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Published by evertonlopes2012, 2020-04-03 15:17:03

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir

O Segundo Sexo - Simone de Beauvoir

Iníqua avaliação dos vícios!, diz Montaigne. Encaramos e pesamos os vícios não de acordo com sua natureza mas segundo o nosso interesse, por isso assumem eles tantas formas desiguais. A dureza de nossas leis torna a prática desse vício pelas mulheres mais obstinada e viciosa do que exigiria sua condição e as impele a consequências piores do que a causa. Vimos quais as razões originais dessa severidade: o adultério da mulher, introduzindo na família o filho de um estranho, corre o risco de frustrar osherdeiros legítimos; o marido é o senhor, a mulher sua propriedade. As mudanças sociais, a prática do controle de natalidade enfraqueceram bastanteesses motivos. Mas a vontade de manter a mulher em estado de dependência perpetua as proibições de que a cercam ainda. Muitas vezes ela asinterioriza; e fecha os olhos às estroinices conjugais sem que sua religião, moralidade e “virtude” lhe permitam encarar qualquer reciprocidade. Ocontrole exercido pelo ambiente — em particular nas “cidadezinhas” do Velho como do Novo Mundo — é muito mais severo do que o que pesa sobre omarido: ele sai mais, viaja, toleram-se os seus erros com muito mais indulgência, ao passo que ela se arrisca a perder sua reputação e sua situação demulher casada. Descreveram-se muitas vezes os ardis através dos quais a mulher consegue furtar-se a tais vigilâncias: conheço uma cidadezinhaportuguesa de uma severidade à moda antiga, em que as jovens só saem acompanhadas por uma sogra ou por uma cunhada; mas o cabeleireiro alugaquartos localizados em cima de seu salão; entre a “permanente” e um penteado, os amantes se encontram apressadamente. Nas grandes cidades amulher tem menor número de carcereiros: mas os encontros “de cinco a sete” que se praticavam outrora não permitiam, tampouco, os sentimentosilegítimos desabrocharem com êxito. Rápido, clandestino, o adultério não cria relações humanas e livres; as mentiras que implica acabam negando todadignidade às relações conjugais.Em muitos meios, as mulheres conquistaram hoje parcialmente sua liberdade sexual. Mas é ainda, para elas, um problema difícil conciliar a vidaconjugal com satisfações eróticas. Não implicando o casamento geralmente amor físico, pareceria razoável dissociar francamente um do outro. Admite-se que o homem possa ser excelente marido e no entanto volúvel: seus caprichos sexuais não o impedem, com efeito, de orientar amigavelmente com amulher o empreendimento de uma vida comum; essa amizade será mesmo tanto mais pura, menos ambivalente, quanto menos represente uma prisão.Poderíamos admitir que o mesmo aconteça a esposa; ela deseja muitas vezes partilhar a existência do marido, criar com ele um lar para os filhos econtudo conhecer outras carícias. São os compromissos de prudência e de hipocrisia que tornam o adultério degradante; um pacto de liberdade e desinceridade aboliria uma das falhas do casamento. Entretanto, é preciso reconhecer que hoje a fórmula irritante que inspirou a Francillon de DumasFilho: “Para a mulher não é a mesma coisa”, é parcialmente verdadeira. A diferença nada tem de natural. Pretende-se que a mulher tem menosnecessidade sexual do que o homem: nada é menos certo; as mulheres recalcadas são esposas rabugentas, mães sádicas, donas de casa maníacas,criaturas infelizes e perigosas; mas ainda que seus desejos fossem mais raros não seria uma razão para achar supérfluo que os satisfizesse. A diferençavem do conjunto da situação erótica do homem e da mulher, tal como a tradição e a sociedade a definem. Considera-se ainda o ato amoroso na mulhercomo um serviço prestado ao homem e que faz que este se apresente como seu senhor; vimos que ele pode sempre arranjar uma inferior, mas que elase degrada entregando-se a um homem que não é de seu nível. Seu consentimento tem, em todo caso, o caráter de uma rendição, de uma queda. Umamulher aceita às vezes de bom grado que o marido possua outras mulheres: sente-se até lisonjeada com isso; parece que Adèle Hugo viu, sem olamentar, o marido fogoso orientar seu ardor para outros leitos; algumas mesmo, imitando a Pompadour, aceitam tornar-se alcoviteiras.423 Ao contrário,na relação, a mulher é transformada em objeto, em presa; afigura-se ao marido que ela se impregnou de um poder estranho, deixou de ser sua, aroubaram dele. E o fato é que, na cama, a mulher muitas vezes sente-se, quer-se, e por conseguinte, é dominada; é verdade também que por causa doprestígio viril ela tende a aprovar, a imitar o homem que, tendo-a possuído, encarna a seus olhos o homem na sua totalidade. O marido irrita-se, nãosem razão, ao ouvir numa boca familiar o eco de um pensamento alheio; parece-lhe um pouco que ele é que foi possuído, violentado. Se Mme deCharrière rompeu com o jovem Benjamin Constant — que entre duas mulheres viris representava um papel feminino — foi porque não suportava senti-lo marcado pela influência detestada de Mme de Staël. Enquanto a mulher se faz escrava e reflexo do homem a quem ela se “entrega”, deve reconhecerque suas infidelidades a arrancam mais radicalmente do marido do que infidelidades recíprocas.Se ela conserva sua integridade, pode entretanto temer que o marido seja diminuído na consciência do amante. Uma mulher pode mesmo imaginar quedeitando com um homem — embora uma só vez, às pressas, num sofá — adquire uma superioridade sobre a esposa legítima; com muito mais razão umhomem que acredita possuir a amante considera que prega uma peça no marido dela. É por isso que em Tendresse, de Bataille, em Belle de jour deKessel, a mulher tem o cuidado de escolher amantes de baixa condição: ela procura com eles satisfações sexuais, mas não quer dar-lhes ascendênciasobre o marido respeitado. Em Condition humaine, Malraux nos mostra um casal em que marido e mulher fizeram um pacto de liberdade recíproca:entretanto, quando May conta a Kyo que dormiu com um camarada, ele sofre, pensando que esse homem imaginou tê-la “tido”; ele escolheu respeitar-lhe a independência porque sabe que nunca se tem ninguém; mas as ideias complacentes por outro acariciadas magoam-no e humilham-no através deMay. A sociedade confunde a mulher livre com a mulher fácil; o próprio amante não reconhece de bom grado a liberdade de que se aproveita; prefereacreditar que a amante cedeu, deixou-se arrastar, que ele a conquistou, a seduziu. Uma mulher orgulhosa pode pessoalmente tirar partido da vaidadedo parceiro; mas será odioso para ela que um marido estimado suporte a arrogância dessa vaidade. É muito difícil para uma mulher agir em nível deigualdade com o homem enquanto essa igualdade não for universalmente reconhecida e concretamente realizada.De qualquer modo, adultério, amizades, vida mundana não constituem, na vida conjugal, apenas divertimentos; podem ajudar a suportar as pressõesmas não as destroem. São falsas evasões que não permitem em absoluto à mulher ser autenticamente dona de seu destino.


4/Prostitutas e cortesãs Vimos que o casamento424 tem como correlativo imediato a prostituição. “O heterismo, diz Morgan, acompanha a humanidade até em sua civilizaçãocomo uma sombra projetada sobre a família.” Por prudência, o homem obriga a esposa à castidade, mas não se satisfaz com o regime que lhe impõe. Os reis da Pérsia, conta Montaigne, que lhes aprova a sabedoria, convidavam suas mulheres para lhes fazerem companhia em seus festins; mas, quando o vinho principiava a esquentá-los de verdade e lhes era preciso dar rédeas à volúpia, mandavam-nas de volta a seus lares para que não participassem de seus imoderados apetites e ordenavam que em seu lugar viessem mulheres que eles não tivessem a obrigação de respeitar. É preciso que haja esgotos para assegurar a salubridade dos palácios, diziam os padres da Igreja. E Mandeville, em uma obra que teve repercussão: “Éevidente que existe uma necessidade de sacrificar uma parte das mulheres para conservar a outra e evitar uma sujeira de natureza mais repugnante.”Um dos argumentos dos escravocratas norte-americanos em favor da escravidão era que, estando os brancos do Sul desobrigados das tarefas servis,podiam manter entre si as relações mais democráticas, mais requintadas; do mesmo modo, a existência de uma casta de “mulheres perdidas” permitetratar as “mulheres honestas” com o mais cavalheiresco respeito. A prostituta é o bode expiatório; o homem liberta-se nela de sua turpitude e a renega.Quer um estatuto legal a coloque sob a fiscalização policial, quer trabalhe na clandestinidade, é ela sempre tratada como pária.Do ponto de vista econômico, sua situação é simétrica à da mulher casada. “Entre as que se vendem pela prostituição e as que se vendem pelocasamento, a única diferença consiste no preço e na duração do contrato”, diz Marro.425 Para ambas, o ato sexual é um serviço; a segunda é contratadapela vida inteira por um só homem; a primeira tem vários clientes que lhe pagam por vez. Aquela é protegida por um homem contra os outros, esta édefendida por todos contra a tirania exclusiva de cada um. Em todo caso, os benefícios que tiram de seu corpo são limitados pela concorrência; omarido sabe que poderia ter tido outra esposa: o cumprimento dos “deveres conjugais” não é uma graça, é a execução de um contrato. Na prostituição,o desejo masculino, sendo específico e não singular, pode satisfazer-se com qualquer corpo. Esposa ou coretsã só conseguem explorar o homem seassumem uma ascendência singular sobre ele. A grande diferença entre elas está em que a mulher legítima, oprimida enquanto mulher casada, érespeitada como pessoa humana; esse respeito começa a pôr seriamente em xeque a opressão. Ao passo que a prostituta não tem os direitos de umapessoa; nela se resumem, ao mesmo tempo, todas as figuras da escravidão feminina.É ingênuo perguntar que motivos levam a mulher à prostituição; não se acredita mais hoje na teoria de Lombroso, que assimilava as prostitutas aoscriminosos e via em ambos degenerados; é possível, como afirmam as estatísticas, que de uma maneira geral o nível mental das prostitutas esteja umpouco abaixo da média e que algumas sejam francamente débeis mentais: as mulheres cujas faculdades mentais são retardadas escolhem comfrequência um ofício que não exija delas nenhuma especialização; mas em sua maioria elas são normais, algumas muito inteligentes. Nenhumafatalidade hereditária, nenhuma tara fisiológica pesa sobre elas. Na verdade, em um mundo atormentado pela miséria e pela falta de trabalho, desdeque se ofereça uma profissão, há quem a siga; enquanto houver polícia e prostituição, haverá policiais e prostitutas. Ainda mais porque tais profissõesrendem muito mais do que outras. É muita hipocrisia espantar-se com as ofertas que suscita a procura masculina; trata-se de um processo econômicorudimentar e universal. “De todas as causas da prostituição, escrevia em 1857 Parent-Duchâtelet durante sua pesquisa, nenhuma é mais ativa do que afalta de trabalho e a miséria, consequência inevitável dos salários insuficientes.” Os moralistas bem-pensantes respondem, debochando, que ashistórias comoventes das prostitutas são romances para uso do cliente ingênuo. Com efeito, em muitos casos, a prostituta teria podido ganhar a vida deoutro modo: mas, se o que escolheu não lhe parece o pior, não é prova de que tenha o vício no sangue; isso antes condena uma sociedade em que talprofissão é ainda uma das que parecem menos rebarbativas a muitas mulheres. Perguntam: Por que ela a escolheu? A pergunta deveria ser antes: Porque não a teria escolhido? Observou-se, entre outras coisas, que boa parte das prostitutas se recrutava entre as domésticas; foi o que estabeleceuParent-Duchâtelet para todos os países, o que Lily Braun notava na Alemanha e Rickère na Bélgica. Cinquenta por cento mais ou menos das prostitutasforam primeiramente criadas. Um olhar nos “quartos de criadas” basta para explicar o fato. Explorada, escravizada, tratada como objeto mais do quecomo pessoa, a arrumadeira, a criada de quarto, não espera nenhuma melhoria da sorte no futuro; às vezes, tem que suportar os caprichos do dono dacasa: da escravidão doméstica, dos amores ancilares, ela desliza para uma escravidão que não pode ser mais degradante e que ela imagina mais feliz.Além disso, as empregadas domésticas são o mais das vezes desenraizadas: calcula-se que 80% das prostitutas parisienses vêm da província ou docampo. A proximidade da família, a preocupação com a reputação impediriam a mulher de abraçar uma profissão geralmente desconsiderada; mas,perdida na cidade grande, não estando mais integrada na sociedade, a ideia abstrata de “moralidade” não lhe opõe nenhum obstáculo. Assim como aburguesia cerca o ato sexual — e principalmente a virgindade — de tabus temíveis, em muitos meios camponeses e operários isso tudo se afiguraindiferente. Muitas pesquisas concordam a esse respeito: há muitas mulheres que se deixam deflorar pelo primeiro que aparece e que acharão emseguida natural entregar-se ao primeiro que surgir. Numa pesquisa realizada com cem prostitutas, o Dr. Bizard salientou os seguintes fatos: uma foradeflorada aos 11 anos, duas aos 12, duas aos 13, seis aos 14, sete aos 15, vinte e uma aos 16, dezenove aos 17, dezessete aos 18, seis aos 19; as outrasdepois dos 21 anos. Havia portanto 5% que tinham sido violentadas antes de formadas. Mais de metade dizia ter-se entregue por amor; as outrastinham consentido por ignorância. O primeiro sedutor é muitas vezes jovem. É frequentemente um colega do curso ou do escritório, um amigo deinfância; vêm a seguir os militares, os contramestres, os criados, os estudantes; a lista do Dr. Bizard comportava, ademais, dois advogados, umarquiteto, um médico, um farmacêutico. É bastante raro que seja, como quer a lenda, e próprio patrão quem desempenhe esse papel de iniciador: mas éo filho dele, muitas vezes, ou o sobrinho, ou um amigo. Commenge, em seu estudo, assinala também 45 jovens, de 12 a 17 anos, que teriam sidodefl oradas por desconhecidos que nunca mais teriam visto; tinham consentido com indiferença, sem experimentar nenhum prazer. Entre outros casos,o Dr. Bizard assinala mais precisamente os seguintes: Mlle G., de Bordéus, voltando do convento aos 18 anos, deixa-se arrastar, sem pensar nas consequências, para um carro de saltimbancos, onde é deflorada por um cigano desconhecido. Uma menina de 13 anos entrega-se sem refletir a um senhor que encontrou na rua, que não conhece e que nunca mais verá. M... conta-nos textualmente que foi deflorada aos 17 anos por um rapaz que não conhecia... deixou-o fazer por completa ignorância. R... deflorada com 17 anos e meio por um jovem que nunca vira e que, por acaso, encontrara no consultório de um médico da vizinhança, que fora chamar para a irmã doente, um rapaz que a trouxe de carro para que chegasse mais depressa e, na realidade, depois de obter o que desejava a largara em plena rua. B... deflorada com 15 anos e meio, “sem pensar no que fazia”, diz textualmente nossa cliente, por um jovem que nunca tornou a ver; nove meses depois, deu à luz um filho com boa saúde. S... deflorada aos 14 anos por um rapaz que a levou para casa a pretexto de lhe apresentar a irmã. O rapaz na realidade não tinha irmã, mas tinha sífilis e contaminou a menina. R... deflorada aos 18 anos, numa antiga trincheira do front, por um primo casado e com quem visitava os campos de batalha. Ele a engravidou e a obrigou a abandonar a família. C... deflorada aos 17 anos, na praia, numa noite de verão, por um jovem que acabara de conhecer no hotel, a cem metros das duas mães que conversam frivolidades. Contaminada por blenorragia. L... deflorada com 13 anos, pelo tio, enquanto ouviam rádio, e a tia, que gostava de dormir cedo, repousava tranquilamente no quarto ao lado. Essas jovens, que cederam passivamente, nem por isso deixaram de sofrer, podemos ter certeza, o trauma do defloramento; desejaríamos saber que


influência psicológica teve essa experiência brutal no futuro delas; mas não se psicanalisam prostitutas: são inábeis na descrição de si mesmas eescondem-se atrás de lugares-comuns. Em algumas, a facilidade de se entregar a qualquer um explica-se pela existência de fantasmas da prostituiçãode que falamos: por rancor familiar, horror à sua sexualidade nascente, desejo de desempenhar o papel de adulto; há moças bem jovens que imitam asprostitutas: pintam-se exageradamente, recebem rapazes, mostram-se coquetes e provocantes; ainda infantis, assexuadas, pouco sensuais, acreditampoder brincar com o fogo impunemente; um dia um homem as toma a sério e elas passam dos sonhos aos atos.“Quando uma porta foi arrombada, é difícil depois mantê-la fechada”, dizia uma jovem prostituta de 14 anos.426 Entretanto a moça raramente se decidea “fazer o trottoir” logo depois do defloramento. Em certos casos, continua apegada ao primeiro amante e a viver com ele; arranja um ofício “honesto”;quando o amante a abandona, outro a consola; como não pertence mais a um homem só, acha que pode dar-se a todos; por vezes é o amante — oprimeiro ou o segundo — que sugere esse meio de ganhar dinheiro. Há também muitas moças que são prostituídas pelos pais: em certas famílias —como na célebre família norte-americana dos Juke — todas as mulheres são destinadas a essa profissão. Entre as jovens vagabundas, numerosasmeninas abandonadas pelos seus começam pela mendicância e deslizam para a prostituição. Em 1857, Parent-Duchâtelet verificara que, em 5.000prostitutas, 1.441 tinham sido influenciadas pela pobreza, 1.425 seduzidas e abandonadas, 1.255 abandonadas e deixadas sem recursos pelos pais. Aspesquisas modernas sugerem mais ou menos as mesmas conclusões. A doença leva muitas vezes à prostituição a mulher incapacitada para um trabalhoverdadeiro, ou que perdeu seu lugar; ela destrói o equilíbrio precário do orçamento, obriga a mulher a inventar apressadamente novos recursos. Deigual modo, o nascimento de um filho. Mais da metade das mulheres de Saint-Lazare tiveram um filho pelo menos; muitas criaram de três a seis; o Dr.Bizard refere-se a uma que deu à luz 14, dos quais oito viviam ainda quando ele a conheceu. Poucas são, diz ele, as que abandonam o filho; e acontecede, para alimentá-lo, se fazerem prostitutas. Ele cita este caso entre outros: Deflorada na província, com a idade de 19 anos, por um patrão de sessenta quando ainda vivia com a família, foi obrigada, estando grávida, a abandonar os seus para dar à luz uma menina com boa saúde e que educou muito corretamente. Depois do parto veio para Paris, onde trabalhou como ama, tendo começado a prostituir-se aos 29 anos. Prostitui-se, portanto, há 33 anos. Sem mais forças nem coragem, ped e agora para ser hospitalizada em Saint-Lazare. Sabe-se que há recrudescência da prostituição durante as guerras e as crises que a elas se seguem.A autora de La Vie d’une prostituée, publicada em parte em Temps modernes,427 conta assim o início de sua carreira: Casei-me aos 16 anos com um homem 13 anos mais velho do que eu. Foi para sair de casa de meus pais que me casei. Meu marido só pensava em me fazer filhos. “Assim ficarás em casa, não sairás”, dizia-me. Não queria que eu me pintasse, não queria levar-me ao cinema. Eu tinha que suportar a sogra, que vinha a nossa casa todos os dias e dava sempre razão ao salafrário do filho. Meu primeiro filho foi um menino, Jacques; 14 meses depois, dei à luz outro menino, Pierre... Como me aborrecia muito, resolvi seguir um curso de enfermagem, isso me agradava muito... Entrei para um hospital, seção de mulheres, nos subúrbios de Paris. Uma enfermeira, que era ainda uma criança, ensinou-me coisas que eu não conhecia. Dormir com o marido era mais uma tarefa do que qualquer outra coisa. Na seção dos homens fiquei seis meses sem me aproximar de ninguém. Eis que um dia um cara “duro”, meio malandro, mas bonitão, entra no meu quarto particular... Dá-me a entender que poderia mudar de vida, que iria com ele para Paris, que não trabalharia mais... Durante um mês fui realmente feliz... Um dia ele trouxe uma mulher bem-vestida, elegante, dizendo: “Esta sabe defender-se.” A princípio não quis. Arranjei mesmo um lugar de enfermeira numa clínica de bairro para mostrar-lhe que não queria prostituir-me, mas não podia resistir muito tempo. Ele me dizia: “Não me amas. Quando uma mulher ama seu homem, trabalha para ele.” Eu chorava. Na clínica, andava triste. Finalmente deixei que me conduzisse ao cabeleireiro... Comecei a aceitar encontros. Julot seguia-me, para ver se eu sabia me defender direito e para me avisar no caso de surgirem tiras... Por certos aspectos, esta história está de acordo com a história clássica da mulher entregue à prostituição por um cafetão. Acontece ser este papeldesempenhado pelo marido. Em alguns casos por uma mulher. L. Faivre realizou em 1931 uma pesquisa entre 510 prostitutas;428 verificou que 284viviam sós, 132 tinham um amigo, 94 uma amiga a quem se achavam ordinariamente unidas por laços homossexuais. Ele cita trechos de algumascartas: Suzanne, 17 anos. Ent reguei-me à prostituição principalmente com prostitutas. Uma que ficou comigo muito tempo era muito ciumenta, por isso saí da rua... Andrée, 15 anos e meio. Deixei meus pais para morar com uma amiga que encontrei num baile. Percebi logo que queria me amar como um homem, fiquei com ela quatro meses, depois... Jeanne, 14 anos. Meu pobre paizinho chamava-se X... Morreu, em consequência da guerra, no hospital, em 1922. Minha mãe tornou a casar-se. Eu ia à escola para obter meu diploma, e tendo-o conseguido tive que aprender a costurar... depois, ganhando muito pouco, começaram as discussões com meu padrasto... Tive que ser colocada como criada em casa de Mme X... Estava sozinha há dez dias com a filha dela, que podia ter cerca de 25 anos, quando notei uma grande mudança nela. E um dia, como um rapaz, ela me confessou seu grande amor. Hesitei e depois, com medo de ser despedida, cedi; compreendi então certas coisas... Trabalhei e depois, ficando sem trabalho, tive que ir ao Bois onde me prostituí com mulheres. Conheci uma senhora muito generosa etc. Muitas vezes a mulher encara a prostituição como um meio provisório de aumentar seus recursos. Mas já se descreveu mais de uma vez como se vêamarrada a seguir. Se os casos de “tráfico de brancas” em que ela é arrastada para a engrenagem pela violência, falsas promessas, mistificações etc,são relativamente raros, é frequente entretanto que fique retida na carreira contra sua vontade. O capital necessário ao início foi-lhe fornecido por umcafetão, ou uma cafetina, que assim adquiriu direitos sobre ela e recolhe a maior parte dos benefícios sem que ela possa libertar-se. Marie Thérèselutou verdadeiramente durante anos antes de consegui-lo. Compreendi finalmente que Julot só queria a “grana” e pensei que, longe dele, poderia economizar algum dinheiro... No bordel, a princípio, eu era tímida, não ousava aproximar-me dos homens e dizer-lhes: Sobe comigo? A mulher de um amigo de Julot vigiava-me de perto e até contava meus encontros... Eis que Julot me escreve que devo entregar todas as noites meu dinheiro à patroa: “Assim não te roubarão...” Quando quis comprar um vestido, a patroa disse-me que Julot a proibira de me dar meu dinheiro... resolvi largar o mais depressa possível essa casa de tolerância. Quando a patroa soube que eu queria partir, não me deu o tampão429 antes da visita, como das outras vezes, e fui detida e recolhida a um hospital... Tive que retornar ao bordel para ganhar o dinheiro de minha viagem... Mas só fiquei lá durante quatro semanas... Trabalhei alguns dias em Barbès como antes, mas estava por demais ressentida com Julot para ficar em Paris: discutíamos, ele me batia, de uma feita quase me jogou pela janela... Arranjei-me com um intermediário para ir para a província. Quando me dei conta de que ele conhecia Julot, não fui ao encontro combinado. As duas mulheres dele encontraram-me posteriormente na rua Belhomme e deram-me uma surra... No dia seguinte fiz minha maleta e fui sozinha para a ilha de T... Ao fim de três semanas estava farta do bordel, escrevi ao médico a fim de que me mandasse sair quando viesse para a visita... Julot me viu no bulevar Magenta e me bateu... Fiquei com o rosto marcado depois da surra no bulevar Magenta. Estava farta de Julot. Assinei por isso um contrato para partir para a Alemanha... A literatura popularizou a figura de “Julot”. Ele desempenha na vida da prostituta um papel de protetor. Adianta-lhe dinheiro para que compre vestidos,defende-a contra a concorrência de outras mulheres, contra a polícia — é ele próprio, por vezes, um policial — contra os fregueses. Estes gostariam depoder consumir sem pagar; alguns satisfariam de bom grado seu sadismo com a mulher. Em Madri, há alguns anos, a juventude fascista e rica divertia-se jogando as prostitutas no rio, nas noites frias; na França os estudantes, de farra, levam por vezes mulheres para o campo a fim de abandoná-las, ànoite, inteiramente nuas; para receber seu dinheiro, evitar os maus-tratos, a prostituta tem necessidade de um homem. Ele lhe dá igualmente um apoiomoral: “Sozinha, a gente trabalha menos bem, tem menos coragem, relaxa”, dizem algumas. Muitas vezes ela tem amor por ele; é por amor que sededica à profissão ou a justifica; há em seu meio uma enorme superioridade do homem sobre a mulher: essa distância favorece o amor-religião, o queexplica a abnegação apaixonada de certas prostitutas. Na violência de seu homem, elas veem um sinal de virilidade e mais docilmente se submetem aele. Conhecem com ele ciúmes, tormentos, mas também as alegrias da mulher apaixonada.Entretanto, às vezes só têm por ele hostilidade, rancor: é por medo, é porque eles as têm nas mãos que permanecem submissas, como se viu no caso deMarie Thérèse. Muitas vezes, consolam-se então com um “amor” escolhido entre os fregueses. Todas as mulheres, além de seu Julot, tinham “amores”, eu também, escreve Marie Thérèse. Era um marinheiro bonitão. Embora fizesse amor muito bem, eu não podia juntar- me com ele, mas tínhamos grande amizade um pelo outro. Muitas vezes ele subia comigo sem fazer amor, só para conversar, dizia-me que eu devia sair dali, que meu lugar não era ali. Elas também se consolam com mulheres. Numerosas prostitutas são homossexuais. Vimos que havia muitas vezes uma aventura homossexual no iníciode sua carreira. Segundo Anna Rueling, na Alemanha, cerca de 20% das prostitutas seriam homossexuais. Faivre observa que, na prisão, jovensdetentas trocam cartas pornográficas e apaixonadas que assinam “Unidas para toda a vida”. Tais cartas são homólogas às que se escrevem as jovensescolares que alimentam “chamas” em seus corações; estas são menos sabidas, mais tímidas; aquelas são mais profundas nos seus sentimentos, tantonas palavras co mo nos atos. Vê-se na vida de Marie Thérèse — que foi iniciada na volúpia por uma mulher — o papel privilegiado que desempenha a“amiguinha” em face do freguês desprezado, do cafetão autoritário:


Julot trouxera uma mulher, uma pobre criadinha que não tinha sequer sapatos. Compraram-lhe tudo no “mercado das pulgas”, depois ela veio trabalhar comigo. Era muito gentil e como, além disso, gostava de mulheres, entendíamo-nos muito bem. Lembrava-me tudo o que aprendi com a enfermeira. Divertíamo-nos muitas vezes e, ao invés de trabalhar, íamos ao cinema. Eu estava contente por tê-la conosco. Vê-se que a amiguinha desempenha mais ou menos o mesmo papel que a amiga íntima para a mulher honesta confinada entre mulheres: é umacompanheira de prazeres, é com ela que as relações são livres, gratuitas, e que, por conseguinte, podem ser desejadas; cansada dos homens, enojadadeles ou desejando uma diversão, é nos braços de outra mulher que muitas vezes a prostituta procura relaxamento e prazer. Em todo caso, acumplicidade de que falei, e que une imediatamente as mulheres, existe mais fortemente nesse caso do que em qualquer outro. Pelo fato de suasrelações com metade da humanidade serem de natureza comercial, pelo fato de o conjunto da sociedade as tratar como párias, as prostitutas têm entresi uma solidariedade estreita; podem ser rivais, ter ciúmes, insultar-se, brigar, mas têm profunda necessidade umas das outras para construírem um“contrauniverso” em que reencontram sua dignidade humana; a companheira é a confidente e a testemunha privilegiada; ela é quem aprecia o vestido,o penteado — meios destinados a seduzir o homem mas que se apresentam como fins em si aos olhos invejosos ou admirativos das outras mulheres.Quanto às relações da prostituta com os fregueses, as opiniões se dividem e os casos são, sem dúvida, variáveis. Observou-se, frequentemente, quereserva para o amante do coração o beijo na boca, a expressão de uma livre ternura e que não estabelece nenhuma comparação entre as caríciasamorosas e as profissionais. Os testemunhos dos homens são suspeitos porque a vaidade os incita a se deixarem iludir por comédias de gozo. É precisodizer que as circunstâncias são muito diferentes, segundo se trata de um “sexo selvagem”, frequentemente seguido de exaustão física, de um encontrorápido, de uma “dormida”, ou de relações constantes com um freguês habitual. Marie Thérèse geralmente exercia a profissão com indiferença, masevoca certas noites com delícia; teve “amores” e diz que todas as suas amigas também os tinham. Em certos casos a mulher recusa-se a receberdinheiro de um freguês que lhe agradou ou, às vezes, se ele está “apertado”, oferece-lhe auxílio. Em geral, entretanto, a mulher trabalha “a frio”.Algumas só têm, pelo conjunto de sua freguesia, uma indiferença matizada de desprezo. “Como os homens são bobos! As mulheres podem encher-lhes acabeça com o que querem!” escreve Marie Thérèse. Mas muitas sentem um rancor enojado contra os homens; sentem-se principalmente repugnadascom seus vícios. Seja porque vão ao bordel a fim de satisfazer os vícios que não ousam revelar à mulher ou à amante, seja porque o fato de estar nobordel os incita a inventar vícios, muitos homens exigem “fantasias” da prostituta. Marie Thérèse queixava-se, em particular, de terem os francesesuma imaginação insaciável. As doentes tratadas pelo Dr. Bizard confiaram-lhe que todos os homens são mais ou menos pervertidos. Uma de minhasamigas conversou longamente com uma jovem prostituta no Hospital Beaujon, mulher muito inteligente, que começara como doméstica e vivia com umcafetão que ela adorava. “Todos os homens são pervertidos, menos o meu, dizia. É por isso que o amo. Se um dia lhe descobrir uma perversão,abandono-o. Da primeira vez, nem sempre o freguês ousa, parece normal; mas quando volta começa a querer coisas... A senhora diz que seu marido nãotem uma perversão: verá um dia. Todos têm.” Por causa desses vícios, ela os detestava. Em 1943, em Fresnes, outra amiga minha tornara-se íntima deuma prostituta. Esta sustentava que 90% dos fregueses eram viciados, 50% eram pederastas envergonhados. Os que demonstravam muita imaginaçãoassustavam-na. Um oficial alemão pedira-lhe que passeasse nua pelo quarto com flores nos braços enquanto ele imitava o voo de um pássaro; apesar dacortesia e da generosidade dele, ela fugia quando o divisava. Marie Thérèse tinha horror à “fantasia”, embora esta fosse tabelada muito mais caro doque o coito simples e não raro exigisse menor fadiga da mulher. Essas três mulheres eram particularmente inteligentes e sensíveis. Sem dúvida,percebiam que a partir do momento em que não eram mais protegidas pela rotina da profissão, a partir do momento em que o homem deixava de serum freguês em geral e se individualizava, elas eram a presa de uma consciência, de uma liberdade caprichosa; não se tratava mais de um simplesnegócio. Certas prostitutas, entretanto, especializam-se na “fantasia”, porque rende mais. Em sua hostilidade contra o freguês entra, muitas vezes, umressentimento de classe. Helen Deutsch conta longamente a história de Ana, uma bonita prostituta loura, infantil, geralmente muito meiga, mas quetinha crises de excitação furiosa contra certos homens. Vinha de uma família operária; o pai bebia, a mãe era doente: o casal infeliz inspirou-lhe talhorror à vida familiar que nunca consentiu em se casar, embora em sua carreira lhe tivessem proposto casamento muitas vezes. Os rapazes do bairroperverteram-na; gostava da profissão; mas quando, por estar tuberculosa, a mandaram para um hospital, ela ficou com um ódio feroz contra osmédicos; os homens “respeitáveis” eram-lhe odiosos, não suportava a cortesia, a solicitude de seu médico. “Pois não sabemos nós que esses homensdeixam facilmente cair a máscara de sua amabilidade, de sua dignidade, de seu domínio sobre si e se conduzem como animais?”, dizia. No restante, eramentalmente equilibrada. Afirmou mentirosamente que entregara seu filho a uma ama de leite, fora isso não mentia. Morreu de tuberculose. Outrajovem prostituta, Júlia, que desde a idade de 15 anos se entregava a todos os rapazes que encontrava, só gostava dos homens pobres e fracos; com elesera meiga e gentil; os outros, ela os considerava “animais selvagens merecedores do pior tratamento”. (Tinha um complexo muito acentuado querevelava uma vocação materna insatisfeita: tinha crises de fúria quando pronunciavam diante dela as palavras mãe, filho, ou palavras com sonssemelhantes.)Em sua maioria, as prostitutas acham-se moralmente adaptadas à sua condição; isto não quer dizer que sejam hereditárias ou congenitamente imorais,mas sim que se sentem, com razão, integradas numa sociedade que reclama seus serviços. Sabem que os discursos edificantes do policial que asidentifica são simples palavrório e os sentimentos elevados que seus fregueses exibem fora do bordel intimidam-nas bem pouco. Marie Thérèse explicaà padeira, em casa de quem reside, em Berlim: Gosto de todo mundo. Quando se trata de “grana”, minha senhora... Sim, porque dormir com um homem, a troco de nada, de graça, ele diz a mesma coisa da gente, é uma puta, e quando se exige pagamento, ele julga a gente também como puta, mas esperta; porque, quando se pede dinheiro a um homem, pode-se estar certa de que ele diz logo depois: “Ah, não sabia que tinhas este ofício” ou “Tens um homem?”. É isso, paga ou não, para mim é a mesma coisa. “Ah, sim, responde ela, você tem razão.” Porque, eu lhe digo, você vai fazer fila meia hora por dia para ganhar um tíquete e poder comprar um par de sapatos. Eu, numa meia hora, dou uma trepada. Tenho os sapatos sem pagar ao contrário, se faço bem meu trabalho sou paga ainda por cima. A senhora vê então que tenho razão. Não é a situação moral e psicológica que torna penosa a existência das prostitutas. Sua condição material é que é, na maioria dos casos, deplorável.Exploradas pelo cafetão, pela proxeneta, vivem na insegurança e três quartos delas não têm dinheiro. Ao fim de cinco anos de profissão, cerca de 75%estão com sífilis, diz o Dr. Bizard, que tratou de tantas. Entre outras, as menores inexperientes são contaminadas com uma assustadora facilidade;cerca de 25% devem ser operadas em consequência de complicações blenorrágicas. Uma, em vinte, tem tuberculose, 60% tornam-se alcoólatras outoxicômanas, 40% morrem antes dos quarenta anos. É preciso acrescentar que, apesar das precauções, algumas vezes ficam grávidas e são operadasem más condições. A baixa prostituição é um ofício penoso em que a mulher oprimida sexual e economicamente, submetida à arbitrariedade da polícia,a uma humilhante fiscalização médica, aos caprichos dos fregueses, presa dos micróbios, da doença e da miséria, é realmente degradada ao nível deuma coisa.430Da baixa prostituição à grande hetera, há numerosos degraus. A diferença essencial consiste em que a primeira negocia com sua pura generalidade, demodo que a concorrência a mantém num nível de vida miserável, ao passo que a segunda se esf orça por se fazer reconhecer em sua singularidade:vencendo, pode aspirar a um grande destino. A beleza, o encanto, o sex appeal são necessários, mas não bastam: é preciso que a mulher sejadistinguida pela opinião. É através de um desejo de homem que muitas vezes seu valor se desvendará; mas só será “lançada” quando o homem tiverproclamado seu valor aos olhos do mundo. No século passado, era o palacete, a criadagem, eram as pérolas que testemunhavam a ascendênciaconquistada por uma cocotte sobre seu protetor e que a elevavam à condição de demi-mondaine; seu mérito se afirmava à medida que os homenscontinuavam a arruinar-se por ela. As mudanças sociais e econômicas aboliram o tipo das Blanche d’Antigny. Não há mais um demi-monde, dentro doqual se possa afirmar uma reputação. É de outra maneira que uma mulher ambiciosa se esforçará por conquistar celebridade. É a “estrela” a últimaencarnação da cortesã. Com um marido ao lado — condição rigorosamente exigida por Hollywood — ou um amigo sério, ela se aparenta contudo aFrineia, Impéria, Casque d’Or. A cortesã entrega a Mulher aos sonhos dos homens, que em troca lhe dão fortuna e glória.Houve sempre entre a prostituição e a arte uma passagem incerta, em virtude de se associarem de maneira equívoca à beleza e à volúpia; na verdadenão é a Beleza que engendra o desejo; mas a teoria platônica do amor propõe hipócritas justificações para a lubricidade. Frineia desnudando o seiooferece ao areópago a contemplação de uma ideia pura. A exibição de um corpo sem véu torna-se um espetáculo de arte; os “burlescos” americanosfizeram um drama do despir-se. O “nu é casto”, afirmam os velhos que, sob a denominação de “nus artísticos”, colecionam fotografias obscenas, Nobordel, o momento da “escolha” já é um desfile; ao complicar-se, têm-se os “quadros vivos”, as “poses artísticas” que se oferecem aos fregueses. Aprostituta que aspira adquirir um valor singular não se limita mais a mostrar passivamente a carne; esforça-se por mostrar talentos particulares. As“tocadoras de flauta” gregas encantavam os homens com sua música e suas danças. As Ouled-Naïl executando a dança do ventre, as espanholas quedançam e cantam no Barrio-Chino não fazem senão oferecer-se de maneira requintada à escolha do apreciador. É para achar “protetores” que Nanasobe ao palco. Certos music halls, como outrora certos cafés-concerto, não passam de bordéis. Todos os ofícios em que a mulher se exibe podem serutilizados para fins galantes. Há, sem dúvida, girls, taxi girls, dançarinas nuas e outras, pin-ups, manequins, cantoras, que não permitem que sua vidaerótica se imiscua em seu trabalho; quanto mais este implique técnicas, invenção, mais poderá ser considerado como um fim em si; mas,frequentemente, uma mulher que se apresenta em público para ganhar a vida é tentada a fazer de seus encantos um comércio mais íntimo.Inversamente, a cortesã deseja um ofício que lhe sirva de álibi. Raras, como a Léa, de Colette, responderiam a um amigo que as chamasse “Caraartista”: “Artistas? Realmente meus amantes são muito indiscretos.” Dissemos que sua reputação é que lhe confere um valor comercial: é no palco ouna tela que se pode conquistar “nome”, que se tornará um capital.Cinderela nem sempre sonha com o Príncipe Encantado: teme que, marido ou amante, ele se transforme em tirano; prefere sonhar com sua própriaimagem rindo às portas dos grandes cinemas. Porém, o mais das vezes, é graças a “proteções” masculinas que ela alcança seu objetivo; e são oshomens — marido, amante, pretendente — que lhe confirmam o triunfo, fazendo-a participar de seu renome ou de sua fortuna. É essa necessidade de


agradar a indivíduos, à multidão, que aproxima a vedette da cortesã. Elas desempenham na sociedade um papel análogo: empregarei a palavra cortesãpara designar todas as mulheres que tratam, não do corpo somente, mas também de toda sua pessoa como um capital a ser explorado. Sua atitude émuito diferente da de um criador que, transcendendo-se em sua obra, supera o dado e apela em outrem para uma liberdade que abre o futuro; acortesã não desvenda o mundo, não abre nenhum caminho à transcendência humana:431 ao contrário, procura captá-la em proveito próprio; oferecendo-se à aprovação de seus admiradores, não renega essa feminilidade passiva que a destina ao homem: dota-a de um poder mágico que lhe permite pegaros homens na armadilha de sua presença e deles alimentar-se; arrasta-os consigo em sua imanência.Por esse caminho, a mulher consegue conquistar certa independência. Entregando-se a vários homens, não pertence definitivamente a nenhum; odinheiro que junta, o nome que “lança” como se lança um produto, asseguram-lhe uma autonomia econômica. As mulheres mais livres da Antiguidadegrega não eram nem as matronas nem as baixas prostitutas: eram as heteras. As cortesãs do Renascimento, as gueixas japonesas gozam de umaliberdade infinitamente maior do que suas contemporâneas. Na França, a mulher que se nos afigura mais virilmente independente é talvez Ninon deLenclos. Paradoxalmente, essas mulheres que exploram ao extremo sua feminilidade criam para si uma situação quase equivalente à de um homem;partindo desse sexo que as entrega aos homens como objeto, reencontram-se como sujeitos. Não somente ganham a vida como os homens, mas aindavivem em uma companhia quase exclusivamente masculina; livres de costumes e de propósitos, podem elevar-se — como Ninon de Lenclos — à maisrara liberdade de espírito. As mais distintas veem-se, frequentemente, cercadas de artistas e escritores que aborrecem as “mulheres honestas”. É nacortesã que os mitos masculinos encontram sua mais sedutora encarnação; ela é, mais do que qualquer outra, carne e consciência, ídolo, inspiradora,musa; pintores e escultores querem-na como modelo; ela alimenta os sonhos dos poetas; é nela que o intelectual explora os tesouros da “intuição”feminina; ela é mais facilmente inteligente do que a matrona, menos hipócrita. As que são superiormente dotadas não se contentarão com esse papel deEgéria; sentirão necessidade de manifestar, de maneira autônoma, o valor que a aprovação alheia lhes confere; gostarão de transformar suas virtudespassivas em atividades. Emergindo no mundo como sujeitos soberanos, escrevem versos ou prosa, pintam, compõem. Assim, Impéria se tornou célebreentre as cortesãs italianas. Pode acontecer também que, utilizando o homem como instrumento, ela exerça funções viris por intermédio dele: as“grandes favoritas” participaram do governo do mundo através de seus poderosos amantes.432Essa libertação pode se traduzir no terreno erótico, entre outros. No dinheiro ou nos favores que extorque do homem, a mulher pode encontrar umacompensação para o complexo de inferioridade feminino; o dinheiro tem um papel purificador; abole a luta dos sexos. Se muitas mulheres que não sãoprofissionais fazem questão de arrancar cheques e presentes do amante, não é somente por cupidez: fazer o homem pagar — pagar-lhe também comose verá adiante — é transformá-lo em instrumento. Com isso a mulher nega-se a sê-lo: talvez o homem pense tê-la, mas essa posse sexual é ilusória; elaé que o tem no terreno muito mais sólido da economia. Seu amor-próprio está satisfeito. Pode entregar-se às carícias do amante, não cede a umavontade estranha, o prazer não lhe poderá ser “infligido”, se apresentará antes como um benefício suplementar; não será “tomada” porquanto é paga.Entretanto, a cortesã tem a reputação de ser frígida. É útil para ela saber governar o coração e o ventre: sentimental ou sensual, arrisca-se a sofrer aascendência de um homem que a explorará ou se apossará dela ou a fará sofrer. Entre as aventuras que aceita, muitas — principalmente no início dacarreira — a humilham; sua revolta contra a arrogância masculina exprime-se pela frigidez. As cortesãs, como as matronas, confiam de bom grado nos“truques” que lhes permitem “fingir”. Esse desprezo, esse nojo pelo homem mostra bem que no jogo explorador-explorado elas não estão inteiramentecertas de ter ganho. Com efeito, na imensa maioria dos casos, é ainda a dependência seu quinhão.Nenhum homem é definitivamente seu senhor. Mas elas têm a mais urgente necessidade do homem. A cortesã perde todos os seus meios de existência,se ele deixa de desejá-la; a estreante sabe que todo o seu futuro está nas mãos dele; a própria estrela, privada de apoio masculino, vê dissipar-se o seuprestígio: abandonada por Orson Welles, foi com um ar doentio de órfã que Rita Hayworth perambulou pela Europa antes de encontrar Ali Khan. A maisbela de todas nunca tem certeza do dia seguinte, porque suas armas são mágicas e a magia é caprichosa; ela está ligada a seu protetor — marido ouamante — quase tão estreitamente quanto uma esposa “honesta” ao seu esposo. Deve-lhe não somente o serviço da cama, mas precisa ainda suportar-lhe a presença, a conversa, os amigos e principalmente as exigências da vaidade dele. Pagando, à mulher que explora, sapatos de saltos altos, saias decetim, o proxeneta faz um investimento que lhe dará uma renda; o industrial, o produtor, oferecendo pérolas e peles à amiga, afirma fortuna e poderatravés dela: que a mulher seja um meio para ganhar dinheiro ou um pretexto para gastá-lo, é sempre a mesma servidão. Os presentes com que acumulam são cadeias. E esses vestidos, essas joias que ela usa, pertencem-lhe realmente? O homem, por vezes, reclama a restituição após a ruptura,como o fez outrora, com elegância, Sacha Guitry. Para “conservar” seu protetor sem renunciar a seus prazeres, a mulher utilizará espertezas emanobras, mentiras e hipocrisias que aviltam a vida conjugal; ainda que apenas se finja subserviente, já essa comédia é servil. Bela, célebre, ela podeescolher outro senhor, se o do momento se lhe afigura odioso. Mas a beleza é uma preocupação, um tesouro frágil; a cortesã depende estreitamente deseu corpo que o tempo impiedosamente degrada; é para ela que a luta contra a velhice assume seu aspecto mais dramático. Sendo dotada de grandeprestígio, poderá sobreviver à sua ruína, à ruína de seu rosto e de suas formas. Mas o cuidado desse renome, que é seu bem mais precioso, submete-a àmais dura das tiranias: a da opinião pública. Sabe-se em que escravidão caem as vedettes de Hollywood. Seu corpo não lhes pertence mais; o produtordecide a cor dos cabelos, o peso, a linha, o tipo; para modificar a curva de um semblante arrancam-lhe dentes. Regimes, ginástica, provas, maquiagemsão uma aborrecida tarefa diária. Sob a rubrica personal appearance são previstos saídas e namoros; a vida privada não é senão um momento da vidapública. Na França, não há regulamento escrito, mas uma mulher prudente e hábil sabe o que sua “publicidade” exige dela. A vedette que se recusa ase submeter a tais exigências conhecerá quedas brutais ou lentas, mas inelutáveis. A prostituta que só entrega o corpo é talvez menos escrava do que amulher que tem por profissão agradar. Uma mulher “realizada”, que tem nas mãos uma verdadeira profissão e cujo talento é reconhecido — atriz,cantora, dançarina — escapa à condição de cortesã; pode conhecer uma verdadeira independência; mas a maioria continua em perigo durante toda avida; precisa sem descanso seduzir novamente o público e os homens.Muitas e muitas vezes, a mulher que vive à custa de um amante interioriza sua dependência; submetida à opinião pública, reconhece-lhe os valores;admira a sociedade elegante e adota-lhe os costumes; quer ser considerada segundo normas burguesas. Parasita da burguesia rica, adere às ideiasdela; “pensa como se deve”; outrora punha frequentemente as filhas num convento e, envelhecida, ia ela própria à missa, convertendo-se ruidosamente.Está do lado dos conservadores. Está demasiado orgulhosa por ter conquistado um lugar neste mundo, para desejar que ele mude. A luta que travapara “vencer” não a predispõe a sentimentos de fraternidade e de solidariedade humana; pagou seus êxitos com exageradas complacências de escravapara desejar sinceramente a liberdade universal. Zola acentuou esse traço em Nana: Em matéria de livros e dramas, Nana tinha opiniões muito determinadas: queria obras ternas e nobres, cois as que a fizessem sonhar e lhe engrandecessem a alma... Exaltou- se contra os republicanos. Que desejava então, essa gentinha que nunca se lavava? Não era feliz? O imperador não fizera tudo pelo povo? Uma bela porcaria, o povo! Conhecia-o, podia falar: não, vejam, seria uma grande desgraça para todo mundo, essa tal república. Ah, que Deus proteja o imperador o maior tempo possível. Durante as guerras, ninguém exibe um patriotismo tão agressivo quanto as grandes prostitutas; pela nobreza dos sentimentos que afetam, esperamerguer-se ao nível das duquesas. Lugares-comuns, clichês, preconceitos, emoções convencionais constituem o tema de suas convers as públicas e,muitas vezes, elas perderam toda a sinceridade bem no fundo do seu coração. Entre a mentira e a hipérbole, a linguagem se destrói. Toda a vida dacortesã é uma exibição: suas palavras, suas mímicas destinam-se não a exprimir pensamentos e sim a produzir um efeito. Representa com seu protetora comédia do amor: por momentos representa-a para si mesma. Para a sociedade representa comédias de decência e de prestígio: acaba por seacreditar um modelo de virtude e um ídolo sagrado. Uma má-fé obstinada governa-lhe a vida interior e permite a suas mentiras deliberadasaparentarem a naturalidade da verdade. Há, por vezes, em sua vida, impulsos espontâneos: não ignora inteiramente o amor, tem “xodós”, “caprichos”,às vezes chega a ser “fisgada”. Mas quem dá muito lugar ao capricho, ao sentimento, ao prazer, depressa perde sua “situação”. Geralmente, ela incluiem suas fantasias a prudência da esposa adúltera; esconde-se de seu protetor e da sociedade; não pode portanto dar muito de si mesma a “seusamantes prediletos”; eles são apenas uma distração, uma trégua. Aliás, ela se encontra demasiado obcecada pela preocupação do êxito para esquecerde si mesma em um amor de verdade. Quanto às outras mulheres, muitas vezes as cortesãs as amam sensualmente; inimiga dos homens que lheimpõem domínio, ela encontrará nos braços de uma amiga um descanso voluptuoso e, ao mesmo tempo, uma vingança: assim é Nana ao lado de Satin.Do mesmo modo que deseja desempenhar no mundo um papel ativo a fim de empregar positivamente sua liberdade, compraz-se, também, em possuiroutros seres: rapazes muito jovens que ela se divertirá até em “ajudar” ou moças que de bom grado sustentará, junto das quais, em todo caso, será umpersonagem viril. Seja ou não homossexual, terá com o conjunto das mulheres as relações complexas de que falei: precisa delas como juízes etestemunhas, como confidentes e cúmplices, para criar esse “contrauniverso” que reclama toda mulher oprimida pelo homem. Mas a rivalidadefeminina atinge aqui seu paroxismo. A prostituta que faz comércio de sua generalidade tem concorrentes; mas há bastante trabalho para todas e,mesmo através de suas disputas, elas se sentem solidárias. A cortesã que procura “distinguir-se” é a priori hostil a quem almeja, como ela, um lugarprivilegiado. É neste caso que os temas conhecidos acerca das “maldades” femininas encontram toda a sua verd ade.A grande desgraça da cortesã provém de que não somente sua independência é o reverso mentiroso de mil dependências, mas ainda de que mesmoessa liberdade é negativa. Uma atriz como Raquel, uma dançarina como Isadora Duncan, ainda que auxiliadas por homens, têm um ofício que as exige eas justifica; elas alcançam, com um trabalho voluntário, querido, uma liberdade concreta. Mas, para a imensa maioria das mulheres, a arte, o ofício sãoapenas um meio; não empenham nisso projetos verdadeiros. O cinema, particularmente, que submete a vedette ao diretor, não lhe permite a invenção,os progressos de uma atividade criadora. Exploram o que ela é; ela não cria um objeto novo. E ainda, além disso, é muito difícil tornar-se uma vedette.Na “galanteria” propriamente dita, nenhum caminho se abre à transcendência. Aqui também o tédio acompanha o confinamento da mulher naimanência. Zola mostrou esse traço em Nana. Entretanto, em seu luxo, no meio dessa corte, Nana aborrecia-se mortalmente. Tinha homens para todos os minutos da noite e dinheiro até nas gavetas da sala de banho, mas


isso não a contentava mais, ela sentia como um vazio em algum lugar, um buraco que a fazia bocejar. Sua vida arrastava-se sem ocupação, trazendo de volta as mesmas horas monótonas... Essa certeza de que a alimentariam deixava-a deitada o dia inteiro, sem um esforço, adormecida no fundo desse temor e dessa submissão de convento, como que encerrada em seu ofício de prostituta. Matava o tempo com prazeres tolos, na sua única espera do homem. A literatura norte-americana descreveu cem vezes esse tédio que esmaga Hollywood e que desde o dia da chegada sufoca o viajante; os atores e osfigurantes aí se aborrecem, aliás, tanto quanto as mulheres cuja condição compartilham. Mesmo na França, as saídas oficiais assumem um caráter decorveia. O protetor que reina sobre a vida da starlet é um homem idoso, que tem por amigos homens de idade: suas preocupações são estranhas àjovem, suas conversas a aborrecem; há um fosso muito mais profundo ainda do que no casamento burguês entre a estreante de vinte anos e obanqueiro de 45, que passam dias e noites juntos.O moloch a quem a cortesã sacrifica prazer, amor, liberdade, é sua carreira. O ideal da matrona é uma felicidade estática que envolve suas relaçõescom o marido e os filhos. A “carreira” desenrola-se através do tempo, mas é contudo um objeto imanente que se resume em um nome. O nome crescenos cartazes e nas bocas à medida que, na escala social, degraus cada vez mais altos são vencidos. Segundo seu temperamento, a mulher administrasua empresa com prudência ou com audácia. Uma experimenta nisso as satisfações de dona de casa dobrando sua bela roupa branca no armário, outraa embriaguez da aventura. Ora a mulher se limita a manter sem cessar em equilíbrio uma situação ininterruptamente ameaçada e que por vezesdesmorona, ora ela edifica indefinidamente sua fama como uma torre de Babel visando em vão ao céu. Algumas, misturando a galanteria a outrasatividades, surgem como verdadeiras aventureiras: são espiãs, como Mata Hari, ou agentes secretas; não têm, em geral, a iniciativa de seus projetos,são antes instrumentos nas mãos dos homens. Mas, em conjunto, a atitude da cortesã tem analogias com a do aventureiro; como este, ela se encontramuitas vezes a meio caminho entre a seriedade e a aventura propriamente dita, ela visa a valores feitos, convencionais: dinheiro, glória; mas dá ao fatode os conquistar tanta importância quanto a própria posse; e, finalmente, o valor supremo a seus olhos é seu êxito subjetivo. Justifica, ela também, esseindividualismo por um niilismo mais ou menos sistemático, mas vivido ainda com maior convicção porque ela é hostil aos homens e vê inimigas nasoutras mulheres. Se é bastante inteligente para sentir a necessidade de uma justificação moral, invocará um nietzscheísmo mais ou menos bem-assimilado; afirmará o direito do ser de elite sobre o vulgar. Sua pessoa é para ela como um tesouro cuja simples existência é uma dádiva; de modo que,consagrando-se a si mesma, pretenderá servir a coletividade. O destino da mulher devotada ao homem é marcado pelo amor; a que explora o homemrepousa no culto que rende a si mesma. Se atribui tanta importância à sua glória, não é somente por interesse econômico: procura nisso a apoteose deseu narcisismo.


