:“Ele não conhecerá esse gosto que tenho!”219Mas ela sabe que seu verdadeiro casamento com Rodrigo só se consuma com sua recusa:“Quando não houver mais nenhum meio de escapar, quando ele estiver preso a mim para sempre neste impossível himeneu, quando não houver maismeio de se arrancar dessa torquês de minha carne poderosa e desse vazio impiedoso, quando eu tiver provado seu nada com o meu, quando não houvermais segredo em seu nada que o meu não seja capaz de verificar.“Então é que o darei a Deus, descoberto e estraçalhado, para que el e o encha num fragor de trovão, então é que terei um esposo e apertarei um deusem meus braços.”220A resolução de Violaine é mais misteriosa e mais gratuita ainda, porque escolhe a lepra e a cegueira quando um laço legítimo teria podido uni-la aohomem que amava e que a amava.“Jacques, talvez.“Nós nos amávamos demais para que fosse justo que pertencêssemos um ao outro, para que fosse bom ser um do outro.”221
Mas, se as mulheres são assi m singularmente votadas ao heroísmo da santidade, é principalmente porque Claudel as encara ainda por uma perspectivamasculina. Sem dúvida, cada um dos sexos encarna o Outro aos olhos do sexo complementar; mas a seus olhos de homem é principalmente a mulherque se apresenta geralmente como o outro absoluto. Há uma superação mística de que “sabemos que somos por nós mesmos incapazes e daí essepoder da mulher sobre nós, semelhante ao da Graça”. 222 O nós representa aqui somente os homens e não a espécie humana, e, ante sua imperfeição, amulher é o apelo do infinito. Em certo sentido, há nisso um novo princípio de subordinação; pela comunhão dos santos cada indivíduo é instrumentopara todos os outros; mas a mulher é mais precisamente instrumento de salvação para o homem, sem que a recíproca apareça. Le Soulier de satin é ae popeia da salvação de Rodrigo. O drama inicia-se com a prece que seu irmão dirige a Deus em seu favor; termina com a morte de Rodrigo queProuhèze conduziu à santidade. Mas, em outro sentido, a mulher conquista, assim, a mais alta autonomia, porque sua missão se interioriza nela e,salvando o homem ou lhe servindo de exemplo, ela chega na solidão à sua própr ia salvação. Pierre de Craon profetiza o destino dele a Violaine, erecolhe em seu coração os frutos maravilhosos do seu sacrifício: ele a exaltará perante os homens nas pedras das catedrais. Mas é Violaine que orealiza sem auxílio. Há em Claudel uma mística da mulher que se aparenta à de Dante diante de Beatriz, à dos gnósticos e até à da tradição saint-simoniana chamando a mulher regeneradora. Mas sendo homens e mulheres igualmente cria turas de Deus, ele também atribui a ela um destinoautônomo. De modo que em Claudel é fazendo-se outro — sou a Serva do Senhor — que a mulher se realiza como sujeito; e é em seu para-si que ela seapresenta como o Outro.Há uma página das Aventures de Sophie que resume mais ou menos toda a concepção claudeliana. Deus, lê-se, confiou à mulher “esse rosto que, pordeformado e longínquo que seja, é uma exata imagem da perfeição. Tornou-a desejável. Colocou juntos o fim e a origem. Fê-la depositária de seusdesígnios e capaz de devolver ao homem o sono criador em que ela mesma foi concebida. Ela é o suporte do destino, é o dom, é a possibilidade daposse. .. É a presilha desse laço afetuoso que une a cada instante o criador à sua obra. Ela O compreende. Ela é a alma que vê e que faz. Ela partilhacom ele de certo modo a paciência e o poder da criação”.Em certo sentido, parece que a mulher não poderia ser mais exaltada. Mas, no fundo, Claudel não faz senão exprimir poeticamente a tradição católicaligeiramente moderni zada. Foi dito que a vocação terrestre da mulher não prejudica em nada sua autonomia sobrenatural; mas, inversamente,reconhecendo-lhe esta, o católico acredita-se autorizado a manter as prerrogativas masculinas neste mundo. Venerando a mulher em Deus, trata-aneste mundo como uma serva: mais ainda, quanto mais se exigir dela uma submissão completa, mais seguramente será ela dirigida para o caminho dasalvação. Devotar-se aos filhos, ao marido, ao lar, à propriedade, à Pátria, à Igreja, é sua função, a função que a burguesia sempre lhe indicou; o homemdá sua atividade, a mulher sua pessoa; santificar essa hierarquia em nome da vontade divina não é modificá-la em nada; ao contrário, é pretender fixá-la no eterno. IV/BRETON OU A POESIA Apesar do abismo que separa o mundo religioso de Claudel do universo poético de Breton, há uma analogia no papel que designam à mulher: ela é umelemento de perturbação; ela arranca o homem do sono da imanência; boca, chave, porta, ponte, é Beatriz iniciando Dante no além. “O amor do homempe la mulher, se nos dedicamos um minuto à observação do mundo sensível, persiste em abarrotar o céu de flores gigantes e selvagens. Permanece omais terrível obstáculo ao espírito que sente sempre a necessidade de se acreditar em lugar seguro.” O amor a outra conduz ao amor ao Outro. “É nomais a lto período do amor eletivo por determinado ser que se abrem inteiramente as comportas do amor pela humanidade...” Mas, para Breton, o alémnão é um céu estranho: existe aqui mesmo; desvenda-se a quem sabe afastar os véus da trivialidade quotidiana; o erotismo, entre outras coisas, dissipaa ilusão do falso conhecimento. “Em nossos dias, o mundo sexual... não deixou, ao que eu saiba, de opor à nossa vontade de penetração do universo seuinquebrável núcleo de noite.” Chocar-se contra o mistério é a única maneira de o descobrir. A mulher é enigma e põe enigmas; suas múltiplas caras, emse adicionando, compõem “o ser único em que nos é dado ver o último avatar de Esfinge”; e é por isso que ela é revelação. “Eras a própria imagem dosegredo”, diz Breton a uma mulher amada. E um pouco adiante: “A revelação que me trazia, antes mesmo de saber em que consistia, soube que erauma revelação.” Isso significa que a mulher é poesia. É o papel que desempenha também em Gérard de Nerval; mas em Sylvie e Aurélia ela tem aconsistência de uma recordação ou de um fantasma, por que o sonho, mais verdadeiro do que o real, não coincide exatamente com este. Para Breton, acoincidência é perfeita: só há um mundo; a poesia está objetivamente presente nas coisas e a mulher é, sem equívoco, um ser de carne e osso.Encontramo-la, não num meio sono, mas bem acordados, durante um dia vulgar que tem sua data como todos os outros dias do calendário — 5 de abril,12 de abril, 4 de outubro, 29 de maio — e num cenário comum: um café, uma esqui na. Mas sempre ela se distingue por algum traço insólito. Nadja“caminha de cabeça erguida contrariamente aos demais passantes... curiosamente pintada... Nunca vira olhos assim”. Breton interpela-a. “Ela sorriu,mas muito misteriosamente, dir-se-ia, como que com conhecimento de causa.” Em L’Amour fou: “Essa jovem mulher que acabava de entrar estava comoque envolvida em vapor — vestida de fogo?... E posso bem dizer que naquele lugar, a 29 de maio de 1934, essa mulher eraescandalosamente bela.” 223 De imediato o poeta reconhece que ela tem um papel a desempenhar em seu destino; por vezes, é apenas um papel fugidio,secundário; assim a menina com olhos de Dalila em Les Vases communicants. Mesmo então pequenos milagres nascem em torno dela: tendo umencontro com essa Dali la, Breton no mesmo dia lê um artigo simpático assinado por um amigo perdido de vista há muito tempo e chamado Sansão. Àsvezes, os prodígios multiplicam-se; a desconhecida de 29 de maio, Ondina que fazia um número de natação em um music-hall, fora anunciada por umtrocadilho ouvido em um restaurante sobre o tema “Ondine, on dîne”;224 e sua primeira longa saída com o poeta fora minuciosamente descrita em umpoema composto por ele onze anos antes. A mais extraordinária dessas feiticeiras é Nadja: ela prediz o futuro, de seus lábios brotam as palavras e asimagens que o amigo tem no mesmo instante no espírito; seus sonhos e desenhos são oráculos: “Sou a alma errante”, diz ela; conduz-se na vida “deuma maneira singular, só se baseando na pura intuição e participando sem cessar do prodígio”; em torno dela o acaso objetivo semeia em profusãoestranhos acontecimentos; ela é tão maravilhosamente liberta das aparências que desdenha as leis e a razão: acaba num hospício. Era “um gênio livre,algo como um desses espíritos do ar que certas práticas mágicas permitem momentaneamente prender-se a alguma coisa mas aos quais não seriapossível submeter-se”. Por causa disso, ela malogra em desempenhar plenamente seu papel feminino. Vidente, pítia, inspirada, ela situa -se próximodemais das criaturas irreais que visitavam Gérard de Nerval; ela abre as portas do mundo suprarreal: mas é incapaz de dá-lo porque não poderia dar-seela própria. É no amor que a mulher se realiza e é realmente atingida; singular, aceitando um destino singular — e não flutuando sem raízes através douniverso — é então que ela resume tudo. O momento em que sua beleza atinge sua mais elevada expressão é essa hora da noite em que “ela é oespelho perfeito no qual tudo o que foi, tudo o que foi chamado a ser banha-se adoravelmente no que vai ser desta vez”. Para Breton, “encontrar o lugare a fórmula” confunde-se com o “possuir a verdade numa alma e num corpo”. E essa posse só é possível no amor recíproco, amor carnal, bementendido. “O retrato da mulher que se ama deve ser não somente uma imagem à qual se sorri, mas a inda um oráculo que se interroga”; mas só seráoráculo se a própria mulher for outra coisa que não uma simples ideia ou imagem; deve ser “a pedra angular do mundo material”; para o vidente essemesmo mundo é que é Poesia e cumpre que nesse mundo ele possua realmente Beatriz. “O amor recíproco é o único que condiciona a magnetizaçãototal sobre a qual não há domínio possível, que faz com que a carne seja sol e marca esplêndida na carne, que o espírito seja nascente semprejorrando, inalterável, sempre viva e cuja água se oriente uma vez por todas entre as maravilhas e os serpões.”Esse amor indestrutível só po deria ser único. O paradoxo da atitude de Breton está em que, dos Vases communicants a Arcane 17, ele se obstina emdedicar um amor único e eterno a mulheres diferentes. Mas, a seu ver, são as circunstâncias sociais que, impedindo a liberdade de escolha, conduzem ohomem a escolhas infelizes; de r esto, através desses erros, ele busca em verdade uma mulher. E se ele recordar os rostos amados, “só descobriráigualmente um em todos os rostos de mulheres: o último rosto amado”.225 “Quantas vezes, ademais, pude verificar que, sob aparências inteiramentedessemelhantes, buscava definir de um a outro desses rostos um traço comum dos mais excepcionais.” À Ondina de L’Amour fou, ele pergunta: “Soisvós finalmente essa mulher? É somente hoje que devíeis vir?” Mas em Arcane 17: “Bem sabes que, ao te ver pela primeira vez, sem hesitação tereconheci.” Em um mundo acabado, renovado, o casal seria, em consequência de um dom recíproco e absoluto, indissolúvel: se a bem-amada é tudo,como haveria lugar para outra? Ela é essa outra também; e tanto mais plenamente quanto mais é ela mesma. “O insólito é inseparável do amor. P orqueés única não podes deixar de ser sempre outra para mim, outra tu mesma. Através da diversidade dessas flores inumeráveis ao longe, é a ti cambianteque eu amo, de camisola vermelha, nua, de camisola cinzenta.” E, a propósito de uma mulher diferente mas igualmente única, Bret on escreve: “O amorrecíproco, tal qual o encaro, é um conjunto de espelhos que refletem, sob os mil ângulos que pode assumir para mim o desconhecido, a imagem fiel dapessoa que amo, sempre mais surpreendente de adivinhação de meu próprio desejo e mais dotada de vida.”Essa mulher única, a um tempo carnal e artificial, natural e humana, tem o mesmo sortilégio que os objetos equívocos que amam os surrealistas: ésemelhante à colher-sapato, à mesa-lobo, à pedra de açúcar de mármore que o poeta descobre no mercado de bugigangas ou inventa em sonho; elaparticipa do segredo dos objetos familiares repentinamente descobertos em sua verdade; e do d as plantas e das pedras. Ela é todas as coisas: Minha mulher de cabelos de fogueiraDe pensamentos como relâmpagos de verãoDe cintura de ampulheta...Minha mulher de sexo de alga e confeitos antigos
...Minha mulher de olhos de savana Mas principalmente ela é, para além de todas as coisas, a Beleza. A beleza não é para Breton uma ideia que se contempla e sim uma realidade que nãose revela — portanto não existe — senão através da paixão; só pela mulher há beleza no mundo.“É aí, bem no fundo do cadinho humano, nessa região paradoxal em q ue a fusão de dois seres que se escolheram realmente restitui a todas as coisas osvalores perdidos do tempo dos antigos sóis, em que, entretanto, a solidão também reina violentamente, em virtude de uma dessas fantasias da Naturezaque quer que em volta das crateras do Alasca a neve permaneça sob a cinza, aí foi que há anos pedi que fossem buscar a beleza nova, a belezaconsiderada exclusivamente para fins passionais.”“A beleza convulsiva será erótica, velada, explosivo-fixa, mágico-circunstancial, ou não será.”É da mulher que tudo o que é tira seu sentido. “É precisamente pelo amor e somente pelo amor que se realiza no mais alto grau a fusão da essência eda existência.” Ela se realiza para o s amantes e, consequentemente, para todo o mundo. “A recriação, a recoloração perpétua do mundo em um só ser,tal como se realizam pelo amor, iluminam com mil raios de lua o mundo da terra.” Para todos os poetas — ou quase — a mulher encarna a Natureza;mas segundo Breton ela não a exprime somente: liberta-a. Porque a Natureza não fala uma linguagem clara, é preciso penetrar-lhe os arcanos paraapreender sua verdade que é a mesma coisa que sua beleza: a poesia não é simplesmente o reflexo disso mas antes sua chave; e a mulher aqui não sedistingue da poesia. Eis por que ela é a mediadora necessária, sem a qual toda a terra se cala: “A Natureza só está sujeita a iluminar-se e apagar-se, ame servir e desservir na medida em que se avivam e diminuem em mim as chamas de um fogo que é o amor, o único amor, o de um ser. Conheci, naausência desse amor, verdadeiros céus vazios. Só faltava um grande íris de fogo saindo de mim p ara dar valor ao que existe... Contemplo até avertigem tuas mãos abertas em cima da fogueira de cavacos que acabamos de acender e que crepita, tuas mãos encantadoras, tuas mãos transparentesque adejam sobre o fogo de minha vida.” Toda mulher amada por Breton é uma maravilha natural: “Uma pequena avenca inesquecív el subindo pelomuro interno de um velhíssimo poço.” “...Não sei que haveria de ofuscante e de tão grave que ela só podia lembrar... a grande necessidade físicanatural fazendo ao mesmo tempo sonhar com a displicência de certas flores altas que principiam a desabrochar.” Mas, inversamente, toda maravilhanatural confunde-se com a amada; é ela que exalta quando se comove com uma gruta, uma flor, uma montanha. Entre a mulher que aquece as mãosjunto ao Teide e o próprio Teide toda distância se extingue. O poeta invoca ambos numa mesma prece: “Teide admirável! Toma minha vida! Boca do céuao mesmo tempo que dos infernos, prefiro-te assim enigmática, assim capaz de elevar às nuvens a beleza natural e de tudo devorar.”A beleza é mais ainda do que a beleza; ela confunde-se com a “noite profunda do conhecimento”; é a verdade, a eternidade, o absoluto; não é umaspecto temporal e contingente do mundo que a mulher liberta, é sua essência necessária, não uma essência imota como a imaginava Platão mas“explosivo-fixa”. “Não descubro em mim outro tesouro senão a chave que me abre esse prado sem limites desde que te conheci, esse prado feito darepetição de uma só planta sempre mais alta, cujo balancim de amplitude sempre maior me conduzirá até a morte... Pois uma mulher e um homem queaté o fim dos tempos deverão ser tu e eu, deslizarão por sua vez até a perda do atalho, sem nunca retornar, na luz oblíqua, nos confins da vida e doesquecimento da vida... A maior esperança, isto é, a que resume todas as outras, é a esperança que isso aconteça para todos e que para todos dure, queo dom absoluto de um ser a outro, que não pode existir sem reciprocidade, seja aos olhos de todos a única ponte natural e sobrenatural jogada sobre avida.”Assim, pelo amor que inspira e partilha, a mulher é para todo homem a única salvação possível. Em Arcane 17, essa missão se amplia e precisa: amulher deve salvar a humanidade. Breton desde sempre se inscreveu na tradição de Fourier que, reclamando a reabilitação da carne, exalta a mulhercomo objeto erótico; é normal que chegue à ideia saint-simoniana da mulher regeneradora. Na sociedade atual é o homem que domina, a ponto deconstituir um insulto na boca de um Gourmont dizer de Rimbaud: “Temperamento de mulher!” Entretanto, “teria chegado o momento de valorizar asideias da mulher em detrimento das do homem, cuja falência se consuma assaz tumultuosamente hoje... Sim, é sempre a mulher perdida, a que cantana imaginação do homem, mas, ao fim de tantas provações para ela e para ele, deve ser também a mulher reencontrada. E antes de tudo é preciso quea mulher se reencontre a si mesma, que ela aprenda a se reconhecer através dos infernos a que a votou, sem um socorro mais do que problemático, aideia que o homem em geral tem dela”.O papel que ela deveria desempenha r é antes de mais nada pacificador. “Sempre me estupidificou não ter sua voz se feito ouvir então, não ter elapensado em tirar todo o proveito possível, todo o imenso proveito das duas inflexões irresistíveis e sem preço que lhe são dadas, uma para falar aohomem, outra para atrair a si toda a confiança da criança. Que prodígio, que futuro não teria tido o grande grito de recusa e de alarma da mulher, essegrito sempre em potência... Quando surgirá uma mulher simplesmente mulher para realizar o maior milagre, o de estender os braços entre os que vãolutar e dizer-lhes: Sois irmãos.” Se a mulher se apresenta hoje como inadapta da, mal equilibrada, é em consequência do tratamento que lhe infligiu atirania masculina; mas ela conserva um poder milagroso pelo fato de mergulhar suas raízes nas fontes vivas da vida, cujos segredos os homensperderam. “Mélusine, semirretomada pela vida pânica, Mélusine de vínculos inferiores de pedregulhos ou ervas aquáticas, ou de penugem noturna, é ae la que eu invoco, só ela creio capaz de pôr fim à nossa época selvagem. É a mulher em sua totalidade, e no entanto tal qual é hoje, a mulher privadade seu alicerce humano, prisioneira de suas raízes movediças, como queiram, mas através destas em comunicação providencial com as forçaselementares da natureza... A mulher privada de seu equilíbrio humano, assim o quer a lenda, pela impaciência e pelo ciúme do homem.”Hoje convém, portanto, tomar o partido da mulher; enquanto se espera que lhe tenha sido restituído, na vida, seu verdadeiro valor, chegou a hora “dena arte pronunciar-se inequivocamente contra o homem em favor da mulher”. “A mulher-criança. A arte deve preparar sistematicamente seu advento atodo império do sensível.” Por que a mulher-criança? Breton explica-o: “Escolho a mulher-criança não em oposição à outra mulher, mas porque nela esomente nela me parece residir em estado de transparência absoluta o outro226 prisma de visão...”Na medida em que é simplesmente assimilada a um ser humano, a mulher será tão incapaz quanto os seres humanos masculinos de salvar este mundoem perdição; é a feminilidade como tal que introduz na civilização esse elemento outro, que é a verdade da vida e da poesia e que pode, só ele, libertara humanidade.Sendo a persp ectiva de Breton exclusivamente poética, é exclusivamente como poesia, portanto como outro, que a mulher é nela encarada. Na medidaem que nos interrogaríamos do destino dela, a resposta estaria implicada no ideal do amor recíproco. Ela não tem outra vocação senão o amor; e istonão constitui nenhuma inferioridade, porquanto a vocação do homem é também o amor. Entretanto, gostaríamos de saber se, para ela também, o amoré a chave do mundo, revelação da beleza; encontrará ela essa beleza em seu amante? Ou em sua própria imagem? Será ela capaz da atividade poéticaque realiza a poesia através de um ser sensível ou se restringirá a aprovar a obra de seu homem? Ela é a poe sia em si, no imediato, isto é, para ohomem; não nos dizem se o é também para si. Breton não fala da mulher enquanto sujeito. Nunca evoca a imagem da mulher má. No conjunto de suaobra — a despeito de alguns manifestos e panfletos onde ele repreende o rebanho dos humanos — ele se dedica não a inventariar as resistênciassuperficiais do mundo, mas sim a revelar-lhe a secreta verdade: a mulher só o interessa porque é uma “boca” privilegiada. Profundamente ancorada nanatureza, bem próxima da terra, ela se apresenta também como a chave do além. Há em Breton o mesmo naturalismo esotérico que nos gnósticos, queviam na Sofia o princípio da Redenção e até da Criação, que em Dante, escolhendo Beatriz para guia, e em Petrarca, iluminado pelo amor de Laura. E épor isso que o ser mais ancorado na natureza, mais próximo da terra é também a chave do além. Verdade, Beleza, Poesia, ela é Tudo: uma vez mais,tudo na figura do Outro, Tudo exceto ela mesma. V/STENDHAL OU O ROMANESCO DO VERDADEIRO Se, deixando a época contemporânea, volto agora a Stendhal, é que ao sair desses carnavais em que a Mulher se fantasia ora de megera, ora de ninfa,estrela da manhã, sereia, é reconfortante chegar a um homem que vive entre mulheres de carne e osso.Stendhal, desde a infância, amou as mulheres sensualmente; projetou nelas as aspirações de sua adolescência; imaginava-se de bom grado salvando dealgum perigo uma bela desconhecida e conquistando-lhe o amor. Chegando a Paris, o que desejava mais ardentemente era “uma mulher encantadora;nós nos adoraremos, ela conhecerá minha alma”... Velho, escreve na poeira as iniciais das mulheres que mais amou. “Creio que foi o devaneio quepreferi a tudo”, confia-nos ele. E são imagens de mulheres que lhe alimentaram os sonhos; a lembrança delas anima as paisagens. “A linha de rochedosaproximando-se de Arbois, creio, e vindo de Dôle pela estrada principal, foi para mim uma imagem sensível e evidente da alma de Métilde.” A música, apintura, a arquitetura, tudo o que amou, amou-o com uma alma de amante infeliz; quando passeia em Roma, a cada página, uma mulher aparece; nassaudades, nos desejos, nas tristezas, nas alegrias que elas suscitaram-lhe, conheceu o gosto do próprio coração; a elas é que deseja como juízes.Frequenta-lhes os salões, procura mostrar-se brilhante aos seus olhos, deveu-lhes suas maiores felicidades, suas penas; foram sua principal ocupação.Prefere seu amor a toda amizade e sua amizade à dos homens; mulheres inspiram seus livros, figuras de mulheres os povoam; é em grande parte paraelas que escreve. “Corro o risco de ser lido em 1900 pelas almas que amo, as Mme Roland, as Melanie Guibert...” Foram a própria subsistência de suavida. De onde lhe veio esse privilégio?
Esse terno amigo das mulheres, e precisamente porque as ama em sua verdad e, não crê no mistério feminino; nenhuma essência define de uma vezpor todas a mulher; a ideia de um “eterno feminino” parece-lhe pedante e ridícula. “Pedantes repetem há dois mil anos que as mulheres têm o espíritomais vivo e os homens, mais solidez; que as mulheres têm mais delicadeza nas ideias e os homens, maior capacidade de atenção. Um tolo de Paris quepasseava outrora pelos jardins de Versalhes concluía, do que via, que as árvores nascem podadas.” As diferenças que se observam entre os homens e asmulheres refletem as de sua situação. Por exemplo, por que não seriam as mulheres mais romanescas do que seus amantes? “Uma mulher com seubastidor de bordar, trabalho insípido que só ocupa as mãos, pensa no amante, enquanto este galopando no campo com seu esquadrão é preso se faz ummovimento em falso.” Acusam igualmente as mulheres de carecerem de bom senso. “As mulheres preferem as emoções à razão; é muito simples: comoem virtude de nossos costumes vulgares elas não são encarregadas de nenhum negócio na família, a razão nunca lhes é útil... Encarregai vossa mulherde tratar de vossos interesses com os arrendatários de duas de vossas propriedades; aposto que as contas serão mais bem-feitas do que por vós.” Se aHistória revela-nos tão pequeno número de gênios femininos é porque a sociedade as priva de quaisquer meios de expressão. “Todos os gênios quenascem mulheres227 estão perdidos para a felicidade do público; desde que o acaso lhes dê os meios de se revelarem, vós as vereis desenvolver os maisdifíceis talentos.” O pior handicap que devem suportar é a educação com que as embrutecem; o opressor esforça-se sempre por diminuir os que oprime;é propositadamente que o homem recusa às mulheres quaisquer possibilidades. “Deixemos ociosas nelas as qualidades mais brilhantes e mais ricas defelicidade para elas mesmas e para nós.” Aos dez anos, a menina é mais fina e viva do que seu irmão; com vinte, o moleque é homem de espírito e amoça “uma grande idiota desajeitada, tímida e com medo de uma aranha”; o erro está na formação que teve. Seria necessário dar à mulher exatamentea mesma instrução que se dá aos rapazes. Os antifeministas objetam que as mulheres cultas e inteligentes são uns monstros: todo o mal vem do fato deque estas permanecem ainda excepcionais; se pudessem todas ter acesso à cultura tão naturalmente como os homens, disso aproveitariam com amesma naturalidade. Depois de as ter mutilado, escravizam-nas a leis antinaturais. Casadas contra sua vontade, querem que sejam fiéis e o própriodivórcio lhes é censurado como uma má conduta. Obrigam à ociosidade bom número delas, quando não há felicidade fora do trabalho. Essa condiçãoindigna Stendhal e ele vê nela a fonte de todos os defeitos que se censuram às mulheres. Elas não são nem anjos nem demônios, nem esfinges, sãoseres humanos que costumes imbecis reduziram a uma semiescravidão. É precisamente porque são umas oprimidas, que as melhores se preservam das taras que pesam sobre seus opressores; não são em si nem inferioresnem superiores ao homem; mas, por uma curiosa inversão, sua situação infeliz as favorece. Sabe-se quanto Stendhal detesta o espírito de gravidade:dinheiro, honrarias, prestígios, poder, parecem-lhes tristes ídolos; em sua imensa maioria, os homens alienam-se em proveito deles; o pedante, oimportante, o burguês, o marido abafam em si todo impulso de vida e de verdade; armados de preconceitos, de sentimentos convencionais, obedientesàs rotinas sociais, habita-os o vazio; um mundo povoado dessas criaturas sem alma é um deserto de tédio. Há, infelizmente, muitas mulheres que vivematoladas nesses melancólicos pantanais; são bonecas de “ideias estreitas e parisienses” ou devotas hipócritas; Stendhal sente uma “repugnância mortalpelas mulheres honestas e a hipocrisia que lhes é indispensável”; elas emprestam a suas ocupações frívolas a mesma gravidade que seus maridos,mostram-se estúpidas por educação, invejosas, vaidosas, tagarelas, más por ociosidade, frias, secas, pretensiosas, maléficas, povoam Paris e aprovíncia; vemo-las formigar por trás das nobres figuras de uma Mme de Renal, de uma Mme de Chasteller. A que Stendhal pintou com mais atentoódio é, sem dúvida, Mme Grandet de que fez o negativo exato de uma Mme Roland, de uma Métilde. Bela mas sem expressão, desdenhosa e semencanto, ela intimida por sua “virtude célebre”, mas não conhece o verdadeiro pudor que vem da alma; cheia de admiração por si mesma, imbuída deseu papel, só sabe copiar, de fora, a grandeza; no fundo é vulgar e vil; “não tem caráter... aborrece-me”, pensa Leuwen. “Perfeitamente sensata,preocupada com o êxito de seus projetos”, toda sua ambição é fazer do marido um ministro; “seu espírito era árido”; prudente, conformista, sempreevitou o amor; é incapaz de um impulso generoso; quando a paixão se introduz nessa alma seca, queima-a sem a iluminar.Basta inverter essa imagem para descobrir o que Stendhal pede às mulheres: primeiramente, não se deixarem cair nas armadilhas da gravidade; pelofato de as coisas pretensamente importantes encontrarem-se fora de seu alcance, correm, menos do que os homens, o risco de se alienarem nelas; têmmaiores possibilidades de preservar essa naturalidade, essa ingenuidade, essa generosidade que Stendhal coloca mais alto do que qualquer outromérito; o que ele aprecia nelas é isso que chamaríamos hoje autenticidade: é o traço comum a todas as mulheres que ele amou ou inventou com amor.São todas seres livres e verdadeiros. Sua liberdade exibe-se em algumas de uma maneira brilhante: Ângela Pietragua, “puta sublime, à italiana, àLucrecia Bórgia” ou Mme Azur, “puta à du Barry... uma dessas francesas menos bonecas que encontrei” revolucionam abertamente os costumes. Lamielri-se das convenções, dos costumes, das leis: a Sanseverina atira-se com ardor à intriga e não recua diante do crime. É pelo vigor de seu espírito queoutras se erguem acima do vulgar. Assim é Menta, assim é Mathilde de la Mole, que critica, difama, despreza a sociedade que a cerca e quer distinguir-se dela. Em outras ainda, a liberdade assume formas negativas; o que há de notável em Mme de Chasteller é seu desapego por tudo o que é secundário;obediente às vontades do pai e mesmo a suas opiniões, nem por isso deixa de contestar os valores burgueses com a indiferença que lhe censuram comopuerilidade e é a fonte de sua alegria despreocupada; Clélia Conti distingue-se também por sua reserva; o baile, os divertimentos habituais das moçassão-lhe indiferentes; ela parece sempre distante “ou por desprezo do que a cerca ou por saudade de alguma quimera ausente”; julga o mundo e indigna-se com tanta baixeza. É em Mme de Renal que a independência da alma se acha mais profundamente escondida; ignora, ela própria, que se resignamal a seu destino; sua extrema delicadeza e aguda sensibilidade é que manifestam sua repugnância pela vulgaridade de seu meio; não tem hipocrisia;conservou um coração generoso, capaz de emoções violentas e aprecia a felicidade; do fogo que mina dentro dela mal se sente o calor de fora, masbastará um sopro para que ela se incendeie inteiramente. Essas mulheres são vivas, muito simplesmente; sabem que a fonte dos valores verdadeirosnão está nas coisas exteriores e sim nos corações; é o que faz o encanto do mundo em que habitam: rechaçam-lhe o tédio pelo simples fato de que neleestão presentes com seus sonhos, desejos, prazeres, emoções e invenções. A Sanseverina, essa “alma ativa”, teme o tédio mais do que a morte.Estagnar no tédio “é impedir-se de morrer, não é viver”; ela está “sempre apaixonada por alguma coisa, sempre agindo, alegre também”. Inconscientes,pueris ou profundas, alegres ou graves, ousadas ou secretas, todas recusam o pesado sono em que a humanidade se atola. E essas mulheres quesouberam preservar por nada sua liberdade, logo que encontrarem um objeto digno delas, elevarão-se pela paixão até o heroísmo; sua força de alma eenergia traduzem a pureza selvagem de uma participação total.Mas somente a liberdade não bastaria para dotá-las de tantos atrativos romanescos: uma simples liberdade reconhece-se na estima mas não na emoção;o que comove é seu esforço por se realizar através dos obstáculos que a freiam, e esse esforço é nas mulheres tanto mais patético quanto mais difícil aluta. A vitória conquistada contra as coerções exteriores já basta para encantar Stendhal; em Chroniques italiennes, ele encerra suas heroínas no fundodos conventos, ou no palácio de um esposo ciumento: cumpre-lhes inventar mil ardis para se juntarem a seus amantes; portas escondidas, escadas decorda, arcas sangrentas, raptos, sequestros, assassínios, os ímpetos da paixão e da desobediência são servidos por uma engenhosidade em que seempregam todos os recursos do espírito; a morte, as torturas ameaçadoras dão mais brilho ainda às audácias das almas arrebatadas que nos pinta.Mesmo nas obras mais maduras, Stendhal permanece sensível a esse romanesco aparente: é a figura manifesta do romanesco que nasce do coração;não se pode distingui-los um do outro, como não se pode separar uma boca de seu sorriso. Clélia reinventa o amor inventando o alfabeto que lhepermite corresponder-se com Fabrice; a Sanseverina é-nos descrita como “uma alma sempre sincera que nunca agiu com prudência, que se entregainteiramente à impressão do momento”; é quando intriga, quando envenena o príncipe e que inunda Parma que essa alma se descobre a nós: não éoutra coisa senão a aventura sublime e louca que quis viver. A escada que Mathilde de la Mole apoia à janela nada tem de um acessório de teatro: é,numa forma tangível, sua imprudência orgulhosa, seu pendor pelo extraordinário, sua coragem provocante. As qualidades dessas almas não seriamdescobertas se elas não estivessem cercadas de inimigos: os muros da prisão, a vontade de um soberano, a severidade de uma família.Entretanto, os obstáculos mais difíceis de transpor são os que cada um encontra em si mesmo: é então que a aventura da liberdade se faz mais incerta,mais pungente, mais excitante. É evidente que a simpatia de Stendhal por suas heroínas é tanto maior quanto mais estreitamente presas se encontram.Sem dúvida, ele aprecia as prostitutas, sublimes ou não, que uma vez por todas espezinharam as convenções; mas ele ama mais ternamente Métildefreada por seus escrúpulos e seu pudor. Lucien Leuwen compraz-se ao lado dessa mulher liberta que é Mme de Hocquincourt: mas é a Mme Chasteller,casta, reservada, hesitante que ele ama com paixão; ele admira a alma altiva da Sanseverina que não recua diante de nada, mas prefere Clélia e é amoça que conquista o coração de Fabrice. E Mme de Renal, atada por sua altivez, seus preconceitos, sua ignorância, é talvez de todas as mulherescriadas por Stendhal a que mais o espanta. Ele situa de bom grado suas heroínas na província, em um meio estreito, sob a mão de ferro de um maridoou um pai imbecil; agrada-lhe que sejam incultas e até imbuídas de ideias falsas. Mme de Renal e Mme de Chasteller são ambas obstinadamentelegitimistas; a primeira é de espírito tímido e sem nenhuma experiência, a segunda de inteligência brilhante, mas cujo valor desconhece; não são,portanto, responsáveis por seus erros mas, antes, vítimas deles tanto quanto das instituições e dos costumes; e é do erro que jorra o romanesco, como apoesia nasce do fracasso. Um espírito lúcido que decide seus atos com pleno conhecimento de causa, nós o aprovamos ou censuramos secamente; aopasso que é com temor, piedade, ironia, amor que admiramos a coragem e os ardis de um coração generoso procurando seu caminho nas trevas. Éporque elas são mistificadas, que vemos florescerem nas mulheres virtudes inúteis e encantadoras tais como o pudor, o orgulho, a delicadezaexagerada; em certo sentido são defeitos: engendram mentiras, suscetibilidades, cóleras, mas explicam-se facilmente pela situação em que sãocolocadas as mulheres; estas são levadas a pôr seu orgulho nas pequenas coisas, ou, pelo menos, “nas coisas que só têm importância pelo sentimento”,porque todos os objetos “ditos importantes” acham-se fora de seu alcance; seu pudor resulta da dependência em que se acham: porque lhes é proibidodar o que podem em seus atos, é seu próprio ser que elas põem em jogo; parece-lhes que a consciência de outrem, e em particular a de seus amantes,as revelam em sua verdade; têm medo disso e tentam escapar-lhes, e, em sua fuga, suas hesitações, suas revoltas, e até em suas mentiras, exprime-seuma autêntica preocupação do valor; e é o que as torna respeitáveis. Mas esse sentimento exprime-se com embaraço, e mesmo com má-fé, e é o que astorna comoventes e até discretamente cômicas. É quando a liberdade cai em suas próprias armadilhas e trapaceia com ela mesma que é maisprofundamente humana e portanto, aos olhos de Stendhal, mais atraente. As mulheres de Stendhal são patéticas quando seu coração lhes propõeproblemas inesperados: nenhuma lei, nenhuma receita, nenhum raciocínio, nenhum exemplo vindo de fora pode guiá-las; cumpre que decidamsozinhas: esse abandono é o momento extremo da liberdade. Clélia é educada com ideias liberais, é lúcida e sensata: mas opiniões aprendidas, justas ounão, não são de nenhum auxílio num conflito moral; Mme de Renal ama Julien a despeito de sua moral, Clélia salva Fabrice contra sua razão. Há, nosdois casos, a mesma superação de todos os valores admitidos. É essa ousadia que exalta Stendhal; mas ela é tanto mais comovente quanto mal ousaconfessar-se. Torna-se ainda mais natural, mais autêntica, mais espontânea. Em Mme de Renal, a ousadia esconde-se atrás da inocência: por nãoconhecer o amor, ela não sabe reconhecê-lo e cede sem resistência: diria-se que por ter vivido nas trevas não tem defesa diante da fulgurante luz da
paixão; acolhe-a deslumbrada até contra Deus, contra o inferno. Quando essa fogueira se apaga, ela recai nas trevas que os maridos e os padresgovernam; não tem confiança em seus próprios juízos, mas a evidência a fulmina; logo que encontra Julien entrega-lhe de novo a alma. Seus remorsos,a carta que o confessor lhe arranca, permitem medir que distância essa alma ardente e sincera tinha de vencer para se arrancar à prisão em que aencerrava a sociedade e ascender ao céu da felicidade. O conflito é mais consciente em Clélia: ela hesita entre sua lealdade para com o pai e suapiedade amorosa; ela procura razões para si mesma; o triunfo dos valores em que Stendhal acredita parece-lhe tanto mais evidente quanto é sentidocomo uma derrota pelas vítimas de uma civilização hipócrita; e ele se encanta vendo-as empregarem a malícia e a má-fé para fazer prevalecer averdade da paixão e da felicidade contra as mentiras em que elas creem: Clélia, prometendo à Madona não mais ver Fabrice e aceitando durante doisanos seus beijos, seus abraços, à condição de manter os olhos fechados, é a um tempo ridículo e perturbador. É com a mesma ironia que Stendhalconsidera as hesitações de Mme de Chasteller e as incoerências de Mathilde de la Mole; tantas idas e voltas, tantos meandros e escrúpulos, tantasvitórias e derrotas secretas para alcançar fins simples e legítimos, constitui para ele a mais adorável das comédias; há comicidade nesses dramasporque a atriz é a um tempo juiz e parte, porque ela é sua própria vítima, porque ela se impõe caminhos complicados, quando bastaria um decreto paraque o nó górdio fosse cortado; entretanto, eles evidenciam a mais respeitável preocupação que possa torturar uma alma nobre: ela quer permanecerdigna de sua própria estima; ela coloca seu próprio sufrágio mais alto que o dos outros e com isso se realiza como um absoluto. Esses debatessolitários, sem eco, têm mais gravidade do que uma crise ministerial; quando ela se pergunta se vai ou não corresponder ao amor de Lucien Leuwen,Mme de Chasteller julga a si mesma e ao mundo: pode-se ter confiança em outrem? Pode-se confiar no próprio coração? Qual é o valor do amor e dosjuramentos humanos? É loucura ou generosidade acreditar e amar? Essas interrogações põem em dúvida o próprio sentido da vida, a vida de cada um ede todos. O homem dito sério é na realidade fútil porque aceita justificações convencionais para sua vida; ao passo que uma mulher apaixonada eprofunda revisa a cada instante os valores estabelecidos; conhece a constante tensão de uma liberdade sem apoio. Com isso, sente-se sem cessar emperigo: em um momento pode tudo ganhar ou tudo perder. É esse risco assumido na inquietação que dá à sua história as cores de uma aventuraheroica. E a aposta é a maior que pode existir: o próprio sentido dessa existência, que é a parte de cada um, sua única parte. A aventura de Mina deVanghel pode em certo sentido parecer absurda; mas ela empenha toda uma ética. “Foi sua vida um erro de cálculo? Sua felicidade durara oito meses.Era uma alma demasiado ardente para se contentar com o real da vida.” Mathilde de la Mole é menos sincera do que Clélia ou Mme de Chasteller; elaregula s eus atos mais pela ideia que faz de si mesma do que pela evidência do amor, da felicidade; haverá mais orgulho, mais grandeza em se defenderdo que em se entregar, em se humilhar do que em resistir a quem se ama? Ela acha-se só no meio dessas dúvidas e arrisca essa estima de si mesma deque faz mais questão do que da vida. É a ardente procura das verdadeiras razões de viver através das trevas da ignorância, dos preconceitos, dasmistificações, na luz vacilante e febril da paixão, é o risco infinito da felicidade ou da morte, da grandeza ou da vergonha que confere a esses destinosde mulher sua glória romanesca.A mulher, bem entendido, ignora a sedução que tem; contemplar-se a si mesma, desempenhar um papel, é sempre uma atitude inautêntica; MmeGrandet comparando-se a Mme Roland prova com isso mesmo que não se assemelha a ela. Se Mathilde de la Mole permanece atraente é porque seembrulha em suas comédias e é vítima, muitas vezes, de seu coração, nos momentos em que se acredita governá-lo; ela nos comove na medida em queescapa à própria vontade. Mas as heroínas mais puras não têm consciência de si mesmas. Mme de Renal ignora sua graça, como Mme de Chastellersua inteligência. Nisso reside uma das alegrias profundas do amante com quem o autor e o leitor se identificam: ele é a testemunha através da qualessas riquezas secretas são reveladas; essa vivacidade que Mme de Renal exibe longe dos olhares dos outros, esse espírito “vivo, versátil, profundo”,que desconhece o ambiente de Mme de Chasteller e que ele é o único a admirar. E ainda que outros apreciem o espírito da Sanseverina, é ele quempenetra mais fundo na alma dela. Diante da mulher, o homem saboreia o prazer da contemplação; embriaga-se dela como de uma paisagem ou de umquadro; ela canta em seu coração e matiza o céu. Essa revelação revela-o a si mesmo: não se pode compreender a delicadeza das mulheres, suasensibilidade, seu ardor sem se construir uma alma delicada, sensível, ardente; os sentimentos femininos criam um mundo de matizes, de exigências,cuja descoberta enriquece o amante. Perto de Mme de Renal, Julien torna-se diferente do ambicioso que resolvera ser, faz-se de novo. Se o homem tempela mulher apenas um desejo superficial, achará divertido seduzi-la. Mas é o verdadeiro amor que transfigura a vida: “O amor de Werther abre aalma... ao sentimento e ao gozo do belo sob qualquer forma que se apresente, ainda que sob um hábito de burel. Faz que se encontre a felicidade atésem riquezas...” “É um novo objetivo na vida a que tudo se prende e que muda a face de tudo. O amor-paixão joga aos olhos de um homem toda anatureza com seus aspectos sublimes como uma novidade inventada ontem.” O amor quebra a rotina quotidiana, afasta o tédio, esse tédio em queStendhal vê um mal tão profundo porque é a ausência de todas as razões de viver ou morrer; o amante tem um fim e isso basta para que cada dia setorne uma aventura. Que prazer para Stendhal passar três dias escondido na adega de Menta! As escadas de corda, as arcas sangrentas traduzem essegosto pelo extraordinário em seus romances. O amor, isto é, a mulher, revela os verdadeiros fins da existência: o belo, a felicidade, o frescor dassensações e do mundo. Arranca a alma ao homem e dá-lhe assim a posse dela; o amante conhece a mesma tensão, os mesmos riscos que sua amante eexperimenta-se mais autenticamente do que no curso de toda uma carreira calculada. Quando hesita ao pé da escada erguida por Mathilde, Julien põeem jogo todo seu destino: é nesse instante que revela sua verdadeira medida. É através das mulheres, sob sua influência, reagindo às condutas delasque Julien, Fabrice, Lucien fazem o aprendizado do mundo e de si mesmos. Provação, recompensa, juiz, amiga, a mulher é realmente em Stendhal o queHegel em dado momento se viu tentado a considerá-la: essa consciência outra que, no reconhecimento recíproco, dá ao sujeito outro a mesma verdadeque recebe dele. O casal feliz que se reconhece no amor desafia o universo e o tempo; basta a si próprio, realiza o absoluto.Mas isso pressupõe que a mulher não é simples alteridade; é, ela própria, sujeito. Nunca Stendhal se restringe a descrever suas heroínas em função deseus heróis: dá-lhes um destino próprio. Tentou uma empresa mais rara e que nenhum romancista, creio, jamais se propôs: projetou-se ele próprionuma personagem feminina. Não se debruça sobre Lamiel como Marivaux sobre Marianne, ou Richardson sobre Clarisse Harlow: desposa-lhe o destinocomo desposara o destino de Julien. Por causa disso mesmo, a figura de Lamiel permanece um pouco teórica, mas é singularmente significativa.Stendhal ergueu em torno da moça todos os obstáculos imagináveis: ela é pobre, camponesa, grosseiramente educada por pessoas imbuídas de todosos preconceitos; mas ela afasta de seu caminho todas as barreiras morais a partir do dia em que compreende o alcance destas simples palavras: “étolo”. A liberdade de seu espírito permite-lhe reconsiderar todos os movimentos de sua curiosidade, de sua ambição, de sua alegria; diante de umcoração tão resoluto, os obstáculos materiais não podem deixar de se renovar; seu único problema será conquistar, em um mundo medíocre, um destinofeito sob medida. Ela devia realizar-se no crime e na morte; mas é também a sorte que aguarda Julien. Não há lugar para as grandes almas nasociedade tal qual é: homens e mulheres acham-se em pé de igualdade.É notável que Stendhal seja a um tempo tão profundamente romanesco e tão decididamente feminista; habitualmente, os feministas são espíritosracionais que adotam, em todas as coisas, o ponto de vista do universal; mas é não somente em nome da liberdade em geral como também em nome dafelicidade individual que Stendhal reclama a emancipação das mulheres. O amor nada terá a perder com isso, pensa ele; ao contrário, será tanto maisverdadeiro quanto, sendo a mulher um igual para o homem, poderá entendê-lo mais completamente. Provavelmente, algumas das qualidades queapreciamos na mulher desaparecerão, mas seu valor provém da liberdade que nelas se exprime, mas essa liberdade se manifestará de outras maneirase o romanesco não se dissipará do mundo. Dois seres separados, colocados em situações diferentes, defrontando-se em sua liberdade e procurando ajustificação da existência, um através do outro, viverão sempre uma aventura cheia de riscos e de promessas. Stendhal confia na verdade; desde que sefuja dela, morre-se vivo; mas onde ela brilha, brilham a beleza, a felicidade, o amor, uma alegria que traz em si sua justificação. Eis por que, tantoquanto as mistificações da gravidade, ele recusa a falsa poesia dos mitos. A realidade humana basta-lhe. A mulher a seus olhos é simplesmente um serhumano: os sonhos nada poderiam forjar de mais embriagante. VI Vê-se por esses exemplos que, em cada escritor singular, se refletem os grandes mitos coletivos: a mulher foi-nos apresentada como carne; a carne dohomem é gerada pelo ventre materno e recriada nos abraços da amante; por esse aspecto a mulher aparenta-se à natureza, encarna-a: animal, vale desangue, rosa desabrochada, sereia, curva de uma colina, ela dá ao homem o humo, a seiva, a beleza sensível e a alma do mundo; ela pode possuir aschaves da poesia; pode ser mediadora entre este mundo e o além: graça ou pítia, estrela ou feiticeira, abre a porta do sobrenatural, do suprarreal; estávotada à imanência; e com isso sua passividade distribui a paz, a harmonia, mas, se recusa esse papel, ei-la fêmea de louva-a-deus, mulher de ogro. Emtodo caso, ela se apresenta como o Outro privilegiado através do qual o sujeito se realiza: uma das medidas do homem, seu equilíbrio, salvação,aventura e felicidade.Mas esses mitos orquestram-se para cada um de maneira diferente. O Outro é singularmente definido segundo o modo singular que o Um escolhe parase pôr. Todo homem afirma-se como uma liberdade e uma transcendência, mas não dão todos os homens o mesmo sentido a essas palavras. ParaMontherlant, a transcendência é um estado; é ele o transcendente e paira no céu dos heróis; a mulher vegeta na terra a seus pés; compraz-se em medira distância que o separa dela; de vez em quando, ele a leva até junto de si, a possui e depois a rejeita; nunca se abaixa à esfera de viscosas trevas emque ela se acha. Lawrence situa a transcendência no falo; o falo não é vida e força senão graças à mulher; a imanência é, portanto, boa e necessária; ofalso herói, que pretende não tocar o solo, longe de ser um semideus, não chega sequer a ser um homem; a mulher não é desprezível, é riquezaprofunda, cálida nascente; mas ela deve renunciar a toda transcendência pessoal e limita-se a nutrir a de seu homem. Idêntico devotamento lhe éexigido por Claudel. A mulher, para ele, é também quem mantém a vida, enquanto o homem lhe prolonga o impulso como seus atos; mas, para ocatólico, tudo o que se passa na terra banha-se na vã imanência: só Deus transcende; aos olhos de Deus o homem que age e a mulher que o serve sãoexatamente iguais; cabe a cada um superar sua condição terrestre: a salvação é, em todo caso, uma empresa autônoma. Para Breton, a hierarquia dossexos inverte-se; a ação, o pensamento consciente em que o homem situa sua transcendência parecem-lhe uma estúpida mistificação que engendra aguerra, a tolice, a burocracia, a negação do humano; é a imanência, a simples presença opaca do real que é a verdade; a verdadeira transcendência se
realizaria pela volta à imanência. Sua atitude é exatamente oposta à de Montherlant: este ama a guerra porque nela está livre das mulheres, Bretonvenera a mulher porque ela traz a paz; um confunde espírito e subjetividade, recusa o universo dado; o outro pensa que o espírito se achaobjetivamente presente no coração do mundo; a mulher compromete Montherlant porque lhe perturba a solidão; ela é para Breton revelação porque otira da subjetividade. Quanto a Stendhal, vimos que a mulher mal assume nele um valor mítico. Ele a considera como sendo ela também umatranscendência; para esse humanista, é em suas relações recíprocas que as liberdades se realizam; basta-lhe que o Outro seja simplesmente um outropara que a vida tenha a seu ver “um sal picante”; não procura um “equilíbrio estelar”, não se alimenta com o pão do nojo; não espera milagre; nãodeseja ter que se haver com o cosmo ou a poesia, mas sim com as liberdades.É que também ele se sente, ele próprio, como uma liberdade translúcida. Os outros — e é um ponto dos mais importantes — se põem comotranscendências mas sentem-se prisioneiros de uma presença opaca no fundo de si mesmos: projetam na mulher esse “inquebrável núcleo de noite”.Há, em Montherlant, um complexo adleriano de onde nasce uma má-fé espessa: é esse conjunto de pretensões e de temores que ele encarna na mulher;a repugnância que sente por ela é a que receia sentir por si mesmo; pretende espezinhar nela a prova sempre possível de sua própria insuficiência;pede ao desprezo que o salve. A mulher é a fossa em que ele precipita todos os monstros que o habitam.228 A vida de Lawrence mostra-nos que sofria deum complexo análogo, mas puramente sexual: a mulher tem em sua obra o valor de um mito de compensação; por ela se acha exaltada uma virilidadede que o escritor não estava muito seguro; quando descreve Kate aos pés de Don Cipriano acredita ter conquistado um triunfo de macho contra Frieda;não admite, ele tampouco, que sua companheira o ponha em dúvida: se ela lhe contestasse os fins, perderia, talvez, confiança neles; ela tem por funçãotranquilizá-lo. Ele lhe pede paz, repouso, fé, como Montherlant pede a certeza de sua superioridade: exigem os que lhes falta. A confiança em si não é ode que carece Claudel: se é tímido, ele o é apenas no segredo de Deus. Por isso não há nele nenhum vestígio de luta de sexos. O homem carregaousadamente o fardo da mulher: ela é possibilidade de tentação e de salvação. Tem-se a impressão de que, para Breton, o homem só é verdadeiro pelomistério que o habita; apraz-lhe que Nadja veja essa estrela para a qual ele caminha e que é como “o coração de uma flor sem coração”; seus sonhos,seus pressentimentos, o desenvolvimento espontâneo de sua linguagem interior, é nessas atividades que escapam ao controle da vontade e da razãoque ele se reconhece: a mulher é a figura sensível dessa presença velada, infinitamente mais essencial do que sua personalidade consciente.Stendhal coincide tranquilamente consigo mesmo, mas precisa da mulher como ela dele, a fim de que sua existência dispersa se reúna na unidade deuma figura e de um destino; é como para-outrem que o homem atinge o ser mas é preciso, contudo, que esse outro lhe empreste sua consciência: osoutros homens têm demasiado indiferença para com seus semelhantes; só a mulher amorosa abre o coração ao amante e nele o abriga inteiramente.Com exceção de Claudel, que encontra em Deus uma testemunha superior, todos os escritores que consideramos esperam que, segundo as palavras deMalraux, a mulher adore neles esse “monstro incomparável” só deles conhecido. Na colaboração ou na luta, os homens enfrentam-se em suageneralidade. Montherlant é para seus semelhantes um escritor, Lawrence um doutrinador, Breton um chefe de escola, Stendhal um diplomata ou umhomem de espírito; é a mulher que revela em um o príncipe magnífico e cruel, noutro um fauno inquietante, noutro um deus ou um sol, ou um ser“negro e frio como um homem fulminado aos pés da Esfinge”,229 noutro, enfim, um sedutor, um amante.Para cada um deles, a mulher ideal será a que encarnar mais exatamente o Outro capaz de o revelar a si mesmo. Montherlant, espírito solar, busca nelaa animalidade pura; Lawrence, o fálico, pede-lhe que resuma o sexo feminino em sua generalidade; Claudel define-a como uma alma irmã; Breton adoraMélusine arraigada na natureza e põe sua esperança na mulher-criança: Stendhal deseja uma amante inteligente, culta, livre de espírito e de costumes:uma igual. Mas para a igual, a mulher-criança, a alma-irmã, a mulher-sexo, o animal feminino, o único destino terrestre que se lhes reserva é sempre ohomem. Qualquer que seja o ego que se procura através dela, esse ego só pode ser atingido se ela consente em lhe servir de cadinho. Exige-se dela, emtodo caso, a renúncia a si mesma, e o amor. Montherlant consente em se enternecer com a mulher que lhe permite medir sua força viril; Lawrencecompõe um hino entusiasta à que renuncia a si mesma a seu favor; Claudel exalta a vassala, a serva, a devotada que se submete a Deus submetendo-seao homem; Breton espera da mulher a salvação da humanidade, porque ela é capaz do amor mais total em relação ao filho, ao amante; e até emStendhal as heroínas são mais comoventes do que os heróis porque se entregam a sua paixão com a mais desenfreada violência; elas ajudam o homem acumprir seu destino, como Prouhèze contribui para a salvação de Rodrigo; nos romances de Stendhal acontece muitas vezes que elas salvem o amanteda ruína, da prisão ou da morte. A dedicação feminina é exigida como um dever por Montherlant, por Lawrence; menos arrogantes, Claudel, Breton,Stendhal admiram-na como uma generosa escolha: desejam-na, essa escolha, sem pretender merecê-la. Mas, a não ser o espantoso Lamiel, todas assuas obras mostram que esperam da mulher esse altruísmo que Comte admirava nela e lhe impunha, e que a seu ver também constituía a um tempouma inferioridade flagrante e uma equívoca superioridade.Poderíamos multiplicar os exemplos: nos conduziriam sempre às mesmas conclusões. Definindo a mulher, cada escritor define sua ética geral e a ideiasingular que faz de si mesmo. É também nela que, muitas vezes, ele inscreve a distância entre seu ponto de vista sobre o mundo e seus sonhosegotistas. A ausência ou a insignificância do elemento feminino no conjunto de uma obra já é sintomática; esse elemento tem uma extrema importânciaquando resume em sua totalidade todos os aspectos do Outro como ocorre em Lawrence; conserva parte dessa importância quando a mulher éencarada simplesmente como uma outra, mas que o escritor se interessa pela aventura individual de sua vida, como é o caso de Stendhal; perde-a emuma época como a nossa em que os problemas singulares de cada um passam a segundo plano. Entretanto, a mulher enquanto outra desempenha aindaum papel na medida em que, embora seja tão somente para se superar, todo homem tem ainda necessidade de tomar consciência de si.
3 O mito da mulher desempenha um papel considerável na literatura; mas que importância tem na vida cotidiana? Em que medida afeta os costumes e ascondutas individuais? Para responder a essas perguntas seria necessário determinar as relações que mantém com a realidade.Há diversas espécies de mitos. Este, sublimando um aspecto imutável da condição humana que é o “seccionamento” da humanidade em duas categoriasde indivíduos, é um mito estático; projeta em um céu platônico uma realidade apreendida na experiência ou conceitualizada a partir da experiência. Aofato, ao valor, à significação, à noção, à lei empírica, ele substitui uma Ideia transcendente, não temporal, imutável, necessária. Essa ideia escapa aqualquer contestação porquanto se situa além do dado; é dotada de uma verdade absoluta. Assim, à existência dispersa, contingente e múltipladas mulheres, o pensamento mítico opõe o Eterno Feminino único e cristalizado; se a definição que se dá desse Eterno Feminino é contrariada pelaconduta das mulheres de carne e osso, estas é que estão erradas. Declara-se que as mulheres não são femininas e não que a Feminilidade é umaentidade. Os desmentidos da experiência nada podem contra o mito. Entretanto, de certa maneira, este tem sua fonte nela. Assim é exato que a mulheré outra e essa alteridade é concretamente sentida no desejo, no carinho, no amor; mas a relação real é de reciprocidade; como tal, ela engendra dramasautênticos: através do erotismo, do amor, da amizade e suas alternativas de decepção, ódio, rivalidade, ela é luta de consciências que se consideramessenciais, é reconhecimento de liberdades que se confirmam mutuamente, é a passagem indefinida da inimizade à cumplicidade. Pôr a Mulher é pôr oOutro absoluto, sem reciprocidade, recusando contra a experiência que ela seja um sujeito, um semelhante.Na realidade concreta, as mulheres manifestam-se sob aspectos diversos; mas cada um dos mitos edificados a propósito da mulher pretende resumi-lainteiramente. Cada qual se afirmando único, a consequência é existir uma pluralidade de mitos incompatíveis e os homens permanecerem atônitosperante as estranhas incoerências da ideia de Feminilidade; como toda mulher participa de uma pluralidade desses arquétipos que pretendem encerrar,cada um, sua única Verdade, os homens reencontram, assim, ante suas companheiras o velho espanto dos sofistas que mal compreendiam que o homempudesse ser louro e moreno a um tempo. A passagem para o absoluto já se exprime nas representações sociais. As relações aí se fixam facilmente emclasses, as funções em tipos, assim como na mentalidade infantil as relações fixam-se em coisas. Por exemplo, a sociedade patriarcal, apoiada naconservação do patrimônio, implica necessariamente, ao lado de indivíduos que detêm e transmitem os bens, a existência de homens e mulheres que osarrancam a seus proprietários e os fazem circular; os homens — aventureiros, vigaristas, ladrões, especuladores — são geralmente condenados pelacoletividade; as mulheres, usando de sua atração erótica, têm a possibilidade de convidar os jovens, e até os pais de família, a dissiparem seupatrimônio sem sair da legalidade; apropriam-se de sua fortuna ou captam sua herança; sendo esse papel considerado nefasto, chamam “mulheresmás” as que o desempenham. Na realidade, elas podem, ao contrário, apresentar-se em outro lar — o do pai, o do irmão, do marido ou do amante —como um anjo da guarda; tal ou qual cortesã, que explora ricos financistas, é um mecenas para pintores e escritores. A ambiguidade da personagem deAspásia, de Mme de Pompadour, torna-se facilmente compreensível numa experiência concreta. Mas, se se afirma que a mulher é a fêmea do louva-a-deus, a mandrágora, o demônio, confunde-se o espírito ao descobrir igualmente nela a Musa, a Deusa-Mãe, Beatriz.Como as representações coletivas e, entre outros, os tipos sociais definem-se geralmente por pares de termos opostos, a ambivalência parecerá umapropriedade intrínseca do Eterno Feminino. A mãe santa tem como correlativo a madrasta cruel; a moça angélica, a virgem perversa: por isso ora sedirá que a Mãe é igual à Vida, ora que é igual à Morte, que toda virgem é puro espírito ou carne votada ao diabo.Não é evidentemente a realidade que dita à sociedade ou aos indivíduos a escolha entre os dois princípios opostos de unificação; em cada época, emcada caso, sociedade e indivíduos decidem de acordo com suas necessidades. Muitas vezes projetam no mito adotado as instituições e os valores a queestão apegados. Assim, o paternalismo, que reclama a mulher no lar, define-a como sentimento, interioridade e imanência; na realidade, todo existenteé, ao mesmo tempo, imanência e transcendência; quando não lhe propõem um objetivo, quando o impedem de atingir algum, quando o frustram em suavitória, sua transcendência cai inutilmente no passado, isto é, recai na imanência; é o destino da mulher no patriarcado; não se trata, porém, da mesmavocação tal como a escravidão não é a vocação do escravo. Percebe-se claramente, em Comte, o desenvolvimento dessa mitologia. Identificar a Mulherao Altruísmo é garantir ao homem direitos absolutos à sua dedicação, é impor às mulheres um dever-ser categórico.Não se deve confundir o mito com a apreensão de uma significação; a significação é imanente ao objeto; ela é revelada à consciência numa experiênciaviva ao passo que o mito é uma ideia transcendente que escapa a toda tomada de consciência. Quando, em Age d’homme, descreve sua visão dosórgãos femininos, Michel Leiris oferece-nos significações e não elabora nenhum mito. O deslumbramento ante o corpo feminino, a repugnância pelosangue menstrual são apreensões de uma realidade concreta. Nada há de mítico na experiência que descobre as qualidades voluptuosas da carnefeminina e não se passa ao mito quando se tenta exprimi-las mediante comparações com flores ou pedras. Mas dizer que a Mulher é a Carne, que aCarne é Noite e Morte, ou que é o esplendor do Cosmo, é abandonar a verdade da terra e alçar voo para um céu vazio. Porque o homem também écarne para a mulher; e esta é outra coisa além de um objeto carnal; e a carne assume, para cada um e em cada experiência, significações singulares. É,também, inteiramente verdade que a mulher — como o homem — é um ser arraigado na natureza; ela é mais do que o homem escravizada à espécie,sua animalidade é mais manifesta, mas, nela como nele, o dado é assumido pela existência, pertence também ao reino humano. Assimilá-la à Natureza éum simples parti pris.Poucos mitos foram mais vantajosos do que esse para a casta dominante: justifica todos os privilégios e autoriza mesmo a abusar deles. Os homens nãoprecisam preocupar-se em aliviar os sofrimentos e encargos que são fisiologicamente a parte da mulher, porquanto “são da vontade da Natureza”; elesse valem do pretexto para aumentar ainda mais a miséria da condição feminina, para denegar, por exemplo, à mulher, qualquer direito ao prazer sexual,para fazê-la trabalhar como um animal de carga.230De todos esses mitos, nenhum se acha mais enraizado nos corações masculinos do que o do “mistério” feminino. Tem numerosas vantagens. Eprimeiramente permite explicar sem dificuldades o que parece inexplicável; o homem que não “compreende” uma mulher sente-se feliz em substituiruma resistência objetiva a uma insuficiência subjetiva; em vez de admitir sua ignorância, reconhece a presença de um mistério fora de si: é um álibi quelisonjeia a um tempo a preguiça e a vaidade. Um coração apaixonado evita, assim, muitas decepções; se as condutas da bem-amada são caprichosas,suas reflexões, estúpidas, o mistério serve de desculpa. Enfim, graças ao mistério, perpetua-se essa relação negativa que se afigurava a Kierkegaardinfinitamente preferível a uma posse positiva; diante de um enigma vivo, o homem permanece só: só com seus sonhos, esperanças, temores, amor evaidade; esse jogo subjetivo que pode ir do vício ao êxtase místico é para muitos uma experiência mais atraente do que uma relação autêntica com umser humano. Em que bases assenta, pois, uma ilusão tão proveitosa?Seguramente, em certo sentido, a mulher é misteriosa, “misteriosa como todo mundo”, na expressão de Maeterlinck. Cada um só é sujeito para si; cadaum só pode apreender a si unicamente em sua imanência. Deste ponto de vista, o outro é sempre mistério. Aos olhos dos homens, a opacidade do parasi é mais flagrante no outro feminino; eles não podem, por nenhum efeito de simpatia, penetrar-lhe a experiência singular. A qualidade do prazererótico da mulher, os incômodos da menstruação, as dores do parto, eles estão condenados a ignorá-los. Na verdade, há reciprocidade do mistério;enquanto outro, e outro do sexo masculino, há no coração de todo homem uma presença fechada sobre si mesma e impenetrável à mulher; ela ignora oque representa o erotismo do macho. Mas, segundo a regra universal que verificamos, as categorias através das quais os homens encaram o mundo sãoconstituídas, do ponto de vista deles, como absolutas: eles desconhecem, nisso como em tudo, a reciprocidade. Mistério para o homem, a mulher éencarada como mistério em si.A bem dizer, a situação dela a predispõe singularmente a ser considerada sob esse aspecto. Seu destino fisiológico é muito complexo; ela mesma osuporta como uma história estranha; seu corpo não é para ela uma expressão clara de si mesma; ela sente-se nele alienada; o laço que em todoindivíduo liga a vida fisiológica à vida física, ou, para melhor dizer, a relação existente entre a facticidade de um indivíduo e a liberdade que a assume, éo mais difícil enigma implicado pela condição humana: é na mulher que esse enigma se põe da maneira mais perturbadora.Mas o que se chama mistério não é a solidão subjetiva da consciência, nem o segredo da vida orgânica. É ao nível da comunicação que a palavraassume seu sentido verdadeiro: não se reduz ao puro silêncio, à noite, à ausência; implica uma presença balbuciante que malogra em se manifestar.Dizer que a mulher é mistério não é dizer que ela se cala e sim que sua linguagem não é compreendida; ela está presente, mas escondida sob véus;
existe além dessas incertas aparições. Quem é ela? Um anjo, um demônio, uma inspirada, uma comediante? Ou se supõe que existem para essasperguntas respostas impossíveis de descobrir, ou antes, que nenhuma é adequada porque uma ambiguidade fundamental afeta o ser feminino; em seucoração, ela é para si mesma indefinível: uma esfinge.O fato é que ela se veria bastante embaraçada em decidir quem ela é; a pergunta não comporta resposta; mas não porque a verdade recôndita sejademasiado móvel para se deixar aprisionar: é porque nesse terreno não há verdade. Um existente não é s enão o que faz; o possível não supera o real, aessência não precede a existência: em sua pura subjetividade o ser humano não é nada. Medem-no pelos seus atos. De uma camponesa pode-se dizerque se trata de uma boa ou má trabalhadora, de uma atriz que tem ou não talento; mas se se considera uma mulher em sua presença imanente, nada sepode dizer absolutamente, ela está aquém de qualquer qualificação. Ora, nas relações amorosas ou conjugais, em todas as relações em que a mulher éa vassala, o outro, é em sua imanência que é apreendida. É impressionante o fato de a companheira, a colega, a associada não terem mistério; emcompensação, se o vassalo é masculino, se diante de um homem ou de uma mulher mais velhos do que ele, mais ricos, um rapaz se apresenta como oobjeto inessencial, envolve-se ele também de mistério. E isso nos revela uma infraestrutura do mistério feminino que é de ordem econômica. Umsentimento também não é nada. “No terreno dos sentimentos o real não se distingue do imaginário, diz Gide. E basta imaginar que se ama para amar,por isso basta dizer que se imagina amar, quando se ama, para amar um pouco menos...” Entre o imaginário e o real só há discriminação através dascondutas. Detendo o homem neste mundo uma situação privilegiada, ele é que pode manifestar ativamente seu amor; muitas vezes sustenta a mulherou a ajuda. Desposando-a, dá-lhe uma posição social; dá-lhe presentes; sua independência econômica e social permite-lhe iniciativas e invenções.Separado de Mme de Villeparisis, o sr. de Norpois é quem fazia viagens de vinte e quatro horas para vê-la. Muitas vezes ele tem ocupações, ela não faznada; o tempo que passa com Mme de Villeparisis ele o dá, ela o toma: com prazer, com paixão, ou simplesmente para se distrair? Aceita ela esses donspor amor ou por interesse? Ama o marido ou o casamento? Naturalmente, as próprias provas que o homem dá são ambíguas: tal ou qual dom é feito poramor ou por piedade? Mas, enquanto normalmente a mulher encontra no comércio com o homem numerosas vantagens, o comércio com a mulher sóbeneficia o homem na medida em que ele a ama. Por isso, pelo conjunto de suas atitudes, pode-se apreciar mais ou menos o grau de seu apego; aopasso que a mulher quase não tem meios de sondar o próprio coração; segundo seu temperamento, terá pontos de vista diferentes acerca de seussentimentos, e enquanto os suportar passivamente nenhuma interpretação será mais verdadeira do que outra. Nos casos bastante raros em que eladetém os privilégios econômicos e sociais, o mistério inverte-se: o que demonstra que se liga não a este ou àquele sexo e sim a uma situação. Paragrande número de mulheres os caminhos da transcendência estão barrados: como não fazem nada, não se podem fazer ser; perguntam-seindefinidamente o que poderiam vir a ser, o que as leva a indagar o que são: é uma interrogação vã; se o homem malogra em descobrir essa essênciasecreta é muito simplesmente porque ela não existe. Mantida à margem do mundo, a mulher não pode definir-se objetivamente através desse mundo eseu mistério cobre apenas um vazio.Demais, acontece que, como todos os oprimidos, dissimula deliberadamente sua figura objetiva; o escravo, o criado, o indígena, todos os que dependemdos caprichos de um senhor aprenderam a opor-lhe um sorriso imutável ou uma impassibilidade enigmática; escondem cuidadosamente seusverdadeiros sentimentos, suas verdadeiras condutas. À mulher também ensinaram desde a adolescência a mentir aos homens, a trapacear, a usar desubterfúgios. Chega-se a eles com máscara: é prudente, hipócrita, comediante.Mas o Mistério feminino tal qual o reconhece o pensamento mítico é uma realidade mais profunda. Em verdade, acha-se ele implicado imediatamentena mitologia do Outro absoluto. Se se admite que a consciência inessencial é, ela também, uma subjetividade translúcida, capaz de operar o Cogito,admite-se que é, na verdade, soberana e retorna ao essencial. Para que toda reciprocidade se apresente como impossível, é preciso que o Outro sejapara si um outro, que sua subjetividade mesma seja afetada pela alteridade. Essa consciência que seria alienada enquanto consciência, em sua purapresença imanente, seria evidentemente Mistério; seria Mistério em si pelo fato de que o seria para si; seria o Mistério absoluto. Assim é que há, paraalém do segredo que sua dissimulação cria, um mistério do Preto, do Amarelo, enquanto considerados absolutamente como o Outro inessencial. Deve-seobservar que o cidadão norte-americano, que desnorteia profundamente o europeu médio, não é entretanto considerado “misterioso”: maismodes tamente asseguram que não o entendem; do mesmo modo, a mulher nem sempre “compreende” o homem, mas não há mistério masculino; é quea América rica e o homem estão do lado do Senhor, e o Mistério é propriedade do escravo.Bem entendido, não se pode senão sonhar nos crepúsculos da má-fé acerca da realidade positiva do Mistério; como certas alucinações marginais,dissipa-se logo que se tenta fixá-lo. A literatura malogra sempre ao pintar mulheres “misteriosas”. Elas podem somente surgir no início de um romancecomo estranhas, enigmáticas; mas, a menos que a história permaneça inacabada, terminam por revelar seu segredo e são então personagens coerentese translúcidos. Por exemplo, o herói dos livros de Peter Cheney não cessa de se espantar com os imprevisíveis caprichos das mulheres: nunca se podeadivinhar como vão conduzir-se, fazem abortar todos os cálculos; na verdade, logo que os motivos de seus atos são desvendados ao leitor, elas seapresentam como mecanismos muito simples: uma era espiã, outra ladra; por hábil que seja a intriga, há sempre uma chave e não poderia ser de outromodo, ainda que o autor tivesse todo o talento e toda a imaginação do mundo. O mistério nunca passa de uma miragem, dissipa-se quando se tentaapreendê-lo.Vemos assim que o mito se explica em grande parte pelo uso que dele faz o homem. O mito da mulher é um luxo. Só pode surgir se o homem escapa àurgente imposição de suas necessidades; quanto mais as relações são concretamente vividas, menos se idealizam. O felá do antigo Egito, o camponêsbeduíno, o artesão da Idade Média, o operário contemporâneo têm, nas necessidades do trabalho e da pobreza, relações demasiado definidas com amulher singular que é sua companheira para enfeitá-la como uma aura fasta ou nefasta. São as épocas e as classes a que se concedem os lazeres dosonho que erguem as estátuas negras ou brancas da feminilidade. Mas o luxo tem também uma utilidade. Tais sonhos são imperiosamente dirigidos porinteresses. Por certo, em sua maior parte, os mitos têm raízes na atitude espontânea do homem para com sua própria existência e o mundo que o cerca:mas a superação da experiência em direção à Ideia transcendente foi deliberadamente operada pela sociedade patriarcal para fins de autojustificação;através dos mitos, ela impunha aos indivíduos suas leis e costumes de maneira sensível e por imagens; sob uma forma mítica é que o imperativocoletivo se insinuava em cada consciência. Por intermédio das religiões, das tradições, da linguagem, dos contos, das canções, do cinema, os mitospenetram até nas existências mais duramente jungidas às realidades materiais. Todos podem encontrar nesses mitos uma sublimação de suas modestasexperiências: enganado por uma mulher amada, um declara que ela é uma matriz danada; outro, obcecado pela impotência viril, encara a mulher comoa fêmea do louva-a-deus; outro ainda compraz-se em companhia de sua mulher e ei-la Harmonia, Repouso, Terra nutriz. O gosto a uma eternidadebarata, a um absoluto de bolso, que se observa na maioria dos homens, satisfaz-se com mito. A menor emoção, uma contrariedade tornam-se o reflexode uma Ideia não temporal; essa ilusão lisonjeia agradavelmente a vaidade.O mito é uma dessas armadilhas da falsa objetividade em que se lança temerariamente o espírito de gravidade. Trata-se, mais uma vez, de substituir aexperiência vivida e os livres julgamentos que ela reclama por um ídolo imoto. A uma relação autêntica com um existente autônomo, o mito da Mulhersubstitui a contemplação imóvel de uma miragem. “Miragem! Miragem! É preciso matá-las porque não podemos apanhá-las; ou então tranquilizá-las,informá-las, dissipar-lhe o gosto pelas joias, fazer delas nossas companheiras iguais, nossas amigas íntimas, associadas neste mundo, vesti-las de outromodo, cortar-lhes os cabelos, dizer-lhes tudo...”, exclama Laforgue. O homem nada teria a perder, muito pelo contrário, se renunciasse a fantasiar amulher de símbolo. Os sonhos, quando são coletivos e dirigidos, são bem pobres e monótonos ao lado da realidade viva: para o verdadeiro sonhador,para o poeta, a realidade viva é uma fonte muito mais fecunda do que um maravilhoso puído. As épocas que mais amaram as mulheres não foram a dofeudalismo cortês nem o galante século XIX: foram as épocas em que — como no século XVIII — os homens encararam as mulheres como semelhantes;é então que se apresentam como verdadeiramente romanescas: basta ler Les Liaisons dangereuses, Le Rouge et le noir, Adeus às armas, para percebê-lo. As heroínas de Laclos, Stendhal, Hemingway não têm mistério; nem por isso são menos atraentes. Reconhecer um ser humano na mulher não éempobrecer a experiência do homem: esta nada perderia de sua diversidade, de sua riqueza, de sua intensidade, se se assumisse em suaintersubjetividade; recusar os mitos não é destruir toda relação dramática entre os sexos, não é negar as significações que se revelam autenticamenteao homem através da realidade feminina; não é suprimir a poesia, o amor, a aventura, a felicidade, o sonho: é somente pedir que as condutas, ossentimentos, as paixões assentem na verdade.231“A mulher se perde. Onde estão as mulheres? As mulheres de hoje não são mulheres”, viu-se qual o sentido desses slogans misteriosos. Aos olhos doshomens — e da legião de mulheres que veem por esses olhos — não basta ter um corpo de mulher, nem assumir como amante, como mãe, a função defêmea para ser “uma mulher de verdade”; através da sexualidade e da maternidade, o sujeito pode reivindicar sua autonomia; “a verdadeira mulher” éa q ue se aceita como Outro. Há na atitude dos homens de hoje uma duplicidade que cria na mulher um dilaceramento doloroso; eles aceitam emgrande medida que a mulher seja uma semelhante, uma igual; e, no entanto, continuam a exigir que ela permaneça o inessencial; para ela, esses doisdestinos não são conciliáveis; ela hesita entre um e outro sem se adaptar exatamente a nenhum e daí sua falta de equilíbrio. No homem não há nenhumhiato entre a vida pública e a vida privada: quanto mais ele afirma seu domínio do mundo pela ação e pelo trabalho, mais se revela viril; nele, os valoreshumanos e os valores vitais se confundem; ao passo que os êxitos autônomos da mulher estão em contradição com sua feminilidade, porquanto se exigeda “verdadeira mulher” que se torne objeto, que seja o Outro. É muito possível que, neste ponto, a sensibilidade e até a sexualidade do homem semodifiquem. Uma nova estética já nasceu. Se a moda dos bustos chatos e das ancas magras — da mulher-efebo — durou pouco, não se voltou contudoao ideal opulento dos séculos passados. Pede-se ao corpo feminino que seja carne, mas discretamente; deve ser esbelto e não empapado de banha; commúsculos, flexível e robusto, é preciso que indique a transcendência; preferem-no não branco como uma planta de estufa, mas tendo enfrentado o soluniversal, tostado como um torso de trabalhador. Tornando-se prático, o vestido da mulher não a fez parecer assexuada: ao contrário, as saias curtasvalorizaram mais do que outrora as pernas e as coxas. Não se compreende por que o trabalho a privaria de sua atração erótica. Possuir a mulher aomesmo tempo como personagem social e como presa carnal pode ser perturbador: em uma série de desenhos de Peynet publicadosrecentemente,232 via-se um jovem noivo abandonar a noiva porque era seduzido pela bela prefeita que se dispunha a celebrar o casamento. O fato deuma mulher exercer um “ofício viril” e ser ao mesmo tempo desejável foi durante muito tempo um tema de piadas mais ou menos livres. Pouco a pouco,o escândalo e a ironia se embotaram e parece que nova forma de erotismo está nascendo: talvez venha a engendrar novos mitos.O que é certo é que hoje é muito difícil às mulheres assumirem concomitantemente sua condição de indivíduo autônomo e seu destino feminino; aí está
a fonte dessas inépcias, dessas incompreen-sões que as levam, por vezes, a se considerar como um “sexo perdido”. E, provavelmente, é maisconfortável suportar uma escravidão cega que trabalhar para se libertar: os mortos também estão mais bem adaptados à terra do que os vivos. Comoquer que seja, uma volta ao passado não é mais possível nem desejável. O que se deve esperar é que, por seu lado, os homens assumam sem reserva asituação que está surgindo; somente então a mulher poderá viver sem tragédia. Então poderá ver-se realizado o voto de Laforgue: “Ó moças, quandosereis nossos irmãos, nossos irmãos íntimos sem segunda intenção de exploração? Quando nos daremos o verdadeiro aperto de mãos?” Então“Mélusine não mais sob o peso da fatalidade desencadeada sobre ela pelo homem só, Mélusine libertada...” reencontrará seu “equilíbriohumano”.233 Então ela será plenamente um ser humano “quando se quebrar a escravidão infinita da mulher, quando ela viver por ela e para ela, ohomem — até hoje abominável — tendo-lhe dado a alforria”.234
IntroduçãoAS mulheres de hoje estão destronando o mito da feminilidade; começam a afirmar concretamente sua independência; mas não é sem dificuldade queconseguem viver integralmente sua condição de ser humano. Educadas por mulheres, no seio de um mundo feminino, seu destino normal é o casamentoque ainda as subordina praticamente ao homem; o prestígio viril está longe de se ter apagado: assenta ainda em sólidas bases econômicas e sociais. É,pois, necessário estudar com cuidado o destino tradicional da mulher. Como a mulher faz o aprendizado de sua condição, como a sente, em queuniverso se acha encerrada, que evasões lhe são permitidas, eis o que procurarei descrever. Só então poderemos compreender que problemas seapresentam às mulheres que, herdeiras de um pesado passado, se esforçam por forjar um futuro novo. Quando emprego as palavras “mulher” ou“feminino” não me refiro evidentemente a nenhum arquétipo, a nenhuma essência imutável; após a maior parte de minhas afirmações cabesubentender: “no estado atual da educação e dos costumes.” Não se trata aqui de enunciar verdades eternas, mas de descrever o fundo comum sobre oqual se desenvolve toda a existência feminina singular.