5/Da maturidade à velhice A História da mulher — pelo fato de se encontrar ainda encerrada em suas funções de fêmea — depende muito mais que a do homem de seu destinofisiológico; e a curva desse destino é mais ab-rupta, mais descontínua do que a curva do homem. Todo período da vida feminina é calmo e monótono:mas as passagens de um período para outro são de uma perigosa brutalidade; evidenciam-se através de crises muito mais decisivas do que no homem:puberdade, iniciação sexual, menopausa. Enquanto ele envelhece de maneira contínua, a mulher é bruscamente despojada de sua feminilidade; perde,jovem ainda, o encanto erótico e a fecundidade de que tirava, aos olhos da sociedade e a seus próprios olhos, a justificação de sua existência e suaspossibilidades de felicidade: cabe-lhe viver, privada de todo futuro, cerca de metade de sua vida de adulta.“A idade perigosa” é caracterizada por certas perturbações orgânicas,433 mas o que lhes dá importância é o valor simbólico de que se revestem. A criseé sentida de maneira muito menos aguda pelas mulheres que não apostaram particularmente na sua feminilidade; as que trabalham duramente — emseus lares ou fora deles — acolhem com alívio o desaparecimento da servidão menstrual; a camponesa, a mulher do operário, que uma nova gravidezameaça sem cessar, sentem-se felizes quando veem enfim esse risco evitado. Nessa conjuntura, como em muitas outras, é menos do próprio corpo queprovêm os incômodos da mulher que da consciência angustiada que tem deles. O drama moral inicia-se antes que os fenômenos fisiológicos se declareme termina quando eles já de há muito desapareceram.Muito antes da mutilação definitiva, a mulher sente-se obcecada pelo horror de envelhecer. O homem maduro acha-se empenhado emempreendimentos mais importantes que os do amor; seus ardores eróticos são menos vivos do que na mocidade; e como não lhe pedem as qualidadespassivas de um objeto, as alterações de seu rosto e de seu corpo não arruinam suas possibilidades de sedução. Ao contrário, é geralmente por volta dos35 anos que a mulher, tendo enfim superado todas as suas inibições atinge sua plena maturidade erótica: é então que seus desejos são mais violentos eque ela deseja mais ardentemente satisfazê-los; muito mais do que o homem, ela apostou nos valores sexuais que detém; para reter o marido, para seassegurar proteções, é necessário que agrade na maior parte dos ofícios que exerce; só lhe permitiram ter algum domínio sobre o mundo porintermédio do homem: o que lhe acontecerá quando não tiver mais domínio sobre este? É o que se pergunta ansiosamente enquanto assiste impotente àdegradação desse objeto de carne com o qual se confunde; luta, mas pintura, operações estéticas não podem senão prolongar sua juventudeagonizante. Pode trapacear com o espelho, mas quando se esboça o processo fatal, irreversível, que vai destruir nela todo o edifício construído durantea puberdade, sente-se tocada pela própria fatalidade da morte.Poderíamos acreditar que é a mulher que mais ardentemente se embriagou de sua beleza, de sua mocidade, quem conhece os piores desatinos; masnão; a narcisista preocupa-se demais com sua pessoa para não ter previsto a inelutável decadência e organizado posições de retirada. Sofrerá por certocom sua mutilação: mas não será pelo menos surpreendida e se adaptará depressa. A mulher que se esqueceu, que se dedicou, que se sacrificou ficarámuito mais desnorteada pela súbita revelação: “Tinha só uma vida para viver; eis meu quinhão, agora!” Para espanto dos que a cercam, produz-se nelaen tão uma mudança radical: desalojada de seus retiros, arrancada a seus projetos, acha-se colocada subitamente, sem ter para que apelar, em face desi mesma. Ultrapassado este marco contra o qual se chocou sem esperar, parece-lhe que não faz senão sobreviver a si mesma; seu corpo será sempromessa; os sonhos, os desejos que não realizou permanecerão para sempre insatisfeitos; é nesta nova perspectiva que se volta para o passado; échegado o momento de parar, de fazer as contas; é a hora do balanço. E ela se apavora com as estreitas limitações que a vida lhe infligiu. Em face dessahistória breve e decepcionante que foi a sua, reencontra as condutas da adolescente no limiar de um futuro ainda inacessível: recusa sua finidade; opõeà pobreza de sua existência a riqueza nebulosa de sua personalidade. Pelo fato de que, sendo mulher, suportou mais ou menos passivamente seudestino, parece-lhe que lhe roubaram suas possibilidades, que a enganaram, que escorregou da juventude para a maturidade sem ter tomadoconsciência disso. Descobre que seu marido, seu meio e suas ocupações não eram dignos dela; sente-se incompreendida. Isola-se do meio a que seconsidera superior; encerra-se com o segredo que traz no coração e é a chave misteriosa de seu destino infeliz; procura tornar a ponderar aspossibilidades que não esgotou. Põe-se a escrever um diário íntimo; se encontra confidentes compreensivos, expande-se em conversas indefinidas; erumina dias e noites suas queixas e seus ressentimentos. Como a moça que sonha com o que será seu futuro, ela evoca o que poderia ter sido o seupassado; revê as oportunidades que deixou escapar e forja belos romances retrospectivos. H. Deutsch cita o caso de uma mulher que rompera, muitojovem, um casamento infeliz e passara em seguida longos anos tranquila ao lado de um segundo marido; com 45 anos, pôs-se a sofrer com saudades doprimeiro marido e afundar-se na melancolia. As preocupações da infância e da puberdade reavivam-se, a mulher remói indefinidamente a história deseus jovens anos e sentimentos adormecidos pelos pais, irmãos, irmãs, amigos de infância, exaltam-se novamente. Por vezes, entrega-se a umamelancolia sonhadora e passiva. Mas, o mais das vezes, tenta bruscamente salvar sua existência falhada. Essa personalidade que acaba de descobrirpor contraste com a mesquinhez de seu destino, ela a exibe, louva-lhe os méritos, reclama imperiosamente que lhe façam justiça. Amadurecida pelaexperiência, pensa que é capaz enfim de se valorizar; gostaria de recomeçar. Antes de tudo, procura deter o tempo num esforço patético. Uma mulhermaternal afirma que pode ainda conceber; procura apaixonadamente criar vida mais uma vez. Uma mulher sensual esforça-se por conquistar um novoamante. A coquete mostra-se, mais do que nunca, ávida de agradar. Declaram toda s que nunca se sentiram tão jovens. Querem persuadir os outros deque a passagem do tempo não as atingiu efetivamente, põem-se a “vestir-se como jovens”, adotam mímicas infantis. A mulher que envelhece sabe muitobem que se deixa de ser um objeto erótico não é somente porque sua carne não oferece mais ao homem riquezas frescas: é também porque seupassado, sua experiência fazem dela, queira ou não, uma pessoa; lutou, amou, quis, sofreu, gozou por sua conta: esta autonomia a intimida; procurarenegá-la; exagera sua feminilidade, enfeita-se, perfuma-se, faz-se toda encanto, graça, pura imanência; admira com um olhar ingênuo e entonaçõesinfantis o interlocutor masculino, evoca com volubilidade suas recordações de menina; ao invés de falar, cacareja, bate palmas, ri às gargalhadas. Écom uma espécie de sinceridade que representa essa comédia. Pois o interesse novo que dedica a si mesma, o desejo de se arrancar às antigas rotinas ede partir novamente dão-lhe a impressão de que recomeça.Em verdade, não se trata de uma partida verdadeira; ela não descobre, no mundo, objetivos para os quais possa projetar-se num movimento livre eeficiente. Sua agitação assume uma forma excêntrica, incoerente e vã porque só se destina a compensar simbolicamente os erros e fracassos dopassado. Entre outras coisas, a mulher se esforçará por realizar, antes que seja tarde demais, todos os seus desejos de criança e de adolescente: umavolta ao piano, outra dedica-se à escultura, ou a escrever, a viajar, aprende a esquiar ou línguas estrangeiras. Tudo o que recusara voluntariamente atéentão, ela resolve — antes que seja tarde demais — acolher. Confessa sua repugnância por um marido que tolerava antes e torna-se frígida nos seusbraços; ou, ao contrário, entrega-se a ardores que refreava; exaspera o marido com exigências, retorna à prática da masturbação, abandonada desde ainfância. As tendências homossexuais — que existem de um modo larvar em quase todas as mulheres — manifestam-se. Muitas vezes, o alvo dessastendências transfere-as para a filha; mas por vezes, também, é em relação a uma amiga que nascem sentimentos insólitos. Em sua obra Sex, Life andFaith, Rom Landau conta a história seguinte, que lhe foi confiada pela interessada: Mme X... aproximava-se dos cinquenta anos; casada há 25, mãe de três filhos adultos, ocupando uma posição proeminente nas organizações sociais e caritativas de sua cidade, encontrou em Londres uma mulher dez anos mais jovem e que, como ela, se dedicava a atividades sociais. Tornaram-se amigas e Mlle Y... ofereceu-lhe hospedagem para a viagem seguinte. Mme X... aceitou e, na segunda noite de sua estada, surpreendeu-se subitamente beijando apaixonadamente sua hospedeira: afirmou várias vezes não ter tido a menor ideia de como a coisa acontecera; passou a noite com a amiga e voltou para casa aterrorizada. Até então ignorava tudo da homossexualidade, não sabia sequer que “semelhante coisa” pudesse existir. Pensava em Mlle Y... com paixão e, pela primeira vez na vida, achou as carícias e o beijo cotidiano do marido pouco agradáveis. Resolveu rever a amiga para “tirar a limpo” as coisas e sua paixão aumentou ainda mais; essas relações enchiam-na de alegrias que jamais conhecera. Mas sentia-se atormentada pela ideia de ter cometido um pecado e consultou um médico, a fim de saber se havia uma “explicação científica” para seu estado e se este podia ser justificado por algum argumento moral. Neste caso, o sujeito cedeu a um impulso espontâneo e ficou ele próprio profundamente desnorteado. Mas, muitas vezes, é de forma deliberada que amulher procura viver os romances que não conheceu, que dentro em breve não poderá mais conhecer. Afasta-se do lar, ou porque lhe parece indignodela, que deseja a solidão, ou porque busca a aventura. Se a encontra, lança-se a ela avidamente. Assim ocorre nesta história narrada por Stekel:


Mme B. Z. tinha quarenta anos, três filhos e atrás de si vinte anos de vida conjugal, quando começou a pensar que era incompreendida, que fracassara na vida; dedicou-se a diversas atividades novas e, entre outras, esquiar nas montanhas; aí encontrou um homem de trinta anos, de quem se tornou amante; mas, dentro em breve, ele se apaixonou pela filha de Mme B. Z.; ela consentiu em que se casassem, para guardar junto de si o amante; havia entre a mãe e a filha um amor homossexual inconfessado, mas muito vivo, que explica em parte a decisão. Entretanto, a situação logo se tornou intolerável, o amante deixando algumas vezes o leito da mãe durante a noite para ir ter com a filha. Mme B. Z. tentou suicidar-se. Foi então — tinha 46 anos — que se tratou com Stekel. Decidiu-se por uma ruptura e a filha, por seu turno, renunciou a seu projeto de casamento. Mme B. Z. voltou a ser, então, uma esposa exemplar e mergulhou na devoção. A mulher sobre quem pesa uma tradição de decência e de honestidade nem sempre chega aos atos. Mas seus sonhos povoam-se de fantasias eróticasque ela também suscita durante a vigília; manifesta uma ternura exaltada e sensual pelos filhos, nutre acerca do filho obsessões incestuosas, apaixona-se secretamente por um rapaz após outro; como a adolescente, é obcecada por ideias de violação; conhece igualmente a vertigem da prostituição; nelatambém a ambivalência de seus desejos e temores engendra uma ansiedade que por vezes provoca neuroses: escandaliza seus parentes com condutasestranhas que, na verdade, traduzem sua vida imaginária.A fronteira entre o imaginário e o real é ainda mais indecisa nesse período turvo do que na puberdade. Um dos traços mais marcados na mulher queenvelhece é o sentimento de despersonalização que a faz perder todos os pontos de referência objetivos. As pessoas que, em plena saúde, viram amorte de muito perto, dizem ter experimentado uma curiosa impressão de desdobramento; quando a gente sente consciência, atividade, liberdade, oobjeto passivo cuja fatalidade está em jogo apresenta-se necessariamente como um outro: não é meu eu que um automóvel atropela; não sou eu essamulher velha que o espelho reflete. A mulher que “nunca se sentiu tão jovem” e que nunca se viu tão idosa não consegue conciliar esses dois aspectosde si mesma; é em sonho que o tempo passa, que ele a corrói. Assim, a realidade dissipa-se e se ameniza: ao mesmo tempo não se distingue muito bemda ilusão. A mulher confia em suas evidências interiores, mais do que nesse estranho mundo em que o tempo avança recuando, em que seu duplo nãose parece mais com ela, em que os acontecimentos a traíram. Por isso, está ela predisposta aos êxtases, às iluminações, aos delírios. E como o amor éentão mais do que nunca sua preocupação essencial, é normal que se entregue à ilusão de que é amada. Nove em dez dos erotômanos são mulheres,quase todas de quarenta a cinquenta anos.Entretanto, não é dado a toda gente transpor tão ousadamente o muro da realidade. Frustradas mesmo em seus sonhos, muitas mulheres procuramauxílio junto de Deus, contra todo o amor humano; é no momento da menopausa que a coquete, a apaixonada, a devassa se fazem devotas; as vagasideias de destino, de segredo, de personalidade incompreendida, que a mulher acaricia à beira de seu outono, encontram na religião uma unidaderacional. A devota considera sua vida fracassada como uma provação enviada pelo Senhor; sua alma extraiu da infelicidade méritos excepcionais quelhe outorgam a graça singular de ser visitada por Deus; ela acreditará de bom grado que o céu lhe envia iluminações ou até — como Mme Krüdener —que a encarrega imperiosamente de uma missão. Tendo mais ou menos perdido o sentido do real, a mulher é acessível a todas as sugestões duranteessa crise: um mentor está bem-colocado para assumir uma ascendência profunda sobre sua alma. Ela acolherá também com entusiasmo asautoridades mais contestadas; é uma presa de antemão designada às seitas religiosas, aos espíritos, aos profetas, aos curandeiros, a todos oscharlatães. Isso não somente porque perdeu todo senso crítico, ao perder o contato com o mundo dado, mas também porque está ávida de uma verdadedefinitiva. Precisa de um remédio, de uma fórmula, da chave que bruscamente a salvará, salvando o universo. Despreza mais do que nunca uma lógicaque evidentemente não poderia aplicar-se a seu caso particular; só lhe parecem convincentes os argumentos que lhe são especialmente destinados: asrevelações, as inspirações, as mensagens, os sinais, e até os milagres põem-se a florescer ao redor dela. Suas descobertas levam-na por vezes aoscaminhos da ação: lança-se a negócios, empreendimentos, aventuras cuja ideia lhe foi insuflada por algum conselheiro ou alguma voz interior. Porvezes, limita-se a sagrar-se detentora da verdade e da sabedoria absoluta. Ativa ou contemplativa, sua atitude acompanha-se de exaltações febris. Acrise da menopausa corta em dois, brutalmente, a vida feminina; é essa descontinuidade que dá à mulher a ilusão de uma “vida nova”; é outro tempoque se abre diante dela; aborda-o com o fervor da convertida, convertida ao amor, à vida, a Deus, à humanidade; nestas entidades, perde-se emagnifica-se. Morreu e ressuscitou, encara a terra com um olhar que desvendou os segredos do além e crê levantar voo para píncaros intocados.Mas a terra não muda; os cimos continuam inatingíveis; as mensagens recebidas — ainda que numa deslumbrante evidência — decifram-se mal; asluzes interiores apagam-se; sobra diante do espelho uma mulher que envelheceu mais um dia desde a véspera. Aos momentos de fervor sucedemmornas horas de depressão. O organismo indica esse ritmo, pois a diminuição das secreções hormonais é compensada por uma superatividade dahipófise; mas é principalmente a situação psicológica que comanda essa alternância. Porque a agitação, as ilusões, o fervor são apenas uma defesacontra a fatalidade do que foi. Novamente a angústia sufoca quem já tem a vida consumida sem que a morte a acolha. Em lugar de lutar contra odesespero, ela escolhe frequentemente intoxicar-se com ele. Remói queixas, saudades e recriminações; imagina maquinações tenebrosas da parte dosvizinhos e dos parentes; se tem uma irmã ou uma amiga de sua idade associada a sua vida, constroem por vezes, em conjunto, delírios de perseguição.Mas principalmente põe-se a alimentar contra o marido um ciúme mórbido: tem ciúme dos amigos, das irmãs, do trabalho dele; e, com ou sem razão,acusa alguma rival de ser responsável por todos esses males. É entre cinquenta e 55 anos que os casos patológicos de ciúmes são mais numerosos.As dificuldades da menopausa prolongam-se em certos casos até a morte, na mulher que não se conforma com envelhecer. Se não tiver outros recursossenão a exploração de seus encantos, lutará com unhas e dentes para os conservar; lutará também ferozmente, se seus desejos sexuais continuaremvivos. O caso não é raro. Perguntaram à princesa de Metternich em que idade uma mulher deixa de ser atormentada pela carne: “Não sei, respondeu,só tenho 65 anos.” O casamento que, segundo Montaigne, apenas oferece à mulher “um ligeiro refresco”, torna-se um remédio dia a dia maisinsuficiente à medida que ela envelhece; muitas vezes a mulher paga na maturidade as resistências, a frieza da juventude; quando começa a conhecer,enfim, as febres do desejo, o marido de há muito já se resignou à sua indiferença: ele se arranjou. Despojada de seus atrativos pelo hábito e o tempo, aesposa tem bem poucas possibilidades de reacender a chama conjugal. Despeitada, decidida a “viver sua vida”, terá menos escrúpulos do que antes —se jamais os teve — em arranjar amantes; mas ainda assim será preciso que eles queiram; é uma caçada ao homem. Ela emprega mil ardis; fingindooferecer-se, impõe-se; faz armadilhas da polidez, da amizade, da gratidão. Não é somente por gosto pela carne jovem que se volta para os rapazes; édeles somente que pode esperar essa ternura desinteressada que o adolescente experimenta por uma amante maternal; ela própria tornou-se agressiva,dominadora; é a docilidade de Chéri que satisfaz Léa, tanto quanto a beleza dele. Mme de Staël, depois dos quarenta, escolhia pajens que esmagavacom seu prestígio; e, além disso, um homem tímido, noviço, é mais fácil de ser capturado. Quando sedução e ardis se revelam realmente ineficientes,resta um recurso à obstinada: pagar. O conto das “faquinhas”, popular durante a Idade Média, ilustra o destino dessas ogras insaciáveis: uma jovemmulher, em paga de seus favores, pedia a cada um de seus amantes uma faquinha que colocava num armário; um dia o armário ficou cheio: mas nessemomento foram os amantes que se puseram a reclamar uma faquinha depois de cada noite de amor; dentro de pouco tempo o armário esvaziou-se —todas as faquinhas foram devolvidas e foi preciso comprar outras. Certas mulheres encaram a situação com cinismo; já deram o que podiam, cabe-lhesagora devolver as faquinhas. O dinheiro pode mesmo desempenhar a seus olhos o papel inverso do que representa para a cortesã, mas é igualmentepurificador: transforma o homem em um instrumento e permite à mulher essa liberdade erótica que seu jovem orgulho recusava antes. Porém, maisromanesca do que lúcida, a amante-benfeitora tenta muitas vezes comprar uma miragem de ternura, admiração, respeito; persuade-se mesmo de quedá pelo prazer de dar, sem que nada lhe seja pedido: aqui também um jovem é um amante ideal, porquanto pode ufanar-se com ele de umagenerosidade maternal; e depois ele tem um pouco desse “mistério”, que o homem também pede à mulher que ele “ajuda”, porque assim a crueza donegócio se mascara de enigma. Mas é raro que a má-fé seja clemente durante muito tempo; a luta dos sexos transforma-se em duelo entre o exploradore o explorado, no qual a mulher, desiludida, humilhada, se arrisca a sofrer cruéis derrotas. Prudente, se resignará a “depor as armas”, sem esperarmuito, ainda que todos os seus ardores não se tenham ainda extinguido.A partir do dia em que a mulher consente em envelhecer, sua situação muda. Até então era uma mulher ainda jovem, encarniçada em lutar contra ummal que misteriosamente a enfeiava e deformava. Ela torna-se um ser diferente, assexuado mas acabado: uma mulher de idade. Pode-se considerarentão que a crise da menopausa terminou. Mas não se deve concluir disso que lhe será fácil viver doravante. Quando renunciou a lutar contra afatalidade do tempo, outra luta se inicia: é preciso que conserve um lugar na terra.É em seu outono, em seu inverno, que a mulher se liberta de suas cadeias; invoca o pretexto da idade para esquivar-se das tarefas que lhe pesam;conhece demasiado o marido para se deixar ainda intimidar por ele, evita-lhe as carícias, ao seu lado, na amizade, na indiferença ou na hostilidade,constrói uma vida própria. Se ele declina mais depressa, ela assume o comando. Pode também permitir-se enfrentar a moda, a opinião; furta-se àsobrigações mundanas, aos regimes e às preocupações com a beleza: assim é Léa, que Chéri reencontra liberta das costureiras, dos cabeleireiros ebeatamente instalada na gulodice. Quanto aos filhos, suficientemente grandes para prescindir dela, casam-se, deixam o lar. Dispensada de seusdeveres, ela descobre enfim sua liberdade. Infelizmente, na história de cada mulher repete-se o fato que constatamos durante a história da mulher: eladescobre essa liberdade no momento em que não encontra mais o que fazer com ela. Essa repetição nada tem de um acaso: a sociedade patriarcal deua todas as funções femininas a figura de uma servidão; a mulher só escapa da escravidão no momento em que perde toda a eficiência. Por volta doscinquenta anos, está em plena posse de suas forças, sente-se rica de experiências; é mais ou menos nessa idade que o homem ascende às mais altasposições, aos cargos mais importantes: quanto a ela, ei-la aposentada. Só lhe ensinaram a dedicar-se e ninguém reclama mais sua dedicação. Inútil,injustificada, contempla os longos anos sem promessa que lhe restam por viver e murmura: “Ninguém precisa de mim!”Não se resigna imediatamente. Por vezes apega-se com desespero ao marido; exaspera-o com cuidados mais imperiosamente do que nunca; mas arotina da vida conjugal está estabelecida muito bem; sabe que de há muito não é mais necessária ao marido, ou ele não lhe parece mais bastanteprecioso para justificá-la. Assegurar a manutenção da vida em comum é uma tarefa tão contingente quanto a de velar solitariamente sobre si mesma. Épara os filhos que se voltará esperançosa: para eles o jogo ainda não está feito; o mundo, o futuro oferecem-se a eles; gostaria de precipitar-se com seusfilhos nesse futuro. A mulher que teve a sorte de gerar numa idade avançada acha-se privilegiada: é ainda uma jovem mãe no momento em que asoutras se fazem avós. Mas em geral entre quarenta e cinquenta anos a mãe vê seus filhos transformarem-se em adultos. É no instante em que lheescapam que ela se esforça com paixão para sobreviver através deles.


Sua atitude é diferente, segundo espere sua salvação de um filho ou de uma filha; é naquele que põe geralmente sua mais ávida esperança. Ei-lo quevem finalmente a ela do fundo do passado, o homem cujo aparecimento maravilhoso ela escrutava no horizonte; desde os primeiros vagidos do recém-nascido, ela esperou esse dia em que ele lhe daria todos os tesouros com que o pai não a soube satisfazer. Entrementes, ela lhe deu bons tabefes epurgantes mas os esqueceu. O filho que tivera no ventre já era um desses semideuses que governam o mundo e o destino das mulheres: agora ele vaireconhecê-la na glória de sua maternidade. Vai defendê-la contra a supremacia do esposo, vingá-la dos amantes que teve e dos que não teve, será seulibertador, e quem a salvará. Ela reencontra diante dele as condutas de sedução da moça à espera do Príncipe Encantado; pensa, quando passeia aolado dele, elegante, atraente ainda, que parece “uma irmã mais velha”; fica encantada se — tomando por modelo os heróis dos filmes norte-americanos— ele brinca com ela e a sacode um pouco, sorridente e respeitoso: é com orgulhosa humildade que reconhece a superioridade viril daquele quecarregou em seus flancos. Em que medida se pode qualificar tais sentimentos de incestuosos? É certo que, quando se imagina complacentementeapoiada aos braços do filho, a expressão “irmã mais velha” traduz pudicamente fantasmas equívocos; quando dorme, quando não se controla, seusdevaneios conduzem-na por vezes muito longe; mas já disse que sonhos e fantasmas estão muito longe de exprimir sempre o desejo escondido de umato real: muitas vezes eles se bastam, são a realização acabada de um desejo que só reclama uma satisfação imaginária. Quando a mãe brinca demaneira mais ou menos velada de ver no filho um amante, trata-se unicamente de um jogo. O erotismo propriamente dito ocupa pouco lugar nessecasal. Mas é um casal; é no fundo de sua feminilidade que a mãe saúda no filho o homem soberano; entrega-se nas mãos dele com tant o fervor quantoa mulher apaixonada, e, em troca desse dom, espera ser içada à direita do Deus. Para obter essa assunção, a apaixonada invoca a liberdade do amante:assume generosamente um risco; paga-o com suas exigências ansiosas. A mãe estima que adquiriu direitos sagrados pelo simples fato de conceber; nãoespera que o filho se reconheça nela para encará-lo como sua criatura, seu bem; é menos exigente do que a amante porque é de uma má-fé maistranquila; tendo fabricado uma carne, faz sua uma existência de cujos atos, obras e méritos se apropria. E, exaltando seu fruto, é sua própria pessoaque ergue às nuvens.Viver por procuração é sempre um expediente precário. As coisas podem não acontecer como se desejou. Ocorre muitas vezes que o filho não passe deum vagabundo, de um moleque, de um fracassado, de um ingrato. A mãe tem suas ideias próprias acerca do herói que ele deve encarnar. Nada maisraro do que aquela que respeita autenticamente a pessoa humana no filho, que lhe reconhece a liberdade até nos fracassos, que com ele assume osriscos que todo empenho implica. Encontram-se muito mais comumente êmulos daquela espartana tão louvada que condena displicentemente o filho àglória ou à morte; o que o filho tem que fazer na Terra é justificar a existência da mãe, apossando-se, em proveito de ambos, dos valores que ela própriarespeita. A mãe exige que os projetos do filho-deus sejam conformes a seu próprio ideal e que o êxito lhe seja assegurado. Toda mulher quer gerar umherói, um gênio; mas todas as mães de heróis, de gênios, começaram por proclamar que eles lhes partiam o coração. É contra sua mãe que o homem omais das vezes conquista os troféus com que ela sonhava adornar-se e que ela não reconhece quando ele os joga a seus pés. Mesmo se aprova emprincípio os empreendimentos do filho, ela é atormentada por uma contradição análoga à que tortura a mulher que ama. Para justificar sua vida — e ade sua mãe —, é preciso que ele a supere por um fim; para atingi-lo, é levado a comprometer a saúde, a correr riscos: mas ele contesta o valor do domque lhe fez a mãe quando coloca certos objetivos acima do simples fato de viver. Ela se escandaliza com isso; ela só reina sobre o homem comosoberana se essa carne que gerou é para ele o bem supremo; não tem o filho o direito de destruir essa obra que ela realizou no sofrimento. “Vais tecansar, vais ficar doente, vai te acontecer uma desgraça”, berra-lhe sem cessar aos ouvidos. Entretanto, ela bem sabe que viver não basta, senão atéprocriar seria supérfluo; ela é a primeira a se irritar se o filho é um preguiçoso, um covarde. Nunca ela descansa. Quando ele parte para a guerra, amãe quer que volte vivo mas condecorado. Deseja que tenha êxito na carreira, mas receia que se exceda. O que quer que ele faça, é sempre compreocupação que ela assistirá, impotente, ao desenrolar de uma história que é a sua própria mas que não comanda. Tem medo de que ele siga porcaminho errado, medo de que não vença, medo de que, vencendo, caia doente. Ainda que tenha inteira confiança nele, a diferença de idade e de sexonão permite que estabeleça entre mãe e filho uma verdadeira cumplicidade; ela não está a par dos trabalhos dele; nenhuma colaboração lhe ésolicitada.Por isso, mesmo admirando o filho com orgulho desmedido, a mãe permanece insatisfeita. Acreditando ter gerado não somente uma carne mas aindafundado uma existência absolutamente necessária, ela sente-se retrospectivamente justificada; mas direitos não são uma ocupação: ela precisa, paraencher seus dias, perpetuar sua ação benéfica; quer sentir-se indispensável a seu deus; a mistificação da dedicação acha-se neste caso denunciada damaneira mais brutal: a esposa vai despojá-la de suas funções. Descreveu-se muitas vezes a hostilidade que ela experimenta em relação a essa estranhaque lhe “toma” o filho. A mãe elevou a facticidade contingente do parto à altura de um mistério divino: recusa-se a admitir que uma decisão humanapossa ter mais peso. A seus olhos os valores já estão feitos, procedem da natureza, do passado; ela desconhece o preço de um relacionamento livre. Seufilho deve-lhe a vida; o que ele deve a essa mulher que ainda ontem ignorava? Foi através de algum malefício que ela o persuadiu da existência de umlaço que até então não existia; é intrigante, interesseira, perigosa. A mãe espera com impaciência que a impostura seja descoberta; encorajada pelovelho mito da boa mãe de mãos consoladoras, que trata dos ferimentos infligidos pela mulher má, ela espia no rosto do filho os sinais da infelicidade;descobre-os mesmo quando ele os nega; queixa-se enquanto ele não se queixa de nada; ela fiscaliza a nora, critica-a, a todas as inovações dela opõe opassado, o costume que condenam a própria presença da intrusa. Cada qual entende a seu modo a felicidade do bem-amado; a mulher quer ver neleum homem através de quem dominará o mundo; a mãe tenta, para conservá-lo, trazê-lo de volta à infância; aos projetos da jovem mulher que esperaque o marido se torne rico ou importante, ela opõe as leis de sua imutável essência: ele é frágil, não deve se sobrecarregar. O conflito entre o passado eo futuro exaspera-se quando a recém-chegada engravida. “O nascimento dos filhos é a morte dos pais”; é então que esta verdade assume toda a suaforça cruel: a mãe que esperava sobreviver no filho compreende que ele a condena à morte. Ela deu a vida; a vida vai prosseguir sem ela; ela não émais a Mãe: apenas um elo da cadeia; ela cai do céu dos ídolos intemporais; não passa agora de um indivíduo acabado, prescrito. É então que nos casospatológicos seu ódio se exaspera até acarretar uma neurose ou conduzi-la ao crime; foi quando a gravidez da nora se verificou que Mme Lefevbre,depois de a ter detestado durante muito tempo, resolveu assassiná-la.434Normalmente a avó domina sua hostilidade; por vezes obstina-se em ver no recém-nascido o filho de seu filho, e ama-o tiranicamente; mas geralmente ajovem mãe e a mãe desta o reivindicam; ciumenta, a avó nutre pelo bebê uma dessas afeições ambíguas em que a inimizade se dissimula sob a figura daansiedade.A atitude da mãe em relação à filha adulta é muito ambivalente: no filho é um deus que procura; na filha encontra um duplo. O “duplo” é umpersonagem ambíguo: assassina aquele de quem emana, como se vê nos contos de Poë, no Retrato de Dorian Grey, na história que conta MarcelSchwob. Assim a filha, tornando-se mulher, condena a mãe à morte; e, no entanto, permite-lhe sobreviver a si mesma. As condutas da mãe são muitodiferentes segundo apreende, no desenvolvimento do filho, uma promessa de ruína ou de ressurreição.Muitas mães retesam-se na hostilidade; não aceitam ser suplantadas pela ingrata que lhes deve a vida; insistiu-se muitas vezes sobre o ciúme dacoquete pela adolescente que lhe denuncia os artifícios: aquela que detestou uma rival em toda mulher detestará a rival até em sua filha; afasta-se delaou a sequestra, ou se empenha em lhe recusar quaisquer possibilidades. Quem se glorificava de ser, de maneira exemplar e única, a Esposa, a Mãe, nãorecusa menos ferozmente deixar-se destronar; continua a afirmar que a filha é apenas uma criança, considera os empreendimentos dela como um jogopueril; é jovem demais para se casar, frágil demais para procriar; se se obstina em querer um marido, um lar, filhos, é simplesmente por afetação;incansavelmente, a mãe critica, zomba, ou vaticina desgraças. Se lhe permitem, condena a filha a uma eterna infância; se não, tenta arruinar essa vidaadulta que a outra pretende se atribuir. Vimos que muitas vezes o consegue: muitas jovens mulheres permanecem estéreis, abortam, mostram-seincapazes de amamentar e educar os filhos, de dirigir a casa por causa dessa influência maléfica. Sua vida conjugal revela-se impossível. Infelizes,isoladas, só encontram refúgio nos braços soberanos da mãe. Se lhe resistem, um conflito perpétuo as oporá uma a outra; a mãe frustrada transportaem grande parte para o genro a irritação que provoca nela a insolente independência da filha.A mãe que se identifica apaixonadamente com a filha não é menos tirânica; o que quer é, munida de sua experiência madura, recomeçar a juventude;assim salvará seu passado se salvando dele; escolherá ela própria um genro de acordo com o marido sonhado que não teve; coquete, meiga, imaginaráde bom grado que é a ela que, em alguma região secreta do coração, ele desposa; através da filha satisfará seus velhos desejos de riqueza, de êxito, deglória. Foram muitas vezes descritas essas mulheres que “empurram” fogosamente as filhas pelos caminhos da galanteria, do cinema, do teatro; apretexto de vigiá-las, apropriam-se de sua vida: citaram-me algumas que chegam a enfiar em suas camas os pretendentes à jovem. Mas é raro que estasuporte indefinidamente tal tutela; no dia em que tiver encontrado marido ou protetor sério, se rebelará. A sogra que começara por adorar o genrotorna-se então hostil a ele; geme sobre a ingratidão humana, apresenta-se como vítima; torna-se por sua vez uma mãe inimiga. Pressentindo essasdecepções, muitas mulheres encerram-se na indiferença quando veem os filhos crescer, mas disso tiram então pouca alegria. É preciso à mãe umamistura rara de generosidade e de desapego para encontrar na vida dos filhos um enriquecimento, sem se tornar tirana nem os transformar emcarrascos.Os sentimentos da avó em relação aos netos prolongam os que ela dedica à filha: frequentemente transfere para eles sua hostilidade. Não é somentepor preocupação com a opinião pública que tantas mulheres obrigam a filha seduzida a abortar, a abandonar o filho, a suprimi-lo: são muito felizes porproibir-lhes a maternidade; obstinam-se em querer deter para si mesmas esse privilégio. Mesmo à mãe legítima, aconselharão de bom grado aabortarem, a não amamentarem, a afastarem-no. Com sua indiferença, negarão essa pequena existência impudente; ou então estarão incessantementeocupadas em ralhar com a criança, castigá-la e até maltratá-la. Ao contrário, a mãe que se identifica com a filha acolhe muitas vezes os filhos desta commaior ansiedade do que a jovem mulher: esta está desnorteada com a chegada do pequeno desconhecido; a avó reconhece-o: recua vinte anos notempo, torna a ser uma jovem parturiente; todas as alegrias da posse e do domínio, que de há muito seus filhos não lhe davam mais, são-lhe devolvidas,todos os desejos de maternidade a que renunciara no momento da menopausa são milagrosamente satisfeitos; é ela a verdadeira mãe, assume oencargo do bebê com autoridade e, se ele lhe for entregue, a ele se dedicará com paixão. Infelizmente para a avó, a jovem mãe faz questão de afirmarseus direitos: a avó é tão somente autorizada a desempenhar o papel de assistente que outrora as mais velhas desempenharam junto dela; sente-sedestronada; e depois é preciso contar com a mãe do genro de quem, naturalmente, tem ciúmes. O despeito perverte muitas vezes o amor espontâneoque a princípio devotava à criança. A ansiedade que frequentemente se observa nas avós traduz a ambivalência de seus sentimentos: adoram o bebê namedida em que lhes pertence, são hostis ao pequeno que também é estranho a elas, têm vergonha dessa inimizade. Entretanto se, renunciando a


possuí-los inteiramente, a avó conserva pelos netos uma verdadeira afeição, pode desempenhar na vida deles um papel privilegiado de divindadetutelar: não se reconhecendo nem direitos nem responsabilidades, ama-os com uma generosidade pura; não acarinha sonhos narcisistas através deles,não lhes pede nada, não os sacrifica a um futuro a que não estará presente; o que adora são os pequenos seres de carne e osso que hoje se acham à suafrente, em sua contingência e em sua gratuidade; não é uma educadora; não encarna a justiça abstrata, a lei. Daí é que virão os conflitos que por vezesa opõem aos pais.Em certos casos a mulher não tem descendentes ou não se interessa pela posteridade; na ausência de laços naturais com filhos ou netos, ela tentaalgumas vezes criar artificialmente homólogos. Propõe aos jovens uma ternura maternal; quer sua afeição permaneça platônica ou não, não é somentepor hipocrisia que declara amar seu jovem protegido “como um filho”: os sentimentos maternos, inversamente, são amorosos. É verdade que os êmulosde Mme de Warens se comprazem em satisfazer, em ajudar, em formar um homem com generosidade: querem ser fonte, condição necessária,fundamento de uma existência que as ultrapassa; fazem-se mães e buscam-se em seu amante muito mais sob esse aspecto do que sob o aspecto de umaamante. Também constantemente são as filhas que a mulher maternal adota: ainda assim suas relações revestem formas mais ou menos sexuais; mas,platônica ou carnalmente, o que ela procura em suas protegidas é um duplo milagrosamente rejuvenescido. A atriz, a dançarina, a cantora tornam-sepedagogas: formam alunas; a intelectual — como Mme de Charrière na solidão de Colombier — doutrina discípulos; a devota reúne filhas espirituais emtorno de si. A mulher galante torna-se alcoviteira. Se emprestam a seu proselitismo tão ardoroso zelo, nunca é por simples interesse: procuramapaixonadamente reencarnar-se. Sua generosidade tirânica engendra mais ou menos os mesmos conflitos que entre a mãe e as filhas unidas pelos laçosdo sangue. É possível também adotar netos: as tias-avós, as madrinhas desempenham de bom grado um papel análogo ao das avós. Mas é, em todocaso, muito raro que a mulher encontre em sua posteridade — natural ou eleita — uma justificação para sua vida declinante: fracassa em se encarregarde uma dessas jovens existências. Ou se obstina em seu esforço por anexá-la, e se consome em lutas e dramas que a deixam desiludida, quebrada, ou seresigna a uma participação modesta. É o caso mais comum. A mãe envelhecida, a avó reprimem seus desejos dominadores, dissimulam seus rancores;contentam-se com o que os filhos consentem em dar-lhes. Mas então não encontram mais socorro neles. Continuam disponíveis diante do deserto dofuturo, presas da solidão, da saudade, do tédio.Abordamos aqui a lamentável tragédia da mulher idosa: ela sabe-se inútil; durante toda a sua vida, a mulher burguesa teve frequentemente queresolver o problema irrisório: como matar o tempo? Mas, uma vez educados os filhos, o marido instalado na vida, os dias não acabam mais. Os“trabalhos femininos” foram inventados a fim de dissimular essa horrível ociosidade; as mãos bordam, fazem tricô, mexem; não se trata de um trabalhode verdade porque o objeto produzido não é o fim visado; tem pouca importância e muitas vezes é um problema saber a que destiná-lo: livram-se deledando-o a uma amiga, a uma organização de caridade, atopetando lareiras e mesinhas; não é tampouco um jogo que revela, em sua gratuidade, a puraalegria de existir; e é apenas um álibi, porquanto o espírito permanece desocupado: é o divertimento absurdo tal qual o descreve Pascal; com a agulhaou o crochê, a mulher tece tristemente o próprio vazio de seus dias. A aquarela, a música, a leitura têm quase o mesmo papel; a mulher desocupada nãotenta, entregando-se a isso, adquirir um domínio sobre o mundo, busca apenas desentediar-se; uma atividade que não se abre para o futuro recai navaidade da imanência; a ociosa abre um livro, larga-o, abre o piano, fecha-o, volta a seu bordado, boceja e acaba por ligar o telefone. Com efeito, é navida mundana que ela prefere procurar socorro; sai, faz visitas, atribui — como Mrs. Dalloway — enorme importância a essas recepções; assiste a todosos casamentos, a todos os enterros; não tendo mais existência própria, nutre-se das presenças de outrem; de coquete, passa a comadre: observa,comenta; compensa sua inação dispersando em torno de si críticas e conselhos. Põe sua experiência a serviço de todos os que não lhe pedem nada. Setem meios organiza um salão: espera assim apropriar-se dos empreendimentos e êxitos alheios; sabe-se com que despotismo Mme du Deffand, MmeVerdurin governavam seus súditos. Ser um centro de atração, uma encruzilhada, uma inspiradora, criar um “ambiente” já é um sucedâneo da ação. Háoutras maneiras discretas de intervir no mundo; na França existem “obras” e algumas “associações” mas é principalmente na América do Norte que asmulheres se reúnem em clubes onde jogam bridge, distribuem prêmios literários e meditam sobre melhoramentos sociais. O que nos dois continentescaracteriza a maior parte dessas associações é que elas são, em si, sua própria razão de ser: os objetivos que pretendem visar são apenas pretextos. Ascoisas passam-se exatamente como no apólogo de Kafka:435 ninguém se preocupa em edificar a torre de Babel; em torno de sua localização idealconstrói-se uma vasta aglomeração que consome todas as forças em se administrar, em se ampliar, em resolver questões intestinas. Assim vivem assenhoras que se ocupam de obras, ordenando a maior parte do tempo sua organização; elegem uma diretoria, elaboram estatutos, discutem entre si erivalizam com uma associação similar; é preciso que não lhes roubem seus pobres, seus doentes, seus feridos, seus órfãos; preferirão deixá-los morrer acedê-los aos vizinhos. E estão muito longe de desejar um regime que, suprimindo as injustiças e os abusos, tornaria inútil sua dedicação; abençoam asguerras, as fomes que as transformam em benfeitoras da humanidade. É claro que, a seus olhos, xales e pacotes de presentes não se destinam aossoldados, nem aos esfaimados; estes é que são feitos de propósito para receber tricôs e pacotes.Apesar de tudo, alguns desses grupos alcançam resultados positivos. Nos Estados Unidos, a influência das Moms veneradas é poderosa; explica-sepelos lazeres que lhes proporciona uma existência parasitária: por isso é nefasta. “Não conhecendo nada de medicina, arte, ciência, religião, direito,saúde, higiene...”, diz Philipp Wyllie,436 falando da Mom norte-americana, “interessa-se raramente pelo que faz como membro de uma dessas inúmerasorganizações: basta-lhe que seja alguma coisa”. Seu esforço não se integra em um plano coerente e construtivo, não visa a fins objetivos: tende apenasa manifestar seus gostos, preconceitos ou a servir seus interesses. No terreno cultural, por exemplo, desempenham um papel considerável: são elas queconsomem maior número de livros; mas os leem como jogam uma paciência; a literatura assume seu sentido e dignidade quando se endereça aindivíduos empenhados em projetos, quando os ajuda a se ultrapassarem para horizontes mais amplos; cumpre que ela seja integrada no movimento datranscendência humana; ao passo que a mulher degrada livros e obras de arte dissipando-os em sua imanência; o quadro torna-se bibelô, a músicarefrão vulgar, o romance um devaneio tão vão quanto uma touca de crochê. São as americanas as responsáveis pelo aviltamento dos best-sellers: estesnão somente pretendem agradar, como também agradar a ociosas ávidas de evasão. Quanto ao conjunto de suas atividades, Philipp Wyllie assim asdefine: Aterrorizam os políticos até os levarem a um servilismo choroso e amedrontam os pastores; aborrecem os presidentes de bancos e destroem os diretores de escolas. A Mom multiplica as organizações cujo fim real é reduzir seus próximos a uma abjeta complacência para com seus desejos egoístas... expulsa da cidade e, se possível, do Estado, as jovens prostitutas... consegue que o ônibus passe por onde seja mais prático para ela do que para os operários... organiza quermesses e festas de caridade prodigiosas entregando a renda ao porteiro para que compre cerveja, a fim de tratar da ressaca dos membros da diretoria no dia seguinte... Os clubes fornecem à Mom oportunidades incalculáveis de enfiar o nariz nos negócios dos outros. Há muita verdade nesta sátira agressiva. Não sendo especializadas nem em política, nem em economia, nem em qualquer disciplina técnica, as velhassenhoras não têm nenhuma influência concreta na sociedade; ignoram os problemas que a ação coloca; são incapazes de elaborar algum programaconstrutivo. Sua moral é abstrata e formal como os imperativos de Kant; decretam proibições em vez de procurar descobrir os caminhos do progresso;não tentam criar positivamente situações novas; atacam as que já existem a fim de eliminar o mal que comportam; é o que explica que sempre secoliguem contra alguma coisa: contra o álcool, a prostituição, a pornografia; não compreendem que um esforço puramente negativo é destinado aofracasso como o provou na América o malogro da “lei seca” e na França a lei que Marthe Richard fez votar. Enquanto a mulher permanecer parasita,não poderá eficientemente participar da elaboração de um mundo melhor.Pode acontecer, apesar de tudo, que certas mulheres se empenhem de corpo e alma num empreendimento e tornem-se realmente ativas; então nãoprocuram apenas ocupar-se, visam também a certos fins; produtoras autônomas, evadem-se da categoria parasitária que aqui consideramos: mas essaconversão é rara. A maioria das mulheres, em suas atividades privadas ou públicas, visa não a um resultado a atingir e sim a se ocupar; e todaocupação é vã quando é apenas um passatempo. Muitas delas sofrem com isso; tendo atrás de si uma vida já acabada, conhecem o mesmodesnorteamento que os adolescentes cuja vida não se abriu ainda; nada as solicita, em torno de ambos é o deserto; em face de todas as açõesmurmuram: para quê? Mas o adolescente, queira ou não, é arrastado para uma vida de homem que lhe desvenda responsabilidades, objetivos, valores;é jogado no mundo, toma partido, empenha-se. A mulher idosa, se lhe sugerem que parta novamente para o futuro, responde: tarde demais. Não porqueo tempo seja agora medido: uma mulher é aposentada muito cedo; mas falta-lhe o entusiasmo, a confiança, a esperança, a cólera que lhe permitiriamdescobrir novos objetivos ao redor de si. Ela se refugia na rotina que sempre constituiu seu quinhão; faz da repetição um sistema, entrega-se a maniascaseiras; afunda cada vez mais profundamente na devoção; encerra-se no estoicismo como Mme de Charrière. Torna-se seca, indiferente, egoísta.É justamente no fim da vida, quando renunciou à luta, quando a aproximação da morte a liberta da angústia do futuro que a mulher velha encontrageralmente a serenidade. Muitas vezes o marido é mais idoso, ela assiste à sua decadência com silenciosa complacência: é sua revanche; se ele morreem primeiro lugar, ela suporta displicentemente o luto; observou-se mais de uma vez que os homens ficam muito mais acabrunhados com uma viuveztardia, tiram do casamento maiores benefícios do que as mulheres, principalmente na velhice, porque então o universo se concentrou dentro dos limitesdo lar; os dias presentes não transbordam mais sobre o futuro; ela é quem lhes garante o ritmo monótono e sobre eles reina. Quando p erde suasfunções públicas, o homem torna-se totalmente inútil; a mulher conserva pelo menos a direção da casa; ela é necessária ao marido ao passo que ele ésomente importuno. De sua independência, orgulham-se as mulheres; põem-se afinal a olhar o mundo com os próprios olhos; dão-se conta de que foramiludidas e mistificadas durante toda a vida; lúcidas, desconfiadas, atingem frequentemente um cinismo saboroso. Em particular, a mulher que “viveu”tem um conhecimento dos homens que nenhum homem compartilha; porque ela não viu sua figura pública e sim o indivíduo contingente, que cada qualresolve ser na ausência de seus semelhantes; ela conhece também as mulheres que só se mostram em sua espontaneidade a outras mulheres; conheceo inverso do cenário. Mas, se sua experiência permite-lhe denunciar mistificações e mentiras, não basta porém para lhe revelar a verdade. Divertida ouamarga, a sabedoria da mulher velha permanece ainda inteiramente negativa: é contestação, acusação, recusa; é estéril. Em seus pensamentos, comoem seus atos, a mais alta forma de liberdade que a mulher parasita pode conhecer é o desafio estoico ou a ironia cética. Em nenhuma idade de sua vidaela consegue ser ao mesmo tempo eficiente e independente.