1/InfânciaNinguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio dasociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino. Somente amediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a criança não pode apreender-se como sexualmentediferençada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão domundo: é através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o Universo. O drama do nascimento e o do desmame desenvolvem-se damesma maneira para as crianças dos dois sexos; têm elas os mesmos interesses, os mesmos prazeres; a sucção é, inicialmente, a fonte de suassensações mais agradáveis; passam depois por uma fase anal em que tiram, das funções excretórias que lhe são comuns, as maiores satisfações; seudesenvolvimento genital é análogo; exploram o corpo com a mesma curiosidade e a mesma indiferença; do clitóris e do pênis tiram o mesmo prazerincerto; à medida que já se objetiva sua sensibilidade, voltam-se para a mãe: é a carne feminina, suave, lisa, elástica que suscita os desejos sexuais, eesses desejos são preensivos; é de uma maneira agressiva que a menina, como o menino, beija a mãe, acaricia-a, apalpa-a; têm o mesmo ciúme se nasceoutra criança; manifestam-no da mesma maneira: cólera, amuo, distúrbios urinários; recorrem aos mesmos ardis para captar o amor dos adultos. Até os12 anos a menina é tão robusta quanto os irmãos e manifesta as mesmas capacidades intelectuais; não há terreno em que lhe seja proibido rivalizarcom eles. Se, bem antes da puberdade e, às vezes, mesmo desde a primeira infância, ela já se apresenta como sexualmente especificada, não é porquemisteriosos instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é porque a intervenção de outrem na vida da criança équase original e desde seus primeiros anos sua vocação lhe é imperiosamente insuflada.O mundo apresenta-se, a princípio, ao recém-nascido sob a figura de sensações imanentes; ele ainda se acha mergulhado no seio do Todo como notempo em que habitava as trevas de um ventre; seja criado no seio ou na mamadeira, é envolto pelo calor da carne materna. Pouco a pouco, aprende aperceber os objetos como distintos de si: distingue-se deles; ao mesmo tempo, de modo mais ou menos brutal, desprende-se do corpo nutriz; por vezesreage a essa separação com uma crise violenta.235 Em todo caso, é no momento em que ela se consuma — lá pela idade de seis meses mais ou menos —que a criança com eça a manifestar em suas mímicas, que se tornam mais tarde verdadeiras exibições, o desejo de seduzir outrem. Por certo, essaatitude não é definida por uma escolha refletida; mas não é preciso pensar uma situação para que ela exista. De maneira imediata a criança de peitovive o drama original de todo existente, que é o drama de sua relação com o Outro. É na angústia que o homem sente seu abandono. Fugindo à sualiberdade, à sua subjetividade, ele gostaria de perder-se no seio do Todo: aí se encontra a origem de seus devaneios cósmicos e panteísticos, de seudesejo de esquecimento, de sono, de êxtase, de morte. Ele jamais consegue abolir seu eu separado: pelo menos deseja atingir a solidez do “em-si”, serpetrificado em coisa; é, singularmente, quando imobilizado pelo olhar de outrem que se revela a si mesmo como um ser. É nessa perspectiva quecumpre interpretar as condutas da criança: sob uma forma carnal, ela descobre a finitude, a solidão, o abandono em um mundo estranho; tentacompensar essa catástrofe alienando sua existência numa imagem de que outrem justificará a realidade e o valor. Parece que é a partir do momento emque percebe sua imagem no espelho — momento que coincide com o do desmame — que ela começa a afirmar sua identidade:236 seu eu se confundecom este reflexo, a tal ponto que só se forma ao se alienar. Desempenhe ou não o espelho propriamente dito um papel mais ou menos considerável, ocerto é que a criança começa, por volta dos seis meses, a compreender as mímicas dos pais e a se apreender sob o olhar deles como um objeto. Ela já éum sujeito autônomo que se transcende para o mundo, mas é somente sob uma figura alienada que ela encontra a si mesma.Quando cresce, a criança luta de duas maneiras contra o abandono original. Tenta negar a separação: aconchega-se nos braços da mãe, procura seucalor vivo, reclama suas carícias. Tenta fazer-se justificar pela aprovação de outrem. Os adultos se lhe afiguram deuses: têm o poder de lhe conferir oser. Sente a magia do olhar que a metamorfoseia ora em delicioso anjinho, ora em monstro. Esses dois modos de defesa não se excluem: ao contrário,se completam e se penetram. Quando a sedução alcança êxito, o sentimento de justificação encontra uma confirmação carnal nos beijos e nas caríciasrecebidos: é uma mesma passividade feliz que a criança conhece no colo da mãe e sob seu olhar benevolente. Não há, durante os três ou quatroprimeiros anos, diferença entre a atitude das meninas e a dos meninos; tentam todos perpetuar o estado feliz que precedeu o desmame; neles comonelas encontramos condutas de sedução e de exibição: eles desejam tanto quanto elas agradar, provocar sorrisos, ser admirados.É mais satisfatório negar o rompimento do que superá-lo, mais radical perder-se no coração do Todo do que se fazer petrificar pela consciência deoutrem: a fusão carnal cria uma alienação mais profunda do que qualquer renúncia perante o olhar alheio. A sedução, a exibição representam uma fasemais complexa, menos fácil do que o simples abandono nos braços maternos. A magia do olhar adulto é caprichosa; a criança finge ser invisível, os paisentram no jogo, procuram-na às apalpadelas, riem e depois bruscamente declaram: “Você está nos aborrecendo, você não é invisível.” Uma frase dacriança divertiu, ela a repete; mas, dessa vez, dão de ombros. Neste mundo tão incerto, tão imprevisível quanto o universo de Kafka, tropeça-se a cadapasso.237 É por isso que tantas crianças têm medo de crescer; desesperam-se quando os pais deixam de sentá-las nos joelhos, de aceitá-las na cama;através da frustração física, sentem cada vez mais cruelmente o abandono de que o ser humano nunca toma consciência senão com angústia.Nesse ponto é que as meninas vão parecer, a princípio, privilegiadas. Um segundo desmame, menos brutal, mais lento do que o primeiro, subtrai ocorpo da mãe aos carinhos da criança; mas é principalmente aos meninos que se recusam pouco a pouco beijos e carícias; quanto à menina, continuama acariciá-la, permitem-lhe que viva grudada às saias da mãe, no colo do pai que lhe faz festas; vestem-na com roupas macias como beijos, sãoindulgentes com suas lágrimas e seus caprichos, penteiam-na com cuidado, divertem-se com seus trejeitos e seus coquetismos; contatos carnais eolhares complacentes protegem-na contra a angústia da solidão. Ao menino, ao contrário, proíbe-se até o coquetismo; suas manobras sedutoras, suascomédias aborrecem. “Um homem não pede beijos... Um homem não se olha no espelho... Um homem não chora”, dizem-lhe. Querem que ele seja “umhomenzinho”; é libertando-se dos adultos que ele conquistará sua aprovação. Agradará se não demonstrar que procura agradar.Muitos meninos, assustados com a dura independência a que são condenados, almejam então ser meninas; nos tempos em que no início os vestiamcomo elas, era muitas vezes com lágrimas que abandonavam o vestido pelas calças, e viam seus cachos serem cortados. Alguns escolhemobstinadamente a feminilidade, o que é uma das maneiras de se orientar para o homossexualismo: “Desejei apaixonadamente ser menina, e levei ainconsciência da grandeza de ser homem até desejar urinar sentado”, conta Maurice Sachs em Le Sabbat. Entretanto, se o menino se apresenta, aprincípio, como menos favorecido do que as irmãs, é que lhe reservam maiores desígnios. As exigências a que o submetem implicam imediatamenteuma valorização. Em suas recordações, Maurras conta que tinha ciúmes de um caçula que a mãe e a avó tratavam com mais carinho: o pai pegou-o pelamão e levou-o para fora do quarto: “Nós somos homens; deixemos aí essas mulheres”, disse o pai. Persuadem a criança de que é por causa dasuperioridade dos meninos que exigem mais deles; para encorajá-lo no caminho difícil que é o seu, insuflam-lhe o orgulho da virilidade; essa noçãoabstrata se reveste para ele de um aspecto concreto: encarna-se no pênis; não é espontaneamente que sente orgulho de seu pequeno sexo indolente;sente-o através da atitude dos que o cercam. Mães e amas perpetuam a tradição que assimila o falo à ideia de macho; seja porque lhe reconhecem oprestígio na gratidão amorosa ou na submissão, seja porque constitua para elas um revide reencontrá-lo na criança sob uma forma humilhada, o fato éque tratam o pênis infantil com uma complacência singular. Rabelais nos relata as brincadeiras e as conversas das amas de Gargântua;238 a históriaregistrou as das amas de Luís XIII. Mulheres com menos pudor dão, entretanto, um apelido gentil ao sexo do menino e lhe falam dele como de umapequena pessoa que é a um tempo ele próprio e um outro; fazem desse sexo, segundo a expressão já citada, “um alter ego geralmente mais esperto,mais inteligente e mais hábil do que o indivíduo”.239 Anatomicamente, o pênis presta-se muito bem a esse papel; separado do corpo, apresenta-se comoum pequeno brinquedo natural, uma espécie de boneca. Valorizam, portanto, a criança valorizando-lhe o duplo. Um pai contava-me que um de seusfilhos com a idade de três anos ainda urinava sentado; cercado de irmãs e primas, era uma criança tímida e triste; um dia o pai levou-o ao W.C. dizendo-lhe: “Vou lhe mostrar como fazem os homens.” A partir de então o menino, orgulhoso de urinar em pé, desprezou as meninas “que mijam por umburaco”; seu desdém provinha, originalmente, não do fato de carecerem de um órgão, mas sim do fato de não terem sido distinguidas e iniciadas pelopai. Assim, longe de o pênis ser descoberto como um privilégio imediato de que o menino tiraria um sentimento de superioridade, sua valorizaçãosurge, ao contrário, como uma compensação — inventada pelos adultos e ardorosamente aceita pela criança — para as durezas do último desmame;deste modo, ela se acha defendida contra a saudade de não ser mais uma criança de peito, de não ser uma menina. Posteriormente, o menino encarnaráem seu sexo sua transcendência e sua soberania orgulhosa.240O destino da menina é muito diferente. Nem mães nem amas têm reverência e ternura por suas partes genitais; não chamam a atenção para esse órgãosecreto de que só se vê o invólucro e que não se deixa pegar; em certo sentido, a menina não tem sexo. Não sente essa ausência como uma falha; seucorpo é evidentemente uma plenitude para ela, mas ela se acha situada no mundo de um modo diferente do menino e um conjunto de fatores podetransformar a seus olhos a diferença em inferioridade.Há poucas questões mais discutidas pelos psicanalistas do que o famoso “complexo de castração” feminino. Em sua maioria, eles admitem hoje que odesejo de um pênis se apresenta, segundo os casos, de diferentes maneiras.241 Primeiramente, há muitas meninas que ignoram, até idade avançada, aanatomia masculina. A criança aceita naturalmente que haja homens e mulheres como há um sol e uma lua: ela acredita em essências contidas naspalavras e sua curiosidade não é a princípio analítica. Para muitas outras, o pedacinho de carne que pende entre as pernas do menino é insignificante eaté irrisório; é uma singularidade que se confunde com a das roupas e do penteado; é, muitas vezes, num irmãozinho recém-nascido que ela descobreessa singularidade e, “quando a menina é muito pequena”, diz H. Deutsch, “não se impressiona com o pênis do irmãozinho”; e cita o exemplo de umamenina de 18 meses que permaneceu absolutamente indiferente à descoberta do pênis, e só lhe deu valor muito mais tarde, em relação às suaspreocupações pessoais. Acontece mesmo que o pênis seja considerado uma anomalia: é uma excrescência, uma coisa vaga que pende como os quistos,as tetas, as verrugas; pode inspirar repugnância. Enfim, há casos numerosos em que a menina se interessa pelo pênis do irmão ou de um colega, masisso não significa que sinta uma inveja propriamente sexual e ainda menos que se sinta profundamente atingida pela ausência desse órgão; ela desejaapossar-se dele como almeja apossar-se de qualquer objeto; mas esse desejo pode permanecer superficial.É certo que as funções excretórias, e particularmente as funções urinárias, interessam apaixonadamente as crianças: urinar na cama é muitas vezes umprotesto contra a preferência demonstrada pelos pais por outro filho. Há países em que os homens urinam sentados e acontece que mulheres urinem de
pé: isso é feito habitualmente por muitas camponesas; mas, na sociedade ocidental contemporânea, querem geralmente os costumes que elas seagachem, ficando os homens de pé. Essa diferença é para a menina a diferenciação sexual mais impressionante. Para urinar, ela precisa agachar-se,despir-se e, portanto, esconder-se: é uma servidão vergonhosa e incômoda. A vergonha aumenta nos casos frequentes em que sofre de emissõesurinárias involuntárias, nos casos de ataques de riso, por exemplo; o controle é menos seguro nela do que nos meninos. Nestes, a função urináriaapresenta-se como um jogo livre que tem a atração de todos os jogos em que se exerce a liberdade; o pênis se deixa manipular e através dele pode-seagir, o que constitui um dos interesses profundos da criança. Uma menina, vendo um menino urinar, declarou com admiração: “Como é cômodo”.242 Ojato pode ser dirigido à vontade, a urina lançada longe: o menino aufere disso um sentimento de onipotência. Freud falou “da ambição ardente dosantigos diuréticos”; Stekel discutiu com bom senso essa fórmula, mas é verdade, como diz Karen Horney,243 que “fantasias de onipotência,principalmente de caráter sádico, associam-se muitas vezes ao jato masculino de urina”; esses fantasmas que sobrevivem em alguns homens244 sãoimportantes na criança. Abraham fala do grande prazer “que as mulheres experimentam em regar o jardim com uma mangueira”; e creio, de acordocom as teorias de Sartre e Bachelard,245 que não é necessariamente246 a associação da mangueira ao pênis que é fonte desse prazer; todo jato de águase apresenta como um milagre, um desafio à gravidade: dirigi-lo, governá-lo é obter uma pequena vitória sobre as leis naturais. Em todo caso, há nisso,para o menino, um divertimento cotidiano que não está ao alcance de suas irmãs. Ele permite, além disso, principalmente no campo, estabeleceratravés do jato urinário múltiplas relações com as coisas: água, terra, espuma, neve etc. Há meninas que, para conhecer tais experiências, se deitam decostas e tentam fazer a urina “esguichar para cima”, ou que se exercitam em urinar de pé. Segundo Karen Horney, invejariam igualmente nos meninosa possibilidade de exibição que lhes é dada. E conta: “Uma doente exclamou subitamente, depois de ter visto na rua um homem urinando: Se pudessepedir alguma coisa à Providência, seria poder urinar, uma única vez na vida, como um homem.” Parece às meninas que o menino, tendo direito de bulirno pênis, pode servir-se dele como de um brinquedo, ao passo que os órgãos femininos são tabus. Que esse conjunto de fatores torne desejável a muitasdelas a posse de um sexo masculino é um fato testemunhado por bom número de pesquisas e de confidências recolhidas por psiquiatras. HavelockEllis247 cita essas palavras de uma paciente qu e designa pelo nome de Zênia: “O ruído de um jato de água, sobretudo quando sai de uma longamangueira, sempre foi muito excitante para mim, lembrando-me o jato de urina observado durante minha infância em meu irmão e mesmo em outraspessoas.” Outra paciente, Mme R.S., conta que, quando criança, gostava de segurar o pênis de um coleguinha; um dia deram-lhe uma mangueira dejardim: “Pareceu-me delicioso segurá-la como se segurasse um pênis.” Ela insiste no fato de que o pênis não tinha para ela nenhum sentido sexual; sósabia que servia para urinar. O caso mais interessante é o de Florrie, recolhido por Havelock Ellis (Estudos de psicologia sexual, t. 13) e analisadoposteriormente por Stekel. Dou portanto aqui o relato minucioso do caso: Trata-se de uma mulher muito inteligente, artista, ativa, biologicamente normal e não invertida. Conta ela que a função urinária desempenhou papel importante em sua infância; brincava de jogos urinários com os irmãos e molhavam as mãos sem nenhuma repugnância: “Minhas primeiras concepções da superioridade dos homens relacionaram-se com os órgãos urinários. Ressentia-me da natureza por me ter privado de um órgão tão cômodo e tão decorativo. Nenhuma chaleira privada de seu bico jamais se achou tão miserável. Ninguém precisou insuflar em mim a teoria da predominância e da superioridade masculinas. Tinha uma prova constante diante dos olhos.” Ela própria experimentava grande prazer em urinar no campo. “Nada se afigurava a ela comparável ao ruído encantador do jato sobre as folhas mortas em um recanto de bosque e ela observava a absorção. Mas o que mais a fascinava era urinar na água.” É um prazer a que muitos meninos são sensíveis e há toda uma série de estampas pueris e vulgares que mostram meninos urinando em açudes ou regatos. Florrie queixa-se de que a forma de suas calças a impedia de se entregar às experiências que quisera tentar; muitas vezes durante os passeios no campo, acontecia de ela reter a urina o máximo possível e, bruscamente, aliviar-se de pé. “Recordo perfeitamente a sensação estranha e proibida desse prazer e também meu espanto de que o jato pudesse sair enquanto eu estivesse em pé.” A seu ver, as formas das roupas infantis têm muita imp ortância na psicologia da mulher em geral. “Não foi apenas para mim uma fonte de aborrecimentos ter de tirar minha calça e depois abaixar-me para não lhe sujar a frente. A parte de trás, que deve ser puxada e deixa as nádegas nuas, explica por que, em muitas mulheres, o pudor situa-se atrás e não na frente. A primeira distinção sexual que se impôs a mim, na verdade, a grande diferença, foi verificar que os meninos urinavam de pé e as meninas, agachadas. Foi provavelmente assim que meus mais antigos sentimentos de pudor se associaram às minhas nádegas mais do que a meu púbis.” Todas essas impressões assumiram, em Florrie, uma grande importância, porque o pai a chicoteava frequentemente até sangrar e uma governanta, certa vez, a surrara a fim de obrigá-la a urinar; ela era obcecada por sonhos e fantasias masoquistas em que se via açoitada por uma professora diante dos olhos de toda a escola e urinando, então, contra a vontade, “ideia que me causava uma sensação de prazer realmente curiosa”. Aos 15 anos, aconteceu-lhe urinar de pé, numa rua deserta, premida por uma necessidade urgente. “Analisando minhas sensações, penso que a mais importante era a vergonha de estar em pé e o comprimento do trajeto que o jato deveria percorrer entre mim e a terra. Essa distância fazia disso algo importante e risível, ainda que o vestido o escondesse. Na atitude habitual havia um elemento de intimidade. Sendo criança, mesmo grande, o jato não podia percorrer um longo trajeto; mas, com 15 anos e alta, senti vergonha em pensar no comprimento do trajeto. Tenho certeza de que as senhoras às quais me referi, 248 que fugiram apavoradas do mictório moderno de Portsmouth, consideraram muito indecente para uma mulher ficar em pé e de pernas abertas, levantar as saias e projetar tão longo jato por baixo.” Florrie recomeçou aos vinte anos a experiência e a repetiu , posteriormente, muitas vezes; sentia uma mistura de volúpia e de vergonha da ideia de que podia ser surpreendida, e de que seria impossível parar. “O jato parecia sair d e mim sem meu consentimento e, no entanto, causava-me maior prazer do que se o houvesse feito voluntariamente. 249 Essa sensação curiosa de que é tirado de nós por algum poder invisível, que decidiu que o faríamos, é um prazer exclusivamente feminino e de um encanto sutil. Há um encanto agudo em sentir a torrente sair em virtude de uma força mais poderosa do que nós mesmas.” Posteriormente, Florrie desenvolveu em si um erotismo flagelatório sempre acompanhado de obsessões urinárias. Esse caso é muito interessante porque focaliza vários elementos da experiência infantil. Mas são evidentemente circunstâncias singulares que lhesconferem tão exagerada importância. Para as meninas normalmente educadas, o privilégio urinário do menino é coisa demasiado secundária paraengendrar diretamente um sentimento de inferioridade. Os psicanalistas que supõem, segundo Freud, que a simples descoberta do pênis bastaria paraengendrar um traumatismo, desconhecem profundamente a mentalidade infantil; esta é muito menos racional do que parecem imaginar; ela nãoestabelece categorias definitivas e não se embaraça com a contradição. Quando a menina, ainda muito pequena, declara ao ver um pênis: “Também tiveum” ou “também terei um” ou até “também tenho um”, não se trata de uma defesa de má-fé; a presença e a ausência não se excluem; a criança — comoo provam seus desenhos — acredita muito menos no que vê com seus olhos do que nos tipos significativos que fixou de uma vez por todas: desenhamuitas vezes sem olhar e, e m todo caso, só encontra em suas percepções o que nelas projeta. Saussure,250 que insiste justamente neste ponto, cita estaimportante observação de Luquet: “Uma vez reconhecido errado, o traçado é como inexistente, a criança literalmente não mais o vê como quehipnotizada pelo traçado novo que o substitui, da mesma maneira que não leva em conta as linhas que podem encontrar-se acidentalmente em seupapel.” A anatomia masculina constitui uma forma forte que muitas vezes se impõe à menina; e literalmente ela não vê mais seu próprio corpo.Saussure cita o exemplo de uma menina de quatro anos que, tentando urinar como um menino por entre as barras de uma grade, dizia que desejava“um negocinho comprido que escorre”. Afirmava ao mesmo tempo possuir um pênis e não o possuir, o que concorda com o pensamento por“participação” que Piaget descreveu nas crianças. A menina pensa de bom grado que todas as crianças nascem com um pênis, mas que, depois, os paiscortam alguns para criar meninas; essa ideia satisfaz o artificialismo da criança que, divinizando os pais, “concebe-os como a causa de tudo o que elapossui”, diz Piaget. Não vê a princípio uma punição na castração. Para que esta assuma um caráter de frustração, é preciso que a menina já se ache,por uma razão qualquer, descontente com sua situação. Como justamente observa H. Deutsch, um acontecimento exterior, como a visão de um pênis,não poderia comandar um desenvolvimento interno: “A visão do órgão masculino pode ter um efeito traumático, mas somente com a condição de quetenha sido precedida por uma série de experiências anteriores, suscetíveis de provocar esse efeito.” A menina projetará sua insatisfação no órgãomasculino se se sentir, por exemplo, incapaz de realizar seus desejos de masturbação ou exibição, se seus pais reprimirem seu onanismo, se ela tiver aimpressão de ser menos querida, menos estimada do que seus irmãos. “A descoberta, feita pela menina, da diferença anatômica com o menino é aconfirmação de uma necessidade que sentiu anteriormente, sua racionalização, por assim dizer.”251 E Adler insistiu justamente no fato de que é avalorização efetuada pelos pais e pelo ambiente que dá ao menino o prestígio de que o pênis se torna a explicação e o símbolo, aos olhos da menina.Consideram o irmão superior; ele próprio orgulha-se de sua virilidade; ela o inveja então e sente-se frustrada. Por vezes, é tomada de rancor contra amãe, mais raramente contra o pai; ou então acusa a si própria de se ter mutilado, ou consola-se pensando que o pênis se acha escondido dentro de seucorpo e que um dia aparecerá.É certo que a ausência do pênis desempenhará um papel importante no destino da menina, ainda qu e ela não inveje seriamente a posse dele. O grandeprivilégio que o menino aufere disso é o fato de que, dotado de um órgão que se mostra e pode ser pegado, tem a possibilidade de alienar-se nele aomenos parcialmente. Os mistérios de seu corpo, suas ameaças, ele os projeta fora de si, o que lhe permite mantê-los à distância: sem dúvida, sente-seem perigo com seu pênis, teme a castração, mas é um medo mais fácil de dominar do que o temor difuso da menina em relação a seus “interiores”,temor que amiúde se perpetua através de toda a sua vida de mulher. Ela tem uma grande preocupação por tudo o que ocorre dentro dela; é desde oinício muito mais opaca a seus próprios olhos, mais profundamente assaltada pelo mistério perturbador da vida do que o homem. Possuindo um alterego em que se reconhece, o menino pode ousadamente assumir sua subjetividade; o próprio objeto em que se aliena torna-se um símbolo de autonomia,de transcendência, de poder: o menino mede o comprimento de seu pênis, compara com os colegas a força do jato urinário; mais tarde, a ereção e aejaculação são fontes de satisfação e desafio. A menina, entretanto, não pode encarnar-se em nenhuma parte de si mesma. Em compensação, põem-lhenas mãos, a fim de que desempenhe junto dela o papel de alter ego, um objeto estranho: uma boneca. Cumpre notar que também é chamada de poupée(boneca) a atadura com que se envolve um dedo ferido: um dedo vestido, separado, é olhado com alegria e uma espécie de orgulho, a criança esboçacom ele o processo de al ienação. Mas é um boneco com cara humana — ou, em sua falta, um sabugo de milho ou um simples pedaço de pau — quesubstitui de maneira mais satisfatória esse duplo, esse brinquedo natural que é o pênis.A grande diferença está em que, de um lado, a boneca representa um corpo na sua totalidade e, de outro, é uma coisa passiva. Por isso, a menina seráencorajada a alienar-se em sua pessoa por inteiro e a considerá-la um dado inerte. Ao passo que o menino procura a si próprio no pênis enquantosujeito autônomo, a menina embala sua boneca e enfeita-a como aspira a ser enfeitada e embalada; inversamente, ela pensa a si mesma como umamaravilhosa boneca.252 Por meio de cumprimentos e censuras, de imagens e palavras, ela descobre o sentido das palavras “bonita” e “feia”; sabe, desdelogo, que para agradar é preciso ser “bonita como uma imagem”; ela procura assemelhar-se a uma imagem, fantasia-se, olha-se no espelho, compara-seàs princesas e às fadas dos contos. Um exemplo impressionante desse coquetismo infantil nos é fornecido por Maria Bashkirtseff. Não é por certo umacaso se, tardiamente desmamada — tinha três anos e meio — experimentou tão fortemente, por volta de 4 a 5 anos, a necessidade de ser admirada, deexistir para outrem; o choque deve ter sido violento numa criança mais madura e ela deve ter procurado com mais paixão vencer a separação infligida:“Com cinco anos, escreve ela em seu diário, eu me vestia com rendas da mamãe, flores nos cabelos e ia dançar no salão. Era a grande dançarina Patipae toda a casa ali estava para me olhar...”Esse narcisismo aparece tão precocemente na menina, desempenha em sua vida de mulher um papel tão primordial, que pode ser considerado como
emanação de um misterioso instinto feminino. Mas acabamos de ver que, na verdade, não é um destino anatômico que dita sua atitude. A diferença quea distingue dos meninos é um fato que ela poderia assumir de muitas maneiras. O pênis constitui certamente um privilégio, mas cujo preçonaturalmente diminui quando a criança se desinteressa de suas funções excretórias e se socializa; se ainda o conserva a seus olhos, depois da idade deoito a nove anos, é porque se tornou o símbolo de uma virilidade que é socialmente valorizada. Em verdade, a influência d a educação e do ambiente éaqui imensa. Todas as crianças tentam compensar a separação do desmame através de condutas de sedução e de exibição; ao menino obrigam aultrapassar essa fase, libertam-no de seu narcisismo fixando-o no pênis; ao passo que a menina é confirmada na tendência de se fazer objeto, que écomum a todas as crianças. A boneca ajuda-a, mas não desempenha tampouco um papel determinante; o menino pode também querer bem a um urso,um polichinelo, nos quais se projeta; é na forma global de suas vidas que cada elemento — pênis, boneca — assume sua importância.Assim, a passividade que caracterizará essencialmente a mulher “feminina” é um traço que se desenvolve nela desde os primeiros anos. Mas é um erropretender que se trata de um dado biológico: na verdade, é um destino que lhe é imposto por seus educadores e pela sociedade. A imensa sorte domenino está em que sua maneira de existir para outrem encoraja-o a pôr-se para si. Ele faz o aprendizado de sua existência como livre movimento parao mundo; rivaliza-se em rudeza e em independência com os outros meninos, despreza as meninas. Subindo nas árvores, brigando com os colegas,enfrentando-os em jogos violentos, ele apreende seu corpo como um meio de dominar a natureza e um instrumento de luta; orgulha-se de seusmúsculos como de seu sexo; através de jogos, esportes, lutas, desafios, provas, encontra um emprego equilibrado para suas forças; ao mesmo tempoconhece as lições severas da violência; aprende a receber pancada, a desdenhar a dor, a recusar as lágrimas da primeira infância. Empreende, inventa,ousa. Sem dúvida, experimenta-se também como “para outrem”, põe em questão sua virilidade, do que decorrem, em relação aos adultos e a outroscolegas, muitos problemas. Porém, o mais importante é que não há oposição fundamental entre a preocupação dessa figura objetiva, que é a sua, e suavontade de se afirmar em projetos concretos. É fazendo que ele se faz ser, num só movimento. Ao contrário, na mulher há, no início, um conflito entresua existência autônoma e seu “ser-outro”; ensinam-lhe que para agradar é preciso procurar agradar, fazer-se objeto; ela deve, portanto, renunciar àsua autonomia. Tratam-na como uma boneca viva e recusam-lhe a liberdade; fecha-se assim um círculo vicioso, pois quanto menos exercer sualiberdade para compreender, apreender e descobrir o mundo que a cerca, menos encontrará nele recursos, menos ousará afirmar-se como sujeito; se aencorajassem a isso, ela poderia manifestar a mesma exuberância viva, a mesma curiosidade, o mesmo espírito de iniciativa, a mesma ousadia que ummenino. É o que acontece, por vezes, quando lhe dão uma formação viril; muitos problemas então lhe são poupados.253 É interessante observar que éum gênero de educação que o pai de bom grado dá à filha; as mulheres educadas por um homem escapam, em grande parte, às taras da feminilidade.Mas os costumes opõem-se a que as meninas sejam tratadas exatamente como meninos. Conheci numa aldeia meninas de três a quatro anos que o paiobrigava a usar calças; todas as crianças perseguiam-nas: “São meninas ou meninos?”, procurando veri ficar; a tal ponto que elas suplicavam que lhespusessem vestidos. A não ser que levem uma vida muito solitária, mesmo quando os pais autorizam maneiras masculinas, os que cercam a menina, suasamigas, seus professores sentem-se chocados. Haverá sempre tias, avós, primas para contrabalançar a influência do pai. Normalmente, o papel desteem relação às filhas é secundário. Uma das maldições que pesam sobre a mulher — Michelet assinalou-a justamente — está em que, em sua infância,ela é abandonada nas mãos das mulheres. O menino também é, a princípio, educado pela mãe; mas ela respeita sua virilidade e ele lhe escapa desdelogo;254 ao passo que ela almeja integrar a filha no mundo feminino.Veremos adiante quanto são complexas as relações entre mãe e filha; a filha é para a mãe ao mesmo tempo seu duplo e uma outra, ao mesmo tempo amãe a adora imperiosamente e lhe é hostil; impõe à criança seu próprio destino: é uma maneira de reivindicar orgulhosamente sua própria feminilidadee também uma maneira de se vingar desta. Encontra-se o mesmo processo entre os pederastas, os jogadores, os viciados em entorpecentes, entre todosos que se vangloriam de pertencer a uma determinada confraria e com isso se sentem humilhados: tentam conquistar adeptos com ardenteproselitismo. Do mesmo modo, as mulheres, quando é confiada a elas uma menina, buscam, com um zelo em que a arrogância se mistura ao rancor,transformá-la em uma mulher semelhante a si próprias. E até uma mãe generosa, que deseja sinceramente o bem da criança, pensará em geral que émais prudente fazer dela uma “mulher de verdade ”, porquanto assim é que a sociedade a acolherá mais facilmente. Dão à menina por amigas outrasmeninas, entregam-na a professoras, ela vive entre matronas como no tempo do gineceu, escolhem para ela livros e jogos que a iniciem em seu destino,insuflam-lhe tesouros de sabedoria feminina, propõem-lhe virtudes femininas, ensinam-lhe a cozinhar, a costurar, a cuidar da casa ao mesmo tempo queda toalete, da arte de seduzir, do pudor; vestem-na com roupas incômodas e preciosas das quais precisa cuidar, penteiam-na de maneira complicada,impõem-lhe regras de comportamento: “Endireite o corpo, não ande como uma pata.” Para ser graciosa, ela deverá reprimir seus movimentosespontâneos; pedem-lhe que não tome atitudes de menino, proíbem-lhe exercícios violentos, brigas: em suma, a menina é incitada a tornar-se, como asmais velhas, uma serva e um ídolo. Hoje, graças às conquistas do feminismo, torna-se dia a dia mais normal encorajá-la a estudar, a praticar esporte;mas perdoam-lhe ma is facilmente do que ao menino o fato de fracassar; tornam-lhe mais difícil o êxito, exigindo dela outro tipo de realização: querem,pelo menos, que ela seja também uma mulher, que não perca sua feminilidade.Nos primeiros anos, ela se resigna sem grande dificuldade a esta sorte. A criança se move no plano do jogo e do sonho: brinca de ser, de fazer; fazer eser não se distinguem nitidamente quando se trata de realizações imaginárias. A menina pode compensar a superioridade atual do menino mediante aspromessas contidas em seu destino de mulher e que, já nesse momento, realiza em seus jogos. Como ela apenas conhece seu universo infantil, a mãelhe parece, a princípio, dotada de maior autoridade do que o pai; ela imagina o mundo como uma espécie de matriarcado; imita a mãe, identifica-se comela; muitas vezes até inverte os papéis: “Quando eu for grande e você pequena”, diz de bom grado. A boneca não é somente seu duplo: é também seufilho, funções que não se excluem porque a criança verdadeira é também para a mãe um alter ego; quando ralha, pune e depois consola a boneca, ela sedefende contra a mãe e ao mesmo tempo assume a dignidade de mãe: resume os dois elementos do casal; faz confidências à boneca, educa-a, afirmasobre ela sua autoridade soberana, por vezes mesmo arranca-lhe os braços, bate nela, tortura-a: isso significa que realiza através dela a experiência daafirmação subjetiva e da alienação. Muitas vezes, a mãe associa-se a essa vida imaginária: a criança brinca de pai com a boneca e de mãe com a mãe, éum casal de que se exclui o homem. Não há nisso nenhum “instinto materno” inato e misterioso. A menina constata que o cuidado das crianças cabe àmãe, é o que lhe ensinam; relatos ouvidos, livros lidos, toda a sua pequena experiência o confirma; encorajam-na a encantar-se com essas riquezasfuturas, dão-lhe bonecas para que tais riquezas assumam desde logo um aspecto tangível. Sua “vocação” é imperiosamente ditada a ela. Pelo fato de acriança lhe ser apresentada como seu quinhão, pelo fato também de se interessar mais do que o menino pelos seus “interiores”, a menina mostra-semais particularmente curiosa em relação ao mistério da procriação; ela deixa rapidamente de acreditar que os bebês nascem nos repolhos ou sãotrazidos por cegonhas; principalmente nos casos em que a mãe lhe dá irmãos ou irmãs, logo aprende que os filhos se formam no ventre materno. Aliás,os pais de hoje cercam a coisa de menos mistério do que os pais de outrora; com essa revelação a menina se maravilha mais do que se atemorizaporque o fenômeno tem para ela algo mágico; ela não apreende ainda todas as implicações fisiológicas. Ignora primeiramente o papel do pai e supõeque é absorvendo certos alimentos que a mulher fica grávida, o que é tema lendário (veem-se rainhas de contos dar à luz uma menina ou um belomenino depois de terem comido certo fruto ou certo peixe) e que leva mais tarde algumas mulheres à ideia de uma ligação entre a gestação e o sistemadigestivo. O conjunto desses problemas e dessas descober tas absorve grande parte dos interesses da menina e alimenta sua imaginação. Citarei comotípico o exemplo escolhido por Jung255 e que apresenta notáveis analogias com o do peque no Hans que Freud analisou mais ou menos na mesma época:Foi por volta dos três anos que Ana começou a interrogar seus pais acerca da origem dos recém-nascidos; tendo ouvido dizer que eram “anjinhos”,pareceu primeiramen te imaginar que, quando as pessoas morrem, vão para o céu e reencarnam sob a forma de bebês. Aos quatro anos, teve umirmãozinho; não p arecera ter observado a gravidez da mãe, mas quando a viu deitada no dia seguinte ao parto, olhou-a com embaraço e desconfiança eacabou perguntando: “Você não vai morrer?” Mandaram-na passar algum tempo na casa da avó; na volta, uma nurse achava-se instalada junto ao leito;ela detestou-a de início, depois divertiu-se brincando de enfermeira; teve ciúmes do irmão: escarnecia, contava histórias para si mesma, desobedecia eameaçava voltar para a casa da avó; acusava muitas vezes a mãe de não dizer a verdade porque suspeitava que ela havia mentido acerca do nascimentoda criança; sentindo obscuramente que havia uma diferença entre “ter” um filho como nurse e como mãe, perguntava a esta: “Ficarei um dia umamulher como você?” Adquiriu o hábito de chamar os pais aos berros durante a noite; e como falavam muito, perto dela, do tremor de terra de Messina,transformou isso num pretexto para suas angústias, fazendo continuamente perguntas a respeito. Um dia, pôs-se a indagar à queima-roupa: “Por queSofia é mais nova do que eu? Onde se encontrava Fritz antes de nascer? Estava no céu? O que fazia lá? Por que é que só agora desceu?” A mãe acaboulhe explicando que o irmãozinho crescera em sua barriga como as plantas na terra. Ana pareceu encantada com essa ideia. Depois perguntou: “Saiusozinho? — Saiu. — Mas como, se ele não anda? — Saiu rastejando. — Então tem um buraco aqui? (mostrou o peito) ou s aiu pela boca?” Sem aguardara resposta, declarou que sabia muito bem que fora a cegonha que o trouxera; mas à noite disse repentinamente: “Meu irmão256 está na Itália; ele temuma casa de pano e de vidro que não pode desmoronar”; e deixou de se interessar pelo terremoto e de pedir para ver fotografias da erupção. Falavaainda muito das cegonhas com suas bonecas, mas sem convicção. Muito breve, entretanto, teve novas curiosidades. Tendo visto o pai na cama, disse:“Por que você está de cama? Você tem também uma planta na barriga?” Contou um sonho; sonhara com sua arca de Noé: “E embaixo havia uma tampaque se abria e todos os animais caíam pela abertura”; na realidade, sua arca de Noé abria-se pelo teto. Nessa época, teve novamente pesadelos: podia-se adivinhar que se interrogava acerca do papel do pai. Uma senhora grávida veio visitar sua mãe, e esta no dia seguinte viu Ana colocar uma bonecasob as saias, retirá-la devagar, de cabeça para baixo, dizendo: “Está vendo, o menininho que sai já está quase todo para fora.” Tempos depois, comendouma laranja, disse: “Quero engoli-la e fazê-la descer até bem embaixo da minha barriga, então terei um filho.” Certa manhã, estando o pai no banheiro,ela pulou na cama, estendeu-se de bruços e agitou as pernas dizendo: “Não é assim que papai faz?” Durante cinco meses pareceu abandonar suaspreocupações; depois passou a manifestar certa desconfiança contra o pai: pensou que ele quisera afogá-la etc. Um dia em que se divertia enfiandosementes na terra sob o olhar do jardineiro perguntou ao pai: “Os olhos foram plantados na cabeça? E os cabelos?” O pai explicou que já existiam emgerme no corpo da criança antes de se desenvolver. Então ela perguntou: “Mas como foi que o pequeno Fritz entrou na mamãe? Quem o plantou nocorpo dela? E você, quem foi que plantou você em sua mamãe? E por onde foi que o Fritz saiu?” O pai disse então, sorrindo: “Que é que você acha?”Então ela designou os órgãos sexuais: “Saiu por aqui? — Isso mesmo. — Mas como foi que entrou na mamãe? Plantaram a semente ali?” Então o paiexplicou que era o pai quem dava a semente. Ela pareceu inteiramente satisfeita e no dia seguinte buliu com a mãe: “Papai me contou que o Fritz eraum anjinho e que foi a cegonha quem o trouxe.” Mostrou-se desde então muito mais calma do que antes; teve, entretanto, um sonho em que viajardineiros urinando e entre eles o pai; sonhou também, depois de ver o jardineiro passar a plaina numa gaveta, que ele aplainava os órgãos genitais;estava evidentemente preocupada em conhecer o papel exato do pai. Parece que, mais ou menos instruída de tudo por volta dos cinco anos, não sentiuposteriormente nenhuma perturbação.
A história é característica, embora frequentemente a menina se interrogue menos precisamente acerca do papel do pai e, a esse respeito, os pais semostrem muito evasivos. Muitas meninas escondem travesseiros sob o avental para brincar de mulher grávida, ou passeiam a boneca nas pregas dosaiote e a deixam cair no berço, dão-lhe o seio. Os meninos, como as meninas, admiram o mistério da maternidade; todas as crianças têm umaimaginação “em profundidade” que as faz pressentir riquezas secretas no interior das coisas; todas são sensíveis ao milagre dos “encaixes”, bonecasque encerram outras menores, caixas contendo outras caixas, ornatos que se reproduzem sob formas reduzidas; todas se encantam quando a seus olhosse desfolha um botão, quando se mostra o pintinho na casca do ovo, ou quando se desdobra, numa bacia com água, a surpresa das “flores japonesas”. Éo menininho abrindo um ovo de Páscoa cheio de ovinhos de açúcar que exclama extasiado: “Oh! uma mamãe!” Fazer sair uma criança do ventre ébonito como um truque de mágica. A mãe surge como que dotada da força mirífica das fadas. Muitos meninos desolam-se com o fato de um talprivilégio lhes ser recusado; mais tarde, se tiram ovos dos ninhos, esmagam plantinhas com os pés, destroem em torno de si a vida com uma espécie deraiva é porque se vingam de não ser capazes de fazê-la desabrochar, ao passo que a menina se encanta com poder criá-la um dia.Além dessa esperança que a boneca concretiza, a vida caseira fornece também à menina possibilidade de afirmação. Grande parte do trabalhodoméstico pode ser realizado por criança muito pequena; habitualmente os meninos são dispensados; mas permite-se, pede-se mesmo à irmã, quevarra, tire o pó, descasque os legumes, lave um recém-nascido, tome conta da sopa. A irmã mais velha, em particular, é assim geralmente associada àstarefas maternas. Por comodidade, hostilidade ou sadismo, a mãe descarrega nela boa parte de sua s funções; ela é então precocemente integrada nouniverso da seriedade; o sentido de sua importância a ajudará a assumir sua feminilidade, mas a gratuidade feliz, a despreocupação infantil são-lherecusadas. Mulher antes da idade, ela conhece cedo demais os limites que essa especificação impõe ao ser humano; chega adulta à adolescência, o quedá à sua história um caráter singular. A menina sobrecarregada de tarefas pode ser prematuramente escrava, condenada a uma existência sem alegria.Mas se só lhe pedem um esforço ao seu alcance, ela experimenta o orgulho de ser eficiente como um adulto e regozija-se de ser solidária com as“pessoas grandes”. Essa solidariedade é possível pelo fato de não haver entre a menina e a dona de casa uma distância considerável. Um homemespecializado em seu ofício acha-se separado da fase infantil por anos de aprendizado; as atividades paternas são profundamente misteriosas para omenino; neste, mal se esboça o homem que será mais tarde. Ao contrário, as atividades da mãe são acessíveis à menina; “já é uma mulherzinha”, dizemos pais; e julga-se por vezes que ela é mais precoce do que o menino: na verdade, se se acha mais próxima da fase adulta é porque esta fase permanecemais infantil na maioria das mulheres. O fato é que ela se sente precoce, que se sente lisonjeada por desempenhar junto dos irmãos mais jovens o papelde “mãezinha”; torna-se facilmente importante, fala sensatamente, dá ordens, assume ar de superioridade sobre os irmãos encerrados no círculoinfantil, fala com a mãe em pé de igualdade.Apesar dessas compensações, não aceita sem lamento o destino que lhe é apontado; crescendo, inveja a virilidade dos rapazes. Acontece que pais eavós escondem mal que teriam preferido um h omem a uma mulher; ou demonstram maior afeição pelo irmão do que pela irmã: inquéritos provaramque os pais, em sua maioria, preferem ter filhos a ter filhas. Falam aos meninos com mais gravidade, mais estima, reconhecem-lhes mais direitos; ospróprios meninos tratam as meninas com desprezo; brincam entre si, não admitem meninas em seus grupos, insultam-nas: entre outros insultoschamam-nas “mijonas”, reavivando com tais palavras a secreta humilhação infantil da menina. Na França, nas escolas mistas, a casta dos meninosoprime e persegue deliberadamente a das meninas. Entretanto, se estas querem entrar em competição com eles, bater-se com eles, censuram-nas. Elasinvejam duplamente as atividades pelas quais os meninos se singularizam: elas sentem um desejo espontâneo de afirmar seu poder sobre o mundo eprotestam contra a situação inferior à qual são condenadas. Sofrem, entre outras coisas, a proibição de subir nas árvores, nas escadas, nos telhados.Adler observa que as noções de alto e baixo têm grande importância, a ideia de elevação espacial implicando uma superioridade espiritual, como se vêatravés de numerosos mitos heroicos; atingir um cume, um pico, é emergir para além do mundo dado, como sujeito soberano; é entre meninos umpretexto frequente de desafio. A menina a quem essas proezas são proibidas e que, sentada ao pé de uma árvore ou de um rochedo, vê acima dela osmeninos triunfantes, sente-se inferior de corpo e alma. Do mesmo modo, se é deixada para trás numa corrida ou numa prova de salto, se é jogada nochão numa briga, ou simplesmente mantida à margem.Quanto mais a criança amadurece, mais seu universo se amplia e mais a superioridade masculina se afirma. Muitas vezes, a identificação com a mãenão mais se apresenta como solução satisfatória; se a menina aceita, a princípio, sua vocação feminina, não o faz porque pretenda abdicar: é, aocontrário, para reinar; ela quer ser matrona porque a sociedade das matronas parece-lhe privilegiada; mas quando suas frequentações, seus estudos,seus jogos e suas leituras a arrancam do círculo materno, ela compreende que não são as mul heres e sim os homens os senhores do mundo. É essarevelação — muito mais do que a descoberta do pênis — que modifica imperiosamente a consciência que ela toma de si mesma.A hierarquia dos sexos manifesta-se a ela primeiramente na experiência familiar; compreende pouco a pouco que, se a autoridade do pai não é a que sefaz sentir mais cotidianamente, é entretanto a mais soberana; reveste-se ainda de mais brilho pelo fato de não ser comprometida; mesmo se, narealidade, é a mulher que reina soberanamente em casa, tem ela, em geral, a habilidade de pôr à frente a vontade do pai; nos momentos importantes éem nome dele que ela exige, recompensa ou pune. A vida do pai é cercada de um prestígio misterioso: as horas que passa em casa, o cômodo em quetrabalha, os objetos que o cercam, suas ocupações e manias têm um caráter sagrado. Ele é quem alimenta a família, é o responsável e o chefe.Habitualmente trabalha fora e é por intermédio dele que a casa se comunica com o restante do mundo: ele é a encarnação desse mundo aventuroso,imenso, difícil, maravilhoso; ele é a transcendência, ele é Deus.257 É o que experimenta carnalmente a criança na força dos braços que a levantam, naforça do corpo no qual se aninha. Por ele a mãe é destronada como outrora Ísis pelo deus Rá e a Terra pelo Sol. Mas a situação da criança é, então,profundamente mudada: é chamada a tornar-se um dia uma mulher semelhante a sua mãe todo-poderosa — nunca será o pai soberano; o laço que aligava à mãe era uma emulação ativa. Do pai ela só pode esperar passivamente uma valorização. O menino apreende a superioridade paterna atravésde um sentimento de rivalidade: ao passo que a menina a sofre com uma admiração impotente. Já disse que isso que Freud chama complexo de Electranão é, como ele pretende, um desejo sexual; é uma abdicação profunda do indivíduo que consente em ser objeto na submissão e na adoração. Se o paidemonstra ternura pela filha, esta sente a existência magnificamente justificada; sente-se dotada de todos os méritos que as outras procuram adquirircom dificuldade; sente-se satisfeita e divinizada. É possível que durante toda a sua vida volte a procurar, com nostalgia, essa plenitude e essa paz. Seesse amor lhe é recusado, pode sentir-se para sempre culpada e condenada, ou buscar em outros lugares uma valorização de si e tornar-se indiferenteao pai, e até hostil. O pai não é, de resto, o único a deter as chaves do mundo; todos os homens participam normalmente do prestígio viril; não há comoconsiderá-los “substitutos” do pai. É imediatamente na qualidade de homens que avôs, irmãos mais velhos, tios, pais das colegas, amigos da casa,professores, padres, médicos fascinam a menina. A consideração comovida que as mulheres adultas testemunham ao Homem bastaria para colocá-lonum pedestal.258 Tudo contribui para confirmar essa hierarquia aos olhos da menina. Sua cultura histórica, literária, as canções, as lendas com que a embalam são umaexaltação do homem. São os homens que fizeram a Grécia, o Império Romano, a França e todas as nações, que descobriram a Terra e inventaram osinstrumentos que permitem explorá-la, que a governaram, que a povoaram de estátuas, de quadros e de livros. A literatura infantil, a mitologia, contos,narrativas, refletem os mitos criados pelo orgulho e os desejos dos homens: é através de olhos masculinos que a menina explora o mundo e nele decifraseu destino. A superioridade masculina é esmagadora: Perseu, Hércules, Davi, Aquiles, Lancelot, Duguesclin, Bayard, Napoleão, quantos homens parauma Joana d’Arc; e, por trás desta, perfila-se a grande figura masculina de são Miguel Arcanjo! Nada mais tedioso do que os livros que traçam vidas demulheres ilustres: são pálidas figuras ao lado das dos grandes homens; e em sua maioria banham-se na sombra de algum herói masculino. Eva não foicriada para si mesma e sim como companheira de Adão, e de uma costela dele; na Bíblia há poucas mulheres cujas ações sejam notáveis: Rute não fezoutra coisa senão encontrar um marido. Ester obteve a graça dos judeus ajoelhando-se diante de Assuero, e ainda assim não passava de uminstrumento dócil nas mãos de Mardoqueu; Judite teve mais ousadia, mas ela também obedecia aos sacerdotes e sua proeza tem um vago saborequívoco: não se poderia compará-la ao triunfo puro e brilhante do jovem Davi. As deusas da mitologia são frívolas ou caprichosas e todas trememdiante de Júpiter; enquanto Prometeu rouba soberbamente o fogo do céu, Pandora abre a caixa das desgraças. Há, é certo, algumas feiticeiras, algumasmulheres velhas que exercem nos contos um poder temível. Entre outras, no Jardim do Paraíso de Andersen, a figura da Mãe dos ventos lembra aGrande Deusa primitiva: seus quatro enormes filhos obedecem-lhe tremendo, ela os surra e os encerra em sacos quando se conduzem mal. Mas taispersonagens não são atraentes. Mais poderosas são as fadas, as sereias, as ondinas que escapam ao domínio do homem. Sua existência é incerta,porém, e apenas individualizada; elas intervêm no mundo humano sem ter destino próprio: a partir do dia em que se torna mulher, a pequena sereia deAndersen conhece o jugo do amor e o sofrimento passa a ser seu quinhão. Nas narrativas contemporâneas, como nas lendas antigas, o homem é o heróiprivilegiado. Os livros de Mme de Ségur são uma curiosa exceção: descrevem uma sociedade matriarcal em que o marido, quando não está ausente,desempenha um papel ridículo; mas de costume a imagem do pai é, como no mundo real, aureolada de glória. É sob a égide do pai divinizado pelaausência que se desenrolam os dramas femininos de Little Women. Nos romances de aventura são os meninos que fazem a volta ao mundo, que viajamcomo marinheiros nos navios, que se alimentam na floresta com a fruta-pão. Todos os acontecimentos importantes ocorrem por intermédio dos homens.A realidade confirma esses romances e essas lendas. Se a menina lê os jornais, se ouve a conversa dos adultos, constata que hoje, como outrora, oshomens dirigem o mundo. Os chefes de Estado, os generais, os exploradores, os músicos, os pintores que ela admira são homens; são homens quefazem seu coração bater de entusiasmo.Esse prestígio reflete-se no mundo sobrenatural. Geral-mente, em virtude do papel que a religião assume na vida das mulheres, a menina, maisdominada pela mãe do que o irmão, sofre mais, igualmente, as influências religiosas. Ora, nas religiões ocidentais, Deus Pai é um homem, um anciãodotado de um atributo especificamente viril: uma opulenta barba branca.259 Para os cristãos, Cristo é mais concretamente ainda um homem de carne eosso e de longa barba loura. Os anjos, segundo os teólogos, não têm sexo, mas têm nomes masculinos e manifestam-se sob a forma de belos jovens. Osemissários de Deus na Terra: o papa, os bispos de quem se beija o anel, o padre que diz a missa, o que prega, aquele perante o qual se ajoelham nosegredo do confessionário, são homens. Para uma menina piedosa, as relações com o pai eterno são análogas às que ela mantém com o pai terrestre;como se desenvolvem no plano do imaginário, ela experimenta até uma abdicação mais completa. A religião católica, entre outras, exerce sobre ela amais perturbadora das influências.260 A Virgem acolh e de joelhos as palavras do anjo: “Sou a serva do Senhor”, responde. Maria Madalena prostra-seaos pés de Cristo e os enxuga com seus longos cabelos de mulher. As santas declaram de joelhos seu amor ao Cristo radioso. De joelhos no odor do
incenso, a criança abandona-se ao olhar de Deus e dos anjos: um olhar de homem. Insistiu-se muitas vezes a respeito das analogias entre a linguagemerótica e a linguagem mística como as citam as mulheres. Assim é, por exemplo, que santa Teresa do Menino Jesus escreve:Ó meu Bem Amado, por teu amor aceito não ver nesta terra a doçura de teu olhar, não sentir o inexprimível beijo de tua boca, mas suplico-te que meabrases com teu amor... Meu bem Amado, de teu sorrisofaze-me logo entrever a doçura.Ah! deixa-me em meu ardente delírio, Sim, deixa esconder-me em teu coração!261 Quero ser fascinada por teu olhar divino, quero tornar-me a presa de teu amor. Um dia, tenho a esperança, cairás impetuosamente sobre mimtransportando-me para o lume do amor, tu me imergirás, enfim, nesse ardente abismo a fim de fazer de mim, e para sempre, a sua feliz vítima. Mas disso não se deve concluir que essas efusões sejam sempre sexuais; quando a sexualidade feminina se desenvolve, vê-se antes tomada pelosentimento religioso que a mulher votou ao homem desde a infância. É verdade que a menina conhece junto do confessor, e até ao pé do altar deserto,uma sensação muito próxima da que experimentará mais tarde nos braços de seu amante: é que o amor feminino é uma das formas da experiência emque uma consciência se faz objeto para um ser que a transcende; e são também essas delícias passivas que a jovem devota degusta na sombra daigreja.Prostrada, com o rosto afundado nas mãos, ela conhece o milagre da renúncia; de joelhos, sobe ao céu; seu abandono nos braços de Deus assegura-lheuma Assunção envolvida em nuvens e anjos. É sobre essa maravilhosa experiência que ela calca seu futuro terrestre. A criança pode também descobririsso por outros caminhos: tudo a convida a entregar-se em sonho aos braços dos homens a fim de ser transportada para um céu de glória. Ela aprendeque para ser feliz é preciso ser amada; para ser amada é preciso aguardar o amor. A mulher é a Bela Adormecida, Cinderela, Branca de Neve, a querecebe e suporta. Nas canções, nos contos, vê-se o jovem partir aventurosamente em busca da mulher; ele mata dragões, luta contra gigantes; ela seacha encerrada em uma torre, um palácio, um jardim, uma caverna, acorrentada a um rochedo, cativa, adormecida: ela espera. Um dia meu príncipevirá... Some day he’ll come along, the man I love... Os refrões populares insuflam-lhe sonhos de paciência e esperança. A suprema necessidade para amulher é seduzir um coração masculino; mesmo intrépidas, aventurosas, é a recompensa a que todas as heroínas aspiram; e o mais das vezes não lhes épedida outra virtude senão a beleza. Compreende-se que a preocupação da aparência física possa tornar-se para a menina uma verdadeira obsessão;princesas ou pastoras, é preciso sempre ser bonita para conquistar o amor e a felicidade; a feiura associa-se cruelmente à maldade, e, quando asdesgraças desabam sobre as feias, não se sabe muito bem se são seus crimes ou sua feiura que o destino pune. Muitas vezes, as jovens belezasdestinadas a um futuro glorioso começam aparecendo num papel de vítima; as histórias de Geneviève de Brabant, de Grisélidis não são tão inocentescomo parecem; amor e sofrimento nelas se entrelaçam de maneira perturbadora; é caindo no fundo da abjeção que a mulher assegura para si mesma osmais deliciosos triunfos; quer se trate de Deus, quer de um homem, a menina aprende que, aceitando as mais profundas renúncias, se tornará todo-poderosa; ela se compraz em um masoquismo que lhe promete supremas conquistas. Santa Blandina, branca e ensanguentada nas garras dos leões,Branca de Neve jazendo como uma morta em um esquife de vidro, a Bela Adormecida, Atala desfalecida, toda uma coorte de ternas heroínasmachucadas, passivas, feridas, ajoelhadas, humilhadas, ensinam à jovem irmã o fascinante prestígio da beleza martirizada, abandonada, resignada. Nãoé de espantar que, enquanto o irmão brinca de herói, a menina desempenhe de bom grado papel de mártir: os pagãos a jogam às feras, Barba Azul aarrasta pelos cabelos, o rei seu marido a exila no fundo da floresta; ela se resigna, sofre, morre e sua fronte cobre-se de glória. “Ainda muito menina, eualmejava conquistar a ternura dos homens, inquietá-los, ser salva por eles, morrer em todos os braços”, escreve Mme de Noailles. Encontra-se umexemplo notável desses devaneios masoquistas em La Voile Noire, de Marie Le Hardouin. Aos sete anos, não sei com que costela fabricava meu primeiro homem. Era grande, esbelto, extremamente jovem, vestido de cetim preto e com longas mangas arrastando pelo chão. Seus belos cabelos louros caíam-lhe em pesados cachos sobre os ombros... Chamava-o, Edmond... Aconteceu um dia que lhe dei dois irmãos... Esses três irmãos, Edmond, Charles e Cédric, todos três vestidos de cetim preto, todos três louros e esbeltos, fizeram-me conhecer estranhas beatitudes. Seus pés calçados de seda eram tão belos e suas mãos tão frágeis que toda espécie de impulso subia-me à alma... Tornei-me sua irmã Marguerite... Gostava de me representar submissa à vontade de meus irmãos e totalmente à mercê deles. Sonhava que meu irmão mais velho, Edmond, tinha direito de vida e morte sobre mim. Eu não tinha nunca a permissão de erguer os olhos para seu rosto. Ele mandava açoitar-me por qualquer pretexto. Quando me dirigia a palavra, e u ficava tão transtornada pelo temor e o respeito que não achava o que lhe responder e balbuciava sem cessar “Sim, meu senhor”, “Não, meu senhor” e saboreava a estranha delícia de me sentir idiota... Quando o sofrimento que ele me impunha era forte demais, eu murmurava “Obrigada, meu senhor” e ocorria um momento em que, quase desfalecendo de sofrimento, para não gritar, eu pousava os lábios na mão dele enquanto, com algum impulso a quebrar-me enfim o coração, eu atingia um desses estados em que se deseja morrer por excesso de felicidade. Numa idade mais ou menos precoce, a menina sonha que já atingiu a idade do amor; aos nove ou dez anos ela se diverte se maquiando, forjando volumeno corpete, fantasiando-se de senhora. Não procura, entretanto, realizar nenhuma experiência erótica com os meninos: se lhe acontece ir com eles aoscantinhos e brincar de “mostrar coisas”, é somente por curiosidade sexual. Mas o parceiro dos devaneios eróticos é um adulto, ou puramenteimaginário, ou evocado a partir de indivíduos reais. Neste último caso, a criança satisfaz-se com amar a distância. Encontra-se nas recordações deColette Audry262 um exemplo muito bom desses devaneios infantis: ela nos conta que descobriu o amor com a idade de cinco anos. Isso não tinha nada a ver com os pequenos prazeres sexuais da infância, a satisfação que eu sentia, por exemplo, em cavalgar certa cadeira da sala de jantar ou em me acariciar antes de dormir... O único traço comum entre o sentimento e o prazer era que eu os dissimulava cuidadosamente aos que me cercavam... Meu amor por esse jovem consistia em pensar nele antes de adormecer, imaginando histórias maravilhosas... em Privas, amei sucessivamente todos os chefes de gabinete de meu pai ... Nunca me sentia profundamente agoniada com a saída deles porque constituíam apenas um pretexto para fixar meus devaneios amorosos... À noite, deitada, tirava minha desforra de tanta juventude e timidez. Preparava tudo com cuidado, não tinha nenhuma dificuldade em torná-lo presente, mas tratava-se de me transformar de maneira que pudesse ver-me de meu interior, pois ficava sendo ela, deixava de ser eu. Primeiramente era bonita e tinha 18 anos. Uma caixa de balas ajudou-me muito: uma caixa retangular de drágeas comprida e achatada e que representava duas moças cercadas de pombas. Eu era a morena com cachos curtos, vestido comprido de musselina. Uma ausência de dez anos nos separara. Ele voltava muito pouco envelhecido e a visão dessa maravilhosa criatura transtornava-o. Ela mal parecia lembrar-se dele, agia com naturalidade, indiferença, espírito. Eu preparava para esse primeiro encontro conversas realmente brilhantes. Seguiam-se mal-entendidos, toda uma conquista difícil, horas cruéis de desânimo e ciúmes para ele. Acuado enfim, ele confessava seu amor. Ela ouvia-o em silêncio e no momento em que ele acreditava estar tudo perdido, ela lhe comunicava que nunca deixara de amá-lo, e eles se abraçavam ligeiramente. A cena ocorria em geral num banco do parque, à noite. Eu via as duas formas juntas uma da outra, ouvia o murmúrio das vozes, sentia ao mesmo tempo o contato quente dos corpos. Mas daí por diante tudo se diluía... Nunca falei de casamento.263 No dia seguinte pensava um pouco nisso ao me lavar. Não sei por quê, o rosto ensaboado que eu contemplava no espelho me encantava (nos outros momentos não me achava bonita) e me enchia de esperança. Teria olhado durante horas aquelas faces cobertas de nuvens, aquela cabeça um pouco inclinada que parecia esperar-me, ao longe, no caminho do futuro. Mas era preciso apressar-me; uma vez enxugada, tudo estava acabado, reencontrava meu rosto banal de criança que não me interessava mais. Jogos e sonhos orientam a menina para a passividade; mas ela é um ser humano antes de se tornar uma mulher; e já sabe que aceitar a si mesma comomulher é renunciar e mutilar-se; e se a renúncia é tentadora, a mutilação é odiosa. O Homem, o Amor encontram-se muito longe ainda nas brumas dofuturo; no presente, a menina busca, como seus irmãos, atividade, autonomia. O fardo da liberdade não é pesado para as crianças porque não implicaresponsabilidade; elas se sentem em segurança junto dos adultos: não têm a tentação de fugir delas próprias. Seu impulso espontâneo para a vida, seugosto pelo jogo, pelo riso, pela aventura levam a menina a achar o círculo materno estreito, sufocante. Ela gostaria de escapar da autoridade da mãe. Éuma autoridade que se exerce de maneira muito mais cotidiana e íntima do que a que os meninos precisam aceitar. Raros são os casos em que ela é tãocompreensiva e discreta como a dessa “Sido” que Colette pinta com amor. Sem falar dos casos quase patológicos — são frequentes264 — em que a mãe éuma espécie de carrasco, satisfazendo na criança seus instintos de domínio e seu sadismo, em que a filha é o objeto privilegiado em face do qual a mãepretende afirmar-se como sujeito soberano; essa pretensão leva a criança a revoltar-se. C. Audry descreve a rebelião de uma menina normal contra umamãe normal: Nunca teria sabido dizer a verdade, por inocente que fosses, porque nunca me sentia inocente diante de mamãe. Ela era a adulta essencial e lhe queria tanto mal, que até agora não me curei. Havia no fundo de mim uma espécie de chaga tumultuosa e feroz que eu tinha certeza de encontrar sempre aberta... Não pensava: “Ela é severa demais”; nem: “Ela não tem o direito”. Pensava: “não, não, não”, com todas as forças. Não lhe censurava a autoridade, nem as ordens ou as proibições arbitrárias; censurava-lhe querer me domar. Às vezes, ela o dizia, quando não, seus olhos, sua voz o diziam. Ou então tinha contado a outras mulheres que as crianças se tornam bem mais maleáveis após um corretivo. Essas palavras paravam-me na garganta, inesquecíveis: não as podia vomitar nem engolir. Era essa cólera, minha culpabilidade perante ela, e também minha vergonha diante de mim mesma (porque afinal ela não me amedrontava, e eu não tinha a meu favor, à guisa de represálias, senão algumas palavras violentas ou algumas
insolências), mas também, apesar de tudo, minha glória: enquanto existisse a chaga, enquanto fosse viva a loucura muda que me levava a repetir somente: domar, maleável, corretivo, humilhação, eu não seria domada. A revolta é tanto mais violenta quanto mais vezes a mãe perdeu o prestígio. Ela se apresenta como a que espera, suporta, se queixa, chora, faz cenas: e,na realidade cotidiana, esse papel ingrato não conduz a nenhuma apoteose; vítima, ela é desprezada; megera, detestada. Seu destino aparece comoprotótipo da insossa repetição: por ela a vida apenas se repete estupidamente sem levar a lugar algum. Presa a seu papel de dona de casa, ela detém aexpansão da existência, é obstáculo e negação. A filha não quer assemelhar-se a ela e rende culto às mulheres que escaparam da servidão feminina:atrizes, escritoras, professoras. Entrega-se com ardor aos esportes, aos estudos, sobe nas árvores, rasga vestidos, tenta rivalizar com os meninos.Quase sempre escolhe uma amiga para confidente e essa amizade é exclusiva como uma paixão amorosa e comporta em geral a partilha de segredossexuais; as meninas trocam informações que conseguiram obter e as comentam. Ocorre, muitas vezes, a formação de um triângulo, uma das amigasgostando do irmão da amiga: assim Sônia em Guerra e paz é a amiga querida de Natacha e ama o irmão desta, Nicolau. Em todo caso, essa amizadecerca-se de mistério, e de um modo geral a criança, nesse período, gosta de ter segredos: faz segredo da coisa mais insignificante; desse modo, reagecontra as reservas que opõem à sua curiosidade; é uma maneira também de se dar importância, o que ela procura adquirir por todos os meios: tentaintervir na vida dos adultos, inventa, acerca deles, romances em que ela própria não acredita muito, mas nos quais desempenha um papel importante.Com suas amigas, aparenta desprezar os meninos que as desprezam; isolam-se deles e deles caçoam. Mas, na realidade, ela se sente lisonjeada quandoeles a tratam em pé de igualdade, e almeja aprovação deles. Desejaria pertencer à casta privilegiada. O mesmo impulso, que nas hordas primitivassubmete a mulher à supremacia masculina, traduz-se com cada nova iniciada por uma recusa de seu destino: nela, a transcendência condena o absurdoda imanência. Ela se irrita por ser freada pelas regras da decência, incomodada com suas roupas, escravizada aos cuidados da casa, detida em todos osseus impulsos. A esse respeito fizeram-se numerosos inquéritos que, quase todos,265 deram o mesmo resultado: todos os meninos — como Platãooutrora — declaram que teriam horror de ser meninas; quase todas as meninas lamentam não ser meninos. Segundo as estatísticas de Havelock Ellis,um menino em cem desejaria ser menina; mais de 75% das meninas gostariam de trocar de sexo. Segundo uma pesquisa de Karl Pipal (citado porBaudouin em L’Âme enfantine), de vinte meninos de 12 a 14 anos, 18 disseram que prefeririam qualquer coisa no mundo a ser meninas; em 22 meninas,19 gostariam de ser meninos, e davam as seguintes razões para justificá-lo: “Os homens não sofrem como as mulheres... Minha mãe gostaria mais demim... O trabalho do homem é mais interessante... Um homem tem mais capacidade para o estudo... Eu me divertiria amedrontando as meninas... Nãoteria mais medo dos meninos... Eles são mais livres... Os jogos dos meninos são mais divertidos... Eles não são perturbados pelas roupas...” Esta últimaobservação repete-se muito: as meninas queixam-se quase todas de que os vestidos as atrapalham, de que não têm liberdade de movimentos, de quesão obrigadas a cuidar da saia ou dos vestidos claros que se sujam tão facilmente. Por volta dos dez ou 12 anos as meninas são em sua maioria“meninos falhados”, isto é, crianças que não têm licença para ser meninos. Não somente sofrem com isso como sendo uma privação e uma injustiça,mas ainda o regime a que as condenam não é saudável. A exuberância da vida é nelas barrada, seu vigor inutilizado transforma-se em nervosismo; suasocupações demasiado sensatas não esgotam seu excesso de energia; se aborrecem; por tédio e para compensar a inferioridade de que sofrem,entregam-se a devaneios melancólicos e romanescos; tomam gosto por essas evasões fáceis e perdem o sentido da realidade; abandonam-se a suasemoções com uma exaltação desordenada; não podendo agir, falam, entremeando geralmente coisas sérias com palavras absurdas; largadas,“incompreendidas”, buscam um consolo nos sentimentos narcisistas: olham-se como heroínas de romance, admiram-se, lamentam-se; é natural que setornem coquetes e comediantes, e esses defeitos se acentuarão no momento da puberdade. Seu mal-estar traduz-se por impaciências, cóleras, lágrimas;gostam das lágrimas — gosto que se perpetua em muitas mulheres — em grande parte porque lhes apraz fazerem-se de vítimas: é a um tempo umprotesto contra a dureza do destino e uma maneira de se tornarem comoventes. “As meninas gostam tanto de chorar que conheci algumas que o faziamna frente do espelho para gozar duplamente esse estado”, conta monsenhor Dupanloup. A maioria de seus dramas diz respeito às relações com afamília; elas procuram desfazer os laços que as prendem à mãe: ora são hostis, ora sentem uma aguda necessidade de sua proteção; gostariam demonoplolizar o amor do pai; são ciumentas, suscetíveis, exigentes. Amiúde inventam romances; imaginam que são uma criança adotada, que os pais nãosão realmente seus pais; atribui a eles uma vida secreta; sonham com as relações deles; comprazem-se em supor que o pai é incompreendido, infeliz,que não encontra na mulher a companheira ideal que a filha poderia ser; ou, ao contrário, que a mãe o acha, com razão, grosseiro e brutal, que temhorror de manter qualquer relação física com ele. Fantasias, comédias, tragédias pueris, falsos entusiasmos, extravagâncias, cumpre buscar as razõesdisso tudo, não numa misteriosa alma feminina e sim na situação da criança.É uma estranha experiência, para um indivíduo que se sente como sujeito, autonomia, transcendência, como um absoluto, descobrir em si, a título deessência dada, a inferioridade: é uma estranha experiência para quem, para si, se arvora em Um, ser revelado a si mesmo como alteridade. É o queacontece à menina quando, fazendo o aprendizado do mundo, nele se percebe mulher. A esfera a que pertence é cercada por todos os lados, limitada,dominada pelo universo masculino: por mais alto que se eleve, por mais longe que se aventure, haverá sempre um teto acima de sua cabeça, muros quelhe barrarão o caminho. Os deuses do homem acham-se em um céu tão longínquo que, na verdade, não há deuses para ele: a menina vive entre deusesde fisionomia humana.Essa situação não é única. É também a que os negros da América do Norte conhecem, parcialmente integrados numa civilização que os considera,entretanto, como casta inferior. O que Big Thomas 266 sente com tamanho rancor na aurora de sua vida é essa definitiva inferioridade, essa alteridademaldita que se inscreve na cor da pele: ele olha os aviões passarem e sabe que por ser negro o céu lhe é vedado. Por ser mulher, a menina sabe que omar e os pólos, mil aventuras e mil alegrias lhe são proibidas: nasceu do lado errado. A grande diferença está em que os negros sofrem sua sorte comrevolta: nenhum privilégio compensa sua dureza, ao passo que a mulher é convidada à cumplicidade. Já lembrei267 que, ao lado da autênticareivindicação do sujeito que quer para si liberdade soberana, há no existente um desejo inautêntico de renúncia e de fuga. São as delícias dapassividade que pais e educadores, livros e mitos, mulheres e homens fazem brilhar aos olhos da menina; ensinam a ela já na primeira infância aapreciá-las; a tentação torna-se dia a dia mais insidiosa; ela cede mais fatalmente porque o impulso de sua transcendência se choca contra resistênciasmais severas. Mas, aceitando a passividade, ela aceita também suportar, sem resistência, um destino que lhe será imposto de fora, e essa fatalidade aamedronta. Seja ele ambicioso, estouvado ou tímido, é para um futuro aberto que o menino se atira; será marinheiro ou engenheiro, ficará no campo ouirá para a cidade, verá o mundo, será rico; sente-se livre em face de um futuro em que possibilidades imprevistas o aguardam. A menina será esposa,mãe, avó; tratará da casa, exatamente como fez sua mãe, cuidará dos filhos como foi cuidada: tem 12 anos e sua história já está escrita no céu; ela adescobrirá dia após dia sem nunca fazê-la; mostra-se curiosa, mas assustada, quando evoca essa vida cujas etapas estão todas previstas de antemão epara a qual cada dia a encaminha inelutavelmente.Eis porque, muito mais ainda que os irmãos, a menina se preocupa com os mistérios sexuais; eles também se interessam apaixonadamente por isso,mas, em seu futuro, o papel de marido, de pai, não é aquilo com que mais se preocupam; no casamento, na maternidade é todo o destino da menina queé posto em xeque; e logo que ela principia a pressentir-lhe os segredos, o próprio corpo apresenta-se a ela odiosamente ameaçado. A magia damaternidade dissipou-se; se ela foi informada mais ou menos cedo, de maneira mais ou menos coerente, já sabe que o filho não surge por acaso noventre materno e que não é com um golpe de vara de condão que daí sai. Ela interroga-se com angústia. Muitas vezes parece maravilhoso, mashorrível, que um corpo parasita deva proliferar dentro de seu corpo; a ideia dessa monstruosa inchação a apavora. E como sairá o bebê? Mesmo queninguém lhe tenha falado dos gritos e sofrimentos da maternidade, ela ouviu conversas e leu o trecho da Bíblia: “Conceberás na dor”; pressentetorturas que não seria sequer capaz de imaginar; inventa estranhas operações na região do umbigo; se supõe que o feto será expulso pelo ânus não ficamais tranquila. Viram-se meninas terem crises de constipação neurótica quando pensaram haver descoberto o processo do nascimento. Explicaçõesexatas não serão de grande valia: as imagens de inchaço, de ferimento, de hemorragia irão permanecer. A menina será tanto mais sensível a essasvisões quanto mais imaginação tiver; mas nenhuma poderá olhá-las de frente sem tremer. Colette conta que a mãe a encontrou desfalecida porque ela,Colette, lera em Zola a descrição de um nascimento. O autor pintava o parto com um luxo brusco e cru de pormenores, uma minúcia anatômica, uma complacência na cor, na atitude, no grito, que não reconheci mais nada de minha tranquila competência de moça do campo. Sen ti-me crédula, assustada, ameaçada em meu destino de femeazinha... Outras palavras que tinha sob os olhos pintavam a carne esquartejada, o excremento, o sangue maculado... O gramado recebeu-me estendida e mole como essas lebrezinhas mortas há pouco que os caçadores clandestinos traziam para a cozinha. As palavras de conforto oferecidas pelos adultos deixam a criança inquieta; ao crescer, ela aprende a não mais acreditar neles sob palavra; muitas vezesfoi acerca dos próprios mistérios de sua geração que ela surpreendeu as mentiras deles; ela sabe também que eles consideram normais as coisas maisapavorantes; se experimentou algum choque físico violento — amígdalas extraídas, dente arrancado, panarício cortado a bisturi —, ela projetará noparto a angústia cuja lembrança guardou.O caráter físico da gravidez, do parto, sugere desde logo que entre os esposos “alguma coisa de físico ocorre”. A palavra “sangue” que se encontrafrequentemente em expressões como “filhos do mesmo sangue, puro-sangue, sangue mestiço” orienta por vezes a imaginação infantil; supõe-se que ocasamento é acompanhado de alguma transfusão solene. Mais comumente, porém, a “coisa física” apresenta-se como ligada ao sistema urinário eexcremental; em particular, as crianças comprazem-se em supor que o homem urina na mulher. A operação sexual é pensada como coisa suja. É o quedesnorteia a criança para a qual as coisas “sujas” foram cercadas dos mais severos tabus: como é possível então que os adultos as integrem em suasvidas? A criança defende-se a princípio contra o escândalo pelo próprio absurdo do que descobre: não acha nenhum sentido no que ouve contarem, noque lê, no que escreve; tudo lhe parece irreal. No livro encantador de Carson MacCullers, The Member of the Wedding, a jovem heroína surpreendedois vizinhos nus na cama; a própria anomalia da história impede que ela lhe atribua importância.