6/Situação e caráter da mulher Hoje nos é possível compreender por que, nos requisitórios contra a mulher, dos gregos aos nossos dias, se encontram tantos traços comuns; suacondição permaneceu a mesma através de mudanças superficiais e define isso que se chama o “caráter” da mulher: esta “chafurda na imanência”, éprudente e mesquinha, tem espírito de contradição, não tem o senso da verdade nem da exatidão, carece de moralidade, é baixamente utilitária,mentirosa, comediante, interesseira... Há em todas estas afirmações uma verdade. Só que as condutas que se denunciam não são ditadas à mulherpelos seus hormônios nem prefiguradas nos compartimentos de seu cérebro: são marcadas pela sua situação. Dentro desta perspectiva, tentaremosesboçar um panorama sintético que nos obrigará a certas repetições, mas que nos permitirá apreender no conjunto de seu condicionamento econômico,social, histórico, “o eterno feminino”.Opõe-se por vezes o “mundo feminino” ao universo masculino, mas é preciso sublinhar mais uma vez que as mulheres nunca constituíram umasociedade autônoma e fechada; estão integradas na coletividade governada pelos homens e na qual ocupam um lugar de subordinadas; estão unidassomente enquanto semelhantes por uma solidariedade mecânica; não há entre elas essa solidariedade orgânica em que assenta toda uma comunidadeunificada; elas se esforçaram sempre — nos tempos dos mistérios de Elêusis como hoje nos clubes, nos salões, nas reuniões beneficentes — por se ligara fim de afirmarem um “contrauniverso”, mas é ainda no seio do universo masculino que o colocam. E daí vem o paradoxo de sua situação: elaspertencem ao mesmo tempo ao mundo masculino e a uma esfera em que esse mundo é contestado; encerradas nessa esfera, investidas por aquelemundo, não podem instalar-se em nenhum lugar com tranquilidade. Sua docilidade comporta sempre uma recusa, a recusa de uma aceitação; nisto suaatitude aproxima-se da atitude da moça; mas é mais difícil de sustentar porque não se trata somente para a mulher adulta de sonhar sua vida atravésdo símbolos, e sim de vivê-la.A própria mulher reconhece que o universo em seu conjunto é masculino; os homens modelaram-no, dirigiram-no e ainda hoje o dominam; ela não seconsidera responsável; está entendido que é inferior, dependente; não aprendeu as lições da violência, nunca emergiu, como um sujeito, em face dosoutros membros da coletividade; fechada em sua carne, em sua casa, apreende-se como passiva em face desses deuses de figura humana que definemfins e valores. Neste sentido, há verdade no slogan que a condena a permanecer “uma eterna criança”; também se dizia dos operários, dos escravosnegros, dos indígenas colonizados que eram “crianças grandes”, enquanto não os temeram; isso significava que deviam aceitar, sem discussão,verdades e leis que outros homens lhes propunham: o quinhão da mulher é a obediência e o respeito. Ela não tem domínio, nem sequer em pensamento,sobre essa realidade que a cerca. É essa realidade a seus olhos uma presença opaca. Efetivamente, ela não fez a aprendizagem das técnicas que lhepermitiriam dominar a matéria; não é com a matéria que lhe cabe lutar, e sim com a vida e esta não se deixa dominar pelas ferramentas; não se podesenão suportar-lhe as leis secretas. O mundo não se apresenta à mulher como um “conjunto de utensílios” intermediário entre sua vontade e seus fins,tal qual o define Heidegger: é ao contrário uma resistência obstinada, indomável; ele é dominado pela fatalidade e cortado de caprichos misteriosos.Esse mistério de um morango de sangue que se transforma em um ser humano no ventre da mãe, nenhuma matemática o põe em equação, nenhumamáquina o poderá apressar ou retardar; ela experimenta a resistência da duração que os mais engenhosos aparelhos não conseguem dividir oumultiplicar; experimenta-a em sua carne submetida ao ritmo da lua e que os anos amadurecem primeiramente e depois corroem. Cotidianamente, acozinha ensina-lhe paciência e passividade; é uma alquimia; cabe-lhe obedecer ao fogo, à água; “esperar que o açúcar derreta”, que a pasta fermente etambém que a roupa seque, que as frutas amadureçam. Os trabalhos caseiros aparentam-se a uma atividade técnica; mas são por demais rudimentares,por demais monótonos para convencer a mulher das leis da causalidade mecânica. Aliás, mesmo nesse campo, as coisas têm seus caprichos; há tecidosque encolhem e outros que não encolhem ao serem lavados, manchas que desaparecem e outras que não, objetos que se quebram sozinhos, poeiras quegerminam como plantas. A mentalidade da mulher perpetua a das civilizações agrícolas que adoram as virtudes mágicas da terra: ela acredita namagia. Seu erotismo passivo desvenda-lhe o desejo, não como vontade e agressão, mas como uma atração análoga à que faz oscilar a varinha dopesquisador de nascentes; a simples presença de sua carne incha e entesa o sexo do macho, por que uma água escondida não faria tremer a vara daaveleira? Ela sente-se cercada de ondas, de radiações, de fluidos; acredita na telepatia, na astrologia, na radiestesia, na tina de Mesmer, na teosofia,nas mesas giratórias, nas videntes, nos curandeiros; ela introduz na religião as superstições primitivas: círios, ex-votos etc.; encarna nos santos osantigos espíritos da natureza: este protege os viajantes, aquele as parturientes, um outro encontra os objetos perdidos; e naturalmente nenhumprodígio a espanta; sua atitude será a da conjuração e da prece; para obter determinado resultado, obedecerá a certos ritos comprovados. É fácilcompreender por que é rotineira; o tempo não tem para ela uma dimensão de novidade, não é um jorro criador; como é destinada à repetição só vê nofuturo uma duplicata do passado; conhecendo-se a palavra e a fórmula, a duração alia-se às forças da fecundidade: mas mesmo esta obedece ao ritmodos meses, das estações; o ciclo de cada gravidez, de cada floração reproduz identicamente o que o precedeu; neste movimento circular, o único devirdo tempo é uma lenta degradação: ele corrói os móveis e as roupas, como estraga o rosto; as forças férteis são pouco a pouco destruídas pela fuga dosanos. Por isso, a mulher não confia nessa força que se obstina em desfazer.Não somente ela ignora o que seja uma verdadeira ação, capaz de mudar a face do mundo, mas ainda perde-se no meio desse mundo como no centro deuma imensa e confusa nebulosa. Sabe servir-se mal da lógica masculina. Stendhal observava que a manejava tão espertamente quanto o homem,quando a necessidade a obrigava a isso, mas trata-se de um instrumento que ela quase não tem a oportunidade de utilizar. Um silogismo não serve nempara acertar uma maionese nem para acalmar o choro da criança; os raciocínios masculinos não são adequados à realidade de quem tem experiência. Eno reino dos homens, desde que não faz nada, seu pensamento, não aderindo a nenhum projeto, não se distingue do sonho; por falta de eficiência, elanão tem o senso da verdade; só anda às voltas com imagens e palavras, eis por que acolhe sem embaraço as assertivas mais contraditórias; preocupa-sepouco com elucidar os mistérios de um campo que de toda maneira está fora de seu alcance, contenta-se com conhecimentos terrivelmente vagos:confunde os partidos, as opiniões, os lugares, as pessoas, os acontecimentos; há em sua cabeça uma estranha bagunça. Afinal, ver com clareza issotudo não é de sua alçada: ensinaram-lhe a aceitar a autoridade masculina; renuncia pois a criticar, a examinar, a julgar por sua conta. Confia na castasuperior. Eis por que o mundo masculino se apresenta a ela como uma realidade transcendente, um absoluto. “Os homens fazem os deuses, diz Frazer,as mulheres adoram-nos.” Eles não podem ajoelhar-se com total convicção diante dos ídolos que forjaram; mas quando as mulheres encontram em seucaminho essas grandes estátuas, não imaginam que uma mão as fabricou e prosternam-se docilmente.437 Em particular, gostam que a Ordem, o Direitose encarnem em um chefe. Em todo Olimpo há um deus soberano; a prestigiosa essência viril deve reunir-se em um arquétipo do qual pai, marido,amantes são apenas um pálido reflexo. É um tanto humorístico dizer que o culto que rendem a esse grande totem é sexual; o que é verdade é que emface dele satisfazem plenamente o sonho infantil de renúncia e de genuflexão. Na França os generais: Boulanger, Pétain, De Gaulle438 sempre tiveramas mulheres para eles; cumpre lembrar com que entusiasmo as jornalistas do Humanité evocavam outrora Tito e seu belo uniforme. O general, oditador — olhar de águia, queixo voluntarioso — é o pai celeste que exige o universo da seriedade, garantia absoluta de todos os valores. É da própriaineficiência e da ignorância que nasce o respeito das mulheres pelos heróis e pelas leis do mundo masculino; reconhecem-nos não por um julgamento,mas por um ato de fé. A fé tira sua força fanática do fato de que não é um saber: ela é cega, apaixonada, obstinada, estúpida; o que ela afirma, ela oafirma incondicionalmente, contra a razão, contra a história, contra todos os desmentidos. Essa reverência obstinada pode assumir segundo ascircunstâncias dois aspectos: ora é ao conteúdo da lei, ora unicamente à sua forma vazia que a mulher adere com paixão. Se pertence à eliteprivilegiada que tira benefícios da ordem social estabelecida, ela a quer inabalável e faz-se notar pela sua intransigência. O homem sabe que podereconstruir outras instituições, outra ética, outro código; apreendendo-se como transcendência, encara também a história como um devir; o maisconservador sabe que certa evolução é fatal e que a ela deve adaptar sua ação e seu pensamento; a mulher, não participando da história, não lhecompreende as necessidades; desconfia do futuro e almeja sustar o tempo. Não pressente nenhum meio de repovoar o céu se abaterem os ídolospropostos por seu pai, seus irmãos, seu marido; esforça-se encarniçadamente por defendê-los. Durante a guerra de Secessão ninguém entre os sulistasfoi tão apaixonadamente escravocrata quanto as mulheres; na Inglaterra, no momento da guerra dos Bôeres, na França contra a Comuna, foram elas asmais ferozes; procuram compensar sua inação pela intensidade dos sentimentos que exibem; em caso de vitória, lançam-se como hienas contra oinimigo abatido; em caso de derrota, recusam-se ferozmente a qualquer conciliação; não passando suas ideias de atitudes, é para elas indiferentedefender as causas mais obsoletas: podem ser legitimistas em 1914, tsaristas em 1949. O homem encoraja-as por vezes sorrindo: agrada-lhe verrefletidas sob uma forma fanática as opiniões que exprime de forma mais contida; mas por vezes ele se aborrece também com o aspecto estúpido eobstinado que revestem então suas próprias ideias.É somente nas civilizações e nas classes fortemente integradas que a mulher se apresenta assim irredutível. Geralmente, sendo sua fé cega, ela


respeita a lei simplesmente por ser a lei; mesmo que a lei mude, ela conserva seu prestígio; aos olhos da mulher, a força cria o direito pois os direitosque reconhece aos homens decorrem da força masculina; eis por que, quando uma coletividade se decompõe, são elas as primeiras a se lançar aos pésdos vencedores. De uma maneira geral aceitam o que é. Um dos traços que as caracterizam é a resignação. Quando desenterraram as estátuas dePompeia, observaram que os homens estavam imobilizados em movimentos de revolta, desafiando o céu ou procurando fugir, ao passo que as mulheres,curvadas, encolhidas sobre si mesmas, voltavam o rosto para a terra. Elas sabem que são impotentes contra as coisas: os vulcões, os policiais, ospatrões, os homens. “As mulheres são feitas para sofrer, dizem elas. É a vida... nada se pode contra ela.” Essa resignação engendra a paciência quefrequentemente se admira nelas. Suportam muito melhor do que o homem o sofrimento físico: são capazes de uma coragem estoica quando ascircunstâncias o exigem: sem a coragem agressiva do homem, muitas mulheres distinguem-se pela calma tenacidade de sua resistência passiva;enfrentam as crises, a miséria, a desgraça mais energicamente do que os maridos; respeitosas do tempo que nenhuma pressa pode vencer, não medemsua duração; quando aplicam sua obstinação serena a algum empreendimento, obtêm, por vezes, resultados brilhantes. “O que a mulher quer...”, diz oprovérbio. Numa mulher generosa, a resignação assume a forma da indulgência: ela admite tudo, não condena ninguém porque julga que nem aspessoas nem as coisas podem ser diferentes do que são. Uma orgulhosa pode fazer disso uma virtude altiva, como Mme de Charrière endurecida emseu estoicismo. Mas ela engendra também uma prudência estéril; as mulheres sempre preferem conservar, consertar, arranjar, a destruir e reconstruir.Preferem os acordos e as transações às revoluções. No século XIX, constituíram um dos maiores obstáculos ao esforço de emancipação proletária; parauma Flora Tristan, uma Louise Michel, quantas donas de casa perdidas em sua timidez não suplicavam ao marido que não corresse nenhum risco!Tinham medo, não somente das greves mas ainda da falta de trabalho, da miséria: temiam que a revolta fosse um erro. Compreende-se que, suportarpor suportar, prefiram a rotina à aventura: alcançam mais facilmente sua parte de magra felicidade em casa do que nas estradas. Seu destino confunde-se com o das coisas perecíveis; perdendo-as, perderiam tudo. Só um sujeito livre, afirmando-se para além do tempo, pode vencer toda ruína; essesupremo recurso, proibiram-no à mulher. É essencialmente porque nunca experimentou os poderes da liberdade que ela não acredita em umalibertação: o mundo parece-lhe regido por um destino obscuro que seria presunçoso desafiar. Esses caminhos perigosos que a querem obrigar a seguir,não foi ela que os abriu: é normal que neles não se precipite com entusiasmo.439 Que lhe franqueiem o futuro e ela não mais se agarrará ao passado.Quando chamam concretamente as mulheres à ação, quando elas se reconhecem nos objetivos que lhes designam, são tão ousadas e corajosas quantoos homens.440Muitos defeitos que lhes censuram — mediocridade, pequenez, timidez, mesquinharia, preguiça, frivolidade, servilismo — exprimem simplesmente ofato de que o horizonte lhes está barrado. A mulher é, dizem, sensual, chafurda na imanência; mas antes de mais nada aí a encerraram. A escrava presano harém não experimenta nenhuma paixão mórbida pela geleia de rosas, pelos banhos perfumados: precisa passar o tempo; na medida em que sufocaem um morno gineceu — bordel ou lar burguês — a mulher se refugiará no conforto e no bem-estar; aliás, se busca avidamente a volúpia é muitas vezesporque dela se acha frustrada; sexualmente insatisfeita, fadada à violência do macho, “condenada às indignidades masculinas”, consola-se com molhoscremosos, vinhos capitosos, veludos, carícias da água, do sol, de uma amiga, de um jovem amante. Se se apresenta ao homem como um ser “tão físico”,é porque sua condição a incita a dar extrema importância à própria animalidade. A carne não grita mais forte nela do que no homem: mas fica atentaaos seus mais insignificantes murmúrios e os amplia; a volúpia, como a dor do sofrimento, é o fulminante triunfo do imediato; pela violência do instante,o futuro e o universo são negados: fora da centelha carnal, o que existe não é nada; durante essa breve apoteose ela não é mutilada nem frustrada.Mais uma vez, ela só empresta tão grande valor a esses triunfos porque a imanência é seu quinhão. Sua frivolidade tem a mesma causa que seu“materialismo sórdido”; ela dá importância às pequenas coisas por não ter acesso às grandes: além disso, as futilidades que lhe enchem os dias são,muitas vezes, das mais sérias; à sua toalete, à sua beleza, deve seu encanto e suas possibilidades. Mostra-se frequentemente indolente, preguiçosa, masas ocupações que a ela se propõem são tão vãs quanto o simples escoar do tempo; se é tagarela, escrevinhadora, é para evitar a ociosidade: substituipalavras a atos impossíveis. O fato é que, quando se empenha num empreendimento digno de um ser humano, a mulher sabe mostrar-se tão ativa,eficiente, silenciosa, ascética quanto um homem. Acusam-na de ser servil. Está sempre disposta, dizem, a deitar-se aos pés do senhor e a beijar a mãoque lhe bateu; é verdade que carece geralmente de um verdadeiro orgulho; os conselhos que os “consultórios sentimentais” dispensam às mulheresenganadas, às amantes abandonadas são inspirados por um espírito de abjeta submissão; a mulher esgota-se em cenas arrogantes e acaba recolhendoas migalhas que o macho consente em lhe jogar. Mas o que pode fazer sem o apoio masculino uma mulher para quem o homem é ao mesmo tempo oúnico meio e a única razão de viver? Ela é obrigada a aceitar todas as humilhações; a escrava não poderia ter o sentido da “dignidade humana”; paraele, tirar o corpo fora é suficiente. Enfim, se é “terra a terra”, caseira, baixamente utilitária, é porque lhe impõem consagrar sua existência a prepararalimentos e limpar sujeiras: não é disso que ela pode tirar o sentido da grandeza. Ela deve assegurar a monótona repetição da vida em sua contingênciae sua facticidade: é natural que ela própria repita, recomece, sem jamais inventar, que o tempo lhe pareça girar sobre si mesmo sem conduzir anenhum lugar; ocupa-se sem nunca fazer nada; aliena-se pois no que tem; essa dependência em relação às coisas, consequência da dependência emrelação aos homens, explica sua prudente economia, sua avareza. Sua vida não é dirigida para fins; absorve-se em produzir ou manter coisas que nuncapassam de meios: alimento, roupas, residência; são intermediários inessenciais entre a vida animal e a livre existência; o único valor ligado ao meioinessencial é a utilidade; é no nível do útil que vive a dona de casa e ela só se vangloria de ser útil a seus parentes. Mas nenhum existente poderiasatisfazer-se com um papel inessencial: logo transforma os meios em fins — como se verifica entre os políticos — e o valor dos meios torna-se a seusolhos valor absoluto. Assim a utilidade reina no céu da dona de casa mais alto do que a verdade, a beleza, a liberdade e é nessa perspectiva, que é asua, que ela encara todo o universo; e é porque adota a moral aristotélica do meio-termo, da mediocridade. Como encontraria em si audácia, ardor,desapego, grandeza? Tais qualidades só aparecem no caso em que uma liberdade se lança através de um futuro aberto, emergindo além de todo o dado.Fecham a mulher numa cozinha ou num budoar e se espantam de que seu horizonte seja limitado; cortam-lhe as asas e lamentam que não saiba voar.Que lhe abram o futuro e ela não será mais obrigada a instalar-se no presente.Dão prova da mesma inconsequência quando, fechando-a dentro dos limites de seu eu ou do lar, censuram-lhe o narcisismo, o egoísmo com seu cortejo:vaidade, suscetibilidade, maldade etc.; tiram-lhe toda possibilidade concreta de comunicação com outrem; ela não sente em sua experiência o apelonem os benefícios da solidariedade, porquanto está inteiramente consagrada à sua própria família, separada; não se pode, portanto, esperar que sesupere em prol do interesse geral. Confina-se obstinadamente no único terreno que lhe é familiar, em que ela pode exercer um domínio sobre as coisase no seio do qual reencontra uma soberania precária.Entretanto, por mais que feche as portas e as janelas, a mulher não encontra, em seu lar, uma segurança absoluta; esse universo masculino que elarespeita de longe, sem nele ousar se aventurar, bloqueia-a; e justamente porque é incapaz de apreendê-lo através de técnicas, de uma lógica segura, deconhecimentos articulados, ela se sente como a criança e o primitivo cercada de mistérios perigosos. Neles projeta sua concepção mágica da realidade:o curso das coisas parece-lhe fatal e, no entanto, tudo pode acontecer; ela mal distingue o possível do impossível; está disposta a acreditar em qualquercoisa; acolhe e propaga todos os boatos, provoca pânicos. Mesmo nos períodos de calma vive preocupada; à noite, na sonolência, deitada, inerte,assusta-se com figuras de pesadelo que reveste a realidade; assim, para a mulher condenada à passividade, o futuro opaco é povoado pelos fantasmasda guerra, da revolução, da fome, da miséria; não podendo agir, ela se inquieta. O marido, o filho, quando se lançam num empreendimento, quando sãoarrastados por um acontecimento, assumem seus riscos por sua própria conta: seus projetos, as normas a que obedecem, traçam na obscuridade umcaminho seguro; mas a mulher debate-se numa noite confusa; ela “se preocupa” porque não faz nada; na imaginação, todos os possíveis têm a mesmarealidade: o trem pode descarrilar, a operação pode falhar, o negócio malograr; o que ela tenta em vão conjurar, em suas longas ruminaçõesmelancólicas, é o espectro de sua própria impotência.A preocupação traduz a desconfiança em relação ao mundo dado; se ele se lhe afigura carregado de ameaças, prestes a afundar em obscurascatástrofes, é porque ela não se sente feliz. Na maior parte do tempo ela não se resigna em se resignar; sabe muito bem o que suporta, e o suportacontra sua vontade; é mulher sem ter sido consultada; não ousa revoltar-se; é irritada que se submete; sua atitude é uma recriminação constante. Todosos que recebem as confidências das mulheres — médicos, padres, assistentes sociais — sabem que a maneira mais comum é a queixa; entre amigas,geme cada uma sobre seus próprios males e todas juntas sobre a injustiça da sorte, o mundo e os homens em geral. Um indivíduo livre somente a sicensura seus fracassos, assume-os, mas é através de outrem que tudo acontece à mulher, é outro que é responsável por suas desgraças. Seu desesperofurioso recusa todos os remédios; propor soluções a uma mulher resolvida a queixar-se não adianta nada; nenhuma lhe parece aceitável. Ela quer viversua situação precisamente como a vive: numa cólera impotente. Que lhe proponham uma mudança, ergue os braços ao céu: “Não faltava mais nada!”Sabe que seu mal-estar é mais profundo do que os pretextos que dá, e que não basta um expediente para libertá-la: ressente-se contra o mundo inteiro,porque foi edificado sem ela e contra ela; desde a adolescência, desde a infância, protesta contra sua condição; prometeram-lhe compensações,asseguraram-lhe que, se abdicasse de suas possibilidades nas mãos de um homem, elas lhe seriam devolvidas centuplicadas e considera-se mistificada;acusa todo o universo masculino; o rancor é o reverso da dependência: quando se dá tudo, nunca se recebe bastante de volta. Entretanto, ela tambémtem necessidade de respeitar o universo masculino; se sentiria em perigo sem um teto em cima da cabeça, se o contestasse inteiramente: ela adota aatitude maniqueís-ta que também lhe é sugerida pela sua experiência caseira. O indivíduo que age se reconhece responsável do mesmo modo que osoutros pelo mal e pelo bem, sabe que lhe cabe definir os fins e fazer com que triunfem; sente na ação a ambiguidade de toda solução; justiça e injustiça,lucros e perdas acham-se inextricavelmente misturados. Mas quem é passivo coloca-se fora do jogo e recusa-se a colocar, ainda que em pensamento, osproblemas éticos: o bem deve ser realizado e, se não o é, há uma falta cujos culpados devem ser punidos. Como a criança, a mulher representa o bem eo mal em simples imagens de Epinal; o maniqueísmo tranquiliza o espírito, suprimindo a angústia da escolha; escolher entre uma praga e outra menor,entre um benefício presente e um benefício ainda maior no futuro, ter que definir o que é derrota, o que é vitória, é assumir riscos terríveis; para omaniqueísta, o trigo bom está claramente separado do joio e basta arrancar este último; a poeira condena-se a si própria e a limpeza é a perfeitaausência de sujeira; limpar é expulsar detritos e lama. Assim a mulher pensa que “tudo é culpa dos judeus” ou dos maçons, ou dos bolcheviques, ou dogoverno; ela é sempre contra alguém ou alguma coisa; entre os antidreyfusistas, as mulheres eram mais encarniçadas ainda do que os homens; elasnem sempre sabem onde reside o princípio maligno, mas o que esperam de um bom governo é que ele o expulse, como se expulsa a poeira da casa.Para as gaullistas fervorosas, De Gaulle se apresenta como o rei dos varredores; de espanadores e trapos nas mãos, elas o imaginam limpando efazendo brilhar uma França “limpa”.Mas essas esperanças situam-se sempre num futuro incerto; enquanto se espera, o mal continua a roer o bem; e como não tem à mão os judeus, osmaçons, os bolcheviques, a mulher procura um responsável contra quem possa concretamente indignar-se: o marido é a vítima predileta. É nele que se


encarna o universo masculino, é através dele que a sociedade masculina assumiu o encargo da mulher e a mistificou; ele suporta o peso do mundo e, seas coisas vão mal, é culpa dele. Quando volta, à noite, ela se queixa dos filhos, dos fornecedores, do trabalho doméstico, do custo de vida, de seureumatismo, do tempo que faz: e quer que o esposo se sinta culpado. Muitas vezes alimenta em relação a ele ressentimentos particulares; mas o maridoé culpado antes de tudo de ser um homem; também pode ter suas doenças, suas preocupações: “Não é a mesma coisa”; ele detém um privilégio que elasente constantemente como uma injustiça. É de notar que a hostilidade que ela experimenta em relação ao marido, ao amante, a prenda a eles ao invésde afastá-la; um homem que começou a detestar a mulher ou a amante procura fugir dela: mas ela quer ter na mão o homem que odeia, para fazê-lopagar. Escolher recriminar não é escolher desembaraçar-se de seus males, e sim chafurdar neles; seu supremo consolo é apresentar-se como mártir. Avida, os homens venceram-na: ela fará dessa derrota uma vitória. Eis por que, como em sua infância, ela se entregará com tanto entusiasmo ao frenesidas lágrimas e das cenas.É sem dúvida porque sua vida se constrói sobre um fundo de revolta impotente que a mulher chora tão facilmente; por certo tem ela fisiologicamenteum menor controle do sistema nervoso e simpático do que o homem; sua educação ensinou-lhe a entregar-se: as normas de conduta desempenham aquium grande papel: Diderot, Benjamin Constant vertiam dilúvios de lágrimas; mas os homens deixaram de chorar, desde que o costume o proibiu. Mas amulher está sempre disposta a adotar em relação ao mundo uma conduta de fracasso, porque nunca o enfrentou francamente. O homem aceita omundo; a própria desgraça não mudará sua atitude, ele a enfrentará, não se deixará vencer; ao passo que basta uma contrariedade para pôr novamentea descoberto, para a mulher, a hostilidade do universo e a injustiça de sua sorte; então ela se precipita em seu mais seguro refúgio: ela mesma; esserasto morno em suas faces, essa ardência em seus olhos, é a presença sensível de sua alma dolorosa; doces na pele, ligeiramente salgadas na língua, aslágrimas são também uma terna e amarga carícia; o rosto queima sob uma torrente de água clemente; as lágrimas são ao mesmo tempo queixa econsolo, febre e calmante frescor. São também um supremo álibi; bruscas como a borrasca, caindo intermitentes, ciclone, aguaceiro, chuvisco,metamorfoseiam a mulher numa fonte queixosa, num céu atormentado; seus olhos não veem mais, velados por uma neblina; não são mais sequer umolhar, fundem-se em chuva. Cega, a mulher retorna à passividade das coisas naturais. Querem-na vencida: ela afunda na derrota; vai a pique, afoga-se,escapa ao homem que a contempla, impotente como diante de uma catarata. Ele julga o processo desleal: mas ela considera que a luta é desleal desdeo início, porque não lhe deram nenhuma arma eficaz. Ela recorre uma vez mais a uma conjuração mágica. E o fato de seus soluços exasperarem ohomem fornece-lhe uma razão a mais para utilizá-los.Se as lágrimas não bastam para lhe exprimir a revolta, ela se entregará a cenas cuja violência incoerente desnorteará ainda mais o homem. Em certosmeios, o homem espanca a mulher; em outros, precisamente porque é o mais forte e porque seu punho é um instrumento eficaz, ele evita todaviolência. Mas a mulher, como a criança, entrega-se a crises simbólicas: pode jogar-se contra o homem, arranhá-lo; são gestos apenas. Mas,principalmente, ela se põe a mimar em seu corpo, através de ataques de nervos, as recusas que não pode concretamente realizar. Não é somente porrazões fisiológicas que ela é sujeita a manifestações convulsivas: a convulsão é uma interiorização de uma energia que, jogada no mundo, fracassa emapreender qualquer objeto; é um gasto inútil de todas as potências de negação suscitadas pela situação. A mãe raramente tem crises de nervos diantede seus filhos pequenos porque pode bater neles, puni-los: é diante do filho crescido, do marido, do amante, sobre os quais não tem influência, que amulher se entrega a desesperos furiosos. As cenas histéricas de Sofia Tolstoi são significativas; sem dúvida ela cometeu o grande erro de nunca terprocurado entender o marido e através de seu diário não parece nem generosa, nem sensível, nem sincera, e está longe de parecer uma pessoaatraente; mas, tenha tido razão ou não, em nada modifica sua situação: durante toda a vida apenas suportou, através de constantes recriminações, asrelações conjugais, as maternidades, a solidão, o modo de vida que seu marido lhe impunha; quando as novas decisões de Tolstoi exasperaram oconflito, ela se encontrou sem armas contra a vontade inimiga, que recusava com toda a sua vontade impotente; jogou-se em comédias de recusa —falsos suicídios, falsas fugas, falsas doenças etc. — odiosas aos seus e para ela própria desgastantes: não vemos que outra saída lhe restava, posto quenão tinha nenhuma razão positiva para calar seus sentimentos de revolta, e nenhum meio eficiente de exprimi-los.Há uma saída para a mulher que chega ao fim de sua recusa: suicídio. Mas parece que o emprega menos frequentemente do que o homem. Asestatísticas são muito ambíguas a esse respeito441 considerando os suicídios, há muito mais homens do que mulheres que atentam contra a vida; mas astentativas de suicídio são mais frequentes entre as mulheres. Talvez porque se contentem o mais das vezes com comédias: representam o suicídio maisdo que o homem, querem-no mais raramente. Isso também, em parte, porque os meios brutais lhes repugnam: quase nunca empregam armas brancas,nem armas de fogo. Afogam-se de bom grado, como Ofélia, manifestando a afinidade da mulher com a água passiva e noturna e na qual parece que avida pode passivamente dissolver-se. De um modo geral, observa-se aqui a ambiguidade que já assinalei: a mulher não procura sinceramente largar oque detesta. Representa o drama da ruptura, mas finalmente fica com o homem que a faz sofrer; finge abandonar a vida que a molesta mas érelativamente raro que se mate. Não gosta das soluções definitivas: protesta contra o homem, contra a vida, contra sua condição, mas não se evade.Há muitas condutas femininas que devem ser interpretadas como protestos. Vimos que muitas vezes a mulher engana o marido por desafio, não porprazer; será avoada e gastadora só porque ele é metódico e econômico. Os misóginos que acusam a mulher de “estar sempre atrasada” pensam que elacarece do “senso da exatidão”. Na verdade, vimos como se dobra docilmente às exigências do tempo. Seus atrasos são deliberadamente consentidos.Certas coquetes acreditam exasperar assim o desejo do homem e dar ainda maior valor à própria presença; mas, infligindo ao homem alguns momentosde espera, a mulher protesta principalmente contra a longa espera que é a sua própria vida. Em certo sentido, toda a sua existência é uma espera, poisestá encerrada no limbo da imanência, da contingência e sua justificação se acha sempre nas mãos de outrem; ela espera as homenagens, a aprovaçãomasculina; espera o amor, a gratidão e os elogios do marido, do amante; espera deles suas razões de existir, seu valor e seu próprio ser. Deles espera asubsistência: que tenha em mãos o talão de cheques ou que receba semanal ou mensalmente as importâncias que o marido lhe concede, é preciso queele receba, que tenha conseguido esse aumento para que ela possa pagar ao vendeiro ou comprar um vestido novo. Ela espera a presença dele; suadependência econômica coloca-a à disposição dele; ela é apenas um elemento da vida masculina ao passo que o homem é toda sua vida; o marido temocupações fora do lar, a mulher suporta-lhe a ausência ao longo dos dias; é o amante — ainda que apaixonado — que decide das separações e dosencontros de acordo com as obrigações que tem. Na cama, ela aguarda o desejo do homem, espera, por vezes ansiosamente, seu próprio prazer. Tudo oque pode fazer é chegar atrasada ao encontro marcado pelo amante, é não estar pronta na hora que o marido designou; ela afirma assim a importânciade suas próprias ocupações, reivindica sua independência, torna a ser, por um momento, o sujeito essencial cuja vontade o outro suporta passivamente.Mas trata-se de tímidas vinganças; por mais que se obstine em fazer os homens “esperar”, nunca compensará as horas infinitas que passa a vigiar, aesperar, a submeter-se ao bel-prazer do homem.De maneira geral, embora reconhecendo, em conjunto, a supremacia dos homens, aceitando-lhes a autoridade, adorando-lhes os ídolos, ela vaicontestar-lhes o reinado palmo a palmo; daí o famoso “espírito de contradição” que tantas vezes lhe censuraram; não possuindo um domínio autônomo,não pode opor verdades, valores positivos aos que os homens afirmam; pode, entretanto, negá-los. Sua negação é mais ou menos sistemática segundo amaneira por que nela se dosam respeito e rancor. Mas o fato é que ela conhece todas as falhas do sistema masculino e se apressa em denunciá-las.As mulheres não têm domínio sobre o mundo masculino porque sua experiência não lhes ensina a manejar a lógica e a técnica: inversamente, o poderdos instrumentos masculinos é abolido nas fronteiras do domínio feminino. Há toda uma região da experiência humana que o homem escolhedeliberadamente ignorar porque fracassa em pensá-la: essa experiência, a mulher a vive. O engenheiro, tão preciso quando faz seus planos, conduz-se,em casa, como um demiurgo: uma palavra e eis servida a refeição, suas camisas engomadas, seus filhos silenciosos; procriar é um ato tão rápido quantoo golpe de vara de Moisés; ele não se espanta com tais milagres. A noção de milagre difere da ideia de magia; ela põe, no seio de um mundoracionalmente determinado, a descontinuidade radical de um acontecimento sem causa contra o qual todo pensamento se esboroa; ao passo que osfenômenos mágicos são unificados por forças secretas cujo devir contínuo uma consciência dócil — ainda que sem o compreender — pode aceitar. Orecém-nascido é milagroso para o pai demiurgo, mágico para a mãe que lhe suportou o amadurecimento no ventre. A experiência do homem éinteligível, mas pontilhada de vazios; a da mulher é, em seus limites próprios, obscura mas plena. Essa opacidade a torna pesada; em suas relações comela, o homem parece-lhe leve; ele tem a leveza dos ditadores, dos generais, dos juízes, dos burocratas, dos códigos e dos princípios abstratos. É o quesem dúvida queria dizer essa dona de casa que murmurava um dia, dando de ombros: “Os homens não pensam!” Elas dizem também: “Os homens nãosabem, não conhecem a vida.” Ao mito da fêmea do louva-a-deus, elas opõem o símbolo do zangão frívolo e importuno.Compreende-se que nessa perspectiva a mulher recuse a lógica masculina. Não somente esta não lhe perturba a experiência, como ela sabe ainda quenas mãos dos homens a razão se torna uma forma matreira de violência; as afirmações peremptórias deles destinam-se a mistificar. Querem encerrá-laem um dilema: ou estás de acordo, ou não estás; em nome de todo o sistema dos princípios admitidos, ela deve estar de acordo: recusando sua adesão,é todo o sistema que recusa; não pode permitir-se semelhante escândalo; não tem os meios de reconstruir outra sociedade: contudo, não adere a esta. Ameio caminho entre a revolta e a escravidão, resigna-se a contragosto à autoridade masculina. É pela violência que se faz preciso, em cada ocasião,obrigá-la a endossar as consequências de sua submissão incerta. O homem persegue a quimera de uma companheira livremente escrava: quer que,cedendo-lhe, ela ceda à evidência de um teorema; mas sabe que ele próprio escolheu os postulados a que se prendem suas rigorosas deduções;enquanto ela evita rediscuti-las, ele lhe tapa facilmente a boca; nem por isso a convence, porquanto ela adivinha a arbitrariedade dessas deduções. Porisso ele a acusará com irritação e obstinação de ilogismo: mas ela recusa participar do jogo porque sabe que os dados são viciados.A mulher não pensa positivamente que a verdade seja outra que aquilo que os homens pretendem; ela admite antes que a verdade não é. Não ésomente o devir da vida que a faz desconfiar do princípio de identidade, nem são os fenômenos mágicos de que se acha cercada que arruínam a noçãode causalidade: é no próprio coração do mundo masculino, é em si, enquanto pertencendo a esse mundo, que apreende a ambiguidade de todoprincípio, de todo valor, de tudo o que existe. Sabe que a moral masculina, no que lhe diz respeito, é uma vasta mistificação. O homem acena-lhepomposamente com seu código de virtude e honra, mas em surdina incita-a a desobedecer: espera mesmo essa desobediência; sem esta, toda a belafachada atrás da qual ele se abriga desmoronaria.O homem de bom grado se apoia na ideia hegeliana, segundo a qual o cidadão adquire sua dignidade ética transcendendo-se para o universal: enquantoindivíduo singular, tem direito ao desejo, ao prazer. Suas relações com a mulher situam-se pois numa região contingente em que a moral não mais se


aplica, em que as condutas são indiferentes. Com os outros homens, ele tem relações em que se empenham valores; ele é uma liberdade enfrentandooutras liberdades segundo leis que todos universalmente reconhecem; mas junto da mulher — ela foi inventada para esse fim — ele deixa de assumirsua existência, entrega-se à miragem do “em-si”, situa-se num plano inautêntico; mostra-se tirânico, sádico, violento, ou pueril, masoquista, queixoso;tenta satisfazer suas obsessões, suas manias; “distende-se”, “relaxa-se”, em nome dos direitos que adquiriu em sua vida pública. Sua mulher assusta-sepor vezes — como Thérèse Desqueyroux — com o contraste entre o alto nível de suas palavras, de suas condutas públicas e “suas pacientes invençõesde sombra”. Prega a repopulação e mostra-se hábil em não gerar mais filhos do que os que lhe convém. Exalta as esposas castas e fiéis, mas incita aoadultério a mulher do vizinho. Vimos com que hipocrisia os homens decretam que o aborto é criminoso, quando todos os anos na França um milhão demulheres são colocadas pelo homem em situação de precisarem abortar; muitas vezes o marido ou o amante lhe impõe tal solução; muitas vezes elessupõem tacitamente que, em caso de necessidade, ela será adotada. Esperam confessadamente que a mulher consentirá em tornar-se culpada de umdelito: sua “imoralidade” é necessária à harmonia da sociedade moral respeitada pelos homens. O exemplo mais flagrante dessa duplicidade é a atitudedo homem em face da prostituição: é sua procura que cria a oferta; disse eu com que ceticismo enojado as prostitutas encaram os senhores respeitáveisque condenam o vício, mas demonstram muita indulgência por suas manias pessoais; entretanto consideram-se perversas e debochadas as mulheresque vivem de seu corpo, não os homens que os usam. Um caso ilustra esse estado de espírito: no fim do século passado, a polícia descobriu num bordelduas meninas de 12 e 13 anos; houve um processo em que elas depuseram; falaram de seus fregueses, que eram homens importantes; uma delas abriua boca para revelar um nome. O procurador deteve-a precipitadamente: Não suje o nome de um homem honesto! Um senhor condecorado com a Legiãode Honra continua um homem de bem quando deflora uma menina; tem suas fraquezas, quem não as tem? Ao passo que a menina que não atinge aregião ética do universal — que não é um magistrado, nem um general, nem um grande francês, mas apenas uma menina — joga seu valor moral naregião contingente da sexualidade; é uma pervertida, uma transviada, uma depravada, boa para uma casa de correção. O homem pode, em muitoscasos e sem macular sua “dignidade”, perpetrar em cumplicidade com a mulher atos que para ela são condenáveis. Ela compreende mal tais sutilezas;o que compreende é que o homem não age em conformidade com os princípios que proclama e pede-lhe que a estes desobedeça. Ele não quer o quediz querer: por isso não lhe dá ela o que finge dar-lhe. Será uma esposa casta e fiel e às escondidas cederá aos próprios desejos; será uma mãeadmirável mas praticará cuidadosamente o controle de natalidade e, se necessário, irá até o aborto. O homem oficialmente a condena, é a regra dojogo; mas mostra-se reconhecido a uma pela sua “pequena virtude” e a outra pela sua esterilidade. A mulher desempenha o papel desses agentessecretos que se deixam fuzilar, se são presos, e que se enchem de recompensas, se logram êxito; cabe a ela endossar toda a imoralidade dos homens:não é somente a prostituta, são todas as mulheres que servem de esgoto ao palácio luminoso e saudável em que habitam as pessoas honestas. Quando,em seguida, lhes falam de dignidade, de honra, de lealdade, de todas as grandes virtudes viris, cumpre não se espantar que se recusem a “ir naonda”. Escarnecem particularmente quando os homens virtuosos as censuram por serem interesseiras, comediantes, mentirosas:442 bem sabem que nãolhes oferecem nenhuma outra saída. O homem também “se interessa” pelo dinheiro, pelo êxito: mas tem os meios de conquistá-los pelo trabalho; àmulher atribuíram um papel de parasita: todo parasita é necessariamente um explorador; ela precisa do homem para adquirir dignidade humana, paracomer, gozar, procriar; é através dos serviços que presta com o sexo q ue assegura as generosidades masculinas; e como a encerram nessa função, elase transforma inteiramente num instrumento de exploração. Quanto às mentiras, salvo no caso da prostituição, não se trata, entre ela e o protetor, deum negócio franco. O próprio homem reclama que ela represente uma comédia: quer que ela seja o Outro; mas todo existente, por mais perdidamenteque se renegue, permanece sujeito; ele a quer objeto: ela faz-se objeto; no momento em que ela se faz ser, exerce uma livre atividade; aí está suatraição original; a mais dócil, a mais passiva é ainda consciência; basta, por vezes, que o homem se aperceba de que, entregando-se a ele, ela o encarae julga, para que ele se sinta enganado; ela deve ser apenas uma coisa oferecida, uma presa. Entretanto, essa coisa, o homem exige também que ela lheentregue livremente: pede-lhe que sinta prazer na cama, que lhe reconheça sinceramente a superioridade e os méritos no lar; no instante em queobedece, a mulher deve, pois, fingir independência enquanto, em outros momentos, representa ativamente a comédia da passividade. Ela mente parareter o homem que lhe assegura o pão cotidiano: cenas e lágrimas, transportes de amor, crises de nervos. E ela mente também para escapar à tiraniaque por interesse aceita. O homem a incita a comédias de que se aproveitam seu imperialismo e sua vaidade: ela volta contra ele seus poderes dedissimulação; consegue também vinganças duplamente deliciosas: porque, enganando-o, satisfaz desejos singulares, experimenta o prazer de oridicularizar. A esposa, a cortesã mentem fingindo sensações que não têm; depois, divertem-se com um amante, com amigas, zombando da ingênuavaidade de sua vítima: “Não somente eles ‘não nos satisfazem’ como ainda querem que nos cansemos de gritar de prazer”, dizem com rancor. Taisconversas assemelham-se às das criadas que, na copa, falam mal dos patrões. A mulher tem os mesmos defeitos porque é vítima da mesma opressãopaternalista; tem o mesmo cinismo, porque vê o homem de baixo para cima, como o lacaio vê o patrão. Mas é claro que nenhum de seus traçosmanifesta uma essência ou uma vontade original pervertidas: refletem uma situação. “Há falsidade sempre que há regime coercivo”, diz Fourier. “Aproibição e o contrabando são inseparáveis, no amor como no comércio.” E os homens sabem tão bem que os defeitos da mulher manifestam suacondição, que, preocupados com manter a hierarquia dos sexos, incentivam, em suas companheiras, os próprios traços que lhes permitem desprezá-las.Provavelmente, o marido, o amante irritam-se com os defeitos da mulher singular com quem vivem; entretanto, louvando encantos da feminilidade emgeral, eles a imaginam inseparável de tais defeitos. Se não é pérfida, fútil, covarde, indolente, a mulher perde sua sedução. Na Casa de boneca, Helmerexplica o quanto o homem se sente justo, forte, compreensivo, indulgente, quando perdoa as faltas pueris da frágil mulher. Assim também os maridosde Bernstein se enternecem — com a cumplicidade do autor — diante da mulher ladra, má, adúltera; eles medem, debruçando-se sobre ela comindulgência, a própria sabedoria viril. Os racistas americanos e os colonos franceses desejam também que o Negro se mostre gatuno, preguiçoso,mentiroso: com isso ele prova sua indignidade, põe o direito do lado dos opressores; obstinando-se em ser honesto, leal, olham-no como um revoltado.Os defeitos da mulher exageram-se ainda mais pois ela não tenta combatê-los, mas, ao contrário, faz deles um adorno.Recusando os princípios lógicos, os imperativos morais, cética diante das leis da natureza, a mulher não tem o sentido do universal; o mundo apresenta-se a ela como um conjunto confuso de casos singulares; eis por que acredita mais facilmente nos mexericos de uma vizinha do que numa exposiçãocientífica; sem dúvida, respeita o livro impresso, mas esse respeito desliza ao longo das páginas escritas sem apreender-lhes o conteúdo: ao contrário, aanedota contada por um desconhecido numa fila ou num salão reveste-se imediatamente de uma esmagadora autoridade; em seu domínio, tudo émagia; fora, tudo é mistério; ela não conhece o critério da verossimilhança; só a experiência imediata conquista sua convicção: sua própria experiênciaou a de outrem, desde que a afirme com suficiente força. Quanto a ela, por se achar isolada em seu lar, não se confronta ativamente com as outrasmulheres, considera-se espontaneamente como um caso singular; está sempre à espera de que o destino e os homens façam uma exceção em seu favor;muito mais do que nos raciocínios válidos para todos, ela crê nas iluminações que a atravessam; admite facilmente que lhes são enviadas por Deus oupor qualquer espírito obscuro do mundo; com relação a certas desgraças, a certos acidentes, ela pensa tranquilamente: “A mim isso não acontecerá!”Inversamente imagina que “para mim haverá uma exceção”: ela gosta dos privilégios: o comerciante lhe fará um desconto, ou o guarda a deixará passarsem que tenha prioridade. Ensinaram-lhe a superestimar o valor de seu sorriso e esqueceram de lhe dizer que todas as mulheres sorriem. Não aconteceisso porque ela se imagine mais extraordinária do que sua vizinha, mas sim porque não se compara; pela mesma razão, é raro que a experiência lheinflija algum desmentido: experimenta um fracasso, outro, mas não os totaliza.É por isso que as mulheres não conseguem construir solidamente um “contrauniverso”, de onde possam desafiar os homens; esporadicamente,bradaram contra os homens em geral, contam umas às outras histórias de cama e de parto, trocam horóscopos e receitas de beleza. Mas, para edificarrealmente esse “mundo do ressentimento” que seu rancor almeja, carecem de convicção; sua atitude em relação ao homem é demasiado ambivalente.Este é, com efeito, uma criança, um corpo contingente e vulnerável, um ingênuo, um zangão importuno, um tirano mesquinho, um egoísta, um vaidoso:mas é também o herói libertador, a divindade que distribui os valores. Seu desejo é um apetite grosseiro, suas carícias são uma tarefa degradante:entretanto, o entusiasmo, a força viril apresentam-se também como uma energia demiúrgica. Quando uma mulher diz com êxtase: “É um homem!”evoca ao mesmo tempo o vigor sexual e a eficiência social do macho que admira: em uma e outra coisa se exprime a mesma soberania criadora; ela nãoimagina que ele seja um grande artista, um grande homem de negócios, um general, um chefe, sem ser um amante vigoroso; seus êxitos sociais têmsempre uma atração sexual; inversamente, ela se mostra disposta a reconhecer a genialidade do macho que a satisfaz. É, de resto, um mito masculinoque ela retoma aqui. O falo, para Lawrence e muitos outros, é, ao mesmo tempo, uma energia viva e a transcendência humana. Assim a mulher podever nos prazeres da cama uma comunhão com o espírito do mundo. Dedicando ao homem um culto místico, perde-se e se reencontra na glóriamasculina. A contradição é, aqui, facilmente suprimida graças à pluralidade dos indivíduos que participam da viri lidade. Alguns — aqueles cujacontingência ela experimenta na vida cotidiana — são a encarnação da miséria humana; em outros exalta-se a grandeza do homem. Mas a mulheraceita até que essas duas figuras se confundam em uma só. “Se eu me tornar célebre”, escrevia uma jovem apaixonada por um homem que consideravasuperior, “R... casará certamente comigo, porque sua vaidade será lisonjeada; estufaria o peito passeando de braço dado comigo”. No entanto, ela oadmirava loucamente. O mesmo indivíduo pode muito bem ser, aos olhos da mulher, avarento, mesquinho, vaidoso, irrisório e um deus: afinal os deusestêm suas fraquezas. Temos por um indivíduo que amamos em sua liberdade, em sua humanidade, essa exigente severidade que é o inverso de umaautêntica estima; ao passo que uma mulher ajoelhada diante de seu homem pode muito bem ufanar-se de “saber dominá-lo”, de saber “manobrá-lo”;lisonjeia-lhe complacentemente “as pequenas qualidades” sem que ele perca seu prestígio; é a prova de que ela não tem amizade especificamente porsua pessoa, tal como se manifesta em atos reais; ela se prosterna cegamente diante da essência geral de que o ídolo participa: a virilidade é uma aurasagrada, um valor dado, estático, que se afirma a despeito das mesquinharias do indivíduo que a possui; este não conta; ao contrário, a mulher, comciúme de seu privilégio, compraz-se em tomar atitudes de maligna superioridade sobre ele.A ambiguidade dos sentimentos que a mulher dedica ao homem se encontra em sua atitude geral para consigo mesma e o mundo; o domínio em que seacha encerrada é investido pelo universo masculino; mas é habitado por forças obscuras de que os próprios homens são joguetes. Aliando-se a essasvirtudes mágicas, ela conquistará, por sua vez, o poder. A sociedade escraviza a Natureza, mas a Natureza a domina; o Espírito afirma-se além da Vida;mas dissipa-se, se a vida não o sustenta mais. A mulher apoia-se nesse equívoco para dar maior importância a um jardim do que a uma cidade, a umadoença do que a uma ideia, a um parto do que a uma revolução; esforça-se para restabelecer esse reinado da terra, da Mãe, sonhado por Baschoffen, afim de reencontrar o essencial em face do inessencial. Mas como é, ela também, um existente que habita uma transcendência, só poderá valorizar aregião em que se acha confinada transfigurando-a; empresta-lhe uma dimensão transcendente. O homem vive num universo coerente que é umarealidade pensada. A mulher está às voltas com uma realidade mágica que não se deixa pensar: dela se evade através de pensamentos privados deconteúdo real. Em vez de assumir sua existência, contempla no céu a pura Ideia de seu destino; em vez de agir, ergue sua estátua no imaginário; emvez de raciocinar, sonha. Daí vem que sendo “tão física” seja também tão artificial, que sendo tão terrestre se faça tão etérea. Passa a vida limpando


caçarolas e é um romance maravilhoso; vassala do homem, acredita ser seu ídolo; humilhada em sua carne, exalta o amor. Porque está condenada a sóconhecer a facticidade contingente da vida, faz-se sacerdotisa do Ideal.Essa ambivalência marca-se na maneira por que a mulher apreende o próprio corpo. É um fardo; roído pela espécie, sangrando todos os meses,proliferando passivamente, não é para ela o instrumento puro de seu domínio sobre o mundo, mas uma presença opaca; não lhe assegura com certeza oprazer e cria dores que a atormentam; encerra ameaças: ela sente-se em perigo nos seus “interiores”. É um corpo “histérico”, por causa da íntimaligação das secreções endócrinas com os sistemas nervoso e simpático que comandam músculos e vísceras; exprime reações que a mulher se recusa aassumir: nos soluços, nas convulsões, nos vômitos, ele lhe escapa, ele a trai; ele é sua verdade mais íntima, mas é uma verdade vergonhosa e que elaesconde. E, no entanto, ele é também seu duplo maravilhoso; ela contempla-o com deslumbramento ao espelho; é promessa de felicidade, obra de arte,estátua viva; ela o modela, enfeita, exibe. Quando se sorri ao espelho, ela esquece sua contingência carnal; na relação amorosa, na maternidade, aimagem aniquila-se. Mas, muitas vezes, sonhando consigo mesma, ela se espanta por ser ao mesmo tempo essa heroína e essa carne.A Natureza oferece-lhe simetricamente uma dupla face: ela trata da sopa e incita às efusões místicas. Tornando-se dona de casa, mãe, a mulherrenuncia a suas livres escapadas por prados e bosques, prefere cultivar calmamente sua horta, domestica flores, coloca-as em vasos; entretanto, exalta-se ainda diante dos luares e dos crepúsculos. Na fauna e na flora terrestres, ela vê antes de tudo alimentos, ornatos; no entanto, nelas circula uma seivaque é generosidade e magia. A Vida não é apenas imanência e repetição: tem também uma deslumbrante face de luz; nos prados em flor ela se revelacomo Beleza. Ligada à Natureza pela fertilidade de seu ventre, a mulher sente-se igualmente varrida pelo sopro que a anima e que é espírito. E àmedida que permanecer insatisfeita, que se sentir como a jovem irrealizada, ilimitada, sua alma também se perderá pelas estradas que se estendemindefinidamente em direção a horizontes sem fim. Escravizada ao marido, aos filhos, ao lar, com embriaguez é que se encontrará sozinha, soberana, noflanco das colinas; não é mais esposa, mãe, dona de casa, e sim um ser humano; contempla o mundo passivo; lembra-se de que é toda uma consciência,uma irredutível liberdade. No mistério da água, na vertigem das alturas, a supremacia do homem fica abolida; quando anda através das urzes, quandomergulha a mão no regato, não vive para outrem, vive para si. A mulher que manteve sua independência através de todas as suas servidões, amaráardentemente na Natureza sua própria liberdade. As outras nessa Natureza encontrarão somente um pretexto para êxtases distintos; hesitarão aocrepúsculo ante o receio de pegar um resfriado e o gozo intenso da alma.Essa dupla dependência do mundo carnal e do mundo “poético” define a metafísica, a sabedoria a que adere mais ou menos explicitamente a mulher;ela se esforça por confundir vida e transcendência; isso equivale a dizer que recusa o cartesianismo e todas as doutrinas que a ele se aparentam;encontra-se à vontade em um naturalismo análogo ao dos estoicos ou dos neoplatônicos do século XVI: não é de espantar que as mulheres, comMargarida de Navarra à frente, se tenham apegado a uma filosofia ao mesmo tempo tão material e tão espiritual. Socialmente maniqueísta, a mulhertem profunda necessidade de ser ontologicamente otimista: as morais da ação não lhe convém porque lhe é proibido agir; ela suporta o dado, cumpre,portanto, que o dado seja o Bem; mas um Bem que como o de Espinosa se reconhece pela razão, ou como o de Leibniz pelo cálculo, não a podeimpressionar. Ela reclama um Bem que seja uma Harmonia viva e no seio do qual ela se situe pelo único fato de viver. A noção de harmonia é uma daschaves do universo feminino: implica a perfeição na imobilidade, a justificação imediata de cada elemento a partir do todo e sua participação passiva natotalidade. Em um mundo harmônico, a mulher atinge, assim, o que o homem procurará na ação: age sobre o mundo, é por ele exigida, coopera para otriunfo do Bem. Os momentos que as mulheres consideram como revelações são aqueles em que descobrem seu acordo com uma realidade repousandoem paz sobre si mesma: são os momentos de luminosa felicidade que V. Woolf — em Mrs. Dalloway, em Passeio ao farol — que K. Mansfield, em toda asua obra, concedem a suas heroínas como uma recompensa suprema. A alegria, que é um movimento, um impulso de liberdade, está reservada aohomem; o que a mulher conhece é uma impressão de sorridente plenitude.443 Compreende-se que a simples ataraxia possa assumir a seus olhos umgrande valor, porquanto ela vive normalmente na tensão da recusa, da recriminação, da reivindicação; e não se pode censurá-la por apreciar uma belatarde ou a doçura de uma noite. Mas é uma ilusão buscar nisso a definição verdadeira da alma recôndita do mundo. O Bem não é; o mundo não éharmonia e nenhum indivíduo tem nele um lugar necessário.Há uma justificação, uma compensação suprema que a sociedade sempre se esforçou por dispensar à mulher: a religião. É preciso uma religião para asmulheres, como é preciso uma para o povo, e exatamente pelas mesmas razões: quando condenam um sexo, uma classe à imanência, é necessáriooferecer-lhe a miragem de uma transcendência. O homem tem toda vantagem em fazer endossar por Deus os códigos que fabrica: e, particularmente,como exerce sobre a mulher uma autoridade soberana, é útil que esta lhe seja conferida pelo ser soberano. Entre os judeus, os maometanos, oscristãos, entre outros, o homem é se nhor por direito divino: o temor a Deus abafará no oprimido toda veleidade de revolta. Pode-se apostar em suacredulidade. A mulher adota em face do universo masculino uma atitude de respeito e de fé; Deus em seu céu aparece-lhe menos longínquo do que umministro e o mistério da gênese nivela-se ao das usinas elétricas. Mas se se entrega assim de bom grado à religião, é principalmente porque esta vemsatisfazer uma necessidade profunda. Na civilização moderna, que dá certo valor — mesmo quando se trata da mulher — à liberdade, a religiãoapresenta-se muito menos como um instru mento de constrangimento do que como um instrumento de mistificação. O que se pede à mulher é menosque aceite sua inferioridade em nome de Deus do que acredite ser, graças a ele, igual ao macho suserano. Suprime-se a própria tentação de umarevolta que pretende vencer a injustiça. A mulher não é mais frustrada de sua transcendência porque vai destinar sua imanência a Deus; é somente nocéu que se medem os méritos das almas segundo suas realizações terrestres; aqui só há, na expressão de Dostoiewski, ocupações: engraxar sapatos ouconstruir uma ponte, tudo é igualmente vaidade; para além das discriminações sociais, a igualdade dos sexos é restabelecida. Eis por que a menina e aadolescente mergulham na devoção com um fervor muito maior do que o de seus irmãos; o olhar de Deus, que transcende sua transcendência humilhao menino: permanecerá sempre uma criança sob essa tutela poderosa, é uma castração mais radical do que aquela a que se sente ameaçado pelaexistência do pai. Ao passo que a “eterna criança” encontra sua salvação nesse olhar que a metamorfoseia em uma irmã dos anjos; anula o privilégio dopênis. Uma fé sincera auxilia muito a menina a evitar todo complexo de inferioridade: ela não é macho nem fêmea e sim uma criatura de Deus. Eis porque encontramos em muitas grandes santas uma firmeza bem viril: Santa Brígida, Santa Catarina de Siena pretendiam arrogantemente reger o mundo,não reconheciam nenhuma autoridade masculina: Catarina dirigia mesmo com dureza seus diretores; Joana d’Arc, Santa Teresa seguiam seu caminhocom uma intrepidez que nenhum homem superou. A Igreja cuida de que Deus nunca autorize as mulheres a se subtraírem à tutela dos homens; colocouexclusivamente em mãos masculinas estas armas terríveis: recusa de absolvição, excomunhão; obstinada em suas visões, Joana d’Arc foi queimada.Entretanto, embora submetida à lei dos homens pela própria vontade de Deus, a mulher encontra nele um sólido recurso contra eles. A lógicamasculina é contestada pelos mistérios; o orgulho dos homens torna-se um pecado, sua agitação é não somente absurda mas culpada: por que refazer,remodelar este mundo que Deus criou? A passividade a que a mulher é destinada é santificada. Debulhando o rosário junto à lareira, sente-se ela maispróxima do céu do que o marido, que participa de comícios políticos. Não é preciso fazer nada para salvar a alma, basta viver sem desobedecer.Consuma-se a síntese da vida e do espírito: a mãe não gera apenas uma carne, dá a Deus uma alma; é uma obra mais elevada do que descobrir ossegredos fúteis do átomo. Com a cumplicidade do pai celeste, a mulher pode reivindicar altivamente contra o homem a glória de sua feminilidade.Não somente Deus restabelece, assim, o sexo feminino em geral, em sua dignidade, mas também cada mulher encontrará na celeste ausência um apoioespecial; enquanto pessoa humana, ela não pesa muito; mas, desde que age em nome de uma inspiração divina, suas vontades tornam-se sagradas.Mme Guyon diz que aprendeu, a propósito da doença de uma religiosa, “o que era comandar pelo Verbo e obedecer pelo mesmo Verbo”; assim a devotamascara de obediência humilde sua autoridade; educando os filhos, dirigindo um convento, organizando uma obra, é apenas um instrumento dócil emmãos sobrenaturais; não se pode desobedecer-lhe sem ofender a Deus. Por certo os homens não desdenham tampouco um tal apoio; mas este não émuito sólido quando enfrentam semelhantes que o podem também reivindicar: o conflito resolve-se finalmente num plano humano. A mulher invoca avontade divina para justificar absolutamente sua autoridade aos olhos dos que já lhe são naturalmente subordinados, para justificá-la aos própriosolhos. Se essa cooperação lhe é tão útil é porque ela se ocupa principalmente de suas relações consigo mesma — ainda que essas relações interessem aoutrem: é somente nesses debates interiores que o silêncio supremo pode ter força de lei. Em verdade, a mulher vale-se da religião como pretexto parasatisfazer seus desejos. Frígida, masoquista, sádica, santifica-se renunciando à carne, fazendo-se de vítima, abafando em si qualquer impulso vital;mutilando-se, aniquilando-se, sobe na hierarquia dos eleitos; quando martiriza marido e filhos, privando-os de toda felicidade terrestre, prepara-lhes umlugar especial no paraíso; Margarida de Cortona “para se punir de ter pecado”, dizem-no seus dois biógrafos, maltrata o filho de seu erro: só lhe davacomida depois de ter alimentado todos os mendigos; o ódio do filho não desejado é, como vimos, frequente: é uma dádiva poder entregar-se a ele comum ardor virtuoso. Por seu lado, uma mulher de moral pouco rigorosa arranja-se comodamente com Deus; a certeza de ser um dia redimida do pecadopela absolvição ajuda muitas vezes a mulher piedosa a vencer seus escrúpulos. Que tenha escolhido o ascetismo ou a sensualidade, o orgulho ou ahumildade, a preocupação que tem de sua salvação encoraja-a a entregar-se a esse prazer que sobrepõe a todos: ocupar-se de si; escuta os movimentosdo coração, espia os frêmitos de sua carne, justificada pela presença nela da graça, como a mulher grávida pela de seu fruto. Não somente se examinacom terna vigilância, como ainda revela-se a seu confessor; em tempos idos podia mesmo gozar a embriaguez das confissões públicas. Contam-nos queMargarida de Cortona, para se punir de um impulso de vaidade, subiu ao terraço de sua casa e pôs-se a dar berros como uma parturiente: “Levantai-vos, habitantes de Cortona, levantai-vos com círios e lanternas e saí para ouvirdes a pecadora!” Enumerava todos os seus pecados clamando suamiséria aos céus. Com essa ruidosa humildade, satisfazia essa necessidade de exibicionismo de que se encontram tantos exem plos nas mulheresnarcisistas. A religião autoriza na mulher a complacência para consigo mesma; dá-lhe o guia, o pai, o amante, a divindade tutelar de que ela temnostálgica necessidade, alimenta-lhe os devaneios, ocupa-lhe as horas vazias. Mas, principalmente, confirma a ordem do mundo, justifica a resignaçãodando a esperança de u m futuro melhor em um céu assexuado. Eis por que as mulheres são ainda hoje um trunfo tão poderoso nas mãos da Igreja; eispor que a Igreja é tão hostil a qualquer medida suscetível de facilitar a emancipação da mulher. É preciso uma religião para as mulheres: é precisomulheres, “mulheres de verdade” para perpetuarem a religião.Vê-se que o conjunto do “caráter” da mulher — convicções, valores, sabedoria, moral, gostos e condutas — se explica pela sua situação. O fato de suatranscendência lhe ser recusada, interdita-lhe normalmente o acesso às mais elevadas atitudes humanas: heroísmo, revolta, desprendimento, invenção,criação; mas, mesmo entre os homens, elas não são tão comuns. Há muitos homens que, como a mulher, se confinam no terreno do intermediário, domeio inessencial; o operário evade-se pela ação política, exprimindo uma vontade revolucionária; mas os homens das classes que precisamentechamamos “médias” aí se instalam deliberadamente; destinados como a mulher à repetição das tarefas cotidianas, alienados em valores convencionais,respeitosos da opinião pública e procurando apenas um vago conforto na terra, o empregado, o comerciante, o burocrata, não detêm nenhuma


superioridade sobre suas companheiras; cozinhando, lavando, dirigindo a casa, educando os filhos, ela manifesta mais iniciativa e independência do queo homem submetido a instruções; ele deve obedecer o dia inteiro a seus superiores, usar colarinho e afirmar sua posição social; ela pode arrastar-se deroupão pelo apartamento, cantar, rir com as vizinhas; age como bem entende, corre pequenos riscos, procura alcançar eficientemente certosresultados. Vive muito menos do que o marido dentro de convenções e de aparência. O universo burocrático que Kafka — entre outras coisas —descreveu, esse universo de cerimônias, de gestos absurdos, de condutas sem objetivo, é essencialmente masculino; ela está muito mais em contatocom a realidade. Quando acaba de alinhar cifras ou de converter latas de sardinha em dinheiro, só aprendeu abstrações; a criança alimentada no berço,a roupa limpa, o assado são bens mais tangíveis; entretanto, como na perseguição concreta desses fins ela experimenta a contingência deles — ecorrelativamente sua própria contingência — ocorre muitas vezes que não se aliene neles; permanece disponível. Os empreendimentos do homem são aum tempo projetos e fugas: ele se deixa devorar pela carreira, pela sua personagem; é de bom grado importante, sério; contestando a lógica e a moralmasculinas, ela não cai nessas armadilhas: é o que Stendhal tanto apreciava nela; não disfarça no orgulho a ambiguidade de sua condição; não seesconde atrás da máscara da dignidade humana; descobre com mais sinceridade seus pensamentos indisciplinados, suas emoções, suas reaçõesespontâneas. Eis por que sua conversa é muito menos tediosa do que a do marido, desde que fale em seu próprio nome e não como leal metade de seusenhor. Ele enuncia ideias ditas gerais, isto é, palavras, fórmulas que se encontram nas colunas de seu jornal ou em obras especializadas; ela ofereceuma experiência limitada mas concreta. A famosa “sensibilidade feminina” participa um pouco do mito, um pouco da comédia; mas o fato é, também,que a mulher se mostra mais atenta do que o homem a si mesma e ao mundo. Sexualmente, vive num clima masculino, que é rude: tem comocompensação o gosto das “coisas bonitas”, o que pode engendrar certo pieguismo mas igualmente delicadeza. Como seu domínio é limitado, os objetosque alcança parecem-lhe preciosos: não os encerrando em conceitos, nem em projetos, desvenda-lhes as riquezas; seu desejo de evasão exprime-se emseu gosto pela festa; encanta-se com a gratuidade de um ramalhete de flores, de um bolo, de uma mesa bem-posta; compraz-se em transformar o vaziode seus lazeres em uma oferenda generosa; amando os risos, as canções, os enfeites, os bibelôs, está disposta a acolher tudo o que palpita ao redordela: o espetáculo da rua, o do céu, um convite, um passeio abrem-lhe novos horizontes. O homem, muitas vezes, recusa-se a participar dessesprazeres; quando volta para casa as vozes alegres calam-se, as mulheres da família exibem o ar aborrecido e decente que ele espera delas. Do seio dasolidão, da separação, a mulher tira o sentido da singularidade de sua vida: tem do passado, da morte, do passar do tempo, uma experiência maisíntima que o homem; interessa-se pelas aventuras de seu coração, de sua carne, de seu espírito, porque sabe que não tem na terra outro quinhão; etambém, por ser passiva, sofre a realidade que a submerge de maneira mais apaixonada, mais patética do que o indivíduo absorvido por uma ambição,por um ofício; tem o lazer e o gosto de se entregar a suas emoções, de estudar suas sensações e entender-lhes o sentido. Quando sua imaginação não seperde em devaneios vãos, torna-se simpatia: ela procura compreender os outros em sua singularidade e recriá-los em si; é capaz de uma verdadeiraidentificação com o marido ou com o amante: faz seus os projetos e as preocupações dele, de uma maneira que ele não poderia imitar. Presta umaatenção ansiosa ao mundo inteiro, que se lhe apresenta como um enigma: cada ser, cada objeto pode ser uma resposta; ela interroga avidamente.Quando envelhece, sua espera desiludida converte-se em ironia e num cinismo frequentemente saboroso; recusa as mistificações masculinas, vê oinverso contingente, absurdo, gratuito do imponente edifício construído pelos homens. Sua dependência proíbe-lhe o desprendimento; mas ela retira,por vezes, da dedicação que lhe é imposta, uma verdadeira generosidade; esquece-se em favor do marido, do amante, do filho, deixa de pensar em si, étoda oferenda, dom. Sendo mal-adaptada à sociedade dos homens, é frequentemente obrigada a inventar ela própria suas condutas; pode contentar-semenos com receitas prontas, com clichês; se tem boa vontade, há nela uma inquietação mais próxima da autenticidade do que a segurança importantede seu marido.Mas ela só terá esses privilégios sobre o homem sob a condição de rechaçar as mistificações que ele lhe propõe. Nas classes superiores, as mulheresfazem-se ardentemente cúmplices de seus senhores porque desejam aproveitar-se dos benefícios que eles lhes asseguram. Vimos que as grandesburguesas, as aristocratas sempre defenderam seus interesses de classe mais obstinadamente ainda do que seus maridos: não hesitam em sacrificar aesses interesses sua autonomia de ser humano; abafam em si todo pensamento, todo juízo crítico, todo impulso espontâneo; repetem como papagaios asopiniões aceitas, confundem-se com o ideal que o código masculino lhes impõe; em seu coração, em seu rosto mesmo, toda sinceridade morre. A donade casa reencontra uma independência em seu trabalho, no cuidado dos filhos; tira disto uma experiência limitada mas concreta: aquela que se “fazservir” não tem mais nenhum domínio sobre o mundo; vive no sonho e na abstração, no vazio. Ela ignora o alcance das ideias que proclama; as palavrasque enuncia perderam em sua boca qualquer sentido; o financista, o industrial, até o general, por vezes, assumem fadigas, preocupações, riscos;compram seus privilégios mediante operações injustas, mas pelo menos se expõem; suas mulheres, em troca de tudo o que recebem, não dão nada, nãofazem nada; e acreditam com uma fé ainda mais cega em seus direitos imprescritíveis. Sua arrogância vã, sua incapacidade radical, sua ignorânciaobstinada fazem delas os seres mais inúteis, mais nulos que produziu a espécie humana.É pois tão absurdo falar da “mulher” em geral como do “homem” eterno. E compreende-se por que todas as comparações com que se esforçam pordecidir se a mulher é superior, inferior ou igual ao homem são inúteis: as situações são profundamente diferentes. Confrontando-se tais situações, faz-se evidente que a do homem é infinitamente preferível, isto é, ele tem muito mais possibilidades concretas de projetar sua liberdade no mundo; dissoresulta necessariamente que as realizações masculinas são de longe mais importantes que as das mulheres; a estas é quase proibido fazer algumacoisa. Entretanto, confrontar o uso que em seus limites os homens e as mulheres fazem de sua liberdade é a priori uma tentativa desprovida de sentido,posto que, precisamente, eles a empregam livremente. Sob formas diversas, as armadilhas da má-fé, as mistificações da seriedade ameaçam-nos a unscomo a outros; a liberdade se encontra inteira em cada um. Somente como permanece abstrata e vazia na mulher, esta só poderia assumir-seautenticamente na revolta: é o único caminho aberto aos que não têm a possibilidade de construir o que quer que seja; cumpre-lhes recusar os limitesde sua situação e procurar abrir para si os caminhos do futuro; a resignação não passa de uma renúncia e de uma fuga; não há, para a mulher, outrasaída senão a de trabalhar pela sua libertação.Essa libertação só pode ser coletiva e exige, antes de tudo, que se acabe a evolução econômica da condição feminina. Entretanto, houve, há ainda,numerosas mulheres que buscam solitariamente realizar sua salvação individual. Tentam justificar sua existência no seio de sua imanência, isto é,realizar a transcendência na imanência. É este último esforço — por vezes ridículo, por vezes patético — da mulher encarcerada para converter suaprisão em um céu de glória, sua servidão em liberdade soberana, que encontramos na narcisista, na amorosa, na mística.


ou em seu corpo algum traço gracioso, raro, picante; se acreditarão belas pelo simples fato de se sentirem mulheres.Aliás, o espelho, embora privilegiado, não é o único instrumento de desdobramento. No diálogo interior, todos podem tentar criar um irmão gêmeo.Estando só grande parte do dia, aborrecendo-se com tarefas caseiras, a mulher tem o lazer de modelar, em sonho, sua própria imagem. Moça, elasonhava com o futuro; encerrada em seu presente indefinido, ela conta sua história; retoca-a de maneira a introduzir nela uma ordem estética,transformando, desde antes da morte, sua vida contingente em um destino.Sabe-se quanto as mulheres se apegam a suas recordações de infância; testemunha-o a literatura feminina; a infância em geral só ocupa um lugarsecundário nas autobiografias masculinas; as mulheres, ao contrário, restringem-se muitas vezes à narrativa de seus primeiros anos; estes constituem amatéria privilegiada de seus romances, seus contos. Uma mulher que se conta a uma amiga, a um amante, começa quase todas as suas histórias comestas palavras: “Quando eu era menina...” Guardam uma nostalgia desse período. É porque sentiam então sobre a cabeça a mão bondosa e imponentedo pai, embora apreciando as alegrias da independência; protegidas e justificadas pelos adultos, eram indivíduos autônomos, diante dos quais umfuturo livre se abria; ao passo que agora estão perfeitamente defendidas pelo casamento e o amor e se tornaram servas ou objetos, engaioladas nopresente. Reinavam sobre o mundo, conquistavam-no dia após dia; e ei-las separadas do universo, fadadas à imanência e à repetição. Sentem-sedecadentes. Mas sofrem mais é por se acharem absorvidas na generalidade: uma esposa, uma mãe, uma dona de casa, uma mulher entre milhares deoutras; em criança, ao contrário, cada uma viveu sua condição de maneira singular; ignorava as analogias existentes entre o seu aprendizado do mundoe o de suas amigas; pelos seus pais, seus professores, suas amigas, era ela reconhecida em sua individualidade, acreditava-se incomparável a qualqueroutra, com possibilidades únicas. Volta-se com emoção para essa irmã jovem de cuja liberdade, exigências e soberania abdicou e que mais ou menostraiu. A mulher que se tornou tem saudade do ser humano que foi; tenta reencontrar no fundo de si essa criança morta. “Menina”, esta palavra comove-a; mais ainda: “estranha menina”, que ressuscitam a originalidade perdida.Ela não se restringe a maravilhar-se de longe com essa infância tão rara: tenta reavivá-la em si. Busca convencer-se de que seus gestos, suas ideias,seus sentimentos conservaram um insólito frescor. Perplexa, interrogando o vazio, enquanto brinca com um colar ou mexe num anel, murmura:“Engraçado... eu, assim é que sou... Imagine, a água me fascina... Oh! adoro o campo.” Cada preferência parece uma excentricidade, cada opinião umdesafio ao mundo. Dorothy Parker mostra de maneira muito viva esse traço tão comum. Assim descreve Mrs. Welton: Gostava de se imaginar como uma mulher que não podia ser feliz sem se cercar de flores desabrochadas... Confessava às pessoas em pequenos surtos de confidências quanto amava as flores. Havia quase um tom de desculpa nessa pequena confissão, como se pedisse a seus auditores que não julgassem seu gosto tão insólito. Parecia esperar que seu interlocutor caísse de costas, tomado de espanto, e exclamando: “Não, realmente! A que ponto chegamos!” De vez em quando confessava outras diminutas predileções; sempre com um pouco de perplexidade como se na sua delicadeza se sentisse naturalmente chocada em revelar seus sentimentos, dizia quanto gostava da cor, do campo, das distrações, de uma peça realmente interessante, de bonitos tecidos, de vestidos bem-feitos, do sol. Mas era seu amor pelas flores que confessava o mais das vezes. Tinha a impressão de que este gosto mais do que qualquer outro a distinguia do comum dos mortais. A mulher procura de bom grado confirmar essas análises por suas condutas; escolhe uma cor: “O verde é minha cor”; tem uma flor preferida, umperfume, um músico predileto, superstições, manias que trata com respeito; e não é preciso que seja bela para exprimir sua personalidade em suastoaletes ou em seu lar. O personagem que apresenta tem mais ou menos coerência e originalidade segundo sua inteligência, sua obstinação e aprofundeza de sua alienação. Algumas misturam apenas ao acaso alguns traços esparsos embaralhados; outras criam sistematicamente uma figura cujopapel representam com constância. Já dissemos que a mulher separa mal esse jogo da verdade. Em torno dessa heroína, a vida organiza-se numromance triste ou maravilhoso, sempre um pouco estranho. Por vezes é um romance que já foi escrito. Não sei quantas moças me disseram ter-sereconhecido na Judy de Poussière; lembro-me de uma velha senhora muito feia que tinha por hábito dizer: “Leia o Lys dans la vallée, é minha história”;quando criança, eu olhava com estupor reverente esse lírio murcho. Outras mais vagamente murmuram: “Minha vida é um romance.” Há uma estrelafasta ou nefasta acima de suas cabeças. “Essas coisas só acontecem comigo”, dizem. O azar as persegue, ou a sorte lhes sorri: em todo caso, elas têmum destino. Cécile Sorel escreve com essa ingenuidade que nunca abandona em suas memórias: “Assim foi que fiz minha entrada no mundo. Meusprimeiros amigos chamavam-se gênio e beleza.” E no Livre de ma vie, documento fabuloso de narcisismo, Mme de Noailles escreve: As governantas um dia desapareceram: o destino tomou-lhes o lugar. Maltratou, tanto quanto tinha cumulado de bondades, a criatura forte e fraca, manteve-a acima dos naufrágios onde ela apareceu como uma Ofélia combativa, salvando suas flores e cuja voz sempre se eleva. Pediu-lhe que esperasse, que fosse realmente exata esta última promessa: os gregos utilizam a morte. Cumpre ainda citar como exemplo de literatura narcisista o trecho seguinte: Da robusta menina que eu era, de membros delicados mas bem-feitos, de faces rosadas, fiquei com este caráter físico mais frágil, mais nebuloso que fez de mim uma adolescente patética a despeito da fonte de vida que pode jorrar de meu deserto, de minha fome, de minhas breves e misteriosas mortes tão estranhamente quanto do rochedo de Moisés. Não me vangloriarei de minha coragem, como teria o direito de fazê-lo. Assimilo-a a minhas forças, a minhas possibilidades. Poderia descrevê-la assim: tenho olhos verdes, cabelos pretos, mão pequena e poderosa... E linhas adiante: Hoje é-me permitido reconhecer que, sustentada pela alma e suas forças de harmonia, vivi ao som de minha voz... Na falta de beleza, de brilho, de felicidade, a mulher escolherá para si uma personagem de vítima; obstinar-se-á em encarnar a mater dolorosa, aesposa incompreendida, será a seus próprios olhos “a mulher mais infeliz do mundo”. É o caso desta melancólica que Stekel descreve:446 Todos os anos, no Natal, Mme H.W., pálida, vestida de escuro, vem a minha casa para se queixar da sorte. É uma história triste que ela conta vertendo lágrimas. Uma vida frustrada, um lar infeliz. Da primeira vez que veio, fiquei comovido até as lágrimas e prestes a chorar com ela... Entrementes, dois longos anos passaram e ela continua a habitar as ruínas de suas esperanças, chorando sua vida perdida. Sua fisionomia acusa os primeiros sintomas do declínio, o que lhe dá mais uma razão de se queixar. “Em que estado me encontro, eu, cuja beleza foi tão admirada!” Multiplica as queixas, acentua seu desespero porque todos os amigos conhecem sua desgraçada sorte. Aborrece todo mundo com suas lamentações... É mais uma oportunidade para ela de se sentir infeliz, solitária e incompreendida. Não havia mais saída para esse labirinto de dores... Essa mulher encontrava seu gozo nesse papel trágico. Embriagava-se literalmente com o pensamento de ser a mulher mais infeliz da terra. Todos os esforços para fazê-la tomar parte na vida ativa fracassaram. Um traço comum à pequena Mrs. Welton, à arrogante Mme de Noailles, à infortunada doente de Stekel, à multidão das mulheres marcadas por umdestino excepcional, é o se sentirem incompreendidas; os que as cercam não reconhecem sua singularidade — ou não o fazem suficientemente; elastraduzem positivamente essa ignorância, essa indiferença dos outros pela ideia de que encerram em si um segredo. O fato é que muitas enterraramsilenciosamente episódios da infância e da juventude que tinham para elas grande importância; sabem que sua biografia oficial não se confunde comsua história verdadeira. Mas, principalmente por não se realizar na vida, a heroína amada pela narcisista não passa de uma coisa imaginária; suaunidade não lhe é conferida pelo mundo concreto; é um princípio escondido, uma espécie de “força”, de “virtude” tão obscura quanto o flogístico; amulher crê em sua presença, mas se a quisesse descobrir a outrem ficaria tão embaraçada quanto o psicastênico obstinando-se em confessar crimesimpalpáveis. Nos dois casos, “o segredo” reduz-se à convicção vazia de possuir no fundo de si uma chave que permite decifrar e justificar sentimentos econdutas. São sua abulia, sua inércia que dão aos psicastênicos essa ilusão; e é por não poder exprimir-se na ação cotidiana que a mulher também seacredita habitada por um mistério inexprimível: o famoso mito do mistério feminino encoraja-a a isso e vê-se, em compensação, confirmado.Rica de seus tesouros desconhecidos, marcada por uma estrela fasta ou nefasta, a mulher toma a seus próprios olhos a necessidade dos heróis detragédia governados por um destino. Toda sua vida se transfigura num drama sagrado. Sob o vestido escolhido com solenidade erguem-se a um tempouma sacerdotisa envergando as vestes sacerdotais e um ídolo adornado por mãos fiéis e oferecido à adoração dos devotos. Sua casa torna-se o temploem que se realiza seu culto. Maria Bashkirtseff cuida tanto do cenário que instala ao redor de si, quanto de seus vestidos: Junto da escrivaninha, uma poltrona em estilo antigo, de maneira que, quando entram, basta-me imprimir um ligeiro movimento a essa poltrona para me achar em face das


pessoas... perto da escrivaninha pedantesca com os livros no fundo, entre quadros e plantas, e com as pernas e os pés à vista, em vez de ser cortada em dois como antes por essa madeira escura. Em cima do sofá, acham-se pendurados os dois bandolins e a guitarra. Colocai no meio de tudo isso uma moça loura e branca, de mãos muito pequenas e finas, e veias azuis. Quando se pavoneia nos salões, quando se abandona nos braços de um amante, a mulher cumpre sua missão: ela é Vênus distribuindo ao mundo ostesouros de sua beleza. Não era ela própria, era a Beleza que Cécile Sorel defendia quando quebrou o vidro da caricatura de Bib; vê-se em suasmemórias que, em todos os instantes de sua vida, convidou os mortais ao culto da arte. Assim também Isadora Duncan quando se descreve em Minhavida: Depois das representações, escreve, vestida com minha túnica e a cabeleira coroada de rosas, ficava tão bonita! Por que não fazer que aproveitassem esse encanto? Por que um homem que trabalha durante o dia todo com o cérebro... não seria enlaçado por estes braços esplêndidos e não encontraria algum consolo para suas penas e algumas horas de beleza e esquecimento? A generosidade da narcisista lhe é proveitosa: mais do que nos espelhos é nos olhos admirados de outrem que ela divisa seu duplo aureolado de glória.Na falta de um público complacente, abre o coração a um confessor, a um médico, a um psicanalista; vai consultar quiromantes, videntes. “Não éporque acredite nisso”, dizia uma starlet, “mas gosto tanto que falem de mim para mim!”; ela conta às amigas; no amante, mais avidamente do que emqualquer outra coisa, busca uma testemunha; a amorosa esquece depressa o seu eu; mas muitas mulheres são incapazes de um amor verdadeiro,precisamente porque não se esquecem nunca. À intimidade da alcova, preferem um palco mais vasto. Daí a importância que assume para elas a vidamundana: precisam de olhos para as contemplar, de ouvidos para as ouvir; à sua personagem é indispensável o maior público possível. Descrevendomais uma vez seu quarto, Maria Bashkirtseff deixa escapar esta confissão: Desta maneira estou no palco, quando entram e me encontram escrevendo. E adiante: Estou decidida a criar para mim uma encenação considerável. Vou construir uma residência mais bela que a de Sarah e ateliês maiores... Por sua vez Mme de Noailles escreve: Amei e amo a ágora... Por isso mesmo pude muitas vezes tranquilizar os amigos que temiam importunar-me por causa do número de seus convidados, com esta confissão sincera: não gosto de representar diante de cadeiras vazias. A toalete, a conversa satisfazem em grande parte esse gosto feminino de exibição. Mas uma narcisista ambiciosa almeja exibir-se de maneira mais rarae mais variada. Fazendo de sua vida uma peça oferecida aos aplausos do público, terá maior prazer em subir de verdade ao palco. Mme de Staël contoulongamente em Corinne como encantou as multidões italianas recitando poemas que acompanhava na harpa. Em Coppet, uma de suas distraçõesprediletas era declamar papéis trágicos; sob a figura de Phèdre, endereçava de bom grado aos jovens amantes, que fantasiava de Hippolyte,declarações ardentes. Mme Krudener especializava-se na dança do xale, que descreve em Valéria: Valéria pediu o xale de musselina azul-escuro, afastou os cabelos da testa; pôs o xale na cabeça; ele caía ao longo das têmporas e dos ombros; a fronte desenhou-se à maneira antiga, os cabelos desapareceram, as pálpebras baixaram, o sorriso habitual dissipou-se pouco a pouco; a cabeça inclinou-se, o xale caiu molemente sobre os braços cruzados, sobre o seio, e essa vestimenta azul, esse semblante puro e meigo pareciam ter sidos desenhados por Corregio para exprimir a resignação serena; e quando os olhos se ergueram, quando os lábios esboçaram um sorriso, teve-se a impressão de ver como Shakespeare a pintou, a Paciência sorrindo para a Dor, junto de um monumento... ...É Valéria que é preciso ver. Ela, que é ao mesmo tempo tímida, nobre, profundamente sensível, perturba, arrasta, comove, arranca lágrimas e faz o coração palpitar como palpita quando dominado por uma grande ascendência; ela é que possui essa graça encantadora que não pode ser aprendida, mas que a natureza revelou em segredo a alguns seres superiores. Se as circunstâncias o permitem, nada dará uma satisfação mais profunda à narcisista do que se consagrar publicamente ao teatro: O teatro, diz Georgette Leblanc, dava-me o que nele sempre procurava: um motivo de exaltação. Hoje me aparece como uma caricatura da ação; algo indispensável aos temperamentos excessivos. A expressão de que se serve é impressionante: não agindo, a mulher inventa sucedâneos para a ação; o teatro representa para algumas um ersatzprivilegiado. A artista pode, aliás, visar a fins muito diferentes. Para algumas, representar é um meio de ganhar a vida, uma simples profissão; paraoutras é o acesso à fama, a ser explorada para fins galantes; para outras, ainda, o triunfo de seu narcisismo; as maiores — Rachel, a Duse — sãoartistas autênticas que se transcendem no papel que criam; a cabotina, ao contrário, não se preocupa com o que realiza e sim com a glória que dissolhe advém; procura antes de tudo valorizar-se. Uma narcisista obstinada será limitada em arte, como no amor, por não saber se dar.Esse defeito se fará sentir gravemente em todas as suas atividades. Ela será tentada por todos os caminhos que podem conduzi-la à glória; mas nuncaseguirá nenhum sem reserva. Pintura, escultura, literatura são disciplinas que reclamam severo aprendizado e exigem um trabalho solitário; muitasmulheres as tentam, mas logo renunciam, se não são incentivadas por um desejo positivo de criação; muitas também das que perseveram não fazemsenão brincar de trabalhar. Maria Bashkirtseff, tão ávida de glória, passava horas diante do cavalete, mas amava-se a si mesma demais para gostarrealmente de pintar. Confessa-o, ela própria, após anos de despeito: “Sim, não me esforço por pintar, observei-me hoje, trapaceio...” Quando umamulher consegue, como Mme de Staël, Mme de Noailles, construir uma obra, é porque não está exclusivamente absorvida pelo culto que rende a simesma: mas um dos defeitos que pesam sobre numerosas escritoras é a complacência para consigo mesmas, que prejudica sua sinceridade, que aslimita e as diminui.Muitas mulheres, imbuídas de sentimento de sua superioridade, não são entretanto capazes de manifestá-la aos olhos do mundo; sua ambição seráentão utilizar, como instrumento, um homem a quem convencerão dos seus méritos; não visam a valores singulares através de livres projetos; queremanexar valores já feitos ao seu eu; se voltarão portanto para os que detêm influência e glória, na esperança de se identificar com eles, fazendo-semusas, inspiradoras, egérias. Exemplo impressionante disso temos em Mabel Dodge, em suas relações com Lawrence: Eu queria, diz, seduzir-lhe o espírito, constrangê-lo a produzir certas coisas... Tinha necessidade de sua alma, de sua vontade, de sua imaginação criadora, de sua visão luminosa. Para me tornar senhora desses instrumentos essenciais, era necessário dominar-lhe o sangue... Sempre procurei fazer com que os outros fizessem coisas, sem procurar fazer qualquer coisa eu mesma. Adquiria o sentimento de uma espécie de atividade, de fecundidade por procuração. Era uma espécie de compensação ao sentimento desolado de não ter o que fazer.E adiante: Queria que Lawrence conquistasse por mim, que se valesse de minha experiência, de minhas observações, de meu Taos e formulasse tudo isso numa magnífica criação artística.


Assim queria Georgette Leblanc ser para Maeterlinck “chama e alimento”; mas queria também ter o nome inscrito no livro composto pelo poeta. Não setrata aqui de ambiciosas que escolheram objetivos pessoais e utilizaram homens para alcançá-los — como fizeram a princesa de Ursins, Mme de Staël— e sim de mulheres animadas por um desejo inteiramente subjetivo de importância, que não visam a nenhum alvo objetivo e que pretendem apropriar-se da transcendência de um outro. Estão longe de sempre o conseguir; mas são hábeis em mascarar o fra casso e persuadir-se de que são dotadas deuma irresistível sedução. Sabendo-se amáveis, desejáveis, admiráveis, sentem-se seguras de ser amadas, desejadas, admiradas. Toda narcisista é Bélise.Mesmo a inocente Brett, dedicada a Lawrence, fabrica um pequeno personagem de si mesma, ao qual empresta uma grave sedução: Ergo os olhos para perceber que você me olha com malícia, com seu ar de fauno, uma luz provocante brilha em seus olhos, Pã. Encaro-o com um ar solene e digno, até que a luz se apague em seu rosto. Tais ilusões podem engendrar verdadeiros delírios; não é sem razão que Clérambault considerava a erotomania como uma “espécie de delírioprofissional”; sentir-se mulher é sentir-se objeto desejável, é acreditar-se desejada e amada. É notável que, em dez doentes atingidos pela “ilusão de seramados”, nove sejam mulheres. Vê-se claramente que o que procuram em seu amante imaginário é uma apoteose de seu narcisismo. Querem-no dotadode um valor incondicionado: sacerdote, médico, advogado, homem superior; e a verdade categórica que essas condutas revelam é que a amante ideal ésuperior a todas as outras mulheres, que possui virtudes irresistíveis e soberanas.A erotomania pode aparecer em diversas psicoses; mas seu conteúdo é sempre o mesmo. O sujeito é iluminado e glorificado pelo amor de um homem degrande valor, que foi bruscamente fascinado por seus encantos — quando ela nada esperava dele — e que manifesta seus sentimentos de maneiraindireta mas imperiosa; essa relação permanece por vezes ideal, por vezes reveste uma forma sexual; mas o que a caracteriza essencialmente é que osemideus poderoso e glorioso ama mais do que é amado e manifesta sua paixão através de condutas estranhas e ambíguas. Em meio ao grande númerode casos relatados pelos psiquiatras, eis um bem típico, que resumo de Ferdière.447 Trata-se de uma mulher de 48 anos, Mario-Yvonne, que faz aconfissão seguinte: Trata-se do doutor Achille, antigo deputado e subsecretário de Estado, advogado e membro do Conselho da Ordem. Conheço-o desde 12 de maio de 1920; na véspera, eu tentara encontrá-lo no Palácio de Justiça; observara de longe seu porte, mas não sabia quem era; provocou-me um arrepio nas costas... Sim, há entre mim e ele uma questão de sentimento, de sentimento recíproco: os olhos, os olhares se cruzaram. Desde a primeira vez que o vi, senti uma atração por ele; com ele acontece a mesma coisa... Em todo caso, foi o primeiro a declarar-se: era no início de 1922; recebia-me em seu salão, sempre sozinha; de uma feita, chegou a mandar embora o filho... Um dia... levantou-se e veio em minha direção, continuando a conversar. Compreendi imediatamente que era um impulso sentimental... Disse-me palavras que o davam a entender. Mediante diferentes amabilidades fez-me compreender que os sentimentos recíprocos se haviam encontrado. De outra vez, sempre em seu escritório, aproximou-se de mim dizendo: “Sois vós, sois vós sozinha e não outra, Senhora, bem o entendeis.” Fiquei tão surpreendida que não soube como responder; disse-lhe somente: Obrigado, doutor! Outra vez ainda, acompanhou-me desde o escritório até a rua; até desvencilhou-se de um senhor que o acompanhava, deu-lhe uma moeda na escada e disse-lhe: Deixe-me, rapaz, está vendo que estou em companhia da senhora! Tudo isso era para me acompanhar e ficar só comigo. Apertava-me sempre as mãos com força. Durante sua primeira defesa, lançou uma indireta para dar-me a entender que era celibatário. Mandou um cantor ao pátio, para fazer com que eu compreendesse seu amor... olhava-me debaixo da janela; poderia cantar-vos a canção. Fez desfilar diante de minha porta a banda municipal. Fui tola. Devia ter correspondido a suas investidas. Arrefeci o ardor do doutor Achille... então ele pensou que eu o rechaçava e agiu; teria sido melhor que falasse abertamente; vingou-se. O doutor Achille pensava que eu tinha um sentimento por B... e tinha ciúme... Fez-me sofrer por feitiços mediante uma fotografia minha; foi o que descobri à força de estudos nos livros, nos dicionários. Ele trabalhou suficientemente a fotografia: tudo vem daí... Esse delírio transforma-se, com efeito, facilmente em um delírio de perseguição. E encontra-se esse processo mesmo nos casos normais. A narcisistanão pode admitir que outros não se interessem por ela apaixonadamente; se tem a prova evidente de que não é adorada supõe imediatamente que adetestam. Atribui todas as críticas ao ciúme, ao despeito. Seus fracassos são o resultado de tenebrosas maquinações: e, deste modo, eles a confirmamna ideia de sua importância. Ela descamba facilmente para a megalomania ou para o delírio de perseguição, que é a imagem invertida daquela: centrode seu universo e não conhecendo outro universo a não ser o seu, ei-la centro absoluto do mundo.Mas é a expensas da vida real que a comédia narcisista se desenrola; um personagem imaginário solicita a admiração de um público imaginário; amulher tomada pelo seu eu perde todo domínio sobre o mundo concreto, não se preocupa em estabelecer qualquer relação real com os outros; Mme deStaël não teria declamado Phèdre com tanto prazer, se tivesse pressentido as zombarias que seus “admiradores” anotavam à noite em seus diários; masa narcisista recusa-se a admitir que possam vê-la de maneira diferente daquela com que se mostra: é o que explica que, tão ocupada em se contemplar,consiga tão mal julgar-se e soçobre tão facilmente no ridículo. Não ouve mais, fala e quando fala recita seu papel:Diverte-me, escreve Maria Bashkirtseff. Não converso com ele, represento e sentindo-me diante de um bom público sou excelente em imitar entoçõesinfantis e fantasistas, e em atitudes.Olha-se demais para ver alguma coisa; só compreende de outrem o que dela reconhece nele. O que não pode assimilar a seu caso, a sua história,permanece-lhe estranho. Compraz-se em multiplicar as experiências: quer conhecer a embriaguez e os tormentos da mulher apaixonada, as alegriaspuras da maternidade, a amizade, a solidão, as lágrimas, os risos; mas, nunca podendo se dar, seus sentimentos e emoções são fabricados. Sem dúvida,Isadora Duncan chorou lágrimas de verdade quando da morte dos filhos. Mas, quando lhes jogou as cinzas no mar, em um grande gesto teatral, eraapenas uma artista; e não se pode ler sem sentir algum mal-estar este trecho de Minha vida em que evoca sua desgraça: Sinto a tepidez de meu próprio corpo. Abaixo os olhos para minhas pernas nuas que estico, para a doçura de meus seios, para meus braços que nunca se imobilizam, mas flutuam sem cessar em doces ondulações, e vejo que há 12 anos estou cansada, que este peito encerra uma dor inesgotável, que estas mãos foram marcadas pela tristeza e que, quando estou só, estes olhos raramente secam. No culto de seu eu, a adolescente pode encontrar a coragem de enfrentar o futuro inquietante; mas é uma etapa que cumpre superar depressa: sem oquê, o futuro torna a fechar-se. A apaixonada que encerra o amante na imanência do casal destina-o consigo à morte: a narcisista, alienando-se em seuduplo imaginário, aniquila-se. Suas recordações coagulam-se, suas condutas se estereotipam, ela rumina as palavras, repete mímicas pouco a poucoesvaziadas de qualquer conteúdo: daí a impressão de pobreza que dão tantos “diários íntimos” ou “autobiografias” femininas; preocupada em seincensar, a mulher que não faz nada não se faz ser nada e incensa um nada.Sua desgraça está em que, apesar de toda a sua má-fé, ela conhece esse nada. Não pode haver relação real entre um indivíduo e seu duplo, porque esteduplo não existe. A narcisista sofre um fracasso radical. Não pode apreender-se como totalidade, plenitude, não pode manter a ilusão de ser em si —para si. Sua solidão como a de todo ser humano é experimentada como contingência e abandono. E por isso — salvo numa conversão — ela é condenadaa fugir de si sem cessar para a multidão, o ruído, os outros. Seria um erro grave acreditar que, escolhendo-se como fim supremo, escape à dependência:destina-se, ao contrário, à mais estrita escravidão; não se apoia em sua liberdade, faz de si um objeto que se acha em perigo no mundo e nasconsciências alheias. Não somente seu corpo e seu semblante são uma carne vulnerável e que o tempo degrada, mas também é praticamente umempreendimento custoso paramentar o ídolo, erguer-lhe um pedestal, construir-lhe um templo: vimos que para inscrever suas formas em um mármoreimortal Maria Bashkirtseff teria consentido em casar por dinheiro. Fortunas masculinas pagaram o ouro, o incenso, a mirra que Isadora Duncan ouCécile Sorel depuseram aos pés de seu trono. Como é o homem que encarna o destino para a mulher, é pelo número e a qualidade dos homenssubmetidos a seu poder que as mulheres medem em geral sua vitória. Mas a reciprocidade também impõe-se aqui; a “fêmea do louva-a-deus”, que tentafazer do macho seu instrumento, não consegue entretanto libertar-se dele, pois, para aprisioná-lo, precisa agradar-lhe. A mulher norte-americana,querendo ser ídolo, faz-se escrava de seus adoradores, não se veste, não vive, não respira senão pelo homem e para ele. Na verdade, a narcisista é tãodependente quanto a cortesã. Se escapa ao domínio de um homem singular, é aceitando a tirania da opinião pública. Este laço que a prende a outremnão implica a reciprocidade da permuta: se procurasse fazer-se reconhecer pela liberdade de outrem a reconhecendo também como um fim através dasatividades, ela deixaria de ser narcisista. O paradoxo de sua atitude está em que ela reclama ser valorizada por um mundo ao qual nega qualquer valor,posto que só ela conta a seus olhos. A aprovação alheia é uma força inumana, misteriosa, caprichosa, que é preciso procurar captar magicamente. Adespeito de sua arrogância superficial, a narcisista sente-se ameaçada; eis por que é inquieta, suscetível, irritável, está sempre na expectativa; suavaidade nunca se satisfaz; quanto mais envelhece, mais procura ansiosamente elogios e êxitos, mais suspeita da existência de conjuras ao redor de si;desnorteada, obcecada, ela afunda na noite da má-fé e acaba muitas vezes por edificar em torno de si um delírio paranoico. A ela é que se aplicamsingularmente as palavras: “Quem quer salvar a vida a perderá.”


2/A apaixonada A palavra “amor” não tem em absoluto o mesmo sentido para um e outro sexo. E é isso uma fonte dos graves mal-entendidos que os separam. Byrondisse, justamente, que o amor é apenas uma ocupação na vida do homem, ao passo que é a própria vida da mulher. É a mesma ideia que exprimeNietzsche em Gaia ciência: A mesma palavra amor, diz, significa com efeito duas coisas diferentes para o homem e para a mulher. O que a mulher entende por amor é bastante claro: não é apenas a dedicação, é um dom total de corpo e alma, sem restrição, sem nenhuma atenção para o que quer que seja. É essa ausência de condição que faz de seu amor uma fé, a única que ela tem. Quanto ao homem, se ama uma mulher é esse amor que quer448 dela; ele está portanto muito longe de postular para si o mesmo sentimento que para a mulher; se houvesse homens que experimentassem também esse desejo de abandono total, por certo não seriam homens. Em certos momentos de sua existência, alguns homens puderam ser amantes apaixonados, mas nenhum há que se possa definir como “um grandeapaixonado”; nunca abdicam totalmente, mesmo em seus mais violentos transportes; ainda que caiam de joelhos diante de sua amante, o que desejamafinal é possuí-la, anexá-la; permanecem no cerne de sua vida como sujeitos soberanos; a mulher amada não passa de um valor entre outros; queremintegrá-la em sua existência, e não afundar nela uma existência inteira. Para a mulher, ao contrário, o amor é uma renúncia total em proveito de umsenhor. É preciso que a mulher esqueça sua própria personalidade quando ama, escreve Cécile Sauvage. É uma lei da natureza. Uma mulher não existe sem um senhor. Sem um senhor é um ramalhete esparso. Em verdade, não é de uma lei da natureza que se trata. É a diferença de sua condição que se reflete na concepção que o homem e a mulher têm doamor. O indivíduo que é sujeito, que é ele mesmo, se tem o gosto generoso da transcendência, esforça-se por ampliar seu domínio sobre o mundo: éambicioso, age. Mas um ser inessencial não pode descobrir o absoluto no cerne de sua subjetividade. Um ser destinado à imanência não pode realizar-se em atos. Encerrada na esfera do relativo, destinada ao macho desde a infância, habituada a ver nele um soberano a quem não lhe é dado igualar-se,a mulher que não sufocou sua reivindicação de ser humano sonhará em ultrapassar-se para um desses seres superiores, em unir-se, confundir-se com osujeito soberano. Não há para ela outra saída senão perder-se de corpo e alma em quem lhe designam como o absoluto, o essencial. Como de qualquermaneira se acha condenada à dependência, a obedecer a tiranos — pais, marido, protetor — prefere servir a um Deus; escolhe querer tãoardorosamente sua escravidão que esta lhe aparecerá como a expressão de sua liberdade; ela se esforçará por superar sua condição de objetoinessencial assumindo-a radicalmente; através de sua carne, de seus sentimentos, de suas condutas exaltará soberanamente o amado, colocando-ocomo a realidade e o valor supremos; ela se aniquilará diante dele. O amor para ela torna-se uma religião.Vimos que a adolescente começa querendo identificar-se com os homens; quando a isso renuncia, procura então participar de sua virilidade, fazendo-seamar por um deles; não é a individualidade deste ou daquele homem que a seduz; ela está apaixonada pelo homem em geral. “E vós, homens queamarei, como vos espero!”, escreve Irene Reweliotty, “Como me regozijo com vos conhecer muito breve: Tu principalmente, o primeiro”. É preciso,naturalmente, que o homem pertença à mesma classe, à mesma raça: o privilégio do sexo só funciona dentro desse quadro; para que seja um semideus,ele deve, evidentemente, ser antes de tudo um ser humano; para a filha do oficial colonial o indígena não é um homem; se a jovem se entrega a um“inferior” é porque procura degradar-se, porque não se acredita digna do amor; normalmente ela procura o homem em quem se afirma a superioridademasculina; ela é logo levada a constatar que muitos indivíduos do sexo eleito são tristemente contingentes e terrestres; mas tem de início umpreconceito favorável em relação a eles; cabe-lhes menos provar seu valor do que não o desmentir por demais grosseiramente. É o que explica tantoserros muitas vezes lamentáveis; a jovem ingênua está presa ao espelho da virilidade. Segundo as circunstâncias, o valor masculino se manifestará aseus olhos pela força física, a elegância, a riqueza, a cultura, a inteligência, a autoridade, a situação social, um un iforme militar: mas o que ela desejasempre é que no amante se resuma a essência do homem. A familiaridade basta muitas vezes para destruir seu prestígio; ele desmorona com o primeirobeijo, ou com o convívio cotidiano, ou durante a noite de núpcias. Entretanto, o amor à distância é apenas um fantasma, não uma experiência real. Équando carnalmente confirmado que o desejo de amor se torna um amor apaixonado. Inversamente, o amor pode nascer das carícias físicas, a mulhersexualmente dominada exaltando o homem que lhe parecia antes insignificante. Mas o que acontece constantemente é que a mulher não conseguetransformar nenhum dos homens que conhece em um deus. O amor ocupa na vida feminina menor lugar do que sempre se pretendeu. Marido, filhos,lar, prazeres, vida mundana, vaidade, sexualidade, carreira, são muito mais importantes. Quase todas as mulheres sonharam com “o grande amor”: deleconheceram sucedâneos, aproximaram-se dele; sob figuras inacabadas, magoadas, irrisórias, imperfeitas, mentirosas, ele as visi tou; mas muito poucaslhes consagraram realmente a existência. As grandes amorosas são, o mais das vezes, mulheres que não usaram o coração nos amores juvenis;aceitaram primeiramente o destino feminino tradicional: marido, casa, filhos; ou conheceram uma dura solidão; ou confiaram em algumempreendimento que mais ou menos fracassou. Quando entreveem a possibilidade de salvar sua vida decepcionante, dedicando-a a um ser de elite,dão-se de corpo e alma a essa esperança. Mlle Aissé, Juliette Drouet, Mme d’Agoult tinham quase trinta anos no início de sua vida amorosa, Julie deLespinasse quase quarenta; nenhum fim se propunha a elas, não estavam em condições de empreender coisa alguma que lhes parecesse interessante,não lhes restava outra saída senão o amor.Mesmo com a possibilidade de serem independentes, esse caminho é ainda o que parece mais atraente à maioria das mulheres; é angustiante assumir adireção de sua vida; o adolescente volta-se também frequentemente para mulheres mais idosas, nas quais procura um guia, uma educadora, uma mãe;mas sua formação, os costumes, as determinações que encontra em si mesmo proíbem-lhe deter-se definitivamente na solução fácil da abdicação; ele sóencara tais amores como uma etapa. A sorte do homem — na idade adulta como na primeira infância — está em que o constrangem a enveredar peloscaminhos mais árduos mas também mais seguros; a infelicidade da mulher está em que se acha cercada de tentações quase irresistíveis; tudo a incita aseguir o declive da facilidade: em vez de convidá-la a lutar por sua conta, dizem-lhe que lhe basta deixar as coisas correrem para alcançar paraísosencantadores; quando percebe que foi vítima de uma miragem, é tarde demais; suas forças esgotaram-se na aventura.Os psicanalistas afirmam de bom grado que a mulher busca no amante a imagem do pai; mas é por ser homem e não por ser pai que ele deslumbra acriança, e todo homem participa dessa magia. A mulher não almeja reencarnar um indivíduo no outro e sim ressuscitar uma situação: a que conheceumenina, ao abrigo dos adultos. Integrada no lar, gozou a paz de uma quase passividade; o amor lhe devolverá a mãe, como o pai lhe devolverá ainfância. O que ela almeja é reencontrar um teto sobre a cabeça, muros que lhe escondam seu abandono no mundo, leis que a defendam contra sualiberd ade. Esse sonho infantil povoa muitos amores femininos; a mulher sente-se feliz porque o amante a chama de “filhinha, criança querida”; oshomens sabem muito bem que estas palavras: “Estás parecendo uma menininha” são das que mais comovem o coração das mulheres; vimos quantassofreram ao se tornarem adultas; muitas se obstinam em “ser crianças”, em prolongar indefinidamente a infância na atitude e nos vestidos. Tornar a sercriança nos braços de um homem as satisfaz amplamente. É o tema de certa cançoneta muito vulgarizada: Sinto-me em teus braços tão pequenatão pequena, ó meu amor...449