Era um domingo de verão e a porta dos Marlowe estava aberta. Ela só podia ver uma parte do quarto, uma parte da cômoda e unicamente o pé da cama sobre a qual se achava o espartilho de Mrs. Marlowe. Mas havia no quarto tranquilo um ruído que ela não compreendia, e quando se adiantou para a soleira foi tomada de espanto ante um espetáculo que desde o primeiro momento a repeliu até a cozinha gritando: Mrs. Marlowe teve um ataque! Berenice precipitara-se no saguão, mas quando olhou para o quarto apenas cerrou os lábios e bateu a porta... Frankie tentara questionar Berenice para descobrir do que se tratava. Mas Berenice dissera somente que eram gente ordinária e acrescentara que, por consideração para com certa pessoa, deveriam ao menos ter fechado a porta. Frankie sabia que era ela própria essa pessoa e no entanto não compreendia. Que espécie de ataque seria?, indagou. Mas Berenice respondeu somente: “Um ataque comum, meu bem.” E Frankie compreendeu pelo tom de sua voz que não lhe dizia tudo. Posteriormente, só recordava os Marlowe como gente ordinária... Quando alertam as crianças contra desconhecidos, quando interpretam na frente delas um incidente sexual, lhes falam de bom grado de doentes, demaníacos, de loucos; é uma explicação cômoda; a menina apalpada por um desconhecido no cinema, a menina diante de quem um passante desabotoa abraguilha pensa que enfrentou loucos. Sem dúvida, o encontro com a loucura é desagradável: um ataque de epilepsia, uma crise de histeria, umadisputa violenta revelam a desordem do mundo adulto e a criança que a testemunha sente-se em perigo; mas enfim, assim como há, em uma sociedadeharmônica, vagabundos, mendigos, enfermos com feridas horrorosas, nela se podem encontrar também certos anormais sem que os alicerces dessasociedade sejam abalados. É quando suspeita-se que os pais, os amigos, os mestres celebram missas negras às escondidas que a criança senterealmente medo. Quando me falaram pela primeira vez de relações sexuais entre homem e mulher, declarei que eram impossíveis, posto que meus pais as deveriam ter tido também e eu os estimava demasiado para acreditar nisso. Eu dizia que era por demais repugnante para que o viesse a fazer um dia. Infelizmente iria ser desiludida pouco depois, ouvindo o que meus pais faziam... Esse instante foi pavoroso; escondi o rosto na coberta, tapando os ouvidos, e desejei estar a mil quilômetros dali.268 Como passar da imagem de pessoas vestidas e dignas, pessoas que ensinam a decência, a discrição, a razão, à de dois animais nus que se enfrentam?Há nisso uma contestação dos adultos por si próprios que frequentemente lhes abala o pedestal, enche de trevas o céu. Muitas vezes a criança recusacom obstinação a odiosa revelação: “Meus pais não fazem isso”, declara. Ou tenta dar a si mesma uma imagem decente do coito: “Quando se quer umfilho”, dizia uma menina, “a gente vai ao médico, despe-se, põe uma venda nos olhos, porque não se deve olhar; o médico amarra os pais um ao outro eajuda para que tudo dê certo”; ela transformara o ato amoroso em uma operação cirúrgica, sem dúvida pouco agradável, mas tão honrosa como umavisita ao dentista. Entretanto, apesar de recusas e fugas, o mal-estar e a dúvida insinuam-se no coração da criança; produz-se um fenômeno tãodoloroso quanto o do desmame: não mais porque a criança é separada da carne materna, mas porque, em torno dela, o universo protetor desmorona;ela se vê sem teto sobre a cabeça, abandonada, absolutamente só em face de um futuro cheio de trevas. O que aumenta a angústia da menina é o fatode que ela não consegue delimitar exatamente os contornos da maldição equívoca que pesa sobre ela. As informações obtidas são incoerentes, os livros,contraditórios. As próprias exposições técnicas não dissipam a sombra espessa; cem perguntas se apresentam: o ato sexual é doloroso? Ou delicioso?Quanto tempo dura? Cinco minutos ou uma noite inteira? Lê-se por vezes que uma mulher ficou grávida com um só abraço e outras vezes quepermaneceu estéril após horas de volúpia. As pessoas “fazem isso” todos os dias? Ou raramente? A criança tenta informar-se lendo a Bíblia,consultando dicionários, interrogando colegas e move-se às apalpadelas na escuridão e na repugnância. A esse respeito é um documento muitointeressante o inquérito levado a efeito pelo dr. Liepmann. Eis algumas das respostas que lhe foram dadas por moças acerca da iniciação sexual: Continuei a perambular com minhas ideias nebulosas e absurdas. Ninguém ventilava o assunto, nem minha mãe, nem minha professora; nenhum livro tratava da questão a fundo. Pouco a pouco tecia-se uma espécie de mistério e horror em torno do ato que se afigurava a princípio tão natural. As meninas mais velhas, de 12 anos, valiam-se de brincadeiras grosseiras para criar como que uma ponte entre elas e nossas companheiras de classe. Tudo isso era ainda tão vago e tão repugnante que discutíamos sobre onde as crianças se formavam; se a coisa só acontecia uma vez para o homem, pois o casamento era a causa de tal confusão. Minhas regras, que apareceram quando fiz 15 anos, foram para mim uma nova surpresa. Agora, de uma certa maneira, eu também entrava na dança... ...Iniciação sexual! Era uma expressão a que não se devia aludir em casa de meus pais!... Procurava nos livros mas atormentava-me e me enervava procurando sem saber onde encontrar o caminho que devia seguir... Frequentava uma escola de meninos: para o professor a coisa parecia não existir... A obra de Horlam, Garçonnet et fillette, trouxe enfim a verdade. Meu estado de crispação, de superexcitação insuportável dissipou-se, embora eu estivesse então muito infeliz e tivesse sido necessário muito tempo para reconhecer e compreender que somente o erotismo e a sexualidade constituíam o verdadeiro amor. Etapas de minha iniciação: 1a) Primeiras perguntas e algumas noções vagas (nada satisfatórias). De 3 anos e meio até os 11 anos... Nenhuma resposta às perguntas que eu fiz nos anos seguintes. Quando tinha 7 anos eis que vi, ao dar de comer a uma coelha, filhotes se arrastarem por baixo dela... Minha mãe disse-me que entre os animais, e também entre os homens, os filhos cresciam no ventre da mãe e saíam pelos flancos. Esse nascimento pelo flanco pareceu-me absurdo... Uma ama-seca contou-me muitas coisas acerca da gravidez, da gestação, da menstruação... Finalmente, a última pergunta que fiz a meu pai sobre sua função real foi-me respondida com histórias obscuras de pólen e pistilo. 2a) Algumas tentativas de iniciação pessoal (11 a 13 anos). Descobri uma enciclopédia e um livro de medicina... Não passou de uma informação teórica constituída de gigantescas palavras estranhas. 3a) Controle dos conhecimentos adquiridos (13 a 20 anos): a) na vida cotidiana; b) nos trabalhos científicos. Quando eu tinha oito anos brincava frequentemente com um menino de minha idade. Uma vez tratamos do assunto. Eu já sabia, porque minha mãe tinha me dito, que uma mulher tem muitos ovos no corpo... e que um filho nascia de um desses ovos todas as vezes que a mãe sentia um desejo agudo... Tendo dado a mesma explicação a meu colega, dele recebi esta resposta: “Você é completamente estúpida! Quando nosso açougueiro e sua mulher querem ter um filho eles se enfiam na cama e fazem porcarias.” Fiquei indignada... Tínhamos então (por volta de 12 anos e meio) uma criada que nos contava toda espécie de histórias sujas. Eu não dizia uma palavra sequer a mamãe porque tinha vergonha; mas perguntei-lhe se a gente pegava um filho sentando no colo de um homem. Ela explicou tudo o melhor que pôde. Por onde saíam as crianças, aprendi na escola e tive a sensação de que era uma coisa horrível. Mas como vinham ao mundo? Tínhamos da coisa uma ideia até certo ponto monstruosa, principalmente depois que, indo à escola, certa manhã de inverno, em plena escuridão, tínhamos juntas encontrado um sujeito que nos mostrara suas partes sexuais e nos dissera, aproximando-se de nós: “Não lhes parece gostoso de mastigar?” Nossa repugnância fora inconcebível e ficamos literalmente revoltadas. Até os 21 anos eu imaginava que a vinda das crianças ao mundo se efetuava pelo umbigo. Uma menina chamou-me de lado e perguntou: “Sabe de onde saem as crianças?” Finalmente resolveu declarar: “Puxa! Como você é boba! As crianças saem da barriga das mães e para que nasçam é preciso que as mulheres façam com os homens uma coisa repugnante!” Depois me explicou mais minuciosamente essa nojeira. Mas eu estava transtornada, recusando-me absolutamente a considerar possível que ocorressem coisas semelhantes. Dormíamos no mesmo quarto que nossos pais... Numa das noites que se seguiram, ouvi acontecer o que não considerara possível e tive vergonha, sim, vergonha de meus pais. Tudo isso fez de mim como que um outro ser. Senti horríveis sofrimentos morais. Considerava-me uma criatura profundamente depravada por estar a par dessas coisas. É preciso dizer que mesmo uma informação coerente não resolveria o problema; apesar de toda a boa vontade dos pais e dos professores, não sepoderia traduzir em palavras e conceitos a experiência erótica; esta só se compreende vivendo-a; qualquer análise, por mais séria que fosse, teria umaspecto humorístico e deixaria de desvendar a verdade. Partindo dos poéticos amores das flores, das núpcias dos peixes, passando pelos pintinhos, ogato, o cabrito, e chegando até a espécie humana, pode-se teoricamente esclarecer o mistério da geração: o da volúpia e do amor carnal permanecetotal. Como se explicaria a uma criança de sangue calmo o prazer de uma carícia ou de um beijo? Em família dão-se e recebem-se beijos, às vezes aténos lábios: por que em certos casos esse encontro de mucosas provoca vertigens? É como descrever cores a um cego. Enquanto falta a intuição daperturbação e do desejo que dá à função erótica sentido e unidade, os diferentes elementos que a constituem parecem chocantes e monstruosos. Amenina revolta-se principalmente quando compreende que é virgem e selada e que, para transformá-la em mulher, será necessário que um sexo dehomem a penetre. Sendo o exibicionismo uma perversão bastante comum, muitas meninas já viram um pênis em estado de ereção. Em todo casoobservaram o sexo de animais e é lamentável que tantas vezes o do cavalo lhes atraia o olhar; concebe-se que se sintam apavoradas. Medo do parto,medo do sexo masculino, medo dos “ataques” que ameaçam os casados, repugnância por certas práticas sujas, zombaria em relação a gestosdesprovidos de qualquer significação, tudo isso leva muitas vezes a menina a declarar: “Não casarei nunca.”269 É a defesa mais segura contra a dor, aloucura, a obscenidade. Em vão tentam explicar-lhe que, chegado o dia, nem a defloração nem o parto lhe parecerão tão terríveis, que milhões demulheres a isso se resignaram e nem por isso passam menos bem. Quando a criança tem medo de um acontecimento exterior, libertam-na, mas nãopredizendo que mais tarde o aceitará naturalmente: é sua própria pessoa que ela teme então encontrar alienada, perdida no fundo do futuro. Asmetamorfoses da lagarta que se transforma em crisálida e borboleta põem certo mal-estar no coração: será a mesma lagarta após tão longo sono? Elase reconhece sob as asas brilhantes? Conheci meninas para as quais o espetáculo de uma crisálida mergulhava em um devaneio assustado.E, no entanto, a metamorfose ocorre. A menina não percebe o sentido, mas percebe que em suas relações com o mundo e com o próprio corpo algumacoisa vai mudando sutilmente: é sensível a contatos, gostos, odores que antes a deixavam indiferente; imagens barrocas vêm-lhe à cabeça; nos espelhosela mal se reconhece; sente-se “estranha”, as coisas parecem-lhe “estranhas”; assim acontece com a pequena Emily que Richard Hughes descreve emUm ciclone na Jamaica:Para refrescar-se, Emily sentara-se na água até o ventre e centenas de peixinhos titilavam-lhe cada polegada do corpo com suas bocas curiosas: era
como se fossem beijos leves e sem sentido. Nos últimos tempos, ela começara a detestar que a tocassem, mas aquilo era abominável. Não pôde suportarmais tempo: saiu da água e tornou a vestir-se.Até a harmoniosa Tessa de Margaret Kennedy conhece essa estranha perturbação:Subitamente, sentiu-se profundamente infeliz. Seus olhos contemplaram fixamente a escuridão do saguão cortado em dois pelo luar que entrava comouma onda pela porta aberta. Não pôde se controlar. Ergueu-se de um salto com um gritinho exagerado: “Oh!”, exclamou, “como detesto o mundointeiro!” Correu então a esconder-se na montanha, assustada e furiosa, atormentada por um triste pressentimento que parecia encher a casasossegada. Aos tropeços pelo atalho, recomeçou a murmurar para s i mesma: “Quisera morrer, quisera estar morta.”Sabia que não pensava o que dizia, não tinha a menor vontade de morrer. Mas a violência dessas palavras parecia satisfazê-la...No livro já citado de Carson MacCullers esse momento inquietante é longamente descrito.Era no verão que Frankie se sentia enjoada e cansada de ser Frankie. Odiava-se, tornara-se uma vagabunda, uma inútil que rodava pela cozinha: suja eesfomeada, miserável e triste. Além disso, era uma criminosa... Aquela primavera fora uma estação estranha, que não acabava. As coisas puseram-se amudar e Frankie não compreendia a mudança... Havia algo nas árvores verdejantes e nas flores de abril que a entristecia. Não sabia por que estavatriste, mas por causa dessa tristeza singular pensou que deveria ter saído da cidade... Deveria ter saído da cidade e ido para longe. Pois naquele ano aprimavera tardia estava indolente e suave. As longas tardes passavam devagar e a doçura verde da estação a enojava... Muitas coisas lhe davam, derepente, vontade de chorar. Cedo pela manhã ia, às vezes, ao pátio e ficava um bom momento a olhar a alvorada; e era como uma pergunta que lhesurgia no coração e à qual o céu não respondia. Coisas que antes nunca notara começaram a impressioná-la: as luzes das casas que percebia à noitequando passeava, uma voz desconhecida saindo de um beco. Olhava as luzes, ouvia as vozes e algo dentro dela retesava-se à espera. Mas as luzesapagavam-se, a voz calava e, apesar de sua espera, era tudo. Tinha medo dessas coisas que a levavam a perguntar-se repentinamente quem era, o queiria tornar-se no mundo, e por que se achava ali a ver uma luz, a escutar e a fixar o céu: sozinha. Tinha medo e o peito oprimia-se estranhamente....Passeava na cidade e as coisas que via e ouvia pareciam-lhe inacabadas e havia nela aquela angústia. Apressava-se em fazer alguma coisa: mas nãoera nunca o que deveria ter feito... Após os longos crepúsculos da estação, depois de ter perambulado pela cidade toda, seus nervos vibravam comouma melodia melancólica de jazz, seu coração endurecia-se e parecia parar. O que ocorre nesse período perturbado é que o corpo infantil se torna corpo de mulher, faz-se carne. Salvo em casos de deficiência glandular, em que opaciente permanece fixado em seu estágio infantil, a crise da puberdade inicia-se por volta dos 12 ou 13 anos.270 Tal crise principia muito antes namenina do que no menino e provoca mudanças muito mais importantes. A menina a enfrenta com inquietação, com desprazer. No momento em que sedesenvolvem os seios e o sistema piloso, nasce um sentimento que por vezes se transforma em orgulho, mas que é originalmente de vergonha;subitamente a criança enche-se de pudor, recusa-se a mostrar-se nua, mesmo às irmãs ou à mãe, examina-se com um misto de espanto e horror e é comangústia que espia a turgidez do caroço duro, um pouco doloroso, que surge sob as mamas antes tão inofensivas quanto o umbigo. Ela inquieta-se porsentir em si um ponto vulnerável: provavelmente a dor é pequena se comparada a uma queimadura ou uma dor de dentes, mas, acidentes ou doenças,as dores eram sempre anomalias, ao passo que o jovem seio é habitado normalmente por não se sabe que surdo rancor. Alguma coisa está ocorrendo,que não é doença, que está implicada na própria lei da existência e que no entanto é luta, dilaceração. Por certo, do nascimento à puberdade a meninacresceu, mas nunca se sentiu crescer: dia após dia, seu corpo lhe foi apresentado como uma coisa exata, acabada; e eis que agora ela “se forma”: aprópria palavra a horroriza; os fenômenos vitais só são tranquilizadores quando encontram um equilíbrio e assumem o aspecto imóvel de uma florfresca, de um animal lustroso; mas na germinação de seu seio a menina experimenta a ambiguidade da palavra: vivo. Ela não é ouro nem diamante esim uma estranha matéria, móvel, incerta, no fundo da qual impuras alquimias se elaboram. Está habituada a uma cabeleira que se desenrola com atranquilidade de uma meada de seda, mas essa nova vegetação sob as axilas e no baixo-ventre a metamorfoseia em bicho ou em alga. Estando mais oumenos informada, ela pressente nessas mudanças uma finalidade que a arranca de si mesma; ei-la jo gada em um ciclo vital que ultrapassa o momentode sua própria existência; ela adivinha uma dependência que a destina ao homem, ao filho, ao túmulo. Em si mesmos os seios apresentam-se como umaproliferação inútil, indiscreta. Braços, pernas, pele, músculos, até as nádegas redondas sobre as quais se senta, tudo tinha até então um usodeterminado; somente o sexo, definido como órgão urinário, era um tanto equívoco, mas secreto, invisível a outrem. Por baixo do suéter, da blusa, osseios se exibem e esse corpo, que a menina confundia com seu eu, aparece como carne; é um objeto que os outros olham e veem. “Durante doi s anosusei capas para esconder o peito, tal era minha vergonha”, disse-me uma mulher. E outra contou-me: “Lembro-me ainda do estranho desnorteamentoque senti quando uma amiga de minha idade, porém mais precocemente formada, ao abaixar-se para apanhar uma bola deixou-me entrever, pelaabertura do corpete, dois seios já pesados: através desse corpo tão próximo do meu e pelo qual o meu iria se moldar, era de mim mesma que eucorava.” “Com 13 anos passeava de pernas nuas e vestido curto”, disse-me uma outra mulher, “um homem fez, zombando, uma reflexão acerca deminhas pernas grossas. No dia seguinte minha mãe obrigou-me a pôr meias e a alongar a saia; mas não esquecerei nunca o choque recebidosubitamente ao me ver vista.” A menina sente que o corpo lhe escapa, não é mais a expressão clara de sua individualidade; torna-se estranho para ela;e, no mesmo momento, ela é encarada por outrem como uma coisa: na rua, acompanham-na com o olhar, comentam sobre sua anatomia; ela gostaria deficar invisível; tem medo de tornar-se carne e medo de mostrar essa carne.Essa repugnância traduz-se em muitas moças pela vontade de emagrecer: não querem mais comer; se as obrigam a isso, vomitam; controlam o pesosem cessar. Outras tornam-se doentiamente tímidas; entrar num salão e mesmo sair à rua é um suplício. A partir daí, desenvolvem-se por vezespsicoses. Um exemplo típico é o da doente que Janet descreve, sob o nome de Nádia, em Les Obsessions et la psychasthénie: Nádia era uma moça de família rica e notavelmente inteligente; elegante, artista, era principalmente uma excelente musicista; mas desde a infância mostrou-se voluntariosa e irritável: “Fazia muita questão de ser amada e exigia um amor louco de todo mundo, dos pais, das irmãs, dos criados: mas logo que conquistava alguma afeição, era tão exigente, tão dominadora que não demorava em afastar as pessoas; horrivelmente suscetível, as zombarias dos primos, que desejavam modificar-lhe o gênio, infundiram-lhe um sentimento de vergonha que se localizou no corpo.” Por outro lado, sua necessidade de ser amada inspirava-lhe o desejo de permanecer criança, de ser sempre uma menina que se acarinha e pode exigir tudo; inspirava-lhe, em suma, terror a ideia de crescer... A chegada precoce da puberdade agravou singularmente as coisas, misturando ao seu temor de crescer receios de pudor: como os homens gostam de mulheres gordas, quero ficar eternamente magra. O medo dos pelos do púbis, do desenvolvimento do seio, acrescentou-se aos temores precedentes. Desde a idade de 11 anos, como usava saias curtas, parecia-lhe que todos a olhavam; deram-lhe saias compridas e ela teve vergonha dos pés, das ancas etc. O aparecimento das regras deixou-a meio louca; quando os pelos do púbis começaram a crescer, ela ficou convencida de que era a única pessoa no mundo com tal monstruosidade e, até a idade de 20 anos, esforçou-se por se depilar a fim de “fazer desaparecer esse adorno de selvagem”. O desenvolvimento do seio agravou essas obsessões porque sempre tivera horror à obesidade; não a detestava nos outros, mas considerava que nela teria sido uma tara. “Não faço questão de ser bonita, mas teria vergonha demais se me tornasse balofa, teria horror; se por infelicidade engordasse, não ousaria mais mostrar-me a ninguém.” Pôs-se então em busca de todos os meios de não crescer, tomava precauções, amarrava-se a promessas, se entregava a conjurações: recomeçar cinco ou seis vezes a mesma oração, pular cinco vezes sobre um pé. “Se tocar quatro vezes a mesma nota no piano, consinto em crescer e não ser mais amada por ninguém.” Acabou resolvendo não comer mais. “Não queria nem engordar nem crescer, nem me assemelhar a uma mulher porque gostaria de continuar menina para sempre.” Promete solenemente não mais aceitar qualquer alimento; cedendo às súplicas da mãe, quebra a promessa, mas passa então horas de joelhos a escrever promessas e a rasgá-las. Quando perdeu a mãe, aos 18 anos, impôs a si mesma o regime seguinte: dois pratos de caldo magro, uma gema de ovo, uma colher de vinagre, uma xícara de chá com suco de um limão inteiro. Era tudo o que comia durante o dia todo. Morria de fome. “Às vezes passava horas inteiras a pensar em comida, de tanto que tinha fome: engolia a saliva, mastigava o lenço, rolava no chão, tal minha vontade de comer.” Mas resistia às tentações. Embora fosse bonita, afirmava que tinha o rosto balofo e cheio de espinhas; se o médico lhe dizia não perceber nada, ela retorquia que ele não entendia disso, que não sabia “descobrir as espinhas que se encontram entre a pele e a carne”. Acabou separando-se da família e fechando-se em um pequeno apartamento onde só via a enfermeira e o médico; não saía nunca; só dificilmente aceitava a visita do pai, que uma vez provocou uma grave recaída, ao lhe dizer que ela estava com boa aparência; ela temia ter um rosto gordo, uma tez brilhante, bons músculos. Vivia quase sempre na escuridão a tal ponto lhe era intolerável ser vista ou simplesmente visível. Muitas vezes a atitude dos pais contribui para inculcar na menina a vergonha de sua aparência física. Uma mulher confessa:271 Sofria de um sentimento de inferioridade física alimentado por críticas incessantes em casa... Minha mãe, em sua vaidade exagerada, queria sempre me ver com a melhor aparência e tinha sempre uma porção de pormenores a dizer à costureira a fim de dissimular meus defeitos: ombros caídos, ancas avantajadas, traseiro chato, seios grandes demais etc. Tendo tido durante anos o pescoço inchado, não me era permitido mostrá-lo... Eu me envergonhava principalmente de meus pés, que, no momento de minha puberdade, eram muito feios; caçoavam de mim por causa de minha maneira de andar... Havia certamente alguma verdade nisso tudo, mas tinham me tornado tão infeliz, principalmente como backfisch, uma jovem, e eu me sentia às vezes tão intimidada que não sabia absolutamente mais como me portar; se encontrava alguém, minha primeira ideia era sempre “se ao menos pudesse esconder meus pés!”. Essa vergonha leva a menina a agir com embaraço, a corar a todo instante; esses rubores aumentam-lhe a timidez e tornam-se eles próprios objeto deuma fobia. Stekel conta, entre outros casos,272 o de uma mulher que “quando moça, corava de maneira tão doentia e violenta que, durante um ano, usouataduras em volta do rosto alegando dores de dente”.Por vezes, no período que se pode chamar da pré-puberdade e que precede o aparecimento das regras, a menina não sente ainda repugnância pelocorpo; orgulha-se de se tornar mulher, espia com satisfação o amadurecimento do seio, enche o corpete com lenços e vangloria-se junto dascompanheiras mais velhas; não apreende ainda a significação dos fenômenos que se produzem nela. Sua primeira menstruação revela-lhe essasignificação e os sentimentos de vergonha aparecem. Se já existiam, confirmam-se e ampliam-se a partir desse momento. Todos os testemunhos
concordam: a criança tenha ou não sido avisada, a ocorrência apresenta-se sempre a ela como repugnante e humilhante. É muito frequente que a mãetenha negligenciado de preveni-la: verificou-se273 que as mães revelam mais facilmente às filhas os mistérios da gravidez, do parto e até das relaçõessexuais que o da menstruação; é que elas próprias têm horror a essa servidão feminina, horror que reflete os antigos terrores místicos dos homens eque elas transmitem a sua descendência. Quando encontra manchas suspeitas em suas roupas de baixo, a menina imagina-se vítima de uma diarreia, deuma hemorragia mortal, de uma doença vergonhosa. Segundo um inquérito apresentado em 1896 por Havelock Ellis, em 125 alunas de uma highschool norte-am ericana, 36, no momento de suas primeiras regras, nada sabiam a respeito, 39 tinham vagas noções. Isso significa que mais da metadedessas alunas viviam na ignorância. Segundo Helen Deutsch, as coisas em 1946 não se teriam modificado muito. H. Ellis cita o caso de uma jovem quese atirou no Sena em Saint-Ouen porque imaginava ter contraído “uma doença desconhecida”. Stekel em “cartas a uma mãe” conta também a históriade uma menina que tentou suicidar-se, vendo no fluxo menstrual o sinal e o castigo das impurezas que lhe maculavam a alma. É natural que a moçatenha medo: parece que é sua vida que lhe foge. Segundo Klein, e a escola psicanalítica inglesa, o sangue seria para ela a manifestação de umferimento nos órgãos internos. Ainda que advertências prudentes lhe poupem angústias demasiado agudas, ela tem vergonha e sente-se suja: precipita-se no banheiro, trata de lavar ou esconder suas roupas maculadas. Encontra-se um relato típico dessa experiência no livro de Colette Audry, Aux yeuxdu souvenir: No centro dessa exaltação, o drama brutal e definido. Uma noite, ao despir-me, acreditei estar doente: não tive medo e evitei contá-lo, na esperança de que passaria até o dia seguinte... Quatro semanas depois a coisa recomeçou, com maior violência. Fui bem devagar jogar minha calça na cesta de roupa suja atrás da porta do banheiro. Fazia tanto calor que o ladrilho vermelho do corredor estava morno sob meus pés descalços. Como me enfiasse na cama ao voltar, mamãe abriu a porta do meu quarto: vinha explicar as coisas. Sou incapaz de lembrar-me do efeito que suas palavras produziram então em mim, mas enquanto ela cochichava Kaki mostrou subitamente a cabeça. A vista daquela cara redonda e curiosa exasperou-me. Gritei-lhe que se fosse e ela saiu, apavorada. Supliquei a mamãe que batesse nela porque ela não pedira para entrar... A calma de minha mãe, seu ar de sabida e docemente feliz acabaram por me fazer perder a cabeça. Quando ela saiu, penetrei numa noite selvagem. Duas recordações ocorreram-me de repente: meses antes, quando voltávamos do passeio com Kaki, mamãe e eu encontramos o velho médico de Privas, atarracado como um lenhador e com uma grande barba branca. “Sua filha está crescendo, minha senhora”, disse examinando-me; eu o detestara de imediato sem nada compreender. Pouco tempo depois, de volta de Paris, mamãe arrumou numa cômoda um pacote de toalhinhas novas. “Que é isso?”, indagara Kaki. Mamãe tomara aquele ar natural dos adultos quando nos revelam uma parte da verdade e guardam as outras: “É para Colette muito brevemente.” Muda, incapaz de fazer uma pergunta, detestara minha mãe. Durante toda essa noite me virei e revirei na cama. Não era possível. Ia acordar. Mamãe se enganara, aquilo passaria e não voltaria mais... No dia seguinte, secretamente mudada e maculada, foi preciso enfrentar os outros. Olhei com ódio para minha irmã porque ela não sabia ainda, porque ela se achava dotada repentinamente, e sem o saber, de uma esmagadora superioridade em relação a mim. Depois, pus-me a odiar os homens que nunca experimentariam isso, e que sabiam. Por fim, detestei também as mulheres que tão tranquilamente se conformavam. Tinha certeza de que se tivessem sido avisadas do que me acontecia todas se teriam regozijado: “Bem, é tua vez”, teriam pensado. Essa também, dizia a mim mesma, quando via uma. E a outra. O mundo me pegara na curva. Andava desajeitadamente e não ousava correr. A terra, as verduras quentes de sol, os alimentos pareciam desprender um odor suspeito... A crise passou e eu voltei a esperar contra o bom senso que não se reproduziria mais. Um mês depois tive de aceitar a evidência e admitir a desgraça definitivamente, mergulhada em um pesado estupor dessa vez. Haveria desde então um “antes” em minha memória. Todo o resto de minha existência não seria senão um “depois”. As coisas passam-se de maneira análoga com a maioria das meninas. Muitas dentre elas têm horror de revelar o segredo aos que a cercam. Uma amigacontou-me que, vivendo sem mãe, entre o pai e uma preceptora, passou três meses com medo e vergonha, escondendo sua roupa maculada, antes quedescobrissem que estava menstruada. Mesmo as camponesas, que poderíamos acreditar endurecidas pelo conhecimento que têm dos mais rudesaspectos da vida animal, sentem com horror essa maldição, pois no campo a menstruação é ainda um tabu: conheci uma jovem sitiante que durantetodo um inverno lavou suas roupas às escondidas no regato gelado, vestindo a camisa molhada para dissimular o inconfessável segredo. Poderia citarcem casos análogos. Mesmo a confissão dessa desgraça espantosa não é uma libertação. Sem dúvida, a mãe que esbofeteou a filha, dizendo: “Idiota, éscriança demais”, é uma exceção. Porém muitas mães demonstram mau humor; a maioria não dá à criança esclarecimentos suficientes e esta continuacheia de ansiedade ante o novo estado que a menstruação inaugura. Ela se pergunta se o futuro não lhe reserva dolorosas surpresas; ou imagina que apartir de então pode tornar-se grávida pela simples presença ou contato de um homem, e sente em relação aos machos um verdadeiro terror. Ainda quelhe poupem tal angústia mediante explicações inteligentes, não a tranquilizam tão facilmente. Antes a menina podia, com alguma má-fé, acreditar-seainda um ser assexuado, podia não se pensar; acontecia até de sonhar que despertaria certa manhã transformada em homem; agora, as mães e as tiascochicham com ares lisonjeados: “é uma moça agora”; a confraria das matronas ganhou: ela lhes pertence. Ei-la instalada sem apelo do lado dasmulheres. Acontece que se orgulhe disso; pensa que se tornou uma adulta e que se vai produzir uma reviravolta em sua existência. Thyde Monnier, porexemplo, conta:274Muitas de nós tinham se tornado “grandes” durante as férias; outras o ficavam no liceu e então uma após outra íamos “ver o sangue” nas privadas dopátio, onde elas se pavoneavam como rainhas recebendo seus súditos. Mas a menina logo se desilude, pois percebe que não adquiriu nenhum privilégio e a vida continua. A única novidade é o acontecimento sujo que ocorretodos os meses; há crianças que choram durante horas quando vêm a saber que estão condenadas a um tal destino; o que agrava ainda mais sua revoltaé o fato de ser essa tara vergonhosa conhecida dos próprios homens; desejariam pelo menos que a humilhante condição feminina permanecesse veladade mistério para eles. Mas não, pais, irmãos, primos sabem e chegam até a zombar. É então que nasce ou se exaspera na menina a repugnância por seucorpo demasiado carnal. E passada a primeira surpresa, o aborrecimento mensal nem por isso se dissipa: toda vez a moça sente o mesmo nojo ante oodor insosso e fétido que sobe de si própria — cheiro de pântano, de violetas murchas — ante esse sangue menos vermelho, mais suspeito do que o queflui de seus machucados infantis. Dia e noite terá de pensar em mudar de roupa, cuidar de seus lençóis, resolver mil pequenos problemas práticos erepugnantes; nas famílias econômicas, as toalhas higiênicas são lavadas mensalmente e voltam a seu lugar entre pilhas de lenços; será preciso,portanto, entregar às mãos das lavadeiras, criadas, mãe, irmã mais velha, essas dejeções saídas de si mesma. Os diferentes curativos que vendem osfarmacêuticos em caixas com nomes de flores, “Camélia”, “Edelweis”, são jogados fora após o uso; mas em viagem, durante as férias, em excursão nãoé tão cômodo assim desembaraçar-se disso por ser expressamente proibido jogá-los na privada. A pequena heroína do JournalPsychanalytique275 descreve seu horror pela toalha higiênica; mesmo diante da irmã só consente em despir-se no escuro, no momento das regras. Oobjeto incômodo, embaraçoso, pode destacar-se durante um exercício violento; é maior humilhação do que perder as calças na rua: essa perspectivaatroz engendra, por vezes, manias psicastênicas. Por uma espécie de maldade da natureza, os incômodos, as dores só começam muitas vezes depois dahemorragia, que a princípio pode passar despercebida. As regras das jovens nem sempre são regulares: elas se arriscam a ser surpreendidas duranteum passeio, na rua, em casa de amigos; arriscam-se — como Mme de Chevreuse276 — a sujar as roupas, o assento. Há quem, ante essa possibilidade,viva numa constante angústia. Quanto mais a moça sente repulsa por essa tara feminina, mais é obrigada a pensar nela com cuidado para não se exporà horrível humilhação de um acidente ou de uma confidência.Eis a série de respostas que o dr. Liepmann obteve a propósito277 durante um inquérito acerca da sexualidade juvenil: Aos 16 anos, quando me senti indisposta pela primeira vez, fiquei muito assustada ao verificá-lo certa manhã. Na verdade sabia que isso deveria acontecer; mas tive tal vergonha que permaneci deitada durante metade do dia e a todas as perguntas respondia unicamente: não posso levantar-me. Fiquei muda de espanto quando, não tendo ainda 12 anos, me senti indisposta pela primeira vez. Apavorei-me, e como minha mãe se contentou em me dizer num tom seco que aconteceria todos os meses, considerei isso uma grande safadeza e recusei-me a admitir que o mesmo não acontecesse com os homens. Essa aventura levou minha mãe a fazer minha iniciação, sem esquecer ao mesmo tempo a menstruação. Tive então meu segundo desapontamento porque logo que fiquei indisposta precipitei-me louca de alegria ao encontro de minha mãe que ainda dormia e a acordei gritando: “Mamãe, já tenho! — E é para isso que você me acorda?”, limitou- se ela a responder. Apesar de tudo considerei a coisa como um verdadeiro terremoto em minha existência. Por isso senti o pavor mais intenso quando fiquei indisposta pela primeira vez ao constatar que a hemorragia não parava ao fim de alguns minutos. Ainda assim não disse uma palavra a ninguém, nem a minha mãe. Acabava de fazer exatamente 15 anos. De resto, sofri muito pouco. Uma só vez senti dores tão tremendas que desfaleci e permaneci cerca de três horas estendida no soalho de meu quarto. Mas não comentei nada sobre isso tampouco. Quando senti pela primeira vez essa indisposição, tinha mais ou menos 13 anos. Já tínhamos falado disso, minhas colegas de classe e eu, e me senti muito orgulhosa por me ter tornado também uma das grandes. Cheia de importância, expliquei à professora de ginástica que naquele dia não podia participar dos exercícios porque estava indisposta. Não foi minha mãe quem me iniciou. Esta só teve suas regras com 19 anos, e com medo de ser repreendida por ter sujado a roupa, enterrou-a num campo.
Atingi a idade de 18 anos e tive pela primeira vez minhas regras.278 Nada sabia a respeito... À noite, tive hemorragias violentas acompanhadas de fortes cólicas e não pude descansar um só momento. Logo pela manhã, corri a minha mãe com o coração batendo, e sem parar de soluçar pedi-lhe conselho. Mas só obtive esta severa repreensão: “Bem que você poderia ter percebido antes, para não sujar assim os lençóis e a cama.” Foi tudo, à guisa de explicações. Naturalmente quebrei a cabeça para saber que crime poderia ter cometido e experimentei uma angústia terrível. Já sabia de que se tratava. Aguardava a coisa com impaciência porque esperava que minha mãe me revelasse então como se fabricavam as crianças. O famigerado dia chegou: mas minha mãe manteve o silêncio. Ainda assim, eu me sentia muito alegre: “Agora”, dizia comigo mesma, “você também pode fazer filhos, já é mulher.” Essa crise ocorre numa idade ainda tenra; o menino só atinge a adolescência por volta dos 15 ou 16 anos; é dos 13 aos 14 que a menina se transformaem mulher. Mas não é daí que vem a diferença essencial de sua experiência; ela não reside tampouco nas manifestações fisiológicas que, no caso damoça, lhe dão sua horrível aparência: a puberdade assume nos dois sexos uma significação radicalmente diferente porque não é um mesmo futuro quese anuncia a eles.Sem dúvida, os meninos também sentem, no momento da puberdade, seu corpo como uma presença embaraçosa, mas, orgulhosos desde a infância desua virilidade, é para ela que orgulhosamente transcendem no momento da transformação; mostram-se envaidecidos com o pelo que lhes cresce naspernas e os torna homens. Mais do que nunca, o sexo é então objeto de comparação e desafio. Tornar-se adulto é uma metamorfose que os intimida:muitos adolescentes sentem-se angustiados quando se anuncia uma liberdade exigente; mas é com alegria que alcançam a dignidade de machos. Aocontrário, para transformar-se em adulto, é preciso que a menina se confine nos limites impostos por sua feminilidade. O menino admira em seus novospelos promessas indefinidas: ela fica confundida diante do “drama brutal e definido” que detém seu destino. Assim como o pênis tira do contexto socialseu valor privilegiado, é o contexto social que faz da menstruação uma maldição. Um simboliza a virilidade, a outra, a feminilidade. E é porque afeminilidade significa alteridade e inferioridade que sua revelação é acolhida com escândalo. A vida da menina sempre lhe apareceu como determinadapor essa impalpável essência à qual a ausência do pênis não conseguia dar uma figura positiva: é esta que se descobre no fluxo de sangue que lheescorre entre as coxas. Se já assumiu sua condição, é com alegria que ela acolhe o acontecimento... “Agora, você é uma mulher.” Se sempre a recusou,o veredicto sangrento a fulmina; o mais das vezes ela hesitava: a mácula menstrual a inclina para a repugnância e o medo: “Então é isso o quesignificam estas palavras: ser mulher!” A fatalidade que até então pesava sobre ela confusamente, e de fora, escondeu-se em seu ventre; não há maismeio de escapar; ela se sente acuada. Em uma sociedade sexualmente igualitária, ela só encararia a menstruação como sua maneira particular deatingir a vida adulta; o corpo humano conhece nos homens e nas mulheres muitas outras servidões mais repugnantes: eles se acomodam facilmenteporque, sendo comuns a todos, não representam uma tara para ninguém. As regras inspiram horror à adolescente porque a precipitam numa categoriainferior e mutilada. Esse sentimento de decadência pesará fortemente sobre ela. Conservaria o orgulho de seu corpo sangrento se não perdesse seuorgulho de ser humano. E se consegue conservar este, sente menos vivamente a humilhação de sua carne: a moça que abre os caminhos datranscendência em atividades esportivas, sociais, intelectuais, místicas, não verá uma mutilação em sua especificação e a superará facilmente. Se porvolta dessa época a moça desenvolve tantas vezes psicoses é porque se sente sem defesa diante de uma fatalidade surda que a condena a provaçõesinimagináveis; sua feminilidade significa a seus olhos doença, sofrimento, morte, e esse destino a subjuga.Um exemplo que ilustra de maneira impressionante essas angústias é o da doente descrita por H. Deutsch sob o nome de Molly. Molly tinha 14 anos quando começou a sofrer de perturbações psíquicas; era a quarta filha de uma família de cinco filhos; o pai, muito severo, criticava as filhas em todas as refeições, a mãe era infeliz e muitas vezes pai e mãe não se falavam. Um dos irmãos fugira de casa. Molly era muito talentosa, dançava o sapateado muito bem mas era tímida e ressentia penosamente a atmosfera familiar; os meninos a amedrontavam. Sua irmã mais velha casou-se contra a vontade da mãe e Molly interessou-se muito pela gravidez da irmã; esta teve um parto difícil, em que foi necessário empregar o fórceps; Molly, que soube dos detalhes e foi informada de que muitas vezes as mulheres morriam de parto, ficou muito impressionada. Durante dois meses tomou conta do bebê; quando a irmã deixou a casa, houve uma cena terrível em que a mãe desmaiou; Molly desmaiou também; vira colegas desmaiar na classe, e as ideias de morte e desmaio obcecavam-na. Quando chegaram as regras, disse à mãe com um ar de embaraço: “A coisa aconteceu.” E foi comprar toalhas higiênicas com a irmã; encontrando um homem na rua, baixou a cabeça; de uma maneira geral manifestava repugnância por si mesma. Não sofria durante esses períodos, mas tentava sempre escondê-los da mãe. De uma feita, tendo visto uma mancha nos lençóis, a mãe lhe perguntou se estava indisposta e ela negou, embora fosse verdade. Um dia disse à irmã: “Tudo pode acontecer agora, posso ter um filho. — Para isso, você precisaria viver com um homem, respondeu a irmã. — Mas eu vivo com dois homens: papai e seu marido.” O pai não permitia às filhas que saíssem sozinhas à noite, com medo que as violentassem. Esses temores contribuíam para dar a Molly a ideia de que os homens eram seres perigosos. O medo de ficar grávida, de morrer de parto, assumiu tal intensidade a partir do momento em que as regras vieram que, pouco a pouco, ela se recusou a sair do quarto, queria permanecer o dia inteiro na cama; tem crises terríveis de ansiedade se a obrigam a sair; se precisa afastar-se da casa, tem uma crise e desmaia. Tem medo dos automóveis, dos táxis, não pode mais dormir, acredita que ladrões entram em casa à noite, grita e chora. Tem manias alimentares, por momentos come demais para não desfalecer; tem medo igualmente quando se sente fechada em algum lugar. Não pode mais ir à escola nem levar uma vida normal. História análoga, que não se liga à crise da menstruação mas em que se manifesta a ansiedade que a menina experimenta em relação a seus“interiores”, é a de Nancy.279 Com mais ou menos 13 anos a menina era íntima da irmã mais velha e ficou muito orgulhosa por ter sido a confidente quando esta se tornou noiva secretamente e depois casou: compartilhar o segredo de uma pessoa mais velha, era ser aceita entre os adultos. Viveu durante algum tempo na casa da irmã; mas quando esta lhe disse que ia “comprar” um bebê, Nancy teve ciúmes do cunhado e da criança que ia chegar; ser novamente tratada como uma criança a quem se contam lorotas fora insuportável para ela. Começou a sentir perturbações internas e quis que a operassem de apendicite; a operação correu bem, mas, durante sua estada no hospital, Nancy viveu em meio a uma terrível agitação; tinha cenas violentas com a enfermeira que detestava; tentava seduzir o médico, marcava encontros com ele, mostrava-se provocante, exigia com crises nervosas que ele a tratasse como mulher; acusava-se de ser responsável pela morte de um irmãozinho ocorrida anos antes; e principalmente tinha certeza de que não lhe haviam tirado o apêndice, que tinham esquecido o bisturi no seu estômago: quis por força que a examinassem pelos raios X a pretexto de que engolira um penny (uma moeda). Esse desejo de operação — em particular da extirpação do apêndice — é comum nessa idade; as meninas exprimem assim seu medo da violação, dagravidez, do parto. Sentem no ventre obscuras ameaças e esperam que o cirurgião as salve do perigo desconhecido que as aguarda.Não é somente o aparecimento das regras que anuncia à menina seu destino de mulher. Outros fenômenos suspeitos produzem-se nela. Até então seuerotismo era clitoridiano. É difícil saber se as práticas solitárias são menos comuns nela do que nos meninos; a essas práticas ela se entrega durante osdois primeiros anos de vida, talvez mesmo desde os primeiros meses; parece que as abandona por volta dos dois anos para voltar a elas mais tarde; pelasua conformação anatômica, essa haste plantada na carne masculina solicita, mais do que uma mucosa secreta, toques e apalpadelas: mas os acasos deuma esfregadela — a criança subindo em barras, em árvores, montando em bicicleta — de um contato vestimentar, de um jogo, ou ainda a iniciação porcolegas mais velhos, por adultos, revelam frequentemente à menina sensações que ela se esforça por ressuscitar. Em todo caso, o prazer, quandoalcançado, é uma sensação autônoma: tem a leve za e a inocência de todos os divertimentos infantis.280 Ela quase não estabelece relações entre asdeleitações íntimas e seu destino de mulher; suas relações sexuais com meninos, se é que existem, são baseadas essencialmente na curiosidade. E ei-laque se sente tomada de perturbadoras emoções em que não se reconhece. A sensibilidade das zonas erógenas desenvolve-se, e estas são na mulher tãonumerosas que se pode considerar todo o corpo como erógeno: é o que lhe revelam carícias familiares, beijos inocentes, toques indiferentes de umacostureira, de um médico, de um cabeleireiro, uma mão amiga pousada nos cabelos ou na nuca; ela descobre, e muitas vezes procura deliberadamente,uma perturbação mais profunda nos contatos de jogo, de luta com meninos e meninas: como Gilberte lutando nos Champs-Elysées com Proust. Nosbraços dos dançarinos, sob o olhar ingênuo da mãe, ela conhece estranhos langores. Além disso, mesmo uma juventude bem protegida expõe-se aexperiências mais precisas. Nos meios “bem” silenciam-se de comum acordo tais incidentes lamentáveis; mas é frequente que certas carícias de amigosda casa, de tios, de primos, para não falar dos avôs e dos pais, sejam muito menos inofensivas do que a mãe supõe; um professor, um padre, um médicopodem ter sido ousados, indiscretos. Encontram-se relatos de semelhantes experiências em L’Asphyxie, de Violette Leduc, em La Haine maternelle, deS. de Tervagnes, e em L’Orange bleue, de Yassu Gauclère. Stekel estima que os avôs, en tre outros, são frequentemente muito perigosos. Tinha 15 anos. Na véspera do enterro, meu avô viera dormir em casa. No dia seguinte, minha mãe já se tendo levantado, ele me perguntou se não podia deitar na minha cama para brincar comigo; levantei-me imediatamente sem responder... Comecei a ter medo dos homens, conta uma mulher.281 Outra jovem lembra-se de ter sofrido um sério choque com a idade de oito ou dez anos quando o avô, um velho de setenta anos, bulira seus órgãos genitais. Ele a sentara no colo enfiando-lhe o dedo na vagina. A criança sentira uma imensa angústia, mas não ousou, ent retanto, dizer nada. Desde então teve muito medo de tudo o que é sexual.282 Tais incidentes são geralmente silenciados pela menina por causa da vergonha que lhe inspiram. Muitas vezes, ao se abrir com os pais, a reação destesé ralhar com ela: “Não diga tolices... Está pensando bobagens.” Ela se cala também acerca dos gestos estranhos de certos desconhecidos. Uma meninacontou ao dr. Liepmann:283
Tínhamos alugado um quarto no porão da casa de um sapateiro. Muitas vezes, quando estava sozinho, nosso proprietário vinha me buscar, me tomava nos braços e me beijava longamente mexendo-se para a frente e para trás. Além disso, seu beijo não era superficial; enfiava-me a língua na boca. Eu o detestava por causa dessas coisas. Mas nunca disse nada porque era muito tímida. Além dos colegas salientes, das amigas perversas, há o joelho que no cinema pressiona o da menina, a mão que à noite no trem desliza ao longo daperna, os rapazes que zombam quando ela passa, os homens que a seguem na rua, os abraços, os toques furtivos. Ela compreende mal o sentido dessasaventuras. Há, muitas vezes, numa cabeça de 15 anos, uma estranha confusão, porque os conhecimentos teóricos e as experiências concretas não seajustam. Uma menina já experimentou todas as sensações da perturbação e do desejo, mas imagina — como Clara d’Ellébeuse, inventada por FrancisJammes — que bastaria um beijo masculino para torná-la mãe; outra tem noções exatas acerca da anatomia genital, mas, quando seu parceiro na dançaa aperta nos braços, acredita ser enxaqueca a emoção que sente. Seguramente, as moças estão hoje mais bem informadas do que outrora. Entretanto,certos psiquiatras afirmam que várias adolescentes ignoram ainda que os órgãos sexuais sirvam para algo mais que urinar.284 De qualquer modo, elasestabelecem pouca relação entre as emoções sexuais e a existência de seus órgãos genitais, pois nenhum sinal tão preciso como a ereção masculinalhes indica essa correlação. Entre seus devaneios romanescos acerca do homem, do amor, e a crueza de certos fatos que lhes são revelados, existe umtal hiato que elas não veem nenhuma relação entre eles. Thyde Monnier conta285 que fizera, com algumas amigas, a promessa de olhar como era feitoum homem e contar às outras: Tendo entrado propositadamente no quarto de meus pais, sem bater, assim o descrevi: “É como um negócio de segurar pernil, isto é, um rolo que no fim tem uma coisa redonda.” Era difícil explicar. Fiz um desenho, fiz mesmo três e cada uma delas levou o seu escondido no corpete e de quando em quando morria de rir, olhando-o, e depois ficava sonhando... Como meninas inocentes como nós poderiam estabelecer uma ligação entre esse objeto e as canções sentimentais, as bonitas histórias romanescas em que o amor, feito de respeito, timidez, suspiros, beija-mão é sublimado até tornar-se eunuco? Contudo, através de suas leituras, de suas conversas, dos espetáculos e das palavras que surpreende, a moça dá um sentido à perturbação de suacarne; esta faz-se apelo, desejo. Em suas febres, arrepios, suores, incômodos incertos, seu corpo assume uma nova e inquietante dimensão. O rapazreivindica suas tendências eróticas porque assume alegremente sua virilidade; nele o desejo sexual é agressivo, preênsil; ele vê nesse desejo umaafirmação de sua subjetividade e de sua transcendência; vangloria-se disso junto dos amigos; o sexo permanece para ele uma perturbação de que seorgulha; o impulso que o impele para a mulher é da mesma natureza daquele que o impele para o mundo, por isso nele se reconhece. Ao contrário, avida sexual da menina sempre foi clandestina; quando seu erotismo se transforma e invade toda a carne, o mistério vira angústia: ela suporta aperturbação como se se tratasse de uma doença vergonhosa; não é ativa: é um estado, e nem mesmo em imaginação ela pode livrar-se dela por umadecisão autônoma; não sonha com pegar, amassar, violentar: é espera e apelo; sente-se dependente; e em perigo na sua carne alienada.Isso porque sua esperança difusa, seu sonho de passividade feliz lhe revelam com evidência o corpo como um objeto destinado a outrem. Ela não querconhecer a experiência sexual senão em sua imanência; é o contato da mão, da boca, de uma outra carne que ela pede e não a mão, a boca, a carnealheia; ela deixa na sombra a imagem de seu parceiro, ou a afoga em devaneios ideais; não pode, entretanto, impedir que a presença dele a obsidie.Seus terrores, suas repulsas juvenis em relação ao homem assumiram um caráter mais equívoco do que antes, e por isso mesmo mais angustiante.Nasciam outrora de um divórcio profundo entre o organismo infantil e seu futuro de adulta; agora, eles têm sua fonte nessa complexidade que a moçaexperimenta em sua carne. Ela compreende que se destina à posse já que a chama: e revolta-se contra seus próprios desejos. Ela almeja e teme a umtempo a vergonhosa passividade da presa que consente. A ideia de se pôr nua diante de um homem a perturba profundamente; mas ela sente tambémque será então entregue sem apelo ao olhar dele. A mão que pega, que toca, tem uma presença ainda mais imperiosa que a dos olhos: ela assusta mais.Mas o símbolo mais evidente e mais detestável da posse física é a penetração pelo sexo do macho. Esse corpo que ela confunde consigo mesma, a jovemdetesta que o possam perfurar como se perfura um couro, rasgá-lo como se rasga um tecido. Porém, mais do que o ferimento e a dor que o acompanha,o que a moça recusa é que ferimento e dor sejam infligidos. “É horrível a ideia de ser furada por um homem”, dizia-me um dia uma jovem. Não é omedo do membro viril que engendra o horror ao homem, esse medo é a confirmação e o símbolo; a ideia de penetração assume seu sentido obsceno ehumilhante no interior de uma forma mais geral, da qual ela é, em compensação, um elemento essencial.A ansiedade da menina é traduzida por pesadelos que a atormentam e fantasias que a perseguem: é no momento em que ela sente em si uma insidiosacomplacência que a ideia de violação se torna em muitos casos obsessiva. Manifesta-se nos sonhos e nas condutas através de numerosos símbolos maisou menos claros. A jovem explora o quarto antes de se deitar, com medo de descobrir algum ladrão de intenções equívocas; acredita estar ouvindogatunos dentro de casa; um agressor entra pela janela com uma faca e a traspassa. De uma maneira mais ou menos aguda, os homens inspiram-lhepavor. Ela começa a sentir certa repugnância do pai; não pode mais suportar o cheiro de seu fumo, detesta entrar no banheiro depois dele; ainda quecontinue a amá-lo, a repulsa física é frequente; toma uma forma exasperada como se a menina já fosse hostil ao pai, como acontece não raro com ascaçulas. Há um sonho que os psiquiatras dizem ser comum nas jovens pacientes: imaginam ser violentadas por um homem sob as vistas de uma mulheridosa e com o consentimento dela. É claro que pedem simbolicamente à mãe a permissão de se entregarem a seus desejos. Pois um dosconstrangimentos que pesam mais odiosamente sobre elas é o da hipocrisia. A jovem acha-se votada à “pureza”, à inocência, precisamente no momentoem que descobre em si e à sua volta os perturbadores mistérios da vida e do sexo. Querem-na branca como o arminho, transparente como um cristal,vestem-na de vaporoso organdi, cobrem-lhe as paredes do quarto com cortinas cor de confeitos, abaixam a voz perto dela, proíbem-lhe os livrosescabrosos; ora, não há uma só filha de Maria que não acarinhe imagens e desejos “abomináveis”. Ela se esforça por dissimulá-los até para a melhoramiga, para si mesma; não quer mais viver nem pensar senão em obediência a ordens recebidas; sua desconfiança de si própria lhe dá um ardissimulado, infeliz, doentio; e mais tarde nada lhe será mais difícil do que combater essas inibições. Mas apesar de todos os recalques, sente-seacabrunhada pelo peso de faltas indizíveis. Su porta sua metamorfose em mulher, não somente na vergonha, mas também no remorso.Compreende-se que a idade ingrata seja para a menina um período de confusão dolorosa. Ela não quer continuar criança. Mas o mundo dos adultosparece-lhe assustador ou tedioso: Procurava crescer portanto, mas nunca pensava seriamente em levar a vida que via os adultos levarem, diz Colette Audry... E ainda assim alimentava-se em mim a vontade de crescer sem jamais assumir a condição de a dulto, sem nunca me tornar solidária com os pais, donas de casa, mulheres caseiras, chefes de família. Gostaria de libertar-se do jugo da mãe; mas tem também uma necessidade ardente de sua proteção. São as faltas que lhe pesam na consciência:práticas solitárias, amizades equívocas, más leituras que tornam tal refúgio necessário. A carta seguinte, 286 escrita a uma amiga por uma jovem de 15anos, é característica: Mamãe quer que eu use vestido comprido no grande baile dos X; meu primeiro vestido comprido. Está espantada por eu não querer. Supliquei que me deixasse usar meu vestidinho cor-de-rosa pela última vez. Tenho tanto medo. Parece, pondo o vestido comprido, que mamãe vai partir para uma longa viagem e que eu não sei quando voltará. Não é idiotice? E às vezes ela me olha como se eu fosse uma menininha. Ah! Se ela soubesse! Amarraria minhas mãos à cama e me desprezaria! Encontra-se no livro de Stekel, A mulher frígida, um documento notável acerca de uma infância feminina. Trata-se de uma “Süssel Mädel” vienense queredigiu por volta dos 21 anos uma confissão pormenorizada, a qual constitui uma síntese concreta de todos os momentos que estudamosseparadamente. “Com a idade de cinco anos escolhi meu primeiro companheiro de brinquedo, um menino, Ricardo, que tinha seis ou sete. Eu queria sempre saber como se reconhece que uma criança é menino ou menina. Diziam que era pelos brincos, pelo nariz... Contentava-me com essa explicação, embora com a sensação de que me escondiam alguma coisa. Subitamente Ricardo desejou fazer xixi... Tive a ideia de lhe emprestar meu urinol. Vendo seu membro, algo inteiramente surpreendente para mim, exclamei cheia de alegria: ‘Mas que é que você tem aí? Como é bonito! Meu Deus, gostaria de ter um também.’ Ao mesmo tempo toquei-o corajosamente...” Uma tia surpreendeu-os e desde então as crianças passaram a ser muito vigiadas. Com nove anos, ela brinca de casamento com dois meninos de oito e dez anos; e também de médico. Bolem em seus órgãos genitais e um dia um dos meninos a toca com o sexo dizendo depois que os pais dela haviam feito a mesma coisa quando se casaram: “Estava francamente indignada: não, não fizeram coisa tão feia!” Ela continua com esses brinquedos e tem uma grande amizade amorosa e sexual com os dois meninos. A tia vem um dia a saber e acontece uma cena horrível em que a ameaçam de botá-la num reformatório. Ela deixa de ver Artur, que era seu predileto, e sofre muito com isso: põe-se a trabalhar mal, sua letra deforma-se, fica vesga. Reinicia outra amizade, com Valter e Francisco. “Valter ocupava todos os meus pensamentos e todos os meus sentidos. Permiti que me tocasse por baixo da saia, de pé ou sentada diante dele enquanto fazia minhas lições de caligrafia... Logo que minha mãe abria a porta ele retirava a mão e eu continuava escrevendo... Enfim tivemos relações normais entre homem e mulher, mas não lhe permitia muita coisa; logo que ele pensava ter penetrado em minha vagina eu me afastava dizendo que havia alguém... Não imaginava que fosse um pecado.” Suas amizades com meninos acabam e sobram somente amizades com moças. “Apeguei-me a Emmy, jovem bem-educada e instruída. Certa vez, no Natal, quando eu tinha 12 anos, trocamos pequenos corações de ouro com nossos nomes gravados dentro. Considerávamos isso uma espécie de noivado, jurando-n os ‘fidelidade eterna’. Devo parte de minha instrução a Emmy. Ela me informou também acerca dos problemas sexuais. No quinto ano, eu já começara a duvidar das histórias de cegonha que traz as crianças.