Tema que se repete sem cessar nas conversações e nas correspondências amorosas. “Baby, meu bebê”, murmura o amante; e a mulher diz de si mesma:“Tua menina, tua menininha.” Irene Reweliotty escreve: “Quando chegará aquele que saberá dominar-me?” E acreditando tê-lo encontrado: “Gosto dete sentir um homem, e superior a mim.”Uma psicastênica estudada por Janet450 ilustra de maneira impressionante essa atitude: Desde quando posso lembrar-me, todas as tolices ou todas as boas ações que pude praticar decorrem da mesma causa, uma aspiração a um amor perfeito e ideal em que pudesse entregar-me inteiramente, confiar todo o meu ser a um outro ser, Deus, homem ou mulher, tão superior a mim que não teria mais necessidade de pensar em me conduzir na vida ou em cuidar de mim. Encontrar alguém que me amasse o bastante para cuidar de me fazer viver, alguém a quem eu obedeceria cegamente e com toda a confiança, certa de que me evitaria qualquer fraqueza e que me guiaria em linha reta, suavemente e com muito amor para a perfeição. Quanto invejo o amor ideal de Maria Madalena e de Jesus: ser o discípulo ardoroso de um mestre adorado e que o mereça; viver e morrer para seu ídolo, acreditar nele sem nenhuma dúvida possível, obter enfim a vitória definitiva do Anjo sobre a Besta, aconchegar-me em seus braços, tão envolvida, tão pequena, tão abrigada em sua proteção, tão sua que não mais existo. Numerosos exemplos já nos provaram que esse sonho de aniquilamento é, na verdade, uma ávida vontade de ser. Em todas as religiões, a adoração deDeus confunde-se para o devoto com a preocupação de sua própria salvação; a mulher entregando-se inteiramente ao ídolo, espera que ele lhe dê a umtempo a posse de si mesma e a do universo que nele se resume. Na maioria das vezes é primeiramente a justificação, a exaltação de seu ego que elapede ao amante. Muitas mulheres só se entregam ao amor se forem por sua vez amadas: e o amor que lhe manifestam basta algumas vezes para astornar apaixonadas. A jovem sonhou-se através de olhos masculinos e é em olhos masculinos que a mulher acredita enfim encontrar-se. Andar a teu lado, escreve Cécile Sauvage, fazer que avançassem meus pezinhos que amavas, senti-los tão miúdos em seus sapatos altos de cano de feltro dava-me amor por todo o amor com que os cercavas. Os menores movimentos de minhas mãos em meu regalo, de meus braços, de meu rosto, as inflexões de minha voz enchiam-me de felicidade. A mulher sente-se dotada de um valor alto e seguro; tem enfim licença para se amar através do amor que inspira. Embriaga-se com encontrar umatestemunha no amante. É o que confessa La Vagabonde de Colette. Cedi, confesso-o, cedi permitindo a esse homem que voltasse amanhã, ao desejo de conservar nele não um amoroso, não um amigo, mas um espectador ávido de minha vida e de minha pessoa... É preciso urgentemente envelhecer, disse-me um dia Margot, para renunciar à vaidade de viver diante de alguém. Em uma de suas cartas a Middleton Murry, Katherine Mansfield conta que acaba de comprar um delicioso corpete roxo; acrescenta logo: “Que penaque não haja ninguém para vê-lo!” Não há pior amargura do que se sentir a flor, o perfume, o tesouro que nenhum desejo exige: que é uma riqueza quenão me enriquece e que ninguém deseja receber? O amor é o revelador que faz aparecer em traços positivos e nítidos a pálida imagem negativa tão vãquanto uma chapa em branco; mediante esse revelador, o rosto da mulher, as curvas de seu corpo, suas recordações de infância, suas antigas lágrimas,seus vestidos, seus hábitos, tudo o que ela é, tudo o que lhe pertence escapa da contingência e torna-se necessário: ela é um presente maravilhoso aopé do altar de seu deus.Antes que ele tivesse gentilmente pousado as mãos sobre seus ombros, antes que seus olhos se tivessem saturado dela, ela não fora senão uma mulhernão muito bonita em um mundo incolor e morno. Desde o momento em que ele a beijara, ela estava em pé na luz nacarada da imortalidade.451Eis por que os homens dotados de prestígio social e hábeis em lisonjear a vaidade feminina suscitarão paixões ainda que sem nenhuma sedução física.Pela sua situação elevada encarnam a Lei, a Verdade: sua consciência revela uma realidade incontestada. A mulher que eles louvam sente-setransformada em um tesouro sem preço. Daí é que vinham, por exemplo, segundo Isadora Duncan,452 os êxitos de d’Annunzio. Quando d’Annunzio ama uma mulher, ele ergue sua alma acima da terra até as regiões em que se move e resplende Beatriz. Ele faz cada mulher participar da essência divina, uma a uma, ergue-a tão alto, tão alto que ela se imagina realmente no plano de Beatriz. Sobre cada favorita ele jogava alternativamente um véu deslumbrante. Ela erguia-se acima dos outros mortais e caminhava aureolada de uma luz estranha. Mas quando o capricho do poeta chegava ao fim e ele a abandonava por outra, o véu de luz desaparecia, a auréola se apagava e a mulher retornava ao barro vulgar... Ouvir-se elogiar com essa magia peculiar a d’Annunzio é uma alegria comparável à que Eva pôde experimentar quando ouviu a voz da serpente no Paraíso. D’Annunzio pode dar a cada mulher a impressão de que ela é o centro do universo. É somente no amor que a mulher pode harmoniosamente conciliar seu erotismo com seu narcisismo; já vimos que há entre esses dois sistemas umaoposição que torna difícil a adaptação da mulher a seu destino sexual. Fazer-se objeto carnal, presa, contradiz o culto que ela rende a si mesma: parece-lhe que o ato sexual desonra e emporcalha seu corpo ou que lhe degrada a alma. Por isso é que certas mulheres escolhem a frigidez, pensando manterassim a integridade de seu ego. Outras dissociam as volúpias animais dos sentimentos elevados. Caso muito característico é o de Mme D. S., narradopor Stekel e que já citei a propósito do casamento. Frígida, com um marido respeitado, depois da morte deste, encontrou um homem igualmente artista, grande músico, e tornou-se sua amante. Esse amor era, e é ainda, tão absoluto que ela só se sente feliz perto dele. Toda sua vida se resume em Lothar. Mas, embora amando-o ardorosamente, continuava frígida em seus braços. Outro homem cruzou seu caminho. Era um camponês forte e brutal que, estando um dia a sós com ela, a possui simplesmente, sem mais histórias. Ela ficou tão atônita que o deixou fazer. Mas nos braços dele sentiu um orgasmo violento. “Nos braços dele, dizia ela, eu me restabeleço por vários meses. É como uma embriaguez selvagem, mas seguida de um nojo indescritível quando penso em Lothar. Detesto Paul e amo Lothar. Paul porém me satisfaz. Em Lothar tudo me atrai. Mas parece que me transformo em puta para gozar, pois como mulher da sociedade o gozo me é vedado.” Ela recusa-se a casar com Paul mas continua a dormir com ele; nesses momentos, “transforma-se em um outro ser e palavras cruas, como nunca ousaria pronunciar, escapam-lhe da boca”. Stekel acrescenta que, “para muitas mulheres, a queda na animalidade é essencial ao orgasmo”. Elas veem no amor físico um aviltamento que não sepode conciliar com sentimentos de estima e afeição. Mas para outras, ao contrário, é pela estima, pela ternura, pela admiração do homem que esseaviltamento pode ser abolido. Só consentem em se entregar a um homem acreditando-se profundamente amadas; uma mulher precisa de muito cinismo,indiferença ou orgulho para considerar as relações físicas como uma troca de prazeres em que cada parceiro encontra igualmente sua satisfação. Ohomem tanto quanto a mulher — e talvez mais do que ela — revolta-se contra quem o quer explorar.453 Mas ela é quem tem geralmente impressão deque seu parceiro a utiliza como um instrumento. Somente uma admiração exaltada pode compensar a humilhação de um ato que ela considera comouma derrota. Vimos que o ato amoroso exige dela uma alienação profunda; ela mergulha na languidez da passividade; de olhos cerrados, anônima,perdida, sente-se transportada por ondas, varrida pela tormenta, sepultada na noite; noite da carne, da origem, do túmulo; aniquilada, alcança o Todo,seu eu é abolido. Mas quando o homem se separa dela, ela se encontra rejeitada à terra, em um leito, na luz; readquire um nome, um rosto: é umavencida, uma presa, um objeto. É então que o amor se torna necessário. Assim como depois do desmame a criança busca o olhar tranquilizador dospais, é preciso que, pelos olhos do amante que a contempla, a mulher se sinta reintegrada no Todo de que sua carne dolorosamente se destacou. Muitoraramente ela se satisfaz completamente; mesmo se conheceu o apaziguamento do prazer, não fica definitivamente liberta do feitiço carnal; suaperturbação se prolonga em sentimento; dispensando-lhe a volúpia, o homem prende-a a si, não a liberta. Entretanto, não mais a deseja; ela só lheperdoa essa indiferença momentânea se ele lhe dedica um sentimento intemporal e absoluto. A imanência do instante é então superada; as recordaçõesardentes não são mais uma saudade e sim um tesouro; dissipando-se, a volúpia torna-se esperança e promessa; o gozo é justificado; a mulher podeorgulhosamente assumir sua sexualidade porque a transcende; perturbação, prazer, desejo não são mais um estado e sim um dom; seu corpo não é maisum objeto: é um cântico, uma chama. Pode ela então entregar-se apaixonadamente à magia do erotismo; a noite transforma-se em luz; a mulherapaixonada pode abrir os olhos; olhar o homem que a ama e cujo olhar a glorifica; através dele o nada faz-se plenitude de ser e o ser é transfigurado emvalor; ela não soçobra mais em um mar de trevas, é elevada sobre asas, exaltada aos céus. O abandono torna-se êxtase sagrado. Quando acolhe ohomem amado, a mulher é habitada, visitada como a Virgem pelo Espírito Santo, como o crente pela hóstia; é o que explica a analogia obscena doscantos piedosos com as canções licenciosas: não por ter sempre o amor místico um caráter sexual, mas porque a sexualidade da apaixonada se revestede um colorido místico. “Meu Deus, meu adorado, meu senhor...”, as mesmas palavras saem dos lábios da santa ajoelhada e da amorosa no leito; umaoferece a carne aos cravos de Cristo, estende as mãos para receber os estigmas, busca a queimadura do Amor Divino; a outra é também oferenda eespera: setas, dardos, flechas encarnam-se no sexo masculino. Em ambas o sonho é o mesmo, o sonho infantil, o sonho místico, o sonho amoroso: existirsoberanamente abolindo-se no seio do outro.Afirmou-se454 por vezes que esse desejo de aniquilamento conduzia ao masoquismo. Mas, como o assinalei, a propósito do erotismo, só se pode falar demasoquismo quando tento “fascinar-me a mim mesma por minha objetividade através de outrem”,455 isto é, quando a consciência do sujeito se volta


para o ego a fim de apreendê-lo em sua condição humilhada. Ora, a amorosa não é somente uma narcisista alienada em seu eu: ela sente também umdesejo apaixonado de ultrapassar seus próprios limites e tornar-se infinita através de um outro que tem acesso à realidade infinita. Ela abandona-se aoamor primeiramente para se salvar, mas o paradoxo do amor idólatra está em que, para se salvar, ela acaba por se renegar totalmente. Seu sentimentoassume uma dimensão mística; ela não pede mais ao Deus que a admire, que a aprove; quer fundir-se nele, esquecer-se em seus braços. “Quisera seruma santa do amor, escreve Mme d’Agoult. Invejava o martírio em tais momentos de exaltação e de furor ascético.” O que se evidencia nestas palavrasé o desejo de uma destruição radical de si mesma abolindo as fronteiras que a separam do bem-amado: não se trata de masoquismo e sim de um sonhode união extática. É o mesmo sonho que inspira estas palavras de Georgette Leblanc: “Naquela época, se me tivessem perguntado o que mais almejavano mundo, teria respondido sem hesitar: ser alimento e chama para seu espírito.”Para realizar essa união, o que a mulher deseja primeiramente é servir; é respondendo às exigências do amante que se sentirá necessária; seráintegrada na existência dele, participará de seu valor, será justificada; até as místicas se comprazem em crer, segundo Angelus Silesius, que Deusprecisa do homem, do contrário, o dom que fazem de si mesmas seria vão. Quanto mais o homem multiplica suas solicitações, mais a mulher se sentesatisfeita. Embora a reclusão imposta por Hugo a Juliette Drouet pese à jovem mulher, sente-se que ela se compraz em lhe obedecer: permanecersentada junto à lareira é fazer alguma coisa para a felicidade do senhor. Ela tenta com paixão ser-lhe útil positivamente. Prepara-lhe pratos delicados,instala um lar para ele: nossa pequena “tua casa”, dizia ela gentilmente; cuida da roupa dele. Quero que manches, que rasgues o mais possível todas as tuas roupas e que seja eu a única a consertá-las, a limpá-las sem ajuda de ninguém, escreve-lhe. Para ele, ela lê os jornais, corta artigos, classifica cartas e notas, copia manuscritos. Desola-se quando o poeta confia parte desse trabalho à filhaLéopoldine. Encontram-se traços semelhantes em toda mulher apaixonada. Se necessário, ela se tiraniza a si mesma em n ome do amante; é precisoque tudo o que é, tudo o que tem, todos os instantes de sua vida lhe sejam dedicados e tenham assim sua razão de ser; ela não quer possuir coisaalguma senão nele; ficava infeliz por ele não lhe pedir nada, eis por que um amante delicado inventa exigências. Ela procurou primeiramente no amoruma confirmação do que era, de seu passado, de seu personagem; mas no amor empenha também seu futuro. Para justificá-lo, destina esse amor àqueleque detém todos os valores; assim é que se liberta de sua transcendência: ela a subordina à do outro essencial de quem se faz vassala e escrava. É a fimde se encontrar, de se salvar que ela começa por se perder nele: e o fato é que, pouco a pouco, se perde. Toda a realidade está no outro. O amor, que deinício se definia como uma apoteose narcisista, realiza-se nas amargas alegrias de uma dedicação que conduz, frequentemente, a uma automutilação.Nos primeiros tempos de uma grande paixão, a mulher torna-se mais bonita, mais elegante do que antes: “Quando Adèle me penteia, contemplo minhafronte porque você gosta dela”, escreve Mme d’Agoult. Achou uma razão de ser para esse rosto, esse corpo, esse quarto, esse eu, adora-os pelamediação do homem amado que a ama. Mas, pouco mais tarde, ela renuncia, ao contrário, a todo coquetismo, se o amante o deseja, ela modifica essaimagem que lhe era antes mais preciosa do que o próprio amor; desinteressa-se dela; faz do que é, do que tem, o feudo de seu soberano; renega o queele desdenha; gostaria de lhe consagrar cada batida do coração, cada gota do sangue, a medula dos ossos. É o que se traduz por este sonho de martírio:exagerar o dom de si até a tortura, até a morte, ser o solo que o amado pisa, ser apenas o que responde ao apelo dele. Tudo o que é inútil ao amado, elao aniquila com exaltação. Se o presente que faz de si é integralmente aceito, o masoquismo não aparece; poucos vestígios se percebem em JulietteDrouet. Na sua adoração excessiva, ajoelhava-se por vezes diante do retrato do poeta e pedia perdão pelas faltas que pudesse ter cometido; não sevoltava colérica contra si mesma. Mas do entusiasmo generoso, para a raiva masoquista o deslize é fácil. A amante que se reencontra diante do amantena situação da criança diante dos pais, reencontra também esse sentimento de culpa que conhecia junto deles; não escolhe revoltar-se contra eleenquanto o ama: revolta-se contra si mesma. Se ele a ama menos do que ela o deseja, se ela não consegue absorvê-lo, torná-lo feliz, bastar-lhe, todo onarcisismo se converte em nojo, em humilhação, num ódio a si mesma que a incita a autopunições. Durante uma crise mais ou menos demorada, porvezes durante toda a vida, ela se transformará em vítima voluntária, se obstinará em molestar esse eu que não soube satisfazer o amante. Sua atitude éentão propriamente masoquista. Mas não se deve confundir esses casos em que a mulher apaixonada busca seu próprio sofrimento, a fim de se vingarde si mesma, com os casos em que visa à confirmação da liberdade do homem e seu poder. É lugar-comum — e parece que uma verdade — dizer que aprostituta tem orgulho de ser espancada por seu homem: mas não é a ideia de sua pessoa batida e escravizada que a exalta, é a força, a autoridade, asoberania do macho de que ela depende; ela gosta também de vê-lo maltratar outro homem, incita-o muitas vezes a competições perigosas: quer queseu senhor detenha os valores reconhecidos no meio a que ela pertence. A mulher que se submete com prazer a caprichos masculinos igualmenteadmira também na tirania que se exerce sobre si a evidência de uma liberdade soberana. Cumpre atentar para o fato de que, se, por uma razãoqualquer, o prestígio do amante acaba, pancadas e exigências se tornarão odiosas: só valem como manifestação da divindade do bem-amado. Nestecaso é alegria embriagante sentir-se a presa de uma liberdade alheia: é para um existente a mais surpreendente aventura achar-se criado pela vontadediversa e imperiosa de outro; a gente se cansa de morar sempre na mesma pele; a obediência cega é a única possibilidade de mudança radical que umser humano pode conhecer. Eis a mulher escrava, rainha, flor, corça, vitral, capacho, criada, cortesã, musa, companheira, mãe, irmã, filha segundo ossonhos fugazes, as ordens imperiosas do amante: ela presta-se, em êxtase, a essas metamorfoses enquanto não reconhece que conserva sempre noslábios o gosto idêntico da submissão. No plano do amor, como no do erotismo, verificamos que o masoquismo é um dos caminhos pelos quais enveredaa mulher insatisfeita, desiludida pelo outro e por si mesma; mas não é a tendência natural de uma renúncia feliz. O masoquismo perpetua a presença doeu sob uma figura mortificada, degradada; o amor visa ao esquecimento de si em benefício do sujeito essencial.O objetivo supremo do amor humano como do amor místico é a identificação com o amado. A medida dos valores, a verdade do mundo estão naconsciência dele; eis por que não é ainda suficiente servi-lo; a mulher tenta ver com os olhos dele, lê os livros que ele lê, prefere os quadros e a músicaque ele prefere, só se interessa pelas paisagens que vê com ele, pelas ideias que vêm dele; adota as amizades, as inimizades, as opiniões dele; quandose interroga é a resposta dele que se esforça por ouvir; quer em seus pulmões o ar que ele já respirou; as flores, os frutos que não recebe da mão delenão têm perfume nem gosto; seu espaço hodológico acha-se transtornado: o centro do mundo não é mais o lugar onde se encontra e sim aquele onde seencontra o amado; todos os caminhos saem de sua casa e a esta conduzem. Ela serve-se das palavras dele, refaz-lhe os gestos, adquire-lhes as manias eos tiques. “Sou Heathcliff” diz Katherine em Wulthering Heights; é o grito de toda apaixonada; ela é outra encarnação do amado, seu reflexo, seuduplo: ela é ele. Seu próprio mundo, ela o deixa desmoronar na contingência: é no universo dele que vive.A felicidade suprema da amorosa consiste em ser reconhecida pelo homem amado como parte dele próprio; quando ele diz “nós” ela é associada a ele ecom ele se identifica, partilha-lhe o prestígio e com ele reina sobre o resto do mundo; não cansa de repeti-lo — ainda que abusivamente — esse “nós”saboroso. Necessária a um ser que é a necessidade absoluta que se projeta no mundo para fins necessários e que lhe restitui o mundo sob a figura danecessidade, a amorosa conhece em sua renúncia a posse magnífica do absoluto. É essa certeza que lhe dá tão grandes alegrias; sente-se exaltada àdireita do deus; pouco lhe importa ter apenas o segundo lugar se tem seu lugar, para sempre, em um universo maravilhosamente ordenado. Enquantoama, enquanto é amada e necessária ao amado, sente-se totalmente justificada: aproveita a paz e a felicidade. Essa talvez tenha sido a sorte de MlleAissé junto do Cavaleiro de Aydie, antes que os escrúpulos da religião lhe tivessem perturbado a alma, ou a de Juliette Drouet à sombra de Hugo.Mas é raro que essa gloriosa felicidade seja estável. Nenhum homem é deus. As relações que a mística sustenta com a divina ausência dependemunicamente de seu fervor: mas o homem divinizado, e que não é Deus, está presente. Disso nascerão os tormentos da apaixonada. Seu destino maiscomum acha-se resumido nas palavras célebres de Julie de Lespinasse: “Amo-vos, meu amigo, sofro e vos espero em todos os instantes de minha vida.”Sem dúvida para os homens também o sofrimento está ligado ao amor; mas suas penas não duram muito tempo ou não são devoradoras; BenjaminConstant quis morrer por Juliette Récamier: em um ano curou-se. Stendhal teve, durante anos, saudades de Métilde, mas era uma saudade que lheperfumava a vida mais do que a destruía. Ao passo que, assumindo-se como o inessencial, aceitando uma dependência total, a mulher cria um infernopara si; toda amorosa se reconhece na pequena sereia de Andersen que, tendo, por amor, trocado sua cauda de peixe por pernas de mulher, andavasobre agulhas e carvões em brasa. Não é verdade que o homem amado seja incondicionalmente necessário e, por outro lado, ela não lhe é necessária;ele não está à altura de justificar quem lhe rende um culto, e não se deixa possuir por ela.Um amor autêntico deveria assumir a contingência do outro, isto é, suas falhas, seus limites, sua gratuidade original; não pretenderia ser uma salvaçãoe sim uma relação inter-humana. O amor idólatra confere ao amado um valor absoluto; é a primeira mentira que se apresenta a todos os olharesalheios: “Ele não merece tanto amor”, murmuram em torno da amorosa; a posteridade sorri com dó, quando evoca a pálida figura do conde Guibert.Descobrir as falhas, a mediocridade de seu ídolo, é para a mulher uma decepção desesperante. Colette aludiu muitas vezes — em La Vagabonde, emMes apprentissages — a essa agonia amarga; a desilusão é mais cruel ainda que a da criança que vê desmoronar o prestígio paterno, porque a mulherescolheu ela própria o homem a quem fez dom de todo o ser. Mesmo que o eleito seja digno do mais profundo apego, sua verdade é terrestre: não émais ele que a mulher ama ajoelhada diante de um ser supremo; ela é enganada por esse espírito de seriedade que se recusa a pôr os valores “entreparênteses”, isto é, a reconhecer que têm sua fonte na existência humana; sua má-fé ergue barreiras entre ela e quem ela adora. Incensa-o, prosterna-se, mas não é para ele uma amiga, pois não se dá conta de que ele corre perigo no mundo, de que seus projetos e seus fins são frágeis como elepróprio; considerando-o como a Lei, a Verdade, desconhece a liberdade dele, que é hesitação e angústia. Essa recusa de aplicar ao amante uma medidahumana explica muitos paradoxos femininos. A mulher reclama do amante um favor, ele o concede: ei-lo generoso, rico, magnífico, real, divino. Se orecusa, ei-lo avarento, mesquinho, cruel, é um ser demoníaco, bestial. Poderiam ser tentados a objetar: se um “sim” surpreende como uma soberbaextravagância, devemos nos espantar com um “não”? Se o “não” manifesta tão abjeto egoísmo, por que tanto admirar o “sim”? Não há lugar para ohumano entre o sobre-humano e o inumano?Um deus degradado não é um homem, é uma impostura; o amante não tem outra alternativa senão provar que é realmente esse rei adulado, oudenunciar-se como usurpador. A partir do momento em que não o adoram mais, cumpre espezinhá-lo. Em nome dessa glória com que aureolou o amado,a amorosa proíbe-lhe qualquer fraqueza; desilude-se e irrita-se se ele não se molda à imagem que ela colocou em seu lugar; se está fatigado,estonteado, se tem fome ou sede fora de propósito, se se engana, se se contradiz, ela decreta que ele está “abaixo de si mesmo” e o censura. Por esse


viés, chega a censurar todas as iniciativas que ela própria não aprecia; ela julga seu juiz e, para que ele mereça continuar seu senhor, nega-lhe aliberdade. O culto que lhe rende satisfaz-se por vezes melhor com a ausência do que com a presença. Há mulheres, já vimos, que se consagram heróismortos ou inacessíveis, a fim de nunca os confrontar com seres de carne e osso; estes fatalmente contradizem seus sonhos. Daí os slogans desiludidos:“Não se deve acreditar em príncipe encantado. Os homens não passam de pobres diabos.” Não pareceriam anões se não se lhes pedisse para seremgigantes.É uma das maldições que pesam sobre a mulher apaixonada: sua generosidade converte-se desde logo em exigência. Tendo-se alienado em outrem,quer também recuperar-se: precisa anexar esse outro que detém o seu ser. Ela se dá inteiramente a ele, mas é preciso que ele esteja inteiramentedisponível para receber dignamente esse dom. Ela dedica-lhe todos os seus instantes: é preciso que a cada instante ele esteja presente; ela quer viverunicamente por ele, mas quer viver; ele deve se consagrar a fazê-la viver. Amo-o por vezes bobamente e nesses momentos não compreendo por que não poderia, não saberia e não deveria ser para você um pensamento absorvente como você é para mim, escreve Mme d’Agoult a Liszt. Ela tenta refrear o desejo espontâneo: ser tudo para ele. Há idêntico apelo na queixa de Mlle de Lespinasse: Deus meu! Se soubesse o que são os dias, o que é a vida privada do interesse e do prazer de vê-lo! Meu amigo, a dissipação, a ocupação, o movimento lhe bastam; eu, minha felicidade é você, e só você; não quereria viver se não devesse vê-lo e amá-lo em todos os momentos da vida. A princípio, a amorosa encantava-se em satisfazer o desejo do amante; depois — como o bombeiro lendário que por amor ao ofício provocava incêndiospor toda parte — dedica-se a despertar esse desejo para ter que satisfazê-lo; se não o consegue, sente-se humilhada, inútil, a ponto de o amante fingirardores que não experimenta. Fazendo-se escrava, encontra ela o meio mais seguro de acorrentá-lo. Trata-se de mais uma mentira do amor, que muitoshomens — Lawrence, Montherlant — denunciaram com rancor: apresenta-se como um dom quando é uma tirania. Benjamin Constant em Adolphepintou severamente as correntes com que a generosa paixão de uma mulher prende o homem. “Ela não calculava seus sacrifícios porque estavapreocupada em me fazer aceitá-los”, diz ele com crueldade, de Eléonore. A aceitação é efetivamente um compromisso que amarra o amante, sem queele tenha sequer o benefício de aparecer como aquele que dá; a mulher exige que ele acolha com gratidão os fardos com que o esmaga. E sua tirania éinsaciável. O homem amoroso é autoritário, mas quando obtém o que desejava, fica satisfeito; ao passo que não há limites para a dedicação exigente damulher. Um amante que tem confiança em sua amante admite sem desprazer que ela se ausente, que se ocupe longe dele; certo de que ela lhepertence, prefere possuir uma liberdade a possuir uma coisa. Ao contrário, a ausência do amante é sempre uma tortura para a mulher; ele é um olhar,um juiz, ele a frustra desde que fixa os olhos em outra coisa que não ela; rouba-lhe tudo o que vê: longe dele, ela sente-se despojada de si mesma e domundo; mesmo sentado ao lado dela, lendo, escrevendo, ele a está abandonando, traindo. Ela detesta-lhe o sono. Baudelaire se enternece ante a mulheradormecida: “Teus belos olhos estão cansados, pobre amante.” Proust encanta-se com olhar Albertine dormir;456 o ciúme masculino é simplesmente avontade de uma posse exclusiva. A bem-amada não pertence a ninguém quando o sono lhe devolve a candura desarmada da infância; para o homem,essa certeza basta. Mas o deus, o senhor, não deve se abandonar ao repouso da imanência; é com um olhar hostil que a mulher contempla essatranscendência fulminada; ela detesta sua inércia animal, esse corpo que não mais existe para ela e sim em si, abandonado a uma contingência quedeve pagar com sua própria contingência. Violette Leduc exprimiu, em Je hais les dormeurs, com força esse sentimento: Detesto os homens que dormem. Debruço-me sobre eles com minhas más intenções. Sua submissão exaspera-me. Odeio sua serenidade inconsciente, sua falsa anestesia, sua fisionomia de cego estudioso, sua embriaguez sensata, sua aplicação de incapaz... Fiquei à espreita, esperei durante muito tempo a bolha rósea que sairia da boca de meu dorminhoco. Só queria dele uma bolha de presença. Não a tive... Vi que suas pálpebras de noite eram pálpebras de morto... Refugiava-me na alegria de suas pálpebras quando esse homem era intratável. O sono é profundo quando ele resolve dormir. Roubou-me tudo. Detesto este meu homem adormecido, capaz de com inconsciência criar para si uma paz que me é estranha. Detesto sua fronte de mel... No fundo de si mesmo só se preocupa com seu repouso. Recapitula não sei o quê... Tínhamos levantado voo. Queríamos deixar a terra, utilizando nosso temperamento. Tínhamos decolado, subido, espiado, esperado, cantarolado, chegado, gemido, ganhado e perdido juntos. Era uma vagabundagem séria. Tínhamos descoberto uma nova espécie de nada. Agora dormes. Teu apagamento não é honesto... Se meu dorminhoco se mexe, minha mão toca, sem querer, a semente. É o celeiro com cinquenta sacos de grãos que é sufocante, despótico. As bolsas íntimas de um homem adormecido caíram sobre a minha mão... Possuo os saquinhos de sementes. Tenho nas mãos os campos que serão lavrados, os pomares que serão tratados, a força das águas que será transformada, as quatro tábuas que serão pregadas, os toldos que serão erguidos. Tenho nas mãos os frutos, as flores, os animais selecionados. Tenho na mão o bisturi, o podão, a sonda, o revólver, o fórceps e tudo isso não me enche a mão. A semente do mundo que dorme não é senão o supérfluo oscilante do prolongamento da alma... Odeio-te quando dormes.457 O deus não deve adormecer, senão faz-se barro, carne; é preciso que esteja presente, sem o quê, sua criatura afunda no nada. Para a mulher, o sono dohomem é avareza e traição. O amante desperta por vezes a amante; é para possuí-la. Ela o desperta simplesmente para que ele não durma, não seafaste, pense somente nela, esteja presente, fechado no quarto, no leito, em seus braços — como Deus no tabernáculo, é o que a mulher deseja: é umacarcereira.E, no entanto, ela não consente realmente que o homem seja apenas seu prisioneiro. É esse um dos paradoxos dolorosos do amor: cativo, o deusdespoja-se de sua divindade. Destinando-lhe sua transcendência, a mulher salva-a: mas é preciso que ele a transporte para o mundo inteiro. Se doisamantes mergulham juntos no absoluto da paixão, toda liberdade se degrada em imanência: só a morte pode então trazer uma solução: é um dossentidos do mito de Tristão e Isolda. Dois amantes que se destinam exclusivamente um ao outro, já estão mortos: morrem de tédio. Em Terresétrangères, Marcel Arland descreveu essa lenta agonia de um amor que se devora a si mesmo. A mulher conhece esse perigo. Salvo nas crises de ciúmefrenético, ela própria exige que o homem seja projeto, ação: ele não é mais um herói, se não realiza nenhuma façanha. O cavaleiro que parte para novasproezas ofende sua dama, mas ela o despreza se permanece sentado a seus pés. Essa é a tortura do amor impossível; a mulher quer ter todo o homem,mas exige dele que supere todo dado cuja posse seja possível: não se tem uma liberdade; ela quer encerrar aqui um existente que é, segundoHeidegger, “um ser das distâncias” e ela bem sabe que a tentativa está condenada. “Meu amigo, amo-o como se deve amar, com excesso, com loucura,transporte e desespero”, escreve Julie de Lespinasse. O amor idólatra, se lúcido, só pode ser desesperado. Porque a amante que pede ao amante queseja herói, gigante, semideus, reclama por não ser tudo para ele, quando só pode conhecer a felicidade com a condição de o conter inteiro dentro de si. A paixão da mulher, renúncia total a toda espécie de direitos próprios, postula precisamente que o mesmo sentimento, o mesmo desejo de renúncia não exista para o outro sexo, pois se ambos renunciassem a si mesmos por amor, disso resultaria não sei bem o quê, digamos talvez o horror ao vazio? A mulher quer ser possuída... ela exige portanto alguém que a possua, que ele mesmo não se dê, que não se abandone, mas que queira, ao contrário, enriquecer seu eu no amor... A mulher dá-se, o homem se aumenta com ela...458 Pelo menos a mulher poderá encontrar sua alegria nesse enriquecimento que traz ao bem-amado; ela não é Tudo para ele, mas tentará se acreditarindispensável; não há graus na necessidade. Se ele “não pode viver sem ela”, ela se considera como o fundamento de sua preciosa existência, e dissoextrai seu próprio valor. Põe sua alegria em servi-lo: mas é preciso que ele reconheça esse serviço com gratidão; o dom torna-se exigência, segundo adialética comum da dedicação.459 E uma mulher de espírito escrupuloso interroga-se: é realmente de mim que ele precisa? O homem a ama, a desejacom uma ternura e um desejo singulares: mas não teria por outra um sentimento igualmente singular? Muitas mulheres apaixonadas deixam-se iludir:querem ignorar que o geral se acha envolvido no singular, e o homem facilita-lhes essa ilusão porque, antes de tudo, a partilha; há constantemente emseu desejo um arrebatamento que parece desafiar o tempo; no instante em que quer essa mulher, ele a quer com paixão e quer somente a ela: e semdúvida o instante é um absoluto, mas o absoluto de um instante. Iludida, a mulher passa para o eterno. Divinizada pela relação com o senhor, elaacredita ter sido sempre divina e destinada ao deus: ela somente. Mas o desejo masculino é tão fugaz quanto imperioso; uma vez satisfeito, morre assazdepressa, ao passo que é, o mais das vezes, depois do amor que a mulher se torna sua prisioneira. É o tema de toda uma literatura fácil e de cançõestriviais. “Um jovem passava, uma mulher cantava... um jovem cantava, uma mulher chorava.” E o fato de um homem permanecer duradouramenteapegado à mulher não significa que ela lhe seja necessária. É entretanto o que ela reclama: sua abdicação só a salva com a condição de lhe restituir seuimpério; não se pode fugir ao jogo da reciprocidade. É preciso pois que ela sofra, que ela minta a si mesma. Na maioria das vezes ela se agarraprimeiramente à mentira. Imagina o amor do homem como a exata contrapartida do que ela lhe dedica; com má-fé toma o desejo por amor, a ereção pordesejo, o amor por uma religião. Força o homem a mentir: você me ama? Como ontem? Você me amará sempre? Habilmente, faz as perguntas nomomento em que não há tempo para respostas matizadas e sinceras, ou então em que as circunstâncias as impedem; é durante a relação amorosa, nolimiar de uma convalescença, entre soluços ou na plataforma de uma estação que ela interroga imperiosamente; faz troféus das respostas arrancadas e,na falta de respostas, faz os silêncios falarem. Toda amorosa verdadeira é mais ou menos paranoica. Lembro-me de uma amiga que, ante o silêncioprolongado de um amante longínquo, declarava: “Quando se quer romper, escreve-se para anunciar a ruptura”; e depois de ter recebido uma carta semambiguidade “Quando se quer realmente romper, não se escreve”. É muitas vezes muito difícil verificar onde começa o delírio patológico ante asconfidências recebidas. Descrita pela apaixonada em pânico, a conduta de um homem apresenta-se sempre como extravagante: é um neurótico, umsádico, um recalcado, um masoquista, um demônio, um inconsistente, um covarde ou tudo isso junto; desafia as explicações psicológicas mais sutis. “X.


me adora, é loucamente ciumento, desejaria que eu usasse uma máscara quando saio; mas é um ser tão estranho e que desconfia tanto do amor que,quando lhe bato à porta, me recebe no patamar e não me deixa sequer entrar.” Ou então: “Z. me adorava. Mas era demasiado orgulhoso para pedir-meque fosse residir em Lyon, onde mora: fui e instalei-me em sua casa. Ao fim de oito dias, sem uma briga, mandou-me embora. Tornei a vê-lo duas vezes.Na terceira vez que lhe telefonei, desligou o telefone no meio da conversa. É um neurótico.” Essas histórias misteriosas esclarecem-se quando o homemexplica: “Não a amava absolutamente”, ou “Tinha-lhe amizade, mas não teria suportado viver com ela um mês”. Sendo demasiado obstinada, a má-féconduz ao hospício: um dos traços constantes da erotomania está em que as condutas do amante se apresentam como enigmáticas e paradoxais; poresse viés, o delírio da doente consegue sempre quebrar as resistências da realidade. Uma mulher normal acaba sempre sendo vencida pela verdade, ereconhecendo que não é mais amada. Mas, enquanto não é acuada a essa confissão, trapaceia sempre um pouco. Mesmo no amor recíproco há entre ossentimentos dos amantes uma diferença fundamental que ela se esforça por mascarar. Pois é naturalmente preciso que o homem possa justificar-se semela, posto que ela espera ser justificada por ele. Se ele lhe é necessário, é porque ela foge de sua liberdade; mas se ele assume a liberdade sem a qualnão seria nem herói nem simplesmente homem, nada nem ninguém lhe seriam necessários. A dependência que a mulher aceita vem de sua fraqueza:como encontraria uma dependência recíproca naquele que ela ama pela sua força?Uma alma apaixonadamente exigente não poderia encontrar sossego no amor porque visa a um fim contraditório. Torturada, atormentada, arrisca-se ase tornar um fardo para aquele de quem se sonhava escrava; não podendo sentir-se indispensável, torna-se importuna, odiosa. É isso também umatragédia muito comum. Mais sensata, menos intransigente, a amorosa resigna-se. Não é tudo, não é necessária: basta-lhe ser útil; outra ocupariafacilmente seu lugar: ela contenta-se em ser a que está presente. Reconhece sua servidão sem pedir reciprocidade. Pode então experimentar umafelicidade modesta; mas, mesmo dentro de tais limites, essa felicidade não será sem nuvens. Muito mais dolorosamente do que a esposa, a amorosaespera. Se a própria esposa é exclusivamente uma amorosa, as tarefas caseiras, a maternidade, suas ocupações, seus prazeres não têm valor nenhum aseus olhos: é a presença do esposo que a arranca ao limbo do tédio. “Quando não estás presente, parece-me que não vale sequer a pena olhar o dia;tudo que me acontece é então como uma morte, não passo de um pequeno vestido vazio jogado sobre uma cadeira”, escreve Cécile Sauvage nosprimeiros tempos de seu casamento.460 E vimos que muitas vezes é fora do casamento que nasce e desabrocha o amor-paixão. Um dos mais notáveisexemplos de uma vida inteira dedicada ao amor é o de Juliette Drouet: ela é apenas uma espera indefinida. “Cumpre sempre voltar ao mesmo ponto departida, isto é, a esperá-lo sempre”, escreve ela a Victor Hugo. “Eu o espero como um esquilo na gaiola.” “Deus meu! Como é triste para uma naturezacomo a minha esperar de um ponto ao outro da vida.” “Que dia! Pensei que não passasse, a tal ponto te esperei, e agora acho que passou depr essademais pois não te vi...” “Acho o dia infindável...” “Espero-o porque afinal prefiro ainda esperar, a crer que você não virá mais.” É verdade que VictorHugo, depois que fez Juliette romper com seu rico protetor, príncipe Demidoff, a tinha confinado em um pequeno apartamento e durante 12 anosproibiu-a de sair sozinha, a fim de que não reatasse com nenhum de seus amigos de outrora. Mesmo quando a sorte daquela que se intitulava “suapobre vítima enclaustrada” se amenizou, não deixou ela de ter o amante como única razão de viver e de vê-lo bem pouco. “Eu o amo, meu Victor bem-amado”, escreve em 1841, “mas tenho o coração triste e amargurado; vejo-o tão pouco, e o pouco que o vejo me pertences tão pouco, que todos essespoucos fazem um todo de tristeza que me enche o coração e o espírito”. Ela sonha conciliar a independência com o amor. “Gostaria de ser independentee escrava a um tempo, independente por uma situação que me alimenta e escrava unicamente de meu amor.” Mas tendo definitivamente fracassado emsua carreira de atriz, teve de resignar-se “de um ponto ao outro da vida” a ser apenas uma amante. Apesar de seus esforços para prestar serviço aoídolo, suas horas eram demasiado vazias; as 17.000 cartas que escreveu a Hugo, ao ritmo de 300 a 400 por ano, são uma prova disso. Entre as visitasdo senhor não lhe restava senão matar o tempo. O pior horror na condição da mulher de harém é serem seus dias desertos de tédio: quando o homemnão usa esse objeto que ela é para ele, ela não é absolutamente mais nada. A situação da amorosa é análoga: ela só quer ser essa mulher amada, nadamais tem valor a seus olhos. Para existir, é preciso portanto que o amante esteja a seu lado, se ocupe com ela; ela espera a chegada, o desej o, odespertar dele. E logo que ele a deixa, recomeça a esperar. É a maldição que pesa sobre a heroína de Back Street,461 sobre a deIntempéries,462 sacerdotisas e vítimas do amor puro. É a dura punição infligida a quem não tomou o próprio destino nas mãos.Esperar pode ser uma alegria. Para quem espreita o bem-amado sabendo que acorre, que a ama, a espera é uma promessa deslumbrante. Mas passadaa embriaguez confiante do amor que transforma a própria ausência em presença, misturam-se ao vazio da ausência os tormentos da inquietação: ohomem também pode nunca mais voltar. Conheci uma mulher que a cada encontro acolhia o amante com espanto. “Pensava que não voltasses mais”,dizia. E se ele perguntava por quê: “Poderias não voltar; quando te espero tenho sempre a impressão de que não te verei mais.” Mas principalmente elepode deixar de amar: pode amar outra mulher. Pois a violência com que a mulher procura se iludir dizendo: “Ele me ama loucamente e só a mim podeamar”, não exclui as torturas do ciúme. Afirmações apaixonadas e contraditórias são peculiares à má-fé. Assim o louco, que obstinadamente se imaginaNapoleão, não se embaraça em reconhecer que é também barbeiro. Raramente a mulher consente em indagar: ele gosta realmente de mim? Mas cemvezes ela se interroga: ele não gosta de outra? Não admite que o fervor do amante tenha podido diminuir pouco a pouco, nem que ele dê menos valordo que ela ao amor: logo inventa rivais. Ela considera o amor um sentimento livre e um encantamento mágico ao mesmo tempo; e estima que “seu”homem continua a amá-la em sua liberdade enquanto é “enleado”, “pegado numa armadilha” por uma hábil intrigante. O homem possui a mulherenquanto assimilada a ele, em sua imanência. É por isso que desempenha tão facilmente o papel de um Boubouroche;463 tem dificuldade em imaginarque ela seja também uma outra que lhe escapa: o ciúme nele não passa em geral de uma crise passageira, como o próprio amor. A crise pode serviolenta e até assassina, mas é raro que a inquietação se instale duradouramente nele. O ciúme apresenta-se principalmente nele como um derivativo:quando seus negócios vão mal, quando se sente molestado pela vida, então é que se diz ridicularizado pela mulher.464 Ao contrário, a mulher amando ohomem em sua alteridade, em sua transcendência, sente-se a cada instante em perigo. Não há grande distância entre a traição da ausência e ainfidelidade. Desde que se sente desarmada, ela se torna ciumenta: dadas suas exigências, esse é sempre mais ou menos o caso: suas censuras, suasqueixas traduzem-se por cenas de ciúme, quaisquer que sejam os pretextos; assim é que exprimirá a impaciência e o tédio da espera, o amargosentimento de sua dependência, a tristeza de ter apenas uma existência mutilada. É todo o seu destino que está em jogo em cada olhar que o homemamado endereça a outra mulher, porquanto alienou nele todo seu ser. Por isso se irrita, se o olhar do amante se volta um instante para uma estranha. Ese ele lhe observa que ela acaba de contemplar longamente um desconhecido, ela responde convicta: “Não é a mesma coisa.” E tem razão. Um homemolhado por uma mulher nada recebe desta: o dom só começa a partir do momento em que a carne feminina se faz presa. Ao passo que a mulherambicionada é de imediato metamorfoseada em objeto desejável e desejado; e a amorosa desprezada “retorna ao barro vulgar”. Por isso está elasempre de sentinela. Que ele faz? Que ele olha? Com quem fala? O que um desejo deu a ela, um sorriso pode retomar-lhe. Basta um instante paraprecipitá-la “da luz nacarada da imortalidade” no crepúsculo cotidiano. Tudo recebeu do amor, pode tudo perder, ao perdê-lo. Impreciso ou definido,sem fundamento ou justificado, o ciúme é para a mulher uma tortura enlouquecedora porque é uma contestação radical do amor; é preciso, se a traiçãoé certa, renunciar a fazer do amor uma religião, ou renunciar ao amor; é uma subversão tão radical que se compreende que a amorosa, ora duvidando,ora se iludindo, sinta-se obcecada pelo desejo e pelo temor de descobrir a verdade mortal.Arrogante e ansiosa a um tempo, acontece muitas vezes que a mulher, estando sempre com ciúme, o esteja sempre sem razão: Juliette Drouet conheceuas angústias da suspeita em relação a todas as mulheres de quem Hugo se aproximava, esquecendo somente de temer Léonie Biard, que durante oitoanos foi amante dele. Na incerteza, toda mulher é uma rival, um perigo. O amor mata a amizade porque a amorosa se encerra no universo do homemamado; o ciúme exaspera-lhe a solidão e, desse modo, torna a dependência dela mais estreita. Nisso ela encontra entretanto um recurso contra o tédio:conservar um marido é um trabalho; conservar um amante, uma espécie de sacerdócio. A mulher que se negligenciava, perdida numa adoração feliz,recomeça a cuidar de si logo que pressente uma ameaça. Toalete, arranjo do lar, exibições mundanas tornam-se os momentos de um combate. A luta éuma atividade tônica: enquanto tem quase certeza de vencer, a guerreira encontra nela um prazer pungente. Mas o temor angustiado da derrotatransforma em humilhante servidão o dom generosamente consentido. O homem ataca para se defender. Uma mulher, ainda que orgulhosa, é forçada afazer-se meiga e passiva; manobras, prudência, subterfúgios, sorrisos, encantos, docilidade são suas melhores armas. Revejo essa jovem mulher a cujaporta bati de improviso uma noite; deixara-a duas horas antes malpintada, negligentemente vestida, com um olhar morto; agora ela o esperava; quandodeu comigo, retomou sua expressão habitual, mas durante um momento tive tempo de vê-la preparada para ele, crispada no medo e na hipocrisia, jápreparada para todos os sofrimentos por trás de seu sorriso jovial; estava penteada com cuidado, uma maquiagem insólita animava-lhe as faces e oslábios, enfeitara-se com uma blusa de renda de deslumbrante brancura. Vestido de festa, arma de combate. Os massagistas, os visagistas, os“esteticistas” sabem que seriedade trágica emprestam suas clientes a esses cuidados que parecem fúteis; é preciso inventar novas seduções para oamante, é preciso tornar-se a mulher que ele almeja encontrar e possuir. Mas todo esforço é vão; ela não ressuscitará em si essa imagem da Outra quede início o atraíra, que pode atraí-lo em uma outra. Há no amante a mesma dúplice e impossível exigência que há no marido: quer a amanteabsolutamente sua e no entanto estranha; ele a quer exatamente de acordo com seu sonho e diferente de tudo o que sua imaginação inventa, umaresposta à sua espera e uma surpresa imprevista. Essa contradição atormenta a mulher e a destina ao fracasso. Ela tenta moldar-se em obediência aodesejo do amante; muitas mulheres que tinham desabrochado nos primeiros tempos de um amor que confirmava seu narcisismo, assustam, por umservilismo maníaco, quando se sentem menos amadas; obcecadas, empobrecidas, irritam o amante; dando-se a ele cegamente, a mulher perdeu essadimensão de liberdade que a princípio a tornava fascinante. Ele buscava nela seu reflexo: mas, se o encontra demasiado fiel, aborrece-se. Uma dasdesgraças da amorosa está em que seu próprio amor a desfigura, a aniquila; fica sendo somente essa escrava, essa criada, esse espelho por demaisdócil, esse eco por demais fiel. Quando o percebe, seu desespero diminui-lhe ainda o valor; em meio às lágrimas, às reivindicações, às cenas, acabaperdendo todo atrativo. Um existente é o que faz; para ser, ela confiou numa consciência alheia e renunciou a fazer qualquer coisa. “Só sei amar”,escreve Julie de Lespinasse. Eu que sou tão somente amor: este título de romance465 é a divisa da amorosa; ela é somente amor e, quando o amor seacha privado de seu objeto, ela não é mais nada.Muitas vezes compreende seu erro; tenta então reafirmar sua liberdade, reencontrar sua alteridade; torna-se coquete. Desejada por outros homens,interessa novamente o amante entediado: é o tema batido de muitos romances “perversos”; a separação basta por vezes para devolver-lhe o prestígio;Albertine parece insossa quando se acha presente e dócil; à distância, volta a ser misteriosa e Proust ciumento valoriza-a novamente. Mas essasmanobras são delicadas; se o homem as penetra, revelam apenas irrisoriamente a servidão de sua escrava. E seu próprio êxito não está livre de perigo:é porque é sua que o amante desdenha a amant e, mas é porque é sua que a ela se prende; será o desdém ou o apego que uma infidelidade arruinará?Pode ser que, despeitado, o homem se afaste da indiferente: ele a quer livre, mas ele a quer dada. Ela conhece esse risco: seu coquetismo com isso separalisa. É quase impossível a uma amorosa jogar habilmente esse jogo; tem medo demais de cair na própria armadilha. E, na medida em que ainda


ama o amante, repugna-lhe enganá-lo: como permaneceria ele um deus a seus olhos? Ganhando a partida, ela destrói o ídolo; perdendo-a, perde-se a simesma. Não há salvação.Uma amorosa prudente — mas tais palavras não vão juntas — esforça-se por converter a paixão do amante em ternura, em amizade, em hábito; outenta segurá-lo por laços sólidos: filho, casamento. Esse desejo de casamento persegue muitas ligações: é o da segurança. A amante hábil tira proveitoda generosidade do jovem amor para obter um seguro contra o futuro. Mas, quando se entrega a essas especulações, não merece mais o nome deamorosa. Por que esta sonha loucamente com captar para sempre a liberdade do amante mas não com o aniquilar. É por isso que, salvo o caso muitoraro em que o livre e mútuo relacionamento se perpetua durante toda uma vida, o amor-religião conduz à catástrofe. Com Mora, Mlle de Lespinasseteve a sorte de se cansar em primeiro lugar; cansou-se porque encontrou Guibert que, por sua vez, não demorou em se cansar dela. O amor de Mmed’Agoult e Liszt morreu dessa dialética implacável: o arrebatamento, a vitalidade, a ambição que tornavam Liszt tão amável o destinavam a outrosamores. A religiosa portuguesa tinha que ser abandonada. A chama que tornava d’Annunzio tão cativante466 tinha por preço sua infidelidade. Umaruptura pode marcar profundamente um homem, mas afinal ele tem sua vida de homem a viver. A mulher abandonada não é mais nada, não tem maisnada. Se lhe perguntam: “Como vivia, antes?”, não se lembra sequer. Esse mundo que era seu, ela o deixou cair em cinzas para adotar uma nova pátriade que é bruscamente expulsa; renegou todos os valores em que acreditava, destruiu suas amizades; encontra-se sem teto sobre a cabeça e emderredor é o deserto. Como recomeçaria uma vida nova, se não há nada fora do amado? Refugia-se em delírios, como outrora no claustro; ou se édemasiado sensata, resta-lhe apenas morrer: muito rapidamente, como Mlle de Lespinasse ou pouco a pouco; a agonia pode durar muito tempo.Quando uma mulher, durante dez ou vinte anos, se dedicou a um homem de corpo e alma, quando ele se manteve firmemente sobre o pedestal em que oergueu, o abandono em que ele a deixa pode ser uma catástrofe fulminante. “Que poderei fazer, indagava aquela mulher de quarenta anos, que podereifazer se Jacques não me ama mais?” Vestia-se, pintava-se com cuidado, mas seu rosto endurecido, já gasto, não podia inspirar um novo amor; poderiaela própria amar outro depois de vinte anos à sombra de um homem? Restam ainda muitos anos de vida quando se tem quarenta anos. Revejo outramulher que conservava olhos belos, traços nobres, apesar de um rosto inchado pelo sofrimento e que deixava, sem o perceber sequer, as lágrimasescorrerem-lhe pelas faces, em público, cega e surda. Agora, o deus diz a outra as palavras inventadas para ela; rainha destronada, não sabe mais sejamais reinou sobre um verdadeiro reino. Se é ainda moça, a mulher tem possibilidades de curar-se: um novo amor poderá curá-la. Por vezes, a este seentregará com um pouco mais de reserva, compreendendo que o que não é único não pode ser absoluto; mas muitas vezes ela se quebrará de encontroa esse novo amor, com muito mais violência ainda que da primeira vez, porque terá de resgatar também o fracasso anterior. O fracasso do amorabsoluto só é uma experiência fecunda se a mulher é capaz de recuperar o domínio de si mesma: separada de Abelardo, Heloísa não se transformounum destroço porque, dirigindo uma abadia, construiu uma existência autônoma. As heroínas de Colette têm demasiado orgulho e recursos para sedemolirem com uma decepção amorosa: Renée Méré salva-se pelo trabalho. E “Sido” dizia à filha que não se inquietasse demais com seu destinosentimental, porque sabia que Colette não era apenas uma amorosa. Mas há poucos crimes que acarretem pior castigo do que esse erro generoso:entregar-se por inteiro a outras mãos.O amor autêntico deveria basear-se no reconhecimento recíproco de duas liberdades; cada um dos amantes se sentiria então como si mesmo e como ooutro: nenhum abdicaria sua transcendência, nenhum se mutilaria; ambos desvendariam juntos, no mundo, valores e fins. Para um e para outro, o amorseria uma revelação de si mesmo pelo dom de si e o enriquecimento do universo. Em sua obra Connaissance de soi, Georges Gusdorf resume muitoexatamente o que o homem pede ao amor. O amor nos revela a nós mesmos, fazendo-nos sair de nós mesmos. Nós nos afirmamos ao contato do que nos é estranho e complementar. O amor, como forma do conhecimento, descobre novos céus e novas terras na própria paisagem em que sempre vivemos. Eis o grande segredo: o mundo é outro, eu sou outro. E não sou mais o único a sabê-lo. Melhor até: foi alguém que me ensinou isso. A mulher desempenha, pois, um papel indispensável e capital na consciência que o homem assume de si mesmo. Daí a importância de que o aprendizado amoroso se reveste para o jovem;467 vimos como Stendhal e Malraux se maravilham com o milagre que fez que“eu mesmo seja outro”. Mas Gusdorf erra ao escrever: “E do mesmo modo o homem representa para a mulher um intermediário indispensável de simesma a si mesma”, pois hoje a situação dela não é ig ual; o homem é revelado sob outra forma, mas permanece ele mesmo e sua nova fisionomiaintegra-se no conjunto de sua personalidade. Só ocorreria o mesmo com a mulher se ela também existisse essencialmente como “para-si”; o queimplicaria a posse de uma independência econômica, a possibilidade de projetar-se para fins próprios e de superar-se sem intermediários para acoletividade. Então são possíveis os amores em termos de igualdade, como o que Malraux descreve entre Kyo e May. Pode mesmo acontecer que amulher desempenhe o papel viril e dominador como Mme de Warens diante de Rousseau, Léa diante de Chéri. Mas, na maioria dos casos, a mulher sóse conhece como outro; seu “para-outrem” confunde-se com seu próprio ser; o amor não é para ela um intermediário de si a si, porque ela não seencontra em sua existência subjetiva; permanece mergulhada nessa amante que o homem não somente revelou como criou; sua salvação dependedessa liberdade despótica que a fundou e pode em um instante aniquilá-la. Ela vive a tremer diante daquele que tem seu destino nas mãos, sem o sabere sem o querer; ela está em perigo em outro, testemunha angustiada e impotente de seu próprio destino. Tirano contra a vontade, sem o querercarrasco, esse outro, a despeito de ambos, tem uma feição inimiga; em lugar da união procurada, a amorosa conhece a mais amarga das solidões, emlugar da cumplicidade, a luta e muitas vezes o ódio. O amor na mulher é uma tentativa suprema de superar, assumindo-a a dependência a que se achacondenada; mas, mesmo consentida, essa dependência não se pode viver senão no medo e no servilismo.Os homens não cessaram de proclamar que o amor é para a mulher sua suprema realização. “Uma mulher que ama como mulher, ainda se torna maisprofundamente mulher”, diz Nietzsche; e Balzac: “Em um plano elevado, a vida do homem está na glória, a da mulher no amor. A mulher só se iguala aohomem fazendo de sua vida uma perpétua oferenda, como a do homem é uma perpétua ação.” Mas trata-se ainda aqui de uma mistificação cruel, pois oque ela oferece eles não se esforçam em absoluto por aceitar. O homem não precisa da dedicação incondicional que reclama, nem do amor idólatra quelhe lisonjeia a vaidade; só os acolhe com a condição de não satisfazer as exigências que tais atitudes reciprocamente implicam. Ele recomenda à mulherque dê: e suas dádivas o irritam; ela se vê perturbada com seus inúteis presentes, com sua existência vã. No dia em que for possível à mulher amar emsua força, não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma mas para se encontrar, não para se demitir mas para se afirmar, nesse dia o amor setornará para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal. Enquanto isso não acontece, ele resume sob sua forma mais patética amaldição que pesa sobre a mulher encerrada no universo feminino, a mulher mutilada, incapaz de se bastar a si mesma. As numerosas mártires doamor testemunharam contra a injustiça de um destino que lhes propõe, como derradeira salvação, um inferno estéril.


3/A mística O amor foi apontado à mulher como sua suprema vocação e, quando o dedica a um homem, nele ela p rocura Deus: se as circunstâncias lhe proíbem oamor humano, se é desiludida ou exigente, é em Deus mesmo que ela escolherá adorar a divindade. Por certo, houve também homens que sequeimaram na mesma chama, mas são raros e seu fervor assumia uma forma intelectual muito depurada. Ao passo que são muitas as mulheres que seabandonam às delícias das núpcias celestiais; e elas as vivem de uma maneira estranhamente afetiva. A mulher está acostumada a viver de joelhos;espera normalmente que sua salvação desça do céu onde reinam os homens; eles também estão envoltos em nuvens; é para além dos véus de suapresença carnal que sua majestade se revela. O Amado está sempre mais ou menos ausente; comunica-se com sua adoradora mediante sinais ambíguos;ela só lhe conhece o coração por um ato de fé; e quanto mais ele se lhe apresenta como superior, mais as condutas dele se lhe afiguram impenetráveis.Vimos na erotomania que essa fé resistia a todos os desmentidos. A mulher não tem necessidade de ver nem de tocar para sentir a Presença a seu lado.Que se trate de um médico, de um padre ou de Deus, ela conhecerá as mesmas evidências incontestáveis, ela acolherá como escrava, em seu coração, oamor que cai do alto aos borbotões. Amor humano, amor divino confundem-se, não porque este seja uma sublimação daquele, mas porque o primeiro étambém um movimento para um transcendente, para um absoluto. Trata-se em todo caso, para a amorosa, de salvar sua existência contingente unindo-a ao Todo encarnado em uma Pessoa soberana.Esse equívoco é flagrante em numerosos casos — patológicos ou normais — em que o amante é divinizado, em que Deus se apresenta sob traçoshumanos. Citarei apenas este que relata Ferdière em sua obra sobre a erotomania. É a doente que fala: Em 1923 correspondi-me com um jornalista da Presse; todos os dias lia seus artigos de moral, lia entre as linhas; parecia-me que ele me respondia, que me dava conselhos; eu escrevia cartas de amor; escrevia-lhe muito... Em 1924, isso me veio de repente: parecia-me que Deus procurava uma mulher, que viria falar-me; tinha a impressão de que me confiara uma missão, de que me escolhera para fundar um templo; acreditava-me centro de uma aglomeração muito importante, onde haveria mulheres que tratariam dos doutores... Foi nesse momento que... fui transferida para o hospício de Clermont... Havia lá jovens doutores que queriam refazer o mundo: na minha cela eu sentia seus beijos em meus dedos, seus órgãos sexuais em minhas mãos; uma vez eles me disseram: “Tu não és sensível, e sim sensual; vira-te”; eu me virei e senti-os em mim: era muito agradável... O chefe de serviço, Dr. D... era como um deus. Eu sentia muito bem que ele tinha alguma coisa quando se aproximava de minha cama; olhava-me com um ar de dizer: sou todo teu. Amava-me realmente; um dia olhou-me com insistência, de uma maneira verdadeiramente extraordinária... seus olhos verdes tornaram-se azuis como o céu; cresceram intensamente de uma maneira formidável... ele olhava o efeito provocado, ao mesmo tempo que falava com outra doente e sorria... Fiquei assim bloqueada, bloqueada no Dr. D... um prego não arranca o outr o e, apesar de todos os meus amantes (tive 15 ou 16), não pude separar-me dele; é por isso que ele é culpado... Há mais de 12 anos venho tendo sempre conversas mentais com ele... quando o queria esquecer, ele manifestava-se de novo... mostrava-se por vezes algo zombeteiro... “Estás vendo, te amedronto, dizia ainda, poderás amar outros mas voltarás a mim sempre...” Escrevia-lhe frequentemente cartas, fixando-lhe encontros a que eu comparecia. No ano passado fui vê-lo; ele assumiu uma atitude; não tinha calor, senti-me tola e fui-me embora.. Dizem-me que casou com outra mulher, mas ele me amará sempre... é meu esposo e no entanto o ato nunca se realizou, o ato que faria a solda... “Abandona tudo, diz ele por vezes, comigo subirás sempre, sempre, não serás como um ser da terra.” Compreende: cada vez que procuro Deus, encontro um homem: não sei mais para que religião me voltar. Trata-se aqui de um caso patológico. Mas encontra-se em muitas devotas essa inextricável confusão entre o homem e Deus. É principalmente oconfessor que ocupa um lugar equívoco entre o céu e a terra. Ele ouve com ouvidos carnais a penitente que lhe exibe a alma, mas é uma luzsobrenatural que brilha no olhar com que ele a envolve; é um homem divino, é deus presente sob a aparência de um homem. Mme Guyon descrevenestes termos seu encontro com o pe. La Combe: “Pareceu-me que uma influência de graça vinha dele a mim pelo mais íntimo da alma e retornava demim a ele, de modo que ele sentia o mesmo efeito.” Foi a intervenção do religioso que a arrancou à secura de que sofria há anos e novamente lheabrasou a alma de fervor. Ela viveu ao lado dele durante todo o seu grande período místico. Confessa: “Não era mais senão uma inteira unidade, demaneira que não podia mais distingui-lo de Deus.” Seria demasiado sumário dizer que ela estava em verdade apaixonada por um homem e fingia amar aDeus: amava também esse homem porque era aos olhos dela outra coisa que ele próprio. Tal qual a doente de Ferdière, o que procuravaindistintamente atingir era a fonte suprema dos valores. É ao que visa toda mística. O intermediário masculino lhe é por vezes útil para tomar impulsopara o deserto do céu; mas não é indispensável. Distinguindo mal a realidade do jogo, o ato da conduta mágica, o objeto do imaginário, a mulher ésingularmente apta a tornar presente uma ausência através de seu corpo. O que é muito menos humorístico é identificar, como o fizeram por vezes,misticismo com erotomania: a erotômana sente-se valorizada pelo amor de um ser soberano; este é que toma a iniciativa das relações amorosas, amamais apaixonadamente do que é amado; torna conhecidos seus sentimentos através de sinais evidentes mas secretos; é ciumento e irrita-se com acarência de fervor da eleita: não hesita então em puni-la; não se manifesta quase nunca sob um aspecto carnal e concreto. Todos esses traços seencontram nos místicos; em particular Deus ama de toda a eternidade a alma que abrasa com seu amor, por ela verteu seu sangue, prepara-lheesplêndidas apoteoses; tudo o que ela pode fazer é entregar-se sem resistência.Admite-se hoje que a erotomania assume uma forma ora platônica, ora sexual. Assim também, o corpo participa mais ou menos dos sentimentos que amística dedica a Deus. Suas efusões são calcadas sobre as que conhecem os amantes terrestres. Enquanto Angela de Foligno contemplava uma imagemde Cristo apertando são Francisco nos braços, ele lhe disse: “Eis como te apertarei contra mim e muito mais do que os olhos do corpo podem ver... nãote abandonarei nunca, se me amares.” Mme Guyon escreve: “O amor não me deixava um só instante de repouso. Dizia-lhe: Ó meu amor, basta, deixai-me.” — “Quero o amor que provoca na alma frêmitos inefáveis, o amor que me extasia...” — “Ó meu Deus! Se fizésseis as mulheres mais sensuaissentirem o que sinto, abandonariam desde logo seus falsos prazeres para gozar de bem tão verdadeiro.” Conhece-se a célebre visão de santa Teresa: O anjo trazia nas mãos um comprido dardo dourado. De vez em quando, mergulhava-o em meu coração e empurrava-o até as entranhas. Quando retirava o dardo, era como se fosse arrancar-me as entranhas. E eu ficava toda inflamada de amor divino... Do que tenho certeza é que a dor penetra até o fundo de minhas entranhas e parece que estas se rasgam quando meu esposo espiritual retira a flecha com a qual as traspassou. Pretendem, por vezes, com piedade, que a pobreza da linguagem obriga a mística a valer-se desse vocabulário erótico; mas ela também só dispõe deum corpo, e toma de empréstimo ao amor terrestre não somente palavras como atitudes físicas; tem, para oferecer-se a Deus, as mesmas condutas quequando se oferece a um homem. Isso não diminui aliás, em nada, o valor de seus sentimentos. Quando Ângela de Foligno se torna ora “pálida e seca”,ora “gorda e rubicunda” segundo os movimentos de seu coração, quando se expande em dilúvios de lágrimas,468 quando se desmonta, não há comoconsiderar tais fenômenos como puramente “espirituais”. Mas explicá-los apenas pela sua excessiva “emotividade” é invocar a “virtude dormitiva” dapapoula; o corpo nunca é a causa das experiências subjetivas porquanto é, em sua figura objetiva, o próprio sujeito: este vive suas atitudes na unidadede sua existência. Adversários e admiradores dos místicos pensam que dar um conteúdo sexual aos êxtases de santa Teresa é degradá-la ao nível deuma histérica. Mas o que diminui o sujeito histérico não é o fato de que seu corpo exprime ativamente suas obsessões: é o de estar obsidiado, é o deestar sua liberdade enfeitiçada e anulada; o domínio que um faquir adquire sobre seu organismo não o torna escravo dele; a mímica corporal podeachar-se envolvida no impulso de uma liberdade. Os textos de santa Teresa não se prestam a nenhum equívoco e justificam a estátua de Bernin que nosmostra a santa extasiada em seus excessos de fulminante volúpia; não seria entretanto menos falso interpretar suas emoções como uma simples“sublimação sexual”; não há primeiramente um desejo sexual, inconfessado, que assume a forma de amor divino; a amorosa, ela própria, não éprimeiramente a presa de um desejo em objeto que se fixaria em seguida em um indivíduo; é a presença do amante que suscita nela uma turvaçãoimediatamente intencionada para ele; assim, num só movimento, santa Teresa procura unir-se a Deus e vive essa união em seu próprio corpo; não éescrava de seus nervos e de seus hormônios: cumpre antes admirar nela a intensidade de uma fé que lhe penetra a carne em sua mais profundaintimidade. Em verdade, como a própria santa Teresa o compreendera, o valor de uma experiência mística não se mede segundo a maneira por que foisubjetivamente vivida e sim segundo seu alcance objetivo. Os fenômenos do êxtase são mais ou menos os mesmos em santa Teresa e em MariaAlacoque: o interesse de sua mensagem é muito diferente. Santa Teresa põe de uma maneira inteiramente intelectual o dramático problema da relaçãoentre o indivíduo e o Ser transcendente; ela viveu como mulher uma experiência cujo sentido ultrapassa qualquer especificação sexual; cabe situá-la aolado de são João da Cruz. Mas ela é uma exceção brilhante. O que nos oferecem suas irmãs menores é uma visão essencialmente feminina do mundo e


da salvação; não é a um transcendente que visam: é a redenção de sua feminilidade.469A mulher busca primeiramente no amor divino o que a amorosa exige no amor do homem: a apoteose de seu narcisismo; esse olhar soberano, atenta eamorosamente fixado nela, é uma milagrosa fortuna. Através de sua vida de moça, de jovem mulher, Mme Guyon sempre fora atormentada pelo desejode ser amada e admirada. Uma mística protestante moderna, Mlle Vée, escreve: “Nada me faz tão infeliz como não ter ninguém se interessando pormim de maneira especial, e simpática ao que se passa dentro de mim.” Mme Krüdener imaginava que Deus se ocupava dela sem cessar, a tal ponto que,conta Sainte-Beuve, “em seus momentos mais decisivos com o amante, ela gemia: Meu Deus, como estou feliz! Peço-vos que me perdoeis o excesso deminha felicidade!” Compreende-se a embriaguez que invade o coração da narcisista quando todo o céu se faz seu espelho; sua imagem divinizada éinfinita como o próprio Deus, não se dissipa nunca; e, ao mesmo tempo, ela sente em seu seio ardente, palpitante, afogado no amor, sua alma criada,redimida, amada pelo Pai adorável; é seu duplo, é ela própria que se possui, infinitamente magnificada pela mediação de Deus. Estes textos de santaÂngela de Foligno são particularmente significativos. Eis como Jesus lhe fala: Minha doce filha, minha filha, minha amada, meu templo. Minha filha, minha amada, ama-me porque te amo, muito, muito mais do que me podes amar. Toda a tua vida: teu comer, teu beber, teu dormir, toda a tua vida me apraz. Farei em ti grandes coisas aos olhos das nações; em ti serei conhecido e em ti meu nome será louvado por grande número de povos. Minha filha, minha esposa que me é doce, amo-te muito. E ainda: Minha filha que me é mais doce do que te sou doce, minhas delícias, o coração de Deus todo-poderoso está agora em teu coração. O Deus todo-poderoso depositou em ti muito amor, mais do que em nenhuma mulher desta cidade; fez de ti suas delícias. E de outra feita: Dedico-te um tal amor que não me preocupo mais com tuas fraquezas e que meus olhos não as veem mais. Depositei em ti um grande tesouro. A eleita não poderia deixar de responder com paixão a essas declarações tão ardentes e que caem de tão alto. Ela tenta unir-se ao amante pela técnicahabitual da amorosa: a do aniquilamento. “Só tenho uma ocupação que é amar, esquecer-me, aniquilar-me”, escreve Maria Alacoque. O êxtase solapacorporalmente essa abolição do eu; o sujeito não vê mais, não sente mais, esquece o corpo, renega-o. Pela violência desse abandono, pela aceitaçãoextasiada da passividade, indica-se em profundidade a deslumbrante e soberana Presença. O quietismo de Mme Guyon erigia essa passividade emsistema: quanto a ela, passava grande parte do tempo em uma espécie de catalepsia; dormia acordada.Em sua maioria, as místicas não se contentam com se abandonar passivamente a Deus: esforçam-se ativamente por se aniquilar pela destruição dacarne. Sem dúvida, o ascetismo é também praticado pelos monges e pelos religiosos. Mas o encarniçamento com que a mulher humilha a carne assumecaracteres singulares. Vimos a que ponto é ambígua a atitude da mulher para com o corpo: é através da humilhação e do sofrimento que ela ometamorfoseia em glória. Entregue a um amante como objeto de prazer, ela torna-se templo, ídolo; dilacerada pelas dores do parto, cria heróis. Amística vai torturar a carne para ter o direito de a reivindicar; reduzindo-a à abjeção, exalta-a como instrumento de sua salvação. Assim se explicam osestranhos excessos a que se entregam certas santas. Santa Ângela de Foligno conta que bebeu deliciada a água em que acabava de lavar as mãos e ospés dos leprosos: Esta bebida inundou-nos de tal suavidade que a alegria nos acompanhou até em casa. Nunca bebera com tamanha delícia. Um pedaço de pele escamada das chagas do leproso parara-me na garganta. Ao invés de rejeitá-lo, fiz esforços para o engolir e consegui-o. Pareceu-me que acabava de comungar. Nunca poderei exprimir as delícias em que me afogava. Sabe-se que Maria Alacoque limpou com a língua os vômitos de um doente; descreve em sua autobiografia a felicidade que sentiu quando encheu aboca com excrementos de um homem com diarreia; Jesus recompensou-a mantendo-lhe os lábios colados durante três horas contra seu SagradoCoração. É principalmente nos países de uma ardente sensualidade como a Itália e a Espanha que a devoção assume cores carnais: numa aldeia dosAbruzzos, as mulheres ainda hoje ferem a língua ao longo de um caminho dos Passos lambendo as pedras do solo. Em todas essas práticas, não fazemsenão imitar o Redentor que salvou a carne pelo aviltamento de sua própria carne: é de maneira muito mais concreta que os homens que elas sãosensíveis a esse grande mistério.É sob a figura do esposo que Deus aparece de preferência à mulher; por vezes ele se mostra em sua glória, deslumbrante de brancura e de beleza,dominador; veste-a com um vestido de núpcias, coroando-a, tomando-a pela mão e prometendo-lhe uma apoteose celeste. Mas, o mais das vezes, ele éum ser de carne; a aliança que Jesus dera a santa Catarina e que ela trazia, invisível, ao dedo, era “esse anel de carne” que a Circuncisão extraíra dele.Ele é principalmente um corpo maltratado e sangrento: é na contemplação do Crucificado que ela mergulha com mais fervor; identifica-se com aVirgem Mãe carregando nos braços os restos mortais do Filho, ou com Madalena em pé ao pé da cruz regada pelo sangue do Bem-Amado. Desse modoela satisfaz suas fantasias sadomasoquistas. Na humilhação do Deus ela admira a degradação do Homem; inerte, passivo, coberto de chagas, ocrucificado é a imagem invertida da mártir branca e vermelha entregue às feras e com a qual a menina muitas vezes se identificou: ela sente-setranstornada de emoção ao ver que o Homem-Deus assumiu seu papel. Ela é que está deitada na cruz, prometida ao esplendor da Ressurreição. É ela:prova-o; sua fronte sangra sob a coroa de espinhos, suas mãos, seus pés, seus flancos são traspassados por um ferro invisível. Em 321 estigmatizadosque conta a Igreja Católica, há 47 homens apenas; os outros — Helena de Hungria, Joana da Cruz, G. d’Osten, Osana de Mântua, Claire de Montfalcon— são mulheres que em média ultrapassaram a idade da menopausa. A mais célebre, Catarina Emmerich, foi marcada prematuramente. Tendoalmejado, com a idade de 24 anos, os sofrimentos da coroa de espinhos, viu chegar-se a ela um jovem deslumbrante que lhe enfiou a coroa na cabeça.No dia seguinte, suas têmporas e sua fronte incharam, o sangue pôs-se a escorrer. Quatro anos depois, em êxtase, ela viu Cristo com suas chagas deque saíam raios pontudos como finas lâminas e que fez jorrar gotas de sangue das mãos, dos pés, do seio da santa. Ela suava sangue, cuspia sangue.Ainda agora, toda sexta-feira santa, Teresa Neumann volta, ela também, para os visitantes, um rosto inundado pelo sangue do Cristo. Nos estigmas,conclui-se a misteriosa alquimia que transforma a carne em glória, posto que são, sob a forma de uma dor sangrenta, a própria presença do amordivino. Compreende-se assaz facilmente por que as mulheres se apegam singularmente à metamorfose do fluxo vermelho em pura chama de ouro. Têma obsessão desse sangue que escorre do peito do rei dos homens. Santa Catarina de Siena a isso se refere em quase todas as suas cartas. Ângela deFoligno abismava-se na contemplação do coração de Jesus e do profundo ferimento ao lado. Catarina Emmerich vestia uma camisa vermelha, a fim dese assemelhar a Jesus quando era como “um lençol molhado de sangue”; tudo via “através do sangue de Jesus”. Vimos em que circunstâncias MariaAlacoque se abeberou durante três horas no Sagrado Coração de Jesus. Foi ela quem propôs à adoração dos fiéis o enorme coágulo vermelho aureoladopelos raios resplendentes do amor. Esse é o emblema que resume o grande sonho feminino: do sangue à glória pelo amor.Êxtases, visões, diálogos com Deus, essa experiência interior basta a certas mulheres. Outras experimentam a necessidade de comunicá-la ao mundoatravés de atos. A ligação da ação com a contemplação assume duas formas diferentes. Há mulheres de ação, como santa Catarina, santa Teresa, Joanad’Arc, que sabem muito bem que objetivos se propõem e inventam lucidamente os meios de atingi-los: suas revelações não fazem senão dar uma formaobjetiva a suas certezas; encorajam-nas a seguirem os caminhos que a si mesmas traçaram com precisão. Há mulheres narcisistas como Mme Guyon,Mme Krüdener, que, ao termo de um fervor silencioso, se sentem repentinamente em “um estado apostólico”.470 Não são muito precisas em suas tarefase — como as agitadas senhoras que se ocupam de obras de beneficência — pouco se preocupam com o que fazem conquanto seja alguma coisa. Assim éque depois de se exibir como embaixatriz, como romancista, Mme Krüdener interiorizou a ideia que fazia de seus méritos: não foi pa ra fazer triunfarideias definidas, foi para se confirmar em seu papel de inspirada de Deus que se ocupou do destino de Alexandre I. Se basta muitas vezes um pouco debeleza e de inteligência para que a mulher se sinta revestida de um caráter sagrado, com muito mais razão, quando se acredita a eleita de Deus, pensaachar-se encarregada de missão: prega doutrinas incertas, muitas vezes funda seitas, o que lhe permite operar, através dos membros da coletividadeque inspira, uma embriagante multiplicação de sua personalidade.O fervor místico, como o amor e o próprio narcisismo, podem integrar-se em vidas ativas e independentes. Mas, em si, esses esforços de salvaçãoindividual só podem redundar em fracassos; ou a mulher põe-se em relação com um irreal: seu duplo ou Deus; ou cria uma relação irreal com um serreal. Não tem, em todo caso, domínio sobre o mundo, não se evade de sua subjetividade; sua liberdade permanece mistificada; só há uma maneira derealizá-la autenticamente: projetá-la mediante uma ação positiva na sociedade humana.


A mulher independente O código francês não mais inclui a obediência entre os deveres da esposa, e toda cidadã tornou-se eleitora; essas liberdades cívicas permanecemabstratas quando não se acompanham de uma autonomia econômica. A mulher sustentada — esposa ou cortesã — não se liberta do homem por ter namão uma cédula de voto; se os costumes lhe impõem menos obrigações do que outrora, as licenças negativas não lhe modificaram profundamente asituação; ela continua confinada em sua condição de vassala. Foi pelo trabalho que a mulher cobriu em grande parte a distância que a sep arava dohomem; só o trabalho pode assegurar-lhe uma liberdade concreta. Desde que ela deixa de ser uma parasita, o sistema baseado em sua dependênciadesmorona; entre o universo e ela não há mais necessidade de um mediador masculino. A maldição que pesa sobre a mulher vassala, reside no fato deque não lhe é permitido fazer o que quer que seja: ela se obstina então na impossível procura do ser através do narcisismo, do amor, da religião;produtora, ativa, ela reconquista sua transcendência; em seus projetos afirma-se concretamente como sujeito; pela sua relação com o fim a que visa,com o dinheiro e os direitos de que se apropria, põe à prova sua responsabilidade. Muitas mulheres têm consciência de tais vantagens, mesmo entre asque exercem os mais modestos ofícios. Ouvi uma mulher que lavava o piso de um saguão de hotel declarar: “Nunca pedi nada a ninguém. Vencisozinha.” Mostrava-se tão orgulhosa quanto um Rockefeller, por se bastar a si mesma. Não se deve entretanto acreditar que a simples justaposição dodireito de voto a um ofício constitua uma perfeita libertação: hoje o trabalho não é a liberdade. Somente em um mundo socialista a mulher, atingindo otrabalho, conseguiria a liberdade. Em sua maioria, os trabalhadores são hoje explorados. Por outro lado, a estrutura social não foi profundamentemodificada pela evolução da condição feminina; este mundo, que sempre pertenceu aos homens, conserva ainda a forma que eles lhe imprimiram. Épreciso não perder de vista esses fatos, dos quais a questão do trabalho feminino tira sua complexidade. Uma senhora importante e bem pensante fezrecentemente uma pesquisa entre as operárias das fábricas Renault; afirma que estas prefeririam ficar em casa a trabalhar na fábrica. Provavelmente,pois elas só conseguem a independência econômica no meio de uma classe economicamente oprimida; e por outro lado as tarefas realizadas na fábricanão as dispensam dos cuidados do lar.471 Se lhes tivessem proposto a escolha entre quarenta horas de trabalho semanal na fábrica ou em casa, teriamsem dúvida dado outras respostas; e talvez mesmo aceitassem alegremente a acumulação, se, como operárias, se integrassem em um mundo que fosseseu mundo, da elaboração do qual participassem com alegria e orgulho. Atualmente, sem falar das camponesas,472 em sua maioria as mulheres quetrabalham não se evadem do mundo feminino tradicional; não recebem da sociedade, nem do marido, a ajuda que lhes seria necessária para setornarem concretamente iguais aos homens. Somente as que têm um credo político, as que militam nos sindicatos, as que confiam no futuro, podem darum sentido ético às ingratas fadigas cotidianas; mas, privadas de lazeres, herdeiras de uma tradição de submissão, é natural que as mulheres comecemsomente a desenvolver um sentido político e social. É natural que, não recebendo em troca de seu trabalho os benefícios morais e sociais com queteriam direito de contar, lhe suportem sem entusiasmo os constrangimentos. Compreende-se ta mbém que a midinette, a empregada, a secretária nãoqueiram renunciar às vantagens de um apoio masculino. Já disse que a existência de uma casta privilegiada, a que é permitido agregar-se apenasentregando o corpo, é para a jovem mulher uma tentação quase irresistível; ela se entrega às galanterias pelo fato de serem mínimos seus salários,enquanto o padrão de vida que a sociedade exige dela é muito elevado; se se contenta com o que ganha, será apenas um pária: mal-instalada,malvestida, todas as distrações e o próprio amor lhe serão recusados. As pessoas virtuosas pregam-lhe o ascetismo; na verdade, seu regime alimentar émuitas vezes tão austero quanto o de uma carmelita; só que nem todo mundo pode ter Deus como amante: é preciso que ela agrade aos homens par avencer em sua vida de mulher. Ela se fará ajudar, portanto; é com isso que conta cinicamente o empregador que lhe concede um salário de fome. Emalguns casos, essa ajuda lhe permitirá melhorar sua situação e conquistar uma independência verdadeira; por vezes, ao contrário, ela abandonará seuofício para ser sustentada. Muitas vezes acumula: liberta-se do amante pelo trabalho e evade-se do trabalho graças ao amante; mas também conhece adupla servidão de um ofício e de uma proteção masculina. Para a mulher casada, o salário geralmente representa apenas um complemento; para amulher “que é ajudada” é o auxílio masculino que se apresenta como o inessencial; mas nem uma nem outra adquirem, com seu esforço pessoal, umaindependência total. Entretanto, existe hoje um número bem grande de privilegiadas que encontram em sua profissão uma autonomia econômica e social. São elas que pomos em questão quando indagamos das possibilidades da mulher e de seu futuro. Eis por que, embora constituam ainda apenas uma minoria, é particularmente interessante estudar de perto sua situação; é a propósito delas que os debates entre feministas e antifeministas se prolongam. Estes afirmam que as mulheres emancipadas de hoje nada de importante conseguem no mundo e que, por outro lado, têm dificuldade em encontrar seu equilíbrio interior. Aqueles exageram os resultados que elas obtêm e não querem enxergar seu desatino. Em verdade, nada autoriza a dizer que seguem um caminho errado, e no entanto é certo que não se acham tranquilamente instaladas em sua nova condição: não passaram ainda da metade do caminho. A mulher que se liberta economicamente do homem nem por isso alcança uma situação moral, social e psicológica idêntica à dele. A maneira por que se empenha em sua profissão e a ela se dedica depende do contexto constituído pela forma global de sua vida. Ora, quando inicia sua vida de adulto, ela não tem atrás de si o mesmo passado de um rapaz; não é considerada de maneira idêntica pela sociedade; o universo apresenta-se a ela numa perspectiva diferente. O fato de ser uma mulher coloca hoje problemas singulares perante um ser humano autônomo. O privilégio que o homem tem, e que se faz sentir desde sua infância, está em que sua vocação de ser humano não contraria seu destino de macho. Daassimilação do falo e da transcendência, resulta que seus êxitos sociais ou espirituais lhe dão um prestígio viril. Ele não se divide. Ao passo que àmulher, para que realize sua feminilidade, pede-se que se faça objeto e presa, isto é, que renuncie a suas reivindicações de sujeito soberano. É esseconflito que caracteriza singularmente a situação da mulher libertada. Ela se recusa a confinar-se em seu papel de fêmea porque não quer mutilar-se,mas repudiar seu sexo seria também uma mutilação. O homem é um ser humano sexuado: a mulher só é um indivíduo completo e igual ao homem se fortambém um ser sexuado. Renunciar a sua feminilidade é renunciar a uma parte de sua humanidade. Os misóginos criticaram muitas vezes as mulheresde ação por “se negligenciarem”; mas também lhes pregaram que se quisessem ser iguais a eles deveriam deixar de se maquiar e de pintar as unhas.Este último conselho é absurdo. A ideia de feminilidade impõe-se de fora a toda mulher, precisamente porque se define artificialmente pelos costumes epelas modas; ela pode evoluir de maneira que os cânones se aproximem dos que adotam os homens: nas praias, as calças compridas tornaram-sefemininas. Isso não modifica em nada o fundo da questão: o indivíduo não tem liberdade de moldá-la à vontade. A mulher que não se conforma com issodesvaloriza-se sexualmente e, por conseguinte, socialmente, porquanto a sociedade integrou os valores sexuais. Recusando atributos femininos, não seadquirem atributos viris; mesmo a travestida não consegue fazer-se homem; é uma travestida. Vimos que a homossexualidade constitui, ela também,uma especificação: a neutralidade é impossível. Não há nenhuma atitude negativa que não implique uma contrapartida positiva. A adolescente acreditamuitas vezes que pode simplesmente desprezar as convenções; mas exatamente com isso ela se manifesta, cria uma situação nova, acarretandoconsequências que terá de assumir. A partir do momento em que se livra de um código estabelecido, o indivíduo torna-se um revoltado. Uma mulherque se veste de maneira extravagante, mente quando afirma com um ar de simplicidade que obedece a seu bel-prazer, nada mais: sabe perfeitamenteque isso é uma extravagância. Inversamente, quem não almeja mostrar-se excêntrica conforma-se com as regras comuns. É um cálculo errado escolhero desafio, a menos que isso represente uma ação positivamente eficaz; consome-se com isso mais tempo e forças do que se poupam. Uma mulher quenão deseja escandalizar, que não quer se desvalorizar socialmente deve viver como mulher sua condição de mulher: frequentemente, seu próprio êxitoprofissional o exige. Mas enquanto o conformismo é para o homem muito natural — o costume tendo sido estruturado de acordo com suas necessidadesde indivíduo autônomo e ativo — será necessário que a mulher, que é também sujeito, atividade, se dissolva em um mundo que a destinou àpassividade. É uma servidão ainda mais pesada porque as mulheres, confinadas na esfera feminina, lhe hipertrofiaram a importância: transformaramem artes difíceis a toalete e os cuidados caseiros. O homem quase não precisa se preocupar com suas roupas: são cômodas, adaptadas à sua vida ativa,não é necessário que sejam requintadas; mal fazem parte de sua per sonalidade; além disso, ninguém espera que delas trate pessoalmente: qualquermulher benevolente ou remunerada se encarrega desse cuidado. A mulher, ao contrário, sabe que quando a olham não a distinguem de sua aparência:ela é julgada, respeitada, desejada através de sua toalete. Suas vestimentas foram primitivamente destinadas a confiná-la na impotência epermaneceram frágeis: as meias rasgam-se, os saltos acalcanham-se, as blusas e os vestidos claros sujam-se, as pregas desfazem-se; entretanto, elamesma deverá reparar a maior parte dos acidentes; suas semelhantes não a auxiliarão benevolamente e ela terá escrúpulos em sobrecarregar seuorçamento com trabalhos que ela mesma pode executar; as permanentes, as ondulações, a pintura, os vestidos novos já custam bastante caro. Quando aestudante, a secretária, voltam para casa à noite, têm sempre uma meia para cerzir, uma blusa para lavar, uma saia para passar. A mulher que ganhamuito bem a vida se poupará de tais tarefas aborrecidas, mas estará obrigada a uma elegância mais complicada, perderá tempo em compras, provasetc. A tradição impõe também à mulher, mesmo solteira, certo cuidado com seu lar; um funcionário, nomeado para uma nova cidade, vive facilmente nohotel; sua colega procurará instalar-se num “cantinho próprio”, do qual deverá cuidar com escrúpulo, pois não lhe perdoariam uma negligência que


achariam natural na residência de um homem. Não é, aliás, somente a preocupação com a opinião pública que a incita a dedicar tempo e cuidados àbeleza, ao lar. Ela deseja continuar uma verdadeira mulher para sua própria satisfação. Só consegue aprovar-se através do presente e do passado,acumulando a vida que fez para si com o destino que sua mãe, que seus jogos infantis e seus fantasmas de adolescente lhe prepararam. Alimentasonhos narcisistas; ao orgulho fálico do homem continua a opor o culto de sua própria imagem; quer exibir-se, encantar. Sua mãe, parentes e amigasmais velhas insuflaram-lhe o gosto pelo ninho: a forma primitiva de seus sonhos de independência foi um lar próprio; não pensa em renegá-los, mesmotendo encontrado a liberdade por outros caminhos. E, à medida que se sente ainda sem completa segurança no universo masculino, conserva anecessidade de um retiro, símbolo desse refúgio interior que se habituou a procurar em si mesma. Dócil à tradição feminina, lustrará o assoalho, faráela mesma sua comida em vez de ir, como seu colega, comer no restaurante. Quer viver como um homem e como uma mulher ao mesmo tempo: comisso multiplica seus trabalhos e fadigas. Se pretende permanecer plenamente mulher, é porque pretende também abordar o outro sexo com o máximo de p ossibilidades. É no terreno sexualque se apresentarão os problemas mais difíceis. Para ser um indivíduo completo, igual ao homem, é preciso que a mulher tenha acesso ao mundomasculino assim como o homem tem acesso ao mundo feminino, que tenha acesso ao outro; só que as exigências do outro não são em ambos os casossimétricas. Uma vez conquistadas, a fortuna, a celebridade apresentam-se como virtudes imanentes, podem aumentar a atração sexual da mulher; maso fato de ser uma atividade autônoma contradiz sua feminilidade, ela o sabe. A mulher independente — e principalmente a intelectual que pensa suasituação — sofrerá, enquanto fêmea, de um complexo de inferioridade; não tem tempo para consagrar à sua beleza cuidados tão atentos quanto acoquete, cuja única preocupação é seduzir; por mais que siga os conselhos de especialistas, nunca passará de um amador no terreno da elegância; oencanto feminino exige que a transcendência, degradando-se em imanência, só se apresente como uma palpitação carnal sutil; cumpre ser uma presaespontaneamente oferecida: a intelectual sabe que se oferece, sabe que é uma consciência, um sujeito; não se consegue amortecer o olhar pelavontade, transformar os olhos em uma poça de céu ou de água; nem sempre se detém com firmeza o impulso de um corpo que tende para o mundo, afim de metamorfoseá-lo em uma estátua animada por surdas vibrações. A intelectual tentará fazê-lo ainda com maior zelo porque teme fracassar: masesse zelo consciente é ainda uma atividade e não atinge seu objetivo. Ela comete erros análogos aos que a menopausa sugere: tenta negar sua“cerebralidade” como a mulher que envelhece tenta negar a idade; veste-se como menina, enche-se de flores, adornos, tecidos espalhafatosos; exageraas mímicas infantis e maravilhadas. Brinca, saltita, tagarela, mostra-se desenvolta, estouvada, impulsiva. Mas assemelha-se a esses atores que, por não sentir a emoção que acarretaria o relaxamento de certos músculos, contraem, por um esforço de vontade, os antagonistas, abaixando as pálpebras ouos cantos dos lábios, ao invés de os deixar caírem; assim a mulher de ação crispa-se para mimar o abandono. Sente-o, e com isso se irrita; no rosto,perdidamente ingênuo, brilha de repente uma luz de inteligência demasiado viva; os lábios promissores contraem-se. Se tem dificuldade em agradar éporque não é, como suas irmãzinhas escravas, uma pura vontade de agradar; o desejo de seduzir, por vivo que seja, não lhe desceu à medula dos ossos;sentindo-se inábil, irrita-se com seu servilismo; quer se vingar participando do jogo com armas masculinas; fala ao invés de escutar, expõe pensamentossutis, emoções inéditas; contradiz seu interlocutor em lugar de o aprovar, tenta ser-lhe superior. Mme de Staël misturava bastante habilmente os doismétodos para alcançar triunfos fulminantes: era raro que lhe resistissem. Mas a atitude de desafio, tão frequente, entre outras, nas norte-americanas,aborrece os homens mais do que os domina; são eles, aliás, que a provocam com sua própria desconfiança; se aceitassem amar uma semelhante depreferência a uma escrava — como o fazem aliás os que, entre eles, são isentos de arrogância e de complexo de inferioridade — as mulheres seriammuito menos obcecadas pela sua feminilidade; ganhariam com isso naturalidade, simplicidade, e se achariam mulheres sem tanto esforço, pois, afinalde contas, o são.O fato é que os homens começam a se conformar com a nova condição da mulher; esta, não se sentindo condenada a priori, acha-se mais à vontade:hoje a mulher que trabalha não negligencia por isso sua feminilidade e não perde sua atração sexual. Esse êxito — que já assinala um progresso para oequilíbrio — permanece entretanto incompleto; é ainda muito mais difícil para a mulher do que para o homem estabelecer as relações que deseja com ooutro sexo. Sua vida erótica e sentimental encontra numerosos obstáculos. Neste ponto, a mulher vassala não se acha aliás em situação privilegiada:sexual e sentimentalmente, a maioria das esposas e das cortesãs é radicalmente frustrada. Se as dificuldades são mais evidentes na mulherindependente é porque ela não escolheu a resignação e sim a luta. Todos os problemas vivos encontram na morte uma solução silenciosa; uma mulherque se empenha em viver é portanto mais dividida do que a que enterra sua vontade e seus desejos; mas não aceitará que lhe ofereçam esta soluçãocomo exemplo. É somente comparando-se ao homem que se julgará inferiorizada.Uma mulher que despende suas energias, que tem responsabilidades, que conhece a dureza da luta contra as resistências do mundo, tem necessidade— como o homem — não somente de satisfazer seus desejos físicos como ainda de conhecer o relaxamento, a diversão, que oferecem aventuras sexuaisfelizes. Ora, há ainda meios em que essa liberdade não lhe é concretamente reconhecida; arrisca-se, usando-a, a comprometer sua reputação, suacarreira; no mínimo, exigem dela uma hipocrisia que lhe pesa. Quanto mais tiver conseguido impor-se socialmente, mais fecharão de bom grado osolhos; mas, na província principalmente, na maior parte dos casos, ela será severamente vigiada. Mesmo nas circunstâncias mais favoráveis — quandoo temor da opinião pública não mais influi — sua situação não é neste ponto equivalente à do homem. As diferenças provêm ao mesmo tempo datradição e dos problemas que a natureza singular do erotismo feminino coloca.O homem pode facilmente conhecer carícias sem consequências, que bastam a rigor para lhe acalmar a carne e relaxá-lo moralmente. Houve mulheres— em pequeno número — que reclamaram a instituição de bordéis para mulheres; em um romance intitulado Le Número 17, uma mulher propunha quese criassem casas onde as mulheres pudessem “aliviar-se sexualmente” com taxi boys.473 Parece que existiu um estabelecimento desse tipo em SãoFrancisco; só o frequentavam mulheres de bordel, divertidas com pagarem ao invés de serem pagas; os proxenetas fecharam-no. Além de ser utópica epouco desejável, essa solução teria sem dúvida êxito diminuto: já se viu que a mulher não obtém um “alívio” tão mecanicamente quanto o homem; emsua maioria, as mulheres estimariam a situação pouco propícia a um abandono voluptuoso. Em todo caso, o fato é que esse recurso lhes é hojerecusado. A solução que consiste em pegar na rua um parceiro de uma noite ou de uma hora — supondo-se que a mulher dotada de um fortetemperamento e tendo superado todas as suas inibições a encare sem repugnância — é muito mais perigosa para ela do que para o homem. O risco deuma doença venérea é mais grave para ela, pelo fato de que cabe a ele tomar precauções para evitar a contaminação; e, por prudente que seja, nuncaela se sente plenamente segura contra a ameaça de um filho. Mas, principalmente nas relações entre desconhecidos — relações que se situam numplano brutal — a diferença de força física pesa muito. Um homem não tem muito a temer da mulher que leva para casa; basta-lhe um pouco devigilância. O mesmo não acontece com uma mulher que introduz um homem em sua casa. Falaram-me de duas jovens mulheres que, recém-chegadas aParis e ávidas de “ver a vida”, depois de uma farra tinham convidado dois sedutores cafetões de Montmartre para a ceia; viram-se pela manhãroubadas, brutalizadas e ameaçadas de chantagem. Mais significativo é o caso de uma mulher de mais ou menos quarenta anos, divorciada, quetrabalhava duramente ao longo do dia para sustentar três filhos crescidos e os velhos pais. Ainda bela e atraente, não tinha absolutamente tempo paralevar uma vida mundana, ser coquete, topar decentemente qualquer aventura que, aliás, a teria aborrecido. Entretanto, tinha sentidos exigentes; ejulgava ter, como um homem, o direito de satisfazê-los. Certas noites ia perambular pelas ruas e dava um jeito de pegar um homem. Ma s certa vez,depois de uma hora ou duas passadas numa moita do Bois de Boulogne, o amante não consentiu em deixá-la partir: queria saber seu nome, seuendereço, queria revê-la, amancebar-se com ela; como ela recusasse, surrou-a violentamente e só a abandonou toda machucada e aterrorizada. Quantoa arranjar um amante, como frequentemente o homem arranja uma amante, sustentando-a ou ajudando-a, a coisa só é possível às mulheres ricas.Algumas há que se acomodam com essa solução: pagando o homem, dele fazem um instrumento, o que lhes permite usá-lo com um abandonodesdenhoso. Mas é preciso em geral que sejam idosas para dissociarem tão cruamente erotismo e sentimento, quando, como vimos, na adolescênciafeminina a união de ambos é tão profunda. Há numerosos homens que não aceitam nunca essa divisão entre a carne e a consciência. Com muito maisrazão a maioria das mulheres não consentirá em encará-la. Há, de resto, nisso, uma mentira, a que elas são mais sensíveis do que o homem: o clienteque paga é também um instrumento, dele se serve o parceiro como de um ganha-pão. O orgulho viril mascara ao homem os equívocos do dramaerótico: ele mente a si mesmo espontaneamente; mais facilmente humilhada, mais suscetível, a mulher é também mais lúcida; só conseguirá cegar-se àcusta de uma má-fé mais astuciosa. Comprar um macho, supondo-se que tenha os meios de fazê-lo, não lhe parecerá geralmente satisfatório.Não se trata somente, para a maioria das mulheres — como também dos homens — de satisfazer seus desejos e sim de manter, satisfazendo-os, suadignidade de ser humano. Quando goza com a mulher, quando a faz gozar, o homem põe-se como o único sujeito: conquistador imperioso, doadorgeneroso, ou ambas as coisas. Ela quer reciprocamente afirmar que escraviza seu parceiro a seu prazer, que o satisfaz plenamente com seus dons. Porisso, quando se impõe ao homem, ou pelos bens que lhe promete ou confiando na cortesia dele, ou ainda despertando, mediante certas manobras, odesejo dele em sua pura generalidade, ela se persuade de bom grado que o satisfaz. Graças a essa convicção proveitosa, ela pode solicitá-lo sem sesentir humilhada, já que afirma agir por generosidade. Por isso em Le Blé en herbe, a “dama de branco” que almeja as carícias de Phil, diz-lhe comaltivez: “Só gosto dos mendigos e dos esfomeados.” Em verdade, arranja-se habilmente para que ele adote uma atitude de suplicante. Então, dizColette, “ela se voltou apressadamente para o estreito e obscuro reino onde seu orgulho podia acreditar que a queixa é a confissão de desespero e ondeas mendigas como ela bebem a ilusão da liberalidade”. Mme de Warens é o tipo dessas mulheres q ue escolhem amantes jovens ou infelizes, ou decondição inferior para dar a seus apetites a aparência da generosidade. Mas há também as intrépidas, que se dedicam aos homens mais robustos e quese encantam com os satisfazer, quando eles só cederam por cortesia ou terror.Inversamente, se a mulher que pega o homem em sua armadilha quer imaginar que se entrega, a que se entrega pretende afirmar que possui. “Eu souuma mulher que possui”, dizia-me um dia uma jovem jornalista. Em verdade, nessas coisas, salvo em caso de violação, ninguém possui realmente ooutro; mas nisto a mulher mente a si mesma duplamente. Pois o fato é que o homem seduz muitas vezes pelo seu arrebatamento, sua agressividade,que obtém ativamente o consentimento de sua parceira. Salvo em casos excepcionais — entre outros o de Mme de Staël que já citei — assim não ocorrecom a mulher: ela não pode fazer muito mais do que se oferecer; porque, em sua maioria, os homens se mostram severamente ciumentos de seu papel;querem despertar na mulher uma emoção singular, e não ser eleitos para satisfazer sua necessidade em sua generalidade; escolhidos, sentem-seexplorados.474 “Uma mulher que não tem medo dos homens, amedronta-os”, dizia-me um jovem. E muitas vezes ouvi adultos declararem: “Tenho horrorde que uma mulher tome a iniciativa.” Se a mulher se oferece muito ousadamente, o homem se afasta: ele faz questão de conquistar. A mulher não pode


portanto possuir senão fazendo-se presa: é preciso que se torne uma coisa passiva, uma promessa de submissão. Conseguindo-o, pensará que efetuouvoluntariamente essa conjuração mágica e se reencontrará como sujeito. Mas corre o risco de ser transformada em um objeto inútil pelo desdém dohomem. Eis por que se sente tão profundamente humilhada se o homem recusa suas provocações. Este também se enraivece por vezes quando julgaque foi enganado; entretanto, somente lhe aconteceu fracassar em um empreendimento, mais nada. Ao passo que a mulher consentiu em se fazer carnena emoção, na espera, na promessa: só podia ganhar perdendo-se; fica perdida. É preciso ser grosseiramente cega ou excepcionalmente lúcida para seconformar com semelhante derrota. E mesmo que a sedução vença, a vitória permanece equívoca; com efeito, segundo a opinião pública, o homem éque vence, que tem a mulher. Não se admite que ela possa, como o homem, assumir seus desejos: ela é a presa. Está bem-entendido que o homemintegrou as forças específicas em sua individualidade: ao passo que a mulher é escrava da espécie.475 Representam-na por vezes como uma purapassividade: é uma “Maria, deita-te aí: somente o ônibus não te passou por cima”. Disponível, aberta, é um utensílio, cede facilmente ao feitiço daemoção, está fascinada pelo homem que a colhe como um fruto. Ora encaram-na como uma atividade alienada: tem um demônio que sapateia no seuinterior, no fundo de sua vagina uma serpente ávida aguarda para se empanturrar com o esperma do macho. Em todo caso, recusam-se a pensar queseja simplesmente livre. Na França principalmente, confunde-se obstinadamente mulher livre com mulher fácil, a ideia de facilidade implicando umaausência de resistência e de controle, uma falha, na própria negação da liberdade. A literatura feminina tenta combater esse preconceito: emGrisélidis, por exemplo, Clara Malraux insiste no fato de que sua heroína não cede a uma solicitação, mas realiza um ato que reivindica. Na América doNorte reconhece-se uma liberdade na atividade sexual da mulher, o que a favorece muito. Mas o desdém que manifestam na França, contra as“mulheres que dão”, os próprios homens que se beneficiam de seus favores, paralisa grande número de mulheres. Têm elas horror às representaçõesque suscitariam, às palavras a que dariam pretexto.Mesmo desprezando os boatos anônimos, a mulher experimenta, na relação com seu parceiro, dificuldades concretas; porque a opinião pública seencarna nele. Muitas vezes, ele considera o leito como o terreno em que deve afirmar sua agressiva superioridade. Ele quer possuir e não receber, nãotrocar mas arrebatar. Procura possuir a mulher além do que ela lhe dá; exige que o consentimento dela seja uma derrota, e as palavras que elamurmura sejam as confissões que lhe arranca; admitindo seu próprio prazer, ela reconhece sua escravidão. Quando Claudine desafia Renaud pela suadecisão rápida de lhe ceder, ele toma a iniciativa: apressa-se em violentá-la, quando ela ia oferecer-se; obriga-a a conservar os olhos abertos paracontemplar, na vertigem deles, o seu triunfo. Assim também em Condition humaine, o autoritário Ferral obstina-se em acender a lâmpada que Valériequer apagar. Orgulhosa, reivindicadora, é como adversária que a mulher enfrenta o homem; nessa luta acha-se muito menos bem-armada do que ele;primeiramente, ele tem a força física, e lhe é mais fácil impor suas vontades; vimos também que tensão e atividade se harmonizam com seu erotismo,ao passo que a mulher, recusando a passividade, destrói o feitiço que a conduz ao prazer; vimos, também, que em sua atitude e seus movimentos elamima a dominação e não atinge o prazer; em sua maioria, as mulheres que sacrificam o seu orgulho tornam-se frígidas. Raros são os amantes quepermitem a suas amantes que satisfaçam tendências autoritárias ou sádicas; e mais raras ainda as mulheres que tiram dessa docilidade uma plenasatisfação erótica.Há um caminho que parece muito menos espinhoso para a mulher: o do masoquismo. Quando durante o dia uma pessoa trabalha, luta, assumeresponsabilidades e riscos, é um descanso entregar-se, à noite, a caprichos poderosos. Amorosa ou ingênua, compraz-se a mulher muitas vezes em seaniquilar em proveito de uma vontade tirânica. Mas ainda assim é preciso que se sinta realmente dominada. Àquela que vive cotidianamente entre oshomens não é fácil acreditar na supremacia incondicional dos machos. Citaram-me o caso de uma mulher não realmente masoquista, mas muito“feminina”, isto é, que apreciava profundamente o prazer da abdicação nos braços masculinos; tivera, desde os 17 anos, vários maridos e numerososamantes, de quem tirava grandes alegrias; tendo levado a cabo uma empresa difícil, durante a qual comandara muitos homens, queixava-se de se tertornado frígida: havia uma renúncia beata que se lhe tornara impossível, porque estava habituada a dominar os homens, porque o prestígio deles sedissipara. Quando a mulher começa a duvidar da superioridade dos homens, as pretensões deles só fazem diminuir a estima que poderia dedicar-lhes.Na cama, nos momentos em que o homem deseja mostrar-se mais ferozmente macho, pelo próprio fato de mimar a virilidade, ele se apresenta comoinfantil a olhos atentos: está apenas conjurando o velho complexo de castração, a sombra do pai ou qualquer outro fantasma. Não é sempre por orgulhoque a amante recusa-se a ceder aos caprichos do amante: ela ambiciona ter de lidar com um adulto, que vive um momento real de sua vida, e não comum menino que conta histórias a si mesmo. A masoquista sente-se particularmente desiludida: uma complacência maternal, agastada ou indulgente,não é a abdicação com que sonha. Ou deverá contentar-se, ela também, com jogos irrisórios, fingindo acreditar-se dominada e escravizada, ou correráatrás dos homens ditos “superiores”, na esperança de descobrir um senhor, ou se tornará frígida.Vimos que é possível escapar às tentações do sadismo e do masoquismo quando os dois parceiros se reconhecem mutuamente como semelhantes;havendo no homem e na mulher um pouco de modéstia e alguma generosidade, as ideias de vitória e de derrota ficam abolidas: o ato de amor torna-s euma livre troca. Mas, paradoxalmente, é muito mais difícil à mulher do que ao homem reconhecer como seu semelhante um indivíduo do outro sexo.Precisamente porque a casta dos machos detém a superioridade, o homem pode votar uma estima afetuosa a muitas mulheres singulares: uma mulher éfácil de ser amada; ela tem antes de tudo o privilégio de introduzir o amante em um mundo diferente e que ele se compraz em explorar ao lado dela; elaintriga, diverte, pelo menos durante algum tempo; depois, pelo fato de ser sua situação limitada, subordinada, todas as suas qualidades se apresentamcomo conquistas, ao passo que seus erros são desculpáveis; Stendhal admira Mme de Rênal e Mme de Chasteller, apesar de terem preconceitosdetestáveis; que uma mulher tenha ideias falsas, que seja pouco inteligente, pouco clarividente, pouco corajosa, não a julga responsável o homem: évítima, pensa ele — com razão muitas vezes — de sua situação; ele sonha com o que ela poderia ter sido, com o que será talvez: pode-se dar-lhe umcrédito, pode-se emprestar-lhe muito, porquanto não é nada de definido; por causa dessa ausência é que o amante se cansará depressa: mas delaprovém o mistério, o encanto que o seduz e o inclina a uma ternura fácil. É muito menos fácil ter amizade por um homem: porque ele é o que se fez ser,sem apelo; é preciso amá-lo em sua presença e em sua verdade, não em suas promessas e possibilidades incertas; ele é responsável por suas condutas esuas ideias; não tem desculpa. Com ele, só há fraternidade se lhe aprovamos os atos, os fins, as opiniões; Julien pode amar uma legitimista; uma Lamielnão poderia amar um homem cujas ideias desprezasse. Mesmo disposta a fazer acordos, uma mulher terá dificuldade em adotar uma atitudeindulgente. Porque o homem não lhe abre um verde paraíso de infância, porque ela o encontra neste mundo, que é o mundo comum a ambos: ele sótraz a si próprio. Fechado em si, definido, decidido, favorece pouco os sonhos; quando fala é preciso escutá-lo; leva-se a sério; se não interessa,aborrece, sua presença pesa. Somente os muito jovens se deixam enfeitar com o maravilhoso fácil, pode-se buscar neles mistério e promessa, encontrardesculpas para eles, não os levar muito a sério: é uma das razões que os torna tão sedutores aos olhos das mulheres maduras. Só que, a maior partedas vezes, eles preferem as mulheres jovens. A mulher de trinta anos é empurrada para os homens adultos. E, provavelmente, entre eles encontraráalguns que não desiludirão sua estima nem sua amizade; mas terá sorte se não exibirem então alguma arrogância. O problema, quando ela deseja umahistória, uma aventura, em que possa empenhar o coração e o corpo, está em encontrar um homem que possa considerar como um igual, sem que elese olhe a si próprio como superior.Vão me dizer que em geral as mulheres não fazem tanta história; elas pegam a oportunidade sem se pôr tantos problemas e depois se arranjam com seuorgulho e sua sensualidade. É verdade. Mas o que é verdade também é que enterram no fundo de seus corações muitas decepções, humilhações,saudades, rancores, de que não se encontram, em média, equivalente entre os homens. De um relacionamento que não deu exatamente certo, tira ohomem quase sempre o benefício do prazer; ela pode muito bem não colher nenhum proveito; mesmo indiferente, ela se presta com polidez ao atosexual, quando chega o momento decisivo; pode acontecer que o amante esteja impotente e ela sofrerá, por se ter comprometido em uma aventurairrisória; se não alcança a volúpia, é então que se sente ludibriada, enganada; se se satisfaz, desejará reter duradouramente o amante. Raramente éinteiramente sincera quando afirma encarar apenas uma aventura sem consequência, contando com o prazer, porque o prazer, longe de libertá-la, aprende; uma separação, ainda que dita amigável, a fere. É muito mais raro ouvir uma mulher falar amistosamente de um antigo amante do que umhomem de suas amantes.A natureza de seu erotismo, as dificuldades de uma vida sexual livre incitam a mulher à monogamia. Entretanto, ligação ou casamento conciliam-semuito menos facilmente para ela do que para o homem com uma carreira. Acontece que o amante ou o marido lhe peça que renuncie: ela hesita, comoa Vagabonde de Colette, que deseja ardentemente um calor viril a seu lado, mas teme os entraves conjugais; se ela cede, ei-la novamente vassala; serecusa, ei-la condenada a uma solidão esterilizante. Hoje, o homem aceita geralmente que sua companheira conserve seu trabalho; os romances deColette Yver, que nos mostram a jovem mulher acuada a sacrificar sua profissão para manter o sossego do lar são algo ultrapassados; a vida em comumde dois seres livres é para cada um deles um enriquecimento, e na ocupação de seu cônjuge cada qual encontra o penhor de sua própria independência;a mulher que se basta liberta o marido da escravidão conjugal que era a garantia da sua. Se o homem for de uma boa vontade escrupulosa, amantes eesposos chegam, dentro de uma generosidade sem exigências, a uma perfeita igualdade.476 É mesmo por vezes o homem que desempenha o papel deservidor dedicado; assim é que ao lado de George Eliot, Lewes criava a atmosfera propícia que a esposa cria habitualmente em volta do marido-suserano. Mas na maior parte do tempo é ainda a mulher que paga pela harmonia do lar. Parece natural ao homem que ela trate da casa, que asseguresozinha o cuidado e a educação das crianças. A própria mulher julga que, casando, assumiu encargos de que não a dispensa sua vida pessoal; ela nãoquer que o marido seja privado das vantagens que teria encontrado associando-se a “uma mulher de verdade”: quer ser elegante, boa dona de casa,mãe dedicada, como o são tradicionalmente as esposas. É uma tarefa que se torna facilmente extenuante. Ela a assume ao mesmo tempo porconsideração para com seu parceiro e por fidelidade a si mesma: porque faz questão, já o vimos, de não falhar em seu destino de mulher. Será para omarido um duplo, ao mesmo tempo que será ela mesma; assumirá suas preocupações, participará de seus êxitos tanto quanto se interessará pela suaprópria sorte e por vezes até mais. Educada no respeito à superioridade masculina, é possível que julgue ainda que cabe ao homem ocupar o primeirolugar; por vezes teme também, o reivindicando, arruinar o lar; indecisa entre o desejo de se afirmar e o de se anular, fica dividida, dilacerada.Há, entretanto, uma vantagem que a mulher pode tirar de sua própria inferioridade: como tem de início menos possibilidades do que o homem, não sesente a priori culpada em relação a ele; não lhe cabe compensar a injustiça social, não é solicitada por isso. Um homem de boa vontade sente-seobrigado a “poupar” as mulheres, já que é mais favorecido do que elas; ele se deixará acorrentar por escrúpulos, por piedade, arrisca-se a ser presa demulheres que são “colantes” e “devoradoras”, por serem desarmadas. A mulher que conquista uma independência viril tem o grande privilégio de serelacionar sexualmente com indivíduos, eles próprios autônomos e ativos, que — geralmente — não desempenham em sua vida um papel de parasita,não a prendem por sua fraqueza e pela exigência de suas necessidades. Em verdade, são raras as mulheres que sabem criar uma livre relação com seu