Acreditava que os filhos vinham do ventre e que era preciso abri-lo para que pudessem sair. Emmy assustava-me principalmente por causa da masturbação. Na escola, vários evangelhos nos abriram os olhos acerca das questões sexuais. Por exemplo, quando a Virgem Maria ia visitar santa Isabel. ‘O filho em seu seio pulava de alegria’ e outros trechos curiosos da Bíblia. Sublinhávamos esses trechos e por pouco a classe não teve uma má nota de comportamento quando descobriram isso. Ela mostrava-me também a ‘recordação de nove meses’ de que fala Schiller em Os salteadores. O pai de Emmy foi transferido e fiquei novamente só. Escrevemo-nos num código secreto que havíamos inventado, mas, como me sentia muito sozinha, liguei-me a uma menina judia, Hedl. Uma vez, Emmy me surpreendeu saindo da escola com Hedl. Fez uma cena de ciúmes. Continuei com Hedl até entrarmos para a escola de comércio e éramos as melhores amigas, sonhando tornarmo-nos cunhadas, pois eu gostava de um de seus irmãos que era estudante. Quando ele falava comigo, eu ficava confusa a ponto de lhe responder de um modo ridículo. Ao crepúsculo, abraçada com Hedl num pequeno sofá, chorava copiosamente, sem saber por quê, quando ele tocava piano. “Antes de minha amizade com Hedl, convivi durante várias semanas com uma certa Ella, filha de gente pobre. Ela observara os pais ‘a sós’, despertada pelo barulho da cama. Veio dizer-me que o pai se deitara sobre a mãe, que gritara muito, e que o pai dissera: ‘Vá se lavar depressa para que não haja nada.’ Fiquei intrigada com a conduta do pai, evitava-o na rua e sentia muita pena da mãe (devia ter sofrido cruelmente para gritar tanto). Conversei com outra colega acerca do comprimento do pênis; ouvi de uma feita falarem de 12 a 15 centímetros; durante a lição de costura pegávamos o metro para medir a partir do lugar em questão ao longo do ventre por cima da saia. Chegávamos, evidentemente, pelo menos ao umbigo e ficávamos apavoradas com a ideia de sermos literalmente empaladas quando nos casássemos.” Ela vê um cão cobrir uma cadela. “Se na rua eu via um cavalo urinar, não podia desviar o olhar, acho que o comprimento do pênis me impressionava.” Observava as moscas e os animais no campo. “Com a idade de 12 anos tive uma forte angina e consultaram um médico amigo; sentado perto da cama, ele colocou de repente a mão sob as cobertas, me tocando quase no ‘lugar’. Sobressaltei-me gritando: ‘Não tem respeito!’ Minha mãe se precipitou, o doutor estava horrivelmente embaraçado e afirmou que eu era uma pequena impertinente e que ele quisera apenas beliscar-me a perna. Fui obrigada a pedir-lhe perdão... Quando tive, enfim, minhas regras e meu pai descobriu minhas toalhas manchadas de sangue, houve uma cena terrível. Porque ele, homem limpo, era ‘forçado a viver entre tantas mulheres sujas’ e parecia que era minha culpa ficar indisposta.” Aos 15 anos tem outra amiguinha com quem se comunica em estenografia “para que em casa ninguém pudesse ler nossas cartas. Havia tanta coisa a escrever sobre nossas conquistas. Ela me comunicava também grande número de versos que lera nas paredes das privadas; lembro-me de um porque degradava até à imundície o amor que era tão sublime em minha imaginação: ‘Qual o fim supremo do amor? Quatro nádegas suspensas a uma haste.’ Resolvi não chegar nunca a esse ponto; um homem que ama uma moça não pode pedir-lhe semelhante coisa. Com 15 anos e meio tive um irmão. Senti muito ciúme porque sempre fora filha única. Minha amiga pedia sempre que eu olhasse como meu irmão era feito, mas não podia absolutamente lhe dar as informações que me solicitava. Nessa época uma outra amiga fez-me a descrição de uma noite de núpcias e depois disso tive a ideia de me casar por curiosidade; só que ‘resfolegar como um cavalo’, segundo a descrição, ofendia meu senso estético... Qual de nós não quisera casar para se deixar despir pelo marido amado e ser carregada para a cama por ele. Era tão tentador...” Dirão talvez — embora se trate de um caso normal e não patológico — que essa menina era de uma “perversidade” excepcional; era apenas menosfiscalizada do que outras. Se as curiosidades e os desejos das jovens “bem-educadas” não se traduzem por atos, nem por isso deixam de existir sob aforma de fantasias e de jogos. Conheci outrora uma moça devota e de uma desconcertante inocência — que se tornou depois uma mulher perfeita,cristalizada na maternidade e na devoção — que certa noite confiou toda trêmula a uma amiga mais velha: “Como deve ser maravilhoso despir-se diantede um homem! Suponhamos que você seja meu marido”; e pôs-se a despir-se muito comovida. Nenhuma educação pode impedir a menina de tomarconsciência de seu corpo e de sonhar com seu destino; quando muito poderão impor-lhe estritos recalques que pesarão mais tarde sobre toda a sua vidasexual. Seria desejável, isso sim, que lhe ensinassem o contrário: a se aceitar sem complacência nem vergonha.Compreende-se agora que drama dilacera a adolescente no momento da puberdade: ela não pode tornar-se adulta sem aceitar sua feminilidade; ela jásabia que seu sexo a condenava a uma existência mutilada e paralisada; descobre isso agora sob a forma de uma doença impura e de um crime obscuro.Sua inferioridade era somente apreendida, a princípio, como uma privação: a ausência do pênis converteu-se em mácula e em falta. É ferida,envergonhada, inquieta, culpada que ela se encaminha para o futuro.
2/A jovemDurante toda a infância a menina foi reprimida e mutilada; entretanto, percebia-se como um indivíduo autônomo; em suas relações com os pais, osamigos, em seus estudos e jogos, descobria-se então como uma transcendência: nada fazia senão sonhar com sua futura passividade. Uma vez púbere, ofuturo não somente se aproxima, instala-se em seu corpo, torna-se a realidade mais concreta. Conserva o caráter fatal que sempre teve; enquanto oadolescente se encaminha ativamente para a idade adulta, a jovem aguarda o início desse período novo, imprevisível, cuja trama já se acha traçada epara o qual o tempo a arrasta. Já desligada de seu passado de criança, o presente só lhe aparece como uma transição; ela não descobre nele nenhumfim válido, mas tão somente ocupações. De uma maneira mais ou menos velada, sua juventude consome-se na espera. Ela aguarda o Homem.Sem dúvida, o adolescente também sonha com a mulher, deseja-a; mas ela será apenas um elemento de sua vida: não resume seu destino. Desde ainfância, se desejou realizar-se como mulher ou superar as limitações de sua feminilidade, a menina esperou do macho realização e evasão: ele tem osemblante deslumbrante de Perseu, de são Jorge, é o libertador, é tão rico e poderoso que detém em suas mãos as chaves da felicidade: é o príncipeencantado. Ela pressente que sob suas carícias será levada pela grande corrente da Vida, como no tempo em que repousava no colo da mãe; submetidaà sua doce autoridade, encontrará a mesma segurança que tinha nos braços do pai: a magia dos abraços e dos olhares a transformará novamente emídolo. Sempre esteve convencida da superioridade viril; esse prestígio dos homens não é uma miragem pueril. Tem bases econômicas e sociais; sãoindiscutivelmente os senhores do mundo, tudo persuade a adolescente de que é de seu interesse tornar-se sua vassala; seus pais a incitam: o paiorgulha-se dos êxitos da filha, a mãe vê neles as promessas de um futuro próspero; as colegas invejam e admiram aquela que conquista maishomenagens masculinas; nos colégios norte-americanos o standard de uma estudante é medido pelo número de dates que acumula. O casamento não éapenas uma carreira honrosa e menos cansativa do que muitas outras: só ele permite à mulher atingir a sua integral dignidade social e realizar-sesexualmente como amante e mãe. É sob esse aspecto que os que a cercam encaram seu futuro e que ela própria o encara. Admite-se unanimementeque a conquista de um marido — ou, em certos casos, de um protetor —, é para ela o mais importante dos empreendimentos. No homem encarna-se aseus olhos o Outro, como este para o homem se encarna nela; mas esse Outro apresenta-se a ele como o essencial e ela se apreende perante ele como oinessencial. Ela se libertará do lar paterno, do domínio materno e abrirá o futuro para si, não através de uma conquista ativa e sim entregando-se,passiva e dócil, nas mãos de um novo senhor.Afirmou-se frequentemente que se a jovem se resignava a essa renúncia é porque física e moralmente ela se torna então inferior aos rapazes e incapazde rivalizar com eles: renunciando a uma vã competição, confiaria a um membro da casta superior o cuidado de lhe assegurar a felicidade. Em verdade,não é de uma inferioridade dada que provém sua humildade; esta, ao contrário, é que engendra todas as insuficiências; tem sua fonte no passado daadolescente, na sociedade que a cerca e, precisamente, nesse futuro que lhe é proposto.Sem dúvida, a puberdade transforma o corpo da jovem. Ele se torna mais frágil do que antes: os órgãos são vulneráveis, seu funcionamento delicado;insólitos e incômodos, os seios são um fardo; lembram sua presença nos exercícios violentos, tremem, doem. Daí por diante a força muscular, aresistência, a agilidade da mulher tornam-se inferiores às do homem. O desequilíbrio das secreções hormonais cria uma instabilidade nervosa evasomotora. A crise menstrual é dolorosa: dores de cabeça, dos músculos e do ventre tornam penosas e até impossíveis as atividades normais; a essesincômodos acrescem-se muitas vezes perturbações psíquicas; nervosa, irritável, é comum que a mulher passe mensalmente por um estado desemialienação; o controle do sistema nervoso e do sistema simpático não é mais assegurado pelos centros; as perturbações da circulação, certasautointoxicações fazem do corpo uma barreira entre a mulher e o mundo, uma bruma ardente que pesa sobre ela, que a abafa e a separa: atr avésdessa carne dolente e passiva, o universo inteiro é um fardo por demais pesado. Oprimida, submergida, ela se torna estranha a si mesma pelo fato deser estranha ao restante do mundo. As sínteses desagregam-se, os instantes não se ligam mais, o outro não é mais reconhecido senão mediante umreconhecimento abstrato; e embora permaneçam intatos como nos delírios melancólicos, o raciocínio e a lógica são, entretanto, colocados a serviço dasevidências passionais que se produzem no seio da desordem orgânica. Tais fatos são extremamente importantes: mas é por sua maneira de tomarconhecimento deles que a mulher lhes dá o peso que têm.É por volta dos 13 anos que os meninos fazem um verdadeiro aprendizado da violência, que desenvolvem sua agressividade, sua vontade de poder, seugosto pelo desafio; é exatamente nesse mesmo momento que a menina renuncia aos jogos brutais. Alguns esportes continuam a lhes ser acessíveis; maso esporte, que é especialização, submissão a regras artificiais, não oferece a equivalência de um recurso espontâneo e normal à força; situa-se àmargem da vida: não informa acerca do mundo e de si mesmo tão intimamente quanto um combate desordenado, uma escalada imprevista. A esportistanão sente nunca o orgulho conquistador de um menino que fez o outro encostar os ombros no chão. Ademais, em muitos países as moças não têmnenhum treinamento esportivo. Sendo-lhes proibidas as brigas, as escaladas, elas se atêm a suportar o corpo passivamente; muito mais nitidamente doque na infância, cumpre a elas renunciar a emergir além do mundo dado, a afirmar-se acima da humanidade; é proibido explorar, ousar, recuar oslimites do possível. Em particular, a atitude do desafio, tão importante nos rapazes, é para as moças quase desconhecida. Por certo as mulheres secomparam, mas o desafio é diferente dessas confrontações passivas: duas liberdades se defrontam à medida que têm sobre o mundo um domínio cujaslimitações desejam diminuir; subir mais alto do que um colega, dobrar um braço, é afirmar sua soberania sobre toda a Terra. Essas condu tasconquistadoras não são permitidas à moça, principalmente a violência. Sem dúvida, no universo dos adultos a força brutal não desempenha, emperíodos normais, um grande papel; mas, entretanto, ela o persegue, muitas são as condutas masculinas que se apoiam num fundo de violênciapossível: em todas as esquinas de rua, brigas e disputas se esboçam; na maioria das vezes abortam; mas basta ao homem sentir em seus punhos suavontade de afirmação de si mesmo para sentir-se confirmado em sua soberania. Contra toda afronta, contra toda tentativa de reduzi-lo a objeto, ohomem tem o recurso de bater, de se expor aos golpes: não se deixa transcen der por outrem, reencontra-se no seio de sua subjetividade. A violência éa prova autêntica da adesão de cada um a si mesmo, a suas paixões, a sua própria vontade, recusá-la radicalmente é recusar-se toda verdade objetiva, éencerrar-se numa subjetividade abstrata; uma cólera, uma revolta que não passam pelos músculos permanecem imaginárias. É terrível frustração nãopoder inscrever os movimentos de seu coração na face da Terra. No sul dos Estados Unidos é rigorosamente impossível a um negro usar de violênciacontra os brancos; essa regra é que é a chave da misteriosa “alma negra”. A maneira pela qual o negro se sente no mundo branco, as con dutasmediante as quais a ele se adapta, as compensações que busca, todo o seu modo de sentir e de agir se explicam por meio da passividade a que écondenado. Durante a ocupação, os franceses que tinham resolvido não se entregar a atos violentos contra os ocupantes, mesmo em caso deprovocação — fosse por prudência egoísta ou porque tinham deveres exigentes —, sentiam sua situação profundamente transtornada nesse mundo:dependia do capricho de outrem que fossem transformados em objetos, sua subjetividade não tinha mais meios de se exprimir concretamente, nãopassava de um fenômeno secundário. Assim, tem o universo um aspecto inteiramente diferente para o adolescente a quem se permite testemunharimperiosamente sobre si mesmo e para a adolescente cujos sentimentos se acham privados de eficiência imediata. Um pode pôr o mundo em discussãosem cessar, pode a cada instante insurgir-se contra o que lhe foi dado e tem, portanto, a impressão, quando o aceita, de o confirmar ativamente; a outranão faz senão suportá-lo: o mundo define-se sem ela e tem um aspecto imutável. Essa impotência física é traduzida por uma timidez mais geral: ela nãoacredita numa força que não experimentou em seu corpo; não ousa empreender, revoltar-se, inventar: votada à docilidade, à resignação, não podesenão aceitar, na sociedade, um lugar já preparado. Ela encara a ordem das coisas como dada. Uma mulher contava-me que durante toda a suamocidade negara com selvagem má-fé sua fraqueza física. Admiti-la, fora perder a vontade e a coragem de empreender o que quer que fosse, ainda queapenas nos domínios intelectuais e políticos. Conheci uma jovem educada como um rapaz e excepcionalmente vigorosa que se imaginava tão fortequanto um homem; embora fosse muito bonita, e tivesse todos os meses regras dolorosas, não tomava em absoluto consciência de sua feminilidade:tinha o rompante, a exuberância de vida, a s iniciativas de um menino. E também as ousadias, não hesitando em intervir na rua a socos, se viamolestarem uma criança ou uma mulher. Uma ou duas experiências infelizes revelaram-lhe que a força brutal está com os homens. Quando mediu suafraqueza, boa parte da confiança que tinha em si mesma esvaiu-se. Foi o início de uma evolução que a levou a se feminilizar, a realizar-se como passiva,a aceitar a dependência. Não ter mais confiança no corpo é perder confiança em si próprio. Basta ver a importância que o s rapazes dão a seusmúsculos para compreender que todo indivíduo julga o corpo como sua expressão objetiva.No rapaz, os impulsos eróticos só confirmam o orgulho que tira de seu corpo: neste ele descobre o sinal de sua transcendência e de seu poder. A moçapode conseguir assumir seus desejos, mas eles guardam, na maioria das vezes, um caráter vergonhoso. Seu corpo inteiro é aceito com embaraço. Adesconfiança que, desde menina, ela sentia em relação a seus “interiores” contribui para dar à crise menstrual o caráter suspeito que a torna odiosa. Épela atitude psíquica que suscita que a servidão menstrual constitui um pesado handicap. A ameaça que pesa sobre a jovem, durante certos períodos,pode parecer-lhe tão intolerável que ela renunciará a expedições e a prazeres, por medo de que sua desgraça seja conhecida. O horror que esta lheinspira repercute em seu organismo e aumenta-lhe os incômodos e as dores. Viu-se que uma das características da fisiologia feminina é a estreitaligação das secreções endócrinas com o equilíbrio nervoso: há uma ação recíproca; um corpo de mulher — e principalmente de moça — é um corpo“histérico”, no sentido de que não há, por assim dizer, distância entre a vida psíquica e sua realização fisiológica. O cataclismo que acarreta à jovem adescoberta das perturbações da puberdade a exaspera. Como o corpo lhe é suspeito, ela o espia com inquietação: parece-lhe doente, é doente. Viu-seque, efetivamente, esse corpo é frágil e que há desordens orgânicas que nele se produzem; mas os ginecologistas concordam em dizer que novedécimos de suas pacientes são doentes imaginárias, isto é, ou seus incômodos não têm nenhuma realidade fisiológica, ou a desordem orgânica é, elaprópria, motivada por uma atitude psíquica. É em grande parte a angústia de ser mulher que corrói o corpo feminino.Vê-se que, se a situação biológica da mulher constitui um handicap, é por causa da perspectiva em que ela se apreende. A fragilidade nervosa, ainstabilidade vasomotora, quando não se tornam patológicas, não lhe vedam nenhum ofício: entre os próprios homens há uma grande diversidade detemperamentos. Uma indisposição de um ou dois dias por mês, mesmo dolorosa, não é tampouco um obstáculo; na realidade, numerosas mulheresacomodam-se a isso, e em particular as que a “maldição” mensal poderia atrapalhar mais: esportistas, viajantes, mulheres que exercem tarefaspesadas. A maioria das profissões não reclama uma energia superior à que a mulher pode fornecer. E nos esportes o fim visado não é um êxitoindependente das aptidões físicas: é a realização da perfeição peculiar a cada organismo. O campeão de peso-pena vale tanto quanto o de peso pesado;uma campeã de esqui não é inferior ao campeão mais rápido do que ela: pertencem a duas categorias diferentes. São precisamente as esportistas que,
positivamente interessadas em sua própria realização, se sentem menos inferiorizadas em relação ao homem. Contudo, a fraqueza física não permite àmulher conhecer as lições da violência: se lhe fosse possível afirmar-se em seu corpo e emergir no mundo de outra maneira, essa deficiência seriafacilmente compensada. Que escale picos, que nade, que pilote um avião, que lute contra os elementos, que assuma riscos e se aventure, ela nãosentirá, diante do mundo, a timidez de que falei. É no conjunto de uma situação, que deixa muito poucas possibilidades, que tais singularidadesassumem seu valor, e não imediatamente, mas confirmando o complexo de inferioridade por ela desenvolvido desde a infância.É igualmente esse complexo que vai pesar sobre suas realizações intelectuais. Observou-se muitas vezes que a partir da puberdade a jovem perdeterreno nos domínios intelectuais e artísticos. Há muitas razões para isso. Uma das mais frequentes está em que a adolescente não encontra em voltade si os incentivos que oferecem a seus irmãos; ao contrário: querem que ela seja também uma mulher, e para isso é preciso acumular as tarefas de seutrabalho profissional com as que sua feminilidade implica. A diretora de uma escola profissional faz a propósito as seguintes observações: A jovem torna-se repentinamente um ser que ganha a vida trabalhando. Tem novos desejos, que nada têm a ver com a família. Acontece frequentemente que deva fazer um esforço bastante considerável... Ela volta à noite para seu lar tomada de um cansaço colossal e com a cabeça cheia das ocorrências do dia... Como é então recebida? A mãe manda-a logo fazer alguma compra. Há também que terminar as tarefas caseiras deixadas em suspenso e cumpre ainda cuidar de sua roupa. É impossível dar atenção a todos os pensamentos íntimos que continuam a preocupá-la. Sente-se infeliz, compara sua situação com a do irmão, que não tem deveres a cumprir em casa, e revolta-se.287 Os trabalhos caseiros ou as tarefas mundanas que a mãe não hesita em impor à estudante, à aprendiz, acabam por exauri-la. Vi, durante a guerra,alunas que eu preparava para Sèvres esmagadas pelas atividades familiares que se acrescentavam ao trabalho escolar: uma teve o mal de Pott, outrauma meningite. A mãe — veremos — mostra-se surdamente hostil à libertação da filha, e mais ou menos deliberadamente esforça-se por oprimi-la.Respeitam o esforço que o adolescente faz para se tornar homem e desde logo lhe dão uma grande liberdade. Da moça exigem que fique em casa,fiscalizam suas saídas: não a encorajam em absoluto a escolher seus divertimentos, seus prazeres. É raro ver mulheres organizarem sozinhas umalonga viagem, a pé ou de bicicleta, ou dedicar-se a um jogo como o de bilhar, de bolas etc. Além de uma falta de iniciativa que provém de sua educação,os costumes tornam sua independência difícil. Se passeiam pelas ruas, são olhadas, abordadas. Conheço moças que, sem serem absolutamente tímidas,não encontram nenhum prazer em passear sozinhas por Paris porque, importunadas sem cessar, precisam andar sempre atentas: com isso, todo oprazer se esvai. Se as estudantes correrem as ruas em bandos alegres, como fazem os estudantes, querem se mostrar; andar a passos largos, cantar,falar alto, rir, comer uma maçã são provocações, desde logo são insultadas ou seguidas ou abordadas. A despreocupação torna-se de imediato uma faltade compostura; esse controle de si a que a mulher é obrigada, e se torna uma segunda natureza na “moça bem-comportada”, mata a espontaneidade; aexperiência viva é com isso reprimida, do que resultam tensão e tédio. Esse tédio é comunicativo: as moças aborrecem-se logo umas das outras; não seprendem mutuamente a sua prisão; e é uma das razões que fazem tão necessária a companhia dos rapazes. Essa incapacidade de bastar a si mesmaengendra uma timidez que se estende por toda a vida e deixa marca em seu próprio trabalho: elas pensam que os triunfos brilhantes são reservados aoshomens. Não ousam visar alto demais. Viu-se que, comparando-se com os meninos, as meninas de 14 anos diziam: “Os meninos são melhores.” Essaconvicção é debilitante. Incita à preguiça e à mediocridade. Uma moça que não tinha nenhuma deferência particular pelo sexo forte criticava a covardiade um homem; observaram-lhe que ela era também muito medrosa: “Ora, uma mulher não é a mesma coisa”, declarou com complacência.A razão profunda desse derrotismo está em que a adolescente não se imagina responsável por seu futuro; julga inútil exigir muito de si mesma, já quenão é dela finalmente que deve depender seu destino. Longe de se dedicar ao homem porque se sente inferior a ele, é porque a ele se acha destinadaque, aceitando a ideia de sua inferioridade, ela se torna inferior.Não será, com efeito, aumentando seu valor humano que ela se valorizará aos olhos dos homens: será moldando-se aos sonhos deles. Quando é aindainexperiente, ela nem sempre percebe isso. Acontece de ela manifestar a mesma agressividade que os rapazes; tenta conquistá-los com uma autoridadebrutal, uma franqueza orgulhosa: essa atitude leva-a quase certamente ao malogro. Da mais servil à mais altiva, todas aprendem que para agradar épreciso abdicar. Suas mães as aconselham a não mais tratar os rapazes como colegas, a não darem os primeiros passos, a assumirem um papel passivo.Se desejam esboçar uma amizade, um namoro, devem evitar cuidadosamente parecer tomar a iniciativa; os homens não gostam de mulhermasculinizada, nem de mulher culta, nem de mulher que sabe o que quer: ousadia demais, cultura, inteligência, personalidade, os assustam. Na maioriados romances, como observa G. Eliot, é a heroína loura e tola que ganha da morena de caráter viril; e no Moinho à beira do Floss, Maggie tenta em vãoinverter os papéis; morre finalmente e é Lucy, a loura, que casa com Stephen; no Último dos moicanos, é a insossa Alice que conquista o coração doherói e não a corajosa Clara; em Little Women, a simpática Joe não passa de uma amiga de infância para Laurie: ele dedica seu amor à insípida Amy decabelos encaracolados. Ser feminina é mostrar-se impotente, fútil, passiva, dócil. A jovem deverá não somente enfeitar-se, arranjar-se, mas aindareprimir sua espontaneidade e substituir, a esta, a graça e o encanto estudados que lhe ensinam as mais velhas. Toda afirmação de si própria diminuisua feminilidade e suas probabilidades de sedução. O que torna relativamente fácil o início do rapaz na existência é que sua vocação de ser humano nãocontraria a de macho: já sua infância anuncia esse destino feliz. É se realizando com independência e liberdade que ele adquire seu valor social econcomitantemente seu prestígio viril: o ambicioso, como Rastignac, visa ao dinheiro, à glória e às mulheres num mesmo movimento: uma dasestereotipias que o estimulam é a do homem poderoso e célebre, que as mulheres adulam. Para a jovem, ao contrário, há divórcio entre sua condiçãopropriamente humana e sua vocação feminina. E é por isso que a adolescência é para a mulher um momento tão difícil e tão decisivo. Até então, ela eraum indivíduo autônomo: cumpre-lhe renunciar à sua soberania. Não somente ela é, como seus irmãos e de uma maneira mais aguda, dividida entre opassado e o futuro, mas ainda um conflito se estabelece entre sua reivindicação original, que é de ser indivíduo em atividade, liberdade, e suastendências eróticas e solicitações sociais que a convidam a se assumir como objeto passivo. Ela se apreende espontaneamente como o essencial, de quemaneira, pois, poderá concordar em tornar-se o inessencial? Mas se não posso realizar-me enquanto Outro, como renunciarei a meu Eu? Eis oangustiante dilema em face do qual a mulher em formação se debate. Oscilando do desejo à aversão, da esperança ao medo, recusando o que almeja,está ainda em suspenso entre o momento da independência infantil e o da submissão feminina: é essa incerteza que lhe dá, ao sair da idade ingrata, umgosto ácido de fruto verde.A jovem reage de maneira muito diferente segundo suas escolhas anteriores. A mulher comum, a futura matrona, pode resignar-se facilmente à suametamorfose; entretanto, ela pode também ter extraído, em sua condição de dona de casa, uma inclinação para autoridade que a leva a revoltar-secontra o jugo masculino: ei-la disposta a fundar um matriarcado e não a tornar-se objeto erótico e criada. Será esse, muitas vezes, o caso das irmãsmais velhas que assumiram, muito jovens, importantes responsabilidades. A “menina masculinizada”, ao descobrir que é mulher, experimenta por vezesuma decepção violenta que a pode conduzir diretamente à homossexualidade; entretanto, o que ela procurava, na independência e na violência, era adominação do mundo, embora possa não querer renunciar ao poder de sua feminilidade, às experiências da maternidade, a toda uma parte de seudestino. Geralmente a jovem consente em sua feminilidade por meio de certas resistências: já no estágio do coquetismo infantil, em face do pai, emseus devaneios eróticos, ela conheceu o encanto da passividade; descobre seu poder; à vergonha que sua carne inspira, mistura-se muito cedo certavaidade. Tal mão que a comoveu, tal olhar que a perturbou, era um chamado, uma prece; seu corpo se mostra como dotado de virtudes mágicas; é umtesouro, uma arma; tem orgulho dele. Seu coquetismo, que não raro desaparecera durante os anos de infância autônoma, ressuscita. Ela experimentamaquiagens e penteados; em lugar de esconder os seios, lhes faz massagens para que cresçam, estuda o sorriso no espelho. A ligação entre ainquietação e a sedução é tão estreita que, em todos os casos em que a sensibilidade erótica não se manifesta, não se observa no sujeito nenhum desejode agradar. Experiências mostram que doentes sofrendo de insuficiência tireoidiana, e consequentemente apáticas, tristonhas, podiam sertransformadas mediante injeção de extratos glandulares: começam a sorrir, tornam-se alegres e dengosas. Ousadamente, os psicólogos imbuídos demetafísica materialista declararam que o coquetismo era um “instinto” secretado pela glândula tireoidiana; mas essa explicação obscura só é válidaaqui para a primeira infância. O fato é que em todos os casos de deficiência orgânica — linfatismo, anemia etc. — o corpo é suportado como um fardo.Estranho, hostil, ele não espera nem promete nada; quando recobra seu equilíbrio e sua vitalidade, logo o sujeito o reconhece como seu e através deletranscende para outrem.Para a jovem, a transcendência erótica consiste, com o intuito de pegar, em tornar-se presa. Ela se torna um objeto; e se apreende como objeto; é comsurpresa que descobre esse novo aspecto de seu ser: parece-lhe que se desdobra. Ao invés de coincidir exatamente consigo, ei-la que começa a existirfora. Assim, em L’Invitation à la valse, de Rosamond Lehman, vê-se Olivia descobrir num espelho uma imagem desconhecida: é ela-objeto erguidorepentinamente em face de si mesma; a emoção que experimenta é transtornante, mas dissipa-se depressa: Há algum tempo, uma emoção particular acompanhava o minuto em que se olhava assim dos pés à cabeça; de maneira imprevista e rara, acontecia que visse diante de si uma estranha, um novo ser. Isso produziu-se duas ou três vezes. Ela olhava-se num espelho, via-se. Mas que acontecia?... Agora o que via era outra coisa: um rosto misterioso, a um tempo sombrio e radioso; uma cabeleira transbordante de movimentos e de força e como que percorrida por correntes elétricas. Seu corpo — seria por causa do vestido — parecia encaixar-se harmoniosamente: centrado, desabrochado, flexível e estável ao mesmo tempo: vivo. Tinha diante de si, como um retrato, uma jovem de cor-de-rosa, cujos os objetos do quarto, refletidos no espelho, pareciam enquadrar, apresentar, murmurando: é você... O que deslumbra Olivia são as promessas que acredita ler nessa imagem em que reconhece seus sonhos infantis e que é ela própria; mas a moça amatambém, na sua presença carnal, esse corpo que a maravilha como o de uma outra. Ela acaricia a si própria, beija a curva do ombro, a concavidade dobraço, contempla o seio, as pernas; o prazer solitário torna-se pretexto para devaneios, neles busca uma terna posse de si. No adolescente, há umaoposição entre o amor de si mesmo e o impulso erótico que o impele para o objeto a ser possuído: seu narcisismo desaparece geralmente no momento
da maturidade sexual. Ao passo que na mulher, sendo ela um objeto passivo para o amante como para si mesma, há em seu erotismo uma indistinçãoprimitiva. Num movimento complexo, ela visa à glorificação de seu corpo através das homenagens dos homens a quem se destina esse corpo; e seriasimplificar as coisas dizer que ela quer ser bela para seduzir ou que busca seduzir para se assegurar de que é bela: na solidão de seu quarto, nos salõesem que tenta atrair os olhares, não separa o desejo do homem do amor a seu próprio eu. Essa confusão é manifesta em Maria Bashkirtseff. Já vimos queum desmame tardio a predispôs, mais vivamente do que qualquer outra criança, a querer ser encarada e valorizada por outrem; desde a idade de 5anos até sair da adolescência, ela dedica todo o seu amor à sua imagem; admira loucamente suas mãos, seu rosto, sua graça, escreve: “Sou minhaheroína...” Quer ser cantora para ser olhada por um público deslumbrado e em compensação medi-lo altivamente; mas esse “autismo” traduz-se porsonhos romanescos; desde a idade de 12 anos sente-se amorosa: é que espera ser amada e não procura, na adoração que deseja inspirar, senão aconfirmação daquela que dedica a si mesma. Sonha que o duque de H., por quem está apaixonada sem nunca ter falado com ele, se prosterna a seuspés: “Serás ofuscado pelo meu esplendor e me amarás... Só és digno de uma mulher como espero ser.” É a mesma ambivalência que encontramos emNatacha de Guerra e paz: Mamãe tampouco me compreende. Deus meu, como sou espirituosa! Um verdadeiro encanto essa Natacha!, prosseguiu falando a si mesma na terceira pessoa e colocando a exclamação na boca de um personagem masculino que lhe atribuía todas as perfeições de seu sexo. Tem tudo, tudo para ela. É inteligente, gentil e bonita, e hábil. Nada, monta muito bem a cavalo, canta deliciosamente. Sim, pode-se dizer, deliciosamente... Tinha voltado naquela manhã àquele amor a si mesma, àquela admiração por sua pessoa, que constituíam seu estado de espírito habitual. “Que encanto essa Natacha!, dizia ela, fazendo falar um terceiro personagem coletivo e masculino. É jovem, é bonita, tem uma bela voz, não incomoda ninguém: deixem-na portanto sossegada!” Katherine Mansfield descreveu também, no personagem de Beryl, um caso em que o narcisismo e o desejo romanesco de um destino de mulher semisturam estreitamente: Na sala de jantar, à luz bruxuleante do fogo da lareira, Beryl tocava violão sentada numa almofada. Tocava para si mesma, cantava à meia-voz e se observava. O brilho das chamas refletia em seu sapato, no ventre rubicundo do violão e em seus dedos brancos... “Se estivesse lá fora e olhasse para dentro pela janela, me espantaria bastante em me ver assim”, pensava. Tocou o acompanhamento em surdina; não cantava mais, escutava. “Da primeira vez que a vi, menina, você se acreditava muito só! Estava sentada com seus pezinhos sobre a almofada e tocava violão. Deus meu! Nunca poderei esquecer...” Beryl ergueu a cabeça e pôs-se a cantar: Até a lua está lassa. Mas batiam fortemente na porta. A cara avermelhada da criada surgiu... Não, não suportaria aquela mulher estúpida. Fugiu para o salão escuro e pôs-se a andar de um lado para outro. Oh! estava agitada, agitada. Em cima da lareira havia um espelho. Apoiando-se nos braços contemplou sua pálida imagem. Como era bela! Mas não havia ninguém para perceber isso, ninguém... — Beryl sorriu e realmente seu sorriso era tão adorável que sorriu de novo... (Prelúdio). Esse culto do eu não se traduz, na jovem, somente pela adoração de sua pessoa física. Ela almeja também possuir e incensar todo seu eu. Esse é oobjetivo visado através desses diários íntimos em que ela derrama de bom grado a alma. O de Maria Bashkirtseff é célebre e um modelo no gênero. Ajovem fala com seus cadernos como falava antes com suas bonecas, é um amigo, um confidente, interpela-o como se fora uma pessoa. Entre as páginasinscreve-se uma verdade escondida aos pais, aos colegas, aos professores, e com a qual a autora se embriaga solitariamente. Uma jovem de 12 anosque escreveu seu diário até a idade de vinte pusera-lhe como epígrafe: Sou o caderninhogentil, bonito e discreto,confia-me todos os teus segredosSou o caderninho.288 Outras proclamam: “Para ser lido somente depois da minha morte” ou “para ser queimado depois da minha morte”. O sentido do segredo desenvolvidona menina, no momento da pré-puberdade, aumenta sempre. Ela se encerra numa solidão arisca; recusa-se a desvendar aos que a cercam o eurecôndito que considera seu verdadeiro eu e que na realidade é um personagem imaginário: finge ser uma dançarina como a Natacha de Tolstoi, ouuma santa como fazia Marie Lenéru, ou simplesmente essa maravilha singular que é ela própria. Há sempre uma enorme diferença entre essa heroína ea figura objetiva que seus pais e amigos reconhecem nela. Por isso, ela se persuade de que é incompreendida: suas relações consigo mesma são aindamais apaixonadas. Ela se embriaga com seu isolamento, sente-se diferente, superior, excepcional: promete a si mesma que seu futuro será um revide àmediocridade de sua vida presente. Desta existência estreita e mesquinha, ela se evade nos sonhos. Sempre gostou de sonhar: não abandonará nuncamais esse pendor: mascara com clichês poéticos um universo que a intimida, aureola o sexo masculino de luar, de nuvens róseas, de noites aveludadas;faz do corpo um templo de mármore, de jaspe, de madrepérola; conta a si própria tolas histórias mágicas. É por falta de um domínio sobre o mundo quese afunda tantas vezes na tolice. Se devesse agir teria de enxergar claramente, ao passo que pode esperar no meio do nevoeiro. O rapaz também sonha:sonha principalmente com aventuras em que desempenha um papel ativo. A jovem prefere o maravilhoso à aventura; ela espalha sobre as pessoas e ascoisas uma luz mágica incerta. A ideia de magia é a de uma força passiva; como é destinada à passividade e no entanto aspira ao poder, é preciso que aadolescente acredite na magia: a de seu corpo que submeterá os homens a seu jugo, a do destino em geral que a satisfará sem que precise fazer nada.Quanto ao mundo real, tenta esquecê-lo. “Por vezes, na escola, fujo, não sei como, do assunto explicado e me elevo ao país dos sonhos...”, escreve uma jovem.289 “Absorvo-me então a tal ponto em deliciosas quimeras que perco completamente a noção da realidade. Fico pregada a meu banco e, quando acordo, espanta-me reencontrar-me entre quatro paredes.” “Prefiro devanear a fazer versos”, escreve outra, “esboçar em minha imaginação lindos contos sem pé nem cabeça ou inventar uma lenda, olhando as montanhas à luz das estrelas. É bem mais bonito porque é mais vago e deixa uma impressão de repouso, de frescor”. O devaneio pode assumir uma forma mórbida e invadir toda a existência, como no seguinte caso:290 Maria B., menina inteligente e sonhadora, no momento da puberdade, que se manifesta por volta dos 14 anos, sofre uma crise de excitação psíquica com ideias de grandeza. “Repentinamente, declara a seus pais que é rainha da Espanha, toma atitudes altivas, envolve-se em cortinados, ri, canta, manda, ordena.” Durante dois anos esse estado se repete no período das regras; em seguida, durante oito anos, leva uma vida normal, mas é muito sonhadora, adora o luxo e diz muitas vezes com amargura: “Sou a filha de um empregado.” Por volta dos 23 anos torna-se apática, despreza os que a cercam, dá mostra de concepções ambiciosas; definha a tal ponto que a internam em Sainte-Anne, onde permanece oito meses. Volta para a casa de sua família, onde durante três anos fica de cama, “desagradável, má, violenta, caprichosa, desocupada, fazendo que toda gente ao redor dela leve uma vida verdadeiramente infernal”. É internada novamente em Sainte-Anne, de onde não sai mais. Fica de cama e não se interessa por nada. Em certos períodos, que parecem corresponder aos da menstruação, levanta-se, envolve-se nas suas cobertas, toma atitudes teatrais, poses, sorri aos médicos e olha-os ironicamente... Suas palavras exprimem muitas vezes certo erotismo e sua atitude altiva traduz ideias megalomaníacas. Entrega-se cada vez mais ao devaneio, durante o qual sorrisos de satisfação assomam-lhe ao rosto; não se lava mais e até suja a cama. “Exibe ornatos estranhos. Sem camisa, com frequência sem lençóis, enrolada nas cobertas quando não se expõe nua, arvora um diadema de papel de estanho na cabeça e numerosas pulseiras de barbante e fita nos punhos, nos ombros, nos tornozelos. Anéis do mesmo tipo enfeitam seus dedos.” Entretanto, faz às vezes confidências inteiramente lúcidas acerca de seu estado. “Lembro-me da crise que tive outrora. No fundo eu sabia que não era verdade. Era como uma criança que brinca com boneca, que sabe que a boneca não é viva, mas quer persuadir-se do contrário... Penteava-me, vestia-me com cobertas. Isso me divertia e depois, pouco a pouco, como contra minha vontade, ficava enfeitiçada, era como um sonho que eu vivia... Era uma comediante desempenhando um papel. Estava num mundo imaginário. Vivia várias vidas e em todas elas era o personagem principal... Ah! Tive tantas vidas diferentes! De uma feita casei-me com um americano muito bonito que usava óculos de ouro... Tínhamos um grande palacete e cada qual tinha seu quarto. Quantas festas dei!... Vivi no tempo do homem das cavernas... Fiz farra outrora. Não contei todos com quem dormi. Aqui são um pouco atrasados. Não compreendem que eu fique nua com uma pulseira de ouro na coxa. Outrora tinha amigos de que gostava muito. Fazíamos festas em minha casa. Havia flores, perfumes, mantos de arminho. Meus amigos me davam objetos de arte, estátuas, automóveis... Quando fico nua entre os lençóis, recordo a vida de outrora. Adorava-me no espelho, como uma artista... Nesse encantamento fui tudo o que quis. Fiz até tolices. Fui morfinômana, cocainômana. Tive amantes... Introduziam-se à noite em minha casa. Vinham dois juntos, traziam cabeleireiros e olhávamos cartões-postais.” Ela gosta também de um dos médicos, de quem se diz amante. Teria tido uma filha de três anos. Tem também outra de seis, muito rica, e que está viajando. O pai é um homem muito chique. “Há muitas outras histórias semelhantes. Cada
uma é a narrativa de uma existência fictícia que ela vive em sua imaginação.” Vê-se que esse devaneio mórbido destinava-se essencialmente a satisfazer o narcisismo da jovem que considera sua vida insatisfatória e teme enfrentara verdade da existência; Maria B. não fez senão levar ao extremo um processo de compensação que é comum em numerosas adolescentes.Entretanto, esse culto solitário que rende a si mesma não basta à jovem. Para se realizar, ela precisa existir numa outra consciência. Busca muitasvezes o auxílio de suas companheiras. Quando era mais nova, a amiga mais íntima servia-lhe de ponto de apoio para evadir-se do círculo materno, paraexplorar o mundo e em particular o mundo sexual; agora ela é, ao mesmo tempo, um objeto que arranca a adolescente dos limites de seu eu e umatestemunha que lhe restitui este limite. Certas meninas exibem sua nudez umas às outras, comparam os seios. Talvez se lembrem da cena de Jeunesfilles en uniforme que mostrava esses folguedos ousados das internas; trocam carícias difusas ou precisas. Como Colette relata em Claudine à l’école, emenos francamente Rosamond Lehman em Poussière, há tendências lésbicas em quase todas as jovens. Essas tendências mal se distinguem dadeleitação narcisista: o que cada uma deseja na outra é a doçura da própria pele, o modelado das curvas que cada uma cobiça e, reciprocamente, naadoração que tem por si mesma, está implicado o culto da feminilidade em geral. Sexualmente o homem é sujeito; os homens acham-se, portanto,normalmente separados pelo desejo que os impele para um objeto diferente deles; mas a mulher é objeto absoluto de desejo; eis por que em liceus,escolas, internatos, ateliers, florescem tantas “amizades especiais”; algumas são puramente espirituais, outras fortemente carnais. No primeiro caso,trata-se principalmente de abrir o coração entre amigas, de trocar confidências; a prova de confiança mais apaixonada consiste em mostrar o diárioíntimo à amiga; na falta de carícias sexuais, as amigas trocam manifestações de extremada ternura e muitas vezes trocam provas físicas de seussentimentos: assim é que Natacha queima o braço com uma régua em brasa para provar a Sônia seu amor; mas, sobretudo, elas se chamam por milnomes carinhosos, trocam cartas fervorosas. Eis, por exemplo, o que escrevia à amada Emily Dickinson, uma jovem puritana da Nova Inglaterra: Penso em você todo dia e sonhei com você durante toda a noite passada. Estávamos passeando no mais maravilhoso dos jardins, ajudava-a a colher rosas e meu cesto nunca se enchia. Assim, durante todo o dia rezo para passear com você e quando a noite se aproxima fico feliz e conto impacientemente as horas que se interpõem entre mim e a escuridão, meus sonhos e o cesto que nunca se enche... Em sua obra L’Âme de l’adolescente, Mendousse cita numerosas cartas análogas: Minha querida Susana... Gostaria de transcrever aqui alguns versículos do Cântico dos cânticos: como és bela, minha amiga, como és bela! Como a noiva mística, você era semelhante à rosa de Saron, ao lírio do vale, e como ela você foi para mim mais do que uma moça comum; você foi símbolo, o símbolo de muitas coisas belas e elevadas... e por causa disso, branca Susana, eu a amo com um amor puro e desinteressado em que há algo religioso. Outra confessa em seu diário emoções menos elevadas: Estava ali, a cintura tomada por aquela mãozinha branca, minha mão repousando em seu ombro redondo, meu braço em seu braço morno e nu, aconchegada à doçura de seu seio, tendo à minha frente s ua linda boca entreaberta sobre seus dentinhos... Tremia e sentia meu rosto em fogo.291 Em seu livro L’Adolescente, Mme Évard recolheu também bom número dessas efusões íntimas: A minha fada bem-amada, minha querida muito querida. Minha linda fada! Diga-me que me ama ainda, diga-me que continuo a ser sempre sua amiga devotada. Estou triste, a amo tanto, minha L... e não posso falar com você, formular suficientemente minha afeição; não há palavras que descrevam meu amor. Idolatrar é dizer pouco em relação ao que sinto; parece-me, por vezes, que meu coração vai rebentar. Ser amada por você é belo demais, não posso acreditar nisso. Oh!, minha mimosa, diga-me, você me amará ainda durante muito tempo?... etc. Dessas ternuras exaltadas, passa-se facilmente a amores juvenis culposos. Por vezes, uma das duas amigas domina a outra e exerce seu poder comsadismo; mas, muitas vezes, trata-se de amores recíprocos, sem humilhação nem luta. O prazer dado e recebido permanece tão inocente como notempo em que cada uma se amava solitariamente sem se desdobrar num casal. Mas essa brancura é insossa; quando a adolescente almeja enfrentar avida, atingir o Outro, quer ressuscitar em seu proveito a magia do olhar paterno, exige o amor e as carícias de uma divindade. Vai se voltar para umamulher, menos estranha e menos temível do que o homem, mas que participará do prestígio viril: uma mulher com uma profissão, ganhando a vida, comcerto prestígio social, será facilmente tão fascinante quanto um homem. Sabe-se quantas paixões se acendem no coração das estudantes pelasprofessoras e as inspetoras. Em Régiment de femmes, Clémence Dane descreve, de maneira casta, paixões ardorosas. Por vezes, a jovem faz à suaamiga íntima a confidência de sua grande paixão: acontece mesmo que ambas a partilhem e que cada qual se vanglorie de senti-la mais fortemente.Assim é que uma estudante escreve à sua colega predileta: Estou de cama, com gripe, nada faço senão pensar em Mlle X. Nunca amei uma professora a esse ponto. Já no primeiro ano gostava muito dela; mas agora é realmente amor. Creio que estou mais apaixonada do que você. Parece-me que a beijo; quase desfaleço e alegro-me em voltar à escola para vê-la.292 Mais comumente ela ousa confessar seus sentimentos ao seu próprio ídolo: Acho-me diante da senhora, minha querida Mademoiselle, num estado indescritível... Quando não a vejo, daria tudo no mundo para encontrá-la. Penso na senhora a cada instante. Se a encontro, fico com os olhos rasos de lágrimas, tenho vontade de me esconder; sou tão pequena, tão ignorante perto da senhora. Quando a senhora fala comigo, fico embaraçada, comovida, parece-me ouvir a doce voz de uma fada e um zunido de coisas amorosas, impossíveis de serem traduzidos; espio seus menores gestos, não presto mais atenção à conversa, murmuro alguma tolice; a senhora convirá, querida Mademoiselle, em que isso é bastante complicado. Só vejo uma coisa com nitidez, é que a amo do fundo do coração.293 A diretora de uma escola profissional conta:294 Lembro-me de que, em minha própria juventude, disputávamos o papel em que uma de nossas jovens professoras trazia o almoço e pagávamos os pedaços até vinte pfennings. Seus bilhetes de metrô, já usados, eram igualmente objeto de nossa mania de colecionadoras. Como deve desempenhar um papel viril, é preferível que a mulher amada não seja casada: o casamento nem sempre desanima a jovem amorosa, mas aincomoda. Ela detesta que o objeto de sua adoração se apresente como submissa ao poder de um marido ou de um amante. Muitas vezes, essas paixõesdesenvolvem-se em segredo, ou pelo menos num plano puramente platônico; mas a passagem para um erotismo concreto é muito mais fácil, no caso, doque se o objeto amado pertencer ao sexo masculino. Mesmo quando não teve experiências fáceis com amigas de sua idade, o corpo feminino nãoassusta a jovem; esta conheceu muitas vezes com as irmãs e a mãe uma intimidade em que a ternura se impregnava sutilmente de sensualidade, e,junto da amada que admira, a passagem da ternura ao prazer será feita também de maneira insensível. Quando em Jeunes filles en uniforme, DorothyWieck beijava Herta Thill na boca, o beijo era maternal e sexual a um só tempo. Há entre mulheres uma cumplicidade que desarma o pudor; aperturbação que uma desperta na outra é geralmente sem violência; as carícias homossexuais não implicam defloração nem penetração: satisfazem oerotismo clitoridiano da infância sem reclamar novas e inquietantes metamorfoses. A jovem pode realizar sua vocação de objeto passivo sem se sentirprofundamente alienada. É o que exprime Renée Vivien em seus versos, em que descreve relações de “mulheres malditas” com suas amantes: Nossos corpos são para seus corpos um espelho fraternal,
Nossos beijos lunares têm pálidas doçuras,Nossos dedos não magoam a penugem de um rostoE podemos, quando o cinto se solta,Ser a um tempo amantes e irmãs.295 E nestes igualmente: Porque amamos a graça e a delicadeza.E minha posse não te machuca os seios...Minha boca não poderia morder asperamente tua boca.296 Através da impropriedade poética das palavras “seios” e “boca”, o que ela promete realmente à amiga é não a violentar. E é em parte por medo daviolência, da violação, que a adolescente dedica amiúde seu primeiro amor a uma amiga mais velha antes do que a um homem. A mulher viril reencarnapara ela ao mesmo tempo o pai e a mãe: do pai tem a autoridade, a transcendência, é fonte e medida dos valores, emerge para além do mundo dado, édivina. Mas permanece mulher: se na infância foi demasiadamente privada das carícias maternas ou, ao contrário, se a mãe a mimou durante um tempodemasiado longo, a adolescente sonha, como seus irmãos, com o calor do seio. Nesta carne próxima da sua, ela reencontra com abandono essa fusãoimediata com a vida que o desmame destruiu; e, através desse olhar estranho que a envolve, a separação que a individualiza é superada. Naturalmente,toda relação humana implica conflitos; todo amor, ciúmes. Mas muitas dificuldades que surgem entre a virgem e seu primeiro amante são assimresolvidas. A experiência homossexual pode assumir o aspecto de um verdadeiro amor: pode dar à jovem um equilíbrio tão feliz que ela o desejaráperpetuar, repetir, que dele conservará uma recordação nostálgica; ele poderá revelar ou dar origem a uma vocação lésbica.297 Porém, o mais das vezes,não representa senão uma etapa: sua própria facilidade o condena. No amor que dedica a uma amiga mais velha, a jovem visa seu próprio futuro: queridentificar-se com o ídolo, mas este, exceto no caso de uma superioridade excepcional, logo perderá sua aura; quando começa a afirmar-se, a maismoça julga, compara: a outra, que fora escolhida exatamente porque era mais próxima e não intimidava, não é bastante outro para se impor durantemuito tempo; os deuses masculinos estão mais solidamente instalados porque seu céu é mais longínquo. A curiosidade, a sensualidade incitam a jovema desejar carícias mais violentas. Muitas vezes ela só encarou, desde o início, a aventura homossexual como uma transição, uma iniciação, uma espera;representou o amor, o ciúme, a cólera, o orgulho, a alegria, a dor com a ideia mais ou menos confessada de que imitava sem grandes riscos asaventuras com que sonhava, mas que não ousava ainda ou não tinha a oportunidade de viver. Sabe que é destinada ao homem. E quer um destino demulher normal e completa.O homem a fascina, entretanto a amedronta. Para conciliar os sentimentos contraditórios que lhe dedica, vai dissociar nele o macho que a assusta e adivindade radiosa que adora piedosamente. Brusca, selvagem com colegas masculinos, ela adora longínquos príncipes encantados: atores de cinemacuja fotografia pendura em cima da cama, heróis mortos ou vivos, mas em todo caso inacessíveis, desconhecidos vistos por acaso e que ela sabe quenão tornará a ver. Tais amores não suscitam nenhum problema. Com frequência é a um homem dotado de prestígio social ou intelectual, mas cujo físiconão a pode perturbar, que se dedica; a um velho professor um tanto ridículo, por exemplo; esses homens idosos emergem além do mundo em que aadolescência está confinada, é possível destinar-se a eles em segredo, consagrar-se a eles como se consagraria a Deus: um tal dom nada tem dehumilhante, é livremente consentido, já que não desejado na carne. A amorosa romanesca aceita até de bom grado que o eleito tenha um aspectohumilde, seja feio, até insignificante: sente-se, com isso, ainda mais segura. Finge deplorar os obstáculos que a separam dele, mas na verdade ela oescolheu exatamente porque nenhuma relação efetiva era possível entre ambos. Assim ela pode ter do amor uma experiência abstrata, puramentesubjetiva, que não atenta contra sua integridade; seu coração bate, ela conhece a dor da ausência, as angústias da presença, o despeito, a esperança, orancor, o entusiasmo, mas sem consequências; nada de si mesma se acha empenhado. É engraçado constatar que o ídolo escolhido é tanto maisbrilhante quanto mais distante estiver: é útil que o professor de piano com quem ela se encontra cotidianamente seja ridículo e feio; mas se se apaixonapor um estranho que se movimenta em esferas inacessíveis, prefere-o belo e macho. O importante é que, de uma maneira ou de outra, a questão sexualnão se coloque. Esses amores de imaginação prolongam e confirmam a atitude narcisista em que o erotismo só aparece em sua imanência, sem apresença real do Outro. É porque encontra um álibi, que lhe permite esquivar-se das experiências concretas, que muitas vezes a adolescentedesenvolve uma vida imaginária de extraordinária intensidade. Ela escolhe confundir seus fantasmas com a realidade. Entre outros exemplos, H.Deutsch298 relata um muito significativo: é o de uma jovem bonita e sedutora que teria podido ser facilmente cortejada e que se recusava a qualquerrelação com os jovens de seu meio; entretanto, no segredo de seu coração, tinha, aos 13 anos, decidido render culto a um rapaz de 17, mais ou menossem encantos e que nunca lhe endereçara uma palavra. Obteve uma fotografia dele, dedicou-a a si mesma, e durante três anos redigiu um diário emque relatava suas experiências imaginárias: trocavam beijos e abraços apaixonados; havia, às vezes, entre eles, cenas de lágrimas que lhe deixavam osolhos realmente vermelhos e inchados; depois se reconciliavam, ela mandava flores a si mesma etc. Quando uma mudança de residência a separou dele,ela lhe escreveu cartas, que nunca lhe enviou, mas a que ela mesma respondia. Essa história era, evidentemente, uma defesa contra experiências reaisde que tinha medo.Esse caso é quase patológico. Mas ilustra, de modo exagerado, um processo comum. Vemos em Maria Bashkirtseff um exemplo surpreendente de vidasentimental imaginária. Nunca falou com o duque de H., por quem acha estar apaixonada. O que almeja na verdade é a exaltação de seu eu; mas sendomulher, e principalmente na época e na classe a que pertencia, não podia alcançar êxitos por meio de uma existência autônoma. Com a idade de 18anos ela anota lucidamente: “Escrevo a C. que gostaria de ser um homem. Sei que poderia tornar-me alguém; mas com saias aonde se quer chegar? Ocasamento é a única carreira para as mulheres; os homens têm 36 possibilidades, a mulher uma só; o zero, como na roleta.” Ela precisa, portanto, doamor de um homem; mas, para que este seja capaz de lhe conferir um valor soberano, deve ser ele próprio consciência soberana. “Nunca um homemabaixo de minha posição poderia agradar-me, escreve. Um homem rico, independente, traz consigo o orgulho e certo aspecto confortável. A segurançatem certo ar vitorioso. Gosto em H. dessa atitude caprichosa, pretensiosa e cruel; tem algo de Nero.” E mais ainda: “Esse aniquilamento da mulherdiante da superioridade do homem amado deve ser o maior gozo de amor-próprio que pode uma mulher superior experimentar.” Assim, o narcisismoconduz ao masoquismo: essa ligação já se encontrava na criança sonhando com Barba Azul, Grisélides, as santas mártires. O eu é constituído comopara outrem, por outrem: quanto mais poderoso é esse outrem tanto mais o eu tem riquezas e poderes; cativando seu senhor, ele envolve em si todas asvirtudes que aquele detém; amada por Nero, Maria Bashkirtseff seria Nero; aniquilar-se diante de outrem, é realizar outrem em si e para si ao mesmotempo; em verdade, esse sonho do nada é uma orgulhosa vontade de ser. Na verdade Maria Bashkirtseff jamais encontrou homem maravilhoso obastante para que aceitasse alienar-se através dele. Uma coisa é ajoelhar-se diante de um deus forjado por si mesma e que permanece distante, e outraentregar-se a um macho de carne e osso. Muitas moças obstinam-se durante muito tempo a continuar seu sonho através do mundo real: procuram umhomem que lhes pareça superior a todos os outros pela posição, o mérito, a inteligência; querem-no mais velho do que elas, tendo já conquistado umlugar na Terra, gozando de autoridade e prestígio. A fortuna e a celebridade as fascinam: o eleito apresenta-se como o Sujeito absoluto que pelo amorlhes comunicará seu esplendor e sua necessidade. Sua superioridade idealiza o amor que a jovem lhe dedica: não é porque ele é homem que ela desejaunir-se a ele, é por esse ser de elite. “Eu quisera gigantes e só encontro homens”, dizia-me outrora uma amiga. Em nome dessas grandes exigências, ajovem desdenha pretendentes demasiado cotidianos e foge dos problemas da sexualidade. Ela adora também, em seus sonhos, sem riscos, uma imagemde si própria que a encanta enquanto imagem, embora não consinta em absoluto adaptar-se a ela. Assim, Marie Le Hardouin299 conta que se compraziaem se ver como vítima, inteiramente dedicada a um homem, quando na verdade era autoritária. Por uma espécie de pudor nunca pude exprimir na realidade essas tendências o cultas de minha natureza, que tanto vivi em sonho. Tal como aprendi a me conhecer, sou efetivamente autoritária, violenta, incapaz, no fundo, de me dobrar. Obedecendo sempre a uma necessidade de me abolir, eu me imaginava por vezes que era uma mulher admirável, vivendo somente pelo dever e amorosa até a imbecilidade de um homem a cujos menores desejos me esforçava por atender. Debatíamo-nos em meio a uma existência desagradável. Ele matava-se de trabalho e voltava à noite pálido e em desalinho. Eu gastava meus olhos perto de uma janela sem luz a consertar-lhe as roupas. Numa estreita cozinha enfumaçada arranjava-lhe alguns pratos miseráveis. A doença ameaçava de morte, sem cessar, nosso único filho. Entretanto, um sorriso crucificado de doçura palpitava sempre em meus lábios, e sempre viam em meus olhos essa expressão insuportável de coragem silenciosa que nunca pude suportar sem repugnância na realidade. Além dessas complacências narcisistas, certas moças experimentam mais concretamente a necessidade de um guia, de um senhor. No momento em queescapam ao domínio dos pais, sentem-se inteiramente embaraçadas com uma autonomia a que não foram habituadas; quase não sabem, em geral, usá-la senão negativamente, caem no capricho e na extravagância, aspiram a abdicar novamente de sua liberdade. A história da jovem caprichosaorgulhosa, rebelde, insuportável, e que é amorosamente domada por um homem sensato é um lugar-comum da literatura barata e do cinema: é um
clichê que lisonjeia ao mesmo tempo os homens e as mulheres. É a história que conta, entre outras, Mme de Ségur em Quel amour d’enfant!.Decepcionada em criança por um pai demasiado indulgente, Gisele apegou-se a uma velha tia severa; moça, sofre a ascendência de um rapazrabugento, Julien, que lhe diz duras verdades, que a humilha e tenta corrigi-la; ela se casa com um duque rico e sem caráter com quem é muito infeliz,e quando, viúva, aceita o amor exigente de seu mentor, é que encontra enfim alegria e sossego. Em Good Wives, de Louisa Alcott, a independente Joecomeça a gostar de seu futuro marido porque ele lhe censura severamente uma leviandade cometida; ele a repreende também e ela se apressa em sedesculpar, em se submeter. Apesar do orgulho crispado das mulheres norte-americanas, os filmes de Hollywood nos apresentaram, cem vezes, meninasinsuportáveis domadas pela brutalidade sadia de um namorado ou de um marido: um par de bofetões, umas boas palmadas são apresentados comomeios eficientes de sedução. Mas na realidade a passagem do amor ideal ao amor sexual não é simples. Muitas mulheres evitam cuidadosamenteaproximar-se do objeto de sua paixão, por um medo mais ou menos confessado de uma decepção. Se o herói, o gigante, o semideus responde ao amorque inspira e o transforma numa experiência real, a jovem se assusta; seu ídolo torna-se um macho de quem ela se afasta enojada. Há adolescentescoquetes que tudo fazem para seduzir um homem que lhes parece “interessante” ou “fascinante”, mas que paradoxalmente se irritam se ele lhesretribuiu um sentimento demasiado vivo: ele agradava porque parecia inacessível; amoroso, vulgariza-se. “É um homem como os outros.” A jovemcensura nele a decadência, vale-se do pretexto para recusar os contatos físicos que assust am sua sensibilidade virginal. Se cede a seu “Ideal”, ficainsensível nos braços dele e “acontece”, diz Stekel,300 “que jovens exaltadas se suicidem após tais cenas em que toda a construção da imaginaçãoamorosa se desmorona porque o Ideal se revela sob a forma de um “animal brutal”. É também por amor ao impossível que muitas vezes a jovem seapaixona por um homem quando ele começa a cortejar uma de suas amigas, e é também por isso que muitas vezes escolhe um homem casado. Ela éfacilmente atraída pelos don juans; sonha em submeter e dominar esse sedutor que nenhuma mulher consegue reter, acalenta a esperança detransformá-lo. Na realidade sabe que fracassará em seu empreendimento, e esta é uma das razões de sua escolha. Certas jovens mostram-se incapazesde conhecer alguma vez um amor real e completo. Durante toda a vida procurarão um ideal inacessível.É que há conflito entre o narcisismo da jovem e as experiências a que a sexualidade a destina. A mulher só se aceita como o inessencial com a condiçãode se reencontrar como o essencial em sua abdicação. Fazendo-se objeto, ei-la que se torna um ídolo em que se reconhece orgulhosamente; mas elarecusa a implacável dialética que lhe determina retornar ao inessencial. Quer ser um tesouro fascinante, não uma coisa a ser possuída. Gosta deapresentar-se como um maravilhoso fetiche carregado de eflúvios mágicos, e não se encarar como uma carne que se deixa ver, apalpar, machucar: e ohomem ama a mulher como presa mas foge da ogra Deméter.Orgulhosa por captar o interesse masculino, por suscitar a admiração, o que a revolta é ser em troca aprisionada. Com a puberdade ela aprendeu avergonha, e a vergonha continua misturada a seu coquetismo e a sua vaidade; os olhares dos homens lisonjeiam-na e ferem-na ao mesmo tempo;gostaria de ser vista apenas na medida em que se mostra: os olhos são sempre demasiado penetrantes. Daí as incoerências que desnorteiam os homens:ela exibe seu decote, suas pernas e logo que as olham enrubesce, se irrita. Diverte-se provocando o macho, mas, se percebe que despertou nele odesejo, recua com aversão: o desejo masculino é uma ofensa tanto quanto uma homenagem; à medida que se sente responsável por seu encanto, emque lhe parece exercê-lo livremente, ela se encanta com suas vitórias, mas, à medida que sua carne, suas formas, seus traços são dados e suportados,deseja roubá-los a essa liberdade estranha e indiscreta que os deseja. Esse é o sentido profundo desse pudor original que interfere de maneiradesconcertante nos coquetismos mais ousados. Uma menina pode ter ousadias espantosas porque não percebe que suas iniciativas a revelam em suapassividade. Logo que o percebe, se assusta e se zanga. Nada é mais equívoco do que um olhar; ele existe à distância e graças a essa distância parecerespeitoso: mas ele se apodera matreiramente da imagem percebida. A mulher em formação debate-se nessas armadilhas. Começa a abandonar-se, maslogo se crispa e mata o desejo em si. Em seu corpo ainda incerto, a carícia é sentida ora como um prazer terno, ora como uma cócega desagradável; umbeijo comove-a primeiramente, e repentinamente a faz rir; ela faz com que, a cada complacência, suceda uma revolta; deixa-se beijar, mas limpa a bocacom afetação; sorridente e terna, torna-se subitamente irônica e hostil; faz promessas e deliberadamente as esquece. Assim é Mathilde de la Môle,seduzida pela beleza e as raras qualidades de Julien, desejosa de alcançar pelo amor um destino excepcional, mas recusando selvagemente o domíniodos sentidos e de uma consciência estranha; passa do servilismo à arrogância, da súplica ao desprezo; tudo o que dá pede imediatamente de volta.Assim é também essa “Monique”, cujo retrato Marcel Arland traçou, que confunde a inquietação com o pecado, para quem o amor é uma abdicaçãovergonhosa, cujo sangue queima mas que detesta esse ardor e só se submete rebelando-se.É exibindo uma natureza infantil e perversa que o “fruto verde” se defende contra o homem. Sob essa forma semisselvagem e semissensata, foi a jovemdescrita muitas vezes. Colette, entre outros, pintou-a em Claudine à l’école e igualmente em Blé en herbe com os traços da sedutora Vinca. Elaconserva um interesse fervoroso pelo mundo colocado à frente dela e sobre o qual reina como soberana; mas tem também curiosidade, um desejosensual e romanesco pelo homem. Vinca arranha-se nas sarças, pesca camarões, sobe nas árvores e no entanto estremece quando seu colega Phil lhetoca a mão; ela conhece a inquietação em que o corpo se faz carne e que é a primeira revelação da mulher como mulher; perturbada, começa a quererser bonita: às vezes penteia-se, maquia-se, veste-se de organdi vaporoso, diverte-se em ser coquete e em seduzir; mas como quer também existir para sie não somente para outrem, outras vezes se veste com vestidos velhos e desgraciosos, com calças que não lhe caem bem; há toda uma parte de siprópria que condena o coquetismo e o considera uma abdicação: por isso, propositadamente anda com os dedos sujos de tinta, mostra-se despenteada,desmazelada. Essas rebeliões causam-lhe um embaraço que ela sente com despeito: se aborrece com isso, enrubesce, torna-se duplamente desajeitadae fica com horror dessas tentativas frustradas de sedução. Nesse estágio, a jovem não quer mais ser criança, mas também não quer tornar-se adulta,censura em si mesma ora sua puerilidade, ora sua resignação de fêmea. Ela encontra-se em atitude de constante recusa.Esse é o traço que caracteriza a jovem e nos dá a chave da maior parte de suas condutas; não aceita o destino que a natureza e a sociedade lhedesignam; e no entanto não o repudia positivamente: acha-se interiormente dividida para entrar em luta com o mundo; limita-se a fugir da realidade oua contestá-la simbolicamente. Cada desejo seu comporta uma angústia: está ávida por entrar na posse de seu futuro, mas teme romper com o passado;almeja “ter” um homem, repugna-lhe ser sua presa. E atrás de cada temor dissimula-se um desejo: a violação causa-lhe horror, mas ela aspira àpassividade. Por isso está votada à má-fé e a todos os ardis desta; por isso está predisposta a toda espécie de obsessões negativas que traduzem aambivalência do desejo e da ansiedade.Uma das formas de contestação que se encontram mais frequentemente na adolescente é o escárnio. Estudantes, midinettes, morrem de rir contandoentre si histórias sentimentais ou escabrosas, falando de namoros, cruzando com homens na rua ou vendo namorados se beijarem; conheci colegiaisque passavam propositadamente pela alameda dos namorados no Jardim do Luxemburgo só para rir; e outras que frequentavam banhos turcos parazombar das mulheres gordas, barrigudas e de seios caídos que lá encontravam: escarnecer do corpo feminino, ridicularizar os homens, rir do amor, éuma maneira de negar a sexualidade; há nesses risos como que um desafio aos adultos, uma maneira de superar o próprio embaraço; brinca-se comimagens e palavras para destruir-lhes a magia perigosa: assim é que vi jovens de uns 14 anos morrerem de rir ao depararem com a palavra fêmur notexto latino. Com muito mais razão a jovem se vinga rindo na cara do parceiro ou com colegas quando se deixa beijar ou bolinar. Lembro-me, uma noite,em um compartimento de trem em que duas moças se deixavam acariciar, cada uma por sua vez, por um caixeiro-viajante muito feliz com a sua sorte:entre cada sessão riam histericamente, reencontrando, num ajuste de sexualidade e vergonha, as condutas da idade ingrata. Juntamente com agargalhada, as jovens apelam para a linguagem: valem-se algumas delas de um vocabulário cuja grosseria faria seus irmãos corarem; isso as perturbatanto menos quanto as expressões que usam não lhes evocam, em consequência de sua semi-ignorância, nenhuma imagem precisa; o objetivo é, aliás,apenas o de impedir que as imagens se formem, pelo menos o de as desmontar; as histórias grosseiras que as colegiais contam umas para as outrasdestinam-se muito menos a satisfazer instintos sexuais do que a negar a sexualidade: querem encará-la apenas sob um aspecto humorístico, como umaoperação mecânica e quase cirúrgica. Mas, como o riso, o emprego de uma linguagem obscena não é unicamente uma contestação: é também umdesafio aos adultos, uma espécie de sacrilégio, uma conduta deliberadamente perversa. Recusando a natureza e a sociedade, a jovem as provoca e asenfrenta mediante numerosas singularidades. Observaram-se nela muitas vezes manias alimentares: come pontas de lápis, pedaços de lacre, pauzinhos,camarões vivos, comprimidos de aspirina às dúzias, e até moscas e aranhas; conheci uma, muito bem-comportada que entretanto compunha com café evinho branco horríveis misturas que se esforçava para beber; outras vezes comia açúcar embebido de vinagre. Vi uma outra que mastigouresolutamente um vermezinho encontrado na salada. Todas as crianças se esforçam por experimentar o mundo com os olhos, as mãos, e maisintimamente com a boca e o estômago: mas na idade ingrata a menina compraz-se mais particularmente em explorá-lo no que tem de indigesto erepugnante. Muitas vezes o que é “nojento” a atrai. Uma delas, que era bonita, não raro coquete e limpa, mostrava-se realmente fascinada por tudo oque lhe parecia “sujo”: tocava em insetos, contemplava suas toalhinhas maculadas, chupava o sangue das feridas. Brincar com coisas sujas é,evidentemente, uma maneira de superar o nojo; esse sentimento assumiu grande importância no momento da puberdade; a jovem tem repugnância porseu corpo demasiado carnal, pelo sangue menstrual, pelas práticas sexuais dos adultos, pelo macho a que se destina; nega-o comprazendo-seprecisamente na familiaridade de tudo o que a enoja. “Como é preciso que sangre todos os meses, bebendo o sangue de minhas feridas provo que osangue não me amedronta. Se deverei submeter-me a uma experiência tão revoltante, por que não mastigar um vermezinho?” Essa atitude afirma-se demaneira mais nítida nas automutilações tão frequentes nessa idade. A jovem corta as coxas com navalha, queima-se com cigarros, arranha-se; para nãoir a um garden-party aborrecido, uma amiga de minha juventude abriu o pé com um golpe de machadinha, a ponto de ter de ficar de cama durante seissemanas. Essas práticas sadomasoquistas são, ao mesmo tempo, uma antecipação da experiência sexual e uma revolta contra ela; é preciso, suportandoessas provações, enrijecer-se contra toda provação possível e assim torná-las todas anódinas, inclusive a da noite nupcial. Quando põe uma lesma nopeito, quando engole um tubo de aspirina, quando se fere, a jovem desafia o futuro amante: não me infligirás nada mais odioso do que o que eu meinflijo a mim mesma. Trata-se de iniciações melancólicas e orgulhosas na aventura sexual. Destinada a ser uma presa passiva, ela reivindica sualiberdade até no fato de suportar a dor e o nojo. Quando se impõe a ferida da faca, a queimadura da brasa, protesta contra a penetração que adeflorará: protesta anulando-a. Masoquista, porquanto em sua conduta aceita a dor, ela é principalmente sádica: enquanto sujeito autônomo,atormenta, insulta, tortura essa carne dependente, essa carne condenada à submissão que detesta, sem querer entretanto distinguir-se dela. Porque elanão escolhe em todas essas conjunturas recusar autenticamente seu destino. As manias sadoma soquistas implicam uma má-fé fundamental: e se amenina a elas se entrega, é porque aceita, através das recusas, seu futuro de mulher; não mutilaria com ódio sua carne se antes não se reconhecessecomo carne. Até suas explosões de violência partem de um fundo de resignação. Quando se revolta contra o pai, contra o mundo, o rapaz entrega-se aviolências eficientes; procura briga com um camarada, bate-se, afirma-se a socos como sujeito: impõe-se ao mundo, supera-o. Mas afirmar-se, impor-seé proibido à adolescente, e é isso que põe em seu coração tanta revolta: ela não espera nem mudar o mundo, nem emergir dele; sabe-se, acredita-se, e
talvez se queira amarrada: só pode destruir; há desespero em sua cólera; durante uma noitada irritante, ela quebra copos, vidros, vasos; não é paravencer o destino; é apenas um protesto simbólico. É através de sua impotência presente que a jovem se rebela contra sua servidão futura; e suas vãsexplosões, longe de a libertarem de seus laços, não fazem muito senão recerrá-los. Violências contra si própria ou contra o universo que a cerca temsempre um caráter negativo: são mais espetaculares do que eficazes. O rapaz que escala rochedos, que briga com os companheiros, encara a dor física,os ferimentos e pancadas como uma consequência insignificante das atividades positivas a que se entrega; não as procura nem delas foge por simesmas (salvo em caso de um complexo de inferioridade que o coloca numa situação análoga à das mulheres). A jovem olha-se sofrer: busca em seupróprio coração o gosto da violência e da revolta mais do que se interessa pelos res ultados. Sua perversidade vem do fato de que permanece ancoradano universo infantil de onde não pode nem quer verdadeiramente evadir-se; debate-se na gaiola, dela não procura sair; suas atitudes são negativas,reflexivas, simbólicas. Há casos em que essa perversidade assume formas inquietantes. Numerosas jovens virgens são cleptomaníacas; a cleptomania éuma “sublimação sexual” de natureza muito equívoca; a vontade de infringir as leis, de violar um tabu, a vertigem do ato proibido e perigoso sãocertamente essenciais na ladra: mas isso tem uma dupla face. Apropriar-se de objetos sem ter o direito de fazê-lo é afirmar com arrogância suaautonomia, é pôr-se como sujeito perante as coisas roubadas e a sociedade que condena o roubo; é recusar a ordem estabelecida e desafiar os que adefendem. Mas esse desafio tem também um aspecto masoquista; a ladra é fascinada pelo risco que corre, pelo abismo em que será precipitada se apegarem; é o perigo de ser apanhada que dá ao ato de roubar um encanto tão voluptuoso; sob os olhares cheios de censura, sob a mão pousada noombro, na vergonha, ela se realizaria plena e irremediavelmente como objeto. Pegar sem ser pega, na angústia de se tornar a presa, eis o jogo perigosoda sexualidade adolescente feminina. Todas as condutas perversas e delituosas com que se depara nas jovens têm essa mesma significação. Algumasespecializam-se em enviar cartas anônimas, outras se divertem com mistificar os que a cercam; uma menina de 14 anos persuadira toda a aldeia de queuma casa era mal-assombrada. Elas gozam o mesmo tempo do exercício clandestino de seu poder, de sua desobediência, de seu desafio à sociedade, edo risco de serem desmascaradas; é um elemento tão importante em seu prazer que muitas vezes desmascaram a si próprias e se acusam de faltas oucrimes que não cometeram. Não é espantoso que a recusa em se tornar objeto conduza a se constituir em objeto: é um processo comum em todas asobsessões negativas. É num mesmo movimento que, numa paralisia histérica, a vítima receia a paralisia, a deseja e a realiza: só se cura deixando depensar nela; o mesmo ocorre com os tiques dos psicastênicos. É a profundidade de sua má-fé que faz a jovem se parecer com esses tipos de neuróticos:manias, tiques, maquinações, perversidades, encontram-se nela muitos sintomas neuróticos por causa dessa ambivalência do desejo e da angústia queassinalamos. É bastante frequente, por exemplo, que “fuja”: sai ao acaso, perambula longe da casa paterna e, ao fim de dois ou três dias, voltaespontaneamente. Não se trata de uma partida verdadeira, de uma ruptura com a família; é somente uma comédia de evasão e, muitas vezes, a jovemfica inteiramente desnorteada se lhe propõem tirá-la definitivamente de seu meio: ela quer deixá-lo sem o querer. A fuga liga-se por vezes a fantasmasde prostituição: a jovem sonha que é uma prostituta, desempenha o papel ma is ou menos timidamente; se maquia exageradamente, debruça-se à janelae deita olhares aos passantes; em certos casos abandona o lar e leva tão longe a comédia que esta acaba se confundindo com a realidade. Essascondutas traduzem muitas vezes um nojo pelo desejo sexual, um sentimento de culpa: se tenho tais pensamentos, tais apetites, não valho mais do queuma prostituta, sou uma prostituta, pensa a jovem. Por vezes, ela procura libertar-se: acabemos com isso, vamos até o fim, e quer provar a si mesmaque a sexualidade tem pouca importância, entregando-se a qualquer um. Ao mesmo tempo uma tal atitude manifesta muitas vezes hostilidade à mãe, ouporque a jovem tenha horror à austera virtude dela, ou porque suspeit a que ela tenha maus costumes; ou então exprime rancor contra o pai que semostrou por demais indiferente. Como quer que seja, nessa obsessão — como nos fantasmas de gravidez de que já falamos e que a ela, não raro, seassociam — encontra-se essa inextricável confusão da revolta e da cumplicidade, que caracteriza as vertigens psicastênicas. É de notar que em todasessas condutas a jovem não procura ultrapassar a ordem natural e social, não pretende recuar as fronteiras do possível nem operar uma transmutaçãode valores; contenta-se com manifestar sua revolta no seio de um mundo estabelecido cujas fronteiras e leis são conservadas; é essa atitude que sedefiniu muitas vezes como “demoníaca” e que implica uma trapaça fundamental: o bem é reconhecido a fim de ser escarnecido, a regra é posta a fim deser violada, o sagrado é respeitado a fim de que seja possível cometer sacrilégios. A atitude da jovem define-se essencialmente pelo fato de que, nastrevas angustiantes da má-fé, ela recusa, aceitando-o, o mundo e seu próprio destino.Entretanto, não se restringe a contestar negativamente a situação que lhe é imposta; procura também compensar as insuficiências. Se o futuro aassusta, não a satisfaz o presente; ela hesita em se tornar mulher; ela se aborrece por ser ainda uma criança; já largou o passado mas não se empenhouainda numa vida nova. Ocupa-se mas não faz nada, e porque não faz nada não tem nada, não é nada. É com comédias e mistificações que ela se esforçapor encher esse vazio. É censurad a muitas vezes por ser dissimulada, mentirosa, por inventar “histórias”. O fato é que está destinada ao segredo e àmentira. Com 16 anos uma mulher já passou por penosas provações: puberdade, regras, despertar da sexualidade, primeiras inquietações, primeirasfebres, medos, nojos, experiências equívocas, encerrou todas essas coisas no coração; aprendeu a guardar cuidadosamente seus segredos. O simplesfato de ter de esconder suas toalhinhas higiênicas, de dissimular as regras já a conduz à mentira. Na novela Old Mortality, C. A. Porter conta que, porvolta de 1900, as jovens do sul dos Estados Unidos adoeciam engolindo misturas de sal e limão para interromper as regras quando iam ao baile: tinhammedo de que os rapazes percebessem seu estado pelas olheiras, o contato das mãos, um odor talvez, e esse pensamento as transtornava. É difícildesempenhar o papel de ídolo, de fada, de princesa longínqua quando se tem entre as pernas uma toalhinha sanguinolenta; e de uma maneira maisgenérica quando se conhece a desgraça original de ser corpo. O pudor, que é uma recusa espontânea de se deixar apreender como carne, beira ahipocrisia. Mas a mentira a que se condena a adolescente consiste principalmente em que é preciso fingir ser objeto, e objeto prestigioso, quando sesente como uma existência incerta, dispersa, e que conhece seus defeitos. Maquiagens, fivelas, cintas, “soutiens reforçados” são mentiras; o própriorosto vira máscara: nele suscitam com habilidade expressões espontâneas, ou uma passividade maravilhada; nada mais espantoso do que descobrirsubitamente, no exercício de sua função feminina, uma fisionomia de que se conhece o aspecto familiar; sua transcendência se renega e imita aimanência; o olhar não mais penetra, ele reflete; o corpo não vive mais, ele espera; todos os gestos e sorrisos são apelos; desarmada, disponível, ajovem nada mais é do que uma flor que se oferece, um fruto a ser colhido. É o homem que a incita a tais enganos desejando ser enganado; depois, elese irrita, acusa. Mas para com a menina sem ardis ele só demonstra indiferença e até hostilidade. Ele só é seduzido por aquela que lhe preparaarmadilhas: oferecendo-se, é ela quem vigia a presa; sua passividade está a serviço de um empreendimento, ela faz de sua franqueza o instrumento desua força; sendo-lhe proibido atacar francamente, fica restrita às manobras e aos cálculos; e seu interesse consiste em parecer se dar gratuitamente;por isso a censuram por ser pérfida e traiçoeira: é verdade. Mas é verdade que é obrigada a oferecer ao homem o mito de sua submissão, pois ele querdominar. E pode-se exigir que ela abafe então suas reivindicações mais essenciais? Sua complacência só poderia ser pervertida desde a origem. Aliás,não é apenas mediante artifício calculado que ela trapaceia. Pelo fato de todos os caminhos lhe serem impedidos, de não poder fazer, de ter que ser,uma maldição pesa sobre ela. Quando criança, ela brincava de ser dançarina, de santa; mais tarde brinca de ser ela própria. O que é, ao certo, averdade? No universo em que se acha encerrada, é uma palavra sem sentido. A verdade é a realidade desvendada, e essa revelação se opera através deatos: mas ela não age. Os romances que conta sobre si mesma, e que não raro conta também a outrem, parecem traduzir melhor as possibilidades quesente em si do que o medíocre relato de sua vida cotidiana. Ela não tem os meios de apreender sua medida: consola-se disso com comédias; constrói umpersonagem ao qual procura dar importância; tenta singularizar-se através de extravagâncias porque não lhe é permitido individualizar-se ematividades definidas. Sabe-se s em responsabilidade, insignificante num mundo de homens: é por não ter nada de sério a fazer que “inventa histórias”.Electra, de Giraudoux, é uma mulher cheia de histórias, porque é a Orestes somente que é permitido realizar um homicídio com uma espada deverdade. Como a criança, a jovem consome-se em cenas e cóleras, torna-se doente, tem perturbações histéricas a fim de chamar a atenção, de seralguém importante. É para ter importância que ela intervém no destino de outrem; qualquer arma lhe serve; revela segredos, inventa-os, trai, calunia;precisa de tragédia em torno de si para se sentir viva, posto que não encontra socorro em sua própria vida. Por essa mesma razão é que é caprichosa;os fantasmas que criamos, as imagens com que nos embalamos são contraditórias; só a ação unifica a diversidade do tempo. A jovem não tem umavontade verdadeira e sim desejos, e salta de um a outro com incoerência. O que torna suas inconsequências por vezes perigosas é que, a cadamomento, empenhando-se apenas em sonho, ela se empenha por inteiro. Situa-se num plano de intransigência, de exigência: tem o gosto do definitivo,do absoluto: na impossibilidade de dispor do futuro, quer atingir o eterno. “Não abdicarei nunca. Desejarei sempre tudo. Tenho necessidade de preferirminha vida para aceitá-la”, escreve Marie Lenéru. E tais palavras encontram eco na Antígona de Anouilh: “Quero tudo, imediatamente.” Esseimperialismo infantil só pode ser encontrado num indivíduo que sonha seu destino: o sonho abole o tempo e os obstáculos, precisa exasperar-se paracompensar sua diminuta realidade; quem quer que tenha verdadeiros projetos conhece uma finitude que é o penhor de seu poder concreto. A jovemquer receber tudo porque nada depende dela. Daí seu caráter de “criança endiabrada” em face dos adultos e do homem em particular. Ela não admiteas limitações que a inserção no mundo real impõem ao indivíduo; desafia-o a superá-las. Assim é que Hilde301 espera que Solness lhe dê um reino: nãocabe a ela conquistá-lo, por isso o quer sem fronteiras; ela exige dele que construa a torre mais alta do mundo “e que suba tão alto quanto o queconstrói”: ele hesita em subir, tem medo da vertigem; ela, que fica no solo e o contempla, nega a contingência e a fraqueza humana, não aceita que arealidade imponha um limite a seus sonhos de grandeza. Os adultos parecem sempre mesquinhos e prudentes a quem não recua diante de nenhumrisco pelo fato de nada arriscar; permitindo-se em sonho as mais extraordinárias audácias, desafia-os a se igualarem a ela na verdade. Não tendooportunidade de se pôr à prova, enfeita-se com as mais espantosas virtudes sem receio de ser desmentida.Entretanto, é também dessa ausência de controle que nasce sua incerteza; ela sonha que é infinita; nem por isso é menos alienada no personagem queoferece à admiração de outrem; ele depende dessas consciências estranhas; ela está em perigo nesse duplo que identifica a si mesma mas cujapresença suporta passivamente. Eis por que é suscetível e vaidosa. A menor crítica, uma zombaria põem-na totalmente em xeque. Não é de seu próprioesforço, é de uma aprovação caprichosa que ela extrai seu valor. Este não é definido por atividades singulares e sim constituído pela voz geral dareputação; ela parece, portanto, quantitativamente mensurável; o preço de uma mercadoria diminui quando esta se torna demasiadamente comum: domesmo modo uma jovem só é rara, excepcional, notável, extraordinária se nenhuma outra o é. Suas companheiras são rivais, inimigas; ela procuradesvalorizá-las, negá-las; é ciumenta e maldosa.Vê-se que todos os defeitos censurados na adolescente apenas exprimem sua situação. É uma condição penosa saber-se passiva e dependente na idadeda esperança e da ambição, na idade em que se exalta a vontade de viver e de conseguir um lugar na Terra; é nessa idade conquistadora que a mulheraprende que nenhuma conquista lhe é permitida, que deve renegar-se, que seu futuro depende do bel-prazer dos homens. No plano social, como noplano sexual, novas aspirações nela só despertam para permanecerem insatisfeitas; todos os seus impulsos de ordem vital ou espiritual sãoimediatamente freados. Compreende-se que tenha dificuldade em restabelecer seu equilíbrio. Seu humor instável, suas lágrimas, suas crises nervosassão menos a consequência de uma fragilidade fisiológica do que o sinal de sua profunda inadaptação.