parceiro; forjam elas próprias as cadeias com que eles não almejam acorrentá-las: adotam para com eles a atitude da amorosa. Durante vinte anos deespera, de sonho, de esperança, a jovem acariciou o mito do herói libertador e salvador: a independência conquistada no trabalho não basta para abolirseu desejo de uma abdicação gloriosa. Seria preciso que ela tivesse sido educada exatamente como um rapaz477 para poder superar facilmente onarcisismo da adolescência: mas ela perpetua em sua vida de adulta esse culto do eu para o qual toda a sua mocidade a inclinou; faz de seus êxitosprofissionais méritos com que enriquece sua imagem; tem necessidade de que um olhar vindo de cima revele e consagre seu valor. Mesmo sendo severacom os homens que avalia cotidianamente, não deixa de venerar o Homem e, se o encontra, mostra-se disposta a cair a seus pés. Fazer-se justificar porum deus, é mais fácil do que justificar-se por seu próprio esforço; o mundo incita-a a acreditar na possibilidade de uma salvação dada: ela escolheacreditar nisso. Por vezes renuncia inteiramente a sua autonomia, não passa de uma amorosa; o mais das vezes tenta uma conciliação; mas o amoridólatra, o amor-abdicação é devastador: ocupa todos os pensamentos, todos os instantes, é obcecado, tirânico. Em caso de dissabores profissionais, amulher busca apaixonadamente um refúgio no amor: seus fracassos traduzem-se por cenas e exigências que o amante é quem paga. Mas as penas doamor estão longe de contribuir para que redobre seu zelo profissional: geralmente, ela se irrita, ao contrário, com o gênero de vida que lhe interdita overdadeiro caminho do grande amor. Uma mulher que trabalhava há dez anos numa revista política dirigida por mulheres, dizia-me que na redação sefalava raramente de política e sem cessar de amor: uma queixava-se de que só a amavam pelo seu corpo, desprezando-lhe a bela inteligência; outragemia porque só lhe apreciavam o espírito, sem nunca se interessarem por seus encantos carnais. Aqui também, para que uma mulher pudesse seramorosa à maneira de um homem, isto é, sem pôr em causa seu próprio ser, em liberdade, seria preciso que se pensasse sua igual, que o fosseconcretamente. Seria preciso que se empenhasse com a mesma decisão em seus empreendimentos, o que, como vamos ver, não é ainda frequente.Há uma função femi nina que atualmente é quase impossível assumir com toda liberdade, é a da maternidade; na Inglaterra, na América do Norte, amulher pode pelo menos recusá-la à vontade, graças às práticas do controle de natalidade; vimos que na França ela é frequentemente acuada a abortospenosos e caros; vê-se muitas vezes com um filho que não queria e arruína sua vida profissional. Se esse encargo é pesado, é porque, inversamente, oscostumes não autorizam a mulher a procriar quando lhe apetece: a mãe solteira escandaliza e, para o filho, um nascimento ilegítimo é um graveproblema; é raro que se possa tornar-se mãe sem aceitar os grilhões do casamento ou sem decair. Se a ideia da inseminação artificial interessa tanto asmulheres, não é porque desejem evitar o ato sexual: é porque esperam que a maternidade livre venha a ser enfim admitida pela sociedade. Cumpreacrescentar que, por falta de creches, de jardins de infância convenientemente organizados, basta um filho para paralisar inteiramente a atividade damulher; ela só pode continuar a trabalhar abandonando a criança aos pais, a amigos ou a criados. Tem que escolher entre a esterilidade, muitas vezessentida como uma dolorosa frustração, e encargos dificilmente compatíveis com o exercício de uma carreira.Assim, a mulher independente está hoje dividida entre seus interesses profissionais e as preocupações de sua vocação sexual; tem dificuldade emencontrar seu equilíbrio; se o assegura é à custa de concessões, de sacrifícios, de acrobacias que exigem dela uma perpétua tensão. Aí, muito mais doque nos dados fisiológicos é que cabe procurar a razão do nervosismo, da fragilidade que muitas vezes se observam nela. É difícil afirmar em quemedida a constituição física da mulher representa em si um handicap. Entre outras coisas, perguntou-se muito tempo qual seria o obstáculo criado pelamenstruação. As mulheres que se tornaram conhecidas por trabalhos ou ações pareciam dar-lhe pouca importância: terão alcançado seu êxitoprecisamente por causa da benignidade de suas perturbações mensais? Pode-se perguntar se não foi, inversamente, a escolha de uma vida ativa eambiciosa que lhes conferiu esse privilégio: pois o interesse que a mulher presta a seus incômodos exaspera-os; as esportistas, as mulheres de açãosofrem menos do que as outras, porque superam seus sofrimentos. Estas também têm seguramente causas orgânicas e vi mulheres das mais enérgicaspassarem 24 horas cada mês de cama às voltas com impi edosas torturas; mas seus empreendimentos nunca foram sustados. Estou convencida de quea maior parte dos incômodos e doenças que atingem as mulheres tem causas psicológicas: foi o que me disseram aliás certos ginecologistas. É porcausa da tensão moral de que falei, por causa de todas as tarefas que assumem, das contradições em meio às quais se debatem, que as mulheres estãosem cessar estafadas, no limite de suas forças; isto não significa que seus males sejam imaginários: são reais e devoradores como a situação queexprimem. Mas a situação não depende do corpo, este é que depende dela. Assim, a saúde da mulher não prejudicará seu trabalho, quando atrabalhadora tiver na sociedade o lugar que deve ter; ao contrário, o trabalho ajudará poderosamente seu equilíbrio físico, evitando-lhe que dele sepreocupe incessantemente.Quando se julgam as realizações profissionais da mulher e quando a partir delas se pretende antecipar-lhe o futuro, é preciso não perder de vista esseconjunto de fatores. É no seio de uma situação atormentada, escravizada ainda aos encargos tradicionalmente implicados na feminilidade, que ela seempenha numa carreira. As circunstâncias objetivas tampouco lhe são favoráveis. É sempre difícil ser um recém-chegado que tenta abrir caminhoatravés de uma sociedade hostil ou, pelo menos, desconfiada. Richard Wright mostrou, em Black Boy, a que ponto as ambições de um jovem negro nosEstados Unidos são barradas desde o início e que luta lhe cabe sustentar simplesmente para se erguer ao nível em que os problemas começam aapresentar-se aos brancos; os negros que vieram da África para a França conhecem também — em si mesmos como exteriormente — dificuldadesanálogas às que encontram as mulheres.É primeiramente no período de aprendizagem que a mulher se encontra em estado de inferioridade: já o indiquei a propósito da jovem, mas é precisovoltar ao assunto com maior precisão. Durante seus estudos, durante os primeiros anos, tão decisivos, de sua carreira, é raro que a mulher aproveitefrancamente suas possibilidades: muitas sofrerão mais tarde as desvantagens de um mau início. Com efeito, é entre 18 e trinta anos que os conflitos aosquais já me referi atingem o máximo de intensidade: e é o momento em que o futuro profissional se decide. Quer a mulher viva com os pais, ou sejacasada, raramente os que a cercam respeitarão seu esforço como respeitam o de um homem; vão lhe impor serviços, tarefas desagradáveis, vão lhecercear a liberdade; ela própria ainda se acha profundamente marcada por sua educação, respeitosa dos valores afirmados pelos mais velhos,perseguida por seus sonhos de criança e de adolescente; dificilmente concilia a herança de seu passado com o interesse de seu futuro. Por vezes recusasua feminilidade, hesita entre a castidade, a homossexualidade ou uma atitude provocante masculina, veste-se mal ou se fantasia: perde muito tempo eforças com desafios, comédias, cólera. Mais frequentemente quer, ao contrário, afirmá-la; é coquete, sai, namora, é amorosa, oscilando entre omasoquismo e a agressividade. De qualquer maneira, interroga-se, agita-se, dispersa-se. Pelo simples fato de se achar presa a preocupações estranhas,não se empenha totalmente na sua carreira: por isso tira menos proveito dela, é tentada a abandoná-la. Extremamente desmoralizante para a mulherque procura bastar-se, é a existência de outras mulheres pertencentes às mesmas categorias sociais, com uma situação inicial idêntica, com idênticaspossibilidades e que vivem como parasitas; o homem pode ter ressentimento contra os privilegiados, mas é solidário com sua classe; em conjunto, osque partem nas mesmas condições alcançam mais ou menos o mesmo nível de vida; ao passo que pela mediação do homem, mulheres de igual condiçãotêm destinos muito diversos. A amiga casada ou confortavelmente sustentada é uma tentação para a que deve assegurar sozinha o seu êxito; parece-lheque se condena arbitrariamente a enveredar pelos caminhos mais difíceis: diante de cada obstáculo ela se pergunta se não seria melhor escolher outrocaminho. “Quando penso que preciso arrancar tudo de meu cérebro!” dizia-me escandalizada uma estudantezinha sem fortuna. O homem obedece auma necessidade imperiosa: incessantemente deve a mulher renovar inteiramente sua decisão; ela não avança fixando à sua frente um objetivo, massim deixando que o olhar gire em derredor; por isso, tímido e incerto tem o andar. Tanto mais que lhe parece — como já o disse — que quanto maisavança mais renuncia a suas outras possibilidades. Dedicada à literatura, ou à ação, desagradará aos homens em geral; ou humilhará o marido, oamante, com um êxito demasiado brilhante. Não somente se aplica, então, em se mostrar elegante, frívola, como também freia seu entusiasmo. Aesperança de um dia se libertar da preocupação consigo mesma, o temor de dever renunciar, assumindo tal preocupação, a essa esperança, unem-separa impedi-la de se entregar, sem reticências, a seus estudos, a sua carreira.Na medida em que a mulher quer ser mulher, sua condição independente cria nela um complexo de inferioridade; inversamente, sua feminilidade leva-aa duvidar de suas possibilidades profissionais. É este um dos pontos mais importantes. Vimos que meninas de 14 anos declaravam numa pesquisa: “Osmeninos são melhores; trabalham mais facilmente.” A moça está convencida de que suas capacidades são limitadas. Pelo fato de pais e professoresadmitirem que o nível das meninas é inferior ao dos meninos, as alunas de bom grado o admitem igualmente; e efetivamente, apesar da identidade dosprogramas, sua cultura é, nos colégios, muito menos desenvolvida. Salvo algumas exceções, o conjunto de uma classe feminina de filosofia, porexemplo, situa-se nitidamente abaixo de uma classe de rapazes; numerosas alunas não pretendem continuar seus estudos, trabalham muitosuperficialmente e as outras sofrem da falta de emulação. Enquanto se trata de exames bastante fáceis, sua insuficiência não se faz muito sentir; masatingindo os concursos sérios, a estudante toma consciência de suas falhas; atribui-as, então, não à mediocridade de sua formação e sim à injustamaldição que pesa sobre sua feminilidade; resignando-se a essa desigualdade, ela a agrava; persuade-se de que suas possibilidades de êxito não podemresidir senão em sua paciência, sua aplicação; resolve economizar avaramente suas forças: é um cálculo lamentável. A atitude utilitária é nefasta,principalmente nos estudos e profissões que reclamam um pouco de invenção, de originalidade, pequenos achados. Conversas, leituras à margem dosprogramas, um passeio durante o qual o espírito devaneia livremente podem ser bem mais úteis à tradução de um texto grego do que a mornacompilação de densas sintaxes. Esmagada pelo respeito às autoridades e o peso da erudição, o olhar cerceado por antolhos, a estudante demasiadoconscienciosa mata em si o senso crítico e a própria inteligência. Sua obstinação metódica engendra tensão e tédio: nas classes em que as colegiaispreparam o concurso de Sèvres reina uma atmosfera sufocante que desanima todas as individualidades um pouco vivas. Criando para si mesma umaprisão, a candidata só almeja evadir-se; logo que fecha o livro pensa em mil outros assuntos. Não conhece esses momentos fecundos em que estudo edivertimentos se confundem, em que as aventuras do espírito adquirem um calor vivo. Exaurida pela ingratidão das tarefas, sente-se cada vez maisinapta para levá-las a cabo. Lembro-me de uma estudante de agrégation que dizia, no tempo em que havia em filosofia um concurso comum parahomens e mulheres: “Os rapazes podem consegui-lo em um ou dois anos; a nós são necessários pelo menos quatro.” E outra, a quem indicavam aleitura de uma obra sobre Kant, autor incluído no programa, dizia: “É um livro difícil demais; é um livro para normaliens!” Parecia imaginar que asmulheres podiam passar no concurso com desconto; isso significava — já antes de começar — abandonar efetivamente aos homens todas aspossibilidades de êxito.Em consequência desse derrotismo, a mulher acomoda-se facilmente com um êxito medíocre; não ousa visar ao alto. Abordando sua profissão com umaformação superficial, coloca, desde logo, um limite a suas ambições. Muitas vezes, o fato de ela própria ganhar sua vida já lhe parece um méritosuficiente; teria podido, como tantas outras, confiar seu destino a um homem; para continuar a querer sua independência, ela precisa de um esforço deque se orgulha, mas que a esgota. Parece-lhe ter feito bastante quando decide fazer alguma coisa. “Para uma mulher já não é tão mal”, pensa. Umamulher que exercia uma profissão insólita dizia: “Se fosse homem, eu me sentiria no dever de alcançar os primeiros lugares, mas sou a única mulher da


França que ocupa semelhante cargo; é suficiente para mim.” Há prudência nessa modéstia. A mulher tem medo de fracassar indo adiante. Cumpredizer que se sente perturbada, com razão, à ideia de que não confiam nela. De maneira geral, a casta superior é hostil aos arrivistas da classe inferior:brancos não irão consultar um médico negro, nem os homens uma doutora; e os indivíduos da classe inferior, imbuídos do sentimento de suainferioridade específica, e frequentemente cheios de rancor contra quem venceu o destino, preferirão voltar-se também para os senhores; as mulheresparticularmente, em sua maioria, cristalizadas em sua adoração pelo homem, buscam-no avidamente no médico, no advogado, no chefe de escritórioetc. Nem homens nem mulheres gostam de se achar sob as ordens de uma mulher. Seus superiores, ainda que a estimem, terão sempre por ela umpouco de condescendência; ser mulher é, senão um defeito, pelo menos uma singularidade. A mulher deve incessantemente conquistar uma confiançaque não lhe é de início concedida: no princípio ela é suspeita, precisa dar provas de si. Se tem valor, afirmam, ela as dará. Mas o valor não é umaessência dada: é o resultado de um desenvolvimento feliz. Sentir pesar sobre si um preconceito desfavorável só muito raramente ajuda a vencê-lo. Ocomplexo de inferioridade inicial acarreta, como é geralmente o caso, uma reação de defesa que é uma afetação exagerada de autoridade. A maiorparte das médicas, por exemplo, tem-na demasiado ou pouco demais. Se permanecem naturais, não intimidam, porque o conjunto de sua vida as incitaantes a seduzir do que a mandar; o doente que gosta de ser dominado ficará desilud ido com conselhos dados com simplicidade; consciente do fato, adoutora arvora uma voz grave e um tom seco; mas não possui, então, a afável bonomia que seduz no médico seguro de si. O homem tem o hábito de seimpor; seus clientes acreditam em sua competência; por ser natural, impressiona sempre. A mulher não inspira o mesmo sentimento de segurança;torna-se afetada, exagera, faz demais. Nos negócios, na administração, mostra-se escrupulosa, minuciosa, facilmente agressiva. Como em seus estudos,carece de desenvoltura, de imaginação, de audácia. Crispa-se para vencer. Sua ação é uma sequência de desafios e de afirmações abstratas de simesma. É esse o maior defeito que engendra a falta de segurança: o sujeito não pode esquecer de si mesmo. Não visa generosamente a um fim: procuradar as provas de valor que dele exigem. Lançando-se ousadamente para os fins, o indivíduo arrisca-se a decepções; mas alcança também resultadosinesperados; a prudência condena à mediocridade. Encontra-se raramente na mulher um gosto pela aventura, pela experiência gratuita, umacuriosidade desinteressada; ela procura “fazer carreira” como outros constroem uma felicidade; permanece dominada, investida pelo universomasculino, não tem a audácia de ultrapassar seus limites, não se perde com paixão em seus projetos; considera ainda sua vida como umempreendimento imanente: não visa a um objeto e sim, através de um objeto, ao seu êxito subjetivo. É essa uma atitude muito impressionante, entreoutras, nas norte-americanas; agrada-lhe ter um job e provar a si mesmas que são capazes de executá-lo corretamente: mas não se apaixonam peloconteúdo de suas tarefas. Consequentemente, a mulher tem tendência para valorizar demasiado pequenos fracassos e êxitos modestos;intermitentemente enche-se de vaidade ou desanima; quando o êxito é esperado, a pessoa acolhe-o com simplicidade, mas ele torna-se um triunfoembriagante se ela duvida obtê-lo; nisto está a desculpa das mulheres que se enchem de importância e se enfeitam com ostentação com suas maisinsignificantes realizações. Olham incessantemente para trás a fim de medir o caminho percorrido: isto destrói-lhes o entusiasmo. Por esse meio,poderão realizar carreiras honrosas mas não grandes ações. É preciso acrescentar que muitos homens só sabem igualmente construir destinosmedíocres. É somente em relação aos melhores dentre eles — salvo raras exceções — que a mulher se apresenta a nós como ainda a reboque. As razõesque dei explicam-no bastante e não hipotecam em nada o futuro. O que falta essencialmente à mulher de hoje, para fazer grandes coisas, é oesquecimento de si: para se esquecer é preciso primeiramente que o indivíduo esteja solidamente certo, desde logo, de que se encontrou. Recém-chegada ao mundo dos homens, e malsustentada por eles, a mulher está ainda ocupada em se encontrar.Há uma categoria de mulheres a que estas observações não se aplicam pelo fato de que, longe de lhe prejudicar a feminilidade, sua carreira a fortalece;trata-se da categoria das mulheres que procuram superar pela expressão artística o próprio dado que constituem: atrizes, dançarinas, cantoras.Durante três séculos, foram elas, por assim dizer, as únicas que tiveram uma independência concreta no seio da sociedade e nesta ainda ocupamatualmente um lugar privilegiado. Outrora as artistas eram amaldiçoadas pela Igreja; essa severidade exagerada sempre lhes conferiu uma grandeliberdade de costumes; beiram a galanteria, e como as cortesãs, passam grande parte de seus dias na companhia dos homens; mas, ganhando a vidapor seu próprio esforço, encontrando no trabalho um sentido para sua existência, escapam a seu jugo. A grande vantagem de que gozam está em queseus êxitos profissionais contribuem — como no caso dos homens — para sua valorização sexual; realizando-se como seres humanos, realizam-se comomulheres: não são dolorosamente atormentadas por aspirações contraditórias; ao contrário, encontram em sua profissão uma justificação de seunarcisismo: toalete, cuidar da beleza, encantar, fazem parte de seus deveres profissionais. Para uma mulher apaixonada por sua imagem, é uma grandesatisfação fazer alguma coisa exibindo simplesmente o que é; e essa exibição reclama ao mesmo tempo bastante artifício e estudo para se apresentar,na expressão de Georgette Leblanc, como um sucedâneo da ação. Uma grande atriz desejará mais alto ainda: ultrapassará o dado pela maneira pelaqual o exprime, será verdadeiramente uma artista, um criador que dá sentido à sua vida emprestando significação ao mundo.Mas esses raros privilégios também escondem perigos: em vez de integrar em sua vida artística suas complacências narcisistas e a liberdade sexualque lhe é concedida, a atriz mergulha muitas vezes no culto de si ou na galanteria; já falei dessas “pseudoartistas” que procuram tão somente “criar umnome” no cinema ou no teatro, nome que representa um capital a ser explorado nos braços masculinos; as comodidades de um apoio viril são muitotentadoras, comparadas com os riscos de uma carreira e a severidade que implica todo verdadeiro trabalho. O desejo de um destino feminino —marido, lar, filhos — e o encantamento do amor nem sempre se conciliam com a vontade de vencer. Mas, principalmente, a admiração que experimentapor seu eu limita em muitos casos o talento da atriz; ela se ilude acerca do valor de sua simples presença, a ponto de um trabalho sério lhe parecerinútil; faz questão, antes de tudo, de pôr em evidência sua própria figura e a esse cabotinismo sacrifica o personagem que interpreta; não tem, el atampouco, a generosidade de se esquecer, o que lhe tira a possibilidade de se superar: raras são as Rachel, as Duse que vencem esse obstáculo e fazemde sua pessoa o instrumento de sua arte, em vez de ver na arte um servidor de seu eu. Em sua vida privada, entretanto, a cabotina exagerará todos osseus defeitos narcisistas: se mostrará vaidosa, suscetível, artista, considerará o mundo inteiro um palco. Hoje as artes de expressão não são as únicas que se propõem às mulheres; muitas delas tentam atividades criadoras. A situação da mulher predispõe-na a procurar uma salvação na literatura e na arte. Vivendo à margem do mundo masculino, não o apreende em sua figura universal e sim através deuma visão singular; ele é para ela, não um conjunto de utensílios e conceitos e sim uma fonte de sensações e emoções; ela se interessa pelas qualidadesdas coisas no que têm de gratuito e de secreto; adotando uma atitude de negação, de recusa, não mergulha no real: protesta contra ele com palavras;busca, através da Natureza, a imagem de sua alma, entrega-se a devaneios, quer atingir seu ser; está destinada ao fracasso; só o pode recuperar naregião do imaginário. Para não deixar afundar no vazio uma vida interior que não serve para nada, para se afirmar contra o dado que suporta comrevolta, para criar um mundo diferente desse em que não consegue alcançar-se, ela tem necessidade de se exprimir. Por isso é sabido que é loquaz eescrevinhadora; expande-se em conversas, cartas, diários íntimos. Basta que tenha ambição e ei-la redigindo memórias, transpondo sua biografia paraum romance, exprimindo seus sentimentos em poemas. Goza de amplos lazeres que favorecem tais atividades.Mas essas mesmas circunstâncias que orientam a mulher para a criação constituem também obstáculos que ela será constantemente incapaz desuperar. Quando se decide a pintar ou a escrever unicamente com o fito de encher o vazio de seus dias, quadros e ensaios serão considerados como“trabalhos de senhora”; não lhes consagrará nem mais tempo nem mais cuidado, e terão mais ou menos o mesmo valor. É muitas vezes no momento damenopausa que a mulher, para compensar as falhas de sua existência, se volta para o pincel ou para a pena: é tarde demais; carecendo de umaformação séria, não passará nunca de amadora. Mesmo se começa bastante cedo, é raro que encare a arte como um trabalho sério; habituada ao ócio,nunca tendo sentido na vida a austera necessidade de uma disciplina, não será capaz de um esforço contínuo e perseverante, não se empenhará emadquirir uma sólida técnica; não lhe apetecem as tentativas ingratas, solitárias, do trabalho que não se mostra, que cumpre destruir cem vezes erecomeçar; e como, desde a infância, ensinando-lhe a agradar ensinaram-lhe a trapacear, ela espera resolver o assunto com alguns ardis. É o queconfessa Maria Bashkirtseff: “Sim, não me esforço por pintar. Observei-me hoje. Trapaceio...” De bom grado a mulher brinca de trabalhar, mas nãotrabalha; acreditando nas virtudes mágicas da passividade, confunde conjuras e atos, gestos simbólicos e condutas eficientes; fantasia-se de aluna deBelas-Artes, arma-se com seu arsenal de pincéis; postada diante do cavalete, seu olhar vai da tela branca ao espelho; mas o ramalhete de flores, acompoteira de maçãs, não se inscrevem sozinhos na tela. Sentada diante de sua escrivaninha, ruminando vagas histórias, a mulher outorga-se um álibitranquilo, imaginando que é escritora: mas é preciso chegar a traçar sinais na folha branca, é preciso que tenham um sentido para os outros. Então,descobre-se a impostura. Para agradar basta criar miragens, mas uma obra de arte não é uma miragem, é um objeto sólido; para construí-la cumpreconhecer seu ofício. Não é somente graças a seus dons ou a seu temperamento que Colette se tornou uma grande escritora; sua pena foi muitas vezesseu ganha-pão e ela exigiu dessa pena um trabalho cuidadoso, como um bom artesão exige de sua ferramenta: de Claudine a Naissance du jour, aamadora tornou-se profissional: o caminho percorrido demonstra sobejamente os benefícios de um aprendizado severo. Em sua maioria, entretanto, asmulheres não compreendem os problemas que apresenta seu desejo de comunicação: e é o que explica em grande parte sua preguiça. Elas sempre seconsideraram como dadas; acreditam que seus méritos vêm de uma graça que as habita e não imaginam que o valor possa ser conquistado; paraseduzir, sabem apenas manifestar-se: seu encanto age ou não, elas não têm nenhum domínio sobre seu êxito ou seu fracasso; supõem por isso, de modoanálogo, que para se exprimir basta a pessoa mostrar o que é; em vez de elaborar uma obra mediante um trabalho refletido, confiam em suaespontaneidade; escrever ou sorrir é para elas a mesma coisa: tentam a sorte, o êxito virá ou não. Seguras de si, confiam em que o livro ou o quadro sefará sem esforço; tímidas, a menor crítica as desanima; ignoram que o erro pode abrir o caminho do progresso, encaram-no como uma catástrofeirreparável tal qual um defeito físico. Eis por que se mostram de uma suscetibilidade que lhes é nefasta: só reconhecem seus erros com irritação edesânimo, em lugar de tirar deles lições fecundas. Infelizmente a espontaneidade não é uma conduta tão simples como parece: o paradoxo do lugar-comum — como o explica Paulhan em Fleurs de Tarbes — está em que se confunde muitas vezes com a tradução imediata da impressão subjetiva; demodo que, no momento em que a mulher, expressando, sem levar em consideração outrem, a imagem que nela se forma, se acredita a mais singular,não faz senão reinventar um clichê banal; se lhe dizem isto, ela se espanta, fica despeitada e larga a pena; não percebe que o público lê com os olhos eo pensamento dele é que um epíteto novo pode despertar em sua memória muitas recordações degastadas; é por certo um dom precioso saber pescarem si, para trazê-las à tona da linguagem, impressões vivas; admira-se em Colette uma espontaneidade que não se encontra em nenhum escritormasculino. Mas — embora os dois termos pareçam contraditórios — trata-se nela de uma espontaneidade refletida: ela recusa certas soluções para sóaceitar outras, de caso pensado; o amador — em vez de utilizar as palavras como uma relação interindividual, um apelo ao outro — nelas vê a revelaçãodireta de sua sensibilidade; parece-lhe que escolher, rasurar, é repudiar uma parte de si; nada quer sacrificar de si porque se compraz no que é e aomesmo tempo porque não espera tornar-se outro. Sua vaidade estéril vem de que ama a si mesma sem ousar construir-se.


Por isso é que da legião de mulheres que tentam bulir com as artes e as letras, bem poucas perseveram; mesmo as que superam esse primeiroobstáculo permanecerão muitas vezes divididas entre seu narcisismo e um complexo de inferioridade. Não saber esquecer de si mesma é um defeitoque lhes pesará mais fortemente do que em qualquer outra carreira; se seu objetivo essencial é uma abstrata afirmação de si, a satisfação formal doêxito, não se entregarão à contemplação do mundo: serão incapazes de criá-lo de novo. Maria Bashkirtseff resolveu pintar porque queria tornar-secélebre; a obsessão da glória interpõe-se entre a realidade e ela; na verdade, não gosta de pintar: a arte é apenas um meio; não são seus sonhosambiciosos e vazios que lhe desvendarão o sentido de uma cor ou de um rosto. Em lugar de se entregar generosamente à obra que empreende, amulher, muito frequentemente, considera-a um simples ornamento de sua vida; o livro e o quadro não passam de um intermediário inessencial,permitindo-lhe exibir publicamente esta realidade essencial: sua própria pessoa. Na verdade, é sua pessoa o principal — por vezes o único — assuntoque a interessa: Mme Vigée Lebrun não se cansa de fixar na tela sua sorridente maternidade. Mesmo falando de temas gerais, a mulher que escreveainda falará de si: não podemos ler certas crônicas teatrais sem ficarmos informados da estatura e da corpulência do autor, da cor de seus cabelos, dasparticularidades de seu caráter. Sem dúvida o eu nem sempre é odioso. Poucos livros são mais apaixonantes do que certas confissões: mas é precisoque sejam sinceras e que o autor tenha alguma coisa a confessar. O narcisismo da mulher empobrece-a, ao invés de enriquecê-la: à força de não fazeroutra coisa senão contemplar-se, ela se aniquila; até o amor que dedica a si mesma se estereotipa: ela não revela em seus escritos sua experiênciaautêntica e sim um ídolo imaginário construído com clichês. Não caberia censurá-la por se projetar em seus romances, como o fizeram BenjaminConstant, Stendhal; mas a desgraça está em que muitas vezes ela vê sua história como uma fantasia tola; a jovem mascara com grande reforço defantasia a realidade que a assusta pela sua crueza: é pena, que uma vez adulta ainda envolva o mundo, seus personagens e a si mesma em brumaspoéticas. Quando sob essa fantasia a realidade é vislumbrada, obtêm-se, por vezes, resultados encantadores; mas também, ao lado de Poussière ou deLa Nymphe au coeur fidèle, quantos romances de evasão insossos e soporíficos!É natural que a mulher tente fugir deste mundo, em que frequentemente se sente menosprezada e incompreendida; o lamentável é que não ouse entãoos voos audaciosos de um Gérard de Nerval, de um Poe. Há muitas razões que desculpam sua timidez. Agradar é sua maior preocupação; e muitasvezes ela já tem medo, pelo simples fato de escrever, de desagradar como mulher: a palavra bas-bleu,478 embora um tanto gasta, desperta aindaressonâncias desagradáveis; ela não tem coragem de desagradar, também como escritora. O escritor original enquanto não morre é sempreescandaloso; a novidade inquieta e indispõe; a mulher ainda se acha espantada e lisonjeada por ser admitida no mundo do pensamento, da arte, que éum mundo masculino: nele mantém-se bem-comportada; não ousa perturbar, explorar, explodir; parece-lhe que deve fazer com que perdoem suaspretensões literárias por sua modéstia, seu bom gosto; aposta nos valores seguros do conformismo; introduz na literatura somente essa nota pessoalque se espera dela: lembra que é mulher com alguma graça, alguns requebros e preciosismos bem-escolhidos; assim é que sobressairá redigindo best-sellers; mas não se deve contar com ela para se aventurar por caminhos inéditos. Não porque as mulheres, em suas condutas, em seus sentimentos,careçam de originalidade: algumas há tão singulares que cumpre encerrá-las; no conjunto, muitas delas são mais barrocas, mais excêntricas do que oshomens, cujas disciplinas recusam. Mas é em sua vida, sua correspondência, sua conversa que revelam seu gênio estranho; se tentam escrever, sentem-se esmagadas pelo universo da cultura, por ser um universo de homens; não fazem senão balbuciar. Inversamente, a mulher que escolhe raciocinar,exprimir-se segundo as técnicas masculinas, fará questão de abafar uma singularidade de que desconfia; como a estudante, será facilmente aplicada epedante; imitará a seriedade, o vigor viril. Poderá tornar-se uma excelente teórica, poderá adquirir um sólido talento; mas terá imposto a si mesma orepúdio de tudo o que nela havia de “diferente”. Há mulheres loucas e mulheres de talento: nenhuma tem essa loucura no talento, que chamam gênio.Foi essa modéstia sensata que antes de tudo definiu até agora os limites do talento feminino. Muitas mulheres frustraram — e o fazem cada vez mais —os ardis do narcisismo e do falso maravilhoso, mas nenhuma desprezou toda prudência para tentar emergir além do mundo dado. Há primeiramente,bem entendido, numerosas mulheres que aceitam a própria sociedade tal qual é; são, por excelência, as que celebram a burguesia, porquantorepresentam, nessa classe ameaçada, o elemento mais conservador; com adjetivos escolhidos, evocam os requintes de uma civilização dita da“qualidade”; exaltam o ideal burguês da felicidade e fantasiam com as cores da poesia os interesses de sua classe; orquestram a mistificação destinadaa persuadir as mulheres a “ficarem mulheres”: casas velhas, parques e hortas, avós pitorescas, crianças espertas, lixívia, geleias, festas familiares,toaletes, salões, bailes, esposas dolorosas mas exemplares, beleza da dedicação e do sacrifício, pequenas penas e grandes alegrias do amor conjugal,sonhos de mocidade, resignação madura, todos esses temas foram explorados até o fim pelas romancistas da Inglaterra, da França, dos Estados Unidos,do Canadá e da Escandinávia; com isso ganharam glória e dinheiro, mas não enriqueceram por certo nossa visão do mundo. Muito mais interessantessão as revoltadas que acusaram essa sociedade injusta; uma literatura de reivindicação pode engendrar obras fortes e sinceras; George Eliot extraiu desua revolta uma visão ao mesmo tempo minuciosa e dramática da Inglaterra vitoriana; entretanto, como Virgínia Woolf o observa, Jane Austen, as irmãsBrontë, George Eliot tiveram de despender negativamente tanta energia, para libertar-se das pressões exteriores, que chegam algo ofegantes a esseponto de onde partem os escritores masculinos de grande envergadura; não lhes sobram mais forças suficientes para aproveitarem sua vitória eromperem todas as amarras: nelas não se encontra, por exemplo, a desenvoltura de um Stendhal, nem sua tranquila sinceridade. Não tiveramtampouco a riqueza de experiência de um Dostoiewsky, de um Tolstoi: eis por que o belo livro que é Middlemarch não se iguala a Guerra e paz; O morrodos ventos uivantes apesar de sua grandeza, não tem o alcance de Os irmãos Karamazov. Hoje, as mulheres já têm menos dificuldades em se afirmar;mas não superaram ainda inteiramente a especificação milenar que as confina em sua feminilidade. A lucidez, por exemplo, é uma conquista de que seorgulham com razão, mas com que se satisfazem um pouco depressa demais. O fato é que a mulher tradicional é uma consciência mistificada e uminstrumento de mistificação; tenta dissimular a si mesma sua dependência, o que é uma maneira de nela consentir; denunciar essa dependência já éuma libertação; contra as humilhações, contra a vergonha, o cinismo é uma defesa: é o esboço de uma assunção. Querendo-se lúcidas, as escritorasprestam o maior serviço à causa da mulher; mas — geralmente sem o perceber — permanecem demasiado apegadas a servir essa causa para adotarperante o universo essa atitude desinteressada que abre os mais vastos horizontes. Acreditam ter feito bastante quando afastam os véus de ilusão e dementiras: entretanto, essa audácia negativa deixa-nos ainda diante de um enigma, pois a própria verdade é ambiguidade, abismo, mistério: depois delhe ter indicado a presença, seria necessário pensá-la, recriá-la. Não se iludir já é alguma coisa, mas é a partir daí que tudo começa; a mulher esgotasua coragem dissipando miragens e detém-se assustada no limiar da realidade. Eis por que há, por exemplo, autobiografias femininas que são sincerase atraentes; mas nenhuma se pode comparar a Confessions ou a Souvenirs d’egotisme. Estamos ainda muito preocupadas em ver com clareza paraprocurar outras trevas além dessa claridade.“As mulheres não ultrapassam nunca o pretexto”, dizia-me um escritor. É assaz verdadeiro. Ainda muito encantadas por terem recebido a permissão deexplorar este mundo, fazem o inventário dele sem procurar descobrir-lhe o sentido. Onde por vezes elas brilham é na observação do que é dado: sãorepórteres notáveis; nenhum jornalista masculino sobrepujou os testemunhos de Andrée Viollis sobre a Indochina e a Índia. Elas sabem descreveratmosferas, personagens, indicar relações sutis entre estes, fazer-nos participar dos movimentos secretos de suas almas: Willa Cather, Edith Wharton,Dorothy Parker, Katherine Mansfield evocaram de maneira aguda e matizada indivíduos, climas e civilizações. É raro que consigam criar heróismasculinos tão convincentes quanto Heathcliff: no homem não apreendem, por assim dizer, senão o macho; mas descreveram, muitas vezes comfelicidade, sua vida interior, sua experiência, seu universo; apegadas à substância secreta dos objetos, fascinadas pela singularidade de suas própriassensações, elas entregam sua experiência ainda que nte através de adjetivos saborosos, de imagens carnais: seu vocabulário é, em geral, mais notáveldo que sua sintaxe, porque se interessam mais pelas coisas do que pelas relações destas entre si; não visam a uma elegância abstrata mas, emcompensação, suas palavras falam aos sentidos. Um dos domínios que exploraram com mais amor é o da Natureza; para a moça, para a mulher queainda não abdicou de tudo, a Natureza representa o que a própria mulher representa para o homem: ela mesma é sua negação, um reino e um lugar deexílio: ela é tudo sob a figura do outro. É falando das charnecas ou das hortas que a romancista nos revela mais intimamente sua experiência e seussonhos. Muitas há que encerram os milagres da seiva e das estações em vasos, em canteiros; outras, sem aprisionar plantas e bichos, tentam,entretanto, apropriar-se deles pelo amor atento que lhes dedicam: Colette, por exemplo, ou K. Mansfield. Mais raras são as que abordam a Natureza emsua liberdade inumana, que tentam decifrar-lhe as significações estranhas e que se perdem a fim de se unir a essa outra presença. Por esses caminhos,que Rousseau inventou, somente uma Emily Brontë, uma Virgínia Woolf e por vezes uma Mary Webb se aventuram. Com mais razão podemos contarnos dedos as mulheres que ultrapassaram o dado à procura de sua dimensão secreta: Emily Brontë interrogou a morte, V. Woolf a vida, e K. Mansfieldpor vezes — não muitas — a contingência cotidiana e o sofrimento. Nenhuma mulher escreveu o Processo, Moby Dick, Ulisses, ou Os sete pilares dasabedoria. Elas não contestam a condição humana porque mal começam a poder assumi-la integralmente. É o que explica que suas obras careçamgeralmente de ressonâncias metafísicas e também de humor negro; elas não põem o mundo entre parênteses, não lhe fazem perguntas, não lhedenunciam as contradições: levam-no a sério. O fato é, de resto, que, em sua maioria, os homens conhecem as mesmas limitações; é quando acomparamos com os raros artistas que merecem ser chamados “grandes” que a mulher se apresenta como medíocre. Não é um destino que a limita:pode-se compreender facilmente por que não lhe foi dado — por que não lhe será dado talvez durante muito tempo ainda — atingir os mais altos cimos.A arte, a literatura, a filosofia são tentativas de fundar de novo o mundo sobre uma liberdade humana: a do criador. É preciso, primeiramente, secolocar sem equívoco como uma liberdade, para alimentar tal pretensão. As restrições que a educação e os costumes impõem à mulher limitam seudomínio sobre o universo. Quando o combate para conquistar um lugar neste mundo é demasiado rude, não se pode pensar em dele sair; ora, é precisoprimeiramente emergir dele numa soberana solidão, se se quer tentar reapreendê-lo: o que falta primeiramente à mulher é fazer, na angústia e noorgulho, o aprendizado de seu desamparo e de sua transcendência. O que tenho vontade, escreve Maria Bashkirtseff, é de ter liberdade de passear sozinha, de ir e vir, de sentar nos bancos do Jardim das Tulherias. Eis a liberdade sem a qual não se pode tornar-se um verdadeiro artista. Acreditais que se aproveita o que se vê quando se está acompanhado ou quando, para ir ao Louvre, é preciso esperar o carro, a dama de companhia, a família!... Eis a liberdade que falta e sem a qual não se pode chegar seriamente a ser alguma coisa. O Pensamento se acorrenta em consequência desse embaraço estúpido e incessante... Isso basta para que as asas se fechem. É uma das grandes razões pelas quais não, há mulheres artistas. Com efeito, para tornar-se um criador não basta cultivar-se, isto é, integrar espetáculos e conhecimentos na vida; é preciso que a cultura seja


apreendida através do livre movimento de uma transcendência; é preciso que o espírito, com todas as suas riquezas, se projete num céu vazio que lhecabe povoar; mas se mil laços tênues o amarram à terra, desfaz-se o seu impulso. Hoje, sem dúvida, a jovem sai sozinha e pode passear pelas Tulherias;mas já disse quanto a rua lhe é hostil; por toda parte olhos e mãos a vigiam; se vagabundeia irrefletidamente, com o pensamento à solta, se acende umcigarro no terraço de um café, se vai só ao cinema, um incidente desagradável não tarda; é preciso que inspire respeito pela sua aparência, pela suamaneira de vestir-se: essa preocupação prega-a ao solo, encerra-a em si mesma. “As asas se fecham.” Com 18 anos, T. E. Lawrence realiza sozinho umagrande viagem de bicicleta através da França; não permitirão a uma moça lançar-se em semelhante aventura; menos ainda lhe será possível, como o fezLawrence um ano depois, aventurar-se a pé num país semideserto e perigoso. Entretanto, tais experiências têm um alcance incalculável; é então que,na embriaguez da liberdade e da descoberta, o indivíduo aprende a olhar a terra inteira como seu feudo. Já a mulher se acha inteiramente privada daslições da violência; disse a que ponto sua fraqueza física a inclina à passividade; quando um rapaz resolve uma luta a socos, sente que pode confiar emsi, no cuidado de si mesmo. Seria preciso pelo menos que, em compensação, a iniciativa do esporte, da aventura, o orgulho do obstáculo vencido fossempermitidos à jovem. Mas não. Ela pode sentir-se solitária no seio do mundo; nunca se ergue em face dele, única e soberana. Tudo a incita a deixar-seinvestir, dominar por existências alheias; e no amor, particularmente, ela se renega, ao invés de se afirmar. Neste sentido, tristeza ou desgraça físicasão muitas vezes provações fecundas: foi seu isolamento que permitiu a Emily Brontë escrever um livro forte e alucinado; em face da Natureza, damorte, do destino, não esperava socorro senão de si mesma. Rosa Luxemburgo era feia; nunca se viu tentada a absorver-se no culto de sua própriaimagem, a fazer-se objeto, presa e armadilha: desde sua mocidade foi int eiramente espírito e liberdade. Mesmo então é raro que a mulher assumaplenamente o angustiante diálogo com o mundo dado. As pressões que a cercam e toda a tradição que pesa sobre ela impedem que se sinta responsávelpelo universo: eis a razão profunda de sua mediocridade.Os homens que chamamos grandes são os que, de uma maneira ou de outra, puseram sobre os ombros o peso do mundo: saíram-se mais ou menos bemda tarefa, conseguiram recriá-lo ou soçobraram; mas primeiramente assumiram o enorme fardo. É o que uma mulher jamais fez, o que nenhuma pôdejamais fazer. Para encarar o universo como seu, para se julgar culpada de seus erros e vangloriar-se de seus progressos, é preciso pertencer à casta dosprivilegiados; é somente a esses, que lhe detêm os comandos, que cabe justificá-lo, modificando-o, pensando-o, desvendando-o; só eles podemreconhecer-se nele e tentar imprimir-lhe sua marca. É no homem e não na mulher que até aqui se pôde encarnar o Homem. Ora, os indivíduos que nosparecem exemplares, que condecoramos com o nome de gênio, são os que pretenderam jogar em sua existência singular a sorte de toda a humanidade.Nenhuma mulher se acreditou autorizada a tanto. Como Van Gogh poderia ter nascido mulher? Uma mulher não teria sido enviada em missão aoBorinage, não teria sentido a miséria dos homens como seu próprio crime, não teria procurado uma redenção; nunca teria, portanto, pintado osgirassóis de Van Gogh. Sem contar que o gênero de vida do pintor — a solidão de Arles, a frequentação dos cafés, dos bordéis, tudo o que alimentava aarte de Van Gogh alimentando-lhe a sensibilidade — lhe teria sido proibido. Uma mulher nunca poderia ter-se tornado Kafka: em suas dúvidas e suasinquitudes, não teria reconhecido a angústia do Homem expulso do paraíso. Não há por assim dizer senão santa Teresa que tenha vivido por sua conta,em um abandono total, a condição humana: vimos por quê. Situando-se além das hierarquias terrestres, como são João da Cruz, ela não sentia um tetoseguro sobre a cabeça. Era para ambos a mesma noite, os mesmos relâmpagos, em si o mesmo nada, em Deus a mesma plenitude. Quando finalmentefor assim possível a todo ser humano colocar seu orgulho além da diferenciação sexual, na glória difícil de sua livre existência, poderá a mulher — esomente então — confundir seus problemas, suas dúvidas, suas esperanças com os da humanidade; somente então ela poderá procurar desvendar todaa realidade, e não apenas sua pessoa, em sua vida e suas obras. Enquanto ainda tiver que lutar para se tornar um ser humano, não lhe é possível seruma criadora.Diga-se mais uma vez: para explicar suas limitações, é portanto sua situação que cabe invocar, e não uma essência misteriosa: o futuro permanecelargamente aberto. Sustentou-se à saciedade que as mulheres não possuíam “gênio criador”; é a tese que defende, entre outros, Mme Marthe Borély,antifeminista outrora famosa: mas diríamos que tentou fazer de seus livros a prova viva do ilogismo e da tolice feminina; e em verdade eles próprios secontestam. Aliás, a ideia de um “instinto” criador deve ser abandonada, como a do “eterno feminino” no velho armário das generalizações. Certosmisóginos afirmam um pouco mais concretamente que, sendo uma neurótica, a mulher nada pode criar de válido; mas são muitas vezes as mesmaspessoas que declaram que o gênio é uma neurose. Em todo caso, o exemplo de Proust mostra suficientemente que o desequilíbrio psicofísiológico nãosignifica nem impotência, nem mediocridade. Quanto ao argumento que se tira do exame da história, acabamos de ver o que se deve pensar. O fatohistórico não pode ser considerado como definindo uma verdade eterna; traduz apenas uma situação, que se manifesta precisamente como históricaporque está mudando. Como as mulheres poderiam jamais ter tido gênio, quando toda possibilidade de realizar uma obra genial — ou mesmo uma obrasimplesmente — lhe era recusada? A velha Europa atormentou outrora com seu desprezo os americanos bárbaros, que não possuíam artistas nemescritores: “Deixai-nos existir antes de nos pedir que justifiquemos nossa existência”, respondeu, em substância, Jefferson. Os negros dão as mesmasrespostas aos racistas que lhes censuram não terem produzido nem um Whitman nem um Melville. O proletariado francês não pode tampouco opornenhum nome aos de Racine ou de Mallarmé. A mulher livre está apenas nascendo; quando se tiver conquistado, talvez justifique a profecia deRimbaud: “Os poetas serão! Quando for abolida a servidão infinita da mulher, quando ela viver para ela e por ela, tendo-a libertado o homem — atéagora abominável — ela será também poeta! A mulher encontrará o desconhecido! Divergirão dos nossos seus mundos de ideias? Ela descobrirá coisasestranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas, nós as aceitaremos, nós as compreenderemos.”479 Não é certo que seus “mundos de ideias” sejamdiferentes dos mundos dos homens, posto que será assimilando-se a eles que ela se libertará; para saber em que medida ela permanecerá singular, emque medida tais singularidades terão importância, seria preciso aventurar-se a antecipações muito ousadas. O certo é que até aqui as possibilidades damulher foram sufocadas e perdidas para a humanidade e que já é tempo, em seu interesse e no de todos, de deixá-la enfim correr todos os riscos, tentara sorte.


Conclusão “Não, a mulher não é nosso irmão; pela preguiça e pela corrupção fizemos dela um ser à parte, desconhecido, tendo somente o sexo como arma, o que énão apenas a guerra perpétua mas ainda uma arma que não é de guerra leal — adorando ou odiando, mas não companheiro sincero, um ser que formalegião com espírito de corporação, de maçonaria — mas de desconfianças de eterno pequeno escravo.”Muitos homens subscreveriam ainda essas palavras de Jules Laforgue; muitos pensam que entre os dois sexos haverá sempre “briga e disputa” e jamaisa fraternidade será possível entre ambos. O fato é que nem os homens nem as mulheres se acham hoje satisfeitos uns com os outros. Mas a questão ésaber se há uma maldição original que os condena a se entredilacerar ou se os conflitos que os opõem exprimem apenas um momento transitório dahistória humana.Vimos que, a despeito das lendas, nenhum destino fisiológico impõe ao macho e à fêmea, como tais, uma eterna hostilidade; mesmo a famosa fêmea dolouva-a-deus só devora o macho por falta de outros alimentos e no interesse da espécie; a esta é que, de alto a baixo da escala animal, todos osindivíduos se acham subordinados. Aliás, a humanidade é coisa diferente de uma espécie: é um devir histórico; define-se pela maneira pela qual assumea facticidade natural. Em verdade, ainda que com a maior má-fé do mundo, é impossível descobrir uma rivalidade de ordem propriamente fisiológicaentre o macho e a fêmea humana. Por isso mesmo situam, de preferência, sua hostilidade no terreno intermediário entre a biologia e a psicologia que éo da psicanálise. A mulher, dizem, inveja o pênis do homem e deseja castrá-lo; mas o desejo infantil do pênis só assume importância na vida da mulheradulta se ela sente sua feminilidade como uma mutilação; e é então, por encarnar todos os privilégios da virilidade, que ela almeja apropriar-se doórgão masculino. Admite-se de bom grado que seu sonho de castração tem uma significação simbólica: ela quer, pensam, privar o homem de suatranscendência. Vimos que sua aspiração é muito mais ambígua: ela quer, de uma maneira contraditória, ter essa transcendência, o que leva a suporque ela a respeita e a nega ao mesmo tempo, que entende lançar-se nela e retê-la ao mesmo tempo em si. Isso quer dizer que o drama não se desenrolanum plano sexual; a sexualidade, de resto, nunca apareceu para nós como definindo um destino, como fornecendo em si a chave das condutas humanas,mas sim como exprimindo a totalidade de uma situação que contribui para definir. A luta dos sexos não se acha imediatamente implicada na anatomiado homem e da mulher. Em verdade, quando a evocam, tomam por dado que no céu intemporal das Ideias se trava uma batalha entre estas essênciasincertas: o Eterno feminino, o Eterno masculino. E não observam que esse combate titânico assume na terra duas formas inteiramente diferentes,correspondendo a momentos históricos também diferentes.A mulher confinada na imanência tenta reter também o homem nessa prisão; assim, esta se confundirá com o mundo e ela não mais sofrerá por seachar encarcerada: a mãe, a esposa, a amante são carcereiras; a sociedade codificada pelos homens decreta que a mulher é inferior: ela só pode aboliressa inferioridade destruindo a superioridade viril. Dedica-se, pois, a mutilar, a dominar o homem, contradizendo-o, negando sua verdade e seusvalores. Mas com isso apenas se defende; não foi nem uma essência imutável nem uma escolha condenável que a fadam à imanência, à inferioridade.Estas lhe foram impostas. Toda opressão cria um estado de guerra. Este caso não constitui uma exceção. O existente que é considerado comoinessencial não pode deixar de pretender restabelecer sua soberania.Hoje o combate assume outro aspecto; em vez de querer encerrar o homem numa masmorra, a mulher tenta evadir-se; não procura mais arrastá-lopara as regiões da imanência e sim emergir à luz da transcendência. É então a atitude dos homens que cria novo conflito: é com má vontade que ohomem libera a mulher. Agrada-lhe permanecer o sujeito soberano, o superior absoluto, o ser essencial; recusa-se a considerar concretamente acompanheira como sua igual; ela responde à sua desconfiança com uma atitude agressiva. Não se trata mais de uma guerra entre indivíduosencerrados cada qual em sua esfera: uma casta reivindicante lança-se ao assalto e vê seus esforços anulados pela casta privilegiada. São duastranscendêncías que se enfrentam; em lugar de se reconhecerem mutuamente, cada liberdade busca dominar a outra.Essa diferença de atitude marca-se no plano sexual como no plano espiritual; a mulher “feminina”, fazendo-se uma presa passiva, tenta reduzir tambémo homem à sua passividade carnal; esforça-se por pegá-lo na armadilha, acorrentá-lo pelo desejo que suscita, fazendo-se docilmente coisa; ao contrário,a mulher “emancipada” quer-se a si mesma ativa e recusa a passividade que o homem procura impor-lhe. Do mesmo modo, Elise e suas êmulas negamqualquer valor às atividades viris; colocam a carne acima do espírito, a contingência acima da liberdade, sua sabedoria rotineira acima da ousadiacriadora. Mas a mulher “moderna” aceita os valores masculinos: tem a pretensão de pensar, agir, trabalhar, criar da mesma maneira que os homens; emvez de procurar diminuí-los, afirma que se iguala a eles.Na medida em que se exprime em condutas concretas, essa reivi ndicação é legítima: a insolência dos homens é que é então censurável. Mas é precisodizer, para desculpá-los, que as mulheres de bom grado embaralham as cartas. Uma Mabel Dodge pretendia escravizar Lawrence pelos encantos de suafeminilidade, a fim de o dominar em seguida espiritualmente; muitas mulheres, para demonstrar com seus êxitos que valem um homem, esforçam-sepor assegurar sexualmente um apoio masculino; jogam na banca e no ponto, reclamando ao mesmo tempo delicadezas antigas e estima nova, apostandoem sua própria magia e em seus direitos recentes. Compreende-se que o homem, irritado, se ponha na defensiva; mas ele também é dúplice quandoreclama que a mulher jogue lealmente o jogo, quando, com sua desconfiança e hostilidade, lhe recusa os trunfos indispensáveis. Em verdade, a luta nãopode assumir entre eles um aspecto claro, porquanto o próprio ser da mulher é opacidade; ela não se ergue em face do homem como um sujeito e simcomo um objeto paradoxalmente dotado de subjetividade; ela se assume a um tempo como si e como outro, o que é uma contradição acarretandoconsequências desconcertantes. Quando ela, ao mesmo tempo, transforma sua fraqueza e sua força numa arma, não se trata de um cálculopreestabelecido: espontaneamente ela procura sua salvação no caminho que lhe foi imposto, o da passividade, ao mesmo tempo que reivindicaativamente sua soberania; e, sem dúvida, esse processo não “é de guerra leal” mas lhe foi ditado pela situação ambígua que lhe determinaram. Ohomem, entretanto, quando a trata como uma pessoa liberta, indigna-se que ela permaneça para ele uma armadilha; se a lisonjeia e satisfaz enquantopresa, irrita-se com suas pretensões de autonomia; o que quer que faça, sente-se ludibriado, e ela considera-se lesada.A disputa durará enquanto os homens e as mulheres não se reconhecerem como semelhantes, isto é, enquanto se perpetuar a feminilidade como tal;quem, dentre eles, mais se obstina em a manter? A mulher que se liberta dessa feminilidade quer contudo conservar-lhe as prerrogativas; e o homemexige então que lhe assuma as limitações. “É mais fácil acusar um sexo do que desculpar o outro”, diz Montaigne. É inútil distribuir censuras e prêmios.Em verdade, se o círculo vicioso é tão difícil de desfazer, é porque os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si mesmos; entre doisadversários defrontando-se em sua pura liberdade um acordo poderia facilmente estabelecer-se: ainda mais porque essa guerra não beneficia ninguém.Mas a complexidade de tudo isso provém do fato de que cada campo é cúmplice do inimigo; a mulher persegue um sonho de renúncia, o homem umsonho de alienação; a inautenticidade não compensa: cada qual acusa o outro da desgraça que atraiu, cedendo às tentações da facilidade; o que ohomem e a mulher odeiam um no ou tro, é o fracasso retumbante de sua própria má-fé e de sua própria covardia.Vimos por que, originalmente, os homens escravizaram a mulher; a desvalorização da feminilidade foi uma etapa necessária da evolução humana; masela teria podido engendrar uma colaboração dos dois sexos. A opressão explica-se pela tendência do existente para fugir de si, alienando-se no outro,que ele oprime para tal fim; hoje essa tendência se encontra em cada homem singular: e a imensa maioria a ela cede; o marido procura-se em suaesposa, o amante em sua amante, sob a figura de uma estátua de pedra; ele procura nela o mito de sua virilidade, de sua soberania, de sua realidadeimediata. “Meu marido nunca vai ao cinema”, diz a mulher, e a incerta opinião masculina imprime-se no mármore da eternidade. Mas ele próprio éescravo de seu duplo; que trabalho para edificar uma imagem dentro da qual ele se encontre sempre em perigo! Ela funda-se apesar de tudo nacaprichosa liberdade das mulheres, que é preciso sem cessar tornar propícia; o homem é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante,superior; representa comédias, a fim de que lhe representem outras; é também agressivo, inquieto; tem hostilidade contra as mulheres porque temmedo delas, porque tem medo do personagem com quem se confunde. Quanto tempo e quantas forças desperdiça para liquidar, sublimar, transferircomplexos, falando das mulheres, seduzindo-as, temendo-as! Ele seria libertado, libertando-as. Mas é precisamente o que receia. Obstina-se nasmistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.Muitos homens têm consciência de que ela é mistificada. “Que desgraça ser mulher! Entretanto a desgraça, quando se é mulher, está, no fundo, em nãocompreender que é uma desgraça”, diz Kierkegaard.480 De há muito vem a sociedade se esforçando por mascarar essa desgraça. Suprimiram, por