Entretanto, acontece que a jovem assuma autenticamente essa situação da qual foge por mil caminhos inautênticos. Ela aborrece por seus defeitos, masespanta por vezes pelas suas qualidades singulares. Uns e outras têm a mesma origem. De sua recusa do mundo, de sua espera inquieta, de seu vazio,pode ela fazer um trampolim e emergir então em sua solidão e sua liberdade.A jovem é secreta, atormentada, presa de conflitos difíceis. Essa complexidade enriquece-a; sua vida interior desenvolve-se mais profundamente que ade seus irmãos; mostra-se mais atenta aos movimentos de seu coração, que assim se tornam mais matizados, mais diversos; tem mais sentidopsicológico do que os rapazes voltados para objetivos exteriores. É capaz de dar peso a essas revoltas que a opõem ao mundo. Evita as armadilhas daseriedade e do conformismo. As mentiras convencionais de seu meio encontram-na irônica e clarividente. Ela põe à prova cotidianamente aambiguidade de sua condição: para além dos protestos estéreis pode ter a coragem de questionar novamente o otimismo estabelecido, os valores jáprontos, a moral hipócrita e tranquilizadora. Esse é o exemplo comovente que, no Moinho à beira do Floss, apresenta essa Maggie em que George Eliotreencarnou as dúvidas e as corajosas revoltas de sua mocidade contra a Inglaterra vitoriana; os heróis — e em particular Tom, irmão de Maggie —afirmam com obstinação os princípios aceitos, petrificam a moral em regras formais: Maggie tenta reintroduzir nisso tudo um sopro de vida, derruba-os, vai ao fundo de sua solidão e emerge como uma liberdade pura para além do universo esclerosado dos homens.Dessa liberdade, a adolescente só sabe, por assim dizer, tirar um proveito negativo. Entretanto, sua disponibilidade pode engendrar uma faculdade dereceptividade preciosa. Ela se mostrará então dedicada, atenta, compreensiva, amorosa. É por essa generosidade dócil que se distinguem as heroínasde Rosamond Lehman. Em Invitation à la Valse, vê-se Olivia, ainda tímida e desajeitada, pouco coquete, observar com curiosidade comovida essemundo em que entrará amanhã. Escuta atentamente os dançarinos que se sucedem junto dela, esforça-se por dar-lhes respostas que os satisfaçam, faz-se eco, vibra, acolhe tudo o que se oferece. A heroína de Poussière, Judy, tem a mesma qualidade atraente. Não renegou as alegrias da infância; gostade banhar-se nua, à noite, no regato do parque; ama a natureza, os livros, a beleza, a vida; não rende a si mesma um culto narcisista; sem mentira, semegoísmo, não procura uma exaltação de seu eu através dos homens: seu amor é dom. Dedica-o a todo ser que a seduz, homem ou mulher, Jennifer ouRody. Dá-se sem se perder: leva uma vida de estudante independente, tem seu mundo próprio, seus projetos. Mas o que a distingue de um rapaz é suaatitude de espera, sua terna docilidade. De uma maneira sutil, é, apesar de tudo, ao Outro que se destina: o Outro tem a seus olhos uma dimensãomaravilhosa, a ponto de se estar apaixonada, ao mesmo tempo, por todos os rapazes da família vizinha, pela casa, pela irmã, pelo universo deles; não écomo colega, é como Outro que Jennifer sente-se fascinada. E ela encanta Rody e os primos pela sua aptidão a submeter-se a eles, a moldar-se segundoos desejos deles: ela é paciência, doçura, aceitação e silencioso sofrimento.Diferente, mas cativante também por sua maneira de acolher em seu coração as pessoas a quem ama, é como se nos apresenta Tessa em Ninfa decoração fiel, de Margaret Kennedy: a um tempo espontânea, arisca e dada. Recusa-se a abdicar do que quer qu e seja de si mesma: adornos,cosméticos, fantasias, hipocrisia, graças aprendidas, prudência e submissão de fêmea repugnam-lhe; deseja ser amada, mas não sob uma máscara;sujeita-se aos desejos de Lewis, mas sem servilismo; compreende-o, vibra com ele, mas, se acontece de brigarem, Lewis sabe que não é com caríciasque poderá submetê-la. Enquanto Florence, autoritária e vaidosa, se deixa vencer por beijos, Tessa consegue o prodígio de permanecer livre em seuamor, o que lhe permite amar sem hostilidade nem orgulho. Sua naturalidade tem todas as seduções do artifício; para agradar não se mutila nunca, nãose diminui, não se imobiliza em objeto. Cercada de artistas que empenharam toda a existência na criação musical, não sente em si esse demôniodevorador; dedica-se inteiramente a amá-los, compreendê-los, ajudá-los: faz isso sem esforço, por uma generosidade terna e espontânea, e é por issoque permanece perfeitamente autônoma até nos momentos em que se esquece de si mesma em favor de outrem. Graças a essa pura autenticidade, osconflitos da adolescência lhe são poupados: pode sofrer com a dureza do mundo, não se acha dividida no interior de si mesma; é harmoniosa como umacriança despreocupada e como uma mulher muito sábia. A jovem sensível e generosa, receptiva e ardente, está absolutamente preparada para se tornaruma grande amorosa.Quando não encontra o amor, encontra a poesia. Como não age, ela olha, sente, registra; uma cor, um sorriso encontram nela ecos profundos; porque éfora de si, nas cidades já construídas, no rosto dos homens feitos que se espalha seu destino; ela apalpa, aprecia de uma maneira a um tempoapaixonada e mais gratuita do que o rapaz. Mal integrada no universo humano, tendo dificuldade em se adaptar a ele, ela é, como a criança, capaz devê-lo; em lugar de se interessar somente pelo domínio sobre as coisas, esforça-se por compreendê-las; apreende-lhes os perfis singulares, asmetamorfoses imprevistas. É raro que sinta uma audácia criadora e muitas vezes carece das técnicas que lhe permitiriam exprimir-se; mas nas suasconversas, nas suas cartas, seus ensaios literários, seus esboços, manifesta uma sensibilidade original. A jovem atira-se com ardor às coisas porqueainda não está mutilada em sua transcendência, e o fato de não realizar nada, de não ser nada, tornará seu impulso ainda mais apaixonado. Vazia eilimitada, é Tudo que ela procurará atingir do fundo de seu nada. Eis por que dedicará um amor especial à Natureza: mais ainda do que o adolescente,ela lhe rende um culto. Indomada, inumana, é a natureza que resume com mais evidência a totalidade do que é. A adolescente não se anexou ainda anenhuma parcela do Universo: graças a essa carência, ele é por inteiro seu reino; quando toma posse dele, toma também orgulhosamente posse de simesma. Colette302 descreveu-nos muitas vezes essas orgias juvenis: Pois já gostava tanto da alvorada que minha mãe a concedia para mim como recompensa. Conseguia que me acordasse às três e meia e eu partia, com um cesto vazio em cada braço, para o lado das hortas que se refugiavam na curva estreita do riacho, à cata de morangos, cassis e groselhas peludas. Às três e meia tudo dormia em um azul original, úmido e confuso, e quando eu descia o caminho arenoso, a névoa retida pelo próprio peso banhava-me primeiramente as pernas, em seguida meu tronco bem-feito, atingindo meus lábios, minhas orelhas e minhas narinas, mais sensíveis do que o restante do corpo... Nesse caminho, nessa hora é que eu tomava consciência de meu valor, de um estado de graça indizível e de minha conivência com o primeiro sopro que surgia, o primeiro pássaro, o sol ainda oval, deformado pela sua eclosão... Voltava ao ouvir o sino da primeira missa. Mas não antes de ter comido à farta, não antes de ter traçado no bosque um grande circuito de cão que caça sozinho e ter saboreado a água de duas nascentes perdidas que eu venerava... Mary Webb descreve-nos também em Peso das sombras as alegrias ardentes que uma jovem pode conhecer na intimidade de uma paisagem familiar: Quando a atmosfera do lar se tornava muito carregada, os nervos de Ambre crispavam-se até quase rebentar. Nesses momentos ela ia até o bosque pela colina. Parecia-lhe então que, enquanto a gente de Dormer vivia sob a férula da lei, a floresta só vivia de impulsos. Ao contemplar a beleza da natureza, ela chegou a uma percepção particular da beleza. Pôs-se a ver analogias; a natureza não era mais um conjunto fortuito de pormenores e sim uma harmonia, um poema austero e majestoso. A beleza nela reinava, uma luz brilhava, que não era a da flor nem a da estrela... Um tremor leve, misterioso e avassalador parecia correr como a luz através de toda a floresta... Os passeios de Ambre nesse mundo de vegetação tinham algo de um rito religioso. Uma manhã em que tudo estava calmo, ela subiu ao Pomar dos Pássaros. Era o que fazia frequentemente antes que começasse o dia cheio de irritações mesquinhas... tirava algum consolo da absurda inconsequência do mundo dos pássaros... Chegou enfim ao coração da floresta e logo se sentiu em luta com a beleza. Havia literalmente para ela nessas conversas com a natureza algo de uma batalha, alguma coisa daquele humor que assim falou: “Não te deixarei partir enquanto não me tiveres abençoado...” Como se apoiasse ao tronco de uma macieira selvagem, subitamente, tomou consciência, por essa espécie de audição interior, da subida da seiva, tão viva e tão forte que a imaginava roncando como a maré. Depois um arrepio de vento passou sobre a copa florida da árvore e ela despertou de novo para a realidade dos sons, os discursos estranhos das folhas... Cada pétala, cada folha parecia cantarolar uma música, que lembrava também as profundezas de onde jorrara. Cada uma das flores levemente estufadas lhe parecia cheia de ecos graves demais para sua fragilidade... Do alto das colinas veio uma lufada de ar perfumado que deslizou por entre os galhos. As coisas que tinham forma e conheciam a mortalidade das formas tremeram ante essa coisa que passava, sem forma e inexprimível. Por causa dela, a floresta não era mais um simples agrupamento, mas um conjunto glorioso como uma constelação... Ela se possuía a si mesma numa existência contínua e imutável. Era isso que atraía Ambre, tomada de uma curiosidade que a fazia prender a respiração, nesses lugares assombrados pela natureza. Era o que a imobilizava agora num êxtase singular... Mulheres tão diferentes como Emily Brontë e Anna de Noailles conheceram em sua juventude semelhantes fervores — e os prolongaram em seguidadurante a vida.Os textos que citei mostram bem o socorro que a adolescente encontra nos campos e nos bosques. Na casa paterna reinam a mãe, as leis, o costume, arotina, e ela quer se livrar desse passado; quer tornar-se por sua vez um sujeito soberano: mas socialmente só atinge a vida adulta fazendo-se mulher;paga sua libertação com uma abdicação, ao passo que no meio das plantas e dos animais ela é um ser humano; libertou-se ao mesmo tempo da família edos homens, é um sujeito, uma liberdade. Encontra no segredo das florestas uma imagem da solidão de sua alma e nos vastos horizontes das planícies afigura sensível de sua transcendência; é ela mesma a charneca ilimitada, o pico voltado para o céu. Ela pode seguir essas estradas que partem para ofuturo desconhecido, ela as seguirá; sentada no alto da colina, domina todas as riquezas do mundo jogadas a seus pés, oferecidas. Através daspalpitações da água, do frêmito da luz, pressente alegrias, lágrimas, êxtases que ainda ignora; são as aventuras de seu próprio coração queconfusamente lhe prometem as ondulações da água, as manchas de sol. Odores e cores falam uma linguagem misteriosa, mas da qual se destaca comtriunfante evidência uma palavra: a palavra “vida”. A existência não é somente um destino abstrato que se inscreve nos registros civis, é futuro eriqueza carnal. Ter um corpo não surge mais como um defeito vergonhoso; nesses desejos que repudia ante o olhar materno, a adolescente reconhece aseiva que sobe nas árvores; não é mais maldita, reivindica orgulhosamente seu parentesco com as folhagens e as flores; amassa uma corola, e sabe queuma presa viva encherá um dia suas mãos vazias. A carne não é mais impureza: é alegria e beleza. Confundida com o céu e a planície, a jovem é essesopro indistinto que anima e abrasa o Universo, ela é cada raminho de urze; indivíduo arraigado ao solo e consciência infinita, ela é a um tempo espíritoe vida; sua presença é imperiosa e triunfante como a da própria terra.Para além da Natureza, ela busca por vezes uma realidade mais longínqua e mais deslumbrante ainda; está disposta a perder-se em êxtases místicos;nas épocas de fé, numerosas jovens almas femininas pediam a Deus que enchesse o vazio de seu ser; foi muito cedo que se revelou a vocação deCatarina de Siena, de Teresa d’Ávila.303 Joana d’Arc era uma moça. Noutros tempos, é a humanidade que aparece como fim supremo; então o impulsomístico funde-se em projetos definidos; mas foi também um jovem desejo de absoluto que fez nascer em Mme Roland, em Rosa Luxemburgo, a chama
que alimentou suas vidas. Em sua servidão, em sua carência, do fundo de sua recusa, a jovem pode tirar as maiores audácias. Ela encontra a poesia;encontra também o heroísmo. Uma das maneiras de assumir o fato de que está mal integrada na sociedade é ultrapassar os seus horizontesmesquinhos.A riqueza e a força de sua natureza, circunstâncias felizes, permitiram a algumas mulheres perpetuarem em sua vida de adulto os projetos apaixonadosde sua adolescência. Mas trata-se de exceções. Não é sem razão que George Eliot faz morrer Maggie Tulliver, e Margaret Kennedy faz o mesmo comTessa. Áspero destino conheceram as irmãs Brontë. A jovem é patética porque se ergue, frágil e só, contra o mundo; mas o mundo é poderoso demais;se ela se obstina em o recusar, é quebrada. Belle de Zuylen, que deslumbrava a Europa pela força cáustica e a originalidade de seu espírito, assustavatodos os pretendentes: sua recusa a quaisquer concessões condenou-a durante longos anos a um celibato que lhe pesava, pois declarava que aexpressão “virgem e mártir” é um pleonasmo. Essa obstinação é rara. Na imensa maioria dos casos a jovem se dá conta de que o combate é por demaisdesigual e acaba cedendo. “Vocês morrem todas aos 15 anos”, escreve Diderot a Sophie Volland. Quando o combate não passou — como acontece omais das vezes — de uma revolta simbólica, a derrota é certa. Exigente em sonho, cheia de esperança mas passiva, a jovem faz os adultos sorrirem comum pouco de piedade. Eles a destinam à resignação. E, com efeito, a criança rebelde e barroca que haviam deixado, é encontrada dois anos mais tarderecatada, disposta a consentir com sua vida de mulher. É o futuro que Colette prediz para Vinca; assim aparecem as heroínas dos primeiros romancesde Mauriac. A crise da adolescência é uma espécie de “trabalho”, análogo ao que o dr. Lagache chama “trabalho do luto”. A jovem enterra lentamentesua infância, o indivíduo autônomo e imperioso que foi; e entra submissa na existência adulta. Naturalmente não se pode estabelecer somente pela idade categorias bem nítidas. Há mulheres que permanecem infantis durante toda a vida; oscomportamentos que descrevemos perpetuam-se por vezes até uma idade avançada. Entretanto há, no conjunto, uma grande diferença entre o “broto”de 15 anos e uma “moça feita”. Esta está adaptada à realidade. Quase não se move mais no plano do imaginário; é menos dividida em si mesma do queantes. Maria Bashkirtseff escreve, por volta dos 18 anos: Quanto mais avanço para a velhice de minha mocidade, mais me cubro de indiferença. Poucas coisas me agitam e tudo me agitava. Irene Reweliotty anota: Para ser aceita pelos homens é preciso pensar e agir como eles, sem o quê eles nos tratam como ovelha negra e a solidão se torna o nosso quinhão. E eu, agora, estou farta da solidão, quero gente, não apenas ao redor de mim, mas comigo... Viver agora, e não mais existir e esperar, e sonhar o tudo contar a si mesma de boca fechada e corpo imóvel. E mais adiante: De tanto ser lisonjeada, cortejada etc., estou me tornando terrivelmente ambiciosa. Não é mais a felicidade, temerosa, maravilhada de meus 15 anos. É uma espécie de embriaguez fria e dura de me vingar da vida, de subir. Namoro, brinco de amar. Não amo... Ganho em inteligência, sangue-frio, lucidez habitual. Perco meu coração. Foi como uma rachadura... Em dois meses abandonei minha infância. É mais ou menos o mesmo tom destas confidências de uma jovem de 19 anos:304 Outrora ah! que conflito entre uma mentalidade que parecia incompatível com esse século e os apelos do próprio século! Agora tenho a impressão de um sossego. Cada nova grande ideia que entra em mim, em lugar de provocar um desmoronamento penoso, uma destruição e uma reconstrução incessante, vem adaptar-se maravilhosamente ao que já está em mim... Agora, passo insensivelmente dos pensamentos teóricos à vida corrente sem solução de continuidade. A jovem, a não ser que seja particularmente desgraciosa, acabou por aceitar sua feminilidade; e não raro ela se sente feliz por gozar gratuitamente dosprazeres, dos triunfos que disso tira, antes de se instalar definitivamente em seu destino. Não sendo ainda exigida por nenhum dever, irresponsável,disponível, o presente não lhe parece entretanto nem vazio nem decepcionante, porque não passa de uma etapa; a elegância e o namoro têm ainda aleveza de um jogo, e seus sonhos de futuro mascaram-lhe a futilidade. Assim é que V. Woolf descreve, em As vagas, impressões de uma jovem coquetedurante uma festa: Sinto-me toda brilhante na escuridão. Minhas pernas sedosas esfregam-se docemente uma na outra. As pedras frias de um colar repousam no meu colo. Estou enfeitada, estou pronta... Meus cabelos têm a ondulação que devem ter, meus lábios são tão vermelhos quanto eu quero. Estou preparada para juntar-me a esses homens e essas mulheres que sobem a escada. São meus pares. Passo diante deles, exposta aos seus olhares como eles estão aos meus... Nessa atmosfera de perfumes, de luzes, desabrocho como uma avenca que exibe suas folhas crespas... Sinto mil possibilidades nascerem em mim. Sou respectivamente travessa, alegre, langorosa, melancólica. Flutuo acima de minhas raízes profundas. Inclinada para a direita, toda dourada, digo a esse rapaz: “Aproxime-se”... Ele vem. Ele se aproxima, vem para meu lado. É o momento mais excitante que jamais vivi. Tremo, ondulo... Não estamos encantadores sentados juntos, eu vestida de cetim e ele todo de preto e branco? Meus pares, quem quer que sejam, homens ou mulheres, podem encarar-me agora. Devolvo seus olhares, sou uma de vocês. Estou aqui, no meu universo... A porta abre-se. A porta abre-se sem parar. Na próxima vez que se abrir talvez minha vida inteira mude por completo... A porta abre-se. “Aproxime-se”, digo ao jovem inclinando-me para ele como uma grande flor de ouro. “Aproxime-se”, lhe digo, e ele vem a mim. Entretanto, quanto mais a jovem amadurece, mais a autoridade materna lhe pesa. Se leva, em casa, uma vida doméstica, sofre por não passar de umaassistente, gostaria de consagrar seu trabalho a seu próprio lar, a seus próprios filhos. Muitas vezes a rivalidade com a mãe a exaspera: umaprimogênita em particular irrita-se se nascem ainda jovens irmãos ou irmãs; ela considera que a mãe já “teve sua vez”. Cabe agora a ela engendrar,reinar. Se trabalha fora de casa, sofre quando volta para o lar por ser ainda tratada como um simples membro da família e não como um indivíduoautônomo.Menos romanesca do que outrora, começa a pensar muito mais no casamento do que no amor. Não envolve mais seu futuro esposo numa auréolaprestigiosa: o que almeja é ter neste mundo uma situação estável, começar a viver sua vida de mulher. Virgínia Woolf assim descreve as fantasias deuma camponesa rica e jovem: Dentro em pouco, na hora quente de meio-dia em que as abelhas zunem em torno da madressilva, meu bem-amado virá. Não dirá mais do que uma palavra e só uma palavra lhe responderei. Darei a ele tudo o que cresceu em mim. Terei filhos, terei criadas de avental e operárias carregando tochas. Terei uma cozinha para onde trarão, dentro de cestos, cordeiros doentes a fim de serem aquecidos, onde haverá presuntos pendurados às vigas e onde brilharão rosários de cebolas. Serei como minha mãe, silenciosa, com um avental azul e tendo na mão as chaves dos armários.305Sonho semelhante tem a pobre Prue Sarn:306 Pensava que nunca se casar fosse um destino horrível. Todas as moças se casam. E quando uma moça se casa, tem um lar e talvez uma lâmpada que acende à noite, na hora em que seu homem chega; se tem apenas velas dá na mesma, pois pode colocá-las perto da janela; então ele diz para si mesmo: “Minha mulher está em casa, acendeu as velas.” E chega um dia em que Mrs. Beguildy lhe confecciona um berço de vime; e depois vê-se nele um bebê belo e grave, e mandam-se convites para o batizado; e os vizinhos acorrem para perto da mãe como as abelhas para junto da rainha. Muitas vezes quando as coisas iam mal eu me dizia: “Não faz mal, Prue Sarn, um dia serás rainha em tua própria colmeia.” Para a maioria das jovens — tenham elas uma vida laboriosa ou frívola, estejam confinadas ao lar paterno ou dele se evadam parcialmente — aconquista de um marido — ou, a rigor, a de um amante sério — torna-se um empreendimento cada dia mais urgente. Essa preocupação é muitas vezesnefasta às amizades femininas. A “amiga íntima” perde seu lugar privilegiado. A jovem vê, em suas companheiras, antes cúmplices do que rivais.Conheci uma, inteligente e bem-dotada, mas que resolvera imaginar-se a “princesa distante”: era assim que se descrevia em poemas e ensaiosliterários; confessava sinceramente que não conservava nenhum apego a suas amigas de infância: feias e tolas, elas lhe desagradavam; sedutoras, elaas temia. A espera impaciente do homem que implica não raro manobras, ardis e humilhações fecha o horizonte da jovem; ela se torna egoísta e dura. E
se o príncipe encantado tarda a surgir, nascem o desgosto e a amargura.A personalidade e os comportamentos da jovem exprimem sua situação: se esta se modifica, a figura da adolescente apresenta-se também diferente.Hoje em dia, lhe é possível tomar o destino nas mãos, em vez de entregá-lo ao homem. Se está absorvida pelos estudos, os esportes, um aprendizadoprofissional, liberta-se da obsessão do homem, preocupa-se muito menos com seus conflitos sentimentais e sexuais. Entretanto, tem muito maisdificuldade do que o rapaz em se realizar como indivíduo autônomo. Já disse que nem a família nem os costumes favoreciam seu esforço. Além disso,mesmo que escolha a independência, reserva um lugar em sua vida para o homem, para o amor. Terá muitas vezes medo de falhar em seu destino demulher dedicando-se por inteira a algum empreendimento. Tal sentimento permanece inconfessado; mas está presente, perverte as vontades decididas,estabelece limites. Em todo caso, a mulher que trabalha quer conciliar seu êxito com êxitos puramente femininos; isso não exige que consagre umtempo considerável a sua elegância, a sua beleza, porém, o que é mais grave, implica que seus interesses vitais estejam divididos. À margem dosprogramas, o estudante diverte-se com jogos gratuitos de ideias e daí nascem seus melhores achados; os devaneios da mulher orientam-se de maneirainteiramente diversa: ela pensará em sua aparência física, no homem, no amor; só dará o estritamente necessário a seus estudos, a sua carreira,quando nessas áreas nada é tão necessário quanto o supérfluo. Não se trata de uma fraqueza mental, de uma incapacidade de se concentrar, e sim deuma partilha de interesses que se conciliam mal. Forma-se um círculo vicioso: espantamo-nos muitas vezes ao ver com que facilidade uma mulher podeabandonar a música, os estudos, a profissão logo que encontra um marido; é que empenhara muito pouco de si mesma em seus projetos para descobrirgrande proveito na sua realização. Tudo contribui para frear sua ambição pessoal, enquanto uma enorme pressão social a convida a encontrar nocasamento uma posição social, um a justificação. É natural que não procure criar por si mesma seu lugar neste mundo, ou que só o faça timidamente.Enquanto não houver uma perfeita igualdade econômica na sociedade e enquanto os costumes autorizarem a mulher, como esposa ou amante, aaproveitar-se dos privilégios de certos homens, o sonho de um êxito passivo continuará e ela freará suas próprias realizações.Entretanto, seja qual for a maneira pela qual a jovem encare sua existência de adulta, o aprendizado ainda não terminou. Por lentas gradações oubrutalmente, será necessário passar pela iniciação sexual. Há jovens que se recusam a isso. Se incidentes sexualmente penosos marcaram sua infância,se uma educação infeliz lentamente arraigou nelas o horror à sexualidade, conservarão sua repugnância de menina púbere em relação ao homem.Acontece também que as circunstâncias conduzam, contra sua vontade, certas mulheres a uma virgindade prolongada. Mas, na maioria dos casos, ajovem realiza, numa idade mais ou menos avançada, seu destino sexual. A maneira pela qual o enfrenta está evidentemente em estreita ligação com seupassado. Mas há também nisso uma experiência nova que se propõe em circunstâncias imprevistas e à qual ela reage livremente. É esta nova etapa quenos cumpre encarar agora.
3/A iniciação sexualEm certo sentido, a iniciação sexual da mulher, como a do homem, começa na primeira infância. Há uma aprendizagem teórica e prática que sedesenvolve de maneira contínua desde as fases oral, anal e genital até a idade adulta. Mas as experiências eróticas da jovem não são um simplesprolongamento de suas atividades sexuais anteriores; têm muitas vezes um caráter imprevisto e brutal; constituem sempre um acontecimento novo quecria uma ruptura com o passado. Todos os problemas que se apresentam à jovem acham-se resumidos de uma forma urgente e aguda no momento emque ela os vive. Em certos casos a crise tem solução fácil, mas há conjecturas trágicas em que ela só pode ser liquidada com o suicídio ou a loucura. Dequalquer forma, pela maneira como reage, a mulher empenha grande parte de seu destino. Todos os psiquiatras concordam acerca da extremaimportância que têm para ela as primeiras experiências eróticas: repercutem em toda a sua vida.A situação é, no caso, profundamente diferente para o homem e para a mulher, tanto do ponto de vista biológico como do social e do psicológico. Para ohomem, a passagem da sexualidade infantil à maturidade é relativamente simples: há objetivação do prazer erótico que, em lugar de ser realizado nasua presença imanente, é intencionado em um ser transcendente. A ereção é a expressão dessa necessidade; sexo, mãos, boca, o homem volta-se comtodo o corpo para a parceira, mas permanece no centro dessa atividade, como em geral o sujeito em face dos objetos que percebe e dos instrumentosque manipula; projeta-se para o outro sem perder sua autonomia; a carne feminina é, para o homem, uma presa e ele percebe nela as qualidades quesua sensualidade reclama de todo objeto; não consegue realmente se apropriar delas, mas abraça-as. A carícia, o beijo implicam quase um fracasso,mas esse mesmo fracasso é um estimulante e uma alegria. O ato amoroso encontra sua unidade no seu fim natural, o orgasmo. O coito tem um objetivofisiológico preciso: pela ejaculação, o macho descarrega as secreções que lhe pesam; depois do ato ele alcança um alívio que é acompanhado sempre deprazer, e certamente não era só o prazer que era visado, mesmo porque é seguido muitas vezes de decepção: houve desaparecimento da necessidademais do que satisfação. Em todo caso, um ato definido foi consumado e o homem se reencontra com um corpo íntegro: o serviço que prestou à espécieconfundiu-se com seu próprio gozo. O erotismo da mulher é muito mais complexo e reflete a complexidade da situação feminina. Vimos307 que, ao invésde integrar as forças específicas em sua vida individual, a fêmea submete-se à espécie cujos interesses se dissociam dos seus fins singulares; essaantinomia atinge o paroxismo na mulher: exprime-se, entre outras coisas, pela oposição de dois órgãos: o clitóris e a vagina. No estágio infantil oprimeiro é o centro do erotismo feminino. Alguns psiquiatras sustentam que existe uma sensibilidade vaginal em certas meninas, mas essa opinião émuito controvertida; em todo caso, teria apenas uma importância secundária. O sistema clitoridiano não se modifica na idade adulta308 e a mulherconserva durante toda a vida essa autonomia erótica; o espasmo clitoridiano é, como o orgasmo do homem, uma espécie de detumescência obtida demaneira quase mecânica, mas só indiretamente se acha ligado ao coito normal, não desempenha nenhum papel na procriação. É pela vagina que amulher é penetrada e fecundada; e a vagina se torna centro erótico pela intervenção do homem, intervenção esta que constitui sempre uma espécie deviolação. Por um rapto real ou simulado é que a mulher era outrora arrancada de seu universo infantil e jogada na sua vida de esposa; é uma violênciaque a faz passar de moça a mulher: diz-se também “tirar”309 a virgindade de uma jovem, “tomar-lhe” a flor. Essa defloração não é o fim harmônico deuma evolução contínua, é a ruptura ab-rupta com o passado, o início de um novo ciclo. O prazer é então atingido por contrações da superfície internada vagina; se terminam com um orgasmo preciso e definitivo, é ponto ainda a ser discutido. Os dados da anatomia são muito vagos. “A anatomia e aclínica provam abundantemente que a maior parte do interior da vagina não é inervada”, diz, entre outros, o relatório de Kinsey. “É possível fazernumerosas operações no interior da vagina, sem recorrer a anestésicos. Demonstrou-se, que no interior da vagina, os nervos se localizam numa zonasituada na face interna próxima à base do clitóris.” Entretanto, além da estimulação dessa zona inervada, “a mulher pode ter consciência da introduçãode um objeto na vagina particularmente se os músculos estiverem contraídos; mas a satisfação assim obtida relaciona-se provavelmente mais com otônus muscular do que com a estimulação erótica dos nervos.” Não obstante, está fora de dúvida que o prazer vaginal existe; e a masturbação vaginal— nas mulheres adultas — é mais comum do que diz Kinsey.310 Mas o que é certo é que a reação vaginal é uma reação muito complexa que se podequalificar de psicofisiológica, porque interessa não somente ao conjunto do sistema nervoso como ainda depende de toda a situação vivida pelo sujeito:exige o consentimento profundo de todo o indivíduo; o novo ciclo erótico que o primeiro coito inaugura exige, para que se estabeleça, uma espécie de“montagem” do sistema nervoso, a elaboração de uma forma que não se acha ainda esboçada e que deve envolver também o sistema clitoridiano; levamuito tempo para se realizar e por vezes não chega nunca a criar-se. É impressionante que a mulher possa escolher entre dois ciclos, sendo que umperpetua a independência juvenil enquanto o outro a destina ao homem e ao filho. O ato sexual normal põe, com efeito, a mulher na dependência domacho e da espécie. Ele — como entre quase todos os animais — é quem desempenha o papel agressivo, ao passo que ela suporta a investida.Normalmente ela pode sempre ser possuída pelo homem, ao passo que este só pode possuí-la em estado de ereção; salvo em caso de revolta tãoprofunda como o vaginismo, que sela a mulher mais seguramente do que o hímen, a recusa feminina pode ser vencida; e mesmo o vaginismo deixa aohomem meios de se satisfazer num corpo que a força muscular coloca à sua mercê. Sendo ela objeto, a inércia não lhe modifica profundamente o papelnatural: a tal ponto que muitos homens não se preocupam em saber se a mulher com quem se deita quer o coito ou se apenas se submete a ele. Pode-sedormir até com uma morta. O coito não poderia ser realizado sem o consentimento do macho, e é a sua satisfação que constitui o fim natural do ato. Afecundação pode realizar-se sem que a mulher sinta o menor prazer. Por outro lado, a fecundação está longe de representar o término do processosexual para ela; é, ao contrário, nesse momento que começa o serviço exigido da mulher pela espécie: este ocorre lentamente, penosamente, nagravidez, no parto, no aleitamento.O “destino anatômico” do homem é, pois, profundamente diferente do da mulher. Não é menos diferente a situação moral e social. A civilizaçãopatriarcal destinou a mulher à castidade; reconhece-se mais ou menos abertamente ao homem o direito de satisfazer seus desejos sexuais ao passo quea mulher é confinada no casamento: para ela, o ato carnal, não sendo santificado pelo código, pelo sacramento, é falta, queda, derrota, fraqueza; elatem o dever de defender sua virtude, sua honra; se “cede”, se “cai”, suscita o despr ezo; ao passo que até na censura que se inflige ao seu vencedor háadmiração. Desde as civilizações primitivas até os nossos dias sempre se admitiu que a cama era para a mulher um “serviço” ao qual o homemagradece com presentes ou assegurando-lhe a manutenção: mas servir é ter um senhor; não há nessa relação nenhuma reciprocidade. A estrutura docasamento, como também a existência das prostitutas, é prova disso: a mulher se dá, o homem a remunera e a possui. Nada impede o homem dedominar e possuir criaturas inferiores; os amores ancilares sempre foram tolerados, ao passo que a burguesa que se entrega a um jardineiro, a ummotorista, degrada-se socialmente. Os sulistas dos Estados Unidos, tão violentamente racistas, sempre foram autorizados pelos costumes a dormir commulheres negras, tanto antes da Guerra da Secessão como hoje em dia, e usam desse direito com uma arrogância senhorial: uma branca que tivesserelação com um negro no tempo da escravidão teria sido condenada à morte; hoje seria linchada. Para dizer que dormiu com uma mulher o homem dizque a “possuiu”, que a “teve”: inversamente para se dizer que se “teve” alguém, diz-se por vezes grosseiramente: “que a fodeu”.311 Os gregoschamavam Parthenos adamatos, virgem insubmissa, a mulher que não conhecera macho. Os romanos qualificavam Messalina de “invicta”, porquenenhum de seus amantes lhe dera prazer. Para o amante, o ato amoroso é, pois, conquista e vitória. Se em outro homem a ereção pode parecer porvezes uma paródia irrisória do ato voluntário, cada qual, entretanto, a considera em seu próprio caso com alguma vaidade. O vocabulário erótico doshomens inspira-se no vocabulário militar: o amante tem o ímpeto do soldado, seu sexo retesa-se como um arco, quando ejacula “descarrega”, é umametralhadora, um canhão; fala de ataque, de assalto, de vitória. Há em seu ato sexual um sabor de heroísmo. “Consistindo o ato gerador na ocupaçãode um ser por outro”, escreve Benda,312 “impõe por um lado a ideia de um conquistador e por outro de algo conquistado. Por isso, quando tratam desuas relações amorosas, os mais civilizados falam de conquista, de ataque, de assalto, de assédio, de defesa, de derrota, de capitulação, moldandonitidamente a ideia de amor na ideia de guerra. Esse ato, comportando a poluição de um ser por outro, impõe ao que polui certo orgulho, e ao poluído,ainda que anuente, alguma humilhação.” Esta última frase introduz um novo mito, o de que o homem inflige uma mácula à mulher. Na realidade oesperma não é um excremento; fala-se de “polução noturna” porque então se desvia de seu fim natural. Mas porque o café pode manchar um vestidoclaro não se declara que é uma porcaria e que suja o estômago. Outros homens sustentam o contrário: que a mulher é impura porque é ela que está“emporcalhada de humores”, que ela polui o homem. O fato de ser este quem polui não lhe confere, em todo caso, senão uma superioridade bemequívoca. Na realidade, a situação privilegiada do homem vem da integração de seu papel biologicamente agressivo em sua função social de chefe, desenhor; é através dessa situação que as diferenças fisiológicas adquirem todo seu sentido. Por ser, neste mundo, soberano, o homem reivindica comosinal de sua soberania a violência de seus desejos; diz-se de um homem dotado de grandes capacidades eróticas que é forte, que é potente: epítetos quedesignam como que uma atividade e uma transcendência. Ao contrário, a mulher, sendo apenas um objeto, será qualificada como quente ou fria, isto é,nunca poderá manifestar senão qualidades passivas.O clima em que a sexualidade feminina desperta é, pois, completamente diferente daquele que o adolescente encontra em torno de si. Por outro lado,no momento em que se defronta a primeira vez com o homem, sua atitude erótica é muito complexa. Não é verdade, como se pretendeu por vezes, quea virgem não conheça o desejo e que seja o homem quem lhe desperte a sensualidade; essa lenda evidencia mais uma vez a vontade de domínio dohomem que deseja que sua companheira nada tenha de autônomo, nem sequer o desejo que ela tem dele. Na realidade, no homem também é muitasvezes o contato com a mulher que suscita o desejo e, inversamente, a maioria das moças aspira febrilmente às carícias antes que qualquer mão astenha tocado. Minhas ancas, que na véspera me davam um aspecto de rapaz, arredondaram-se e, em todo o meu ser, sentia uma imensa impressão de espera, um apelo que me tomava e cujo sentido era mais do que claro; não podia mais dormir à noite, virava e revirava, agitava-me, febril e dolorida, diz Isadora Duncan em Minha vida. Uma jovem mulher que faz uma longa confissão a Stekel conta: Comecei a flertar loucamente. Precisava de uma “cócega nos nervos” (sic). Dançarina apaixonada, fechava os olhos dançando para me entregar inteiramente a esse prazer... Dançando, exprimia uma espécie de exibicionismo porque a sensualidade dominava o pudor. Durante o primeiro ano, dancei apaixonadamente. Gostava de dormir e dormia