exemplo, a tutela: deram “protetores” à mulher e se eles se atribuíram os direitos dos antigos tutores foi em benefício dela. Proibi-la de trabalhar,mantê-la no lar, é defendê-la contra si mesma, assegurar-lhe a felicidade. Vimos sob que véus poéticos dissimulavam-se os encargos monótonos que lheincumbem: casa, maternidade. Em troca de sua liberdade, presentearam-na com os tesouros falazes de sua “feminilidade”. Balzac descreveu muito bemessa manobra quando aconselhou ao homem que a tratasse como escrava, persuadindo-a de que é rainha. Menos cínicos, muitos homens esforçam-sepor se convencer a si mesmos de que ela é realmente uma privilegiada. Há sociólogos americanos que hoje ensinam seriamente a teoria do low-class-gain, isto é, dos “benefícios das castas inferiores”. Na França também se proclamou muitas vezes — embora de maneira menos científica — que osoperários tinham muita sorte por não serem obrigados a “representar”, e mais ainda os vagabundos, que podem vestir-se com trapos e dormir nascalçadas, prazeres inacessíveis ao conde de Beaumont e a esses pobres senhores de Wendel. Como os piolhentos despreocupados que coçamalegremente sua bicharada, como os negros joviais rindo ao serem chicoteados e os alegres árabes do Souss, que enterram os filhos mortos de fomecom o sorriso nos lábios, a mulher goza deste incomparável privilégio: a irresponsabilidade. Sem esforço, sem encargo, sem preocupação, tem elamanifestamente “a melhor parte”. O que é perturbador é que em virtude de uma perversidade obstinada — ligada sem dúvida ao pecado original —através dos séculos e dos países, as pessoas que têm a melhor parte gritam sempre a seus benfeitores: Basta, é demais! Me contentarei com a sua! Masos capitalistas magníficos, os colonos generosos, os machos arrogantes obstinam-se: Fiquem com a melhor parte, fiquem!O fato é que os homens encontram em sua companheira mais cumplicidade do que em geral o opressor encontra no oprimido; e disso tiram autoridadepara declarar com má-fé que ela quis o destino que lhe impuseram. Vimos que, em verdade, toda a educação dela conspira para barrar-lhe os caminhosda revolta e da aventura; a sociedade, no seu conjunto — a começar pelos seus pais respeitados —, mente-lhe exaltando o alto valor do amor, dadedicação, do dom de si e dissimulando-lhe que nem o amante, nem o marido, nem os filhos estarão dispostos a suportar-lhe o fardo incômodo. Elaaceita alegremente essas mentiras, porque elas a convidam a seguir o caminho em declive da facilidade: e nisto está o maior crime que cometem contraela. Desde a infância e ao longo da vida mimam-na, corrompem-na, designando-lhes como sua vocação essa renúncia que tenta todo existente sedentode sua liberdade; encorajando-se uma criança à preguiça, divertindo-a durante o dia inteiro, sem lhe dar a oportunidade de estudar, sem lhe mostrar autilidade disso, não se dirá a ela na idade adulta, que escolheu ser incapaz e ignorante: assim é que é educada a mulher, sem nunca lhe ensinarem anecessidade de assumir ela própria sua existência; de bom grado ela se submete a contar com a proteção, o amor, o auxílio, a direção de outrem; deixa-se fascinar pela esperança de poder, sem fazer nada, realizar o seu ser. Erra ao ceder à tentação: mas o homem está malcolocado para lhe censurarisso, porque ele próprio a tentou. Quando um conflito se verificar entre eles, cada qual encarará o outro como responsável pela situação. Ela ocensurará por tê-la criado: não me ensinaram a raciocinar, a ganhar a vida... Ele a censurará por tê-la aceito: não sabes nada, és uma incapaz... Cadasexo acredita justificar-se tomando a ofensiva: mas as culpas de um não inocentam o outro.Os numerosos conflitos que jogam os homens contra as mulheres vêm do fato de que nem uns nem outros assumem todas as consequências dessasituação que um propõe e outro suporta; essa noção incerta de “igualdade na desigualdade”, de que um se serve para mascarar seu despotismo e outrosua covardia, não resiste à experiência: em suas trocas, a mulher apela para a igualdade abstrata que lhe garantiram, e o homem para a desigualdadeconcreta que constata. Daí vem que em todas as ligações se perpetua um debate indefinido em torno do equívoco das palavras dar e tomar: ela sequeixa de dar tudo, ele protesta que ela lhe toma tudo. É preciso que a mulher compreenda que as trocas — é uma lei fundamental da economia política— se regulam segundo o valor que a mercadoria oferecida tem para o comprador e não para o vendedor: enganaram-na persuadindo-a de que tinha umvalor infinito; na verdade ela é para o homem uma distração apenas, um prazer, uma companhia, um bem inessencial; ele é o sentido, a justificação daexistência dela; a permuta não se faz portanto entre objetos da mesma qualidade; essa desigualdade vai marcar-se particularmente no fato de que otempo que passam juntos — e que parece falaciosamente o mesmo tempo — não tem o mesmo valor para os dois parceiros. Durante a noite que passacom a amante, o amante poderia fazer um trabalho útil à sua carreira, ver amigos, cultivar relações, distrair-se; para um homem normalmenteintegrado na sociedade, o tempo é uma riqueza positiva: dinheiro, reputação, prazer. Ao contrário, para a mulher ociosa, que se aborrece, é um fardode que só deseja desembaraçar-se, aliviar-se; desde que consiga matar algumas horas, tem um benefício: a presença do homem é puro proveito. Emmuitos casos, o que interessa mais claramente o homem numa ligação é o ganho sexual que dela obtém: a rigor, ele pode contentar-se com passar comsua amante apenas o tempo necessário para perpetrar o ato amoroso; mas — salvo exceção — o que ela almeja, no que lhe diz respeito é “gastar” todoesse excesso de tempo de que não sabe o que fazer: e — como o vendedor de batatas que só vende batatas se aceitam seus nabos — ela só cede o corpoao amante se ele aceita, além do corpo, horas de conversa e de passeio. Consegue-se estabelecer o equilíbrio se o preço do lote todo não se afigurademasiado elevado ao homem; isso depende, bem-entendido, da intensidade do desejo dele e da importância que têm a seus olhos as ocupações quesacrifica; mas se a mulher reclama — oferece — tempo demais, torna-se importuna, como o rio que sai de seu leito, e o homem preferirá nada ter dela ater demais. Ela modera então suas exigências; mas muitas vezes a balança se reequilibra à custa de uma dupla tensão: ela estima que o homem a temmuito barato; ele pensa que paga demasiado caro. Naturalmente esta exposição é algo humorística; entretanto — salvo nos casos de paixão ciumenta eexclusiva em que o homem quer a mulher em sua totalidade — esse conflito se acha indicado na ternura, no desejo e até no amor; o homem “temsempre mais que fazer” de seu tempo, ao passo que ela procura desvencilhar-se do seu; e ele não considera as horas que ela lhe dedica como um dom esim como um fardo. Geralmente ele consente em suportá-la, porque bem sabe que está do lado dos favorecidos, tem “a consciência pesada”; e, se temalguma boa vontade, tenta compensar a desigualdade das condições com generosidade; entretanto, ele encara como um mérito ter piedade e, noprimeiro choque, trata a mulher de ingrata, irrita-se: sou bom demais. Ela sente que se conduz como uma pedinchona, quando está convencida do altovalor de seus presentes, e com isso se humilha. É o que explica a crueldade de que a mulher muitas vezes se mostra capaz; tem a “consciência limpa”,porque se encontra do lado ruim; não se julga obrigada a nenhuma contemplação para com a casta privilegiada, pensa apenas em se defender; serámesmo muito feliz se tiver a oportunidade de manifestar seu rancor contra o amante que não a soube satisfazer: desde que não lhe dá bastante, é comprazer selvagem que ela retira tudo. Então o homem magoado descobre o valor global da ligação de que desdenhava a cada instante: está disposto atodas as promessas, ainda que seja para se julgar explorado quando as tiver de cumprir; acusa sua amante de chantagem; ela censura-lhe a avareza;ambos se consideram lesados. Aqui igualmente é inútil distribuir desculpas e censuras: nunca se pode criar justiça no seio da injustiça. Umadministrador colonial não tem nenhuma possibilidade de se portar corretamente com os indígenas, nem um general com seus soldados; a únicasolução consiste em não ser nem colono nem chefe; mas não há como um homem impedir a si mesmo de ser um homem. Ei-lo portanto culpado contrasua vontade e oprimido por essa falta que ele próprio não cometeu; de igual modo ela é vítima e megera a despeito de si mesma; por vezes ele serevolta, escolhe a crueldade, mas faz-se então cúmplice da injustiça e a falta torna-se realmente sua; por vezes deixa-se aniquilar, devorar pela suavítima reivindicante; mas então sente-se enganado; muitas vezes ele se atém a um compromisso que ao mesmo tempo o diminui e o põe pouco àvontade. Um homem de boa vontade será mais atormentado pela situação do que a própria mulher; em certo sentido, é sempre mais conveniente estardo lado dos vencidos; mas se ela também tem boa vontade, se é incapaz de se bastar a si mesma, se lhe repugna esmagar o homem com o peso de seudestino, ela se debate numa confusão inextricável. Encontram-se frequentemente, na vida cotidiana, esses casos que não comportam soluçãosatisfatória porque se definem por condições que não são satisfatórias: um homem que se vê forçado a sustentar, material e moralmente, uma mulherque não mais ama sente-se vítima; mas, se abandonasse sem recursos quem lhe dedicou toda a vida, ela seria vítima de maneira igualmente injusta. Omal não vem de uma perversidade individual — e a má-fé começa quando se atacam mutuamente — mas de uma situação contra a qual toda condutasingular é impotente. As mulheres são “colantes”, pesam, e com isso sofrem; isso porque têm a sorte de um parasita que chupa a vida de um organismoestranho; se a dotarem de um organismo autônomo, se elas puderem lutar contra o mundo e dele tirar sua subsistência, sua dependência será abolida:a do homem também. Uns e outros, sem dúvida, se encontrarão muito melhor.É fácil imaginar um mundo em que homens e mulheres seriam iguais, porquanto é exatamente o que prometera a revolução soviética: as mulheres,educadas e formadas exatamente como os homens, trabalhariam em condições idênticas e por salários idênticos;481 a liberdade erótica seria admitidapelos costumes, mas o ato sexual não seria mais considerado um “serviço” que se remunera; a mulher seria obrigada a assegurar-se outro ganha-pão; ocasamento repousaria em um compromisso livremente assumido e que os cônjuges poderiam anular quando o quisessem; a maternidade seria livre, istoé, autorizariam o controle de natalidade e o aborto, e em compensação dariam a todas as mães e a seus filhos exatamente os mesmos direitos, fossemou não casadas; as licenças por gravidez seriam pagas pela coletividade que assumiria o cuidado dos filhos, o que não quer dizer que estes seriamretirados dos pais e sim que não lhes seriam abandonados.Mas bastará mudar as leis, as instituições, os costumes, a opinião pública, todo o contexto social para que mulheres e homens se tornem realmentesemelhantes? “As mulheres serão sempre mulheres”, dizem os céticos; e outros videntes profetizam que, despojando-as de sua feminilidade, elas nãoconseguirão transformar-se em homens e se tornarão uns monstros. Isso é admitir que a mulher de hoje é uma criação da natureza; cumpre repetirmais uma vez que nada é natural na coletividade humana e que, entre outras coisas, a mulher é um produto elaborado pela civilização; a intervenção deoutrem em seu destino é original; se essa ação fosse dirigida de outro modo, levaria a outro resultado. A mulher não se define nem por seus hormôniosnem por misteriosos instintos e sim pela maneira por que reassume, através de consciências alheias, o seu corpo e sua relação com o mundo; o abismoque separa a adolescente do adolescente foi cavado de maneira acertada desde os primeiros anos da infância; não há como impedir mais tarde que amulher não seja o que foi feita e ela arrastará sempre esse passado atrás de si; pesando-se esse passado, compreende-se com clareza que seu destinonão se acha fixado na eternidade. Por certo não se deve crer que baste modificar-lhe a situação econômica para que a mulher se transforme: esse fatorfoi e permanece o fator primordial de sua evolução; mas enquanto não tiver acarretado as consequências morais, sociais, culturais etc. que anuncia eexige, a nova mulher não poderá surgir; atualmente ela não se realizou ainda em nenhum lugar, nem na União Soviética, nem na França ou nos EstadosUnidos e é por isso que a mulher de hoje se acha esquartejada entre o passado e o futuro; apresenta-se o mais das vezes como uma “verdadeiramulher” disfarçada de homem, e não se sente à vontade nem em seu corpo de mulher nem em sua vestimenta de homem. É preciso que mude de pele ecorte suas próprias roupas. Só poderia consegui-lo graças a uma evolução coletiva. Nenhum educador isolado pode fabricar hoje um “ser humanofêmea” que seja o homólogo exato do “ser humano macho”: educada como rapaz, a jovem sente-se excepcional e com isso sofre uma nova espécie deespecificação. Stendhal bem o compreendeu quando dizia: “É preciso plantar de uma só vez toda a floresta”. Mas se supormos, ao contrário, umasociedade em que a igualdade dos sexos seja concretamente realizada, essa igualdade se afirmará como nova em cada indivíduo.Se desde a primeira infância a menina fosse educada com as mesmas exigências, as mesmas honras, as mesmas severidades e as mesmas licenças queseus irmãos, participando dos mesmos estudos, dos mesmos jogos, prometida a um mesmo futuro, cercada de mulheres e de homens que se lheafigurassem iguais sem equívoco, o sentido do “complexo de castração” e do “complexo de Édipo” seria profundamente modificado. Assumindo, da


mesma maneira, que o pai, a responsabilidade material e moral do casal, a mãe gozaria do mesmo prestígio duradouro; a criança sentiria em torno de sium mundo andrógino e não um mundo masculino; ainda que mais efetivamente atraída pelo pai — o que não é seguro — seu amor por ele seriamatizado por uma vontade de emulação e não por um sentimento de impotência: ela não se orientaria para a passividade. Autorizada a provar seu valorno trabalho e no esporte, rivalizando ativamente com os meninos, a ausência do pênis — compensada pela promessa do filho — não bastaria paraengendrar um “complexo de inferioridade”; correlativamente, o menino não teria um “complexo de superioridade” se não lhe insuflassem isto e seestimasse as mulheres tanto quanto os homens.482 A menina não procuraria portanto compensações estéreis no narcisismo e no sonho, não se teria pordada, se interessaria pelo que faz, se empenharia sem reticência em seus empreendimentos. Disse quanto a puberdade seria mais fácil se ela asuperasse como o menino, em direção a um futuro livre de adulto; a menstruação só lhe inspira tamanho horror porque constitui uma queda brutal nafeminilidade; ela assumiria também muito mais tranquilamente seu jovem erotismo se não sentisse um desgosto apavorado pelo conjunto de seudestino; uma educação sexual coerente a ajudaria a sobrepujar a crise. E graças à educação mista, o mistério augusto do Homem não teriaoportunidade de surgir: seria destruído pela familiaridade quotidiana e as competições francas. As objeções que se opõem a este sistema implicamsempre o respeito aos tabus sexuais; mas é inútil pretender inibir na criança a curiosidade e o prazer; chega-se assim tão somente a criar recalques,obsessões, neuroses; o sentimentalismo exaltado, os fervores homossexuais, as paixões platônicas das adolescentes, com todo o seu cortejo de tolice ede dissipação, são muito mais nefastos do que alguns jogos infantis e algumas experiências precisas. O que seria principalmente proveitoso à jovem é ofato de que, não buscando um semideus no macho — mas apenas um colega, um amigo, um parceiro — não se veria instalada a não assumir ela própriasua existência; o erotismo, o amor teriam o caráter de uma livre superação e não o de uma renúncia; ela poderia vivê-los como uma relação de igualpara igual. Não se trata, bem-entendido, de suprimir com uma penada todas as dificuldades que a criança tem de vencer para se transformar emadulto; a educação mais inteligente, mais tolerante não a poderá dispensar de realizar sua própria experiência à sua própria custa; o que se pode pediré que não se acumulem gratuitamente obstáculos em seu caminho. Não cauterizar mais as meninas “viciosas” com ferro em brasa já é um progresso; apsicanálise instruiu um pouco os pais; entretanto as condições atuais em que se realizam a formação e a iniciação sexual da mulher são tão deploráveisque nenhuma das objeções que lhe opõem à ideia de uma modificação radical poderá ser válida. Não se trata de abolir nela as contingências e asmisérias da condição humana e sim de lhe dar os meios de as superar.A mulher não é vítima de nenhuma fatalidade misteriosa; as singularidades que a especificam tiram sua importância da significação de que serevestem; poderão ser superadas desde que as apreendam dentro de perspectivas novas; vimos que através de sua experiência erótica a mulher sente— e muitas vezes detesta — o domínio do homem: disso não se deve concluir que seus ovários a condenem a viver eternamente de joelhos diante dele. Aagressividade viril só se apresenta como um privilégio senhorial no seio de um sistema que por inteiro conspira em afirmar a soberania masculina; e amulher só se sente tão profundamente passiva no ato amoroso porque já então se pensa como tal. Reivindicando sua dignidade de ser humano, muitasmulheres entendem sua vida erótica a partir de uma tradição de escravidão: por isso parece-lhes humilhante deitarem-se embaixo do homem, serempor ele penetradas e elas se crispam na frigidez; mas se a realidade fosse diferente, o sentido que exprimem simbolicamente gestos e atitudesamorosos seria também: uma mulher que paga, que domina o amante, pode, por exemplo, sentir-se orgulhosa de sua arrogante ociosidade e considerarque escraviza o homem que se despende ativamente. Já existem casais sexualmente equilibrados em que as noções de vitória e derrota dão lugar a umaideia de troca. Em verdade, o homem é, como a mulher, uma carne, logo uma passividade, joguete de seus hormônios e da espécie, presa inquieta deseu desejo; e ela é, como ele, consentimento, doação voluntária, atividade em meio à sua febre carnal; vivem cada qual à sua maneira o estranhoequívoco da existência feita corpo. Nesses combates em que acreditam enfrentar-se mutuamente, é contra si que cada um luta, projetando no parceiroessa parte de si mesmo que repudia; em vez de viver a ambiguidade de sua condição, cada um se esforça por ter a honra dela e fazer com que o outrolhe suporte a abjeção. Se, entretanto, ambos a assumissem com lúcida modéstia, correlativa de um autêntico orgulho, se reconheceriam comosemelhantes e viveriam com amizade o drama erótico. O fato de ser um ser humano é infinitamente mais importante do que todas as singularidades quedistinguem os seres humanos; não é nunca o dado que confere superioridades: a “virtude”, como diziam os Antigos, define-se no nível do “que dependede nós”. Em ambos os sexos representa-se o mesmo drama da carne e do espírito, da finitude e da transcendência; ambos são corroídos pelo tempo,vigiados pela morte, têm uma mesma necessidade essencial do outro; podem tirar de sua liberdade a mesma glória; se soubessem apreciá-la não seriammais tentados a disputar-se privilégios falaciosos; e a fraternidade poderia então nascer entre ambos.Vão me dizer que todas estas considerações são bem utópicas, posto que seria necessário, “para refazer a mulher”, que a sociedade já a tivesse feitorealmente igual ao homem; os conservadores nunca deixaram, em todas as circunstâncias análogas, de denunciar este círculo vicioso: entretanto ahistória não para. Sem dúvida, se colocamos uma casta em estado de inferioridade, ela permanece inferior: mas a liberdade pode quebrar o círculo.Deixem os negros votar, eles se tornarão dignos do voto; deem responsabilidades à mulher, ela saberá assumi-las; o fato é que não se poderia esperardos opressores um movimento gratuito de generosidade; mas ora a revolta dos oprimidos, ora a própria evolução da casta privilegiada criam situaçõesnovas; por isso os homens foram levados, em seu próprio interesse, a emancipar parcialmente as mulheres: basta a estas prosseguirem em suaascensão e os êxitos que vêm obtendo incitam-nas a tanto; parece mais ou menos certo que atingirão dentro de um tempo mais ou menos longo aperfeita igualdade econômica e social, o que acarretará uma metamorfose interior.Em todo caso, objetarão alguns, se tal mundo é possível, não é desejável. Quando a mulher for “igual” a seu homem, a vida perderá seu “sal pungente”.Este argumento não é tampouco novo: os que têm interesse em perpetuar o presente vertem sempre lágrimas sobre o mirífico passado que vaidesaparecer sem conceder um sorriso ao jovem futuro. É verdade que, suprimindo os mercados de escravos, acabaram com as grandes plantações tãomagnificamente ornadas de azáleas e camélias, arruinaram toda a delicada civilização sulista; as velhas rendas juntaram-se, no sótão, aos timbres tãopuros dos castrados da Capela Sistina e há um certo “encanto” feminino que ameaça, ele também, desfazer-se em pó. Concordo que é ser um bárbaronão apreciar as flores raras, as rendas, a voz cristalina do eunuco e o encanto feminino. Quando se exibe, em todo o seu esplendor, a “mulherencantadora” é um objeto bem mais exaltante do que “as pinturas idiotas, ornatos de portas, cenários, telas de saltimbancos, tabuletas, iluminuraspopulares” que embeveciam Rimbaud; enfeitada com os mais modernos artifícios, trabalhada segundo as mais novas técnicas, ela chega do fundo dosséculos, de Tebas, de Minos, de Chichen Itza; e é também o totem plantado no coração do sertão africano; é um helicóptero e é um pássaro; e eis amaior maravilha: sob seus cabelos pintados o sussurro das folhagens faz-se pensamento e palavras escapam-lhe dos seios. Os homens estendem mãosávidas para o prodígio; mas logo que o pegam ele se dissipa; a esposa, a amante falam como todo mundo, com sua boca; suas palavras valemexatamente o que valem; seus seios também. Um milagre tão fugidio — e tão raro — merecerá que perpetuem uma situação nefasta para ambos ossexos? Pode-se apreciar a beleza das flores, o encanto das mulheres e apreciá-los pelo seu justo valor; se tais tesouros se pagam com sangue oudesgraça, é preciso saber sacrificá-los.O fato é que esse sacrifício parece aos homens singularmente pesado; poucos há que desejem do fundo do coração que a mulher acabe de se realizar;os que a desprezam não veem o que poderiam ganhar com isso, os que a adoram veem demasiado o que poderiam perder; e é verdade que a evoluçãoatual não ameaça apenas o encanto feminino: pondo-se a existir para si, a mulher abdicará a função de duplo e de mediadora que lhe outorga seu lugarprivilegiado no universo masculino; para o homem solicitado pelo silêncio da natureza e a presença exigente de outras liberdades, um ser que seja a umsó tempo seu semelhante e uma coisa passiva apresenta-se como um grande tesouro; a figura sob a qual ele percebe sua companheira pode bem sermítica, nem por isso as experiências de que ela é fonte ou pretexto são menos reais: e não há, por certo, outras mais preciosas, mais íntimas, maisardentes; não há como negar que a dependência, a inferioridade, a desgraça feminina lhes emprestam um caráter singular; seguramente a autonomiada mulher, embora poupe aos homens muitos aborrecimentos, lhes negará também muitas facilidades; seguramente certas maneiras de viver aaventura sexual serão perdidas no mundo de amanhã; mas isso não significa que o amor, a felicidade, a poesia, o sonho dele sejam banidos. Atentemospara o fato de que nossa falta de imaginação despovoa sempre o futuro; este não passa de uma abstração para nós; cada um de nós nele deplorasurdamente a ausência do que foi; mas a humanidade de amanhã irá vivê-lo em sua carne e em sua liberdade, ele será o seu presente e ela por sua vezo preferirá; entre os sexos surgirão novas relações carnais e afetivas de que não temos ideia: já apareceram entre homens e mulheres amizades,rivalidades, cumplicidades, camaradagens, castas ou sexuais, que os séculos passados não teriam sabido inventar. Entre outras coisas, nada me parecemais contestável do que o slogan que destina o mundo novo à uniformidade, logo ao tédio. Não vejo ausência de tédio neste mundo, nem nunca vi que aliberdade criasse a uniformidade. Primeiramente, haverá sempre certas diferenças entre o homem e a mulher; tendo seu erotismo, logo seu mundosexual, uma figura singular, não poderia deixar de engendrar nela uma sensualidade, uma sensibilidade singular: suas relações com seu corpo, o corpodo homem, o filho, nunca serão idênticas às que o homem mantém com seu corpo, o corpo feminino, o filho; os que tanto falam de “igualdade nadiferença” se mostrariam de má-fé em não admitir que possam existir diferenças na igualdade. Por outro lado, são as instituições que criam amonotonia: jovens e bonitas, as escravas do serralho são sempre as mesmas nos braços do sultão; o cristianismo deu ao erotismo seu sabor de pecado elenda, dotando de uma alma a fêmea do homem; restituindo-lhe sua singularidade soberana, não suprimirão o gosto patético das carícias amorosas. Éabsurdo pretender que a orgia, o vício, o êxtase, a paixão se tornariam impossíveis se o homem e a mulher fossem concretamente semelhantes; ascontradições que opõem a carne ao espírito, o instante, ao tempo, a vertigem da imanência ao apelo da transcendência, o absoluto do prazer ao nada doesquecimento não serão jamais suprimidos; na sexualidade, se materializarão sempre a tensão, o tormento, a alegria, o fracasso e o triunfo daexistência. Libertar a mulher é recusar encerrá-la nas relações que mantém com o homem, mas não as negar; ainda que ela se ponha para si, nãodeixará de existir também para ele: reconhecendo-se mutuamente como sujeito, cada um permanecerá entretanto um outro para o outro; areciprocidade de suas relações não suprimirá os milagres que engendra a divisão dos seres humanos em duas categorias separadas: o desejo, a posse, oamor, o sonho, a aventura; e as palavras que nos comovem: dar, conquistar, unir-se conservarão seus sentidos. Ao contrário, é quando for abolida aescravidão de uma metade da humanidade e todo o sistema de hipocrisia que implica, que a “divisão” da humanidade revelará sua significaçãoautêntica e que o casal humano encontrará sua forma verdadeira.“A relação imediata, natural, necessária do homem com o homem é a relação do homem com a mulher”, disse Marx.483 “Do caráter dessa relaçãodecorre até que ponto o homem se comprometeu como ser genérico, como homem; a relação do homem com a mulher é a relação mais natural do serhumano com o ser humano. Nela se mostra portanto até que ponto o comportamento natural do homem se tornou humano ou até que ponto o serhumano se tornou seu ser natural, até que ponto sua natureza humana se tornou sua natureza.”Não há como dizer melhor. É no seio do mundo que lhe foi concedido que cabe ao homem fazer triunfar o reino da liberdade; para alcançar essa


suprema vitória é, entre outras coisas, necessário que, para além de suas diferenciações naturais, homens e mulheres afirmem sem equívoco suafraternidade.


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Notas 1 Não se publica mais; chamava-se Franchise. 2 O relatório Kinsey, por exemplo, limita-se a definir as características sexuais do homem norte-americano, o que é muito diferente. 3 Essa ideia foi expressa em sua forma mais explícita por E. Levinas em seu ensaio sobre Le Temps et l’Autre. Assim se exprime ele: “Não haveria uma situação em que a alteridade definiria um ser de maneira positiva, como essência? Qual é a alteridade que não entra pura e simplesmente na oposição das duas espécies do mesmo gênero? Penso que o contrário absolutamente contrário, cuja contrariedade não é em nada afetada pela relação que se pode estabelecer entre si e seu correlativo, a contrariedade que permite ao termo permanecer absolutamente outro, é o feminino. O sexo não é uma diferença específica qualquer... A diferença dos sexos não é tampouco uma contradição... Não é também a dualidade de dois termos complementares, porque esses dois termos complementares supõem um todo preexistente... A alteridade realiza-se no feminino. Termo do mesmo quilate, mas de sentido oposto à consciência.” Suponho que Levinas não esquece que a mulher é igualmente consciência para si. Mas é impressionante que adote deliberadamente um ponto de vista de homem sem assinalar a reciprocidade do sujeito e do objeto. Quando escreve que a mulher é mistério, subentende que é mistério para o homem. De modo que essa descrição que se apresenta com intenção objetiva é, na realidade, uma afirmação do privilégio masculino. 4 Ver C. Lévi-Strauss, Les Structures élémentaires de la parenté. Agradeço a Lévi-Strauss a gentileza de ter me comunicado as provas de sua tese que, entre outras, aproveitei amplamente na segunda parte, p. 104-22. 5 Cf. vol. I, segunda parte, §5, p.102-3. 6 Ver vol. I, segunda parte, cap. 5, p. 175-6. 7 Acreditou poder, pelo menos. 8 O artigo de Michel Carrouges sobre esse tema, publicado no número 292 do Cahiers du Sud, é significativo. Escreve com indignação: “Gostaríamos que não houvesse o mito da mulher, mas tão somente uma corte de cozinheiras, de matronas, de meretrizes, de literatas pedantes com funções de prazer e de utilidade.” O que significa que, a seu ver, a mulher não tem existência para si; ele considera apenas sua funçãodentro do mundo masculino. Sua finalidade encontra-se no homem; então, com efeito, pode-se preferir sua “função” poética a qualquer outra. A questão está, precisamente, em saber por que se deveria defini-la em relação ao homem. 9 O homem declara, por exemplo, que não vê sua mulher diminuída pelo fato de não ter profissão: a tarefa do lar é tão nobre quanto, e assim por diante. Entretanto, na primeira disputa, exclama: “Serias totalmente incapaz de ganhar tua vida sem mim.” 10 Descrever esse processo será precisamente o objeto do volume II. 11 Isso constitui o objeto do volume II. 12 Chamam-se gametas as células geradoras cuja fusão constitui o ovo. 13 Chamam-se gonadias as glândulas que produzem os gametas. 14 Hegel, Filosofia da Natureza, 3aparte. 15 Certas galinhas disputam entre si os melhores lugares do galinheiro e estabelecem uma hierarquia a bicadas. Na ausência dos machos há também vacas que assumem pela força o comando do rebanho. 16 “A análise desses fenômenos pôde ser aprofundada nestes últimos anos, comparando o que se passa na mulher com o que se observa nos símios superiores, do gênero Rhesus em particular. É evidentemente mais fácil fazer experiências com estes animais”, escreve Louis Gallien (La Sexualité). 17 “Eu sou, portanto, meu corpo, pelo menos na medida em que tenho dele conhecimento e reciprocamente meu corpo é como um sujeito natural, como um esboço provisório de meu ser total” (Merleau-Ponty, Phénoménologie de la perception).


18 Coloco-me aqui num ponto de vista exclusivamente fisiológico. É evidente que psicologicamente a maternidade pode ser muito útil à mulher, como pode também ser um desastre. 19 Cf. H. Vignes em Traité de Physiologie, t. XI, dirigido por Roger e Binet. 20 É curioso deparar-se com essa teoria em D. H. Lawrence. Em A serpente emplumada, Don Cipriano cuida de que sua amante não alcance nunca o orgasmo: ela deve vibrar de acordo com o homem e não se individualizar no prazer. 21 Discutiremos mais longamente essa questão no volume II, primeira parte, cap. I. 22 Cf. Moisés, seu povo e a religião monoteísta. 23 Baudouin, L’Âme enfantine et la Psychanalyse. 24 Freud, Totem e tabu. 25 Voltaremos mais longamente ao assunto no vol. II, primeira parte, cap. 1. 26 Alice Balint, La Vie intime de l’enfant. 27 Citaram-me o caso de meninos camponeses que se divertiam em concursos de excrementos: quem tivesse as fezes mais volumosas e sólidas gozava de um prestígio que nenhum outro êxito, nos jogos ou na luta, podia compensar. A matéria fecal desempenhava o mesmo papel que o pênis: havia igualmente 28 alienação. 29 Voltaremos a essas ideias no vol. I, segunda parte; indicamo-las tão somente à título metódico. 30 A origem da família. 31 Gastón Bachelard em La terre et les rêveries de la volontérealiza estudo sugestivo do trabalho do ferreiro. Mostra como, pelo malho e a bigorna, o homem afirma-se e separa-se. “O instante do ferreiro é um instante concomitantemente isolado e ampliado; promove o trabalhador ao domínio do tempo pela violência de um instante”, e mais adiante: “O ser forjando aceita o desafio do universo erguido contra ele.” 32 A sociologia não dá mais crédito, hoje, às elucubrações de Baschoffen. 33 “Salve, Terra, mãe dos homens, sê fértil sob o abraço de Deus e enche-te de frutos para uso do homem”, diz um velho encantamento anglo-saxão. 34 Em Uganda, entre os Bhanta das Índias, uma mulher estéril é considerada perigosa para a horticultura. Em Nicobar, pensa-se que a colheita será mais abundante se for feita por uma mulher grávida. Em Bornéo, são as mulheres que selecionam e conservam as sementes. “Dir-se-ia que sentem nelas uma 35 afinidade natural com as sementes, as quais dizem prenhes. Por vezes, as mulheres vão passar a noite nos campos de paddyna época em que germinam” (Hose e MacDougall). Na Índia anterior, mulheres nuas empurram a charrua à noite ao redor do campo. Os índios do Orinoco confiavam às mulheres o cuidado de semear e plantar, porque “assim como as mulheres sabiam conceber e parir, as sementes e raízes que plantavam davam frutos mais abundantes do que quando plantadas pela mão do homem” (Frazer). No mesmo autor encontram-se muitos exemplos análogos. 36 L’océan,La mer, masculino e feminino em numerosas línguas (N.T.). 37 Ver-se-á que essa distinção se perpetuou. As épocas que encaram a mulher como o Outrosão as que se recusam mais asperamente a integrá-la na 38 sociedade a título de ser humano. Hoje ela só se torna outrosemelhante perdendo sua aura mística. Foi a esse equívoco que sempre se apegaram os antifeministas. De bom grado concordam em exaltar a mulher como o Outrode maneira a constituir sua alteridade como absoluta, irredutível e a recusar- lhe acesso ao mitseinhumano. 39 Cf. Lévi-Strauss, As estruturas elementares do parentesco. Ibid. Encontramos, na já citada tese de Lévi-Strauss sob uma forma algo diferente, a confirmação desta ideia. Ressalta de seu estudo que a proibição do incesto não é, em absoluto, o fato primitivo de que decorre a exogamia; mas ela reflete de modo negativo uma vontade positiva de exogamia. Não existe nenhuma razão imediata para que uma mulher seja imprópria ao comércio sexual com os homens de seu clã, mas é socialmente útil que ela faça parte das prestações mediante as quais cada clã, ao invés de se fechar sobre si, estabelece com outro uma relação de reciprocidade: “A exogamia tem um valor menos negativo do que positivo... ela proíbe o casamento endógamo... não, sem dúvida, porque um perigo biológico ameaça o casamento sanguíneo, mas porque um benefício social resulta do casamento exógamo.” É preciso que o grupo não consuma, a título privado, as mulheres que constituem um de seus bens, e sim que faça delas um instrumento de comunicação; se o casamento com uma mulher do clã é proibido, “a única razão está em que ela é o mesmoquando deve (e portanto pode) tornar-se o outro... As mulheres vendidas como escravas podem ser as mesmas anteriormente oferecidas. Só se exige de umas e outras o sinal de alteridadeque é consequência de certa posição dentro de uma estrutura e não de um caráter inato”. Bem entendido, essa condição é necessária mas não suficiente: há civilizações patrilineares que pararam num estágio primitivo; outras, como a dos Maias, degradaram-se. Não há uma hierarquia absoluta entre as sociedades de direito materno e as de direito paterno, mas somente estas evoluíram técnica e ideologicamente.


40 É interessante notar segundo Begouen, Journal de Psychologie, 1934, que na era Aurinhacense se encontram numerosas estatuetas mostrando mulheres com atributos sexuais exageradamente acentuados; são notáveis pelas formas opulentas e pela importância dada à vulva. Demais, encontram-se também nas cavernas vulvas isoladas, grosseiramente desenhadas. Durante o Solutrense e o Madalenense essas efígies desaparecem. No Aurinhacense as estatuetas masculinas são muito raras e não há nunca representação do órgão sexual. No Madalenense encontra-se ainda a figuração de algumas vulvas 41 mas em número reduzido e, ao contrário, descobriu-se grande quantidade de falos. 42 Ver vol. I, primeira parte, cap. 3. 43 Assim como a mulher era assimilada aos sulcos, o falo era comparado à charrua, e inversamente. Em um desenho da época cassita, representando uma charrua, encontram-se desenhados os símbolos do ato reprodutor; mais tarde, a identidade falo-charrua foi muitas vezes reproduzida plasticamente. A palavra Iakem algumas línguas austro-asiáticas designa a um tempo falo e enxada. Existe uma oração assíria a um deus cuja “charrua fecundou a terra”. 44 Tamiat, o mar, é feminino (N.T.). 45 Examinaremos essa evolução no Ocidente. A história da mulher no Oriente, nas Índias, na China foi, com efeito, a de uma longa e imutável escravidão. Da Idade Média aos nossos dias, focalizaremos o estudo na França, que é um caso típico. 46 Esta exposição reproduz a de C. Huart em La Perse antique et la civilisation iranienne, p. 195-196. 47 Em certos casos pelo menos o irmão devedesposar a irmã. 48 Isto é, ligar-se a outrem por contrato. 49 Roma, como a Grécia, tolera oficialmente a prostituição. Havia duas classes de cortesãs: umas viviam fechadas em bordéis, outras, as bonae meretrices, 50 exerciam livremente a profissão; não tinham o direito de se vestir como as matronas, mas tinham certa influência sobre a moda, os costumes, as artes, embora não tenham nunca ocupado uma posição tão elevada como as hetairas de Atenas. 51 Tipo de tutela (N.T.). 52 “As que vinham a Sisteron pela passagem de Peipin deviam, como os judeus, pagar um direito de pedágio de cinco soldos em benefícios das damas de Sainte-Claire” (Bahutaud). Dict. de la conversation, Riffenberg, V0Femmes et filles de folle vie. 53 L’amour ce est pays haineux 54 L’amour ce est haine amoureuse. “A mulher é superior ao homem porque: Materialmente: Adão foi feito de barro e Eva de uma costela de Adão. Pelo local: Adão foi criado fora do paraíso, Eva dentro do paraíso. Pela concepção: A mulher concebeu Deus, o que o homem não pôde fazer. Pelo aparecimento: Cristo depois da morte apareceu a uma mulher, Madalena. Pela exaltação: Uma mulher foi exaltada acima do coro dos anjos, a bem-aventurada Maria...” 55 56 Hélas! une femme que prend La plume 57 Est considérée comme une creature si présomptueuse 58 Qu’elle n’a aucun moyen de racheter son crime! 59 N. Truquin, Mémoires et aventures d’um prolétaire, cit. Segundo E. Dolléans, Histoire du mouvement ouvrier, t. I. “A mais antiga menção conhecida das práticas anticoncepcionais seria um papiro egípcio do segundo milênio antes de nossa era que recomenda a aplicação vaginal de uma estranha mistura composta de excrementos de crocodilo, mel, natro e uma substância viscosa” (P. Ariés, Histoire des populations françaises). Os médicos persas da Idade Média conheciam trinta e uma receitas das quais somente nove se destinavam ao homem. Soranos, na época de Adriano, explica que no momento da ejaculação a mulher que não deseja filhos deve “reter a respiração, puxar um pouco o corpo para trás a fim de que o esperma não possa penetrar no os uteri, levantar-se imediatamente, acocorar-se e provocar espirros”. Em La Précieuse, 1656. “Por volta de 1930 uma firma norte-americana vendia vinte milhões de preservativos em um ano. Quinze manufaturas norte-americanas produziam um milhão e meio por dia” (P. Ariès). Antes de nascer, o filho é uma parcela da mãe, uma espécie de víscera.


60 Voltaremos à discussão desta atitude no segundo volume. Observemos tão somente que os católicos estão longe de seguir a doutrina de santo Agostinho ao pé da letra. O confessor murmura aos ouvidos da jovem noiva, nas vésperas do casamento, que ela pode fazer de tudo com o marido desde que o coito se termine “como deve”; as práticas positivas do controle de natalidade — inclusive o coitus interruptus— são proibidas; mas tem-se o direito de utilizar o calendário estabelecido pelos sexólogos vienenses e perpetrar o ato, cujo único objetivo admitido é o da geração, nos dias em que a concepção é 61 impossível. Há mesmo diretores de consciência que comunicam esse calendário a suas ovelhas. Na realidade, há numerosas “mães cristãs” que só têm dois ou três filhos e, no entanto, não interromperam suas relações conjugais após seu último parto. 62 Olga Michakova, secretária da Comissão Central da Organização da Juventude Comunista, declarou em 1944 numa entrevista: “As mulheres soviéticas devem procurar tornar-se tão atraentes quanto o permitem a natureza e o bom gosto. Depois da guerra, elas deverão vestir-se como mulheres e ter uma atitude feminina... Dir-se-á às jovens que se conduzam e andem como mulheres e por esse motivo adotarão provavelmente saias muito estreitas que as 63 obrigarão a um modo de andar gracioso.” 64 Myrdall, American dilemma. 65 J.-P. Sartre, Réflexions sur la question juive. 66 Cumpre observar que em Paris, sobre cerca de mil estátuas (excetuando as das rainhas que por motivos de ordem puramente arquitetural cercam o Luxemburgo), somente dez foram erguidas a mulheres. Três são consagradas a Joana d’Arc. As demais são de Mme de Ségur, George Sand, Sarah Bernhardt, Mme Boucicaut, baronesa de Hirsch, Maria Deraismes e Rosa Bonheur. 67 Neste ponto também os antifeministas argumentam com um equívoco. Ora, ao considerarem nula a liberdade abstrata, exaltam-se acerca do grande papel concreto que a mulher escravizada pode desempenhar neste mundo: o que ela reclama, portanto? Ora fingem ignorar o fato de que a licença negativa não 68 abre nenhuma possibilidade concreta e censuram as mulheres abstratamente libertas por não terem dado provas de sua capacidade. 69 Na América do Norte, grandes fortunas acabam caindo nas mãos das mulheres; mais jovens do que seus maridos, sobrevivem-lhes e deles herdam. Mas, sendo então idosas, raramente tomam a iniciativa de novos empreendimentos; agem mais como usufrutuárias do que como proprietárias. São os homens, na realidade, que “dispõem” dos capitais. Como quer que seja, essas ricas privilegiadas constituem apenas uma pequena minoria. Na América do Norte, mais ainda do que na Europa, é quase impossível a uma mulher alcançar uma posição elevada como advogada, médica etc. 70 Pelo menos de acordo com a doutrina oficial. 71 Nos países anglo-saxões, a prostituição nunca foi regulamentada. Até 1900, a Common Lawinglesa e norte-americana só a encarava como um delito 72 quando escandalosa e suscetível de provocar desordens. Desde então, a repressão exerceu-se com maior ou menor rigor, com maior ou menor êxito, na Inglaterra e em diversos Estados dos EUA, cujas legislações são, nesse ponto, muito diferentes. Na França, em consequência de longa campanha abolicionista, a lei de 13 de abril de 1946 decretou o fechamento das casas de tolerância e a intensificação da luta contra o proxenetismo: “Considerando que a existência dessas casas é incompatível com os princípios essenciais da dignidade humana e o papel reservado à mulher na sociedade moderna...” 73 Entretanto, a prostituição continua a existir. Não será, evidentemente, com medidas negativas e hipócritas que se poderá modificar a situação. 74 Philipp Wyllie, Generation of Vipers. 75 Voltaremos mais longamente ao assunto no volume II. 76 “... A mulher não é a repetição inútil do homem, mas sim o lugar encantado em que se realiza a aliança viva do homem com a natureza. Se desaparecer, os homens ficarão sós, estrangeiros sem passaporte em um mundo glacial. Ela é a própria terra elevada ao cimo da vida, a terra tornada sensível e alegre; e, sem ela, a terra é para o homem muda e morta”, escreve Michel Carrouges (“Les pouvoirs de la femme”, Cahiers du sud, n0292). 77 Em Etapas no caminho da vida. 78 Mar, no caso, é feminino (N.T.). 79 “É a terra que cantarei, mãe universal de sólidos alicerces, venerável avó que nutre sobre o seu solo tudo o que existe”, diz um hino homérico. Ésquilo também glorifica a terra que “engendra todos os seres, nutre-os e deles recebe de novo o germe fecundo”. 80 “Ao pé da letra, a mulher é Ísis, a natureza fecunda. Ela é o rio e o leito do rio, a raiz e a rosa, a terra e a cerejeira, a cepa e a uva” (M. Carrouges, Artigo citado). Ver, adiante, nosso estudo sobre Montherlant, que encarna de maneira exemplar essa atitude. Deméter é o tipo da mater dolorosa. Mas outras deusas — Ichtar, Ártemis — são cruéis. Cali traz, na mão, um crânio cheio de sangue. “As cabeças de teus filhos mortos recentemente pendem de teu pescoço como um colar... Tua forma é bela como a das nuvens que trazem a chuva, teus pés estão encharcados de sangue”, diz a ela um poeta indiano. Em Metamorfoses da libido. A diferença entre as crenças místicas e míticas e as convicções vividas dos indivíduos é aliás sensível no fato seguinte: Lévi-Strauss revela que “os jovens Nimebago visitam suas amantes aproveitando-se do segredo a que as condena o isolamento prescrito durante as regras”. Um médico do Cher assinalou-me que, na região onde reside, o acesso às culturas de cogumelos é, nas mesmas circunstâncias, proibido às mulheres. Discute-se, ainda hoje, a questão de saber se tais preconceitos têm algum fundamento. O único fato que o dr. Binet apresentava a favor é uma observação de Schink (citada por Vignes). Schink teria visto flores murcharem nas mãos de uma criada indisposta; os bolos com levedura feitos por essa mulher só


teriam crescido três centímetros em vez de cinco, como habitualmente. Como quer que seja, esses fatos são insignificantes e muito vagamente estabelecidos, tendo-se em conta a importância e a universalidade das crenças cuja origem é evidentemente mística. 81 Cf. Lévi-Strauss, As estruturas elementares do parentesco. 82 A lua é fonte de fertilidade; ela se apresenta como “o senhor das mulheres”; acredita-se muitas vezes que possui as mulheres sob a forma de um homem 83 ou de uma serpente. A serpente é uma epifania da lua; muda de pele e regenera-se, é imortal, é uma força que distribui fecundidade e ciência. É quem guarda as fontes sagradas, a árvore da vida, a Fonte da Juventude etc. Mas é também quem tirou a imortalidade do homem. Conta-se que a serpente tem relações sexuais com as mulheres. As tradições persas e rabínicas pretendem que a menstruação é devida às relações da primeira mulher com a serpente. 84 Rabelais chama o sexo masculino “lavrador da Natureza”. Já vimos a origem religiosa e histórica da assimilação falo-arado, mulher-sulco. 85 Daí o poder que se atribui às virgens nos combates; as Valquírias, a Donzela de Orléans, por exemplo. A frase de Semivel citada por Bachelard (La terre et les rêveries de la volonté) é significativa: “Essas montanhas deitadas em círculo ao redor de mim, eu as deixara pouco a pouco de considerar como inimigos a combater, mulheres a espezinhar ou troféus a conquistar, a fim de fornecer a mim mesmo e aos outros um testemunho de meu próprio valor.” A ambivalência montanha-mulher estabelece-se através da ideia comum de “inimigo a combater”, de “troféu”, de “testemunho” de potência. Vemos essa reciprocidade manifestar-se, por exemplo, nos dois poemas de Senghor: Mulher nua, mulher obscura! Fruto maduro de carne dura, sombrios êxtases do vinho negro, boca que torna lírica a minha boca. Savana de puros horizontes, savana que freme sob as carícias ardentes do Vento leste. E: 86 Oh! Congo deitado em teu leito de florestas, rainha sobre a África domada 87 Que os falos dos montes ergam bem alto teu pavilhão 88 Porque és mulher pela minha cabeça, pela minha língua, porque és mulher pelo meu ventre. 89 (N.T.) — Rivière — rio — feminino em francês, dá a imagem do rio-mulher. 90 “Os hotentotes, entre os quais a esteatopigia não está tão desenvolvida nem é tão comum como entre as mulheres boximanes, consideram estética essa 91 deformação, e malaxam as nádegas de suas filhas desde a infância para desenvolvê-las. Do mesmo modo, a engorda artificial das mulheres, verdadeira “ceva” cujos processos essenciais são a imobilidade e a ingestão abundante de alimentos apropriados, do leite em particular, também se pratica em diversas regiões da África. É igualmente praticada pelos citadinos abastados árabes e israelitas da Argélia, da Tunísia e do Marrocos.” (L uquet, Journal de Psychologie, 1934. “Les Vénus dês cavernes.”) No bailado de Prévert, Le Rendez-vous, e no de Cocteau, Le Jeune homme et la mort, por exemplo, a morte é representada sob os traços da jovem amada. Até o fim do século XII, os teólogos — com exceção de santo Anselmo — consideram, segundo a doutrina de santo Agostinho, que o pecado original está implícito na própria lei da geração: “A concupiscência é um vício... a carne humana que nasce dela é uma carne de pecado”, diz santo Agos tinho. E são Tomás: “A união dos sexos, acompanhando-se, desde o pecado, de concupiscência, transmite o pecado original ao filho.” Mostramos que o mito do louva-a-deus não tem nenhum fundamento biológico. Daí o lugar privilegiado que ela ocupa, por exemplo, na obra de Claudel. Ver p. 307-17. Cumpriria citar aqui todo o poema de Michel Leiris intitulado La Mère. Eis alguns trechos característicos: A mãe de preto, roxo, violeta — ladra das noites — é a feiticeira cuja indústria secreta vos põe no mundo, vos embala, vos acarinha, vos deita no esquife, quando não abandona — último brinquedo — a vossas mãos, que o colocam gentilmente no ataúde, o corpo encarquilhado (...) A mãe — estátua cega, fatalidade erguida no centro do santuário inviolado — é a natureza que vos acaricia, o vento que vos incensa, o mundo que por inteiro vos penetra, vos eleva ao céu (transportado sobre múltiplas espiras) e vos apodrece (...)


A mãe — jovem ou velha, bela ou feia, misericordiosa ou obstinada — é a caricatura, o ciumento monstro mulher, o Protótipo decaído — se é que a Ideia (pítia fanada, encarapitada no tripé de sua austera maiúscula) não é senão a paródia dos pensamentos vivos, leves, furta-cores... A mãe — de anca avantajada ou seca, de seio flácido ou duro — é o declínio destinado, desde a origem, a toda mulher, o esfarelamento progressivo da rocha faiscante sob o fluxo dos mênstruos, o lento sepultamento — na areia d o deserto idoso — da caravana luxuriante e carregada de beleza. A mãe — anjo da morte que espia, do universo que enlaça, do amor que a vaga do tempo rejeita — é a concha de insensato desenho (sinal de veneno certo) a ser jogada nos tanques profundos, geradora de círculos para as águas esquecidas. A mãe — poça sombria, eternamente enlutada de tudo e de nós mesmos — é a pestilência vaporosa que se irisa e estoura, inchando bolha por bolha sua grande sombra bestial (vergonha de carne e leite), duro véu que um raio ainda por nascer deveria rasgar. 92 ........................................................................................ Pensará porventura algum dia, uma dessas inocentes porcalhonas, em se arrastar descalça através dos séculos para perdão deste crime: ter-nos 93 engendrado? 94 Douce, pensive et brune et jamais étonnée, Et qui parfois vous baise au front comme un enfant; Ver a nota d a p. 230. Ela é alegórica no vergonhoso poema que Claudel cometeu recentemente e em que chama a Indo-China “esta mulher amarela”; ela é afetiva, ao contrário, nos versos do poeta negro: 95 A alma do negro país onde dormem os antigos 96 vive e fala esta noite na força inquieta ao longo de teus rins côncavos. 97 Crayonné au théâtre. 98 Harmonieuse moi différente d’un songe 99 Femme flexible et ferme aux silence suivis 100 D’actes purs!... 101 Mysté rieuse moi... A filologia é neste ponto um tanto misteriosa; todos os linguistas concordam em re conhecer que a distribuição das palavras concretas em gêneros é puramente acidental. Entretanto, em francês, as entidades são em sua maioria do gênero feminino: beleza, lealdade etc. E, em alemão, em geral as palavras importadas, estrangeiras, outras, são femininas: die Baretc. É inútil dizer que exibem, em verdade, qualidades intelectuais perfeitamente idênticas às dos homens. Os romances policiais norte-americanos — ou escritos à maneira norte-ame-ricana — constituem um exemplo típico. Os heróis de Peter Cheyney, entre outros, andam sempre às voltas com uma mulher extremamente per igosa, indomável para qualquer outro que não eles; após um duelo que se desenrola durante todo o romance, ela é finalmente vencida por Campion ou Callagham e cai-lhe nos braços. Em La Condition humaine. La Condition humaine.


102 “O homem criou a mulher, com quê? Com uma costela de seu deus, de seu ideal.” (Nietzsche, O crepúsculo dos ídolos.) 103 Em In vino veritas. 104 ... J’ai l’art de toutes les écoles J’ai des âmes pour tous les goûts Cueillez la fleur de mes visages Buvez ma bouche et non ma voix Et n’en cherchez pas davantage: Nul n’y vit clair pas même moi. Nos amours ne sont pas égales Pour que je vous tende la main Vous n’êtes que de naïfs mâles Jê suis l’Éternel féminin! Mon But se perd dans les Étoiles! 105 C’est moi qui suis la Grande Isis! 106 Nul ne m’a retroussé mon voile 107 Ne songez qu’à mes oasis… 108 Viu-se que foi na Grécia e na Idade Média o tema de numerosas lamentações. 109 Marcel Schwob expõe poeticamente esse mito no Livre de Monelle. “Falarei a ti das humildes prostitutas e saberás o começo... Sabes, elas dão um grito de compaixão e nos acariciam a mão com sua descarnada mão. Só elas nos compreendem quando somos muito desgraçados; choram conosco e consolam- nos... Nenhuma delas, sabes, pode ficar conosco. Sentir-se-iam demasiado tristes e têm vergonha de ficar quando paramos de chorar, não ousam olhar-nos. Elas nos ensinam a lição que lhes cabe ensinar e se vão. Elas vêm através da chuva e do frio beijar-nos a f ronte e enxugar-nos as lágrimas e as horríveis 110 trevas as recuperam... Não se deve pensar no que puderam fazer dentro das trevas.” 111 O exemplo de Stendhal é claro. 112 Em Sur les femmes. 113 Sur les femmes. Le Songe. Sur les femmes. Les Jeunes filles. Les Jeunes filles.


114 Les Jeunes filles. 115 Este processo é o que Adler considera como a origem clássica das psicoses. O indivíduo dividido entre a “vontade de poder” e um “complexo de inferioridade” estabelece entre si e a sociedade a maior distância possível a fim de não ter que enfrentar a prova do real. Sabe que minaria as pretensões que só pode manter à sombra da má-fé. 116 De Le Songe. 117 Le Songe. 118 De La Petite infante de Castille. 119 Ibid. 120 Les Jeunes filles. 121 Ibid. 122 Ibid. 123 Les Jeunes filles. 124 La Petite infante de Castille. 125 De Le Songe. 126 Les Jeunes filles. 127 Ibid. 128 Ibid. 129 Les Jeunes filles. 130 Ibid. 131 Les Jeunes filles. 132 La Petite infante de Castille. 133 Le Maître de Santiago. 134 Le Solstice de juin. 135 Em Le Solstice de juin. 136 Em Le Solstice de juin. 137 Ibid. 138 L’Équinoxe de septembre. 139 Em Aux fontaines du désir.